O Milagre
Capítulo 6
...14 de Agosto
— Com o é? — perguntou Natale Rinaldi, segurando o braço de Tia Elsa.
Ela sabia que estavam entrando no hotel, m as era sua prim eira visita a Lourdes, um território desconhecido.
— Lá na frente está escrito, em dois lugares, que é o Hotel Gallia & Londres. Parece um hotel m uito agradável. — Tia Elsa descreveu a entrada, o saguão e as salas de descanso m ais além , perguntando em seguida: — Com o se sente, m inha querida?
— Estava quente lá fora — respondeu Natale. — Pude sentir o calor por todo o cam inho desde o aeroporto.
Elas haviam deixado Veneza de trem para pegarem o avião em Milão, um j ato fretado da Aer Lingus por um a peregrinação rom ana a Lourdes; receberam a perm issão de seguir no vôo, em bora não integrassem a peregrinação.
— Há pessoas se registrando na recepção — inform ou Tia Elsa. — E eu acho... isso m esm o, lá está Rosa Zennaro, provavelm ente indagando se j á chegam os. Espere um pouco aqui, Natale, enquanto vou verificar.
Natale ficou parada na escuridão, tentando recordar Rosa Zennaro, a am iga rom ana de sua tia, que todos os anos vinha a Lourdes para servir com o aj udante de enferm eira e que concordara em prestar-lhe toda a assistência necessária, depois de sua chegada. Natale recordou Rosa vagam ente, um a m ulher alta e m agra, um a viúva com renda suficiente para viver e que não era dada a conversa am ena, com petente e taciturna, cabelos pretos e lisos, talvez com 50 anos. Natale sentia-se segura sob a sua guarda. Com o viera da escuridão para a escuridão, tinha de dizer a si m esm a que no início daquela m anhã se encontrava em Viena, depois fora para Milão e agora estava em Lourdes, um lugar de salvação sagrada, em que vinha pensando incessantem ente há duas sem anas. E tam bém sentia-se segura em Lourdes. Era um bom lugar, escolhido pelo Senhor e Sua Mãe a Virgem para operar m aravilhas em pessoas que m ereciam . Ela esperava ser um a dessas pessoas. Nos últim os três anos de escuridão nunca esperara tanto por um a coisa.
— Natale — disse Tia Elsa — era m esm o Rosa quem estava na recepção e a tenho aqui a m eu lado. Encontrou-se com ela algum as vezes antes de seu problem a.
— Estou lem brada. — Ela estendeu a m ão. — Olá, Rosa. Um a m ão forte e m acia apertou a sua.
— Sej a bem -vinda a Lourdes, Natale. Estou m uito feliz que você tenha vindo.
Natale sentiu a respiração quente e sentiu os lábios secos de Rosa encostarem em sua face. Tentou retribuir o beij o. E ouviu de novo a voz de Rosa:
— Tornou-se um a m oça m uito bonita, Natale.
— Obrigada, Rosa. . Tia Elsa interveio, pegando o braço de Natale:
— Não devem os perder m ais tem po. Já a registrei e tenho a chave de seu quarto. E o 205. Acho m elhor subirm os, verificar se sua bagagem j á foi entregue e depois partirm os. Mal terei tem po de pegar o vôo para Milão e depois o últim o avião para Rom a. Prom eti a seus pais que estaria no trabalho am anhã de m anhã. Mas você estará em boas m ãos com Rosa. — Ela puxou Natale ligeiram ente, acrescentando: — Estam os seguindo agora para o elevador, Natale. Fica à esquerda de quem entra no saguão. E ao lado tem um a escada que desce para o restaurante. Há um a m esa reservada em seu nom e e três refeições por dia j á estão pagas.
Deixando o elevador, Natale sentiu Rosa pegar sua m ão. E ouviu Tia Elsa dizer:
— Lá está o quarto, a quinta porta à esquerda do elevador. Natale avançou confiante pelo corredor, j unto com Rosa,
deixando-se guiar para o quarto.
— É um quarto agradável? — perguntou ela.
— Bastante agradável e lim po, graças a Deus — respondeu Tia Elsa. — A esquerda da porta há um a escrivaninha e um a cadeira, j unto da parede. Pouco antes da m esa, o banheiro. No outro lado, na m esm a parede, tem um a côm oda com cinco gavetas, m ais do que suficiente. A parede bem em frente tem um a j anela de bom tam anho. Na parede do lado direito tem um arm ário com prateleiras para roupas e cabides. Há duas cam as estreitas encostadas na parede da direita. Tirarei a colcha da cam a m ais próxim a da j anela, a que você provavelm ente usará. Tem um a m esinha-de-cabeceira e ali porei o seu relógio de viagem . Deixarei a sua m ala em cim a da outra cam a, por enquanto. Ainda tenho tem po para guardar suas roupas na côm oda e no arm ário. Direi onde está cada coisa, enquanto guardo. Mas Rosa estará com você todos os dias, até levá-la de volta a Rom a. Ela pode lem brar qualquer coisa, caso você esqueça.
— Não esquecerei — garantiu Natale.
Natale foi inform ada que haviam transcorrido 20 m inutos quando Tia Elsa term inou de arrum ar suas coisas.
— Detesto ter que deixá-la, Natale, m as agora preciso correr. Tornarem os a nos encontrar depois de um a sem ana.
— Talvez dentro de um a sem ana eu possa ver você.
— Assim espero.
Natale achou que o tom da voz da tia era de dúvida, m as sentiu e gostou do seu abraço e beij o afetuosos. Beij ou-a em retribuição.
— Obrigada por tudo, Tia Elsa... pelos dias m aravilhosos em Veneza, pelo trabalho de m e trazer até aqui, por pedir a Rosa para m e aj udar.
— Deus a abençoe, querida — m urm urou Tia Elsa, deixando o quarto em seguida.
Por um instante, Natale sentiu-se terrivelm ente sozinha, até que ouviu a voz de Rosa ao seu lado:
— Muito bem , Natale, aqui estam os. Gostaria de descansar agora ou dar um a volta pela cidade?
— Eu gostaria de ir direto para a gruta. Preferia deixar o passeio pela cidade para outra ocasião. Neste m oirj ento, quero passar o m áxim o de tem po possível na gruta, oferecendo m inhas orações à Virgem . Não se im porta?
— Irei para onde você quiser, Natale. E acho que a gruta é boa ideia. Vai anim á-la de verdade. Fica a poucos m inutos do hotel.
— É para lá que eu quero ir.
— Ainda está quente lá fora. Quer tirar essa jeans e vestir um a roupa m ais fresca?
— Acho que sim . Tem um vestido estam pado de seda no arm ário.
— Eu o encontrarei.
Natale ouviu-a se encam inhar para o arm ário e disse:
— Rosa, esta visita pode ser curta. Eu gostaria de fazer outra, m ais dem orada, depois do j antar...
Pondo o vestido nas m ãos de Natale, Rosa explicou:
— Esta noite não poderei aj udá-la, Natale. Sinto m uito, m as j á m e com prom eti a com parecer ao Centro de Hospitalidade todas as noites para em purrar um a cadeira de rodas na procissão das velas. Mas estarei disponível para aj udá-la todas as m anhãs e tardes. E tam bém deixarei de com er com os outros voluntários para acom panhá-la ao j antar no hotel. Mas logo depois do j antar terei que deixá-la em seu quarto e voltar correndo para o dom ínio. Não vai se im portar, não é m esm o? Terá um dia inteiro na gruta e depois do j antar poderá descansar, escutar o rádio, dorm ir um pouco.
Natale torceu para que seu desapontam ento não transparecesse. Largando o vestido de seda, ela baixou o zíper da jeans e tirou-a.
— Não se preocupe, Rosa. Com preendo perfeitam ente. Darei um j eito.
Ela daria m esm o um j eito, pensou Natale, enquanto punha o vestido de seda por cim a do sutiã e da calcinha. Aprendera a andar sozinha em Rom a e descobriria agora o cam inho para ir à gruta e voltar, sozinha, todas as noites. Por m ais difícil que pudesse ser, não perderia as noites de oração solitária na gruta. Fora para isso que viera até aqui. Para entrar em contato com a Virgem . E aprenderia a fazer isso sozinha. No m om ento em que saíssem do quarto, contaria os passos até o elevador, encontraria os botões para subir e descer, aprenderia a encontrar a saída do hotel, lem braria que direção virar quando chegasse à rua, não esqueceria as voltas subsequentes para alcançar a gruta. Era eficiente nessas coisas, j á o fizera antes, possuía um a boa capacidade de m em orização, com o atriz.
— Se m eu vestido está direito, então j á estou pronta — anunciou ela.
Sentiu a m ão de Rosa em seu cotovelo e ouviu-a dizer:
— Pois vam os em bora.
Deixando o quarto, Natale pôs-se a contar os passos e m em orizá-los — tantos passos até o elevador, tantos passos depois de sair do elevador, atravessando o saguão e a arcada para a Avenue Bernadette Soubirous. Virar à direita. Passos pela rua até a esquina. Sinal de trânsito.
— Há geralm ente um a cam inhonete da polícia, verm elha com um a listra branca ao redor, parada nesta esquina, até 10 horas da noite — Rosa estava explicando. — E se a cam inhonete não está, então tem um ou dois guardas a pé.
Guardas, m em orizou Natale, para aj udá-la a atravessar a rua até a outra esquina. Passos passando pelo café Le Roy ale, passando por m ais loj as, até um a loj a de souvenirs, cham ada Sainte-Thérèse/Little Flower.
— Viram os aqui à direita e atravessam os a avenida, até um a ram pa com prida que nos deixará no dom ínio.
Natale continuou a contar e m em orizar. Passos através da avenida para a ram pa. Passos descendo a ram pa.
— Estam os agora na base da ram pa, Natale. À esquerda, a um a curta distância, fica a Basílica do Rosário. Contornando-a, para a direita, chega-se à gruta. Quer entrar na basílica?
— Não agora, Rosa. Com parecerei à m issa e à confissão am anhã. Agora, quero ir à gruta.
— Muito bem , vam os à gruta. Estam os passando pelas basílicas. E agora por um a arcada ao lado, levando para a área da gruta.
Natale cam inhava em passos firm es ao lado de sua aj udante e am iga, contando silenciosam ente os passos para a área da gruta.
— Estam os passando por um a livraria que vende livros e folhetos a respeito de Bernadette. Vam os passar por um a série de torneiras que despej am água da fonte e depois por um stand que vende velas. Ao lado da gruta, m ais além , tem outras duas torneiras e depois os banhos com água da fonte.
— Pare-m e diante da gruta — pediu Natale, suavem ente, recom eçando a contar os passos.
— Aqui, à nossa esquerda... — Natale sentiu as m ãos firm es de L Rosa virando-a. —... fica a gruta. Há m uitas pessoas na frente, em bancos, cadeiras, aj oelhadas no chão, algum as em fila m ais adiante para entrar.
— Quero entrar.
Natale contou os passos enquanto Rosa a conduzia para a fila.
Com Rosa na frente, segurando sua m ão e exortando-a a se adiantar, Natale foi andando, hesitante, contando de novo. Em determ inado m om ento, quando pararam , Rosa sussurrou:
— Você está no lugar em que acredito que Bernadette se aj oelhou.
Natale assentiu e aj oelhou-se abruptam ente, rezando em silêncio. Ao se levantar, ouviu Rosa dizer: — Está dentro da gruta. Pode tocar a parede interior com a m ão direita. A m ão de Natale procurou pela parede; ao constatar que estava tão perto, inclinou-se e beij ou a superfície lisa e fria. Sentindo-se m elhor pelo ato, Natale continuou atrás de sua aj udante, deixando Rosa guiá-la pelo que parecia um sem icírculo através da gruta, até saírem finalm ente no outro lado. — Quer que eu lhe m ostre m ais algum a coisa do dom ínio? — perguntou Rosa.
— Quero ficar aqui na frente da gruta e rezar.
— Há bancos vagos nos fundos. Com este calor, é m elhor se sentar lá atrás quando quiser rezar.
Depois de se sentarem , Natale pegou seu rosário e se entregou a um a profunda oração e contem plação. Ela calculou que talvez m eia hora passara quando Rosa, que a deixara sozinha, voltou e disse: — As pessoas j á estão saindo para o j antar. Está na hora de irm os. Eu a levarei de volta ao hotel exatam ente pelo m esm o cam inho por que viem os.
Natale levantou-se e, com a m ão na de Rosa, seguiu a com panheira até a base da ram pa que levava à rua por cim a, sem pre contando os passos. Subindo a ram pa, ela continuou a contar. Lá no alto, fazendo um a pausa para recuperar o fôlego, ela pôde com parar os passos da volta com os da vinda, constatando que era quase os m esm os, divergindo apenas por algum as passadas m ais curtas.
E dali a pouco estavam de volta ao saguão do hotel, esperando pelo elevador.
Natale sentia-se renovada e enriquecida. Na escuridão de sua m ente, tentou divisar o Salvador e Sua Mãe, a Rainha do Céu. Ouviu Rosa falar-lhe m ais um a vez:
— Vam os para o seu quarto. Pode descansar um pouco e se lavar. Tam bém farei isso. Depois, descerem os para o restaurante e farem os um a boa refeição. Eu a levarei outra vez para o quarto quando term inarm os e a deixarei. Espero que não se sinta solitária.
— Nunca m e sinto solitária — respondeu Natale, com um sorriso. — Terei o suficiente para fazer.
No outro lado do saguão, de frente para o elevador, lá estavam os dois, por trás do balcão de recepção, um deles observando as m ulheres prestes a entrarem no elevador.
A m ulher gorducha, de m eia-idade, por trás do balcão, absorvida no livro-caixa, era Yvonne, a recepcionista regular durante o dia. O outro era um j ovem recepcionista recentem ente contratado para o turno da noite, cham ado Anatole, corpulento, de sobrancelhas espessas, olhos cinzentos, nariz de pugilista, lábios grossos. Natural de Marselha, Anatole viera procurar trabalho em Lourdes e encontrara aquele em prego um a sem ana antes.
E agora Anatole observava atentam ente as duas m ulheres que entravam no elevador.
— Aquela é a prim eira que vej o neste hotel durante toda a sem ana que m e dá vontade de foder — com entou Anatole.
Yvonne, que se acostum ara rapidam ente à linguagem grosseira do seu assistente, levantou os olhos do livro para acom panhar o olhar dele na direção do elevador.
— Quer aquela velha?
— Não, sua estúpida, a outra. Está de costas agora, m as observe quando ela se virar para entrar no elevador. A m oça deslum brante. Parece italiana. Já viu peitos iguais?
Seus olhos fam intos se regalaram quando Natale entrou no elevador. Hipnotizado, contem plou a m oça extrem am ente atraente, os cabelos pretos com pridos, os óculos escuros provocantes, nariz em pertigado, lábios verm elhos, garganta leitosa envolta pela corrente da cruz de ouro que pendia por cim a dos seios pontudos, o vestido leve de verão que parecia ressaltar cada contorno do corpo.
— Ela é para m im — reafirm ou Anatole. — A que eu quero com er.
Yvonne ficou consternada.
— Você está louco, Anatole? Ela é cega.
— E quem disse que se precisa ver quando se está fodendo?
— Anatole, você é grosseiro e incorrigível. E o que está dizendo é absolutam ente inadm issível.
— Talvez — com entou Anatole, dando de om bros. — Mas talvez a Virgem estej a do m eu lado.
Era princípio da noite quando o ônibus am arelo, em poeirado, com um cartão no para-brisa dizendo ESPAGNE, percorreu barulhentam ente as ruas de Lourdes e foi parar com um rangido diante do Hotel Gallia & Londres.
Oito passageiros desem barcaram naquela prim eira parada, antes que o ônibus continuasse para outros hotéis, onde ficariam aloj ados os dem ais integrantes da Peregrinação San Sebastián. O últim o dos que desem barcaram naquele hotel foi Mikel Hurtado.
Ele ficou parado na calçada, esticando os m úsculos com cãibras, aspirando o ar frio da noite, aliviado por se ver livre do ônibus claustrofóbico e de seus devotos conterrâneos, que falavam sem parar. Por m ais cansativa que fosse a viagem desde San Sebastián, atravessando a fronteira basca, entrando na França e percorrendo os cam pos até Lourdes, não levara m uito tem po. Foram no m áxim o seis horas, m as Hurtado estava ansioso em chegar a seu destino, a fim de consum ar o que j urara fazer e depois sair da cidade o m ais depressa possível.
Esperando com os outros que a bagagem fosse descarregada, Hurtado esquadrinhou a área ao redor. Havia pessoas andando, de todas as idades e nacionalidades, nos dois lados da rua, m uitas exam inando as ofertas das loj as de novidades e souvenirs. No outro lado da rua, à esquerda, num cruzam ento, um enorm e prédio cinzento, de granito, dom inava o cenário. Um lam pião ilum inava o nom e: HOSPITAL NOTRE-DAME DE DOULEURS.
Hurtado não tinha qualquer interesse em Lourdes, exceto pela gruta. Criado num a fam ília católica, sem pre conhecera algum a coisa sobre o santuário. Não tinha a m enor ideia se a história de Bernadette era verdadeira e tam bém não se im portava. Tudo o que sabia era que a gruta se tornara o m aior santuário do catolicism o e que a Virgem Maria deveria reaparecer ali, depois de um longo tem po, naquela sem ana.
Hurtado não podia entender que um revolucionário tão determ inado quanto Augustín López, o líder do m ovim ento clandestino basco, pudesse ter cancelado o assassinato do Ministro Bueno só porque este prom etera negociar a autonom ia basca depois do reaparecim ento da Virgem . Não tinha a m enor im portância se a cam ponesa Bernadette, em seu tem po, realm ente vira e conversara com a Virgem . Mas acreditar que agora, em nosso tem po, a Virgem pudesse reaparecer na m aldita gruta era dem ais para se aceitar. Mesm o que López acreditasse nessa possibilidade, Hurtado não podia fazê-lo. E não vacilara em sua determ inação de acabar com a tática protelatória de Bueno.
Em bora sua j ovem colega e às vezes parceira de cam a, Julia Valdez, tentasse dissuadi-lo de seu propósito, Hurtado levara seu plano avante. Representara um a cena para sua pobre m ãe, quase senil. Dissera que fora contagiado por um renascim ento do fervor religioso depois de ouvir o anúncio do retorno da Virgem Maria a Lourdes. Queria estar presente em Lourdes para testem unhar o m em orável acontecim ento. Mas, para conseguir acom odações em Lourdes, precisava pertencer a um a peregrinação oficial. Havia um a peregrinação sendo organizada em San Sebastián e esperava que a m ãe intercedesse por sua conta. Ela ficara em ocionada, a pobre coitada, por aquela ressuscitada paixão do filho pelo catolicism o. Procurara o seu padre e conseguira arrum ar um lugar para o filho na peregrinação de San Sebastián. Ele teria de usar seu próprio nom e — algo contra os regulam entos da ETA — m as nunca fora fichado pela polícia; além disso, era um risco m uito pequeno a assum ir para um a m issão tão im portante.
Hurtado percebeu que sua m ala m arrom j á estava na calçada, j unto com o resto da bagagem . Pegou-a e entrou prontam ente no hotel. Estava na frente dos outros de seu grupo e foi direto para a recepção. Dois recepcionistas estavam ali conversando, um a m ulher estofando um suéter e dando algum as instruções a um rapaz abertam ente entediado. Interrom pendo-os, Hurtado disse:
— Fui inform ado a procurar Yvonne na recepção.
— Sou Yvonne — respondeu a m ulher. — Encontrou-m e bem a tem po. Eu j á estava de saída. Em que posso servi-lo?
— Tenho um a reserva para a sem ana. Estou com a peregrinação de San Sebastián. Meu nom e é Mikel Hurtado.
Ela pegou o livro de registros, virou um a página.
— Hurtado, Hurtado... — foi repetindo, enquanto corria o dedo pela página abaixo. — Aqui está. Seu quarto é o 206. Já está pronto. Vou fazer o registro. Pegue a chave, Anatole.
Hurtado pegou a ficha, enquanto Anatole se afastava para buscar a chave.
— Quem lhe deu m eu nom e? — perguntou a m ulher.
— Um am igo de Pau. Ele ficou de m e deixar um em brulho e m e disse para falar com Yvonne.
— Um em brulho? Ah, sim ... Alguém entregou-o esta tarde. Mandei para o seu quarto. Vai encontrá-lo lá.
— Obrigado, Yvonne.
Hurtado pôs 10 francos no balcão. Anatole voltou com a chave. Hurtado aceitou-a, pegou a m ala e encam inhou-se para o elevador.
Lá em cim a, Hurtado logo encontrou o quarto 206. Quando j á ia entrar, viu duas pessoas saírem do quarto ao lado, um a m ulher m ais velha e um a m oça deslum brante, que parecia cega. Ouviu a m ulher m ais velha com entar que estava na hora do j antar, enquanto se afastavam .
A m ente de Hurtado se concentrava no em brulho que deveria encontrar em seu quarto. Era tudo o que im portava. Era o m otivo para sua viagem a Lourdes.
Largando a m ala, ele fechou a porta, procurando pelo em brulho. Viu-o em cim a da m esa ao pé da cam a.
Quase correu para a m esa, puxando um a cadeira, sentando, puxando o em brulho, tirando um canivete do bolso do casaco e abrindo um a lâm ina. O em brulho era de papel cinzento, preso com um barbante fino e resistente. Hurtado cortou o barbante, tirou-o, abriu o papel. O conteúdo estava protegido por um papelão. Ele rasgou o papelão.
E, finalm ente, o seu tesouro foi revelado. Ele pegou cada coisa com um am or evidente: diversas bananas de dinam ite, am arradas; o pavio verde enrolado; a caixa de plástico; o m ecanism o de tem po que pedira-; a bateria. Era um a potente bom ba-relógio, j á m ontara outras m uitas vezes, em sua carreira recente. Acertava-se o relógio. Quando o ponteiro alcançava um núm ero determ inado, acionava um term inal ligado com a bateria, fechando o circuito e enviando um a carga de eletricidade pelo detonador e pavio, explodindo a dinam ite e estourando o alvo em um m ilhão de fragm entos. Funcionara com inim igos dos bascos, em autom óveis, em prédios; funcionaria na gruta, explodindo o m aldito santuário em pedacinhos. Um a dúzia de Virgens Marias não seria capaz de encontrá-lo. A explosão resultante certam ente faria com que López recuperasse o bom senso.
Hurtado levantou-se, pôs a valise na cam a e abriu-a. Estava m eio vazia e havia bastante espaço. Com todo cuidado, Hurtado levou os conteúdos do em brulho para a cam a e guardou tudo na m ala. Fechando-a e trancando-a, agradeceu silenciosam ente ao colega basco francês em Pau, um sim patizante da ETA a quem recebera outrora em San Sebastián e para quem telefonara um a sem ana antes, pedindo aquele m aterial.
Hurtado não tinha paciência para j antar agora. Metendo a m ão no bolso do casaco, tirou a m etade de um sanduíche de salam e que não term inara no ônibus. Enquanto com ia, pegou o m apa de Lourdes que recebera no ônibus no outro bolso. Levando o m apa para a m esa, desdobrou-o e procurou a localização da gruta. Quando encontrou, constatou que não ficava m uito longe do X que m arcara no m apa durante a viagem , indicando o local do hotel. Mastigando o resto do sanduíche, ele decidiu que não perderia m ais tem po. Queria conhecer a gruta, estudá-la, determ inar que problem as estariam envolvidos em sua m issão, se é que algum . Tinha certeza, pelas fotografias que vira num livro, que não seria m uito difícil. Sem as dificuldades dos preparativos para explodir o Ministro Luis Bueno. O único problem a ali poderia ser ligar a bom ba sem ser observado. Haveria pessoas por toda parte. Mas a m aioria tinha de dorm ir. Haveria um m om ento qualquer, durante a m adrugada, em que quase não se encontraria pessoas na gruta. Tinha de verificar pessoalm ente.
Antes de sair, ele foi ao banheiro. Depois de se lavar, contem plou-se no espelho, especulando se deveria assum ir algum disfarce. Mas com preendeu que um disfarce não teria sentido, pois ninguém naquela cidadezinha rem ota j á o vira ou sabia quem ele era. Na verdade, a sua própria ocupação transform ara-o num anônim o, tanto em sua terra com o em Lourdes. O único subterfúgio a usar podia ser a pedrinha no sapato. Guardara um a pedra pequena e lisa no bolso da m ala para a visita a Lourdes. Tornou a abrir a m ala e pegou a pedra. Depois de trancar a m ala, tirou o sapato esquerdo e largou a pedra no interior. Tornando a enfiar o pé no sapato, am arrando-o, com preendeu que a pedrinha o obrigaria a claudicar. Perfeito para Lourdes. Andaria claudicando porque tinha um problem a reum ático ou artritism o grave na articulação do j oelho. Viera até ali para rezar por um a cura.
Hurtado saiu do quarto claudicando.
Quinze m inutos m ais tarde, depois de pedir orientações e seguir a m ultidão que avançava em passos lentos, ele chegou à área indicada no m apa com o Esplanade des Processions. Indiferente às três igrej as à esquerda, ele contornou-as rapidam ente para chegar à gruta.
Minutos m ais tarde se encontrava à beira de um a vasta m ultidão, que parecia se dispersar, se afastar. Ouviu alguém gritar:
— Está na hora da procissão das velas!
Enquanto a m ultidão se dissolvia e depois se reunia em algum a espécie de ordem — m ilhares de peregrinos, cam baleando, claudicando, se arrastando, m uitos em cadeiras de rodas, usando m uletas, tipoias, acom panhados por padres, freiras, leigos com braçadeiras e estandartes. — Hurtado descobriu que a área se esvaziava de hum anidade e pôde exam inar m elhor o lugar.
Estava à beira das fileiras de cadeiras e bancos, ocupados por um punhado de peregrinos, que diziam seus rosários ou faziam orações pessoais, os vultos individuais se perdendo na escuridão. O que estava ilum inado, num a tonalidade rosa, era a própria gruta, por 18 fileiras de velas altas de cera. Mais acim a, ele divisou um a im agem da Virgem Maria, curtida pelo tem po, sem qualquer atrativo, as m ãos de m árm ores se encontrando, com o em súplica.
A gruta em si era um a surpresa. Quando soubera do Mom ento do Reaparecim ento e estudara as fotografias de Lourdes, a gruta assom ara enorm e em sua im aginação. Mas era m uito m enor do que pensara, m ais com um . Mal valia a destruição e o risco envolvido. Mesm o assim , era enorm e aos olhos de Luis Bueno e López, com o tal deveria ser encarada e destruída.
Ele exam inou a gruta da m elhor form a possível. Um paredão de rocha lisa se erguia por cim a e um lado da Basílica Superior e coroava o topo da colina. Ele deu um a olhada à direita da gruta e im ediatam ente percebeu o que podia fazer. Peregrinos e turistas estavam em fila ali, passando pela gruta num fluxo incessante, cada canto ali sob constante observação. Não seria*possível esconder a dinam ite. Mas à direita da gruta, um pouco acim a, estava o nicho de tam anho considerável que continha a im agem de m árm ore da Virgem Maria. Em torno do nicho havia arbustos verdes, enquanto um a pequena floresta de árvores e m oitas cobria um a inclinação que proporcionava boa base de apoio e tornava acessível a im agem .
Num m om ento propício, quando a m aior parte de Lourdes estivesse dorm indo, ele voltaria e fingiria rezar... para depois desaparecer em m eio aos arbustos. Poderia subir até o nicho, colocar a dinam ite por trás da base da estátua da Virgem , depois estender o fio verde, cam uflado pela folhagem , até o detonador lá em cim a, escondido entre as árvores. Arm aria o detonador, desceria e se afastaria; 10 ou 15 m inustos depois j á estaria longe. Quando ocorresse a explosão, estaria num carro que j á acertara alugar para o dia seguinte, deixando a cidade e seguindo,para Biarritz e St.-Jean-de-Luz, a fim de atravessar a fronteira em Henday e, antes que alguém sequer com preendesse o que acontecera. A trem enda explosão dividiria a gruta em cinco, faria desm oronar a m etade da encosta, destruiria o altar no interior e os artefatos por toda parte, provavelm ente abriria a fonte subterrânea, provocando um a inundação na área.
O santuário seria um a m assa de escom bros e blocos de granito. Nem m esm o a Virgem Maria, se resolvesse m esm o reaparecer, poderia encontrá-lo. O local ficaria com pletam ente irreconhecível. O sorriso de Hurtado se alargou. A destruição da gruta não apenas era possível, m as tam bém relativam ente fácil.
Satisfeito com aquele prim eiro reconhecim ento, j á prestes a se virar, ele sentiu a pressão em seu braço esquerdo e ouviu um sussurro de m ulher na noite:
— Oi, Ken. Estive à sua procura por toda parte. Hurtado virou-se para deparar com um a m oça atraente a fitá-lo. E disse, abruptam ente:
— Não sou Ken. Deve ter se enganado.
— Oh, diabo! — exclam ou a m ulher. — Desculpe. Estou procurando m eu m arido... seu nom e é Ken... Ken Clay ton... e no escuro pensei que fosse ele. Tem a m esm a altura. E ele tam bém usava um casaco com o o seu. Perdoe-m e.
Hurtado estava achando a situação engraçada.
— Posso lhe garantir que o prazer foi todo m eu. Seu Ken é um hom em de sorte.
Ela sorriu, estendendo a m ão.
— Obrigada. Sou Am anda Spenser Clay ton, de Chicago.
— Prazer em conhecê-la — respondeu Hurtado, m as sem se apresentar.
— É m elhor eu continuar a procurar e depois voltar ao hotel — m urm urou Am anda, m eio em baraçada.
— Talvez eu possa aj udá-la — disse Hurtado, pondo-se a andar a seu lado.
Am anda notou que ele claudicava.
— Está aqui por causa de sua perna?
— Um problem a de artritism o — respondeu ele, distraidam ente.
— Espero que não sej a um caso fatal...
— Não, não é absolutam ente fatal. Apenas doloroso e difícil.
— Mas o problem a de Ken é fatal. É um a form a de câncer no quadril. É passível de operação e j á houve sucesso em alguns casos.
Ken cancelou a cirurgia em Chicago por causa do reaparecim ento da Virgem . Ele voltou subitam ente à religião e concluiu que sua m elhor esperança de cura estava em Lourdes.
Haviam entrado na am pla Esplanada do Rosário, Am anda sem pre à procura de Ken, quando Hurtado segurou-lhe o braço de repente e apontou para a frente.
— Santo Deus, olhe só para aquilo! O que está avançando para cim a de nós?
Am anda espiou. Um exército m aciço se adiantava, entusiasticam ente, devotam ente, os m archadores se estendendo até onde a vista podia alcançar.
— Deve haver m ilhares — m urm urou Hurtado, piscando os olhos, aturdido.
— Mais de 30 m il — com entou Am anda. — Ouvi falar a respeito e tam bém li. A Procissão das Velas. A Virgem Maria disse a Bernadette... que as pessoas venham em procissão... e as pessoas vieram , nunca pararam de vir desde então. Há duas procissões por dia, um a ao final da tarde e outra ilum inada à noite. Esta com eça com um rosário na gruta...
— Eu vi quando partiam esta noite — com entou Hurtado.
— ... desce pelo lado esquerdo da esplanada e prossegue até o outro lado do terreno, voltando depois para subir os degraus da Basílica do Rosário.
Hurtado puxou Am anda, tirando-a da esplanada e se j untando às centenas de espectadores que respeitosam ente assistiam à im pressionante procissão das velas.
Enquanto observava a procissão se aproxim ar, dividindo-se em duas colunas para m archar por lados opostos do parque, Hurtado pôde constatar que era eficientem ente organizada. As filas interm ináveis eram form adas por um a incrível variedade de pessoas, algum as vestidas em traj es exóticos, líderes de grupos carregando bandeiras diocesanas, bispos de púrpura, padres de preto, garotas das Filhas de Maria e m eninos de coro em branco, todos levantando velas, protegidas pelo que pareceu a Hurtado serem chapéus de papelão invertidos.
— Esses escudos em torno das velas protegem as cham as do vento — com entou Am anda. — São vendidas nas loj as de souvenirs por dois francos. E são levantados ao m esm o tem po durante o coro de "Ave, Ave Maria". Um espetáculo e tanto.
Até m esm o para Hurtado a cena era im pressionante. À frente de cada delegação de peregrinos vinha um líder leigo ou às vezes um padre, carregando um cartaz que identificava o grupo. Os grupos que passavam agora por Am anda e Hurtado erguiam seus cartazes bem alto e se podia ler BÉLGICA... JAPÃO... ARGÉLIA... METZ. Havia de fato m ilhares e m ilhares de peregrinos passando, os cartazes indicando que vinham até dos cantos m ais distantes do m undo.
E de repente, de algum lugar por trás dele, de algum lugar nas árvores por cim a, alto-falantes com eçaram a transm itir a m úsica e letra do "Hino de Lourdes". Hurtado prestou atenção às palavras:
Rezamos pela glória de Deus,
Que seu reino possa vir,
Rezamos por seu Vigário,
Nosso Pai, e Roma.
Rezamos por nossa Mãe,
A igreja neste mundo,
E pedimos que abençoe, doce Dama,
A terra de nosso nascimento.
Rezamos por todos os pecadores
E as almas que agora se desgarram
De Jesus e de Maria Pelos caminhos da heresia.
Para os pobres, doentes e aflitos,
Suplicamos a sua misericórdia.
Conforte os agonizantes,
Com a luz da sepultura.
Ave, Ave, Ave Maria,
Ave, Ave, Ave Maria!
E das 30 m il gargantas na procissão veio a repetição do coro:
A-ve, A-ve, A-ve Ma-ri-aa,
A-ve, A-ve, A-ve Ma-ri-aa!
Involuntariam ente, Hurtado engoliu em seco. Virando-se, olhou para o rosto de Am anda. Ela suspirou.
— Tem razão, é m uito com ovente.
— Muito m esm o — concordou Hurtado.
— Mas é absurdo, quando se pensa bem a respeito. Qualquer pessoa com um pouco de bom senso ou inteligência sabe que não existem m ilagres. Isso tudo é um grande circo religioso, nada m ais.
— Obviam ente, você não é um a crente — com entou Hurtado.
— Sou um a psicóloga clínica. Conheço os efeitos da histeria, em oção e auto-hipnose na m ente hum ana. Sei com o a m ente pode tem porariam ente paralisar o corpo e depois curá-lo. Posso lhe garantir que se algum desses inválidos ficar curado não será por causa de algum suposto acontecim ento m ilagroso. Será porque desej ou ficar bom , sem saber que esse é o verdadeiro m otivo para a sua cura.
Am anda desviou os olhos da procissão, fitando Hurtado.
— E você?
— O que há com igo? — Talvez eu tenha falado dem ais. Por acaso é um crente?
Por m ais tentado que estivesse a concordar com a posição de Am anda, Hurtado decidiu que seria m ais sensato assum ir o seu papel escolhido. — Só posso dizer que fui criado na fé. E é j ustam ente por isso que estou aqui.
— Cada um pensa com o quer — com entou Am anda, dando de om bros e virando o rosto. — Ken provavelm ente está no m eio desse exército, m archando tam bém . Voltarei ao hotel e ficarei esperando-o.
Eles subiram a ladeira em silêncio, atravessaram a rua e dobraram a esquina.
— Lá está m eu hotel — disse Am anda. — Ken e eu estam os no Hotel Gallia & Londres.
— É onde tam bém estou — inform ou Hurtado. Entraram no saguão e foram pegar o elevador. Hurtado saltou no segundo andar.
— Boa noite, Sra. Clay ton. Tive m uito prazer em conhecê-la.
— O prazer foi m eu. Durm a bem .
— É o que farei.
Mas quando chegou ao seu quarto, Hurtado sabia que não dorm iria por m uito tem po. Arm aria o despertador para tocar pouco depois da m eia-noite, pois tencionava voltar à gruta de m adrugada. Havia algo m uito im portante a descobrir, o m ais depressa possível.
No banco traseiro do táxi, a cabeça de Ken Clay ton repousava no om bro de Am anda Spenser. Mais um a vez, ela olhou para o rosto de Ken. O pobre querido estava profundam ente adorm ecido, o que acontecia desde o m om ento em que em barcaram no táxi e deixaram Lourdes. Am anda tentou divisar o m ostrador de seu relógio de pulso. Pelo que pôde ver, na sem i-escuridão, estavam na estrada, percorrendo as colinas ondulantes de Chalosse e fragrantes florestas de pinheiro, há cerca de um a hora e m eia. Ela fora inform ada de que a viagem até a cidadezinha de Eugénie-les-Bains não deveria durar m ais do que isso. Olhava atentam ente pela j anela do Mercedes à procura de Les Prés d'Eugénie.
Tinha recordações agradáveis dos dois dias que passara naquele lugar pitoresco e elegante, em sua últim a visita à França. Desfrutara os banhos e o tênis, a cozinha m aravilhosa, os espetaculares bosques ao redor. Ali, Ken poderia encontrar o repouso de que tanto precisava; ali, longe daquele hotel horrível em Lourdes e dos estúpidos peregrinos, naquele am biente sedutor, ela poderia convencê-lo de que devia voltar a Chicago o m ais depressa possível. Se Ken insistisse obstinadam ente em m ais um a ou duas visitas àquela gruta absurda, ela ó levaria de carro a Lourdes e voltaria. Mas só um a ou duas visitas a m ais.
Não houvera qualquer dificuldade em deixar o hotel em Lourdes com Ken. Ela descera a bagagem para o saguão — m as não desfizera a reserva do quarto m iserável, para o caso de Ken precisar de um lugar para descansar, se insistisse em voltar à gruta — m andara que um táxi ficasse à espera e aguardara o retorno de Ken da procissão.
Ele voltara com os peregrinos, sonolento, pálido, cam baleando, m ais parecendo um m orto-vivo. Am anda o afastara dos outros. Ele estava m eio sonam búlico. E confessara que m archara por todo o quilôm etro e m eio da procissão noturna. Talvez tivesse exagerado. Agora, tudo o que queria era deitar e dorm ir. Am anda lhe dissera que poderia dorm ir no táxi. Acrescentara que encontrara um hotel m elhor e m ais espaçoso, que poderia lhe proporcionar m elhor descanso. Mas Ken m al a ouvira. Estava quase apagado, não tinha consciência do que ela lhe dizia, m uito m enos resistência. Am anda ordenara que as m alas fossem levadas para o carro e gentilm ente conduzira Ken ao banco traseiro, onde ele adorm ecera no m esm o instante.
— Les Prés d'Eugénie — anunciou o m otorista do táxi. Am anda olhou pela j anela do carro e pôde divisar a noite ilum inada pelas luzes dos três prédios im ponentes, afastados da estrada.
O táxi parará diante do cam inho pavim entado que se estendia entre fontes baixas até o terraço externo, com suas cadeiras de vim e, e a entrada do hotel. Am anda levantou Ken, acordando-o. Os olhos inj etados se abriram por um instante, enquanto ela o tirava do táxi.
— Onde estam os? — perguntou ele, m as caído em estupor, não m uito interessado na resposta.
O m otorista estava à m ala do carro, entregando a bagagem a um carregador do hotel. Am anda cham ou o m otorista e pediu que a aj udasse a levar o m arido para dentro. Juntos, quase carregaram Ken, enquanto ele cam baleava pelo cam inho, passando pela estátua branca de um a m ulher nua e seguindo até a entrada m odesta do hotel. O m otorista ficou sustentando Ken, enquanto Am anda cuidava do registro.
— A suíte que reservam os no prédio novo é m aravilhosa — assegurou a recepcionista. — Espero que gostem .
Ela cham ou o j ovem carregador e lhe disse:
— Leve Monsieur e Madam e Clay ton até a suíte Bois desíles. Am anda pagou a corrida, am parou Ken e levou-o atrás do j ovem , até a porta do elevador. Subiram e chegaram à m oderna suíte, que ficava próxim a.
Era elegante e arej ada, a sala de estar exibindo um a m istura de m óveis contem porâneos e antigos, um relógio velho, flores frescas, anim ais esculpidos em m adeira, aparelho de televisão, tudo tão atraente quanto Am anda podia se lem brar, um alívio intenso depois do quarto acanhado que haviam deixado.
Am parando Ken, ela tentou cham ar a sua atenção para a linda decoração, o sofá branco, as cadeiras de vim e, a lareira de m árm ore.
— Vam os pedir um drinque, sentar e relaxar — sugeriu ela. — Depois, se você estiver com vontade, poderem os descer para j antar.
— Quero dorm ir — m urm urou Ken. — Deixe-m e deitar. Ele estava tão exausto que Am anda não teve coragem de pressioná-lo ainda m ais com as am enidades do novo hotel. Levou-o para o quarto. As cobertas na cam a de casal j á se achavam puxadas. Am anda despiu-o até a cueca. Não se deu ao trabalho de abrir a m ala e pegar um pij am a. Levou-o para a cam a e acom odou-o no colchão m acio, num a posição confortável, cobrindo-o. Ao term inar, Ken j á estava profundam ente adorm ecido.
Am anda não podia atribuir sua exaustão à viagem . O percurso pelos cam pos franceses fora rápido e suave. Atribuía o estado em que Ken se encontrava ao ordálio da procissão, a m archa interm inável com os outros fanáticos. Fora isso que o deixara tão abatido... isso e m ais a doença, é claro.
Ela vagueou pelo quarto por um instante, tencionando arrum ar as roupas. Mas logo percebeu que estava fam inta. Nada com era desde o alm oço no trem . Entrando no banheiro acarpetado, com a bolsa de m aquilagem , ela lavou-se, aj eitou as faces e os lábios, penteou os cabelos, depois deixou a suíte e desceu.
No salão m oderno, no andar térreo, ficou sozinha, sentada num sofá bege, com um m artini. Estava bastante satisfeita consigo m esm o por ter trazido Ken para aquele hotel. Tentou afastar da m ente as im pressões do seu prim eiro dia em Lourdes. Sentia-se m ais condescendente agora, m ais generosa, podia com preender com o um santuário assim seria reanim ador para os visitantes ignorantes que possuíam um a fé autêntica. Mas, depois, estrem eceu. Para ela, com seus antecedentes profissionais, era um verdadeiro horror espiritual.
Term inando de tom ar o m art ini, ela se levantou e foi ao encontro da com ida que a aguardava no restaurante. Ainda havia pessoas acabando de com er, m as diversas m esas j á estavam desocupadas. O mattre arrum ou-lhe um a m esa tranquila no canto. Am anda pegou o cardápio de luxo, pensando com o o proprietário fora esperto ao decorar o restaurante com sim plicidade e confiando no cardápio para substituir o resto. Exam inando as opções no cardápio — "La Carte Gourmande", "Le Repas des Villes" ou "Le Repas des Champs" — ela resolveu ir até o fim e pedir o j antar m ais com pleto e m ais caro.
Escolheu de "Le Repas des Villes", o j antar de 235 francos, m ais 15 por cento de serviço en sus. Quando o mattre voltou, ela pediu La Salade à L'Oiseau com o abertura, La Fine Rouelle de Turbot Sauce Simple, depois optou entre dois pratos por Les Piccatas de Foie de Canard en Vinaigrette d'Asperges e — um a sobrem esa tam bém , por que não? — La Torte Chaude au Chocolat Moelleux.
O j antar consum iu quase duas horas; quando acabou, Am anda m al conseguia se m exer. Sentia-se culpada por Ken não partilhar aquela indulgência hedonista, m as ficou m elhor ao pensar que ele estaria à m esa com ela na noite seguinte. Pensou em se obrigar a dar um passeio pelo vasto gram ado nos fundos do hotel, a fim de desgastar um pouco da refeição. Mas finalm ente resolveu subir para a suíte, pois Ken poderia j á ter acordado àquela altura.
Chegando à suíte, no terceiro andar, ela entrou e foi diretam ente para o quarto. À luz do abaj ur, constatou que Ken ainda dorm ia, a cabeça afundada no travesseiro. Não se m exera da posição original. Era evidente que ele precisava m uito do descanso e não acordaria antes do am anhecer.
Sem fazer m uito barulho, Am anda term inou de arrum ar as roupas, pendurando vestidos e ternos no arm ário. Ao final, só restava para arrum ar a m eia dúzia de livros que ela trouxera. Abriu a bolsa, tirou os dois volum es do rom ance de Zola, levando-os — j untam ente com a caixa de bom bons de m enta que a cam areira deixara em seu travesseiro — para a sala de estar. Sentou-se, com endo os bom bons, folheando os volum es de Zola, repassando m ais um a vez os trechos que m arcara. Acabando com os livros, deixou-os na m esinha, encontrou um bloco de anotações e um lápis j unto ao telefone. Caso Ken acordasse para o café da m anhã, antes dela, poderia achar fascinante ter algum a coisa para ler enquanto tom ava o suco de laranj a. E Am anda escreveu: "Ken, querido, espero que estej a se sentindo m elhor. Caso acorde antes de m im , aqui está um a coisa para você ler ao café da m anhã. Não tente ler o rom ance inteiro... vej a apenas os trechos de Zola que m arquei. Eu o am o. Sem pre sua — Am anda."
Ela pôs o bilhete por cim a dos livros e percebeu que, a esta altura, tam bém estava bastante cansada. Deitaria agora, a fim de poder levantar cedo e terem um dia m aravilhoso lá fora.
Tirando as roupas, ela encam inhou-se para o banheiro, a fim de pegar a cam isola que lá deixara. Ao passar pelos espelhos, ficou intensam ente consciente do seu corpo nu. Recordou excitada o quanto Ken gostava daquele corpo, de quantas vezes eles tinham -se unido no ato do am or. Pois o corpo ainda estava ali, m aduro e forte, m as m acio, à espera da recuperação de Ken e do am or que lhe proporcionara quando era robusto e atlético, antes do início da doença. Agora, o corpo fatigado na cam a era apenas um arrem edo do que fora antes. Mas Am anda se achava m ais certa do que nunca de que a cirurgia poderia repará-lo e salvá-lo, revitalizá-lo, perm itir-lhe fazer um am or fantástico com ela, pelo resto de suas vidas, gerando não apenas filhos, m as toda um a eternidade de prazeres carnais.
Depois de pôr a cam isola e apagar as luzes, ela aconchegou-se em seu lado da cam a e não dem orou m uito para que m ergulhasse no sono.
Não tinha ideia de quantas horas dorm ira. Sabia apenas que a m anhã j á devia estar bem adiantada, enquanto abria os olhos gradativam ente para o clarão do sol. Escutou o canto dos passarinhos nas árvores além da j anela do quarto, depois bocej ou e despertou plenam ente. Virou-se para falar com Ken. Ele não estava m ais na cam a. Isso não a surpreendeu. Ken dorm ira bastante e provavelm ente estava na sala, tom ando o café da m anhã ou refestelado no sofá, lendo os trechos assinalados do rom ance de Zola.
Em purrando as cobertas para o lado, Am anda sentou-se na cam a e pôs os pés no chão. Calçando as chinelas, resolveu falar com Ken, antes de escovar os dentes e tom ar um banho de chuveiro. Encam inhou-se para a porta, dizendo:
— Com o está agora, Ken?
Não houve resposta. Ela correu os olhos pela sala. Ele não estava ali. Am anda virou-se para a varanda, onde ele poderia estar tom ando o café da m anhã. Ken tam bém não estava ali. Provavelm ente saíra para respirar um pouco de ar fresco e ela o encontraria lá fora.
Já voltava para o quarto quando, pelo canto dos olhos, avistou um papel pregado com fita adesiva na porta de entrada da suíte. Foi até lá e viu que era um a folha do papel tim brado crem e do hotel. Reconheceu prontam ente a letra de Ken. Pegou a folha e leu o que ele escrevera:
"Am anda, m inha querida introm etida,
"Nunca m ais tente fazer um a coisa assim .
"Acredite no que quiser, m as deixe-m e acreditar no que eu acredito. Não tente obstruir m inhas convicções. Não creio que você tenha algum a noção da profundidade da m inha fé. Creio nas com unicações de Bernadette com a Santa Mãe, creio na Im aculada Conceição, creio que Virgem Maria voltará, creio em todas as curas que Ela concedeu aos abençoados. Espero ser um deles — não apenas por m im , m as por nós.
"No dia em que você puder provar — provar — que m inha fé está errada, poderei escutar o que tem a dizer. Até lá, porém , deixe-m e ser com o sou.
"Quanto a este lugar absurdo e superficial, não pertenço a ele. Não pertenço a um hotel de luxo, tão distante do lugar em que desej o estar. Pertenço ao m eu hotel em Lourdes, com os dem ais peregrinos, m eus am igos. Pertenço ao lugar m ais próxim o da gruta em que puder ficar.
"Peguei um táxi para voltar a Lourdes. Se quiser, pode ir se encontrar com igo lá. Se não quiser, tornarem os a nos encontrar em Chicago, depois que eu estiver curado.
"Por m ais que você m e provoque, Am anda, eu ainda a am o.
Ken."
Am anda não sentiu raiva, m as um a onda de frustração, que a fez sentir-se fraca e desam parada.
Ken, seu tolo, não banque o idiota, não com eta suicídio, ela sentiu vontade de gritar.
Am assou o bilhete na m ão e voltava para o quarto quando avistou os dois volum es do rom ance de Zola e a m ensagem que deixara por cim a na noite anterior. Aproxim ou-se dos livros, especulando se Ken teria lido algum a coisa.
Aparentem ente sim , pois ele escrevera algum a coisa no fundo de sua m ensagem . Am anda pegou o papel e viu o que estava escrito:
"Foda-se Zola."
Ela sentiu vontade de chorar pela loucura devota de Ken, a idiotice cega, a esperança de ser salvo das garras da m orte por algum a aparição fantasm agórica do m undo exterior. Mas não chorou. Em vez disso, entrou no quarto para se vestir e segui-lo de volta a Lourdes
Ken precisava de alguém m ais prático para garantir que ele sobrevivesse. Era ela quem cuidaria disso. De qualquer m aneira.