O Milagre
Capítulo 1
O Terceiro Segredo
Fora um a noite escura, clareando devagar, no lusco-fusco que antecede o am anhecer. Eram seis horas da m anhã quando a pequena e linda cam ponesa, Bernadette Soubirous, desceu a colina para a gruta aberta na rocha, conhecida com o Massabielle. Já havia 150 pessoas à sua espera, observando-a, esperando pelo que aconteceria em seguida.
Bernadette, usando um a touca branca, um vestido velho rem endado e tam ancos, acendeu sua vela, tirou o rosário do bolso e, com um sorriso, inclinou-se para a visão que esperava ver.
Doze dias antes, quando estava parada ali perto, ela vira a aparição na gruta, "um a dam a vestida de branco", com o Bernadette recordaria depois, um a dam a j ovem e m isteriosa usando "um vestido branco, um véu branco, um a faixa azul e um a rosa em cada pé". Bernadette fizera sete visitas à gruta nesses 12 dias e a dam a lhe aparecera em seis ocasiões, a dam a que acabaria se identificando, depois de 15 aparições, com o a Im aculada Conceição, a Virgem Maria.
Aquela m anhã escura de terça-feira, 23 de fevereiro de 1858, era a oitava visita de Bernadette à gruta. Ali, com um sorriso, ela aguardou o retorno da dam a que em breve se identificaria com o a Virgem Maria.
Entre as 150 pessoas presentes havia pelo m enos um cético, Jean-Baptiste Estrade, um coletor de im postos e hom em im portante em Lourdes, a cidade-m ercado próxim a.
Estrade trouxera a irm ã, Em m anuélite, e várias de suas am igas curiosas para testem unharem o tão discutido espetáculo. A cam inho da gruta, ele gracej ara a respeito daquela bobagem supersticiosa.
— Trouxeram os seus binóculos de ópera? — ele perguntara às com panheiras.
Agora, j unto com os outros espectadores, ele observava a pequena cam ponesa, aj oelhada, dedilhando o seu rosário. Mais tarde, ele relataria o que testem unhara:
— Enquanto passava as contas entre os dedos, ela olhava para a rocha com o se esperasse por algum a coisa. E de repente, num súbito relance, um a expressão de assom bro ilum inou-lhe o rosto e ela parecia ter nascido para outra vida. Um a luz brilhou em seus olhos, sorrisos m aravilhosos se insinuaram em seus lábios, um a graça indescritível transfigurou todo o seu ser... Bernadette não era m ais Bernadette, tornara-se um dos seres privilegiados, o rosto glorioso com a glória do céu...
"O êxtase se prolongou por um a hora. Ao final desse tem po, a vidente avançou de j oelhos do lugar em que rezava para baixo da roseira silvestre que pendia da rocha. Ali, concentrando todas as suas energias com o para um ato de adoração, ela beij ou a terra. E voltou, ainda de j oelhos, para o lugar que deixara um m om ento antes. Um últim o clarão de luz ilum inou seu rosto e depois, gradativam ente, quase im perceptivelm ente, a glória transfiguradora do êxtase foi se tornando m ais tênue e finalm ente se desvaneceu. A vidente continuou a orar por m ais um m om ento, m as eu via apenas o rosto da criança cam ponesa. Bernadette se levantou, foi para j unto da m ãe e se perdeu na m ultidão.
Subindo a colina para sua casa, j unto com a m ãe, Bernadette repetiu um a parte da conversa que acabara de ter com a m isteriosa dam a. Durante as aparições, a dam a lhe confidenciara três segredos. Revelara naquela m anhã o terceiro e últim o.
Mais tarde, quando Estrade, o cético convertido, j á se tornara am igo de Bernadette, resolveu perguntar-lhe "o que a dam a dissera na sétim a aparição". Bernadette respondeu que três segredos lhe haviam sido confiados, m as que eram exclusivam ente da sua conta. Acrescentou que não podia revelar os segredos a ninguém , nem m esm o a seu confessor. Pessoas inquisitivas tentaram m uitas vezes, por insinuações, artim anhas ou prom essas, arrancar da m enina as revelações da Virgem . Mas todas as tentativas falharam e Bernadette levou seus segredos para o túm ulo.
Houve um a ocasião em que um j ovem advogado de um a cidade próxim a, Charles Madon, atreveu-se a levantar o assunto m ais um a vez.
— Afinal, quais são os seus segredos?
— São apenas da m inha conta.
— Se o papa perguntasse, contaria a ele?
— Não.
Anos depois, quando Bernadette se tornara um a freira no convento de Saint Gildard — em Nevers, na região central da França — sua carrancuda e desconfiada superiora, Madre Mane Thérèse Vauzou, a responsável pelas noviças, form ulou a pergunta sobre os segredos. E Bernadette m ais um a vez se recusou a revelá-los.
— Suponham os que o papa lhe pedisse para contar, sob o voto de obediência — insistiu Madre Marie.
— Não vej o com o isso poderia ser da conta dele.
Depois de ler esse relato histórico da Com issão de Lourdes, o Papa João Paulo III, Vigário de Jesus Cristo, Suprem o Pontífice da Igrej a Universal, baixou as páginas e riu.
— Mas agora, subitam ente, quase 130 anos depois, esses segredos são da conta de um papa.
— Isso m esm o, Vossa Santidade — disse o seu secretário de Estado. — Especialm ente o segredo final, revelado a Santa Bernadette na sétim a aparição.
Eles estavam no gabinete particular do papa, espaçoso e adornado, no últim o andar do Vaticano. De sua cadeira de encosto alto, forrada de cetim branco, por trás da arrum ada escrivaninha papal, o Papa João Paulo III olhou além das cortinas douradas de dam asco que em olduravam as j anelas recuadas que davam para a Praça de São Pedro. Ele tornou a fitar o cardeal, seu secretário de Estado, sentado a sua frente, num a das cadeiras de braço de cetim verm elho.
— E agora conhecem os os três segredos de Bernadette — disse o papa. — Tem certeza?
— Não resta m ais qualquer dúvida. A docum entação com pleta da Com issão de Lourdes está em suas m ãos.
— E é absolutam ente autêntica?
— Vai verificar que sim , Vossa Santidade. Os dois prim eiros segredos são de im portância m enor e j á aconteceram , não constituem um grande interesse para nós. O terceiro segredo, o últim o, com o j á concordou, pode ser extrem am ente significativo. Só resta agora Vossa Santidade decidir se devem os revelar o terceiro segredo ao m undo.
O Papa estava pensativo.
— Quando devo dar m inha decisão?
— Espera-se que até o final da sem ana, Vossa Santidade. A Com issão de Lourdes perm anecerá em sessão até que com unique o curso a ser adotado. A Grande Peregrinação Nacional Francesa com eçará dentro de três sem anas.
— A com issão... — m urm urou o papa. — A com issão tem algum a recom endação?
— Deixaram tudo em suas m ãos, Vossa Santidade. — O cardeal hesitou por um instante. — Mas o Padre Ruland, de Lourdes, com entou que alguns m em bros do clero e todos os com erciantes locais que integram a com issão são favoráveis à revelação. Alegam que o anúncio aum entará o interesse pelo santuário e que toda a com unidade... m ais do que isso, o m undo inteiro... se beneficiará. Os outros m em bros da com issão, todos clérigos, são contra a revelação ou relutam em aceitá-la, receando que o segredo de Bernadette ricocheteie e deixe de servir aos m elhores interesses da Igrej a. Mas o Bispo Pey ragne, que chefia a com issão, dissem e corretam ente que a palavra final será sua.
O papa balançou a cabeça, olhando para os docum entos à sua frente.
— Estudarei o que está aqui. Meditarei sobre a revelação. E rezarei por sabedoria. Terá a m inha decisão antes do final da sem ana. Na sexta-feira.
O secretário de Estado levantou-se abruptam ente.
— Está bem . — Antes de se virar, ele fitou atentam ente o Santo Padre e acrescentou: — Se eu puder acrescentar um com entário pessoal...
— Por gentileza.
— Há um grave risco nisso, Vossa Santidade.
O papa sorriu. Hom em experiente, ele respondeu j ovialm ente:
— Deus saberá das chances.
Quando ocorrera a descoberta, com prada secretam ente pela Igrej a, o Bispo Pey ragne, de Tarbes e Lourdes, j ulgara conveniente designar um a com issão de inquérito... a Com issão de Lourdes, com o a cham ou o j ornal sem anal local, L´Essor Bigourdan, recordando aos leitores que era a segunda vez na história m oderna da cidade que se constituía um com itê de notáveis. Os editores e leitores especularam sobre os m otivos para a form ação da com issão, sendo inform ados apenas de que os m em bros deveriam discutir "um a descoberta histórica de grande significado". As especulações se tornaram ainda m ais intensas, m as ninguém fora da com issão tinha a m enor ideia do que estava acontecendo.
A prim eira com issão de inquérito, designada por um bispo anterior de Tarbes e Lourdes, Bertrand-Sévère Laurence, em novem bro de 1958, fora constituída com um propósito definido. Seus nove m em bros haviam sido selecionados para investigar a experiência da pequena Bernadette e determ inar se ela realm ente recebera um a visão de Deus. Depois de quatro anos de estudos, chegara-se a um a decisão, anunciada ao m undo pelo Bispo de Tarbes e Lourdes:
— Julgam os que Maria, a Im aculada Mãe de Deus, realm ente apareceu a Bernadette Soubirous a 11 de fevereiro de 1858 e em determ inados dias subsequentes, num total de 18 vezes, na gruta de Massabielle, perto da cidade de Lourdes; que essa aparição tem todos os sinais de verdade; e que a convicção dos fiéis é bem fundada... Autorizam os o culto de Nossa Senhora da Gruta de Lourdes em nossa diocese.
Esse fora o veredicto da prim eira Com issão de Inquérito de Lourdes, em 1862.
Agora, tanto tem po depois, os 16 m em bros da segunda Com issão de Inquérito de Lourdes encontraram -se num a sala de reuniões da Prefeitura, não para tom ar um a decisão, m as para ouvir a decisão tom ada pelo Suprem o Pontífice da Igrej a Universal, na Cidade do Vaticano. Depois de seis sem anas de debates infrutíferos, a com issão não conseguira chegar a um a decisão própria.
Incapaz de obter um a m aioria para qualquer lado, o bispo de Tarbes e Lourdes encam inhara as descobertas e autenticações para o arcebispo em Toulouse, o qual aconselhara que, num a questão tão divisória e controvertida, a decisão final deveria ser deixada à Sua Santidade o Papa, em Rom a.
E agora, avisados de que o papa lhes com unicaria a decisão final naquela m anhã, os m em bros da com issão voltavam a se reunir. Em bora todos fossem profundam ente religiosos, o cenário — a sala de reuniões da Prefeitura — era secular, um arranj o conveniente adotado pelo bispo, por sugestão do Padre Ruland, o historiador de Lourdes, que se declarava neutro na questão a ser decidida.
Muito em bora os argum entos não tivessem m ais qualquer significado, os m em bros da com issão ainda debatiam acirradam ente quando o telefone tocou no gabinete do Prefeito Jourdan, que ficava ao lado. O Padre Em ery, um dos 10 párocos de Lourdes, estava dizendo:
— Fazer tal anúncio representa um perigo para a Igrej a, os fiéis e a cidade. Qualquer fracasso pode propiciar a decepção e o escárnio, desacreditar tudo por que lutam os. Estou convencido de que devem os deixar as coisas com o estão.
Seu oponente no outro lado da m esa com prida, Jean-Claude Jam et, proprietário de um im portante restaurante turístico em Lourdes, estava respondendo com o em diversas ocasiões anteriores:
— Devem os fazer o anúncio e assim criar um renascim ento do interesse pela religião, além de estim ular nos peregrinos o desej o de vir aqui em grandes núm eros. Com este anúncio, poderem os deter o definhar da fé.
A cam painha do telefone que tocava na sala ao lado fez com que todos silenciassem . O Prefeito Jourdan foi atender, retornando um m om ento depois para cham ar o bispo e o Padre Ruland.
Para os m em bros da com issão, a espera pareceu interm inável; na verdade, porém , não durou m ais que dois m inutos:
O bispo alto e m agro logo voltou à cabeceira da m esa. Em sua batina preta engom ada, parecia um a austera figura autoritária saída de um a tela de El Greco. Sua voz era baixa e forte, as palavras firm es e incisivas:
— O Papa desej a que providenciem os para que o segredo de Bernadette sej a anunciado ao m undo... isso m esm o, anunciado... im ediatam ente. Deixar de fazê-lo, com entou Sua Santidade, seria um a confissão de falta de fé. Sua Santidade acrescentou... e deve-se pressum ir que j ocosam ente... que ele, por seu lado, continua a ser um verdadeiro crente.
O bispo fez um a pausa, correndo os olhos pela sala. Com a decisão, a discórdia acabara. Estavam todos unidos agora e a em oção era evidente.
— Isso resolvido, com unicarei ao arcebispo em Toulouse para tom ar as providências necessárias para o anúncio público pelo Cardeal Brunet, em Paris. — Ele exibiu um sorriso frio, antes de acrescentar: — Os oito dias cruciais, a com eçarem dentro de três sem anas, serão os m ais im portantes e críticos na história de Lourdes, desde a tarde em que Bernadette ouviu um a raj ada de vento e viu a Dam a de branco se m aterializar na gruta. E tenho certeza de que o anúncio será im portante e crítico para as m uitas pessoas no m undo que o ouvirão e farão sua peregrinação à nossa am ada Lourdes.
Geralm ente, quando guiava seu Citroen de segunda m ão da Place de La Concorde pela Cham ps Ely sées, em m eio ao tráfego alucinado e indisciplinado de Paris, Liz Finch perm anecia intensam ente consciente da estrutura m agnífica do Arco do Triunfo lá na frente. Para ela, o nobre arco era o sím bolo de tudo que Paris oferecia — beleza clássica, m aravilha, excitam ento, apoio e prom essa para a vida que desej a levar ali.
O arco traduzia em realidade seus sonhos e am bições. Aj udava-a a se ver na Paris de am anhã, um a correspondente estrangeira m uito bem paga e fam osa, ao m esm o tem po literária, com o fora a adm irável Janet Flanner; um a anfitriã sofisticada, com um elegante apartam ento na Ile St. Louis, a esposa invej ada de um m aduro, rico e bonito executivo francês (de intelecto experiente e sexualidade intensa, que possuía adm iração pela Am érica e levara para o casam ento um a extraordinária coleção de arte prim itiva francesa); a m ãe de duas excepcionais crianças, que brincavam nos Jardins de Luxem burgo sob a supervisão de um a afetuosa e inteligente babá britânica. Quando contem plava o Arco do Triunfo à sua frente, Liz Finch podia perceber em sua curva perfeita essa vida para si m esm a, até m esm o o lazer para receber e encantar am igos do cenário internacional, cada pessoa um "Nom e" em seu cam po, em recepções aos dom ingos.
Naquela m anhã, porém , possivelm ente pela prim eira vez em seus três anos em Paris, os pensam entos íntim os de Liz Finch não estavam fixados no Arco do Triunfo. Em vez disso, quando não se concentrava no tráfego insano, ela estudava o seu reflexo no espelho retrovisor não m uito lisonj eiro do Citroen.
E o que via não contribuía m uito para anim ar os seus sonhos. Ao contrário, arrefecia qualquer esperança de consum ar suas am bições ou até m esm o de continuar em Paris por m uito m ais tem po.
Porque naquela m anhã, quando dera um a olhada no m em orando na m esa de Bill Trask, na Am algam ated Press International, ao saber a m atéria que faria e qual a m issão de sua rival, Marguerite Lam arche, Liz Finch com preendera que perdera ou estava perdendo. Sentia que entrara num concurso de beleza e não num a com petição de talento... e quando se tratava de beleza, não tinha a m enor possibilidade.
O m em orando confidencial na m esa de Trask viera de Nova York. Dizia que a m atriz queria um a com pressão de despesas no escritório de Paris, a entrar em vigor dentro de um m ês. A equipe francesa do escritório, a m aioria no setor adm inistrativo, seria reduzida à m etade. No setor editorial, só haveria lugar para um a correspondente especial, ao invés de duas. Entre ela e Marguerite Lam arche apenas um a ficaria, com m aior responsabilidade e um em prego m ais firm e, enquanto a outra seria afastada, no caso de Liz para o esquecim ento. Trask m encionara a necessidade de um a redução nas despesas, m as fora vago em relação aos detalhes. Liz, no entanto, conhecia a verdade... e era am eaçadora.
Quando Liz deixara o j ornal de Winsconsin para um em prego m elhor no escritório da API em Manhattan, sendo transferida para o prestigioso escritório de Paris três anos antes, sua vida m udara drasticam ente, tornara-se em ocionante e repleta de esperança. E recentem ente conhecera até um j ovem executivo, parisiense e atraente, que a achara interessante e a elogiara por seu francês. Era um relacionam ento que podia evoluir gradativam ente, em um ou dois anos. Mas em apenas um m ês? Se fosse despedida, dentro de um m ês seria obrigada a deixar a França e não haveria m ais qualquer possibilidade com Charles. E não haveria oportunidade de desenvolver as grandes reportagens assinadas. Teria sorte se term inasse fazendo um trabalho de rotina em Cedar Rapids ou Chey enne, casando com um corretor de seguros e tendo dois cretinos por filhos.
Portanto, tudo dependia de vencer Marguerite na disputa pelo único cargo de correspondente especial que haveria na API dentro de um m ês. E era nesse ponto que entrava o concurso de beleza. Liz não gostava de suas perspectivas. Sabia ser um a repórter m ais talentosa e escrevia m elhor do que Marguerite, m as era m enos atraente. Liz era o cham ado "pé-de-boi" do escritório, cobrindo as m atérias prosaicas e insípidas, da econom ia francesa aos salões de autom óveis. Marguerite era prem iada com as m atérias m ais saborosas, com o os desfiles de m odas e entrevistas com políticos, escritores e grandes nom es do cinem a.
A distribuição das m issões naquela m anhã confirm ara isso m ais um a vez.
Havia um a m atéria sensacional esperando para ser distribuída e Liz rezara para que ela lhe coubesse, a fim de provar que era a m elhor repórter, a que o escritório deveria conservar. Mas Trask oferecera a m atéria a Marguerite Lam arche. E era um a coisa m uito além da cabeça frívola de Marguerite.
Bill Trask recebera a inform ação — e com o ele era bom nessas inform ações quentes — de que o carism ático m inistro do Interior, André Viron, a cam inho do posto de prim eiro-m inistro, estava balançando à beira do desastre, am eaçado por um escândalo nacional em potencial, depois de realizar algum as transações duvidosas com um personagem furtivo do subm undo, cham ando Weidm an. Proprietário de um a pequena produtora cinem atográfica, que servia de fachada para a sua operação de tráfico de cocaína, Weidm an conseguira prom over um lançam ento no m ercado de títulos fraudulentos, obtendo o endosso do Ministro do Interior Viron. O dinheiro entrara, em grande quantidade, m as o valor dos títulos não m erecia qualquer confiança. O problem a era determ inar se Viron confiara em Weidm an e estava inocente na operação ou se m antinha algum a associação secreta com ele, enchendo ainda m ais os seus bolsos j á forrados de ouro. Para Bill Trask isso cheirava a outro Caso Stavisky, que tanto anim ara e abalara a França nos anos 30.
Era um serviço perfeito para Liz Finch agarrar com unhas e dentes. Mas, um a hora antes, a m atéria fora atribuída a Marguerite Lam arche. E Liz, em vez disso, recebera aquela m issão religiosa tão pouco prom issora, um a entrevista coletiva do Cardeal Brunet, de Paris, a ser realizada no Hotel Plaza Athénée. Algum tolo anúncio religioso sem a m enor im portância. Com o se alguém que contasse no escritório em Nova York pudesse dispensar qualquer atenção à m atéria.
Marguerite recebera a m atéria sensacional, porque podia seduzir Viron a lhe confidenciar a verdade. Liz recebera um a m igalha porque não fora dotada pela natureza para seduzir quem quer que fosse.
E tudo isso se refletia no espelho retrovisor.
Ela podia ver os cabelos ruivos rebeldes, que haviam se tornado alaranj ados na últim a rinsagem . Podia ver o nariz pontudo de predador, que não podia sequer ser classificado de rom ano. Os lábios eram duas linhas m uito finas, o queixo saliente. Apesar da pele clara e im aculada, ela sentia-se consternada com a sua aparência. Os seios eram m uito grandes, o que estava fora de m oda, ainda por cim a um pouco caídos. Havia quadril dem ais e as pernas eram ligeiram ente arqueadas. Em sum a, sua estrutura de l,60m conduzia ao desastre. A m elhor parte sua — e isso era a verdadeira crueldade da natureza — não podia ser vista: a m ente. Era inteligente, criativa, persistente.
Mas essa m ente era tam bém pródiga. Im placavelm ente, proj etava im agens de Marguerite Lam arche a flutuar pela redação. . Marguerite, com 28 anos e quatro anos m ais m oça do que ela, fora feita para ser m odelo, um a profissão que de fato exercera por algum tem po. Era alta, esguia, graciosa, cabelos escuros lustrosos, as feições pequenas e perfeitas de um a linda gueixa, lábios cheios e espichados, bem verm elhos, invej áveis seios pequenos e firm es ao m elhor estilo francês, pernas com pridas. E um cérebro banal. Mas quem se im portava com isso? Era inj usto dem ais.
E depois ocorreu a Liz, no instante em que entrava na Avenue Montaigne, que Bill Trask prem iara Marguerite com a m atéria sensacional não porque quisesse que ela seduzisse o Ministro do Interior Viron, m as porque ele próprio desej ava seduzi-la. E talvez j á o tivesse feito.
Liz Finch gem eu interiorm ente. Se a sua avaliação era correta — e provavelm ente era — suas possibilidades de conquistar o posto único na API no decorrer do próxim o m ês eram inexistentes. Marquerite teria um grande escândalo, um a m atéria de prim eira página, para exibir à alta direção. Liz só teria refugos, com o a m atéria que iria agora cobrir.
Ela se aproxim ou da entrada do Plaza Athénée e parou. O porteiro uniform izado abriu a porta, cum prim entou-a com um sorriso cortês, m as infelizm ente não galante. Liz pegou a bolsa de trabalho, se assim desej asse. Portanto, faço este registro em m eu diário particular, a fim de que um dia sej a lido por outros. Bernadette anotou o ano e a data do reaparecim ento da Virgem Maria. O ano é este e o dia daqui a três sem anas. E durante o período de oito dias subsequentes, entre 14 e 22 de agosto, a ser conhecido com o o Mom ento do Reaparecim ento.
"Esta é a notícia do Santo Padre para o m undo.
"A abençoada Virgem Maria está voltando a Lourdes.
Liz Finch ficou im óvel, o lápis na m ão, suspenso sobre o bloco de anotações, totalm ente confusa.
Sentada à sua m esa, no terceiro andar do prédio da API, na Rue des Italiens, Liz Finch term inou de escrever a fantástica reportagem , passou pela im pressora ao lado de sua m áquina, pegou as páginas e levou para o cubículo envidraçado de Bill Trask.
As m angas da cam isa enroladas, o corpo sólido acom odado num a cadeira de pau giratória, Trask anotava possíveis reportagens de sequência num exem plar da últim a edição de Le Figaro. Com o sem pre, Liz não pôde desviar os olhos dos cabelos de Trask. Ele tinha a pretensão de pentear os cabelos da m esm a form a que seu ídolo j ornalístico, H. L. Mencken, em Baltim ore, nos anos 20. Destoava por com pleto. Ela se perguntou o que pensaria a respeito a provável am ante de Trask, Marguerite. Muito tensa, Liz entregou a m atéria.
— Está pronta. Dê um a olhada.
Trask leu o Icad e alteou as sobrancelhas, m urm urando:
— Essa não... — Ele continuou a ler e, um instante depois, tornou a franzir as sobrancelhas. — Isso levará a m etade do m undo a Lourdes.
Trask voltou a se concentrar na m atéria. Leu a segunda página e a terceira. Devolveu a Liz.
— Está ótim a. Gostei. Não há alterações a fazer. Pode m andar. Liz hesitou.
— Acha que m erece tanto espaço?
— Claro. Por que não? É um a grande notícia. Liz sentia-se desafiadora.
— É um a besteira e você sabe disso, Bill. Não acredita nesse absurdo, não é m esm o?
Com algum esforço, Trask se em pertigou na cadeira.
— Meu bem , não estou aqui para acreditar ou deixar de acreditar. A m aioria dos 740 m ilhões de católicos do m undo acredita. A m aioria das cinco m ilhões de pessoas de todas as fés, que vão a Lourdes a cada ano, acredita. Os cinco m il que alegam terem sido beneficiados com curas na gruta acreditam . Os quase 70 afortunados cuj as curas m ilagrosas foram confirm adas acreditam . Isso j á é suficiente para fazer com que um novo aparecim ento da Virgem Maria sej a notícia... e isso é tudo o que m e interessa.
— Pois eu ainda acho que é besteira e sinto-m e contente por ter acabado com isso.
Ela j á se virará para deixar o cubículo quando Trask cham ou-a de volta:
— Espere um pouco, m eu bem . — Ele esperou que ela tornasse a fitá-lo. — Ainda não acabou, Liz. Ao contrário, está apenas com eçando. Vou m andá-la a Lourdes para um a cobertura dia a dia. É a sua próxim a grande m issão.
Era um golpe físico e Liz estrem eceu.
— Com o quer que eu esquente a história, Bill? Escrevendo sobre Cinderela ou Cachinhos Dourados e os Três Ursos? Por favor, Bill, não m e desperdice nisso. Qualquer "foca" pode fazer essa m atéria, por tudo o que acontecerá. Sim plesm ente não há qualquer história. Por que não m e dá algum a coisa em que eu possa m e revelar, com o... com o o escândalo Viron?
O sem blante de Trask se m anteve im passível.
— Tenho certeza de que Marguerite é bastante com petente para cuida r de Viron. Ela está com Viron. E você tem a Virgem . Não tente m e copidescar, Liz. Preocupe-se apenas em fazer um relato do retorno da Virgem e terá um a grande m atéria... o bastante para deixar todo m undo feliz.
Ela sentiu-se tentada a discutir com Trask, dizer-lhe que estava apenas garantindo a sua dispensa ao enviá-la para aquela cidadezinha perdida nos Pireneus, enquanto dava a Marguerite um a coisa certa, que não era j usto, não era absolutam ente j usto.
Mas só podia agora ver o topo da cabeça de Trask, aquela form idável cabeleira ao estilo de Mencken. Com preendeu que nada havia m ais a dizer, que não adiantava continuar a lutar. Sentindo a sua presença, Trask resm ungou, sem levantar os olhos:
— Pode ir, m ocinha. Despache a m atéria. Há m uitas pobres alm as por aí esperando para serem salvas.
— Que se fodam todas — m urm urou Liz, bem baixinho. Ela virou-se para ir despachar a m atéria, perguntando-se quem podia acreditar num a história com o aquela.