O Milagre
Capítulo 11
...17 de Agosto
Elas estavam saindo do estacionam ento na Rue de Lourdes, em Nevers, onde haviam deixado o Peugeot alugado, subindo a ladeira para o Convento Saint-Gildard, o lugar de descanso final de Bernadette e o destino das duas.
No início daquela m anhã, Liz Finch e Am anda Spenser haviam em barcado no vôo da Air-Inter de Lourdes para Paris, alugado o carro e seguido para Nevers, em três horas. Andando agora ao calor do m eio-dia, Am anda com entou:
— Acha m esm o que algum a coisa resultará desta viagem ? Talvez sej a tem po perdido.
Liz deu de om bros.
— Nunca se sabe. Mas, na m inha profissão, não se pode perder um palpite. É preciso escavar e escavar, sem pre na esperança de encontrar um filão de ouro. É claro que não espero encontrar aqui alguém com o o Padre Cay oux. Mas poderem os descobrir algum a coisa... é perfeitam ente possível.
Elas chegaram ao m uro do convento, dois m etros e m eio de altura. Os portões estavam abertos. Um a freira pequena, de m eia-idade, hábito cinza, saia curta, estava parada além dos portões, esperando-as. A testa larga era lisa, a pele cor de pêssego não exibia qualquer ruga, os olhos escuros pareciam inteligentes, o sorriso se m ostrava gentil.
— Srta. Liz Finch? Srta. Am anda Spenser? São as am ericanas que estam os esperando?
— Exatam ente — respondeu Liz.
— Sou a Irm ã Francesca...
— Que fala um inglês perfeito — com entou Liz.
— Assim espero, j á que venho de um pai am ericano e m ãe francesa. Sej am bem -vindas ao Convento Saint-Gildard. — Ela fez um a pausa. — Soube que está escrevendo um a história sobre Santa Bernadette, Srta. Finch, e que a Srta. Spenser é sua assistente. Terem os o m aior prazer em cooperar. Precisará m e dar um a ideia do que desej a saber. O Convento Saint-Gildard, é claro, foi a últim a habitação de Santa Bernadette neste m undo. Quer que eu lhes m ostre o convento prim eiro?
— Boa ideia — disse Liz. — A Srta. Spenser e eu querem os ver tudo o que se relacionou com Bernadette. Depois, gostaríam os de passar algum tem po a fazer um as perguntas.
— Espero ter as respostas para todas — disse a Irm ã Francesca. — Mas vam os com eçar pela visita a nossas instalações.
A freira conduziu-as por um canteiro com prido de flores cor de lavanda, até que dim inuiu os passos e anunciou:
— La Grotte de Lourdes.
Para surpresa de Am anda, elas estavam paradas na frente de um a réplica da gruta original em Lourdes, m enor do que a autêntica, m as tam bém não chegando a ser um a m iniatura, criada num a encosta que acom panhava a ladeira.
— Para as m issas ao ar livre — explicou a Irm ã Francesca. Am anda percebeu então que, por trás delas, m as de frente para a gruta, havia fileiras de bancos para peregrinos; naquele m om ento m uitos deixavam os bancos e saíam por um a porta lateral do m uro.
— São cerca de 400 peregrinos alem ães, procedentes de Colônia e Dortm und — inform ou a freira. — Acabaram o serviço religioso e agora atravessarão o Boulevard Victor Hugo para o nosso Abri du Pèlerin... nosso abrigo para peregrinos ou dorm itório para visitantes. O grupo ficará aqui e depois seguirá para Lourdes.
Am anda estava outra vez exam inando a réplica da gruta. No lado direito, superior, dentro de um nicho, estava um a im agem azul e branca da Virgem Maria.
— A placa por baixo da im agem inform a que o pequeno bloco de rocha em que foi m ontada é um fragm ento autêntico da gruta de Massabielle, em Lourdes — disse a Irm ã Francesca. — Mas m ostrarei agora a igrej a do nosso convento e a própria Santa Bernadette.
Ela se afastara de réplica da gruta e se encam inhava para um pátio, fazendo sinal para que Liz e Am anda a acom panhassem . Passaram por um a im agem alta de m árm ore branco da Virgem Maria, entrando na igrej a por um a porta lateral.
Lá dentro, descendo pela nave central, entre os bancos, Irm ã Francesca recom eçou a falar, em voz baixa:
— Esta igrej a foi construída em 1855. Foi reform ada duas vezes, a últim a em 1972. O altar branco lá na frente é de concreto.
Exceto pelo m odernism o na decoração interior da igrej a, Am anda experim entou a sensação que j á a visitara antes. Estivera pelo m enos em 100 igrej as da Europa e eram todas invariavelm ente iguais. Por cim a do altar, o teto em arcada e as j anelas m ulticoloridas. Por trás do altar, um crucifixo, um Jesus de bronze num a cruz de m adeira clara. Nos seus dois lados, as fileiras de bancos de carvalho e nogueira, um punhado de fiéis, em prece silenciosa ou m editação. Liz e Am anda alcançaram os dois degraus que subiam para o altar. Pararam ali, j unto com a freira que as guiava. A voz da Irm ã Francesca tornou-se ainda m ais baixa:
— Depois das aparições, Bernadette sentiu-se um pouco desorientada, sem saber o que fazer consigo m esm a. Era verdade que finalm ente frequentava a escola e servia com o babá, a fira de ganhar algum dinheiro para aj udar os pais. Mas era o alvo de um a atenção constante, tanto dos vizinhos com o do fluxo interm inável de visitantes que chegavam a Lourdes. Não conseguia ficar a sós. Ficava diariam ente exposta a intrusos, com suas perguntas. Por volta de 1863, seus m entores decidiram que ela precisava de um a vocação e sugeriram que entrasse para algum a ordem religiosa, com o um a freira.
— Talvez as pessoas da Igrej a quisessem apenas afastá-la da atenção pública — disse Liz, com o provocação. — A esta altura, ela j á se tornava um m ito, em bora às vezes não se com portasse com o tal. Soube que ela tinha um rasgo de obstinação e detestava a disciplina, gostava de brincadeiras e possuía um grande interesse por roupas alegres. Talvez os hom ens da Igrej a quisessem afastá-la das ruas e do cam inho. Para eles, provavelm ente um convento parecia o lugar m ais conveniente para interná-la.
Naquele cenário, a avaliação de Liz parecia agressiva dem ais; Am anda se perguntou com o a freira reagiria. Mas a Irm ã Francesca reagiu m uito bem , com entando:
— Pode haver algum fundo de verdade nisso. Mas, na verdade, m uitos conventos consideravam -na um prêm io e queriam a sua presença. Havia, no entanto, algum as reservas, porque a saúde de Bernadette era precária e sua fam a podia prej udicar as rotinas. As carm elitas e as bernardinas a queriam . Ela rej eitou as segundas, porque não gostava de suas toucas desgraciosas. E com entou, quando se decidiu pela ordem em Nevers: "Vou para lá porque não tentaram m e atrair." O prefeito de Lourdes queria que ela se tornasse um a costureira, m as Santa Bernadette disselhe que preferia ser um a freira. A 4 de j ulho de 1866, aos 22 anos de idade, ela deixou Lourdes para sem pre. Em barcou num trem , a sua prim eira e últim a viagem de trem , chegou a Nevers e entrou em nossa ordem . Perm aneceu aqui até sua m orte, a 16 de abril de 1879, aos 35 anos de idade. Foi elevada à santidade em 1933. — A freira fez um a pausa, sorriu e acrescentou: — Podem os agora dar um a olhada na própria Santa Bernadette. Ela está na capela, perto do altar.
Seguindo atrás das outras duas, Am anda não podia im aginar o que esperar.
Estavam de frente para a capela, um a alcova lim itada, estreita, quase árida em sua sim plicidade. O teto era um a arcada gótica, as j anelas altas, de um azul escuro, as três paredes de pedras cinzentas. O centro da capela estava ocupado por um caixão grande, de ouro e vidro, dentro do qual se encontrava o corpo de um a m ulher, o alvo de sua busca.
— Bernadette — sussurrou a freira. Inexplicavelm ente, Am anda descobriu-se atraída para m ais perto do caixão. Ao se aproxim ar da grade baixa que protegia a capela, sua em oção fora com bativa, com o se estivesse prestes a enfrentar a outra m ulher, a que se interpunha entre Ken e ela, a que atrapalhava a vida com um planej ada. Mas agora, precedendo Liz e a Irm ã Francesca para olhar atentam ente o caixão, Am anda descobriu que sua ira se dissipara. Estava envolta por um senso de respeito pelo que aquela m ulher, um pouco m ais velha do que ela, um a cam ponesa ignorante, conseguira, as convicções inabaláveis que m antivera, a força indôm ita de sua fé.
O caixão era adornado com ouro, os lados de vidro, repousando sobre um a base de carvalho m aciço. Lá dentro, com o hábito preto e branco de sua ordem , os olhos eternam ente fechados, as m ãos cruzadas sobre o peito, com o em oração, estava Bernadette. Parecia adorm ecida, em paz, depois de um dia longo e cansativo.
— É m esm o Bernadette? — perguntou Am anda, baixinho, quando Liz e a Irm ã Francesca chegaram a seu lado.
— É, sim ... a abençoada Santa Bernadette... isto é, com exceção do rosto e das m ãos.
— Com exceção do rosto e das m ãos? — repetiu Am anda, surpresa.
— São reproduções em cera de seu rosto e m ãos, aj ustados depois da terceira e últim a exum ação.
— Não é de adm irar que ela pareça tão suave e im aculada — com entou Liz.
— É m elhor eu explicar — disse a Irm ã Francesca. — A condição física de Bernadette era bastante precária por ocasião de sua m orte... tinha feridas nas costas de passar tanto tem po na cam a, um j oelho inchado da tuberculose, os pulm ões destruídos... e j ustam ente por isso foi ainda m ais extraordinário o que aconteceu em seguida. Seu cadáver ficou exposto por três dias depois da m orte. E depois foi colocado num caixão de chum bo, aj eitado dentro de um caixão de carvalho, enterrado sob um a arcada num a capela no j ardim . Trinta anos depois do enterro, quando se iniciavam os prim eiros esforços de um a com issão episcopal para elevar Bernadette a santa, o caixão foi aberto. Isso aconteceu em 1909.
— Por quê? — perguntou Liz.
— Para se observar o seu estado — explicou a freira. — Quase todos os cadáveres com uns sofrem a putrefação. Mas um a tradição da Igrej a é a de que o corpo de um a pessoa candidata à canonização escaparia à deterioração, sendo encontrado em boas condições. Pois quando se abriu o caixão o corpo de Bernadette foi encontrado em excelente estado. O relatório do m édico que efetuou o exam e dizia o seguinte: "A cabeça estava inclinada para a esquerda. O rosto se achava branco, m eio fosco. A pele aderia aos m úsculos e os m úsculos aderiam aos ossos. As órbitas dos olhos estavam cobertas pelas pálpebras. As sobrancelhas se encontravam intactas nas arcadas por cim a dos olhos. As pestanas da pálpebra direita aderiam à pele. O nariz estava dilatado e encarquilhado. A boca estava ligeiram ente entreaberta e se podia constatar que os dentes continuavam no lugar. As m ãos, cruzadas sobre o peito, se achavam perfeitam ente preservadas, assim com o as unhas. As m ãos ainda seguravam um rosário enferruj ado."
— O que aconteceu em seguida? — indagou Liz.
— O corpo de Bernadette foi lavado, vestido, enterrado de novo. Houve m ais duas exum ações, à m edida que a santidade se aproxim ava, um a em 1919 e a últim a em 1925. O corpo foi encontrado bem preservado, um bom sinal de santidade. Mas depois de tantas exposições ao ar e à luz, o corpo com eçou a ficar afetado e escurecer. Por isso, tiraram -se im pressões do rosto e das m ãos de Bernadette e se fizeram em Paris um a m áscara de cera para o rosto e capas de cera para as m ãos. Adm ito que o artista tom ou algum as pequenas liberdades... na m áscara do rosto ele esticou um pouco o nariz de Bernadette, depenou ligeiram ente as sobrancelhas. E acrescentou verniz às unhas nas capas para as m ãos. A m áscara foi aj ustada, o corpo envolto por ataduras e vestido com um hábito novo. Bernadette estava pronta para ser m ostrada ao m undo. Ela tem repousado aqui desde então. Se há m ais algum a coisa que desej em saber...
— Tenho algum as perguntas — declarou Liz, firm em ente. Um hom em com um a braçadeira entrou na capela nesse
m om ento, procedente da área do altar e levantou um a fotografia sobre o caixão. Retirou-se poucos segundos depois.
— O que foi isso? — indagou Am anda.
— Provavelm ente um a súplica — respondeu a Irm ã Francesca. — Algum peregrino trouxe a fotografia de um ente am ado que está doente, esperando obter um a cura. Um guia concordou em trazê-la para j unto do caixão, a fim de ser abençoada, de certa form a, pela proxim idade de Bernadette. A freira fez um a pausa, olhando para Liz e depois indagando: — Tem algum a pergunta a fazer?
— Tenho, sim .
— Muito bem . Acho que será m elhor eu tentar respondê-las fora da igrej a. Não causará qualquer incôm odo. Vam os voltar ao pátio.
No m om ento em que deixaram a igrej a e retornaram à luz do sol, parando j unto da im agem da Virgem Maria, Am anda tinha um a pergunta sua a fazer, antes de Liz iniciar o seu prom etido interrogatório.
— Eu gostaria de saber o que Bernadette fez nos 13 anos que passou aqui em Saint-Gildard. Foi tudo oração?
— Claro que não — respondeu a Irm ã Francesca. — É verdade que as freiras de hoj e... elas residem nos andares superiores do convento e se m antêm isoladas... devotam a m aior parte de seu tem po a orações e tarefas dom ésticas. Um as poucas entre nós, é claro, trabalham com os turistas. Mas Bernadette tinha m uitas coisas a fazer em seu tem po. Seu trabalho principal era na enferm aria, servindo com o auxiliar. Ela adorava cuidar dos pacientes. Naturalm ente, ela nunca pôde escapar inteiram ente à atenção pública. Sua fam a continuou a aum entar enquanto estava viva e visitantes notáveis apareceram aqui. Às vezes biógrafos vinham conversar com ela. E não se esqueça de que ela esteve frequentem ente doente e acam ada, à beira da m orte.
Im paciente em fazer logo as suas perguntas, Liz aproxim ou-se da freira, num a atitude agressiva.
— Soube que Bernadette andou bastante ocupada no convento a brigar com a sua superiora, a responsável pelas noviças, Madre Marie-Thérèse Vauzou. Isso. é verdade?
— Não exatam ente brigar — respondeu a inabalável Irm ã Francesca. — Afinal, Madre Vauzou era a superiora de Bernadette. E Bernadette nunca se atreveria a brigar com ela.
— Não vam os tergiversar — insistiu Liz. — Eu soube de boa fonte que as duas entraram em conflito desde o prim eiro dia.
— Eu poria de outra form a — disse a Irm ã Francesca, ainda serena. — Perm itam e ser rigorosam ente obj etiva, baseada no que sabem os. A princípio, Madre Vauzou acolheu Bernadette m uito bem , com o "a criança privilegiada da Virgem Maria". Mas, depois, ela passou a ter restrições à sua m ais recente noviça. Por um lado, ela nunca acreditou inteiram ente que Bernadette tivesse visto realm ente as aparições da Virgem . Além disso, não gostava do culto à Virgem Maria que estava crescendo, j á que suas devoções pessoais se baseavam na im portância total de Jesus Cristo. Quanto à história de que a superiora das noviças tratava Bernadette com extrem o rigor, obrigando-a até a beij ar o chão, isso era com um naquele tem po. A tarefa da superiora era ensinar hum ildade a todas as noviças e fazê-las se entregarem à penitência.
Liz insistiu:
— Soube que Bernadette tinha m edo de Madre Vauzou.
— Algum as testem unhas dizem que isso é verdade. Mas Madre Vauzou tinha m otivos para tratar Bernadette um pouco severam ente. Preocupava-se com o que alguns cham am de m ito de Bernadette, que o interesse intenso pela noviça pudesse subir-lhe à cabeça, que ela ficasse m uito vaidosa e orgulhosa para se tornar um a freira perfeita. E Madre Vauzou tam bém achava que Bernadette carecia de franqueza, chegando a descrever sua noviça com o "um a pessoa teim osa e desconfiada". Acim a de tudo, repito, Madre Vauzou podia ter dúvidas persistentes de que Bernadette tivesse m esm o visto a Virgem Maria. Não podia im aginar a Virgem se apresentando a um a garota tão sim ples, de origem tão hum ilde. Madre Vauzou com entou a respeito de Bernadette: "Ela não passava de um a pequena cam ponesa. Se a Virgem Santa queria aparecer a alguém neste m undo, por que escolher um a cam ponesa vulgar e analfabeta, ao invés de algum a freira virtuosa e instruída?" Em outra ocasião, Madre Vauzou disse: "Não posso com preender por que a Virgem Santa se revelaria a Bernadette. Há m uitas outras alm as m ais elevadas e sublim es. É realm ente dem ais." Quando se com eçou a falar na apresentação da causa de Bernadette, o assunto ficou parado durante o período em que Madre Vauzou foi prom ovida a superiora-geral e m encionou a possibilidade de santidade, Madre Vauzou suplicou-lhe: "Espere até eu estar m orta."
— Isso não foi suficiente para arrefecer a legenda de Bernadette? — indagou Liz.
— Não, não foi. Porque Madre Vauzou, em seu leito de m orte, confessou que suas dúvidas eram criadas por sua própria fraqueza e não pela de Bernadette. As últim as palavras de Madre Vauzou indicaram que ela capitulara a Bernadette e à realidade de Lourdes. Foram as seguintes: "Nossa Senhora de Lourdes, protej a m inha agonia de m orte."
A própria Liz pareceu capitular diante desse ponto.
— Muito bem , j á chega disso. Mas há m ais um a coisa que devo perguntar. Refere-se à política da Igrej a, o desej o de alguns de tirar Bernadette de Lourdes e escondê-la no relativo anonim ato de Nevers. Sabia que alguém de alta posição social queria casar com Bernadette, antes que ela se tornasse um a freira?
— Sabia, sim — respondeu a Irm ã Francesca.
— Pois eu gostaria de saber por que a Igrej a não perm itiu que o pretendente pedisse Bernadette em casam ento e nem m esm o disse a ela que alguém desej ava a sua m ão. Não foi porque a Igrej a não queria que ela perm anecesse em exposição pública e se tornasse tão norm al quanto qualquer outra m oça, preferindo guardá-la fora de vista, a fim de m anter o seu m ito e reforçar a fam a do santuário em Lourdes?
— Não, não foi bem assim . Está inteiram ente enganada.
— Conte-m e então o que realm ente aconteceu — insistiu Liz.
— O correto é o seguinte. Um j ovem nobre e estudante de m edicina em Nantes, Raoul de Tricqueville, escreveu para Monsenhor Laurence, o Bispo de Tarbes e Lourdes, em m arço de 1866, declarando que a única coisa que queria neste m undo era casar com Bernadette. Pedia que o bispo interferisse em seu favor. O bispo .,. respondeu um tanto asperam ente que o casam ento para Bernadette estava em oposição ao que "a Santa Virgem queria". Bernadette veio para Nevers pouco depois e o rapaz insistiu. Escreveu desta vez para o Bispo Forcade, indagando se podia visitar Bernadette e pedi-la em casam ento pessoalm ente. "Deixe-m e pedir pessoalm ente para ela casar com igo. Se Bernadette for com o dizem , ela m e recusará; se aceitar, saberão que não era realm ente propensa para a vocação que escolheu." O bispo respondeu que Bernadette era perfeitam ente propensa para a sua vocação e não tencionava perturbar a sua paz de espírito. E não se deu ao trabalho de falar a Bernadette sobre o rapaz e o pedido de casam ento. Não há qualquer prova de que qualquer das recusas tenha sido m otivada por um a tram a da Igrej a ou um a questão de política. Os superiores de Bernadette estavam apenas cuidando dos seus m elhores interesses.
— Você é quem diz... — com entou Liz, som briam ente.
— Os fatos é que dizem — declarou a Irm ã Francesca, serenam ente. — E agora é m elhor voltar aos m eus deveres. Voltarão de carro a Lourdes?
— Vam os até Paris, a fim de pegar o últim o vôo desta noite para Lourdes — respondeu Liz.
— Deixem -m e acom panhá-las até o portão — disse a freira. Elas seguiram em silêncio e j á estavam prestes a se despedir
quando Am anda disse:
— Irm ã, só m ais um a coisa, se não se incom oda.
— Pode falar, por favor.
— É sobre o diário de Bernadette. Tenho ouvido todas as pessoas se referirem a Bernadette com o analfabeta, incapaz de escrever. Com o então ela podia m anter um diário?
A Irm ã Francesca balançou a cabeça.
— Ela era de fato analfabeta e incapaz de escrever por ocasião das aparições. Depois disso, preparando-se para a prim eira com unhão, Bernadette foi à escola, estudou no Hospice em Lourdes, aprendeu a escrever m uito bem . E escreveu diversos relatos sobre as aparições. Tam bém escreveu num erosas cartas, inclusive um a para o / papa em Rom a. Escrevia sem qualquer dificuldade, em bora não em francês inicialm ente, m as sim na sua língua regional. Só m ais tarde é que aprendeu francês.
— Mas esse diário, o que foi encontrado recentem ente... li que foi escrito por ela aqui m esm o, em Nevers, neste convento.
— Foi o que tam bém m e disseram — confirm ou a Irm ã Francesca. — Ela m anteve o diário até o fim , registrando tudo o que podia se lem brar de sua j ovem vida antes das aparições e m ais detalhes que podia recordar de suas visões na gruta. Antes de sua m orte, ela enviou o diário a um a pessoa am iga ou um parente, com o um m em ento.
— E com o foi descoberto depois de tantos anos? E onde?
— Sei apenas que foi localizado em Bartrès e que alguém de Lourdes adquiriu-o para a Igrej a.
— Adquiriu de quem em Bartrès? — indagou Am anda.
— Não sei. — Pela prim eira vez, a freira parecia evasiva. — Pode perguntar ao Padre Ruland, quando voltar a Lourdes.
— E o que pretendo — disse Am anda. — Sej a com o for, obrigada por tudo.
— Deus as acom panhe — m urm urou a Irm ã Francesca, retirando-se em seguida.
Liz ficou olhando para a freira a se afastar, com um a expressão furiosa. E m urm urou:
— Obrigada por nada, irm ã. Mas que coisa! A linha do partido pura e sim ples.
As duas com eçaram a andar. Am anda refletiu:
— Não sei, não... Pode ter havido algum a coisa. Não posso deixar de pensar naquele diário.
— Pode estar certa de que é autêntico — disse Liz, m al hum orada. — O papa nunca anunciaria o seu conteúdo se não tivesse certeza absoluta de que era genuíno.
— Não é nisso que estou pensando, m as no resto do conteúdo. A Igrej a anunciou apenas a parte sobre as aparições, especialm ente aquela em que a Virgem Maria transm itiu seu segredo a Bernadette. Mas ouviu a Irm ã Francesca. Havia m ais do que isso no diário. Havia um a porção de coisas que Bernadette registrou sobre o início de sua vida.
— E daí? Onde isso a levará? Esqueça. Chegam os a um beco sem saída. Deve adm itir. Nós perdem os. Eu perdi com m eu chefe, Trask. E você perdeu com seu nam orado, Ken. Estam os liquidadas.
Am anda sacudiu a cabeça, lentam ente.
— Não sei, não. Ainda não vou desistir. Ao contrário, pretendo continuar.
— Investigando o quê?
— Aquele diário. Quero saber sobre o diário que trouxe todos nós a Lourdes.
— Pode estar certa de que não conseguirá coisa algum a — disse Liz.
— É o que verem os.
Edith Moore com pareceu pontualm ente ao segundo encontro do dia no Serviço Médico de Lourdes. Ela se retirara em m enos de m eia hora e o Dr. Paul Kleinberg m al a vira. Agradecera-lhe por ter voltado, pedindo desculpas pelo incôm odo de um a nova radiografia e depois a encam inhando a Esther Levinson para cuidar do resto.
Agora, Kleinberg andava de um lado para outro da sala de exam e, irrequieto, esperando que Esther pendurasse a radiografia e acendesse a luz da caixa. Era tudo m ecânico agora, tudo rotina, ele acabaria logo com aquilo e estaria de volta a Paris'ainda naquela noite.
— Já está pronta — anunciou Esther, acendendo a luz da caixa.
Ela afastou-se para o lado, enquanto o Dr. Kleinberg se adiantava para exam inar a radiografia, m urm urando, distraidam ente:
— Não vai levar m ais do que um m inuto. Mas levou m ais de um m inuto.
Foi só 10 m inutos depois que Kleinberg se afastou da radiografia, foi até a cadeira e se sentou. Por um m om ento, ficou im erso em pensam entos. Quando tornou a erguer os olhos, deparou com a expressão preocupada de sua enferm eira.
— Não saiu direito outra vez? — perguntou Esther.
— Saiu perfeita.
— Então pode confirm ar o m ilagre?
— Não, não posso.
— Com o? — Esther se adiantou, surpresa. — O que está dizendo?
Kleinberg sustentou o olhar aturdido da enferm eira, sacudindo a cabeça.
— Ela não é um a m ulher m aravilhosa. Provavelm ente nunca foi. O sarcom a está lá, bem visível. O tum or voltou, Esther... algo que nunca vi acontecer antes... ou nunca desapareceu. O que quer que tenha ocorrido, a Sra. Moore não está curada.
O aprum o da enferm eira se dissipara inteiram ente. .
— Mas doutor... isso... isso não pode ser...
— É um fato, Esther.
— Aquelas outras radiografias... as anteriores, as recentes não m ostram o sarcom a. —Ela estava quase suplicando pela Sra. Moore.
— E as biopsias negativas... o que representam ? Ela deve ter ficado curada.
Kleinberg estava sacudindo a cabeça outra vez.
— Não posso explicar isso. Não faz sentido.
— A m enos que os outros m édicos... em sua dedicação ou qualquer outra coisa... eles não poderiam ter adulterado as radiografias anteriores? — Um a pausa e ela se apressou em corrigir. — Mas isso tam bém não explicaria, porque a Sra. Moore deixou de ser um a inválida e voltou a ser um a pessoa saudável.
— Não posso contestar isso — concordou Kleinberg. — Mas as radiografias não m entem , Esther. Ela está sofrendo de câncer outra vez... ou continua a sofrer. Muito em breve não estará m ais funcionando perfeitam ente. A condição certam ente vai se agravar, deteriorar. Não houve um a cura m ilagrosa. Nossa m ulher do m ilagre sim plesm ente não existe.
— Isso é terrível, doutor. Terá de contar ao Dr. Berry er.
— Não posso. — Kleinberg prontam ente em endou sua resposta. — Ainda não. — Um a pausa e ele acrescentou: — Esse diagnóstico pode não ser aceitável... de um a pessoa da m inha fé. Todos pensariam que um descrente está tentando obstruí-los.
Os dedos de Esther tocaram na radiografia m ais próxim a.
— A radiografia tam bém é um a incrédula. E é im placável. Conta a verdade.
— Não para todos e não tão facilm ente — explicou Kleinberg.
— Um clínico geral pode ignorar o que um especialista em sarcom a é capaz de ver.
— E não pode haver erro sobre o que vê?
— Absolutam ente nenhum , Esther. Nossa m ulher m ilagrosa está com um grave problem a.
— Não pode deixar a coisa com o está.
— E não vou deixar. Mas não tenho coragem de dar a notícia a Edith Moore diretam ente. Acho que o m arido deve fazê-lo e depois eu falarei. Se pedir à secretária de Berry er para localizar o Sr. Moore... Reggie Moore... avise-o que eu desej o lhe falar o m ais depressa possível.
No período de 10 m inutos em que Esther se ausentou, Kleinberg levantou-se e estudou as radiografias m ais um a vez. Ao final, seu diagnóstico não se alterara. A m ulher britânica estava de fato com um grave problem a. Ele tentou pensar no que poderia ser feito. Ela estava condenada, a m enos que se efetuasse algum esforço para rem over o sarcom a. É claro que só existia um a possibilidade. Cirurgia. Só que a cirurgia norm al não prom etia m uita esperança num caso assim . Mas ele estava pensando em seu colega. Dr. Maurice Duval, o outro grande especialista em sarcom a, que vinha fazendo experiências com um novo tipo de cirurgia, envolvendo a engenharia genética. A j ulgar pelos recentes relatórios científicos sobre o assunto que Kleinberg estudara, o Dr. Duval parecia prestes a evoluir das experiências em anim ais para a cirurgia em seres hum anos.
Os pensam entos de Kleinberg foram interrom pidos pelo retorno de sua enferm eira.
— Sinto m uito, doutor, m as não conseguim os localizar o Sr. Moore em parte algum a. Descobrim os apenas que talvez ele e a esposa estarão num restaurante que possuem em Lourdes para o j antar, por volta das oito horas.
— Nesse caso, terem os de j antar lá tam bém .
— Se o Sr. Moore estiver com a esposa, o que dirá a ela?
— Terei de m e esquivar a lhe dar qualquer resposta obj etiva, até com unicar ao m arido. Faça a reserva para nós dois, Esther. Não será um j antar dos m ais digeríveis, m as m esm o assim faça a reserva, para 8:15.
Era um a noite quente em Lourdes e m uitos peregrinos se encontravam a cam inho do j antar, alguns apressadam ente, a fim de com er depressa e participar da procissão noturna do dom ínio. Entre os que percorriam a Avenue Bernadette Soubirous m ais devagar, talvez com hesitação, estavam o Dr. Kleinberg, num terno claro de verão bem passado, e sua enferm eira, Esther Levinson, usando um vestido listrado de algodão. Kleinberg observava os núm eros da rua enquanto passavam .
— Devem os estar quase chegando — disse ele. — Provavelm ente fica na outra esquina, depois do cruzam ento.
Atravessaram a rua. Kleinberg procurou o endereço e verificou a hora.
— Aqui está e chegam os pontualm ente. Encam inhando-se para a entrada, ele parou abruptam ente,
olhando para o cartaz por cim a. Leu em voz alta:
— Restaurante do Milagre de Madam e. Moore. — Kleinberg suspirou. — Eles terão de m udar apenas o nom e... não a cozinha.
O restaurante era am plo, luxuoso, repleto de fregueses a conversarem . O maitre, vestido form alm ente, ouviu o nom e de Kleinberg, consultou a lista de reservas e im ediatam ente levou os dois para um a m esa vaga j unto da parede no outro lado.
Depois de pedir os drinques, Kleinberg recostou-se na cadeira e tentou avaliar os ocupantes do restaurante. Divisou im ediatam ente a m esa principal, com Edith Moore a com andá-la. Ela era a presença dom inante, falando anim adam ente aos outros e com um a boa disposição óbvia. Exceto por duas cadeiras vazias, a m esa estay a ocupada por convidados que escutavam atentam ente.
Alguém , um a m ulher, surgiu de repente do bar adj acente, bloqueando a sua vista. Kleinberg levantou os olhos. Depois de um instante de dúvida, reconheceu a m ulher, no instante m esm o em que ela se identificava:
— Michelle Dem aillot, sua am ável assessora de im prensa. Com o vai Dr. Kleinberg... Srta. Levinson?
— Muito bem , obrigado. E com o tem passado, Srta. Dem aillot?
Kleinberg ergueu-se ligeiram ente enquanto falava e depois tornou a sentar-se.
— Fico contente que tenha encontrado tem po para vir ao nosso restaurante predileto — com entou Michelle.
— É de fato m uito sim pático — disse Kleinberg.
— Tenho certeza de que andou m uito ocupado no Serviço Médico. Posso presum ir que terá notícias para nós a qualquer m om ento?
— A qualquer m om ento — confirm ou Kleinberg, contrafeito.
— Deve saber, é claro, que sua paciente Edith Moore está aqui. O m arido dela é um dos proprietários.
— Já a vi — disse Kleinberg. — Por falar nisso, o Sr. Moore; está também à m esa?
Michelle recuou, virando-se parcialm ente para a m esa.
— Está, sim . À esquerda de Edith.
Kleinberg estreitou os olhos, focalizando o inglês de rosto carnudo e corado, num casaco esporte axadrezado, ao lado da Sra. Moore. Para Kleinberg, Reggie Moore parecia ser um tipo am ável e talvez não fosse difícil conversar com ele depois do j antar.
— Estou vendo. Sabe por acaso quem são os outros à m esa?
— Mais cedo ou m ais tarde, eu acabo conhecendo a todos — disse Michelle. — Os outros são Ken Clay ton, um advogado am ericano, a cadeira vazia provavelm ente está reservada para sua esposa, Am anda; depois vem o Sr. Talley, um professor am ericano, que vem aqui todas as noites. Ao lado estão os Marceaus, um casal francês, donos de um vinhedo. A linda m oça é Natale Rinaldi, italiana. A pobre coitada é cega. Com ela está um am igo... não sei o seu nom e... m as obviam ente é espanhol ou latino-am ericano.
Michelle foi m om entaneam ente distraída pela chegada de duas retardatárias, passando pela porta da frente naquele m om ento.
— Lá estão as outras duas que com pletarão a m esa. Am anda Clay ton, de quem j á falei. E sua com panheira é um a m ulher com quem converso todos os dias. Liz Finch, um a correspondente am ericana em Paris. Sei que ela foi a Nevers esta m anhã.
— Por que Nevers? — indagou Kleinberg. — Fica bastante longe daqui.
— A Sita. Finch está fazendo algum as reportagens sobre os acontecim entos desta sem ana. Provavelm ente queria dar um a olhada em Bernadette. Nossa santa se encontra exposta, visível a todos,, num a capela em Nevers.
— Mas quem poderia ir tão longe só para ver um cadáver? — com entou Kleinberg.
Michelle deu de om bros.
— Os am ericanos são sem pre assim . Querem ver tudo. Vej o que j á pediram os drinques e estão com os cardápios. Não vou ocupá-los por m ais tem po. Bon appétit. E aguardam os a sua confirm ação, Dr. Kleinberg, com a respiração suspensa, com o dizem nas novelas.
O Dr. Kleinberg observou Michelle voltar ao bar e depois tornou a concentrar sua atenção na m esa da Sra. Moore. As viaj antes de volta de Nevers estavam sendo cum prim entadas pelos outros. A atraente Am anda, beij ou o m arido advogado, Sr. Clay ton, rapidam ente apresentou sua com panheira, a correspondente am ericana um tanto desgraciosa, Liz Finch, às outras pessoas à m esa.
Foi nesse m om ento que Kleinberg percebeu que Edith Moore, num instante de folga e correndo os olhos pelo restaurante, notara a sua presença e acenava para atrair-lhe a atenção.
Kleinberg forçou um sorriso de saudação.
Num m ovim ento de corpo, silencioso, Edith Moore transm itiu um a pergunta. Era perfeitam ente clara: j á tem algum a notícia?
Kleinberg procurou responder. Com exagero, ele m exeu a boca sem fazer barulho: em breve.
E desviou os olhos, sim ulando acom panhar Esther na consulta ao cardápio que ela abrira. Ele soltou um grunhido.
— Subitam ente, parece um pouco abafado aqui dentro. —Ele indicou o cardápio. — Vam os pedir. Quero falar com Reggie Moore e acabar logo com isso.
— Está certo. Este cardápio é incrível, doutor. Há duas séries de refeições, a preços fixos. A m ais barata j á é bastante cara. Mas a outra, supostam ente de luxo, é um absurdo total... porque de sobrem esa, por assim dizer, há a garantia da oportunidade de ser pessoalm ente apresentado à m ais recente m ulher m ilagrosa de Lourdes... ou sej a, Edith Moore. —Esther fez um a pausa, torcendo o nariz. — É um a exploração clam orosa. Eu diria que por parte do m arido. — Ela fitou Kleinberg nos olhos, com preensiva. — Receio que isso não lhe tornará as coisas m ais fáceis.
— Eu sabia que este seria um j antar indigesto — m urm urou Kleinberg. — Mas quem diz que tenho de com er? Muito bem , escolha logo a refeição que devem os pedir e vam os acabar com isso.
Um a hora, quando se achavam quase ao final da refeição, tom ando o café, Kleinberg percebeu que alguém se levantava à m esa de Edith Moore. Constatou que era Reggie Moore, aparentem ente disposto a fazer a ronda de outras m esas e trocar algum as palavras com fregueses que conhecia. Kleinberg largou a xícara.
— Vou falar com o Sr. Moore agora, enquanto a esposa não está por perto. Pague a conta, Esther. Eu a reem bolsarei depois. E não espere por m im . Vam os nos encontrar no saguão do hotel para um últim o drinque.
Kleinberg j á se encontrava de pé, largando o guardanapo e seguindo na direção do afável Reggie Moore. Ele dim inuiu os passos, esperando que Moore se afastasse de um a m esa e se encam inhasse para outra. Interceptou-o então, dizendo:
— Sr. Moore? Sou Paul Kleinberg, o m édico consultor de sua esposa...
— Já sei quem é. Ela o apontou. Prazer em conhecê-lo. Não gostaria de ir até a nossa m esa para um cum prim ento?
— Não... não agora.
— Sei que Edith está ansiosa em ouvir as boas notícias que tem para nos dar.
— Eu falarei com ela depois — disse Kleinberg, firm em ente. — Mas quero falar com você prim eiro.
— Ora, com o quiser...
— Mas não aqui. Prefiro falar a sós.
Pela prim eira vez, as feições de Reggie dem onstraram algum a surpresa.
— Não posso im aginar o que precisam os conversar em particular, m as...
Kleinberg j á pegara Reggie pelo braço e com eçava a im peli-lo para a porta.
— Explicarei tudo.
Eles saíram para a calçada e com eçaram a andar.
— Espero que sej a sobre Edith que desej a m e falar — disse Moore.
— É, sim .
Kleinberg avistou um café na calçada logo à frente. O Café Jeanne d'Arc. A m aioria das cadeiras am arelas de vim e na calçada se encontravam vazias.
— Im porta-se de sentar por alguns m inutos? — indagou ele.
— Com o quiser.
Um garçom se aproxim ou no instante em que se sentaram . Kleinberg pediu um chá, que não queria tom ar, enquanto Reggie Moore pedia um a Perrier. Reggie continuava a exibir um a expressão de perplexidade.
— Se é sobre Edith, espero que sej a a notícia que todos estam os esperando.
Kleinberg preparou-se para o que iria acontecer. Muitas vezes, na sua especialidade em particular, fora o portador de m ás notícias, não exatam ente em circunstâncias sim ilares, m as com os m esm os resultados terríveis ao serem anunciadas.
— Sr. Moore, infelizm ente não são boas notícias o que tenho a com unicar.
A expressão de perplexidade de Reggie foi im ediatam ente substituída por um a expressão de m edo. Seus olhos claros pareciam estar congelados.
— Não são boas notícias? Com o assim ?
— Ela tem o sarcom a outra vez. Ou voltou... ou nunca desapareceu por com pleto.
— Isso é absurdo. — As bochechas de Reggie com eçaram a trem er. — Não acredito. Com o pode ter certeza?
— Minha especialidade é o sarcom a, Sr. Moore. O tum or de sua esposa aparece evidente na radiografia, num estágio inicial.
Reggie tornou-se agressivo, defensivo.
— Ela ficou curada, com o sabe. E a cura foi m ilagrosa, com provada por 16 m édicos em inentes, de todos os lugares do m undo.
Para Kleinberg, era bastante penoso. Não queria discutir com o pobre coitado, m as não havia opção.
— Sr. Moore, eles podem ter se enganado, esquecido algum a coisa.
— É um m édico e pode estar tão enganado quanto diz que eles estão.
Kleinberg preferiu ignorar o ataque.
— Pode tam bém ter sido algum a outra coisa. Presum indo que ela ficou curada... e todos os relatórios que li parecem indicar isso... m esm o assim cada diagnóstico foi feito antes, em outra ocasião. O m eu foi feito hoj e. Exam inei-a. Vi o sarcom a. Ela está doente e...
— Ela está perfeitam ente bem , totalm ente curada — interrom peu-o Reggie, alteando a voz. — Viu pessoalm ente. Ela não sente nada. Não tem m ais dor, não tem m ais qualquer dificuldade. Está cem por cento perfeita.
— Lam ento m uito, m as não é o que acontece. Seu estado vai se deteriorar. E não tenho alternativa que não dizer-lhe que isso é inevitável. Achei que seria m ais fácil se eu lhe falasse prim eiro, dando tem po para encontrar um m eio de contar à sua esposa, atenuar o golpe. Com o m arido, deve saber a m elhor form a.
Reggie olhou em silêncio para Kleinberg, com um a expressão furiosa, por longos segundos.
— Doutor, não tenciono contar a Edith e deixá-la transtornada, especialm ente porque não acredito no que está m e dizendo. Recuso-m e a acreditar que saiba m ais do que os m elhores m édicos de vários países.
Kleinberg fez um esforço para m anter a calm a, tentou controlar a voz.
— Não estou aqui para discutir m eu diagnóstico. Vim inform á-lo que sua esposa ficará m uito doente... e acrescentar que há um a coisa que se poderá fazer para tentar salvá-la. Pode levar sua esposa diretam ente para Paris... ou Londres, se preferir... e recorrer aos últim os avanços na cirurgia. Há um colega m eu em Paris, Dr. Maurice Duval, tam bém um especialista em sarcom a, que tem obtido sucessos extraordinários com um tipo inteiram ente novo de cirurgia, que inclui a engenharia genética. Não sei se ele j á está preparado para usar a técnica em seres hum anos. Mas se estiver, a Sra. Moore se encontraria nas m elhores m ãos, teria um a chance concreta de sobrevivência. Cheguei até a telefonar para o Dr. Durval antes do j antar, a fim de verificar se ele está em condições de interferir no caso. Mas fui inform ado de que ele saíra de Paris e só voltaria am anhã. Deixei o recado para que m e procurasse. Com a cirurgia, a Sra. Moore pode ter um a chance.
— Ter um a chance? — Reggie estava indignado. Com algum esforço, tentou controlar a estridência da voz. — Um a chance para quê? Não sabe que m inha esposa foi totalm ente curada aqui em Lourdes por um m ilagre e perm aneceu curada? É aplaudida em toda parte com o a nova m ulher m ilagrosa. Com a sua cirurgia, ela será igual a todas as outras pessoas, alguém sem a m enor im portância. Repudiado o m ilagre, ela está arruinada, eu estou arruinado, perderem os tudo, perderem os o nosso negócio, perderem os até a últim a m oeda que tem os!
Kleinberg observou o inglês friam ente e disse, avaliando cuidadosam ente as palavras:
— Sr. Moore, o assunto em questão não é ter um a esposa que deixou de ser m ilagrosa... m as sim o m ero fato de ter um a esposa viva.
Reggie levantou-se de um pulo, furioso.
— Isso não é o problem a! Tenho um a esposa e continuarei a ter. Com toda certeza. Porque todos os m édicos sabem que ela está curada. Você é a única exceção. Vão arrum ar alguém para substituí-lo e confirm ar a cura de Edith. Não confiam m esm o em você... não podem confiar... conhecem ... as suas origens.
— Minha fé religiosa — m urm urou Kleinberg, aj udando-o.
— Não confiam em você porque é um descrente.
— Sr. Moore, aparentem ente m inhas palavras não penetraram em seu crânio espesso. Se isso tivesse acontecido, com preenderia que não se trata de um a questão religiosa. É um problem a científico.
— E um a questão religiosa! —protestou Reggie, bruscam ente. — Minha esposa foi salva por um m ilagre absoluto e um m édico incom petente não fará com que as coisas se tornem diferentes. Boa noite, Dr. Kleinberg'. e obrigado por nada.
Ele virou o corpo volum oso, saiu para a rua e afastou-se, furioso.
Kleinberg continuou sentado, im óvel, pensando. Sentia pena da pobre m ulher de Londres. Se o m arido não se preocupava com o seu bem -estar, então era seu dever, com o m édico, o m édico dela, tom ar algum a providência em relação à sua doença fatal. E faria o que fosse necessário no dia seguinte, assum iria o com ando do caso.
Ele estendeu a m ão para a xícara de chá m orno. Precisava tom ar algum a coisa. Mas não aquilo. Precisava de algo m uito m ais forte. Ele verificou a conta, pôs alguns francos por cim a, levantou-se e seguiu para o hotel... e para o bar do hotel.
Fora um a noite inesperadam ente longa para Gisele Dupree; contudo, apesar do suspense angustiante, não se im portara com o prelúdio prolongado para o que poderia ser um ponto alto em sua vida. Com parara a dem ora a um a daquelas noites em Nova York em que ia para a cam a com Charles Sarrat e faziam am or. Ela queria im ediatam ente o prazer do orgasm o, m as saboreava o preparativo prolongado, sabendo que o clím ax viria e seria ainda m ais bem -vindo e agradável pela expectativa.
Era esse tipo de preparação que desfrutara durante a noite inteira. Só que não tinha certeza se term inaria com o clím ax desej ado.
Deixando o táxi e entrando no apartam ento alugado, perto do dom ínio, ela reconstituiu a expectativa.
Depois de guiar os peregrinos irlandeses por Lourdes, Gisele se apresentou à agência de turism o, com o sem pre fazia, a fim de entregar o dinheiro recebido e verificar se havia algum a excursão m arcada para a noite, o que raram ente acontecia. Mas desta vez havia; um a peregrinação de duas dúzias de católicos j aponeses. O grupo foi destacado para Gisele. A excursão com eçaria pontualm ente às oito e term inaria às dez horas.
A princípio, Gisele tentou esquivar-se do serviço, j á que atrapalharia seus planos. Mas não adiantou. Não havia outro guia disponível para aquela hora e não se podia desapontar os peregrinos j aponeses. Além disso, eles estavam pagando à agência a taxa noturna especial, um a quantia lucrativa dem ais para que o patrão de Gisele adm itisse a possibilidade de rej eitá-la.
O im portante para Gisele saber, antes de com eçar a excursão com os j aponeses, era até que horas o serviço de im prensa perm aneceria aberto. As fotografias decisivas do Paris-Match haviam -lhe sido prom etidas para as oito horas, m as não seria capaz de ir buscá-las antes das dez. Telefonou para Michele Dem aillot, rezando para que o escritório ficasse aberto até tarde. A própria Michelle atendeu e disselhe que não se preocupasse, pois o escritório perm aneceria aberto até 11 horas da noite, durante toda aquela sem ana m ovim entada. Michelle acrescentou que falara com seu am igo no Paris-Match e ele prom etera que traria para Lourdes as fotografias de Tikhanov. Deixaria as fotos no serviço de im prensa quando viesse do aeroporto.
— Não se preocupe, Gisele, que as fotografias estarão aqui. Não vai m e encontrar... darei um pulo ao Restaurante do Milagre de Madam e Moore, para tom ar alguns drinques e com er algum a coisa... m as m inha assistente lhe entregará as fotos.
Aliviada, m enos ressentida com o trabalho noturno, Gisele saiu para com er, antes de se encontrar com os peregrinos j aponeses. Já era tarde para um j antar de verdade, m as ainda restava tem po para um brioche quente e um café, o suficiente para aguentar até voltar ao apartam ento de Dom inique e preparar algum a coisa para com er.
Agora, quase dez e m eia da noite, o m om ento decisivo se aproxim ava. Largou na m esinha no corredor o precioso envelope pardo que pegara no serviço de im prensa — preferira não exam inar o conteúdo até chegar à privacidade da sala de j antar do apartam ento de Dom inique — e procurou a chave do apartam ento na bolsa de couro pendurada no om bro.
Encontrou a chave, tornou a pegar o envelope pardo e entrou no isolam ento do apartam ento.
Por m ais fam inta que estivesse, Gisele adiou qualquer ideia de com er até satisfazer um anseio m ais urgente. Saber se Sam uel Talley e Sergei Tikhanov eram a m esm a pessoa.
Largando o envelope pardo e a bolsa na m esa da sala de j antar, Gisele foi apressadam ente para o quarto, onde guardara o pacote com as fotografias que tirara na gruta. Pusera-o cuidadosam ente na gaveta de lingerie de sua am iga Dom inique. Esvaziando o pacote, Gisele pegou o instantâneo de Talley sem o bigode postiço e levou-o para a sala de j antar.
Acom odou-se num a cadeira e, sentindo um a pressão no estôm ago, abriu o grande envelope pardo do Paris-Match. Tirou as duas fotografias que estavam lá dentro. Eram lustrosas, preto e branco, doses do rosto do fam oso m inistro do Exterior soviético. Eram extrem am ente nítidas e quase iguais. Mas Sergei Tikhanov quase sem pre parecia o m esm o em todas as fotografias. A expressão podia ser m elhor descrita com o im passível. Assim estava ele nas duas, im passível, o rosto parecendo esculpido em granito, a testa vincada, olhos penetrantes, nariz grande, lábios finos, um a verruga m arrom no lábio superior, queixo quadrado. A única diferença entre as fotografias era que haviam sido tiradas com o intervalo de um ano, um a no ano passado, diante do Palácio do Eliseu, em Paris, outra no ano anterior, num salão do Albertina, em Bruxelas. Com o o rosto de Tikhanov ocupava quase todo o espaço das fotos, era na verdade im possível identificar o que havia por trás, a não ser pelas legendas datilografadas que forneciam as inform ações.
Gisele tinha certeza, m as era preciso que a certeza fosse absoluta.
Meticulosam ente, ela pôs as duas fotos am pliadas de Tikhanov em cim a da m esa, separadas por alguns centím etros. Depois, pegou o instantâneo de Talley tirado na gruta e aj eitou entre as duas fotos m aiores. Exam inou a fotografia de Tikhanov em Paris e o instantâneo de Talley em Lourdes. E depois com parou o retrato de Tikhanov em Bruxelas com o instantâneo de Talley em Lourdes.
Seu coração disparou.
Era o m esm o hom em nas três fotografias. Cabelos, testa, olhos, nariz, lábios e verruga, boca, queixo... todas as feições eram iguais. O Professor Sam uel Talley , de Nova York, e o Ministro Sergei Tikhanov, de Moscou, eram o m esm o hom em .
Nesse caso, disse Gisele a si m esm a, m ais um a vez, o instantâneo do m inistro soviético perto da gruta de Lourdes poderia causar um escândalo de grandes proporções em seu país... e 4 Tikhanov pagaria qualquer coisa para elim inar aquela prova.
Mas Gisele sabia que ter certeza não bastava. Quando se lidava com um a possibilidade tão sensacional, era indispensável não haver a m enor dúvida.
Afinal, refletiu Gisele, o m undo estava povoado por m uitas pessoas que eram sósias. Dois hom ens, separados por um a grande distância geográfica, podiam parecer perfeitam ente iguais, em bora fossem totalm ente diferentes. Ocasionalm ente, a natureza fazia as suas cópias Xerox. Talley e Tikhanov podiam ser iguais, com o gêm eos idênticos, m as serem dois seres hum anos individuais diferentes. Dois hom ens diferentes que pareciam exatam ente o m esm o? Ou um hom em , o m esm o hom em , assum indo um segundo papel?
Só havia um m eio de ter certeza absoluta: descobrir se o Professor Talley, que ensinava russo no departam ento de línguas da Universidade de Colúm bia, na cidade de Nova York, realm ente existia. Gisele sabia, sem qualquer dúvida, que Sergei Tikhanov existia e era o m inistro do Exterior da União Soviética, um candidato ao cargo de prim eiro-m inistro. Mas seu sósia, Sam uel Talley, suposto professor da Universidade de Colúm bia, em Nova York, seria m esm o um a entidade separada do m inistro soviético?
Se houvesse um Talley em Colúm bia, um Talley verdadeiro, que se parecia assim , Gisele saberia que tudo não passava de um a incrível coincidência e teria perdido. O portão para a sua liberdade perm aneceria fechado.
Por outro lado, se... ela não queria especular m ais adiante. Queria a verdade e descobriria em breve.
Ela olhou para o relógio elétrico por cim a da côm oda em que estavam guardadas as toalhas de m esa. Eram 10:46 da noite em Lourdes.
O que significava que eram 4:46 da tarde em Nova York. Muito cedo. Seu antigo am igo na ONU, Roy Zim borg, ainda estaria trabalhando. Não voltaria a seu apartam ento antes das seis horas. Por m ais tentada que se sentisse a telefonar para a ONU, ela reprim iu o desej o. Não se tira um a pessoa de um trabalho im portante para pedir um favor. É m elhor apresentar o pedido quando a pessoa estivesse num ânim o relaxado. Por m ais sim pático que Roy Zim borg fosse, ela ainda tinha de ser atenciosa.
Gisele resolveu se conter, esperar até que fosse m eia-noite em Lourdes e seis horas da tarde em Nova York. Seria a hora m ais sensata para telefonar e falar com Roy em seu apartam ento.
Para aj udar o tem po a passar m ais depressa, até m eia-noite, ela tinha de se ocupar, fazer algum a coisa, distrair-se. Não queria continuar a pensar no futuro. Trataria de se controlar até que o futuro se transform asse em realidade. Jantar... eis um a coisa para fazer. Trataria de se ocupar com o j antar, em bora não estivesse m ais com fom e.
Por um a hora, Gisele m ovim entou-se na cozinha, cozinhando, preparando o j antar, levando-o para a sala, tentando com er devagar, a atenção sem pre se desviando para as três fotografias sobre a m esa.
Quando term inou de com er, lavou a louça e guardou, ainda faltavam 15 m inutos para a m eia-noite. Gisele não pôde se conter por m ais tem po. Ligaria agora para Roy Zim borg em Nova York, rezando para que ele j á tivesse voltado do trabalho.
Cinco m inutos depois, quando ouviu a voz ofegante ao telefone, Gisele com preendeu que ele estava chegando quando a cam painha com eçara a tocar.
— Roy, aqui é Gisele... Gisele Dupree... ligando da França. Não sabe com o estou contente por tê-lo encontrado em casa, Roy !
— É m esm o Gisele? Fala sério? Que horas são? Deixe-m e ver... Faltam dez m inutos para as seis. Eu estava abrindo a porta quando ouvi o telefone. Corri para atender. — Ele respirou fundo. — Ê você m esm o, Gisele? Isso é sensacional. Onde você está?
— Ainda em Lourdes, ainda um a guia de peregrinos. E você, com o está?
Zim borg tornou a exalar ruidosam ente, com o se procurasse norm alizar a respiração.
— Eu? Ainda na ONU, ainda na delegação am ericana. Não houve m udança. Quem m ais poderia querer um tradutor de francês para inglês?
— Posso voltar a m e reunir a você na ONU, m uito em breve, com o nos velhos tem pos.
— Mas isso seria m aravilhoso!
— Ainda não é certo, Roy, m as há um a boa possibilidade de sair daqui. Prim eiro, terei de cursar aquela escola de tradução em Paris. Depois, poderei provavelm ente conseguir um em prego na delegação francesa na ONU. Mas antes preciso do dinheiro suficiente para entrar na escola de tradução. Tenho um a chance de ganhá-lo j á, sem esperar eternam ente. Talvez haj a um anj o para m e patrocinar.
— É m esm o?
— Um professor am ericano, que parece bastante próspero, está aqui em Lourdes. E tom ou um interesse especial por m im . Quero lhe pedir um favor, Roy . É sobre esse hom em .
— Qualquer coisa que eu possa fazer, basta dizer.
— Relaciona-se com a Universidade de Colúm bia. Se bem m e lem bro, você se form ou em Colúm bia, não é m esm o?
— Com todas as honras, m eu bem .
— Enquanto estava lá, conheceu ou ouviu falar de um professor cham ado Sam uel Talley ?
— Soletre o sobrenom e.
Gisele soletrou.
— Talley ... Sam uel Talley ... não m e lem bro. Por que quer saber?
— Esse hom em que conheci, Professor Sam uel Talley, diz que trabalha no departam ento de línguas da Universidade de Colúm bia.
— É possível. Há um m ilhão de professores e associados em Colúm bia. Talvez eu apenas nunca tenha ouvido falar desse professor em particular. Ou ele pode ter entrado depois. Afinal, j á saí de Colúm bia há alguns anos.
— Ainda tem ligações em Colúm bia, Roy ?
— Está se referindo a contatos? Alguém que eu conheça? Há diversos professores que conheço m uito bem , agora que m e tornei alguém im portante na ONU. Encontro-os para alm oçar ou j antar pelo m enos duas vezes por ano.
— Seria pedir dem ais, Roy, se eu quisesse que entrasse em contato com alguém de Colúm bia am anhã? Ficaria m uito com plicado para m im ligar diretam ente para Colúm bia. Mas se você pudesse...
— Não há problem a nenhum . O que você quer saber? Desej a inform ações sobre esse Professor Talley ?
— Exatam ente. Quero saber se Talley realm ente trabalha em Colúm bia, com o alega.
— Espere um instante, Gisele. Deixe-m e pegar um pedaço de papel e um a caneta, a fim de anotar direito e não esquecer. Fique esperando. — Ela esperou apenas por alguns segundos e logo tornou a ouvir a voz de Zim borg:
— Pronto, Gisele, pode falar.
— Quero saber se no m om ento, ou recentem ente, há ou houve um Professor Sam uel Talley no departam ento de línguas da Universidade de Colúm bia. Ele tem um apartam ento em Manhattan e um a residência perm anente em Verm ont. Só quero verificar se ele é m esm o quem diz ser e se ensina em Colúm bia. Pode obter essas inform ações?
— Não há problem a, m eu bem . Posso descobrir tudo na hora do alm oço. Ligarei para você com as inform ações. A que horas posso telefonar?
— A diferença é de seis horas. Quando for um a da tarde em Nova York... serão sete horas da noite em Lourdes. Pode m e ligar am anhã, à um a da tarde? Estou no apartam ento de um a am iga. Vou lhe dar o núm ero. Fica aqui em Lourdes. O telefone é 62-34-53-53. Anotou?
— Anotei. Tornarei a falar com você na hora do m eu alm oço, com todas as inform ações.
— Está m e prestando um grande favor, Roy. Fico lhe devendo. Qualquer coisa que eu puder fazer por você, basta m e avisar. Qualquer coisa que quiser.
— Ainda se parece com o antes, m eu bem ?
— Claro. A m esm a. Ou talvez m elhor.
— Então j á sabe o que quero. Gisele sorriu.
— Basta m e aj udar a chegar aí e terá tudo.
Mikel Hurtado esperara pacientem ente até quase m eia-noite antes de deixar o hotel, para um a últim a visita à gruta. Esperançosam ente, àquela hora, os últim os peregrinos j á teriam ido em bora e estariam dorm indo, a polícia teria levantado a segurança intensiva e abandonado a área. Haveria bastante tem po para subir a encosta ao lado da gruta, reunir seu equipam ento, preparar a dinam ite e colocá-la por trás da im agem da Virgem Maria no nicho — e depois arm ar o. m ecanism o de tem po para a explosão e se afastar, antes que fosse tudo pelos ares.
Durante a curta cam inhada até a ram pa, seu propósito era inabalável, ofuscado apenas por um pesar.
Menos de um a hora antes tinha feito am or com Natale, pela segunda vez naquele dia. E o últim o intercurso fora incrível, perfeito; quando a deixara, profundam ente adorm ecida, angustiara-se ao contem plá-la ali, num repouso inocente, generosa e confiante... angustiara-se não apenas porque ia destruir um obj eto de veneração tão sagrado para ela, m as tam bém porque, ao deixar a cidade naquela noite, poderia nunca m ais tornar a vê-la. Era um a coisa terrível a fazer com Natale e consigo m esm o, m as ele não fraquej ou ao se encam inhar para a ram pa. Tinha de ser feito.
Não havia ninguém à vista no alto da ram pa para o dom ínio, exceto a m aldita polícia. Lá estavam os guardas ainda, m esm o à noite, não tantos quanto antes, apenas três, parados, conversando e fum ando.
Mas desta vez Mikel Hurtado não se intim idou. Nada tinha a esconder, não havia m otivo para recear. Apenas m ais um peregrino, com insônia, que queria descer e oferecer m ais algum as orações fervorosas à Virgem Maria.
Hurtado foi avançando, sem pre a claudicar, atravessou a rua e aproxim ou-se calm am ente dos guardas. Quando estava quase em parelhado com eles, o m ais alto deu um passo para o lado, a fim de avaliá-lo. Hurtado ofereceu um sorriso rápido e um aceno, continuou a descer a ram pa. O guarda não se deu ao trabalho de detê-lo ou cham á-lo. Bom sinal.
Hurtado foi até a Esplanada do Rosário, depois contornou a igrej a na direção da gruta.
Cam inhava apressadam ente e de repente a gruta surgiu à sua frente, assim com o os bancos. Num dos últim os bancos estavam sentados dois guardas, arm ados, absorvidos em conversa.
Não o viram , m as Hurtado podia observá-los e tudo indicava que ali perm aneceriam até o am anhecer.
Hurtado praguej ou silenciosam ente.
Im possível. Quando aqueles m alditos sabuj os se cansariam da vigilância incessante e iriam em bora? Quando desistiriam e voltariam às suas funções norm ais, deixando-o em paz? Ele tornou a am aldiçoar os guardas e Augustín López.
Virando-se, Hurtado tornou a subir a ram pa, cansado, voltou à rua e ao hotel.
Entrando no saguão, im aginando com o poderia descobrir quando o dom ínio estaria livre de segurança e poderia agir, ele avistou Yvonne sentada por trás do balcão da recepção. Ela não estava cochilando. Lia um livro. Hurtado lem brou-se de que fora Yvonne quem o alertara, involuntariam ente, que a polícia procurava por um terrorista. Ela recebera a inform ação de um a am iga que dorm ia com o superintendente da polícia de Lourdes, Fontaine. Possivelm ente ela sabia m ais agora e não se im portaria de contar.
Hurtado foi até a recepção.
— Olá, Yvonne. — Ele tirou o m aço do bolso e levantou um cigarro. — Quer fum ar?
— Não, obrigada. Mas agradeço a atenção. — Ela pôs um m arcador no livro. — Quando você dorm e?
— Senti vontade de ir à gruta esta noite e rezar sozinho. Mas não adiantou. Há guardas por toda parte. Não gosto de com panhia quando estou rezando. E acabei desistindo. Sim plesm ente não adianta. Eles estão lá todas as noites. Quando será que vão desistir dessa m ania de segurança?
Yvonne largou o livro e levantou-se. Inclinou-se sobre o balcão, sussurrando:
— Eles vão desistir.
— É m esm o?
— Terá em breve toda a gruta para rezar tanto tem po quanto quiser.
— E quando isso acontecerá?
— A polícia vai dar m ais dois dias e duas noites. E depois dará a busca por encerrada. Suspenderão as m edidas de segurança rigorosas e voltarão à rotina norm al no sábado. O Inspetor Fontaine disse à m inha am iga que o aviso pelo telefone deve ter sido m esm o coisa de algum m aluco. E ele está cansado de m anter seus hom ens trabalhando em horas extras, cansados dem ais. Não deveríam os dizer isso, m as a polícia anda realm ente m uito ocupada com os acam pam entos nos arredores da cidade... onde estão todas as pessoas que não conseguiram acom odações em Lourdes. Não acha que se podia esperar que as pessoas que vieram ver a Virgem Abençoada se com portassem m elhor? Minha am iga disse que o Inspetor Fontaine am eaça cham ar os soldados se não puder tirar os seus hom ens da vigilância por causa do suposto terrorista. Mas se nada acontecer am anhã ou depois, ele tirará os seus hom ens do turno especial. É o que posso lhe dizer.
Hurtado inclinou-se por cim a do balcão e deu um beij o no rosto de Yvonne.
— Obrigado pela boa notícia. Quando eu for de novo à gruta, prom eto que farei um a oração extra por você. Boa noite.
Ele claudicou até o elevador, desapontado porque teria de esperar m ais dois dias. Mas sentia-se feliz, por outro lado, j á que poderia finalm ente consum ar o seu intento. E havia um benefício na dem ora. Poderia passar m ais tem po com Natale.