O Milagre

Irving Wallace · Capítulo 6 de 16

Páginas do PDF

O Milagre

Capítulo 5

Domingo, 14 de Agosto

No m eio da tarde de dom ingo, o prim eiro dia do que as agências de viagens estavam cham ando de O Mom ento da Reaparição, m ilhares de peregrinos e turistas com eçaram a convergir para Lourdes, de todas as direções da bússola, das cidades da Europa, de países tão distantes com o índia e Japão, Canadá e Estados Unidos.

"Lourdes se irradia com o um a atração", dizia um dos folhetos turísticos. "Um ponto de encontro singular, é para o cristão o renascim ento de sua fé, para o inválido um a esperança de recuperação, para o coração um m otivo de esperança."

Apesar da névoa de calor que pairava sobre a pequena cidade francesa, as ruas sinuosas estavam atulhadas de recém -chegados. Um ano norm al trazia cinco m ilhões de visitantes a Lourdes. Mas naquele ano as predições eram de que o fluxo de turistas constituiria um novo recorde. Haveria três m ilhões de carros particulares, 30 m il ônibus, quatro m il vôos, 1.100 trens especiais, desem barcando visitantes incessantem ente.

Todos se encam inhavam para a gruta de Massabielle. Para alguns, era curiosidade. Para outros, fascinação.

Para a m aioria, era... um .m otivo de esperança.

Através da j anela em poeirada de seu com partim ento, Am anda Spenser podia ver os vagões da frente e de trás do trem com prido, enquanto atravessava um a curva no vale rochoso. Muito em breve, dentro de um a hora e m eia, inform ou um a voz pelo alto-falante, estariam chegando em Lourdes. E novam ente um a gravação transm itia pelo alto-falante o hino de Lourdes.

Das quatro pessoas no com partim ento, Am anda era a única que não estava cochilando, em bora se sentisse dolorida do desconforto da extenuante viagem . Ken, balançando no assento ao seu lado, cochilava ditosam ente, ainda atordoado pelo sedativo tom ado na noite anterior. Na opinião de Am anda, ele com eçara a parecer m acerado nos últim os dias. Ao seu lado, o Dr. Macintosh, m édico da peregrinação, boca aberta, olhos fechados, roncava ligeiram ente. Esprem ido num a cadeira em frente, o Padre Woodcourt, o veterano líder da excursão, estava se m exendo, enquanto os raios do sol de m eio da tarde tocavam seu rosto; acordaria em breve. Com o Ken, o padre e o m édico haviam achado a viagem agradável. Dos quatro, apenas Am anda, um a filha da era da aviação, considerara cansativa a viagem de 24 horas.

A peregrinação anual dos Peregrinos do Espírito Santo, liderada pelo Padre Woodcourt, com eçara na Victoria Station, em Londres. Deixaram o trem em Dover, no Canal da Mancha, concentraram -se no term inal de partida e em barcaram na barca fretada para a travessia turbulenta até Boulogne. Havia lugares reservados para eles no trem francês. A dem ora ali fora interm inável, porque eram 650 peregrinos — principalm ente britânicos, uns poucos am ericanos — para distribuir entre os com partim entos. Cerca de 100 desses passageiros eram inválidos, em m aças e cadeiras de rodas dobráveis, e foram em barcados nos três vagões-am bulância especiais.

Um a das paradas m ais longas fora em Paris, na noite anterior, quando Am anda fizera o seu esforço final para persuadir Ken a se transferir para um avião e efetuar o resto da viagem pelo ar. Mais um a vez, porém , ele recusara, obstinadam ente, insistindo em seguir até o final de trem * com os outros peregrinos. E depois da noite m onótona, houvera outra parada prolongada, em Bordéus, naquela m anhã. Seguiram -se florestas exuberantes e cam pinas em que vacas rum inavam , o que era m elhor. Em bora o alm oço tam bém m elhorasse o ânim o de Am anda, ela ainda queria sair daquele velho trem sacolej ante e relaxar no conforto de um hotel luxuoso, m esm o que fosse em Lourdes.

Enquanto o trem seguia pela beira do rio, todos no com partim ento pareciam sentir que se aproxim avam do destino e com eçaram a despertar. Ken Clay ton, em pertigando-se, esfregando os olhos, disse a Am anda:

— Foi um cochilo e tanto. Já estam os quase lá?

— Quase — respondeu Am anda.

O Dr. Macintosh inclinou-se para a frente, observando Ken— Com o está se sentindo, m eu rapaz?

— Estou bem , obrigado.

O Padre Woodcourt olhava pelas j anelas para as colinas banhadas pelo sol.

— Não vai m esm o dem orar. — Ele levantou-se, espreguiçando-se. — Acho que vou dar um a volta pelo trem , a fim de verificar com o estão todos. O que m e diz, Sr. Clay ton? Gostaria de vir, com sua esposa? Podem achar interessante.

— Não, obrigada — disse Am anda. — Não estou com vontade".

— Pois eu estou — disse Ken, levantando-se. — Gostaria de dar um a olhada antes de desem barcarm os.

— Devia ficar descansando, Ken — disse Am anda.

— Já falei que estou bem .

O Dr. Macintosh tam bém se levantou.

— Acom panharei vocês dois. Quero cum prim entar algum as pessoas, ver com o estão.

— Pois então vam os — disse o Padre Woodcourt.

Ele saiu do com partim ento, com Ken e o Dr. Macintosh logo atrás. Assim que desapareceram , Am anda sentiu-se aliviada. Ela queria um breve intervalo só para si, a fim de poder term inar o livro que vinha lendo em todas as oportunidades desde que deixaram Chicago. Na verdade, nas três sem anas anteriores à viagem , Am anda lera vorazm ente todos os livros sobre Bernadette e Lourdes que pudera encontrar. Lera o rom ance A Canção de Bernadette, de Franz Werfel, um a obra de ficção histórica inacurada, escrita com o agradecim ento do autor, por encontrar refúgio em Lourdes durante a ocupação nazista da França. Os outros livros eram de não-ficção. Um livro religioso m açudo, de Francês Parkinson Key es, um a católica convertida, que fora inspirada por suas visitas a Lourdes em 1939 e 1952. Um livro de Robert Hugh Benson — filho do arcebispo protestante de Canterbury, m as ele próprio um católico fervoroso — que era um a defesa um tanto esnobe do santuário, baseada em sua visita a Lourdes em 1914. Um a biografia de Bernadette, em um volum e, um a condensação dos sete volum es que o Bispo de Tarbes e Lourdes m andara o Padre René Laurentin escrever, a fim de com em orar o centenário das visões de Bernadette; obviam ente, um livro pró-Bernadette, m as surpreendentem ente j usto e im parcial.

Através das leituras, Am anda deparara constantem ente com referências ao livro que m ais a intrigara. Era um rom ance escandaloso intitulado Lourdes, de Ém ile Zola, o cético anticlerical e realista, que visitara Lourdes em 1892. O rom ance fora publicado em inglês em 1897 e não era fácil de encontrar agora. Era um rom ance que m uitos católicos e adm iradores de Lourdes consideravam obsceno.

Tentava desm ascarar com pletam ente a história de Bernadette e Lourdes. Era j ustam ente o que Am anda precisava, um a m unição para levar Ken a recuperar o bom senso. Ken, o advogado, sem pre idolatrara Zola por defender Alfred Drey fus em sua carta 'J´accuse", que denunciara a conspiração anti-sem ita prom ovida pelo estado-m aior francês.

Se Zola atacara Lourdes, Ken certam ente haveria de escutar seus argum entos.

Por sorte, um negociante de livros raros lhe conseguira um exem plar do rom ance, em dois volum es, o prim eiro com 377 páginas, o segundo com 400 páginas, as letras pequenas ainda por cim a. Por m ais incôm odos que fossem , Am anda decidira levá-los em sua bagagem de qualquer m aneira. Recebendo na véspera da partida, ela se lançara desde então à leitura e agora só restavam um as poucas páginas.

Achara o rom ance bastante bom , a história de um padre cham ado Pierre From ent, um clérigo desiludido que perdera a fé, acom panhando um a am iga de infância, um a inválida incurável cham ada Marie de Guersaint, a Lourdes. Depois de rezar na gruta, Marie seria curada por um m ilagre, em bora Pierre sem pre desconfiasse que a sua invalidez fora um a decorrência da histeria ao invés de algum a doença orgânica. Durante a leitura, Am anda anotara as passagens que questionavam a validade da visão de Bernadette e as supostas curas m ilagrosas na gruta.

Sozinha, finalm ente, Am anda enfiou a m ão na sacola de lona para pegar o segundo dos dois volum es de Zola e retom ar a leitura. Term inou o rom ance em 15 m inutos. Rapidam ente, antes que os outros voltassem , voltou ao prim eiro volum e para verificar as páginas que m arcara com pedaços de papel, com os trechos que leria para Ken assim que fosse ^possível. Isso neutralizaria a lavagem cerebral que Ken recebera da m ãe e do padre dela. Desanuviaria sua cabeça, devolvendo-lhe o bom senso, levando-o a se afastar de Lourdes.

Com o se a reforçar sua argum entação, Am anda pôs-se a folhear o prim eiro volum e, procurando os trechos m ais expressivos que m arcara, especialm ente sobre Bernadette.

Encontrou finalm ente os que gostava.

"Com o um m édico expressara rudem ente, aquela garota de 14 anos, num período crítico de sua vida, j á devastada tam bém pela alm a, era, afinal de contas, um a vítim a excepcional da histeria, afligida por um a hereditariedade degenerada e recaindo na infância. (...) Quantas pastoras existiram antes de Bernadette que viram a Virgem de um a m aneira sim ilar, em m eio aos m esm os absurdos infantis! Não era sem pre a m esm a história, a Dam a envolta por luz, o segredo confidenciado, a fonte surgindo, a m issão a ser cum prida, os m ilagres cuj os encantam entos converteriam as m assas?" 0 Um a passagem perfeita a ser lida para Ken.

Am anda largou o prim eiro volum e no banco e abriu o segundo. Bernadette fora enviada para longe de Lourdes, até Nevers, onde se tornara freira. Zola encontrara um m édico, a quem cham ara no livro de Dr. Chassaigne, que estivera com Bernadette seis anos depois das aparições. "O m édico ficara particularm ente im pressionado com seus lindos olhos, puros e francos, com o os de um a criança. O resto do rosto, disse ele, tornara-se um tanto estragado; a pele perdia a suavidade, as feições eram m enos delicadas, a aparência geral era de um a criada com um , baixa, franzina e reservada. Sua devoção ainda era intensa, m as não lhe parecera a criatura arrebatada e excitável que m uitos poderiam supor; na verdade, dava a im pressão de possuir um a m ente positiva, que não se entregava a vôos de fantasia."

Am anda avaliou a conveniência de repetir essas palavras a Ken. Poderiam representar um exagero, m ais do que seria necessário. Ela resolveu ignorar essa passagem . Verificou outros trechos que m arcara, relendo-os. O m édico de Zola estava falando: "E se Bernadette fosse apenas um a alucinada, apenas um a idiota, o resultado não seria ainda m ais espantoso, ainda m ais inexplicável? Com o? O sonho de um a idiota seria suficiente para agitar nações com o esta? Não! Não! O sopro divino, a única coisa que pode explicar os prodígios, passou por aqui." Escutando, o Padre Pierre concordou. "Era verdade, um sopro passara por ali, o soluço de pesar, o anseio inextinguível para o infinito de esperança. Se o sonho de um a criança sofredora bastara para atrair m ultidões, para atrair um a chuva de m ilhões e criar um a nova cidade do sol, não era porque o sonho de certa form a apaziguava a fom e da pobre hum anidade, a insaciável necessidade de ser iludida e consolada?"

Isso é m elhor, pensou Am anda, servirá m uito bem para levar Ken de volta ao m undo realista. Ken não podia ignorar ou deixar de respeitar a m ente de Zola. E, em algum lugar, Zola se referia à infalível Bernadette com o "um a m era im becil". Zola podia m esm o conseguir o que ela não fora capaz.

Enquanto estava im óvel, com o livro no colo, Am anda ouviu a voz de Ken no corredor. Um m om ento depois, viu-o parar além do com partim ento, acom panhado pelo Padre Woodcourt. O padre estava dizendo:

— Vou deixá-lo aqui, Sr. Clay ton. Precisará de algum descanso antes de chegarm os a Lourdes. Darei um pulo para verificar com o estão as coisas nos últim os vagões. Desculpe se o cansei.

— Estarei bem — garantiu Ken. — Valeu a pena. Obrigado pela excursão e obrigado especialm ente por m e apresentar à Sra. Moore. Foi um a grande em oção.

Ken observou o padre se afastar e finalm ente se virou para o com partim ento. Ao se sentar, perto de Am anda, tentou sorrir. Mas era um sorriso abatido. As feições outrora saudáveis estavam pálidas, quase fantasm agóricas. Am anda sentiu novam ente um a pressão de m edo pelo estado de Ken.

— Está passando bem ? — perguntou ela, preocupada. — Não deveria ter feito a excursão.

— Eu não a perderia por coisa algum a — m urm urou Ken. Ele parecia tão exausto que Am anda não pôde suportar.

Pegou-lhe a m ão por um instante.

— Ken, deixe-m e dar-lhe algum a coisa. Precisa de um pouco de alívio.

Ela estava pensando num sedativo. Mas Ken sacudiu a cabeça.

— Não. Quero estar com a m ente perfeitam ente alerta quando chegarm os a Lourdes. Não deve dem orar. — Com evidente esforço, ele se em pertigou. E, subitam ente, seus olhos se ilum inaram . — Am anda, aconteceu um a coisa em ocionante. Fui apresentado a Edith Moore. Falei com ela.

Por um m om ento, Am anda ficou aturdida.

—Edith Moore?

— A m ulher do m ilagre de que ouvim os falar em Londres. Ela está nesta peregrinação, uns poucos carros depois do nosso. Deve conhecê-la. Robusta e forte com o um a atleta olím pica. Há cinco anos, tinha o m esm o... ou sim ilar... câncer ósseo degenerativo da pelve. Ela m e contou que os m édicos a desenganaram . E depois fez duas viagens a Lourdes. Na segunda, depois de rezar na gruta, beber a água, tom ar um banho, ficou instantaneam ente curada, totalm ente curada, capaz de andar sem um a m uleta, capaz de voltar ao trabalho em Londres. A área Óssea destruída se regenerou espontaneam ente. Médicos em Londres e Lourdes exam inaram -na m uitas vezes e chegaram agora à conclusão de que ela foi m ilagrosam ente curada. O anúncio oficial será feito esta sem ana em Lourdes. Sua cura será declarada um m ilagre.

Ken Clay ton recostou-se no assento, a vida retornando ao rosto, o sorriso m ais largo.

— Fico m e dizendo: se pôde acontecer com ela, com a Sra. Moore, pode acontecer com igo. Estou m uito feliz por term os vindo. Nunca m e senti m ais otim ista.

— Estou contente... — m urm urou Am anda —... estou contente por você ter conhecido a Sra. Moore.

— Tenho certeza de que você terá a oportunidade de conhecê- la tam bém , depois que chegarm os, vai se sentir tão segura quanto estou. — Ele olhou para Am anda. — O que fez enquanto eu passeava pelo trem ?

Ela pôs a m ão sobre o título do rom ance de Zola em seu colo.

— Estava apenas lendo... um livro. Apressadam ente, Am anda guardou os dois volum es na bolsa.

Sabia que o m om ento era errado. Não podia m inar o otim ism o de seu am ado com as duras realidades de Zola, não naquele m om ento,.não quando Ken se m ostrava tão esperançoso e feliz depois de seu encontro com a Sra. Moore.

Desviando os olhos dele, Am anda verificou através da j anela que ainda corriam à beira do rio. Devia ser o Gave de Pau. Gave significava um rio das m ontanhas naquela região, conform e lera. Passavam por bosques e os prédios nos arredores de um a cidade. A distância erguia-se um a torre, que Am anda presum iu ser da fam osa Basílica Superior. Um castelo do século VIII se em poleirava num a colina próxim a, enquanto ao longe assom avam os picos esverdeados dos Pireneus. Estavam m esm o chegando a seu destino, um a cidade cercada por nove outros veneráveis santuários franceses.

Ela pensou em com unicar isso a Ken, m as descobriu que ele se encontrava com os olhos fechados, talvez cochilando.

E depois o som doce e sim ples tornou a sair pelo alto-falante, o hino de Lourdes, cantado pela prim eira vez em 1873. Am anda prestou atenção à letra:

Imaculada Maria!

Nossos corações estão em chama

Esse título tão maravilhoso

Preenche todos os nossos desejos!

Ave, Ave, Ave Maria.

Deviam estar em Lourdes.

O Padre Woodcourt, acom panhado pelo Dr. Macintosh, voltou ao com partim ento para confirm ar e pegar suas m alas. Am anda com eçou a acordar Ken Clay ton, m as os olhos dele j á estavam abertos.

— Chegam os a Lourdes, m eu querido — disse ela.

Por um instante, os olhos de Ken tornaram a se ilum inar, ele fez um esforço desaj eitado para levantar. Am anda segurou-lhe o braço, firm em ente, aj udou-o a ficar de pé.

— Lourdes... — m urm urou Ken, enquanto ela estendia a m ão para a sua bolsa.

Aj udando Ken, Am anda foi avançando pelo corredor apinhado, depressivo e recendendo a suor, tentando perm anecer logo atrás do padre Woodcourt.

-— Sigam -m e — disse o padre, várias vezes.

Eles saltaram para um a plataform a apinhada com outros peregrinos procedentes de Londres. O Padre Woodcourt fez sinal para Am anda, Ken e alguns outros ao redor, anunciando:

— Estam os no Quai Dois, a plataform a da linha principal. Atravessarem os os trilhos para chegar na estação. Aqueles três carros sendo desengatados ali serão levados para a Gare des Malades, a estação adj acente para inválidos que precisarão de carros de rodas a fim de em barcarem em seus ônibus especiais. Fiquem j unto de m im .

Atravessaram os trilhos até um portal, por cim a do qual havia um cartaz: ACCUEIL DES PÈLERINS.

— Significa Recepção dos Peregrinos — inform ou o Padre. O interior do prédio principal da estação não era diferente de

m uitos outros que Am anda j á conhecera em suas viagens. Bancos m odernos de m adeira escura em fileiras, por cim a do chão protegido por um revestim ento de borracha preta. A única visão alegre era um m ural com um de um a paisagem m ontanhesa dos Pireneus. O grupo saiu, passando por um ponto de táxi e encam inhando-se para um estacionam ento repleto de ônibus.

— Nosso ônibus está logo ali — disse o Padre Woodcourt. — Podem ver os hom ens com cartazes ao lado dos ônibus, indicando os nom es dos hotéis? — Ele apontou e acrescentou: — Estam os ali, entre ALBION e CHAPELLE.

Ele se encam inhou diretam ente para o cartaz de HOTEL GALLIA & LONDRES. Em 20 m inutos estavam na frente do Hotel Gallia & Londres, deixando o ônibus para seguirem o Padre Woodcourt pelo saguão arej ado. Eficientem ente, o padre reuniu-os no centro do saguão e pediu paciência, enquanto verificava quais eram os quartos. Am anda não parava de se preocupar com Ken, que se recuperara o suficiente para falar, pela prim eira vez desde que deixaram o trem :

— Estam os aqui... estam os em Lourdes. Conseguim os. Am anda assentiu.

— Tem razão, querido. Conseguim os.

O padre Woodcourt voltou com um m aço de envelopes nas m ãos. Pediu atenção e houve silêncio im ediato.

— Já tenho a distribuição dos quartos e cham arei os nom es em ordem alfabética — anunciou ele. — Encontrarão nestes envelopes um m apa de Lourdes, diversas folhas com inform ações, o núm ero do quarto e a chave.

Ele com eçou a ler os nom es. E gritou quando chegou ao C:

— Sr. e Sra. Kenneth Clay ton.

Com um pouco de rem orso, Am anda aceitou o envelope e a m entira sobre sua união, que, conform e haviam com binado em Chicago, seria a m elhor m aneira de viaj ar. Depois de term inar a distribuição, o Padre Woodcourt pediu a atenção de todos m ais um a vez.

— Já dispõem de todas as inform ações que precisam ... núm ero do quarto, horário do café da m anhã e alm oço, que estão incluídos na diária, assim com o outras instruções do hotel. Ele fez um a pausa, lim pando a garganta. — Os que desej arem , podem ir diretam ente para seus quartos e descansar, tom ar um banho, arrum ar suas coisas... se a bagagem ainda não está nos quartos, chegará daqui a pouco. Jantarem os aqui em baixo, um andar abaixo do saguão. Observarem os em seguida a procissão noturna à luz de velas no dom ínio. Am anhã participarem os dessa procissão com o um grupo. Enquanto isso... — O padre fez um a outra pausa breve e acrescentou logo: Estou disposto a conduzir os que preferirem um a visita à gruta antes de irem para os seus quartos ou j antarem . Quantos gostariam de ir à gruta antes de qualquer outra coisa? Levantem as m ãos, por favor.

Am anda observou que dois terços dos peregrinos levantaram as m ãos, bem alto. Ken, parado ao seu lado, foi um deles.

— Não pode ir, Ken — sussurrou ela, veem ente. — Não está em condições. Não deixarei. Precisa descansar agora. Pode ir à gruta am anhã. Ela não sairá do lugar.

Ken ofereceu-lhe um sorriso indulgente.

— Meu bem , tenho de ir agora, fazer m inhas orações im ediatam ente. A sim ples ideia j á m e faz sentir m elhor. Tornarei a vê-la antes do j antar.

Consternada, Am anda observou-o se afastar m ancando, j unto com a m aioria que optara acom panhar o padre à gruta. Quase sozinha no saguão, exceto por um grupo de peregrinos esperando a volta do elevador e discutindo seus planos para com parecer à m issa am anhã, Dia da Assunção, Am anda abriu o envelope em sua m ão. O Sr. e Sra. Clay ton estavam no quarto 503, no quinto andar. Segurando a bolsa, Am anda se j untou ao grupo à espera do elevador. Não podia com preender aquele Ken Clay ton, com pletam ente exausto, m as ainda assim subindo para um a caverna e se devotando fervorosam ente a rezar ali, esgotando-se em busca da salvação, esperando ser salvo com o acontecera com a Sra. Moore. O sensato Ken que ela conhecera em Chicago, o advogado inteligente e hábil, teria com preendido prontam ente o que havia por trás da Sra. Moore e de todas as outras curas m ilagrosas. Aquele Ken não esperaria m ilagres, teria com preendido que as curas súbitas não eram absolutam ente m ilagres, m as sim de origem psicossom ática. Tais curas não podiam acontecer a todos, especialm ente aos que eram com o Ken, gravem ente doentes.

O elevador chegou e Am anda, com algum a dificuldade, esprem eu-se j unto com os outros. A subida foi lenta, o carro parando em todos os andares. Am anda e um peregrino encurvado foram os últim os a saltar, no quinto andar. Só havia um a direção para seguir e Am anda avançou pelo corredor, até encontrar o quarto 503. Enfiou a chave e abriu a porta. Pelo m enos agora poderia descansar até a volta de Ken.

Mas o que seus olhos depararam , quando deu alguns passos pelo quarto de casal, levaram -na a piscar aturdida, por ser tão inesperado. O Gallia & Londres fora anunciado com o um hotel de luxo, três estrelas, m as o que havia à sua frente era um a abom inação. O quarto era tão apertado para duas pessoas quanto era possível. Não chegava a ser um quarto. Era um a cela m onacal. Duas cam as, cobertas por colchas de um verde repulsivo, dando a im pressão de ocupar o espaço inteiro. A esquerda, ao pé das cam as, havia um a m esinha, um a cadeira no lado e um a côm oda. Não havia sim plesm ente quaisquer outros m óveis no quarto. O único adorno era um nicho por cim a das cabeceiras das cam as, com im agens de Jesus e da Virgem Maria. No outro lado do quarto havia cortinas surradas na j anela. Para alcançar a j anela, a fim de abri-la e arej ar um pouco, Am anda teve de se com prim ir de lado entre a m esa e as cam as. Levantando a j anela, ela pôde ver um a longa procissão, pessoas m archando no final da tarde, no outro lado de um parque. Cantavam agora e m ais um a vez chegou a seus ouvidos o refrão do hino de Lourdes.

Am anda foi até um a porta que dava para o banheiro, contendo um a banheira pequena, o vaso, bidê e pia. A tinta do arm ário por cim a da pia estava descascando, a luz no teto piscava.

Sentando-se na beira da cam a m ais próxim a, Am anda teve vontade de chorar. Aquele não era um lugar para ele, certam ente não para Ken, que precisava de conforto, descanso e sossego. Aquela cela, sim ulando ser um quarto, nunca serviria.

Ela tentou pensar no que poderia ser feito. Não havia acom odações m elhores naquele hotel "superior". E todas as outras acom odações na cidade haviam sido tom adas há vários dias. Não havia qualquer lugar para ir, a m enos que se pudesse encontrar fora da cidade algo m ais... algo m ais aceitável.

E foi nesse instante que ela se lem brou. O hotel de luxo em que passara um a noite no verão em que fizera um a viagem pela França, depois da form atura. Era um hotel m agnífico, m em orável, e ela ouvira com entar durante a visita que não ficava m uito longe do» santuário em Lourdes.

Seria o lugar para ficar, perfeito para o pobre Ken, perfeito para os dois. Faria com que os poucos dias que passariam ali — e não seriam m ais do que poucos dias — fossem pelo m enos suportáveis.

Com o era m esm o o nom e do lugar?

Ah, sim , Eugénie-les-Bains.

Ela telefonaria para o hotel im ediatam ente, faria um a reserva para aquela m esm a noite, providenciaria a m udança no instante em que Ken voltasse da gruta.

Sergei Tikhanov chegou a Lourdes ao final da tarde, através de Lisboa, Genebra e Paris... sem pre vôos curtos.

Sentado no táxi que o levava do aeroporto a Lourdes, ele estava consciente de duas m udanças em sua pessoa. Um a era o pequeno passaporte azul falsificado no bolso interno do paletó, identificando-o com o Sam uel Talley, de Nova York, um cidadão dos Estados Unidos da Am érica. A outra era o bigode postiço que cobria a verruga denunciadora no lado esquerdo do lábio superior, caindo pelos dois lados e tam bém encobrindo um a parte da boca. Ele concluíra que o bigode era um disfarce m ais do que suficiente. Sem isso, seu rosto com a m arca registrada da verruga, tão am plam ente divulgado no m undo inteiro, por tantos anos, poderia torná-lo reconhecível para alguém .

O táxi estava dim inuindo a velocidade e o m otorista francês, fitando-o através do espelho retrovisor, inform ou:

— Chegam os, monsieur.

Tikhanov olhou pela j anela à direita, descobriu que se encontravam num a rua cham ada Avenue du Paradis, havia um estacionam ento e um rio lam acento correndo m ais além . Virou-se para a esquerda e constatou que estavam na frente do hotel de seis andares, com o nom e se destacando por cim a da entrada: NOUVEL HOTEL ST-LOUIS DE FRANCE.

Com o as notícias do j ornais deixavam bem claro que Lourdes estaria apinhada durante aquela sem ana dram ática e todas as acom odações haviam sido reservadas por peregrinações oficiais poucos dias depois do anúncio do reaparecim ento da Virgem Maria, Tikhanov se preocupara com a possibilidade de arrum ar um lugar para ficar. Felizm ente, o concierge do Hotel Intercontinental, de Genebra, um antigo conhecido cham ado Henri, a quem sem pre dera gorj etas generosas, pudera prestar um a aj uda. Tikhanov contara a Henri que um am igo íntim o, um am ericano de Nova York cham ado Talley, m uito religioso, planej ava visitar Lourdes durante as festividades da reaparição. O único problem a era que seu am igo Talley dem orara a se inscrever num a peregrinação e não conseguira depois obter um a reserva por si m esm o. Sabendo que Tikhanov era um hom em viaj ado, Talley lhe perguntara se não teria contatos que pudessem lhe providenciar um quarto de hotel em Lourdes, por um a ou duas sem anas. Tikhanov acrescentara que não prom etera nada ao am igo, pois nunca visitara Lourdes e não tinha a m enor intenção de fazê-lo. Mas assegurara ao am igo que indagaria. Agora, chegando a Genebra, Tikhanov lem brara-se de perguntar a Henri se podia fazer algum a sugestão.

Henri se m ostrara realm ente disposto a cooperar com um a sugestão. Alguns anos antes, Henri acom panhara o avô a Lourdes e se hospedaram no Hotel St-Louis de France, fazendo am izade com Robert, o porteiro-chefe. Enquanto Tikhanov esperava, Henri telefonara para Robert em Lourdes, a fim de pedir pelo am igo de Tikhanov... com o era m esm o o nom e dele? Talley ? Isso m esm o, Sr. Talley, de Nova York... m as depois Henri soubera que Robert se achava em férias e só voltaria no prim eiro dia do Mom ento da Reaparição.

— Mas não im porta — garantira Henri a Tikhanov. — Diga a seu am igo para se apresentar pessoalm ente no dia em que Robert voltar ao trabalho e falar em m eu nom e. Robert se lem brará e arrum ará um quarto para o Sr. Talley. Pode estar cesto de que. sem pre há um quarto vago.

Acreditando nele, Tikhanov sentira-se aliviado. Mas agora, saltando do táxi diante do hotel, ele não estava tão certo. Na vida, com o na diplom acia, Tikhanov sem pre fora cauteloso, sem pre deixando portas abertas, m esm o nas questões m ínim as. E por isso resolveu deixar o táxi à espera. Enquanto o m otorista saía para pegar a bagagem na m ala do carro, Tikhanov lhe disse:

— Espere m ais alguns m inutos. Preciso m e certificar de que tenho um quarto. Podem m e encam inhar para outro lugar.

Sua condição, com o passara a pensar na distrofia m uscular, incom odava-o hoj e. Tikhanov subiu os degraus devagar. O saguão era m odesto e m oderno, um elevador e um a escada diretam ente à frente. Por trás do balcão, exam ina um livro-caixa, estava um concierge uniform izado, de óculos. Tikhanov aproxim ou-se confiante e falou em francês:

— Monsieur, estou procurando pelo porteiro chefe, Robert. O concierge fitou-o pelas lentes bifocais.

— Sou Robert, a seu serviço.

— Ótim o, ótim o... Estou aqui a conselho de um am igo seu, que lhe m anda lem branças. Refiro-m e a nosso am igo m útuo, Henri, o concierge do Intercontinental, em Genebra.

Sem a m enor hesitação, Robert disse:

— Ah, sim , Henri. Com o ele vai? Um ótim o am igo. Ele está bem ?

— Muito bem . Aconselhou-m e a procurá-lo, a fim de conseguir ura quarto para esta sem ana. Disse que saberia m elhor do que o recepcionista do hotel. Sabia que o hotel devia estar lotado, m as achava que você poderia m e acom odar, com o um favor a ele. Qualquer coisa servirá.

Robert assum iu um a expressão consternada.

— Henri está certo. Geralm ente sem pre se consegue arrum ar um quarto. Mas hoj e e pelo resto desta sem ana não há nada, absolutam ente nada. Sinto-m e em baraçado, desolado, por não ser capaz de fazer algum a coisa por m eu am igo. Mas, sinceram ente, não há nada, nem m esm o um closet vazio.

Tikhanov tirou a carteira do bolso.

— Tem certeza?

— Não adianta. Tenho certeza absoluta. O hotel está com pletam ente lotado. Isso nunca aconteceu antes. Mas, tam bém , esta é um a ocasião extraordinária. Afinal, a Virgem não aparece em Lourdes desde 1858. Todos querem vê-la. Na próxim a sem ana, poderei provavelm ente arrum ar-lhe acom odações.

— Só disponho desta sem ana.

— Então lam ento m uito.

— O que posso fazer? Não haveria alguém que conheça em outro hotel que possa m e arrum ar um quarto?

— Não. Todos os hotéis estão lotados. — Robert teve um a ideia súbita e levantou um dedo. — Há um a possibilidade. Em outras ocasiões, quando Lourdes estava apinhada, havia alguns quartos para alugar fora da cidade. Há m uitos lugarej os perto de Lourdes, todos perm itindo ir e vir diariam ente. E m uitas vezes as fam ílias decidem alugar quartos extras para ganhar alguns francos. E tenho certeza de que isso está acontecendo agora, aproveitando o excesso de visitantes. Seria a m elhor coisa para se acom odar, Sr... Sr...

— Talley ... Sam uel Talley .

— Isso m esm o, seria o m elhor, Sr. Talley. Descobrir os aloj am entos particulares disponíveis fora da cidade.

— E onde eu poderia descobrir isso? Nunca estive em Lourdes. Robert ofereceu aj uda im ediata.

— Posso lhe dizer onde ir exatam ente para descobrir. Tem os o que cham am os de Sindicato dos Hoteleiros de Lourdes, na Place de 1'Eglise, na Cidade Velha. Deixe-m e m ostrar.

Ele procurou e descobriu um m apa de capa laranj a, com o título de Lourdes, Lieu de pèlerinage. Desdobrou-o. Mostrou a Tikhanov o percurso até a praça, tornou a dobrar o m apa e entregou-o ao russo.

— Isso deve lhe conseguir um teto sobre a sua cabeça. Lam ento não poder acom odá-lo aqui. Boa sorte.

Deixando o hotel e descendo a escada, Tikhanov abriu o m apa e entregou-o ao m otorista à espera.

— Não há quarto aqui — explicou ele. — Devo ir ao Sindicato dos Hoteleiros. O concierge indicou o percurso aqui.

O m otorista exam inou o m apa, balançou a cabeça e gesticulou para que Tikhanov voltasse ao banco traseiro do táxi.

Durante a viagem de 15 m inutos, Tikhanov se m anteve com pletam ente alheio ao que o cercava. Sua m ente virou-se para dentro, avaliando a tolice de ter vindo, avaliando o risco de visitar um a "terra santa" que seu governo e partido desaprovavam , em contraste com a crescente incapacidade de seu corpo.

Ao chegar à Place de 1'Eglise, ele concluíra que sua saúde e a recom pensa valiam qualquer risco. Além disso, sentia-se seguro por trás da cam uflagem do bigode novo. Pagando a corrida, ele pegou a m ala e encam inhou-se para o prédio próxim o.

Tikhanov encontrou o escritório vazio, exceto por duas m ulheres de m eia-idade, em suas m esas. A m ais próxim a, cabelos pretos caídos na testa, óculos de aros de m etal, cum prim entou-o am avelm ente. Ele se apresentou com o Sam uel Talley, am ericano, recentem ente chegado a Lourdes num a peregrinação, m as não oficial e por isso sem um lugar para passar a sem ana. Um am igo no Hotel St.-Louis de France sugerira que fosse até ali para conseguir um quarto vago num a casa dS fam ília. A m ulher fez um a cara triste.

— E verdade, tínham os um a longa lista de acom odações no início da sem ana, m as j á foram todas ocupadas. Infelizm ente...

Ela com eçou a estudar a lista, m as parou de repente e verificou um bilhete preso com um clipe no alto da prim eira folha.

— Espere um instante, monsieur, talvez haj a um a possibilidade aqui. Pode estar com sorte. Este bilhete foi deixado por um a guia turística, um a m oça local que reside com os pais em Tarbes. Ela diz aqui que os pais dispõem de um quarto para alugar por um a sem ana. Querem 225 francos por dia pelo quarto e m eia pensão. Está interessado? Se estiver, verificarei se o quarto ainda está disponível.

— Eu ficaria agradecido — disse Tikhanov. — Onde disse m esm o que ficava?

— Tarbes. A 20 m inutos de Lourdes de táxi. Um lugar adorável. — A m ulher tirou o fone do gancho e discou. — Vam os ver...

A m ulher esperou, enquanto o telefone tocava. Quando atenderam , ela falou em francês:

— Aqui é do Sy ndicat des Hôteliers. Madem oiselle Dupree ainda está aí? — Ela esperou por um instante. — Gisele? Sobre o bilhete que deixou esta m anhã. O quarto que seus pais queriam alugar ainda está vago? — Um a pausa. — Ótim o. Tenho um cliente, Sr. Sam uel Talley, da Am érica. Direi a ele. — Ela largou o telefone, olhando radiante para Tikhanov. — Boa notícia. Já tem um quarto. Vou lhe dar o endereço em Tarbes. E a casa da fam ília Dupree. Gente respeitável. Nunca os conheci pessoalm ente, m as a filha Gisele é m aravilhosa, o que sem pre se reflete nos pais. Aqui está o endereço, Sr. Talley .

Tikhanov só chegou a Tarbes no início da noite.

Ficara em Lourdes, na área do dom ínio, até com eçar a escurecer. A m ulher no Sy ndicat era loquaz e lhe dissera o que deveria ver na área im ediata. Meio trôpego, ele percorrera a Esplanade des Processions, cobrindo um a boa parte da distância até perceber que seguia em direção errada, a cam inho de um portão de saída. Voltando, encam inhara-se lentam ente para a Basílica Superior, subindo um a ram pa para a entrada e observando o interior adornado. Descera depois em busca da gruta legendária. Encontrara os fiéis de pé, sentados, aj oelhados diante de um a caverna. Mas não se j untara a eles, tom ando a decisão de exam inar a gruta m elhor no dia seguinte.

Mas sabia que no fundo era contido por seu sentim ento de ser alheio àquela cena, um estranho a tudo aquilo, alguém que não pertencia àquelas pessoas supersticiosas. Teve de lem brar a si m esm o que na verdade pertencia, tanto quanto qualquer outro, recordando sua infância com um a m ãe religiosa. O que tam bém o m antinha a distância era o fato de que j am ais gostara de aglom erações, nunca fora um rosto na m ultidão. Desde os seus prim eiros sucessos e até a ascensão a m inistro do Exterior da União Soviética e personalidade m undial, sem pre falara às m ultidões, com o alguém por cim a, orientando-as. Ou conferenciara com outras personalidades m undiais, prim eiros-m inistros, presidentes e reis, de igual para igual. Tais contatos e situações eram aceitáveis, m as era inconcebível para ele ser um ninguém perdido num a m ultidão.

Finalm ente, ao deixar o local, ele com preendera a verdade, por que não chegara m ais perto da m ultidão em torno da gruta. A verdade era que subitam ente doía até a m edula dos ossos, sentia-se fraco, terrivelm ente enfraquecido pela doença fatal, incapaz de perm anecer ereto por m uito tem po.

De algum a form a, conseguiu alcançar o topo da ram pa de saída m ais próxim a, sabendo que, de um j eito m isterioso, fora reduzido à m esm a posição inferior de todos aqueles peregrinos, porque era igual a um e a todos. Não era diferente de qualquer outro ali. A doença lhe subtraíra a individualidade. Tam bém queria a esperança, orar por um a cura.

A rua por cim a estava ilum inada por lam piões am arelos e o tráfego era intenso. Ele precisava seguir para o seu destino e instalar-se no quarto, repousar para o dia seguinte e seu prim eiro esforço para alcançar a cura.

Esperava não dem orar m uito a encontrar um táxi e logo avistou um vazio. Fez sinal e o m otorista parou. Um m om ento depois, com sua m ala, estava a cam inho da residência da fam ília Dupree.

A viagem pela estrada para Tarbes foi realm ente curta. Para seu alívio, Tarbes não era um a dessas horríveis e prim itivas aldeias francesas, caindo aos pedaços, m as um a cidade m oderna, de aspecto agradável. A artéria larga que percorriam levava a um a praça central, cham ada Place de Verdun. Tikhanov constatou que a m aioria das ruas com erciais partia da praça, com o raios num a roda.

— O lugar para onde estou indo fica m uito longe daqui? — perguntou Tikhanov.

— A cinco ou seis quarteirões, num a rua transversal — respondeu o m otorista. — Estarem os lá num instante. — Um m om ento depois, ele apontou e disse: — Prim eiro, monsieur, observe a casinha à nossa direita... o m aior herói de guerra francês, Marechal Foch, nasceu ali. — Depois, o m otorista anunciou: — A catedral de Tarbes, onde foram registradas algum as curas esta sem ana. — O m otorista levou o táxi por um a série de ruas de m ão única, dim inuindo & velocidade e logo avisando: — Fica no próxim o quarteirão.

O destino de Tikhanov era um prédio de apartam entos de m au gosto, com quatro andares, perto do Jardim Massey, um parque público com algum a escultura inidentificável m eio oculta pela escuridão. A fam ília Dupree tinha cinco côm odos no andar térreo, o papel que Tikhanov recebera inform ava que era o Apartam ento 1.

Tikhanov foi adm itido por Madam e Dupree, um a m ulher m agra e pequena, cabelos louros em branquecendo e desbotados, feições delicadas, que podia ter sido j ovem outrora.

— Monsieur Sam uel Talley , l´americain?

— Isso m esm o — respondeu Tikhanov, tam bém falando em francês. — O Sy ndicat em Lourdes j á lhe com unicou então.

— Minha filha Gisele telefonou para avisar que um am ericano ficaria com o quarto e estaria aqui para o j antar. Entre, por favor.

A sala de estar era m eio escura, ilum inada apenas por duas lâm padas, m as Tikhanov pôde perceber que a decoração era pesada, com m uitas cortinas, os antiquados m óveis estofados ao estilo francês. O aparelho de televisão estava ligado, m as foi desligado quando alguém se levantou ao seu lado. Era Monsieur Dupree, um hom em forte, atarracado, cabelos desgrenhados, m eio estrábico, queixo quadrado, com a barba por fazer. Depois de m urm urar um "Bon soir", ele pegou a m ala de Tikhanov e acrescentou, em francês:

— Vou levá-lo a seu quarto. O quarto de m inha filha. Ela dorm irá no sofá durante a sem ana.

O quarto da filha era m uito diferente, alegre, suave, redecorado recentem ente, fem inino. Um a colcha bege estendia-se pela cam a de solteiro. Na cabeceira havia um a prateleira com livros, todos em francês, é claro... não, espere, nem todos são em francês, há vários em inglês, sobre Nova York especialm ente e os Estados Unidos em geral. Havia um a m esinha-de-cabeceira com um abaj ur. Tikhanov ficou surpreso com aquela filha de um a fam ília francesa de classe baixa que possuía livros em inglês sobre os Estados Unidos. Dupree largara a m ala de Tikhanov.

— Estarem os prontos para j antar dentro de hora, Sr. Talley .

— Tam bém estarei pronto. Mas, caso eu venha a cochilar, im porta-se de m e lem brar?

— Baterei na porta.

Depois que o anfitrião se retirou, Tikhanov tencionava arrum ar suas coisas para a sem ana que teria pela frente. Mas a dor persistia nos braços e num a das pernas e ele acabou se entregando, desej ando apenas levantar os pés e descansar um pouco. Arriou na cam a, levantou as pernas, virou para o lado e adorm eceu no m esm o instante, profundam ente. A batida brusca na porta despertou-o. Levantou a cabeça, m om entaneam ente confuso, depois se lem brou.

— Obrigado, Sr. Dupree. Já estou indo.

Poucos m inutos depois, ele entrou na sala de j antar, tam bém m al ilum inada, onde Dupree j á estava sentado, im passível. Madam e Dupree, usando um avental, veio às pressas da cozinha para m ostrar o lugar de Tikhanov. Indicou a cadeira vazia ao lado e explicou:

— Não esperarem os por Gisele. Ela telefonou, para dizer que ainda está trabalhando e chegará tarde. Madam e Dupree parou na porta e acrescentou: — Com em os m odestam ente. Esta noite tem os consom e e com o prato principal om elete com salm ão defum ado.

Tikhanov reprim iu um sorriso pela form alidade do anúncio. Ele inspecionou a horrível sala de j antar. Um desenho am arelado de Jesus, recortado de um j ornal e em oldurado. Um crucifixo de m etal. Em outra parede, um a fotografia em oldurada de um a estátua de m árm ore da Virgem Maria. Servindo o consom e, Madam e Dupree percebeu que Tikhanov estudava os adornos. E disse, defensiva:

— Som os um a fam ília religiosa, Sr. Talley .

— Estou vendo.

— Mas não viria a Lourdes se não fosse um crente.

— Tem razão.

Depois que foram servidos e Madam e Dupree sentou, Tikhanov j á estava prestes a m ergulhar a colher no consom e quando ouviu um m urm úrio. Surpreso, levantou os olhos para descobrir que os anfitriões estavam de olhos fechados, cabeças abaixadas, enquanto monsieur fazia um a prece. Em baraçado por essa dem onstração pública e o que se esperava que ele fizesse, Tikhanov largou a colher e tam bém inclinou a cabeça.

Depois da oração, eles com eram . A princípio, os Dupree se m antiveram em silêncio, m as acabaram aceitando um a conversa vacilante. Tikhanov polidam ente queria saber m ais a respeito deles, m as o m áxim o que pôde descobrir foi que monsieur era m ecânico, enquanto m adam e trabalhava com o cam areira no Hotel President, nos arredores da cidade. Com o recreação e atividade social, lim itavam -se a ver os program as da televisão estatal, com parecer à m issa na catedral próxim a e participar de diversos eventos religiosos. Eles sabiam algum a coisa sobre Lourdes? Um pouco, o que todos sabiam , m as principalm ente o que a filha lhes contava.

— Gisele deve chegar a qualquer m om ento — inform ou m adam e. — Ela poderá lhe contar tudo o que quiser saber sobre Lourdes.

— Eu ficaria m uito agradecido — m urm urou Tikhanov. Enquanto os pratos eram tirados, o cesto de pão levado e as m igalhas varridas da toalha de m esa, a m ente de Tikhanov voltou à Mãe Rússia. O que pensariam os m em bros do Politburo se pudessem ver seu grande diplom ata internacional e futuro prim eiro-m inistro, o renom ado e respeitado intelectual Sergei Tikhanov, sentado ali, em com panhia de dois cretinos, idiotas, ignorantes?

Prestes a cortar a tarte aiix fruits, ele sentiu que a sala subitam ente se anim ava. Um a j ovem de beleza deslum brante, quase um a garota, os cabelos cor de m el presos num rabo-de-cavalo e incríveis olhos verdes-cinzas, irrom pera na sala e beij ava os pais. Tikhanov observou-a contornar a m esa, transbordando de vitalidade, vigorosa, dinâm ica, esguia. Ela estendeu a m ão para Tikhanov.

— Deve ser nosso pensionista, Sr. Talley .

— Isso m esm o, sou Sam Talley — disse Tikhanov, m eio contrafeito. — E deve ser Madem oiselle Gisele Dupree.

— A própria — respondeu ela, passando a falar em inglês e sentando-se ao lado de Tikhanov. — Sej a bem -vindo à casa dos Duprees e à cidade ao lado de todos os m ilagres.

— Obrigado — m urm urou Tikhanov. — Espero que estej a certa... em relação aos m ilagres.

Madam e Dupree fora à cozinha para buscar o consom e requentado da filha e lhe preparar um a om elete.

Gisele ficou falando, em francês para o pai, em inglês para Tikhanov, relatando as suas aventuras naquele prim eiro dia do Mom ento da Reaparição, em Lourdes.

Tikhanov escutou-a atentam ente, observando-a fascinado, desej ando fugazm ente não apenas a sua saúde, m as tam bém a j uventude. Não havia qualquer dúvida, um a verdadeira beldade, talvez pelo lado da m ãe. Só que m ais. Ao contrário dos pais, Gisele aparentem ente era instruída, culta, com um conhecim ento perfeito do inglês am ericano. Mas havia ainda algo m ais, algo que aflorou enquanto ela com ia e falava, deixando Tikhanov apreensivo. Ele tentou definir o que era, a causa daquele sentim ento de apreensão. A m oça era alerta, talvez até dem ais, possivelm ente esperta, talvez perceptiva. Ele especulou se a m oça não lhe acarretaria problem as. Duvidava m uito. Ela era m uito j ovem , m uito lim itada, um a m oça local que pouco sabia além da vida em Lourdes e de seu catolicism o. Mesm o assim , o bigode postiço com ichava e ele disse a si m esm o para ser cauteloso. Os j ovens eram m uito espertos atualm ente, conheciam as coisas do m undo por interm édio da televisão.

Ele percebeu que Gisele acabara de com er e estava lhe falando, curiosa sobre o m otivo que o trouxera a Lourdes.

— Por quê? — ele se descobriu dizendo. —'Ora, por que não? Há algum tem po que não m e sinto bem . Um a doença que prefiro não discutir. Tediosa dem ais para se conversar ao j antar. Fiquei im paciente com os m édicos e um am igo católico sugeriu um a visita a Lourdes, especialm ente agora. Ele sabia que eu era um católico afastado... m as nunca se fica m uito longe da árvore da vida, não é m esm o? Resolvi tirar férias e vir para Lourdes.

— Nunca se sabe o que pode acontecer — com entou Gisele, j ovialm ente. — Há afortunados aqui todos os anos. Saem curados. Já vi acontecer. Pode ser um dos afortunados deste ano, Sr. Talley. Vá à gruta todos os dias. Reze com os peregrinos, tom e a água, entre nos banhos. E tenha fé.

Tikhanov fitou-a nos olhos para descobrir se ela não estava caçoando. Mas era evidente que a m oça falava a sério. Ele resolveu fazê-lo tam bém .

— Eu gostaria de ter um a fé verdadeira, um a fé pura. Mas é difícil para alguém com o eu, um hom em de certa inteligência, aceitar o fato de que há pessoas gravem ente doentes que são curadas pela fé e não pela ciência.

— Mas pode estar certo de que acontece. Com o eu falei, j á vi acontecer pessoalm ente. Sou guia em Lourdes e vej o tudo o que acontece por lá. E de vez em quando há um a alm a perdida que fica totalm ente curada. Não pela ciência, m as pela fé.

— Estou im pressionado — m urm urou Tikhanov.

— E até conheço pessoalm ente a nossa últim a cura m ilagrosa. Encontrei-a pela prim eira vez há vários anos. Há cinco anos ela vem a Lourdes. E um a inglesa, a Sra. Edith Moore. Estava desenganada, um caso term inal de câncer, m as na segunda visita a Lourdes foi abençoada com um a cura m ilagrosa. O câncer acabou. As células do sangue se recuperaram , os ossos voltaram a ficar fortes. Ela se encontra em Lourdes agora, para um últim o exam e, antes de ser declarada um a cura m ilagrosa. Encontrei-a antes do j antar. Está robusta, a própria im agem do bem -estar, m uito em ocionada. Gostaria de conhecê-la? Isso lhe provaria algum a coisa?

— Claro que sim — respondeu Tikhanov, sentindo um ím peto de otim ism o. — Eu gostaria m uito de conhecer a Sra. Moore.

— Pois então vai conhecer. Tentarei m arcar um alm oço... se quiser pagá-lo. E tam bém o m eu tem po, que tirarei de um a excursão. O preço da refeição e m ais 100 francos para a sua guia. Acha que é dem ais?

Tikhanov sentiu o sorriso por baixo do bigode desgrenhado.

— Um a barganha, com o nós, am ericanos, costum am os dizer.

— Muito bem , estam os com binados — disse Gisele. — Com o ficará aqui, pode ir com igo para Lourdes pela m anhã. Terá tem po para tom ar os banhos e depois alm oçar com Edith Moore. Está bom assim ?

— Está ótim o — disse Tikhanov, tentando falar com o Talley. — Estarei pronto quando quiser partir.