O Milagre
Capítulo 9
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Terça-Feira, 16 de Agosto
O próprio Padre Ruland providenciou o local para a prim eira e única conferência com a im prensa que a Igrej a realizaria em Lourdes durante o Mom ento da Reaparição, um prédio pouco usado, m as de aparência sólida, conhecido pelos habitantes da cidade com o Palais des Congrès. Era retangular, verm elho, tendo na frente um j ardim de topiário, onde se realizavam ocasionalm ente reuniões prom ovidas por um cardeal do Vaticano ou pelo bispo de Lourdes.
O Padre Ruland concluíra que a disposição interna era perfeita para o encontro com a im prensa internacional. Havia um grande auditório central, com capacidade para até 800 visitantes sentados. Dois degraus subiam do palco para o sem icírculo do rostro de m adeira, em cuj o centro havia um atril e um m icrofone.
Com o bispo de Tarbes e Lourdes prom etido com o o representante da Igrej a e principal atração, a conferência de im prensa foi m arcada para nove horas da m anhã.
Agora, num a sala particular do Palácio dos Congressos, o relógio na parede inform ava ao Padre Ruland» que passavam 11 m inutos das nove horas.
Michelle Dem alliot, chefe dos Serviços de Im prensa dos Santuários, entrou ofegante na sala, procedente do auditório, passando a m ão nervosam ente pelos cabelos louros e anunciando:
— Já estão todos em seus lugares, um a grande m ultidão, esperando. E com eçam a ficar im pacientes. — Ela fitou o Padre Ruland e Jean-Claude Jam et, representando a Associação Com ercial de Lourdes, antes de perguntar: — Ele ainda não chegou?
— Ainda não — respondeu o Padre Ruland. — Mas falei com o bispo ontem à noite e ele m e garantiu m ais um a vez que estaria aqui às nove horas.
— Escutem ! — disse Jam et de repente.
Todos podiam ouvir alguém se aproxim ando pela porta lateral.
O Padre Ruland foi abri-la e ficou aliviado ao ver o Bispo Pey ragne despedindo-se de seu m otorista, um j ovem padre, e depois se encam inhando para a porta.
Todos cum prim entaram o alto e m agro Bispo de Tarbes e Lourdes quando ele entrou. O Padre Ruland sentiu-se particularm ente satisfeito ao ver o bispo tão aristocrático na aparência, com um a requintada cruz peitoral pendendo de um a corrente de ouro, por cim a da batina preta. Ruland gostava de seus bispos altos e m agros, parecendo m ais com o príncipes da Igrej a. E especialm ente quando se apresentavam em suas vestim entas solenes. O bispo im pressionaria e conteria os j ornalistas.
— Lam ento m e atrasar por alguns m inutos — disse o bispo — m as fui retardado por um telefonem a de Rom a. Mas acho que agora estou pronto. Quer cham ar os repórteres, por favor?
O Padre Ruland engoliu em seco.
— Não tenho certeza se isso seria possível, excelência. Há pelo m enos 300 j ornalistas no auditório, aguardando a sua entrevista.
O rosto com prido do bispo assum iu um a expressão som bria.
— Com o assim ? Quando m e falou em receber a im prensa, presum i que seria um encontro com m eia dúzia de repórteres, no m áxim o. Mas um a entrevista coletiva...
— Lam ento se fui m al intrepretado — disse o Padre Ruland. — Mas não havia possibilidade de lim itar...
— Não gosto de circos — resm ungou o bispo.
— Excelência — acrescentou o Padre Ruland, inabalável — a im prensa m undial está representada aqui em grandes núm eros pelo m esm o m otivo que nós, a fim de aguardar o retorno m ilagroso da abençoada Virgem Maria.
— Não se poderia negar a presença de qualquer representante da im prensa internacional — acrescentou Michelle. — Não era possível dem onstrar favoritism o nos convites.
Jam et aproxim ou-se do bispo.
— Excelência, não apenas os repórteres de j ornais e revistas m erecem saber o que se espera na gruta, a fim de poderem escrever a respeito, m as tam bém farão reportagens sobre Lourdes. Os olhos de todo o m undo civilizado se concentram em Lourdes esta sem ana. O bem -estar de nossa cidade e de nosso santuário depende m uito de sua cooperação. O que for noticiado pela im prensa aj udará a sustentar Lourdes, assim com o o próprio dom ínio.
O bispo soltou um grunhido contrariado e virou-se para Michelle.
— Quem está presente? E de onde vem essa gente?
— De toda parte e dos veículos de com unicação m ais im portantes. Há diversos repórteres da televisão internacional, m as sem câm aras, de acordo com a nossa política. Há tam bém m uitos repórteres de j ornais e revistas, inclusive do Times de Nova York e The Times de Londres. Há repórteres de Der Spiegel, de Ham burgo, Aftonbladet, de Estocolm o, La Prensa, de Buenos Aires, Asahi Shimbun, de Tóquio, La Stampa, de Turim , Newsweek, de Nova York, Le Figaro, de Paris. Há até um padre-inform ante, com o o Vaticano cham a seus repórteres, fazendo a cobertura para L´Osservatore Romano.
A referência ao j ornal sem i-oficial da Cidade do Vaticano pareceu influenciar o bispo favoravelm ente.
— Talvez eu devesse com eçar com um a declaração pessoal sobre a im inente Reaparição.
— Não é necessário, excelência — disse o Padre Ruland. —Eu o levarei ao rostro e o apresentarei. E depois pedirei aos representantes da im prensa que levantem as m ãos se desej arem fazer perguntas. O senhor apontará determ inados repórteres ao acaso, cada um se levantará e form ulará sua pergunta. Responderá sucintam ente ou longam ente, conforne j ulgar m ais conveniente. Gostaria de alertar que algum as perguntas podem não ser m uito dignas...
— Não tem im portância — declarou o bispo. — Quanto tem po deverei conceder à im prensa?
— Em torno de m eia hora está bom — respondeu o Padre Ruland. — Mais tem po, se assim o desej ar. De qualquer m aneira, eu m e aproxim arei do atril ao final de m eia hora.
O bispo apalpou a cruz em seu peito e disse bruscam ente:
— Vam os entrar e acabar logo com isso.
Liz Finch, usando o seu costum e de linho azul-claro, estava sentada expectante na segunda fila do auditório, o bloco de anotações aberto no colo, a caneta na m ão, esperando que o sacerdote bem -apessoado, Padre Ruland, concluísse a apresentação do Bispo de Tarbes e Lourdes.
— Sua Excelência responderá agora a perguntas — anunciou o Padre Ruland pelo m icrofone. — Os que tiverem perguntas a apresentar, levantem a m ão, por favor, a fim de que lhe sej a concedida a palavra. Antes de form ularem a pergunta, por gentileza, inform em que veículo representam . E façam as perguntas o m ais claro e sucintam ente que for possível. Senhoras e senhores, passo agora a palavra ao Bispo de Tarbes e Lourdes.
O Padre Ruland afastou-se para o lado e depois recuou. Liz observou o bispo, um veterano de batina preta e cruz de ouro no peito, avançar para o m icrofone.
Enquanto outras m ãos se levantavam por todo o auditório lotado, ela m anteve as suas no colo. Só tinha um a pergunta a fazer e seria m elhor guardá-la para o final, depois que se acabasse com todas as bobagens devotas.
O bispo apontou para um hom em na prim eira fila, que prontam ente se levantou.
— Star, de Toronto, Canadá — disse ele. —O anúncio original foi de que a Virgem Maria reapareceria em Lourdes entre 14 e 22 de agosto. Estam os na m anhã de 16 de agosto. Com o podem os saber se ela j á não foi vista?
— O evento seria im ediatam ente anunciado depois que ocorresse. Obviam ente, ainda não aconteceu.
Outro hom em , ao lado do canadense, tam bém levantara a m ão e j á estava de pé.
— Mas tem certeza de que a Virgem Maria reaparecerá aqui em algum m om ento dos últim os cinco dias do Mom ento da Reaparição? — Um a breve pausa e ele acrescentou: — Die Welt, de Ham burgo.
O bispo exibiu um sorriso frio.
— Com o a Virgem confidenciou a data aproxim ada de seu retorno a Santa Bernadette, tenho certeza de que cum prirá a sua palavra.
— Mas Bernadette não teria calculado erroneam ente?
— Não — respondeu o bispo. — Bernadette foi exata em seu diário... este ano, este m ês, estes oito dias. — O bispo apontou para alguém num a das filas nos fundos. — O que desej a saber?
Um a j ovem levantou-se.
— Excelência, trabalho para Le Monde, de Paris. Quando a Virgem Maria aparecer, será vista por um a só pessoa ou por m ais?
O bispo deu de om bros.
— Não tenho m eios de responder. Se for com o aconteceu em 1858, a Virgem Maria será vista por um a só pessoa.
Liz Finch ouviu um m ovim ento e olhou para trás. O hom em sentado logo atrás dela se erguera.
— BBC, de Londres. A aparição se m ostrará apenas na gruta ou poderá ser vista em qualquer lugar de Lourdes?
O bispo respondeu:
— A m ensagem foi explícita em relação ao lugar e é provável que ela apareça dentro do dom ínio e, m ais ainda, na própria gruta. Afinal, é um lugar fam iliar.
Um a m ulher nos fundos foi apontada e se levantou.
— Messaggero, de Rom a. O que ela estará usando?
Liz Finch percebeu que o bispo reprim ia um sorriso enquanto respondia:
— Em questões de m oda, estou fora da m inha seara. — Houve risos no auditório, im ediatam ente suprim idos pela solenidade do bispo. — Bernadette originalm ente viu a Virgem Maria vestida de branco. Repito as palavras de Bernadette: "Vi um a Dam a vestida de branco, usando um vestido branco, um a faixa azul na cintura e um a rosa am arela em cada pé, da m esm a cor que a corrente de seu rosário. As contas do rosário eram brancas." —O bispo fez um a pausa e depois acrescentou, secam ente: — É im provável que a passagem de um século e um terço tenha afetado m uito a vestim enta da Dam a. Próxim a pergunta?
Um j aponês estava acenando e se levantando.
— Asahi Shimbun, de Tóquio. Já especularam sobre o que a Dam a possa ter a dizer à pessoa que a verá?
O bispo sacudiu a cabeça.
— Só Deus sabe... Deus, Seu Filho e a Virgem Maria. Mas quando acontecer, nos tam bém saberem os.
Liz Finch acom panhava atentam ente a irrealidade das perguntas e respostas.
— Excelência, sou de O Globo, do Rio de Janeiro. Excelência, nossos leitores gostariam de saber... quando a Virgem reaparecer, vai curar alguém que sej a inválido?
— Ela disse a Bernadette que o faria. Por outro lado, sabem os que, há m uito tem po, quando Bernadette estava doente, não foi curada, apesar de ter visto a Virgem Maria. Na verdade, Bernadette procurou a cura em outro lugar. — Liz Finch piscou os olhos, aturdida, pôs-se a escrever um a anotação, enquanto o bispo acrescentava: — A Virgem disse a Bernadette: "Não prom eto fazê-la feliz neste m undo, m as sim no outro."
— Excelência, represento The New York Times. No caso de um não-reaparecim ento... se a Virgem não se apresentar... isto é, se não for vista por ninguém ... qual será a posição da Igrej a?
— Senhor, não precisarem os assum ir qualquer posição. Acreditam os devotadam ente na Santa Mãe e ela prom eteu que aparecerá em Lourdes esta sem ana. Ninguém na Igrej a tem a m enor dúvida quanto a isso. Cada um de nós, dedicados a Deus, do Suprem o Pontífice da Igrej a Universal no Vaticano até o últim o de seus servidores, acredita fervorosam ente que a Im aculada Conceição reaparecerá em um dos próxim os cinco dias.
Liz Finch rem exeu-se em sua cadeira, os olhos fixados no m ostrador de seu relógio de pulso. Era o m om ento para a sua pergunta. Deveria apresentá-la antes que a entrevista term inasse. Muitas m ãos tentavam atrair atenção e Liz rapidam ente acrescentou tam bém a sua.
Para sua surpresa e alívio, o bispo apontou em sua direção. Ela se levantou.
— Bispo Pey ragne, sou da Am algam ated Press International, de Nova York, escritório de Paris. Tenho a seguinte pergunta a fazer. Levando-se em consideração a idade de Bernadette na ocasião das aparições... 14 anos, se bem m e lem bro, adolescente e analfabeta... não seria possível que o segredo que ela ouviu da Virgem Maria e anotou em seu diário particular fosse m ais... m ais um desej o do que algo concreto? — Ignorando o breve rebuliço na audiência, Liz reiterou a pergunta de outra form a: — Em sum a, Excelência, com o a Igrej a pode ter certeza absoluta de que a inform ação anotada por Bernadette em seu diário, sobre o reaparecim ento da Virgem este ano, este m ês, por estes dias, foi realm ente o que ela pensou ter ouvido?
O Bispo de Tarbes e Lourdes, de sua posição m ais elevada, olhava fixam ente para Liz. Houve um a pausa prolongada. E, finalm ente, ele declarou:
— Madam e, se nada m ais soubéssem os a respeito de Santa Bernadette, de um a coisa tem os certeza absoluta, além de qualquer possibilidade de dúvida. Bernadette era honesta, inflexivelm ente honesta. Foi exaustivam ente testada e nunca se descobriu qualquer contradição ou falha. Ela sem pre foi plenam ente sincera. Não procurava ganho m onetário nem fam a. Desej ava apenas ser a interm ediária de um a voz e um a m ensagem vinda do céu. Não registraria em seu diário qualquer coisa que a Virgem Maria não lhe tivesse dito. Só escreveria a verdade.
Escrevendo rapidam ente, Liz Finch sentiu que os olhos do bispo ainda a fixavam . Levantou o rosto e seus olhos se encontraram . Por um m om ento, o bispo ignorou as outras m ãos levantadas no auditório. Parecia ter m ais algum a coisa a dizer à própria Liz. Ele inclinou-se outra vez para o m icrofone.
— Deixem -m e acrescentar um a coisa. Conheço bem a história de Bernadette, m as não posso dizer que m e enfronhei em sua vida tão profundam ente quanto outros. Se há qualquer dúvida sobre a integridade de Bernadette, sugiro que falem com alguém que é um historiador de Lourdes e biógrafo de Bernadette. — Ele gesticulou para trás, apontando o Padre Ruland, sentado calm am ente entre Michelle e Jam et. — Sugiro que falem com o Padre Ruland. Tenho certeza de que ele poderá dissipar quaisquer dúvidas que porventura ainda tenham . — O bispo correu os olhos pela floresta de braços levantados. — E agora vam os continuar. Vej o que há m ais perguntas.
O Padre Ruland estava ao m icrofone, agradecendo aos j ornalistas e encerrando a entrevista.
O bispo, acom panhado por Jam et e Michelle, deixava o palco. Houve aplausos dispersos dos repórteres.
Liz Finch ficou observando o bispo se afastar, enquanto continuava a sentir em sua m ente a intensidade de seus olhos ardentes quando a fitara. Esses devotos, pensou ela, com seu fervor fanático! A força inflexível de sua fé fazia-a estrem ecer.
Depois, ela concentrou sua atenção no Padre Ruland, ainda ao m icrofone, contem plando os j ornalistas se retirarem . Ele parecia de algum a form a estar se dem orando ali por m ais tem po que o necessário e Liz especulou se não seria por sua causa.
Levantando-se, ela guardou na bolsa o bloco de anotações e a caneta, depois seguiu apressadam ente pelo corredor na direção do palco.
Parou diante do Padre Ruland, que parecia realm ente estar à sua espera.
— Padre, sou Liz Finch. Talvez se lem bre que o nosso bom bispo sugeriu que eu lhe falasse a respeito de Bernadette.
A boca do Padre Ruland se contraiu ligeiram ente.
— Claro que m e lem bro, Srta. Finch.
— Não poderia m e conceder alguns m inutos agora ou prefere m arcar um encontro para outra ocasião?
— Minha agenda está cheia de com prom issos, Srta. Finch, m as acho que posso lhe conceder neste m om ento 15 ou 20 m inutos. Isso seria suficiente?
— Seria, sim .
— Siga-m e, por favor.
Liz acom panhou o vulto im ponente até um austero escritório. O padre fez sinal a Liz para que se sentasse na cadeira diante da m esa e depois m eteu a m ão no bolso do paletó.
— Im porta-se se eu fum ar?
— Não, se tam bém não se im portar que eu fum e.
Ela se sentou, vasculhando a bolsa e pegando um cigarro no m aço e o isqueiro. Acendeu o cigarro. Ele se ocupava em pegar um a cigarrilha e acendê-la com um fósforo.
Liz observou-o atentam ente, tentando avaliá-lo. Se ele não fosse um padre, poderia ter-se transform ado num ídolo do cinem a. Era bastante viril e atraente para se desperdiçar no celibato. Os cabelos com pridos, cor de areia, os olhos um pouco enviesados, os lábios sensuais — o conj unto era sedutor. Mas Liz sentiu que havia ainda algo m ais. Um a suavidade m atizada por um toque de ceticism o. Talvez um padre político, além de historiador. Certam ente um padre com vivência do m undo. Mas o que ele estaria fazendo então num a cidadezinha provinciana com o Lourdes? Por que não em Rom a e na própria Santa Sé? Mas depois ela se lem brou que Lourdes era m ais do que um a m era cidadezinha provinciana, m uito m ais, um notável acessório do Vaticano. Ah tam bém havia ação, especialm ente naquela sem ana prolongada, um palco m unicipal de atração internacional. O papa saberia quem eram os seus servidores m ais eficientes ali. E não dem oraria m uito, com toda certeza, para que o Padre Ruland fosse transferido para Rom a, que era o lugar a que pertencia.
Liz saiu de seu devaneio para descobrir que o Padre Ruland se sentara à sua frente, fum ando a sua cigarrilha e observando-a com um a expressão ligeiram ente divertida.
Ela ficou desconcertada por um instante. Em pertigando-se na cadeira, deu m ais um a tragada no cigarro e depois inclinou-se para a frente, a fim de apagá-lo num cinzeiro de cerâm ica.
— Eu... eu estou contente que tenha podido m e receber, padre. Talvez sej a m elhor eu lhe dizer exatam ente quem sou, o que faço e o que estou procurando em Lourdes.
A voz do Padre Ruland soou indolente:
— Sei quem é, Srta. Finch, sei o que faz e sei o que está procurando aqui. Portanto, podem os passar por cim a de tudo isso.
— O que estou procurando? — indagou Liz, num tom de desafio.
— Está atrás de Bernadette — respondeu ele, j ovialm ente. — Quer desm ascará-la. Ou pelo m enos foi o que m e disseram antes da entrevista coletiva. E que ficou confirm ado por sua pergunta ao bispo. Acha que Bernadette é um a im postora. Talvez se sinta anim ada, Srta. Finch, se eu lhe disser que não é a única. Mesm o em sua época, pelo m enos no início das aparições, Bernadette foi alvo de m uitas dúvidas e diversas autoridades a consideraram um a im postora.
Ora, ora, pensou Liz, ele é com o um a serpente insinuante, um m estre na arte de desarm ar os interlocutores. A tática não era desconhecida a um a veterana entrevistadora. A franqueza absoluta que fazia os outros baixarem a guarda. E de repente... Pam!, um direto no queixo. Ela j á enfrentara antes m uitos Padres Rulands sem o colarinho clerical. Apesar de tudo, o que tornava a situação atraente e divertida era j ustam ente o fato dele usar um colarinho clerical e se m ostrar disposto a aliar-se a um a repórter inquisitiva para desacreditar um a santa da Igrej a.
— Fala sério? — disse Liz, aceitando o j ogo. — Alguns contem porâneos acharam realm ente que Bernadette não passava de um a im postora?
— Exatam ente. Depois de ter visto a prim eira aparição da dam a de branco, Bernadette tencionava guardar segredo. Não pretendia contar a ninguém sobre a visitação. Mas sua irm ã m enor, Toinette, conseguiu lhe arrancar toda a história. E contou para a m ãe, Louise: "Bernadette viu um a m ulher de branco na gruta de Massabielle." Louise quis saber o que precisam ente Bernadette vira. E ela falou à m ãe sobre a dam a. Louise, pensando nas dificuldades que a fam ília j á enfrentava... fracassos nos negócios, despej os de casas, o período que o m arido passara na prisão... deu um a surra furiosa em Bernadette, com um a vara, gritando: "Você viu apenas um a pedra branca. E eu a proíbo de voltar à gruta." O pai, François, tam bém proibiu Bernadette de retornar a Massabielle. Mesm o assim , três dias m ais tarde, depois de sua confissão ao Padre Pom ian, que levou m ais a sério a notícia da aparição, Bernadette voltou à gruta e viu a Virgem pela segunda vez. Ela caiu num transe tão profundo que foi necessário cham ar um adulto, um m oleiro, para pegá-la no colo e levá-la para casa.
— Mas os pais não acabaram aceitando?
— Acabaram , m as não im ediatam ente — disse o Padre Ruland. — No dia seguinte, quando a notícia chegou à escola de Bernadette, a m adre superiora quis saber se ela j á tinha acabado com aquelas "loucuras de carnaval". Um a das freiras chegou ao ponto de esbofetear Bernadette. Apesar disso, Bernadette foi atraída à gruta pela terceira vez, agora acom panhada por duas m ulheres curiosas, que lhe pediram que perguntasse à dam a de branco com o se cham ava. A aparição se apresentou pela terceira vez e Bernadette contou depois que perguntara à dam a de branco com o se cham ava, ao que ela respondera: "Não é necessário saber m eu nom e." E logo em seguida a dam a de branco acrescentara "Poderia fazer a gentileza de vir aqui por 15 dias?" Bernadette concordou. Na sexta visita, havia m ais de 100 pessoas para observar sua oração, inclusive a m ãe.
— Mas houve quem duvidasse das histórias da garota?
— Claro. Com o falei antes, houve pessoas im portantes em Lourdes que duvidaram de Bernadette, considerando-a um a im postora, um a sonhadora, um a garota ignorante sofrendo de alucinações. Um a dessas pessoas foi o com issário de polícia da cidade, Jacom et. Ele deteve a pequena Bernadette para um interrogatório. Depois de constatar que ela não tinha m ais que 14 anos, não sabia ler nem escrever, ainda não fizera a prim eira com unhão, Jacom et lhe disse: "Quer dizer então, Bernadette, que você vê a Virgem Santa?" Ao que a m enina respondeu bruscam ente: "Eu não falei isso. Nunca disse que vi a Virgem Santa." Jacom et exclam ou: "Ora, ora, m uito bem ! Você não viu nada!" Bernadette insistiu: "Eu vi alguma coisa... algum a coisa de branco... E essa coisa tem a form a de um a j ovem dam a." O com issário de polícia continuou a pressionar: "E essa coisa não disse a você que era a Virgem Santa?" Bernadette perm aneceu firm e. "Ela nunca m e disse isso." Jacom et prosseguiu interm inavelm ente no interrogatório. Por fim , perdeu a paciência e disse: "Todos estão rindo de você, Bernadette. Dizem que está m aluca. Para o seu próprio bem , é m elhor nunca m ais voltar à gruta." — O Padre Ruland inclinou-se para a frente, por cim a da m esa, enquanto continuava a falar: — Bernadette insistiu que precisava voltar, que prom etera à dam a de branco que voltaria por 15 dias. Jacom et escrevera tudo o que Bernadette relatara e passou agora a ler suas anotações para ela: "Você declarou que a Virgem lhe sorri." Bernadette protestou: "Eu não disse a Virgem ." Jacom et continuou a ler e Bernadette interrom peu-o de novo: "Senhor, m udou tudo o que eu falei." O com issário de polícia acabou perdendo o controle e gritou para Bernadette: "Sua tonta bêbada, m ulherzinha descarada, pequena ram eira! Está fazendo todo m undo correr atrás de você!" Bernadette respondeu calm am ente: "Não digo a ninguém para ir até lá." Mas Jacom et continuaria a se opor a Bernadette e ela continuaria a desafiá-lo.
Liz Finch não podia deixar de ficar im pressionada.
— Ela era um a garotinha coraj osa.
O Padre Ruland acenou com a cabeça em concordância.
— Ela viu o que viu e se m anteve inabalavelm ente firm e na descrição de sua visão.
Liz queria saber m ais sobre a oposição.
— E havia outros em Lourdes na ocasião, pessoas respeitadas, que tam bém consideravam Bernadette com o um a im postora?
— Havia m uitos — confirm ou o Padre Ruland. — O Prom otor Im perial Dutour interrogou-a. Queria a sua prom essa de que não voltaria à gruta, j á que isso estava transtornando a com unidade. Bernadette respondeu que j á prom etera à dam a que iria até lá. Dutour disse, com toda certeza asperam ente: "Um a prom essa feita a um a dam a que ninguém vê não vale nada. Deve se m anter longe da gruta." Bernadette insistiu: "Sinto um a grande alegria quando vou lá." Dutour não desistiu: "A alegria é m á conselheira. Em vez disso, escute as freiras, que j á lhe disseram que tudo não passa de um a ilusão." Bernadette declarou que sentia-se atraída à gruta por um a força irresistível. Dutour am eaçou-a de prisão, m as finalm ente desistiu. Diversos padres tam bém interrogaram Bernadette. Um deles, um j esuíta, Padre Negré, insistiu que ela vira o diabo. Bernadette respondeu: "O diabo não é tão bonito quanto ela." Houve até com entários na cidade, entre os incrédulos, de que ela poderia ter enlouquecido...
— Enlouquecido? — repetiu Liz, surpresa.
— Isso m esm o. Assim , no m om ento oportuno, três m édicos bastante conhecidos em Lourdes foram convidados a exam inar Bernadette. Foi o que fizeram . Descobriram que se tratava de um a garota nervosa e era asm ática. Mas nada tinha de insana, era m entalm ente norm al. Os m édicos descartaram as visões com o um a alucinação infantil que não era tão rara assim . A respeito da prim eira visão de Bernadette, os m édicos disseram : "Um reflexo de luz, sem a m enor dúvida, atraiu sua atenção no lado da gruta; sua im aginação, sob a influência de um a predisposição m ental, deu-lhe um a form a que im pressiona as crianças, a das im agens da Virgem que se vê nos altares." Os três m édicos concluíram que Bernadette, assim que as m ultidões deixassem de segui-la e dispensar sua atenção, esqueceria a ilusão e retom aria a sua vida cotidiana, voltaria à rotina de sem pre.
O Padre Ruland fez um a pausa, sorrindo.
— O que nos m ostra com o os m édicos podem se enganar... ou podiam , naquele tem po. Mas a resistência m ais im portante à história de Bernadette veio do principal sacerdote de Lourdes...
— Padre Pey ram ale — interveio Liz, a fim de que Ruland soubesse que se preparara de algum a form a e não estava totalm ente desinform ada.
— Isso m esm o, Pey ram ale — confirm ou o Padre Ruland. — Desde o início, ele fora o que m ais duvidara. Não podia sim plesm ente levar a sério as visões de Bernadette. Era um hom em corpulento, na casa dos 50 anos, im paciente, irritadiço, em bora decente e bondoso por baixo. Foi depois da 13º. aparição que Bernadette se apresentou ao Padre Pey ram ale, acom panhada por duas tias. Tinha um a m ensagem da dam a na gruta. A m ensagem era a seguinte: "Vá e diga aos padres que as pessoas devem vir aqui em procissão e que se deve construir um a capela." O Padre Pey ram ale não se deixou im pressionar. Perguntou a Bernadette, sarcasticam ente: "Não é você quem está sem pre indo à gruta? E diz que vê a Virgem Santa?" Mas Bernadette não se dobrou: "Eu não disse que é a Virgem Santa." Pey ram ale indagou: "Então quem é a dam a?" Bernadette respondeu: "Não sei." Pey ram ale perdeu o controle: "Não sabe, hem ? Sua m entirosa! Aqueles que vão correndo atrás de você e os j ornais dizem que você alega ter visto a Virgem Santa. O que vê afinal?" Bernadette respondeu: "Algum a coisa que parece com um a dam a." Pey ram ale bradou: "Algum a coisa! Essa não! Um a dam a! Um a procissão!" Ele lançou um olhar furioso para as tias, que expulsara de um a sociedade da igrej a, por engravidarem ainda solteiras, e lhes disse bruscam ente: "É lam entável existir um a fam ília assim , que cria tantos problem as na cidade. Mantenham -na sob controle e não perm itam que ela provoque m ais qualquer confusão. E agora sum am daqui!"
— Bernadette era m esm o responsável por algum a perturbação da ordem ? — perguntou Liz.
— As m ultidões na gruta estavam aum entando. A princípio, apenas um as poucas pessoas assistiam aos transes de Bernadette, depois 150, 400 e logo 1.500 testem unhavam suas visões. E chegou um m om ento em que j á havia 10 m il pessoas se reunindo diante da gruta.
— Ela tornou a se encontrar com o Padre Pey ram ale?
— Muitas vezes — respondeu Ruland. — Na própria noite em que ele a expulsou da igrej a, Bernadette voltou a procurá-lo. Pey ram ale se acalm ara um pouco e tornou a interrogar Bernadette a respeito da dam a. "Ainda não sabe qual é o nom e dela?" Bernadette respondeu: "Não, Reverendo Padre." Pey ram ale aconselhou-a: "Deve então perguntar a ela." Depois da 14? aparição, Bernadette voltou a procurá-lo e disse: "Reverendo Padre, a dam a ainda quer a capela." Pey ram ale quis saber: "Perguntou o nom e dela?" Bernadette disse: "Perguntei, sim , m as ela apenas sorriu." Provavelm ente, Pey ram ale tam bém sorriu. "Ela está se divertindo à sua custa. Se ela quer m esm o a capela, pois então que diga seu nom e a você." Quando viu a dam a pela 16º. vez, Bernadette lhe perguntou ousadam ente: "Madam e, pode fazer o favor de m e dizer quem é?" Segundo Bernadette, a dam a inclinou a cabeça, sorriu, bateu palm as e respondeu: "Sou a Im aculada Conceição." Bernadette foi ao encontro do Padre Pey ram ale e repetiu o que ouvira. Pey ram ale ficou aturdido. "Um a m ulher não pode ter esse nom e. Você deve estar enganada. Sabe o que isso significa?" Bernadette não tinha a m enor ideia do que significava. Na verdade, o dogm a da Im aculada Conceição da Abençoada Virgem Maria... de que a pureza de Cristo no nascim ento estendeu à sua m ãe Maria... era altam ente sofisticado, anunciado pelo papa apenas quatro anos antes, a fim de aj udar a criar um renascim ento religioso. Parecia im possível que um a garota analfabeta e tão ignorante quanto Bernadette pudesse saber algum a coisa a respeito. O Padre Pey ram ale ficou im pressionado. Na m inha opinião, desse m om ento em diante Pey ram ale deixou de ser um incrédulo. Passou a acreditar em tudo que Bernadette lhe contara e continuaria a dizer. Ficou do lado dela, tornou-se um dos seus principais partidários.
— E isso resolveu tudo — com entou Liz.
— Não foi bem assim — disse o Padre Ruland. — Mas a conversão de Pey ram ale foi de fato um fator decisivo. Houve tam bém outros fatores que dissiparam as dúvidas e fizeram a balança pender em favor da honestidade de Bernadette. Houve o cético Dr. Dozous, que foi à gruta para observá-la, viu-a segurar um a vela acesa nas m ãos, enquanto a cham a lam bia seus dedos. Depois, quando exam inou as m ãos de Bernadette, o m édico não encontrou qualquer sinal de queim adura. Houve o altam ente respeitado coletor de im postos, Jean-Baptiste Estrade, que escarneceu de Bernadette até que a viu na gruta e achou que o seu desem penho era m elhor que qualquer um da grande atriz francesa Rachel. Isso convenceu-o de que ela era sincera. Estrade deixou a gruta afirm ando: "Aquela m enina tinha à sua frente um ser sobrenatural." E houve ainda a sucessão dos prim eiros m ilagres.
— Que m ilagres? — indagou Liz.
— O filho de um vendedor de tabaco que era cego de um olho. Bebeu da água da fonte que Bernadette descobrira e passou a ver com os dois olhos. Houve Catherine Latapie, que caíra de um a árvore e ficara com a m ão direita parcialm ente paralítica. Na gruta, depois de m ergulhar a m ão na água, a paralisia desapareceu. Houve Eugénie Troy, quase cega, com os olhos vendados. Abraçou Bernadette e ficou curada. Talvez a cura m ais fam osa tenha sido a do filho de dois anos de Napoleão III, herdeiro do trono da França, que sofrerá um a grave insolação em Biarritz. Havia o tem or de que a insolação pudesse levar à m eningite. Sua governanta foi a Lourdes, falou com Bernadette, encheu um a garrafa com água da fonte e salpicou-a no príncipe doente. Com isso, a insolação acabou. E com isso o im perador ordenou que Lourdes e a gruta fossem abertas livrem ente ao público. Desse m om ento em diante, tornou-se o santuário m ais frequentado do m undo ocidental.
— Parece-m e que as curas foram as verdadeiras responsáveis por isso — com entou Liz.
O Padre Ruland deu de om bros e acrescentou suavem ente:
— Pense o que quiser das curas, m as saiba que a própria Bernadette nunca lhes atribuiu grande im portância. Era um a garota m uito doente, com o sabe, sofrendo de asm a e desnutrição. Quando estava extrem am ente doente, não foi à gruta. Não tinha fé em seus poderes curativos. Em vez disso, viaj ou para a aldeia de Cauterets, a 30 quilôm etros daqui. Era um a estação de águas e ela foi até lá para os banhos term ais. Mas não puderam curá-la.
— Mesm o assim , Bernadette foi para lá.
— Porque o lugar era altam ente considerado em seu tem po.
— Talvez eu dê um pulo até lá.
— Não é m uito interessante. Mas, se for m esm o, procure conhecer a igrej a, Notre-Dam e de Cauterets, especialm ente a capela m oderna em seu interior, a Chapelle Sainte Bernadette. Peça ao padre local para m ostrar-lhe... esqueci o seu nom e... acho que é Padre Cay oux, m as não tenho certeza. Mas, repito, não há m uita coisa para se ver. — O Padre Ruland fez um a pausa, pegando a caixa e tirando outra cigarrilha. — Sej a com o for, há toda um a série de eventos que levaram Lourdes a ser o que é hoj e, com um a sucessão de curas de m uitas pessoas, com exceção da própria Bernadette.
Liz vinha anotando algum as coisas. Largou agora o bloco e a caneta, lentam ente, deixando transcorrer uns poucos segundos de silêncio e depois perguntando, inocentem ente:
— Não houve m ais algum a coisa que tornou a gruta fam osa?
— Mas algum a coisa?
— Li que a política desem penhou um papel de grande im portância em sua fam a.
— Política... — repetiu o Padre Ruland, franzindo a testa. — Ah, sim , está se referindo à confrontação pelo controle entre Pey ram ale e o Padre Sem pé. É isso?
— Acho que sim . O que aconteceu?
— Tentarei resum ir ao m áxim o. O bispo da área, cham ado Laurence, designou um a com issão de inquérito para investigar o caso. A com issão concluiu que as visões de Bernadette haviam sido autênticas. O bispo achou que Pey ram ale era m uito provinciano para ser o prom otor de Lourdes. O bispo designou quatro m em bros da ordem próxim a de Garaison, liderados pelo Padre Sem pé, para assum ir o controle de Lourdes e do santuário. Os planos de Pey ram ale se lim itavam à construção de um a basílica por cim a da gruta, m as o Padre Sem pé im aginava Lourdes com o o grande centro m undial de peregrinações. Ele e sua ordem ofuscaram Pey ram ale em sua ânsia de grandeza. Criaram , nos arredores de Lourdes, o Dom ínio de Nossa Senhora. Construíram esplanadas, prom overam procissões, com pletaram as basílicas. Com bateram Pey ram ale, acabaram destruindo sua reputação e converteram o santuário no que é hoj e. É a isso que estava se referindo quando falou em política?