O Milagre
Capítulo 3
Veneza, Londres e Madri
A últim a vez em que ela em barcara num a lancha particular, num cais próxim o do Aeroporto Marco Polo, seguindo para o Hotel Danieli Roy al Excelsior, em Veneza, fora num a deslum brante m anhã de sol, três anos antes. Natale Rinaldi lem brava-se nitidam ente daquela m anhã. A viagem m aravilhosa na lancha, passando por cam pos e pântanos, ilhotas incontáveis, a entrada num canal, os prédios úm idos, de um cinza-suj o, nos dois lados, a saída na laguna principal, trem eluzindo, o espetacular Hotel Danieli, com as varandas brancas em m iniatura se proj etando em cada andar.
Fora um estranho retorno a Veneza naquela m anhã, em total escuridão, em bora sua Tia Elsa lhe garantisse que a m anhã estava tão ensolarada quanto em sua últim a visita.
A escuridão envolvera perm anentem ente o m undo de Natale um a sem ana depois que voltara ao apartam ento dos pais em Rom a, ao térm ino daquelas férias em Veneza, três anos antes. Ensaiara durante a tarde inteira e pelo início da noite no Teatro Goldini para o seu papel com o a Enteada em Seis Personagens à Procura de um Autor, de Pirandello, parte do repertório de outono e sua prim eira oportunidade real. Fora para o apartam ento e seu quarto exausta, m as estim ulada pelas predições do diretor sobre o que o futuro lhe reservava. Deitando-se, contem plara reconfortada o papel de parede de padrões beges que a cercava — conhecia-o desde a infância — apagara o abaj ur e fechara os olhos. Quando o despertador tocara, às nove horas da m anhã, e abrira os olhos, descobrira-se perdida na escuridão. A princípio, confusa, não fora capaz de com preender, m as depois concluíra que perdera a visão. De algum a form a, em algum m om ento da noite, ficara totalm ente cega. E se pusera a gritar. Seria a prim eira e últim a vez que se entregaria ao pânico.
Os pais frenéticos levaram -na às pressas para um hospital. O m elhor oftalm ologista de Rom a fora cham ado. Houvera um exam e de fundo de olho. E oftalm oscopia. Muitas sem anas de exam es, a fim de determ inar a causa da cegueira. Houvera a discussão sobre um a obstrução na artéria retiniana central. E, finalm ente, o veredicto: atrofia ótica, abrupta, sem qualquer possibilidade de recuperação da visão.
Três anos antes, quando acontecera, Natale ficara assustada e profundam ente abalada, m as não destruída. Aos 21 anos, antes da súbita escuridão, era um a m oça alegre, j ovial, otim ista. Com o os pais católicos, acreditava inquestionavelm ente em Deus, Seu Filho e o Espírito Santo. O Senhor sabia o que era m elhor e velaria por ela.
Desde o início da cegueira que Natale se recusara a vergar ou m ergulhar no desespero e autocom paixão. Decidira resolutam ente ser tão independente e j ovial quanto possível. Em bora forçada a renunciar à sua prom issora carreira no teatro, tentara m anter a vida que conhecia. Rej eitando um cão de guia, recusando um a bengala branca, estim ulara sua Tia Elsa a guiá-la e ensinar com o se m ovim entar por conta própria, no apartam ento, na rua, na loj a de antiguidades que os pais possuíam na Via Veneto. Tia Elsa, a irm ã m ais m oça de sua m ãe, fora um a com panheira perfeita, um a solteirona realista e prática, chegando aos 50 anos. Natale am ava os pais, m as fora difícil enfrentar as em oções deles. Adorava Tia Elsa, que era sólida e estável. Ela continuara a visitar os am igos e a ir ao cinem a, concentrando-se nos diálogos. Mudanças superficiais incluíram a adoção de óculos escuros em todos os m om entos, o, aprendizado de Braille e a assinatura de um serviço de Livros Falados. Quanto à igrej a, passara a frequentar a m issa m ais assiduam ente e a rezar m ais vezes quando estava sozinha. O m aior sacrifício fora se negar os encontros e passeios com hom ens a sós. Sem pre houvera m uitos, provavelm ente por causa de sua beleza, m as com a sua desvantagem não quisera se envolver m ais a fundo, a fim de não se tornar o fardo de alguém .
Naquele verão, pela prim eira vez desde a cegueira, sentira vontade de tirar férias, voltar a Veneza por algum as sem anas, a últim a cidade além de Rom a que vira e am ara antes da perda da visão. Por m ais com preensivos e indulgentes que os pais fossem , nenhum dos dois pudera acom panhá-la a Veneza, em plena tem porada turística de Rom a, o período m ais m ovim entado do ano. Mas concordaram que Tia Elsa, que era a gerente da loj a, podia levar Natale.
Agora, no quarto fam iliar da suíte de dois côm odos no terceiro andar do Hotel Danieli, Tia Elsa desfazia as m alas, enquanto Natale se postava na frente das duas cam as, cantando ao trocar de roupa, em preparativo para a prim eira incursão pelas ruas.
Natale j á pusera jeans e cam isa de m alha j usta (sabendo, por tatear a costura interna, que era a atraente am arela, que tão bem contrastava com seus cabelos escuros, lustrosos e lisos). Com dedos firm es, aj eitou os cabelos e prendeu-os na nuca com um a fita. Tateou pela cam a em busca dos óculos escuros, aj ustou-os sobre o nariz pequeno, m as perfeito. Virou-se na direção das m alas e perguntou:
— Estou bem , Tia Elsa? Está tudo direito?
— Está perfeita e linda, com o sem pre.
— Não está sendo preconceituosa?
— Sem pre lhe disse que poderia ganhar qualquer concurso de beleza. Por que não? Saiu a m im .
Natale riu, lem brando que sua atarracada Tia Elsa, com seus cabelos pretos desgrenhados e um princípio de bigode, sem pre achara que todos os outros eram bonitos.
Natale ouviu a tia se aproxim ar, gostou do abraço afetuoso da com panheira, da testa com prim ida contra seu rosto. Tia Elsa tinha l,58m de altura, enquanto Natale possuía, l,68m , esguia e graciosa. Ela pegou o braço de Tia Elsa.
— Vam os sair. Pode term inar de arrum ar as coisas depois. Quero ver Veneza outra vez. — Ela sentiu que Tia Elsa estrem ecia inconscientem ente ao uso da palavra "ver" e acrescentou, determ inada: — Isso m esm o, tia, verei tudo se m e apontar as coisas. Lem brarei com toda exatidão.
— Está certo — disse Tia Elsa. —- Já estou pronta.
— Irem os à Piazza — decidiu Natale, pegando sua bolsa, estendida pela tia. — Quero tom ar um suco de fruta no Quadri, dar um a volta pela Mercerie e depois alm oçar no Harry 's Bar.
Deixando a suíte, Natale não perm itiu que a tia a guiasse. Partindo de um ponto fixo fam iliar, a suíte, sentia-se segura. Estivera em Veneza e no Danieli m uitas vezes, com os pais, durante a adolescência. A últim a visita, três anos antes, ainda estava fresca em sua m ente. Segurando na grade, ela desceu alguns passos à frente de Tia Elsa, recordando que o lanço seguinte da escada, term inando no saguão, era de m árm ore. No saguão, ela andou m ais devagar, perm itindo que Tia Elsa a alcançasse. Sorrindo, acenava com a cabeça em resposta aos cum prim entos de vários dos funcionários m ais antigos, que haviam -na conhecido ao longo dos anos e agora estavam inform ados de seu estado. Lá fora, na Riva degli Schiavoni, Natale perguntou:
— Com o é o dia? Sei que está quente e um pouco abafado.
— O sol está fora, m as o dia é nebuloso. Fará bastante calor por volta de m eio-dia.
— Tem m uita gente?
— Enxam es de
turistas. Muitos alem ães, britânicos, um grupo de j aponeses. Saberá de tudo quando chegarm os à ponte.
A ponte form ava um a arcada sobre um canal, a Ponte delia Paglia, na qual os visitantes sem pre se concentravam para fotografar a Ponte dos Suspiros, a passagem alta à direita, que levava do Palácio dos Doges às m asm orras ducais, de onde Casanova escapara certa ocasião. Quando adolescente, Natale lera as passagens proibidas das Mémoires de Casanova e se perguntara o que o convertera num am ante tão legendário ou se tudo não passava de autoprom oção. Fantasiara Casanova a am á-la e concluíra que era a variedade que ele oferecia, assim com o a sua resistência, que excitara tantas m ulheres, de todas as classes sociais.
As duas andavam em m eio a um incessante burburinho de vozes em m uitas línguas. Natale sentiu de repente a pressão da m ão de Tia Elsa em seu braço.
— Tem ali três rapazes, creio que locais, que pararam e estão olhando para você, estupefatos.
— Por que sentem pena de m im ?
— Eu disse estupefatos, sua estúpida. Eles não sabem que há qualquer m otivo para sentir pena. Só podem ver um a m oça deslum brante, com um sutiã inadequado por baixo de um a blusa de m alha que parece grudada na pele. Estão im pressionados.
— Claro, claro... — m urm urou Natale, com o se não acreditasse, em bora se sentisse bastante satisfeita.
— Estam os na ponte. Vam os subir.
A Ponte delia Paglia estava apinhada, com o sem pre acontecia. Mas desta vez Natale encontrou algum prazer nos esbarrões e cotoveladas, ao chegarem lá em cim a. Foi m ais fácil descer e atravessar a calçada na direção das duas colunas de granito da Piazzetta. Natale podia im aginar o lado colunado do Palácio dos Doges, à direita, enquanto à esquerda estavam as gôndolas pretas atracadas, balançando suavem ente, tendo além o m agnífico San Cij orgio Maggiore, em ergindo da laguna faiscante.
— Há um a porção de stands de livros e vendedores ao longo tio palácio ducal — com entou Tia Elsa.
— Sem pre tem .
Natale podia recordar que fora vasculhando aqueles stands que encontrara pela prim eira vez By ron, Stendhal e Ruskin em brochuras italianas, devorando-os vorazm ente.
— O Caffè Chioggia não está m uito cheio neste m om ento — disse Tia Elsa.
Natale im aginou o com prido café com as m esas ao ar livre, estendendo-se do Palácio dos Doges, onde outrora flertara com um tím ido rapaz am ericano, que tivera receio de abordá-la.
— Já estam os na Piazza San Marco? — perguntou ela.
— Quase lá. Nada m udou. Lá está o Cam panile, alto com o sem pre. Os quatro cavalos de bronze ainda estão por cim a da fachada da Basílica. A Piazza está... você sabe... m ovim entada com o sem pre, os pom bos andando a bam bolear à procura de m ilho, alçando vôo quando as crianças os perseguem . É a m esm a coisa, Natale, Veneza nunca m uda.
— Graças a Deus.
— Quer sentar um pouco?
— Seria bom . Estou com sede.
— Ainda quer ir ao Quadri? A m úsica acaba de com eçar ali.
— Isso m esm o, vam os sentar no Quadri. Inexplicavelm ente, o Quadri, com suas pequenas m esas circulares cinzas e cadeiras de vim e am arelas, um pequeno coreto nos fundos, sem pre fora o seu café predileto. O Caffè Lavena, ao lado, parecia ter m enos personalidade, enquanto o Florian, no outro lado, em bora o m ais antigo dos cafés da Piazza, construído em 1720, frequentado por Lord By ron, sem pre dava a im pressão de receber sol dem ais. Mas o Quadri, em sua últim a visita, fora o m ais repousante.
Estavam atravessando a Piazza San Marco e Natale podia ouvir os gritos das crianças e o barulho dos pom bos alçando vôo. Torceu para não pisar em nenhum , m esm o sabendo que isso j am ais acontecera com pessoa algum a.
Aparentem ente, haviam chegado ao Quadri, pois Tia Elsa estava dizendo:
— Há um a m esa vaga ali na som bra.
Natale deixou que Tia Elsa lhe pegasse a m ão e a conduzisse entre as m esas. Parando, Natale tateou à procura da cadeira, sentou-se e ficou escutando a m úsica, enquanto Tia Elsa pedia um suco de toranj a para a sobrinha e um a Coca-Cola com um a fatia de lim ão para si m esm a.
Estavam tom ando os refrescos em silêncio, Natale contente por se encontrar em Veneza, não se perm itindo um m om ento sequer de infelicidade por não poder ver a cidade outra vez, pensando que j á era m aravilhoso estar viva (na verdade, apenas sem iviva, m as ela reprim iu tal pensam ento), quando o clangor m etálico de um sino próxim o fê-la se em pertigar na cadeira. Só podiam ser os m ouros m ecânicos por cim a de suas cabeças, no alto da Torre do Relógio, batendo no enorm e sino.
— Que horas são? — perguntou Natale.
— Exatam ente um a hora. Tarde dem ais para fazer com pras na Mercerie. A m aioria das loj as estará fechada até as três. Mas algum as podem estar abertas.
— Vam os deixar para depois. Quero ir logo para o Harry 's Bar. Estou fam inta e lá é sem pre m ais fresco.
Enquanto esperava que a tia pagasse a conta, Natale ouviu passos pesados e sentiu um a presença parar ao seu lado. Instintivam ente, levantou os olhos, enquanto ouvia um a sonora voz m asculina de barítono dizer:
— Perdoe-m e, m as j ulguei reconhecê-la. Não é a Srta. Rinaldi, de Rom a?
Aturdida, Natale assentiu.
— Sou o Signore Vianello. Peço outra vez que m e perdoe, m as não pude resistir a m e certificar e cum prim entá-la.
— Vianello... — repetiu Natale, confusa.
— Sou produtor teatral em Rom a. Estou aqui em férias. Eu a vi pela prim eira vez... e tinha certeza de que era a m esm a atriz... num ensaio de um a peça de Pirandello, no Teatro Goldini, há vários anos. Fui levado por um am igo, não m e lem bro quem . Mas não pude esquecê-la. — Ele hesitou por um instante e depois acrescentou: — Não quero interrom pê-las...
Natale apressou-se em apresentar Tia Elsa e depois m urm urou:
— Obrigada.
— Eu esperava vê-la na noite de estreia, m as não estava m ais no elenco — continuou o produtor. — Soube depois que se aposentara. — Ele fez um a pausa, rindo. — Aposentadoria, para alguém tão j ovem ? Sej a com o for, eu m e lem brei ao vê-la aqui na Piazza.
Natale tencionava detê-lo, m as aquele Vianello parecia incontrolável e continuou:
— Tenho um a peça nova que planej o produzir. Escolherei o elenco dentro de um m ês. E há um papel perfeito para você, se estiver interessada.
Natale não podia perm itir que aquela conversa se prolongasse por m ais tem po e disse, abruptam ente:
— Será que não percebe, Signore Vianello? Estou cega.
— Você está...?
Ela ouviu-o respirar fundo bruscam ente, com preendeu que ele estava desconcertado, totalm ente em baraçado.
— Lam ento m uito — acrescentou Natale.
— Eu não tinha a m enor ideia... — E Vianello balbuciou o resto: —Parece... parece... m elhor do que nunca. Mas m uitas dessas coisas são tem porárias. Tenho certeza de que vai recuperar... a visão com pleta. Se isso acontecer, quero que m e procure. Deixarei m eu cartão. Aqui está.
Natale estendeu a m ão para pegar o cartão, m as aparentem ente o produtor o entregara a Tia Elsa.
— Obrigada, Signore Vianello — disse Tia Elsa. — Talvez as coisas m udem . Se isso ocorrer, lem brarei à Srta. Rinaldi.
— Faça isso, faça isso... — m urm urou o Signore Vianello. — Espero rever as duas. Divirtam -se nas férias.
Seguiu-se o silêncio. Ao que tudo indicava, o Signore Vianello batera em retirada às pressas. Natale sentiu a m ão da tia em seu antebraço.
— Vam os para o Harry 's Bar. Ainda contrariada, Natale disse:
— Não sei se ainda estou com fom e.
— Pois então beberem os algum a coisa lá — disse Tia Elsa, forçando Natale a se levantar. — Vam os em bora.
Natale deixou que Tia Elsa a guiasse para a Piazza. Podia ouvir os m alditos pom bos. Sentiu que Tia Elsa lhe soltava o braço.
— Espere um instante. Lá está um hom em com Il Gazzettino. Vou com prar.
Quando a tia se encontrava outra vez ao seu lado, com o j ornal veneziano, com eçando a afastá-la, Natale perguntou:
— Onde estam os exatam ente?
— Na frente da Basílica, a cam inho da Piazzetta. E de lá virarem os à direita para chegar ao Harry 's Bar.
— A Basílica... — repetiu Natale, apaticam ente. — Está aberta?
— Claro.
— Quero entrar.
— Tem certeza?
— Por um m om ento... Quero rezar.
Tia Elsa, que não sentia a m enor afeição por igrej as, declarou em tom resignado:
— Está certo, se isso aj udá-la a esquecer aquele idiota.
— Ele não fez nada de errado, Tia Elsa. O pobre coitado não sabia. Na verdade, eu deveria estar m e sentindo bem por ele ainda se sentir atraído por m im . Apenas senti um a angústia m om entânea... pelo que m e falta. Podem os entrar na igrej a?
Natale seguiu com Tia Elsa pela escuridão, sentindo as tábuas sob seus pés, escutando os passos e as vozes abafadas. Depois de fazer um a genuflexão, foi para um dos bancos e aj oelhou-se. Rezou ao Deus que não podia acreditar que fosse capaz de abandonar alguém . A breve com unicação com seu Criador acalm ou-lhe os nervos, deixou-a outra vez serena. Levantou-se, sussurrando:
— Tia Elsa?
— Estou aqui.
— Vam os alm oçar.
Ela saiu com Tia Elsa para a escuridão do dia.
Segurava a m ão de Tia Elsa enquanto atravessavam a Piazzetta. Tentava desesperadam ente reconstituir o cenário ao longo do canal. Só falou um a vez, ao passarem pelo Giardinetti, especulando em voz alta.
— A velha com todos os gatos ainda está aqui?
— Está bem ali, alim entando a todos.
— Há gente boa neste m undo.
Enquanto passavam pelo term inal aéreo, contornando-o, atravessando a pequena ponte, esbarrando em pessoas que vinham apressadam ente da estação do vaporetto de San Marco, Natale ficou pensando que se Deus podia encontrar alguém para tom ar conta de gatos perdidos, por que não podia dem onstrar m isericórdia com ela, proporcionando a algum m édico um m eio recentem ente descoberto de curá-la? Era um m om ento raro de autocom paixão e desânim o. Ao chegarem às portas de vaivém do Harry 's Bar, ela sentia-se envergonhada e pesarosa por seu lapso, determ inada a tirar o m áxim o proveito do sim ples fato de estar viva.
Lá dentro, ficou aliviada ao constatar que estava realm ente m ais fresco, que não havia um a m ultidão a se acotovelar ou vozes estridentes.
— Tem pouca gente alm oçando aqui hoj e — sussurrou Tia Elsa. — Tem os o lugar quase todo só para nos.
Natale ouviu o bartender dizer, do lado esquerdo:
— É um prazer tornar a vê-la, Srta. Rinaldi.
— É m uito bom estar aqui de novo, Aldo.
Tia Elsa falava com alguém , provavelm ente um garçom , dizendo:
— Ficarem os naquela m esa do canto, contra a parede dos fundos.
Segurando a m ão da tia, Natale avançou entre as cadeiras e m esas, esbarrando em algum as. Sentiu um a pontada de angústia, recordando as m esinhas redondas laqueadas e as cadeiras pequenas, as pessoas fascinantes que conhecera ali, as refeições que tanto desfrutara. Ao se acom odarem na m esa do canto, o garçom disse.
— Sou Luigi. Lem bra de m im ?
Natale sorriu, recordando o garçom bonito, de covinhas, sem pre m aravilhosam ente divertido e am ável.
— Estou contente, Luigi. Já faz m uito tem po.
— Soubem os de sua doença, Srta. Rinaldi — disse ele, gentilm ente. — Tenho certeza de que estará m elhor um dia. Todos aqui rezam os por sua recuperação.
— Você é m aravilhoso, Luigi, e fico grata por suas orações. A voz de Tia Elsa interveio, firm em ente:
— Creio que podem os com eçar por dois Bellinis, Luigi.
— Im ediatam ente — prom eteu o garçom , afastando-se. Natale ficou esperando pelo drinque de suco de pêssego e cham panha, algo de que bem precisava. Ouviu a tia riscar um fósforo para acender um cigarro, aspirar a fum aça que flutuou em sua direção, a seguir escutou-a descrever as poucas pessoas que se encontravam no restaurante. Pouco depois, Natale ouviu Luigi voltar a pôr os drinques na m esa, dizendo:
— Dois Bellinis. Espero que estej am ao gosto.
Pegando o copo, Natale tom ou um gole. O Bellini estava gelado e revigorante. Ouviu a tia abrir o j ornal.
— O bom e velho Il Gazzettino — com entou Tia Elsa. — Deixe-m e ler as últim as notícias.
Norm alm ente, todos os dias, alguém , o pai ou Tia Elsa, lia o j ornal para ela, a fim de m antê-la viva, envolvida, parte do m undo em ebulição. Hoj e, Natale não estava com ânim o.
— Agora, não. Neste m om ento, não estou interessada.
— Você precisa se reanim ar, Natale — disse Tia Elsa, num tom de suave censura. — Deve...
A tia parou de falar, de súbito. Estava obviam ente lendo algum a coisa no j ornal. E, depois, exclam ou.
— Ei, im agine só!
— O que é — m urm urou Natale, desinteressada.
— A Virgem Maria. A história de Lourdes na França. A Virgem Maria deve voltar a Lourdes.
A princípio, Natale não entendeu.
— Do que está falando?
— Deixe-m e ler o que está escrito aqui. — Lim pando a garganta, Tia Elsa com eçou a ler em voz alta a notícia do j ornal: — "Segundo um diário secreto m antido por Bernadette Soubirous, agora Santa Bernadette, falecida em 1878, registrando as 18 aparições da Virgem Maria, a quem ela viu e conversou na gruta cham ada Massebielle, em Lourdes, na França, a Virgem Maria confidenciou à pequena cam ponesa que retornaria à gruta nos oito dias subsequentes a 14 de agosto deste ano. A Virgem Maria teria prom etido a Bernadette que não apenas retornaria para ser vista por alguém na gruta, m as tam bém curaria alguém que estivesse doente. Este relato no diário particular de Bernadette, recentem ente descoberto, foi plenam ente autenticado por um a nova Com issão de Lourdes. O anúncio, feito num a entrevista coletiva ontem pelo Cardeal Brunet, de Paris, autorizado pelo Papa João Paulo III, em ocionou um a grande concentração de representantes da im prensa m undial. Provocou um m ovim ento intenso de peregrinos por toda parte, procurando transporte e acom odações em Lourdes, para o em ocionante Mom ento da Reaparição."
Natale escutara com um excitam ento crescente, que a princípio quase a sufocara, fazendo o coração palpitar incontrolavelm ente, até que pouco a pouco um rubor se espalhara por seu rosto.
—A Santa Mãe de Deus voltando a Lourdes para ser vista, para curar... sussurrou ela.
— Bom ...
— Eu acredito — sussurrou Natale, com veem ência. — Se a Virgem Maria prom eteu a Bernadette, vai acontecer.
— Pode ser um desses exageros sensacionalistas dos j ornais — com entou Tia Elsa, tentando acalm ar a sobrinha.
— Leia o resto... quero ouvir tudo.
— A m atéria é com prida, Natale.
— Leia cada palavra: E volte ao início. Quero ouvir tudo.
— Se você insiste...
— Por favor, Tia Elsa.
— Está bem .
Em voz baixa, sem qualquer inflexão, não desej ando incom odar ninguém no Harry 's Bar, Tia Elsa leu todo o relato do j ornal, do princípio ao fim . Natale ouviu absorta, com o se estivesse em transe. Depois que a tia term inou a leitura, Natale declarou, firm em ente:
— Vou para Lourdes. Tenho de estar lá.
— Ora, Natale...
— Estou falando sério, Tia Elsa. Quero estar perto da Virgem Maria, rezar para ela na gruta. É a chance de um a vida. Ela pode decidir curar a m im . Acabou de ler a notícia sobre as m ilhares de curas.
— Sej a sensata, Natale. Conheço sua fé e não a contesto. Mas, levando-se em consideração o núm ero de pessoas que têm visitado Lourdes, ano após ano, som ente um a porcentagem m ínim a, u m enor possível, fica curada... se é que ocorre realm ente um a cura. Conhece a história de m eu pai... seu avô. Quando eu era da sua idade, acom panhei-o a Lourdes por alguns dias. O artritism o deixava-o entrevado e ele tam bém esperava um a cura. Lem bro dele a rezar e rezar naquela gruta, m as nada aconteceu. E quando voltam os para casa, em Nápoles, ele ficou pior. Você terá de ser paciente e esperar pelos avanços da m edicina, que certam ente virão e um dia lhe perm itirão recuperar a visão.
— Não está entendendo, Tia Elsa. Tenho de ir a Lourdes. Acredito nisso.
— Todo m undo acredita na m etade do m undo... m as a m aioria dos crentes não se dá ao trabalho de ir.
— Pois eu vou — insistiu Natale. — Passarem os nossas duas sem anas aqui em Veneza e depois voarem os para Lourdes, para o início dos oito dias sagrados.
— Não voarem os para Lourdes, Natale. Eu não posso ir. Você deve ser prática. Seus pais m e deixaram fazer esta viagem com você, m as tive de j urar que estaria de volta à loj a um dia depois das férias term inarem . Seus pais precisam de m im , Natale. Não posso fazer isso.
— Pois então irei para Lourdes sozinha. Você m e põe no avião e darem os um j eito para que um a dessas aj udantes voluntárias... as que são m encionadas no j ornal...
— Brancardiers — inform ou Tia Elsa. -— Pessoas que vão a Lourdes todos os verões para aj udar aos peregrinos. São hom ens e m ulheres, com o m inha am iga Rosa Zennaro. Você j á a encontrou várias vezes. Há m eia dúzia de anos que ela sem pre vai a Lourdes para aj udar, por bondade de seu coração.
— Muito bem , então será Rosa. Tenho certeza de que ela m e aj udará. Arrum e tudo para que eu sej a inscrita num grupo que tenha acom odações e possa m e aj udar no cam inho. Assim , não terá qualquer problem a. Por favor, Tia Elsa, dê-m e essa oportunidade.
Natale ficou esperando por um a resposta, ouviu a tia deixar escapar um longo suspiro e finalm ente ceder.
— Está certo, m enina. Não adianta argum entar com a fé. Você venceu. Vam os alm oçar e voltar para o hotel. Telefonarei para a fam ília de Rosa em Rom a e descobrirei com o podem os entrar em contato com ela em Lourdes. Salve, Maria, estam os indo ao seu encontro. Agora, vam os ser práticas. O que vai ser? Um sanduíche quente de prosciutto ou tagliatelle verdil
Da j anela do seu escritório no segundo andar, Edith Moore podia constatar que o dia se tornara m ais escuro do que antes, um a neblina e um a chuva m iúda com eçavam a cobrir Londres. Olhando para o relógio na sua m esa de secretária, ela verificou que j á estava na hora de sair, não para o alm oço, m as para algo m ais excepcional, um encontro m arcado pelo Arcebispo Henning. O próprio grande hom em — ela só o encontrara um a vez antes — telefonara no dia anterior e indagara se lhe seria conveniente visitá-lo hoj e. Ele estaria à sua espera na Catedral Católica Rom ana de Westm inster, na Ashley Place. O encontro seria breve, m as de algum a im portância.
Transbordando de curiosidade durante a m anhã inteira, Edith Moore tivera dificuldade em se concentrar na pesada carga de trabalho. Felizm ente, seu patrão, um agente cinem atográfico, não passara a m anhã no escritório e não houvera ditado a tom ar.
Mas o relógio lhe dizia que estava na hora de sair. Se partisse im ediatam ente, tivesse a sorte de pegar um táxi im ediatam ente, poderia chegar ao encontro a tem po e o m istério seria esclarecido, levantando-se, ela pegou a capa caqui no cabide e vestiu-a. Por um m om ento, contem plou-se no espelho estreito na parede. A capa j usta fazia-a parecer um pouco m ais esguia do que realm ente era. Edith não tinha ilusões a seu respeito. Os cabelos curtos, o rosto insípido, o corpo atarracado de m eia-idade... nunca tivera m otivos para sentir-se exultante. Considerava a grande sorte de sua vida ter conseguido conquistar alguém tão vistoso e brilhante quanto Reggie Moore para m arido. Nos oito anos de vida em com um ele nunca dera indícios de estar cansado dela. E nunca a enganara, ao que ela soubesse.
Edith deixou o escritório, desceu apressadam ente os dois lanços de escada, satisfeita com a sua agilidade, saiu para a Wardour Street, m eio engarrafada com o sem pre num tráfego intenso. Divisou entre os carros um táxi vazio. Saiu pela rua m olhada para pegá-lo. Depois de se instalar no banco traseiro e com unicar o seu destino ao m otorista, pôde desabotoar a capa, recostar-se e relaxar.
Especulou sobre o que o Arcebispo Henning poderia querer com ela. Tentou reconstituir da m em ória a única ocasião em que se encontrara com o prim az da igrej a. Fora por causa de Lourdes, é claro, pelo sucesso que ela tivera em Lourdes. Enquanto o táxi avançava lentam ente, a m ente de Edith voltou ao passado.
Acontecera logo depois de com pletar três anos de casada. Ou sej a, há cinco anos. Edith, que trabalhava há algum tem po na agência cinem atográfica, foi prom ovida de repente ao cargo de secretária particular do patrão, recebendo um aum ento. Reggie obtinha progressos em seu plano m aravilhoso de introduzir o beisebol am ericano na Inglaterra (posteriorm ente frustrado, um fracasso, por causa do boicote dos m esquinhos reacionários do críquete). Em sum a, as coisas corriam m aravilhosam ente bem para os dois quando a doença se m anifestou. Com eçou com um a perda de apetite, dificuldades de locom oção, dor no quadril e perna esquerda. Preocupada, ela procurou o m édico da fam ília, que a encam inhou a um especialista. Este, por sua vez, internou-a no hospital. Ela fez diversas radiografias, biopsias m icroscópicas de células m usculares e m edula óssea do quadril esquerdo, num erosos outros testes e exam es que preferia agora não recordar. Edith voltou ao trabalho, aguardando apreensiva o veredicto, que finalm ente chegou. Estava com um sarcom a, um tum or m aligno do tecido conj untivo na base do osso ilíaco; não havia m eios conhecidos de tratam ento eficaz. Apesar da cirurgia ortopédica, m egavitam inas e m edicam entos, a área doente degenerou, o tum or aum entando. Não dem orou m uito para que o fêm ur estivesse ligado à pelve por "uns poucos resquícios de m edula óssea". Edith nunca se enganou com o seu destino. Sabia que se tornaria entrevada, im obilizada, o tum or m aligno acabaria levando à m orte.
Forçada a deixar o em prego, sabendo que estava condenada, ela procurou por quaisquer m eios de cura. Quatro anos antes, quando seu padre paroquial, Padre Woodcourt foi gentil bastante para visitá-la — gentil bastante porque ela não o vira com frequência desde o casam ento, deixara de assistir à m issa ou se confessar, não dispensando m uita atenção à sua fé católica, com o tam bém acontecia com Reggie — ela estava disposta a qualquer coisa. O Padre Woodcourt disse que estava prom ovendo um a peregrinação anual de Londres para Lourdes e perguntou se ela não gostaria de se incorporar aos seus Peregrinos do Espírito Santo naquele verão. Ele não podia garantir quaisquer resultados favoráveis. Mesm o assim , ficara im pressionado, nas duas peregrinações anteriores que prom overa, com as curas inexplicáveis que observara no santuário.
Edith ficou indecisa, m as acabou chegando à conclusão de que não havia m ais nada a que recorrer. Depois de conversar com Reggie e descobrir que podia conseguir o dinheiro em prestado de seu pai viúvo, ela inscreveu-se no grupo dos Peregrinos do Espírito Santo de Woodcourt. Durante a prim eira visita de três dias a Lourdes e à gruta, m al conseguindo andar m esm o com um a m uleta, Edith não teve qualquer cura, m as experim entou um a sensação de bem -estar e esperança. O inverno e prim avera seguintes foram de dor contínua e m obilidade cada vez m enor. Apesar da dificuldade financeira, sem -um em prego e com o fracasso do esquem a prom ocial de Reggie, ela insistiu num a segunda visita a Lourdes, na próxim a peregrinação organizada pelo Padre Woodcourt.
No últim o dia em Lourdes, depois de rezar na gruta, beber a água da fonte e tom ar um banho, ela sentiu-se subitam ente capaz de descartar a m uleta e andar sem qualquer aj uda. Houve um a rem issão e depois a regressão, o desaparecim ento da dor e a reconstituição espontânea do osso ilíaco e da cavidade acetabular. Espontaneam ente, ela recuperou a saúde. Entre Londres e o Serviço Médico de Lourdes, depois de m ais três visitas, 16 m édicos atestaram cientificam ente a m aravilha de sua cura.
Mais de um ano antes, ela voltara a trabalhar na agência cinem atográfica. Enquanto isso, Reggie se m ostrara m ais prolífico em suas especulações prom ocionais, sem pre à beira do sucesso e da riqueza, com o lançam ento de um tim e de futebol só de negros, um a agência de detetives particulares que usava peritos em todos os cam pos da crim inologia, a form ação de um conj unto de rock só de anões — m as sem pre o sucesso se esquivava a seu gênio. O pai de Edith, depois de testem unhar a cura m ilagrosa da filha, m orrera e lhe deixara um a herança de 50 m il libras, um a quantia excepcional. Edith e Reggie depositaram -na num a conta de poupança com um , m as ela deixara bem claro que aquele dinheiro nunca deveria ser usado para especulação, sendo guardado com o um a reserva para sustentá-los, caso ela perdesse o em prego algum dia ou até que a profissão m édica reiterasse que estaria bem de saúde pelo resto de sua vida.
Inteiram ente perdida na recordação do passado recente. Edith percebeu de repente que o táxi j á chegara à Ashley Place, dim inuía a velocidade e parava diante da entrada principal da Catedral Católica Rom ana de Westm inster, um a construção em estilo bizantino.
— Chegam os, m adam e — inform ou o m otorista de táxi. Ela pagou a quantia indicada no taxím etro, acrescentou um a
gorj eta generosa porque sentia-se anim ada, abriu a porta e saltou, encam inhando-se em passos firm es para a catedral.
Foi encam inhada à sala bem decorada do Arcebispo Henning e ficou surpresa ao encontrar três hom ens à sua espera. Todos os três se levantaram no instante em que ela entrou. Edith reconheceu o austero arcebispo, um hom em largo. Mas conhecia os outros dois m uito m elhor. Um deles era o Padre Woodcoij rt, j ovem e rosado com o sem pre, seu devotado padre paroquial. O outro era o barbudo e divertido Dr. Macintosh, que fora o m édico acom panhante em sua últim a visita a Lourdes.
Cum prim entaram -na afetuosam ente. O arcebispo apontou-lhe a cadeira m ais confortável, no outro lado de sua m esa. Enquanto se sentavam , o Padre Woodcourt perguntou por sua saúde e a do m arido e o Dr. Macintosh fazia um com entário engraçado sobre o tem po. Som ente o Arcebispo Henning, sentado atrás da m esa, parecia não ter a m enor propensão para am enidades.
— Sra. Moore — disse o arcebispo, folheando um punhado de papéis — prom eti que esta visita seria curta... quero que tenha tem po para alm oçar... e assim será. Um encontro breve e feliz. Antes de com eçar, posso lhe oferecer um café?
— Não, obrigada, excelência.
Edith estava nervosa, em bora aliviada por saber que seria um a visita feliz. Ele dissera "feliz", não é m esm o? Ela tinha certeza que sim . O arcebispo continuou:
— Cham ei-a aqui hoj e e convidei duas pessoas que lhe estiveram m ais chegadas do que eu na questão de sua saúde, a fim de discutir os m éritos de sua cura.
Edith ficou aturdida. Os m éritos da cura? O que significaria?
— Com o talvez saiba, Sra. Moore — acrescentou o arcebispo — foi o Papa Benedito XIV quem fixou os critérios para cada Com issão Canônica aplicar ao tentar determ inar se um a cura em Lourdes é m ilagrosa ou não. Para decidir que um a cura é sobrenatural, a Com issão Canônica deve estar convencida além de qualquer dúvida... que a doença era grave e im possível ou pelo m enos difícil de curar... que a doença curada não se encontrava em estágio de declínio a tal ponto que poderia ter declinado pouco depois... que nenhum m edicam ento foi usado ou, se foi, que a ineficácia era certa... que a cura foi súbita, instantânea... que a cura foi perfeita... que não houve antes um a crise produzida por algum a causa e na sua hora natural; nesse caso, não se pode dizer que a cura foi m ilagrosa, m as sim natural, plenam ente ou em parte... e, finalm ente, que depois da cura não houve recorrência da doença.
O arcebispo levantou os olhos para Edith.
— Está bem claro?
— Perfeitam ente, excelência — respondeu Edith, coração disparado.
O arcebispo virava as páginas em suas m ãos, lendo para si m esm o. Tornou a fixar a atenção em Edith.
— Ao final de seu terceiro e últim o exam e pelos m édicos no Serviço Médico de Lourdes, cinco perguntas fundam entais foram apresentadas aos m édicos envolvidos. Lerei quatro dessas perguntas. "A doença da Sra. Moore descrita pelo registro m édico existia no m om ento da peregrinação da paciente a Lourdes? A doença foi subitam ente detida em seu curso num a ocasião em que não havia tendência para m elhoria... e todos os sintom as desapareceram nessa ocasião? Há um a cura... e pode prová-la com certeza... e a cura ocorreu sem tratam ento m édico?" Depois, a pergunta m ais im portante, em duas partes: "Há algum a possível explicação m édica para esta cura? No atual estágio da ciência, pode-se apresentar algum a explicação natural ou científica?"
Sentindo-se m ais tranquila, Edith atreveu-se a falar:
— É claro que a resposta a todas essas perguntas é sim , com exceção da final em duas partes, que é não.
— Foi o que constataram os m édicos do Serviço Médico de Lourdes — disse o Arcebispo Henning. — Posso inform ar que eles procuravam pelas características seguintes em sua cura... que nenhum tratam ento exterior ou m edicam entos a tornaram possível, que sua cura foi instantânea e não exigiu convalescença e que suas funções naturais foram im ediatam ente restauradas. Os m em bros do Serviço Médico ficaram convencidos de que essas características se m anifestaram em sua cura. E registraram : "Não encontram os explicação natural ou científica para esta cura."
O Arcebispo Henning arrum ou os papéis e depois recostou-se, os olhos novam ente fixados em Edith.
— O Serviço Médico enviou sua recom endação ao bispo de sua diocese, aqui em Londres. Ele designou um a Com issão Canônica de cinco m em bros para estudar as descobertas e avaliá-las. Essa Com issão Canônica m e enviou depois a sua própria recom endação.
O arcebispo fez um a pausa, respirando fundo.
— Sra. Moore, estou pronto a declarar que sua cura é definida e duradoura, encerrando um estado patológico extrem am ente grave. Estou pronto para declarar que sua cura não teve qualquer explicação m édica válida. Estou pronto a declarar que som ente sua peregrinação a Lourdes pode ser relacionada com o desaparecim ento de um a doença term inal e que sua cura foi totalm ente im previsível. Estou pronto a declarar que sua cura pode ser considerada extraordinária pelo fato de que não apenas possui o uso norm al da perna e da articulação do quadril, m as tam bém experim entou regeneração óssea nas áreas afetadas. Estou pronto a fazer a declaração final confirm ando a veracidade de sua cura... exceto por um pequeno detalhe técnico... um a questão de m enor im portância que ficou sem resposta, entre as cinco form uladas ao Serviço Médico. A pergunta é a seguinte: "É necessário protelar um a decisão?" Minha resposta: "Sim ;, m as apenas por um breve período." Parece que o Serviço Médico gostaria que se fizesse um exam e de rotina final, efetuado por um dos dois m aiores especialistas m édicos no cam po de sua antiga doença. Solicitaram ao Dr. Paul Kleinberg, de Paris, que fosse a Lourdes e lhe fizesse um últim o exam e. Deve ser realizado no Serviço Médico de Lourdes. Repito, é um m ero exam e de rotina. Depois que o Dr. Kleinberg confirm ar as descobertas do Serviço Médico poderei anunciar oficialm ente, dentro de poucas sem anas, que há elem entos suficientes em sua cura para se reconhecer a intervenção especial do poder de Deus, o Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra. — Ele fez um a pausa e arrem atou: — Sra. Moore, está disposta a ir a Lourdes m ais um a vez, a fim de se subm eter a esse exam e final?
Edith estava em ocionada.
— Claro que irei. E gostaria de estar em Lourdes na sem ana em que a Virgem Maria reaparecerá. Eu... eu poderia vê-la e agradecer.
Pela prim eira vez, o arcebispo exibiu um a insinuação de um sorriso.
— E pode, pode perfeitam ente... De qualquer form a, a não ser por essa breve espera, pode se considerar um a das m ilagrosam ente curadas de Lourdes. Com toda a m inha alm a, desej o lhe transm itir m inha felicidade e congratulações.
O coração dela disparou. Edith Moore, um a m ulher m ilagrosa. Seria m undialm ente fam osa, im ortal. Mas agora queria apenas telefonar e falar com Reggie, contar a Reggie que ele estava casado com um a m ulher m ilagrosa.
Reggie Moore era um hom em que nunca desanim ava. Não im portava quantos de seus planos arroj ados se dissipassem , não im portava quantos contratem pos sofressem , ele sem pre acreditava que havia um pote de ouro (m arcado Reginald Moore) ao final do arco-íris.
Naquela m anhã, porém , ele dorm ira dem ais, não por falta de sono, m as por falta de um m otivo para se levantar. Estava sem pre acordado por volta das oito horas e em plena ação às nove, com algum novo em preendim ento prom ocional a pesquisar, investigar, organizar, vender. Mas naquela m anhã, estranham ente, talvez porque não tivesse em m ente nenhum novo em preendim ento especial, ele m eio despertara, se virará na cam a e continuara a dorm ir até que faltavam 10 m inutos para m eio-dia.
Ao ver a hora, ficara um pouco preocupado, saíra da cam a, relutantem ente fizera seus exercícios (cuj os ganhos seriam perdidos para a cervej a, consum ida em diversos pubs ao longo do dia), fizera a barba, tom ara um banho de chuveiro, vestira-se e fora para a com binação de cozinha e copa do apartam ento térreo em Chelsea. Enquanto com ia — dois ovos, café puro, um pão — abrira o livro que encontrara recentem ente na bancada na calçada de um sebo. Era um exem plar antigo da autobiografia de um am ericano outrora fam oso, que tam bém procurara o sucesso na Grã-Bretanha. O livro era Struggles and Triumphs; or, Forty Years' Recollection (Lutas e Triunfos; ou Recordação de 40 Anos), de P.T. Barnum . Em bora Reggie Moore raram ente lesse livros — para ser m ais exato, nunca — considerava-se um hom em bastante lido e culto, porque religiosam ente lia o Mirror de Londres e o News of the World da prim eira à últim a página. A com pra da autobiografia de Barnum fora m otivada por um desej o de procurar estím ulo criativo, talvez encontrar algum dos antigos planos de Barnum que pudesse ser convertido para um a prom oção m oderna.
Com eçara a ler o livro de Barnum pelo m eio — os prim eiros anos seria um desperdício, sem qualquer proveito — na ocasião em que o velho charlatão se encontrara no auge de seus poderes, com os em preendim entos do Pequeno Polegar e da Sereia Encantada. Reggie foi subitam ente interrom pido pelo telefonem a inesperado de Edith.
A garota parecia m eio louca a princípio, as palavras saindo precipitadam ente, num a pressa que as tornava quase incom preensíveis. Ele com preendeu finalm ente que Edith acabara de sair da visita ao Arcebispo Henning. Reggie lem brou-se então que ela lhe falara na noite anterior sobre o m isterioso encontro.
Edith tentava explicar o que acontecera na reunião. A fim de com preendê-la, Reggie conteve o fluxo de palavras, dizendo:
— Mais devagar, Edith. Está bastante difícil entender o que você diz. Mais devagar. Parece m uito excitada. O que aconteceu afinal?
Depois disso, ela passou a falar m ais devagar, m ais claram ente, porém ainda m uito excitada.
Depois de um ou dois m inutos, Reggie com preendeu, absorveu tudo, percebeu de algum a form a que aquilo era de grande im portância não apenas para Edith, m as podia ser tam bém para os dois.
— Edith — disse ele, antes de desligar — não perca tem po em fazer com pras para o j antar desta noite. Isto m erece um a com em oração num bom restaurante. Podem os ir a Le Caprice.
— Oh, Reggie, m as sairia m uito caro...
Edith j á com eçava a recuperar o controle. Mas Reggie ainda estava anim ado e insistiu.
— Nada é bom dem ais para um a m ulher m ilagrosa.
Ele teve dificuldade em term inar o café!'A m ente fervilhava. Fechou o livro de Barnum e em purrou-o para o lado. Engoliu o resto do café, deu liberdade à m ente para voar alto.
Mulher m ilagrosa!
Por Deus, devia haver m il m aneiras de converter isso em dinheiro, ouro puro. Im ediatam ente ocorreu-lhe — sem pre lhe surgia depressa e com pleto quando estava bem engrenado — o que se podia fazer.
A inspiração inicial acontecera num a visita anterior com Edith a Lourdes, três anos antes. Jantaram num restaurante pequeno e confortável em Lourdes, Café Massabielle, na Avenue Bernadette Soubirous. Apesar da horrível e descolorida réplica da Virgem Maria num nicho por cim a do toldo verm elho, o pequeno restaurante era atraente, confortável, com um a cozinha de prim eira classe, a locação era m aravilhosa. Mas o que m ais atraíra Reggie fora o proprietário. Reggie conhecera Jean-Claude Jam et, de pai francês e m ãe inglesa. Em bora Jam et se m antivesse um tanto distante e reservado, o rosto frio de bigode fino repelindo os avanços, havia algo de especial no hom em que exercia um a atração inconfundível. Reggie com preendera que Jam et, no fundo, era um hom em de prom oção. Infelizm ente, ele não aproveitava os seus talentos para prom over o seu restaurante em Lourdes. Usava o restaurante apenas para obter um pequeno lucro. Sua verdadeira devoção era para a ativa e inovadora agência de viagens que tinha em Lourdes, Círculo Com pleto, que organizava num erosas peregrinações lucrativas a Lourdes durante a tem porada.
Contudo, Reggie concluíra que o restaurante podia ser algo m ais que apenas um pequeno com plem ento; podia ter um desem penho m uito m elhor, tornar-se um igual em lucratividade. Era verdade que precisava de expansão e m odernização... m as precisava ainda m ais de um sócio que acreditasse em suas possibilidades. Reggie abordara Jam et e se oferecera com o esse sócio, o sócio certo, o que levantaria o restaurante aos píncaros. Com o seu investim ento, Reggie oferecera um a m odesta quantia em dinheiro e a sua própria criatividade. Jam et recusara taxativam ente. O dinheiro oferecido não era suficiente e a criatividade não estava com provada. Reggie não ficara rem oendo a derrota. Era um veterano da rej eição. E se lançara a outros proj etos.
Mas hoj e sua m ente voltou a Jam et e ao restaurante. Porque hoj e Reggie tinha o dinheiro para investir e um a espetacular ideia criativa.
Reggie foi rapidam ente ao telefone para saber se Jam et ainda se encontrava em Londres; e se estava, m as saíra para o alm oço, para saber a que horas voltaria ao escritório e estaria disponível. Jam et com ia um sanduíche em sua m esa. Estava extrem am ente ocupado, tentando program ar peregrinações adicionais a Lourdes por causa da dem anda criada pela notícia do esperado reaparecim ento da Virgem Maria dentro de três sem anas ou logo depois.
— Um a grande oportunidade essa história da Virgem Maria — com entou Reggie. — E tenho algo sensacional que vai se aj ustar perfeitam ente. Um a notícia m aravilhosa que aj udará a nós dois.
— Com o na últim a vez? — indagou Jam et, secam ente.
— Jean-Claude, tenho algo m uito especial agora, um a dessas oportunidades que só se encontra um a vez na vida, um m aná caído do céu. Tem de arrum ar um m inuto para conversar com igo.
— Ainda estou com endo, não voltarei ao trabalho por m ais um m om ento. Creio que poderei recebê-lo durante a sobrem esa, se vier im ediatam ente. Acho m elhor acabar logo com isso ou você ficará m e im portunando interm inavelm ente. Se quer m e falar, que sej a agora.
— Estarei aí num instante — declarou Reggie, desligando e pegando o casaco esporte.
Lá fora, a chuva m iúda cessara, o sol apresentava o seu últim o ato e Reggie se encam inhou para a garagem assoviando. Teve problem a em ligar o seu velho Rover, m as finalm ente conseguiu. Saiu da garagem de ré, fez a m anobra e disparou na direção de Piccadilly Circus. A Agência Círculo Com pleto, de Jam et, ficava três quarteirões ao norte do Circus.
Chegando ao seu destino e estacionando, Reggie endireitou a gravata e o casaco, em purrou para trás um a m echa de cabelos rebeldes e depois seguiu confiante para a agência. Estava m esm o m ovim entada, com o Jam et dissera, havia pelo m enos um a dúzia de turistas em potencial nos dois balcões a disputarem a atenção dos três funcionários. Com um ar possessivo, Reggie foi para trás do balcão com prido. Quando o funcionário m ais próxim o fez um esforço para detê-lo, Reggie declarou airosam ente:
— Jam et está m e esperando. Tem os um encontro m arcado. Reggie foi para o cubículo nos fundos que servia com o escritório de Jam et. À sua m esa, cercado por paredes decoradas com m aravilhas cênicas da Grande Excursão da Europa e fotografias coloridas de Lourdes, inclusive o Café Massabielle, Jam et punha na boca, naquele m om ento, o últim o pedaço de torta de m açã.
Ele lançou um olhar azedo e adverso a Reggie, quando este entrou lepidam ente. Quando Reggie entrava em ação, nada era capaz de contê-lo. Possuía a carapaça de tatu de um vendedor, grossa e insensível. Reggie puxou um a cadeira para a frente da m esa e sentou-se, pronto para com eçar.
— Qual é o grande negócio desta vez? — perguntou Jam et, friam ente.
— Seu restaurante em Lourdes. Ainda estou interessado em com prar um a participação. Ainda acho que pode se tornar um trem endo sucesso.
— É m esm o? Pois saiba, m eu am igo, que terá de oferecer algo m uito m elhor do que na últim a vez.
— Estou preparado para isso ou não estaria aqui — prom eteu Reggie, j ovialm ente. — Desta vez tenho um a grande proposta e você não será capaz de resistir. Jean-Claude, por m etade da propriedade do restaurante estou disposto a investir 50 m il libras em dinheiro para expansão e m elhoria. O dinheiro é a herança de m inha esposa, que ela vinha guardando para o caso de voltar a ficar doente. Mas agora ela sabe que não m ais estará doente. Ficou com pletam ente curada e não precisará de sua reserva. Isso m esm o, estou disposto a investir todo o dinheiro, as 50 m il libras...
Jam et estivera escutando im passivelm ente e interrom peu-o agora:
— Lam ento, m as não é suficiente. —Ele despej ou os rem anescentes da refeição na cesta de papel, preparando-se para encerrar a reunião. — Para entrar na sociedade, precisaria oferecer m uito m ais.
— Mas eu tenho m uito m ais! — exclam ou Reggie. — Tenho algo m uito m ais valioso que m eras 50 m il libras para investir. Tenho algo extraordinário, um a coisa absolutam ente segura, que fará com que o seu restaurante em Lourdes prospere além de tudo o que j á im aginou v
— É m esm o? — m urm urou Jam et, com um tédio que não disfarçava, inclinando-se para olhar no espelho da m esa, enquanto penteava os cabelos.
— Preste toda atenção. Minha esposa, Edith, foi cham ada para um a reunião com o Arcebispo Henning há poucas horas. Era para lhe com unicar algo im portante sobre a sua cura em Lourdes, há m ais de três anos. O Serviço Médico de Lourdes e a Com issão Canônica concluíram que a cura de Edith é de natureza m ilagrosa. Ela será oficialm ente incluída nas "Curas de Lourdes Reconhecidas com o Milagrosas pela Igrej a". Desde 1858 que houve apenas 69 curas assim ... apenas cinco desde 1978... e agora Edith Moore será a 70a.
Pela prim eira vez, Reggie dispunha da atenção total de Jam et.
— Está dizendo a verdade?
— Pode confirm ar. Ligue para o gabinete do Arcebispo Henning. Diga que eu lhe contei.
— Meus parabéns — disse Jam et, cautelosam ente, m as interessado. — Isso será m uito bom para vocês dois.
— Bom para nós dois? — disse Reggie, levantando-se de um pulo. — Será sensacional! Da noite para o dia, Edith se tornará fam osa, um a legenda viva. Todos vão querer conhecê-la... todos, sem exceção. Ela voltará a Lourdes agora, o centro de tudo, a fim de ser hom enageada. Provavelm ente é a pessoa que a Virgem Maria virá ver. Agora, Jean-Claude, vam os ao resto da m inha proposta. Além das 50 m il libras, estou disposto a lançar Edith tam bém no negócio... Edith Moore, a autêntica m ulher do m ilagre. Será que não percebe? Edith acom panhará suas peregrinações e dará conselhos. Pode até aum entar im ediatam ente os preços para os próxim os grupos de peregrinos. E no restaurante... depois de am pliá-lo, m elhorá-lo... Edith pode ser a estrela, a atração especial, a grande anfitriã. A fim de conhecê-la, vê-la, tocá-la, escutá-la, até m esm o com er em sua com panhia, os m ais ricos turistas e peregrinos pedirão os pratos do nosso Cardápio Milagre, em nosso Restaurante Novo Milagre, ao dobro dos preços atuais. Posso lhe garantir que triplicará seus lucros. Peregrinações prom ovidas num lado, restaurante esperando no outro... e Edith Moore, a últim a m ulher do m ilagre, sua atração principal. — Reggie fez um a pausa, respirando fundo, antes de arrem atar: — E então... o que m e diz?
Pela prim eira vez, o exterior im passível de Jam et exibiu um a fissura. Foi um sorriso relutante, m as um sorriso. Ele se levantou, a m ão estendida.
— Reggie, m eu am igo, agora você está falando a m inha língua. Vam os selar a nossa sociedade.
Sorrindo, Reggie apertou-lhe a m ão.
— Com em orarem os esta noite em Le Caprice. Junte-se a nós, sócio, encontre-se com a m ulher do m ilagre.
Mikel Hurtado sentava-se tenso ao volante do em poeirado carro azul, estacionado na Calle de Serrano, no lado oposto ao portão de ferro na entrada da enorm e igrej a católica, observando os colegiais e as m atronas de Madri entrarem para a m issa das nove horas. Era o décim o e últim o dia de sua vigília. Se a presa aparecesse hoj e, com o acontecera nas nove m anhãs anteriores, o padrão estaria fixado. Colocariam a dinam ite no túnel por baixo da rua naquela noite. Detonariam o explosivo e m atariam o odiado inim igo na m anhã seguinte. Hurtado consultou o relógio no pulso.
— É m elhor você entrar agora — disse ele baixinho à m oça sentada no banco da frente, ao seu lado. — Se nosso hom em m antiver o horário, estará aqui dentro de cinco m inutos para a m issa.
— Preciso m esm o entrar? — protestou Julia Valdez. — De que adiantaria? Ele não chegará à igrej a am anhã de m anhã.
— Para um a identificação positiva — explicou Hurtado. — Quero que o vej a de perto. Precisam os ter certeza absoluta de que é m esm o Luis Bueno, nosso vice-prim eiro-m inistro encarregado da defesa, nenhum outro. Vá logo, Julia. É a últim a vez.
— Papai sabe o que é m elhor — disse ela, dando de om bros. Julia riu, os dois riram . Era um a piada entre eles, pois Julia tinha 19 anos, enquanto Hurtado era, aos seus olhos, um ancião de 29 anos.
Hurtado observou-a sair do carro, atravessar a rua e alcançar o patam ar por baixo da m aciça porta da igrej a. Ela se m isturou com os fiéis na escadaria e entrou na igrej a.
Um a boa garota, pensou Hurtado, e coraj osa para alguém tão j ovem . Tinham sorte por havê-la recrutado para a causa. Julia chegara a Madri, procedente de Bilbao, dois m eses antes dos outros.
Matriculara-se na Universidade de Madri para o período do outono, passara o tem po de folga a explorar a grande cidade e encontrar um apartam ento de 200 dólares por m ês, em preparativos para a chegada dos com panheiros. O líder, Agustín López, conhecera-a através de ligações fam iliares, certificara-se de sua lealdade à causa nacionalista e recrutara-a para a ETA — a clandestina Euskadi Ta Askatasuna, Organização Pátria Basca e Liberdade — dois anos antes.
Quando com eçara a trabalhar com ela, Hurtado sentira-se bastante satisfeito com a sua inteligência. Em bora Julia não fosse exatam ente o seu tipo de m ulher — m uito nariz e queixo, m uito baixa e atarracada (ele sem pre preferira os tipos fem ininos m ais delicados e frágeis) — dorm iram j untos em diversas ocasiões. Nenhum dos dois estava apaixonado pelo outro, m as se respeitavam e gostavam , as relações sexuais haviam sido geralm ente por alívio físico e diversão. Se Julia tinha algum defeito, era um resquício de religiosidade que levara para o m ovim ento separatista revolucionário.
Ele consultou o relógio m ais um a vez. A qualquer m om ento agora. Sua m ente voltou aos dois com panheiros bascos no apartam ento, aguardando aquela últim a expedição de reconhecim ento e ansiosos em preparar o assassinato do dia seguinte.
Subitam ente, Hurtado percebeu que havia um rebuliço entre os espectadores à entrada da igrej a. Pelo canto dos olhos, discretam ente, ele observou a chegada de três carros do governo, um , dois, três. O do m eio era o Mercedes m arrom em que devia viaj ar o Ministro Luis Bueno. E foi o dem ônio em pessoa quem saltou do Mercedes, enquanto os seguranças saíam dos outros dois carros e o flanqueavam . Por m ais estranho que pudesse parecer, Bueno ainda lia um j ornal quando se encam inhou para a entrada da igrej a.
Bueno era um velho repulsivo, pequeno e em pertigado em seu terno preto im pecável. O rosto de m acaco bigodudo pôde ser visto quando ele se virou para falar com um dos seguranças. Estava sorrindo j ovialm ente e entregou o j ornal ao segurança. Com o Bueno raram ente sorria, Hurtado ficou curioso. Bueno era um hom em terrível. Fora am igo de Franco, m as apesar disso o rei o conservara com o m inistro encarregado da defesa. Um rígido católico e conservador, Bueno dem onstrara ser o m aior inim igo da ETA no Gabinete e se opusera inflexivelm ente à autonom ia basca. Agora, pensou Hurtado, o pequeno filho da puta pagará por tudo o que fez.
Observando Bueno desaparecer no interior da igrej a, Hurtado pensou: entre e reze pela últim a vez, seu filho da puta.
No dia seguinte, Luis Bueno estaria assando no inferno, ao lado do Alm irante Carrero Blanco.
Hurtado experim entou um a alegria intensa ao im aginar Bueno, Blanco e o diabo no m ais profundo recesso do inferno flam ej ante de Dante.
Hurtado não podia negar que a m orte do Alm irante Blanco, em 1973, um a clássica operação basca de assassinato, proporcionara a base para a atual Operação Bueno, tornando os preparativos m ais fáceis... quase fáceis dem ais.
Na convulsão que se seguira à m orte de Franco, o assassinato do Alm irante Blanco pelos bascos fora m eio esquecido, relegado ao passado distante da Espanha. Mas nenhum basco j am ais o esquecera, m uito m enos Augustín López, o presidente da ETA, e Mikel Hurtado. Os com andos bascos em 1973 — eram um a dúzia — haviam espionado cuidadosam ente o Alm irante Blanco, constatando que todas as m anhãs ele com parecia à m issa na m esm a igrej a (um a prática que o Ministro Bueno, um católico m ais fervoroso, felizm ente em ulava).
Depois de se certificarem do percurso sistem ático do Alm irante Blanco para a igrej a todas as m anhãs, os com andos bascos de 1973 alugaram um apartam ento de porão no cam inho, perto da igrej a. Escavaram arduam ente um túnel de m eio m etro de altura por baixo da rua, rem ovendo a terra em cestos. Colocaram 70 quilos de dinam ite em três pontos do túnel. Depois, estenderam fios elétricos até o detonador, instalado num a sala do apartam ento em que se podia ver a chegada do Alm irante Blanco.
Na m anhã fatídica, o Alm irante Blanco chegara para a m issa em seu Dodge preto; quando o carro passava por cim a do túnel, a dinam ite fora detonada.
O Alm irante Blanco e seu carro foram proj etados a um a altura superior a de um prédio de cinco andares.
Fantástico.
Na m anhã seguinte, o Ministro Luis Bueno,« inim igo dos bascos, ganharia o m esm o vôo gratuito.
E esse ato de terror, depois de um longo período de passividade, lem braria ao governo que a ETA estava disposta a fazer qualquer coisa para libertar da servidão os dois m ilhões e m eio de bascos do norte da Espanha.
Não que ele fosse por natureza um a pessoa violenta, disse Hurtado a si m esm o. Fora um escritor desde o m om ento em que pudera pela prim eira vez em punhar um lápis e os escritores geralm ente alcançavam a ação através da fantasia. Publicara três livros — um a coletânia de poesia, um a peça sobre Lope de Vega e um curto rom ance baseado na vida e m orte de Garcia Lorca — quando o terror de Franco se abatera sobre a sua própria fam ília, convencendo-o a trocar o lápis por um rifle. Com preendera que as palavras nunca seriam suficientes para lutar contra os opressores. Ingressara na ETA para pegar em arm as.
Ele se perguntou o que poderia estar retardando Julia por tanto tem po. Foi nesse instante que avistou-a saindo da igrej a.
Ligou o carro, esperou que ela sentasse ao seu lado e depois partiu pela Calle de Serrano.
Os olhos no tráfego, concentrado, pois aquele não era o m om ento para ter um acidente, ele perguntou a Julia:
— Identificação confirm ada?
— Confirm ada. É o próprio Ministro Luis Bueno.
Hurtado ficou exultante.
— Estam os no alvo! Vam os explodi-lo am anhã. Bom trabalho, Julia. Obrigado.
— De nada.
Por um breve m om ento, ele guiou em silêncio.
— Por que dem orou tanto?
— Vou explicar... — Mas ela nada contou até que o carro chegou à Gran Via, quando acrescentou: — Um a coisa fascinante. Ouvi um dos seguranças de Bueno falar a respeito com algum a autoridade. Fiquei por perto, escutando. Parece que Bueno recebeu ontem um telefonem a de um j ornalista espanhol em Paris. Um cardeal católico francês deu um a entrevista coletiva. Tinha um com unicado a fazer sobre Lourdes.
— Lourdes? O que era?
— Acabaram de encontrar o diário de Santa Bernadette. A Virgem Maria lhe disse que reapareceria em Lourdes este ano, creio que dentro de três sem anas. Não acha interessante?
— Não especialm ente. Muito m ais interessante é a notícia que darem os ao m undo am anhã.
— Talvez... — m urm urou Julia, indecisa, abrindo a bolsa para pegar um cigarro. — Sej a com o for, essa notícia deixou o nosso am igo Luis Bueno m uito feliz. Mesm o com a solenidade da m issa, ele não foi capaz de reprim ir seu prazer. Eu nunca o tinha visto sorrir antes com tanta satisfação. Ele estava lendo a história de Lourdes quando entrou na igrej a.
— Observei-o a ler o j ornal. — Hurtado deixou a Gran Via, encam inhando-se para o apartam ento. — Mal posso esperar para contar aos outros que está tudo certo. A esta altura, eles j á devem ter* conseguido a dinam ite. Vam os colocá-la hoj e de noite e am anhã de m anhã será a grande explosão.
Dez m inutos depois, Hurtado avançou na frente pelo corredor até o apartam ento. Sentia-se satisfeito com o apartam ento, o prédio, a vizinhança. Apesar do custo elevado, valia a pena até a últim a peseta, porque era seguro. O bairro era de classe m édia superior e por isso atraía m enos alcaguetes ou grises, a polícia de segurança espanhola. Na porta, Hurtado pôde ouvir a televisão ligada lá dentro.
— Já devem ter conseguido os explosivos — sussurrou ele para Julia, enquanto tirava a chave do bolo e abria a porta.
A sala estava escura, as cortinas fechadas, as luzes apagadas, obviam ente para se poder assistir televisão m elhor. Hurtado acendeu a luz do teto e, para sua surpresa, descobriu sentado na poltrona não um dos seus com andos, m as o vulto corpulento e rude de Augustín López, o líder e presidente da ETA de San Sebastián. López tinha sobrancelhas hirsutas e um bigode cheio, um rosto largo e curtido, um a cicatriz estendendo-se por um a das faces. A princípio, concentrado no program a na televisão, ele não levantou os olhos.
— Olá, Augustín. O que o traz aqui? É um a visita inesperada. Ainda m ais surpreendente era o traj e de López. Ele usava terno e gravata. Hurtado não podia recordar qualquer outra ocasião anterior em que vira o líder vestido assim .
Com um grunhido e os m ovim entos de um urso enorm e, López levantou-se, acenando com a cabeça para Hurtado e Julia e estendendo a m ão para desligar a televisão. Quando o líder voltou à poltrona e concentrou-se em acender um charuto, Hurtado adiantou-se.
— Chegou no m om ento exato para ouvir a boa notícia — disse Hurtado. — Acabam os de efetuar a verificação final de Luis Bueno. Sabem os que ele irá à m issa am anhã de m anhã, às nove horas, seguindo o m esm o percurso e fazendo as m esm as coisas dos últim os 10 dias. Estam os prontos para m atar o porco pela m anhã.
Hurtado fez um a pausa, correndo os olhos pela sala.
— Onde estão os outros?
López aspirou a fum aça do charuto.
— Mandei-os de volta a San Sebastián. Um foi no cam inhão com os explosivos, o outro no Talgo Express com o detonador.
Hurtado piscou os olhos, aturdido, sem saber se ouvira direito.
— Com o?
— Mandei-os de volta a San Sebastián — repetiu López. — E m andarei você e Julia hoj e. Foi o que vim lhe dizer.
— Mas que diabo! — m urm urou Hurtado, desconcertado. — Não com preendo. A nossa operação am anhã...
López perm aneceu im perturbável.
— Não haverá operação am anhã. Foi cancelada... ou pelo m enos tem porariam ente adiada.
Hurtado aproxim ou-se m ais um pouco de seu líder.
— Mas do que está falando, afinal? O que aconteceu?
— Vou explicar — disse López, tornando a acender o charuto.
— Não há nada a explicar — insistiu Hurtado. — Estam os com tudo pronto...
Julia puxou a m anga do paletó de Hurtado.
— Mikel, dê a Augustín a oportunidade de explicar.
— E é m elhor ele ter um a boa explicação — disse Hurtado bruscam ente.
Augustín López em pertigou-se na poltrona. Não era um hom em de falar m uito, m as agora reuniu as palavras para relatar o que acontecera.
— Ontem , em San Sebastián, recebi um telefonem a de Madri, do próprio m inistro, Luis Bueno. Ele queria m e ver im ediatam ente.
Queria ter um a conversa prelim inar sobre a autonom ia basca. Queria falar com igo em sua casa, esta m anhã, antes de ir para a igrej a. Hurtado ficou atônito.
— Esteve pessoalm ente com Luis Bueno?
— Pela prim eira vez na vida. Até agora, sem pre nos com unicaram os através de interm ediários. Mas desta vez ele queria conversar pessoalm ente. E nos encontram os há cerca de um a hora. E foi tam bém a prim eira vez que o encontrei disposto a discutir nossa causa nacionalista e nossa autonom ia.
Para Hurtado, era sim plesm ente inacreditável. Algo que nunca seria capaz de im aginar.
— Ele conversou com você sobre a nossa liberdade? —Um a suspeita se insinuou na m ente de Hurtado. — Ou será que teve notícia de nosso plano de assassinato?
López sacudiu a cabeça.
— Não tinha a m enor desconfiança. Era sobre a nossa liberdade que queria conversar. — López pôs o charuto aceso na beira de um cinzeiro. — Sobre a negociação de nossa liberdade. Luis Bueno, com o sabe, é um hom em extrem am ente religioso. Quando ouviu o anúncio feito ontem em Paris, sobre o esperado retorno da Virgem Maria à gruta em Lourdes... j á ouviu falar a respeito?
—Todo m undo ouviu — respondeu Hurtado, irritado. — O que isso tem a ver conosco?
— Calm a, Mikel — interveio Julia, tornando a lhe puxar a m anga do paletó. — Deixe Augustín falar.— Aparentem ente, tem m uito a ver com a gente e com o nosso futuro — continuou López. — Bueno ficou profundam ente em ocionado com o anúncio do reaparecim ento da Virgem Maria. Acredita que vai m esm o acontecer... e se acontecer, acredita que será um sinal de que Cristo quer que ele e todos os outros que ocupam posições de poder dem onstrem m ais caridade neste m undo. Portanto, com a chegada da Virgem Maria, Bueno soltará todos os prisioneiros políticos bascos, proclam ará um a anistia am pla e iniciará um a série de conversações form ais, aqui e em Bilbao, para resolver o problem a basco. Ele m e prom eteu que essas conversações levarão a algum a espécie de autonom ia para nós, algo satisfatório para am bos os lados. — López pegou o charuto e brandiu-o enquanto acrescentava: — Assim , diante dessa possibilidade concreta... e tudo indicava que Bueno era sincero... decidi que deveria adiar indefinidam ente quaisquer ações violentas adicionais.
Hurtado estivera irrequieto durante todo o relato. Finalm ente falou:
— Augustín, sem pre tive o m aior respeito por seu j ulgam ento. Mas, nesta questão, devo m anifestar m inhas dúvidas. Não confia em Luis Bueno, não é m esm o?
— Confio, sim . Devo confiar. Esta é a prim eira vez que o governo se propõe negociar. Se puderm os resolver tudo através da negociação, seria o m eio m ais satisfatório de se alcançar um final feliz.
— Aquele filho da puta está apenas querendo ganhar tem po, tentando nos am olecer — insistiu Hurtado. — Augustín, esta operação de Madri foi um plano seu. Havia perdido a paciência com eles. Agora, depois de sem anas de planej am ento, dias de trabalho, tem os finalm ente tudo em ordem . A operação pode ser o nosso m aior êxito. Fará com que o rei com preenda com o som os fortes, com o som os determ inados, que devem os ser tratados com o iguais. Eu lhe im ploro, Augustín, cham e os outros de volta, trazendo os equipam entos.
— Não — disse López, taxativam ente. — Se puderm os conquistar a autonom ia sem derram am ento de sangue, será m uito m elhor. Não som os assassinos. Som os patriotas. Se o inim igo quer nos oferecer a liberdade pacificam ente, devem os conceder-lhe essa oportunidade.
Hurtado não estava disposto a desistir.
— O que você está dizendo é que podem os não ser assassinos... e o que estou dizendo é que eles são. Não passam de opressores e assassinos brutais que não m erecem qualquer confiança. Jam ais esquecerei o que fizeram com a m inha fam ília... aquela batida... m atando m eu pai, m eu tio e m eu prim o em um a única noite, sim plesm ente por causa de seus panfletos antifalangistas.
López levantou-se, um a presença gigantesca.
— Isso foi no tem po de Franco. Este pode ser um novo dia.
— Um novo dia? — repetiu Hurtado, m uito alto. — Bueno era um títere de Franco.
— Talvez ele estej a certo, Mikel. Vam os lhe dar a chance.
Você nunca m atou um hom em antes. Vale a pena o risco para evitar isso.
Hurtado virou-se para Julia, furioso.
— Quem pediu sua opinião? O que você sabe sobre m atar alguém ?
— Sei que é pecado.
— Já o m atei em m eu coração, pelo que isso vale. Não tenho m edo de fazer o que é necessário. — Ele tornou a virar-se para López. — Bueno é um assassino. O leopardo não perde as suas pintas. Não é diferente agora do que era antes.
— Estou apostando que ele se tornou diferente, abrandado e na expectativa do m ilagre que espera acontecer em Lourdes. Estou apostando na possibilidade do m ilagre provocar um a m udança nele... e se acontecer, a m udança será perm anente. Em nosso benefício.
— E se o m ilagre não acontecer?
— Terem os então de reavaliar a situação. E verem os com o Bueno se com porta em relação a nós. Vam os esperar pelo acontecim ento em Lourdes. Vam os esperar para ver.
López atravessou a sala até a porta, m as Hurtado estava em seus calcanhares, arrem edando-o iradam ente:
— Vam os esperar para ver, vam os esperar para ver... A Virgem Maria, aquela caverna noj enta, tudo isso é besteira. Fui criado com o um católico, da m esm a form a que m eu pai. Mas aonde isso o levou... aonde leva qualquer um de nós? O Deus de Bueno não é o m eu Deus. Não reconheço um Deus que perm ite a opressão e o genocídio. Que diabo, Augustín, recupere o bom senso. Não nos deixem os algem ar pelo Deus deles. Nada acontecerá em Lourdes e nada m udará para nós. A tática deles é nos pacificar, dividir-nos, acabar com a resistência. Bueno não lhe garantiu a autonom ia. Garantiu apenas conversas, m ais conversas, sem nada de concreto. Eu lhe suplico para não se deixar enganar. Devem os prosseguir com o nosso plano. A linguagem das bom bas é a única que eles com preendem e respeitam .
López parou na porta.
— A resposta ainda é não, Mikel. A partir deste m om ento, pelo m enos por enquanto, todos os planos de violência estão suspensos. Escutarem os um a linguagem diferente.-., a linguagem da Virgem Maria. Eu o verei em San Sebastián.
O líder abriu a porta e saiu.
Hurtado balançou por um m om ento, quase apoplético de raiva e frustração.
Depois de uns poucos segundos, fervilhando, ele foi até a m esa perto do aparelho de televisão, abriu a garrafa de scotch e encheu um copo. Tom ou tudo, em goles com pridos, olhando furioso para um a transtornada Julia, que arriara na poltrona. Ela com eçou a argum entar, gesticulando com os braços:
— Talvez Augustín estej a certo, Mikel. Ele sem pre esteve certo antes. Talvez haj a m eios m elhores do que bom bas para resolver os problem as. Vam os esperar para ver.
— Você tam bém ... — resm ungou Hurtado, bebendo o resto do uísque puro e tornando a encher o copo. — Outra católica m aluca esperando para ver o quê? Esperando a Virgem Maria aparecer em algum a m aldita gruta e nos dar a liberdade que m erecem os? É isso o que estam os esperando para ver... a m aldita Virgem na m aldita gruta... um m ilagre que dirá ao filho da puta do Bueno para libertar Euskadi? É isso o que nos está detendo, nos im obilizando por com pleto?
Bebia enquanto falava, j á quase term inara o segundo copo de uísque. Pôs o copo na m esa ruidosam ente e virou-se para Julia.
— Não... agora sou eu quem está dizendo não. Não deixarei que isso aconteça. Porei um ponto final nesse absurdo.
Ele encam inhou-se para o quarto, enquanto Julia indagava, suplicante:
— Para onde vai, Mikel?
— Vou telefonar e não quero que m e interrom pa. Ligarei para San Sebastián, falarei com m inha m ãe, pedindo a ela para m andar o seu padre incluir m eu nom e num a das peregrinações espanholas a Lourdes, o m ais depressa possível.
Julia ficou incrédula.
— Você... você vai a Lourdes?
Hurtado parou na porta e declarou, a voz m eio engrolada:
— Isso m esm o, irei para Lourdes. E sabe o que farei lá? Explodirei a m aldita gruta, explodirei todo o santuário em pedacinhos. .. assim a Virgem não terá lugar para aparecer e Bueno não terá o que esperar... e não haverá m ais razão que nos im peça de prosseguir com os nossos planos.
Julia se levantara abruptam ente, os olhos cheios de pavor.
— Não pode estar falando sério, Mikel!
— Pois saiba que estou. Explodirei aquela gruta em um m ilhão de fragm entos.
— Não pode, Mikel! Seria um sacrilégio terrível!
— Cam arada irm ã, só há um sacrilégio: perm itir que aquele filho da puta do Bueno nos faça parar, nos desvie do cam inho, nos m antenha na escravidão. Quando eu tiver acabado, não haverá m ais gruta, não haverá m ais m ilagres, não haverá m ais escravidão basca. Nunca m ais.