O Milagre
Capítulo 13
Sexta-Feira, 19 de Agosto
Hipnotizada pelo relógio no consolo, Gisele Dupree observou o ponteiro das horas e o ponteiro dos m inutos m arcarem onze e m eia da m anhã.
Sua atenção deslocou-se para a porta do apartam ento, aguardando a batida que deveria soar a qualquer segundo.
Ela voltara ao apartam ento m ais de m eia hora antes, preparando-se para a chegada prevista de Sergei Tikhanov. Levantara-se bem cedo, conduzindo um a peregrinação program ada de italianos pela excursão habitual de Lourdes. Term inando às 10:40, ela dispunha de 20 m inutos para descansar, antes de iniciar sua excursão seguinte. Em vez disso, porém , queixara-se novam ente da enxaqueca e dissera ao diretor da agência que precisava voltar ao apartam ento e deitar-se. Sua saída provocara algum constrangim ento.
Havia o risco, ao deixar o trabalho pela segunda vez, de ser despedida quando retornasse. Mas ela dissera a si m esm a que não precisaria voltar. Estava em penhada num j ogo e, se desse certo, o risco não teria a m enor im portância.
Acreditava, desde ontem , que seu j ogo era um a coisa certa. Especialm ente porque a aposta em seu futuro tinha um a boa base. Se Tikhanov realm ente tencionasse desafiá-la, haveria Liz Finch com o um a fonte alternativa de dinheiro para com prar sua descoberta.
Se não fosse o russo, seria a am ericana, ela garantira a si m esm a, às onze e m eia — e ainda tinha certeza de que seria Tikhanov.
Às 11:37 ela j á não tinha tanta certeza.
Era inconcebível que um diplom ata da estatura de Tikhanov, um candidato ao cargo de prim eiro-m inistro da União Soviética, alguém com tanta coisa em j ogo, perm itisse que um a denúncia explodisse daquela m aneira. Ela estava surpresa por ele não ter aparecido na hora m arcada e agora se perguntava se o russo não seria bastante obstinado e suicida para não com parecer em m om ento algum . Ou talvez ele estivesse encontrando problem as para obter o dinheiro, o que explicaria o atraso. Contudo, ela lhe oferecera um a alternativa.
Gisele com eçou a se preocupar.
Não gostava de suas chances ficarem reduzidas a um a só fonte, a Liz Finch, que poderia ter problem as para arrancar o dinheiro necessário de sua agência am ericana.
Gradativam ente, as perspectivas m aravilhosas, que Gisele im aginara, com o o dia ensolarado lá fora, com eçaram a obscurecer.
E, de repente, ela virou-se. Houvera um a batida na porta? Ela achava que sim . E disse:
— Quem está aí?
Não houve resposta. Mas, depois, soaram m ais três batidas nítidas na porta.
No m esm o instante ela se reanim ou. Deixando de lado qualquer pretensão de frieza ou calm a, Gisele correu para a porta. Abriu-a bruscam ente. Lá estava ele, o rosto de granito sisudo, o enorm e bigode, num grosso terno escuro, gravata preta.
Sergei Tikhanov. Por um a gentileza inata e com a vitória ao seu alcance, Gisele cum prim entou-o cordialm ente:
— Que prazer em vê-lo, Sr. Sam uel Talley !
— Olá — disse ele, com um aceno de cabeça brusco, passando por ela e entrando na sala de estar do apartam ento.
Fechando a porta, Gisele virou-se para fitá-lo.
— E então?
— Você ganhou — disse ele, sim plesm ente. — Sou m esm o Sergei Tikhanov.
— Tive certeza desde o m om ento em que vi a sua fotografia sem o bigode.
— Muita esperteza de sua parte, Srta. Dupree. É m ais esperta do que im aginei. Deve ser elogiada. É claro que eu não tinha opção a não ser procurá-la esta m anhã. Foi m uita im prudência m inha, em prim eiro lugar, ter vindo a Lourdes. Mas com preensível. Um ato de desespero de um hom em m oribundo. Contudo, foi um erro. E depois de com etido, eu não podia deixar que a notícia se espalhasse. Sabia que precisava evitar que você tornasse pública a m inha identidade.
Gisele fitava-o fixam ente.
— Então está aqui para evitar a denúncia. Espero que não tente nada violento. Devo avisá-lo que estou arm ada.
Tikhanov pareceu ficar ofendido.
— Srta. Dupree, com o m inha vida deixa bem claro, posso ser qualquer coisa m enos um hom em violento. Sugeriu um acordo e estou disposto a aceitá-lo. Vim aqui para atender a seus term os. Sugeriu que m e custaria 15 m il dólares.
Gisele sentiu-se inebriada, dom inada por um a ganância súbita. Ela o tinha à sua m ercê e aquela era um a oportunidade que só surgia um a vez na vida.
— Isso foi ontem — disse Gisele, im pulsivam ente. — Hoj e, as condições m udaram .
— Mudaram ?
— Tenho agora outra pessoa para com prar a m inha inform ação — anunciou ela, im pudentem ente. — E essa outra pessoa pode estar disposta a pagar m ais.
Pela prim eira vez, Tikhanov dem onstrou algum a preocupação.
— Disse ao outro com prador o que tinha para oferecer?
— Claro que não. Não revelei coisa algum a. Mas agora terá de m e pagar 20 m il dólares. Mas sem pre pode, com o sugeri, enviar o dinheiro na próxim a sem ana...
Tikhanov ofereceu um sorriso torto.
— Não há necessidade. Quero concluir o negócio im ediatam ente. Felizm ente, sem pre viaj o com bastante dinheiro, em três m oedas diferentes. Para... para pequenas em ergências... e pagam entos. — Ele fez um a pausa, sorrindo outra vez, um sorriso em que não havia qualquer hum or. — Eu j á esperava que aum entasse o preço. Tenho negociado e barganhado por toda a m inha vida. Adversários com todos os trunfos sem pre levantam o preço. Eu trouxe 20 m il... na verdade, um pouco m ais... em dólares am ericanos.
— Vinte m il serão suficientes — disse Gisele, fazendo um esforço para controlar o trem or na voz.
— Aqui está o dinheiro. — Tikhanov m eteu a m ão no bolso direito do paletó. Tirou um grosso m aço de notas verdes, presas por um elástico. Pôs o dinheiro na m esinha de café e acrescentou: — Todo seu.
Os olhos de Gisele se arregalaram .
— Jam ais tive a intenção de prej udicá-lo — disse ela. — Nada tenho contra você. Apenas precisava do dinheiro.
Quando ela com eçou a se inclinar para pegar o dinheiro, Tikhanov esticou abruptam ente o braço direito, detendo-a.
— Não tão depressa. Meu pagam ento está aqui. Onde está o que você tem para m e dar em troca?
— Claro, claro... — balbuciou Gisele. — Vou buscar a prova, a fotografia... todas as fotografias...
— E os negativos — acrescentou ele, suavem ente.
— Isso m esm o, os negativos tam bém . Espere um instante. — Ela virou-se e seguiu apressadam ente para o quarto. — Vou buscar tudo.
Tikhanov olhou pela porta aberta por alguns segundos e depois entrou em ação, deslizando pelo chão atapetado, sem fazer barulho, com a agilidade decorrente da prática.
Ele viu que Gisele estava j unto de um a arca de gavetas, abrindo a de cim a, concentrando-se em seu conteúdo, de costas para a porta. Tikhanov ergueu-se nas pontas dos pés, equilibrado, tenso, com o um a cascavel prestes a dar o bote. Os olhos eslavos eram agora fendas estreitas, fixados em Gisele. Ela estava ocupada a tirar um a fotografia e um negativo da gaveta superior.
No instante em que ela levantou as coisas, a m ão de Tikhanov entrou no bolso esquerdo do paletó e saiu com um pedaço de corda, fina e resistente.
Ele avançou depressa, bem depressa, atravessando o quarto em sete longas passadas, indiferente ao barulho que fazia. Gisele ouviu^o e com eçou a se virar quando ele alcançou-a.
A últim a coisa que ela viu claram ente de Sergei Tikhanov foram os olhos desvairados, brilhando intensam ente no rosto assassino. Com a rápida eficiência de um com ando do Exército Verm elho, ele passou a corda pelo pescoço e torceu. Gisele deixou escapar um grito rouco, que se transform ou num gem ido, os punhos com eçaram a bater nele, no esforço de respirar e libertar-se. Sua força surpreendeu Tikhanov, as unhas de um a de suas m ãos lhe arranharam a face. Ele reduziu a pressão para se proteger. Nesse m om ento, Gisele desvencilhou-se e, com a corda ainda pendurada no pescoço, cam baleou do quarto para a sala, tateando à procura de algum a coisa no bolso da saia. Mas Tikhanov partiu selvagem ente atrás dela, alcançando-a no instante em que Gisele batia num a m esa, derrubando o telefone e um vaso de flores.
A corda estava outra vez nas m ãos enorm es de Tikhanov, ele a torcia e apertava cada vez m ais a garganta de Gisele, garroteando-a im placavelm ente. A m ão dela cessou de tatear pelo bolso, a outra m ão pendeu inerte pelo lado do corpo. Seus olhos se esbugalharam , quase saltando das órbitas, a boca se entreabriu, a saliva escorrendo. Brutalm ente, Tikhanov continuou a estrangulá-la, cada vez com m ais força.
Subitam ente, os olhos de Gisele se fecharam , a cabeça pendeu para um lado, o corpo ficou desengonçado, com o um a boneca de trapos. Ela com eçou a arriar, depois se dobrou silenciosam ente e resvalou para o tapete. Ele acom panhou-a até lá, as m ãos ainda apertando a corda, m antendo-a esticada ao m áxim o, até que Gisele ficou com pletam ente im óvel.
Tikhanov finalm ente largou a corda. Aj oelhando-se, exam inou o corpo atentam ente. Estendeu a m ão para verificar a pulsação. Não havia nenhum a.
Satisfeito, ele desenrolou a corda lentam ente, levantou a cabeça inerte e sem vida, soltando-a. Depois, bruscam ente, deixou a cabeça cair de volta ao chão. Guardando a corda no bolso esquerdo, ele pegou o m aço de dinheiro am ericano na m esinha de café e m eteu no bolso direito. Viu que um a pequena pistola — ela estava m esm o arm ada — caíra do bolso da saia. Não a tocou.
Levantando-se, Tikhanov voltou rapidam ente ao quarto. No chão, j unto da arca, encontrou a sua fotografia sem o bigode, tirada ao lado da gruta, assim com o o negativo. Guardou-os no bolso. Pondo um par de luvas que tirou do bolso da calça, revistou a gaveta aberta, recolhendo todo o pacote de fotografias e negativos, m ais duas fotografias grandes de seu rosto e um recorte de j ornal que o m ostrava. Rasgou as últim as coisas em pedacinhos, que largou num bolso do paletó. Agora, lim pando todas as superfícies em que poderia ter tocado, procurou por qualquer bloco ou pedaço de papel em que pudesse estar escrita algum a referência a Talley ou Tikhanov. Não havia nada no quarto, na cozinha ou na sala de j antar. Ele voltou à sala de estar.
Avistou o telefone no chão e, ao seu lado, um caderninho de endereços verm elho. Na letra T, encontrou anotado, por Gisele, o nom e "Talley, Sam uel", indicando o hotel e seu endereço. Confiscou tam bém o caderninho.
Um olhar de despedida para o cadáver.
O cadáver m ais m orto que ele j á vira.
Não sentia qualquer rem orso. Por m ais bonita e j ovem que ela pudesse ser, não passava de um a chantagista noj enta. E tentara assassiná-lo. Ele a m atara em legítim a defesa.
Tikhanov foi até a porta do apartam ento, abriu-a. Olhou para um lado e outro do corredor. Estava vazio. Ele saiu, fechou a porta sem fazer qualquer barulho, deixou o prédio.
Ao m eio-dia exatam ente, com o fora instruída a fazer no dia anterior, Liz Finch ligou para o telefone que Gisele lhe dera. O núm ero estava ocupado.
Um pouco desconcertada, Liz tornou a discar um m inuto depois. Ainda sinal de ocupado. Ela passou a discar a intervalos de dois m inutos, sem pre encontrando a linha ocupada. Esperando que a linha ficasse desocupada, Liz ficou especulando se conseguiria m esm o obter um a grande história de Gisele. Não podia im aginar o que seria e tinha duvidas se Gisele realm ente sabia o que constituía um a grande história.
As ligações de Liz continuaram por m ais de 20 m inutos. Finalm ente, concluindo que havia algo errado com o aparelho de Gisele, ela ligou para a telefonista. Depois de um a longa conversa em francês e de intensa expectativa no quarto de hotel, enquanto a telefonista investigava, Liz só pôde saber que o telefone de Gisele estava fora do gancho ou escangalhado e o problem a seria resolvido o m ais depressa possível.
Com preendendo que um a solução para o problem a poderia dem orar interm inavelm ente e que Gisele, sem saber que havia algum defeito no telefone, poderia estar esperando, Liz resolveu ignorar os m odernos m eios de com unicação e procurá-la pessoalm ente.
Estudando o m apa de Lourdes, enquanto descia para o saguão do hotel, Liz constatou que o apartam ento em que Gisele se encontrava era no outro lado do dom ínio e que levaria m uito tem po para cobrir a distância a pé.
Na rua, ela fez sinal para um táxi e deu o endereço. Sentada na beira do assento preto, Liz voltou a especular sobre o tipo de história que Gisele teria para lhe vender. Devia ser algo m uito especial, concluiu Liz finalm ente. Afinal, em com paração com os outros j ovens locais, Gisele era surpreendentem ente experiente e sofisticada, obviam ente lia os j ornais de Paris. Saberia o que estava à altura de um a cobertura de prim eira página. Reconheceria um a grande notícia e fora bem clara no dia anterior ao proclam ar que possuía um a grande história. Era verdade que a história tinha um preço alto e Bill Trask teria de com prá-la para a API. Mas Liz sabia que a agência pagava quantias consideráveis por histórias exclusivas.
A possibilidade de obter um a história sensacional crescia de im portância na m ente de Liz, porque ela precisava desesperadam ente. A única m atéria de que dispunha agora era sobre as fraquezas de Bernadette. Insinuava que toda a validade de Lourdes se baseava num a fundação precária. Mas a reportagem carecia de qualquer prova concreta. Liz planej ava passar a história pelo telefone no dia seguinte, m as tinha a sensação angustiante de que não im pressionaria a API de m aneira suficiente para m antê-la no escritório de Paris, ao invés da afortunada Marguerite Lam arche, com seu escândalo de Viron, potencialm ente explosivo.
Liz precisava de um a história m uito m ais espetacular de Gisele.
Chegando ao endereço, ela pagou ao m otorista e entrou apressadam ente no prédio. O apartam ento de Gisele ficava no térreo, no m eio do corredor. Liz encontrou, não conseguiu localizar um a cam painha e por isso bateu na porta.
Não houve resposta.
Talvez Gisele estivesse no banheiro. Liz bateu com m ais força, persistentem ente, até os dedos doerem .
Ficou esperando a resposta de Gisele. Mas não houve nenhum a.
Por seu longo condicionam ento com o repórter, Liz experim entou autom aticam ente a m açaneta da porta afim de verificar se estava trancada. A porta se abriu. Não fora trancada. Muita negligência de Gisele.
Liz decidiu que tinha o direito, nas circunstâncias, de entrar no apartam ento. Em purrou a porta e entrou na sala de estar . Estava vazia.
— Gisele — gritou Liz. — Estou aqui! Sou eu, Liz Finch!
Não houve qualquer voz soando em resposta. Apenas o silêncio.
No m om ento, o apartam ento parecia desocupado. Obviam ente, achando que Liz não telefonaria, Gisele saíra para trabalhar ou então para procurá-la.
O m aldito telefone estava enguiçado, fora isso que acarretara o desencontro, pensou Liz. Ela procurou o telefone por algum a superfície. Os olhos finalm ente se fixaram no chão, quase a seus pés: lá estava, o fone separado do gancho, o que explicava o sinal de ocupado.
Aj oelhando-se para pegar o telefone, os olhos de Liz depararam com algo tão inesperado que ela deixou escapar um a exclam ação de espanto.
Havia um a m ão e um braço estendidos, visíveis na beira de um a estante divisória que escondia o sofá. Aturdida, Liz levantou-se, m eio trôpega, deu um passo à frente, a fim de ter um a visão m ais com pleta.
E viu o corpo estendido no chão, ao lado da m esinha e do sofá, inerte.
Era m esm o Gisele. Liz adiantou-se e aj oelhou-se, a fim de verificar se ela desm aiara e estava apenas sem sentidos. Mas no instante m esm o em que baixou a m ão para o pulso de Gisele, a fim de verificar a pulsação, percebeu que algum a coisa m ais drástica acontecera. O rosto inchado de Gisele tinha um a expressão horrível, insólita.
Ela não estava inconsciente, pensou Liz, largando o pulso. Mas m orta, com pletam ente m orta. As m arcas verm elhas em seu pescoço eram evidentes. Ela fora estrangulada. Assassinada.
Por m ais experiente que fosse em todos os tipos de crim e, Liz instintivam ente recuou diante da visão. Levantou-se trêm ula, tentando com preender. A princípio, o pensam ento m ais corriqueiro aflorou em sua m ente. Um intruso, um assaltante, Gisele tentara contê-lo e fracassara. Mas, depois, outro pensam ento surgiu. No dia anterior Gisele deixara bem claro que estava em cim a de um a grande história... a m aior... com repercussões internacionais..."Terá de esperar até am anhã. Saberei então se poderá ter a história."
Gisele estava prestes a conseguir sua história, apenas aguardava a confirm ação para hoj e.
E a confirm ação tinha de vir de alguém. Isso m esm o, alguém estivera no apartam ento. Gisele provavelm ente deparara com um a história sensacional. Mas alguém soubera e não perm itira que Gisele a vendesse. Alguém a m atara, brutalm ente, m onstruosam ente.
Pobre criança.
Adeus, Gisele. Adeus, história sensacional. E, lem brança egoísta, adeus Liz Finch e sua possibilidade de conservar o em prego.
A intenção im ediata de Liz era se afastar do cadáver e do local do crim e. Mas seu m elindre estava se desvanecendo e a curiosidade de repórter predom inava. Se alguém estivera ali, poderia ter deixado um a pista. Provavelm ente não. Mesm o assim , vale a pena procurar. Liz tateou a bolsa à procura do lenço, tirou-o, desdobrou-o. Enrolou-o na m ão direita. Se pretendia fazer um a busca, era m elhor não deixar suas im pressões digitais e ser incrim inada no caso.
Liz iniciou sua revista apressada m as m eticulosa, passando de côm odo em côm odo. Mas nada encontrou. Nenhum sinal de outra presença hum ana. Nenhum a pista. Nenhum pedaço de papel escrito. O apartam ento estava estranham ente anônim o.
Depois de 15 m inutos, Liz com preendeu que fora precedida por alguém ainda m ais esperto e profissional do que ela.
Nervosa com a possibilidade de um visitante aparecer e surpreendê-la ali, Liz não se atreveu a ficar por m ais tem po. Saiu do prédio para a rua, encontrou um táxi para levá-la ao hotel, nas proxim idades do dom ínio.
Chegando ao hotel, Liz decidiu o que faria em seguida. Achava que devia um favor a Gisele Dupree por ter tentado aj udá-la. Devia um telefonem a. Pensou em ligar de seu quarto, m as concluiu que poderia ser facilm ente determ inada a origem . Não era seguro. Perguntou ao m otorista onde poderia encontrar um a cabine telefônica pública. Ele orientou-a para um ponto a m eio quarteirão de distância.
Enquanto se encam inhava para o telefone, Liz abriu a bolsa e encontrou um jeton. Entrou na cabine, fechou a porta, largou o jeton na fenda e discou para a telefonista.
— Telefonista — disse ela, em francês — ligue-m e com o Comissariat de police. E um a em ergência,
— Police secours? Appelez-vous dix-sept.
Liz desligou e discou o 17.
Segundos depois, um a voz de hom em atendeu, enunciando seu posto e nom e, inform ando que era da seção de em ergência da policia.
— Pode m e ouvir direito? — perguntou Liz.
— Perfeitam ente.
— Tenho de lhe com unicar um a coisa im portante. Assim , por favor, não m e interrom pa. — Liz continuou, rapidam ente, nitidam ente. — Fui ao apartam ento de um a am iga para m e encontrar com ela. Deveríam os sair j untas para fazer com pras. A porta do apartam ento estava aberta e entrei. Encontrei-a caída no chão, m orta, estrangulada. Deixe-m e repetir. Encontrei-a assassinada. Não há a m enor dúvida de que ela está m orta. Anote agora o nom e e endereço...
— Madam e, se m e perm itir interrom pê-la...
— Não lhe direi m ais nada além do que estou com unicando. O nom e da vítim a é Gisele Dupree, um a m ulher solteira, na casa dos 20 anos. Seu endereço é... — Liz procurou pelo cartão que Gisele lhe dera, com o endereço anotado, leu-o devagar. E depois acrescentou: — Encontrará o corpo lá. Isso é tudo.
— Já anotei. Mas, escute, m adam e...
Liz desligou e saiu da cabine para respirar ar fresco.
Liz vagueou a esm o por m eia hora, até que seus nervos se acalm aram . Com eçou então a pensar no seu futuro. Guardara a m atéria sobre Bernadette, na esperança de encontrar algo m ais espetacular, de obter a grande história de Gisele. Más agora essa esperança se desvanecera, não havia opção a não ser despachar para Bill Trask, em Paris, qualquer coisa que j á tivesse pronta.
Ela m udou de rum o e se encam inhou para o escritório da im prensa. Alcançou-o 10 m inutos depois e entrou na caverna de lona tem porária. Havia pelo m enos 100 m esas lá dentro. Infeliz, ela se encam inhou para a m esa de carvalho que partilhava com dois outros correspondentes. A cadeira estava desocupada e Liz torceu para que os outros dois estivessem encontrando tanta dificuldade quanto ela para descobrir algum a m atéria interessante.
Quando pegou o telefone e pediu à telefonista que a ligasse com a API em Paris, ocorreu-lhe que tinha não apenas um a, m as duas histórias que poderiam interessar a seu chefe. Mom entos depois, ela estava em contato com a API e pediu que a ligação fosse transferida para Bill Trask. A voz ríspida de Trask soou com o um desafio:
— Quem está falando?
— Deixe disso, Bill. Quem poderia estar lhe telefonando de Lourdes? É Liz quem está aqui, m ais ninguém .
— Eu j á estava perguntando quando você entraria em contato.
— Há seis dias que não acontece absolutam ente nada por aqui, Bill. Pode estar certo de que tenho corrido de um lado para outro, fazendo o possível e o im possível para encontrar algum a coisa.
— Alguém j á viu a Virgem ?
— Pare com isso, Bill.
— Estou falando sério.
— Sabe m uito bem que a resposta é um grande NÃO. Mas consegui desencavar duas histórias para você. Não vão abalar o m undo, m as são histórias.
— Muito bem , deixe-m e ligar a m áquina. Ficarei escutando, m as enquanto isso estam os gravando. Pode falar, Liz.
— Prim eira história, certo?
— Continue.
E Liz continuou:
— Assassinato em Lourdes esta m anhã. Assassinato brutal entre os devotos. Todas as pessoas aqui encontram a cura, m as um a m oça local encontrou a m orte. O nom e da vítim a é Gisele Dupree, solteira, talvez 26 anos, encontrada em seu apartam ento estrangulada, nas proxim idades da gruta... ao m eio-dia. Ela havia trabalhado com o secretária do em baixador francês na ONU, Charles Sarrat. Esteve em Nova York com a delegação francesa.
— Quando?
— Há dois anos. Í
— Mas o que ela estava fazendo em Lourdes agora?
Liz engoliu em seco. O teste de Trask.
— Ela estava trabalhando aqui com o um a guia de turistas.
— Um a o quê?
— Ela conduzia excursões por Lourdes, levando os turistas a todos os pontos históricos.
— Muito bem , vam os tentar outro cam inho. Quem a assassinou?
— Sentindo-se desam parada, Liz im provisou:
— Entrei em contato com a polícia de Lourdes. O assassino ainda é desconhecido. Dizem que estão investigando diversas pistas, m as ainda.não anunciaram nenhum suspeito. Continuarei no caso, se você quiser.
— Mais algum a coisa sobre o assassinato?
— Posso dizer um a coisa a respeito da vítim a. Ela era m uito "bonita, sensual. E tam bém ...
Trask interrom peu-a bruscam ente:
— Não precisa se incom odar com o resto.
— Com o?
— Não precisa perder tem po em acom panhar o caso. Sabe m uito bem que não é um a história para nós, Liz. Quantos assassinatos são com etidos na França todos os dias? É apenas m ais um hom icídio com um . O que você tem aí? Um a j ovem guia. Um a m oça sem im portância assassinada por alguém desconhecido. Isso é coisa para a im prensa francesa. Não nos daria um centím etro qualquer em Nova York, Chicago ou Los Angeles, m uito m enos em Dubuque ou Topeka. É claro que poderíam os tirar algum proveito se o assassino for alguém conhecido ou se encontrar na história algum ângulo internacional.
— Posso continuar a trabalhar no caso para ver se descubro algum a coisa.
— Mas não dispense m uita energia. Não creio que isso possa nos levar a algum a coisa. Você m encionou outra história. Pode falar.
— Com o não há qualquer notícia de im portância em Lourdes, sobre a Virgem ou algum a outra coisa, preparei um a pequena m atéria sobre Bernadette e o que realm ente aconteceu com ela em 1858. Achei que poderia dar um a reportagem dom inical. Com algum a repercussão.
— Pode ditar. Estou ouvindo.
Liz respirou fundo.
— Pois lá vai.
Ela com eçou a ler a m atéria pelo telefone.
O lead versava sobre o fato de que Lourdes, que norm alm ente recebia cinco m ilhões de visitantes por ano, estava aloj ando naqueles oito dias o m aior núm ero de pessoas que j á acorrera para o santuário... e tudo por causa das visões de um a cam ponesa de 14 anos e um segredo que ela revelara.
Em bora a Igrej a Catóuca tivesse elevado Bernadette à santidade, depois de sua m orte, continuou Liz, um a m inoria do clero, além de m uitos estudiosos, questionara a veracidade das visões da pequena cam ponesa. Tentando desenvolver seu caso contra Bernadette, com o um a prom otora, Liz enum erou as suspeitas que existiam sobre a honestidade da garota.
— Os partidários de Bernadette sem pre insistiram que ela não teve qualquer interesse ao com unicar as aparições — Liz leu pelo telefone. — Mas estudiosos ressaltaram que, à m edida que o núm ero de espectadores aum entou, Bernadette tornou-se um a exibicionista, apresentando-se para as m ultidões. Houve um a ocasião em que seu pai, François, notando a grande concentração de espectadores, foi ouvido a sussurrar para Bernadette, quando ela se aj oelhou diante da gruta: "Não com eta nenhum erro hoj e. Faça tudo direito."
Satisfeita com esse toque, Liz relatou com o a própria Bernadette não acreditava que a gruta pudesse curá-la. Depois, passou a falar do tem po que Bernadette passara em Nevers, onde a superiora das noviças sem pre duvidara de que tivesse visto a Virgem .
Enquanto continuava a ditar a história pelo telefone, Liz foi se sentindo cada vez m ais apreensiva. A seus próprios ouvidos, parecia m ero boato, quase vulgar. E se perguntou com o Bill Trask estaria reagindo. Ela fez um a pausa.
— O que acha, Bill?
— É interessante, é claro. Um pouco surpreendente. Onde recolheu o m aterial?
— Um a boa parte de defensores da Igrej a... do Padre Ruland aqui, do Padre Cay oux e Irm ã Francesca em outras cidades, de várias pessoas em diversos lugares.
— Eles lhe contaram tudo isso? Eram contra Bernadette?
— Não. A m aioria era a favor de Bernadette. Fui seletiva no que tirei das entrevistas para... reforçar o m eu ângulo da história. Ainda tenho outra página. Quer que eu term ine?
— Não precisa se incom odar — disse Trask, bruscam ente. — Boa tentativa, Liz, m as possivelm ente não poderíam os aproveitá-la. Esses supostos fatos que você esteve lendo podem ser válidos, m as não som am m uita coisa. São m uito problem áticos e especulativos, frágeis dem ais para suportar a tem pestade de controvérsia que certam ente gerariam no m undo inteiro. Quando se está desm ascarando um a santa, Liz, especialm ente um a santa quente e tão em voga no m om ento, é m elhor ter os fatos concretos. Precisa pelo m enos de um a prova incontestável, partindo de um a fonte de absoluta credibilidade. Sei que tem feito o m elhor possível, m as sua história foi construída sobre areia e precisam os de um a fundação m ais sólida. Está m e entendendo?
— Acho que sim — balbuciou Liz.
Ela não tinha coragem de se opor a seu chefe porque sabia desde o início que a história era frágil, baseada num ângulo artificial que visava a chocar.
— Portanto, Liz, vam os esquecer. E m antenha os olhos bem abertos.
—Para quê
—Para a história realm ente grande... se a Virgem Maria vai ou; não reaparecer em Lourdes até dom ingo. Se conseguir essa história, não será exclusiva, m as ficarei satisfeito.
Terei de esperar para ver.
— Pois espere e vej a.
Sabendo que ele estava prestes a desligar, Liz tinha de fazer m ais um a pergunta e odiando-se por isso:
— Oh, Bill, só m ais um a coisa... por curiosidade... m as com o Marguerite está indo com a história de Viron?
— Acho que m uito bem . Parece que ela chegou bem perto dele. Entregará sua m atéria am anhã.
— Boa sorte para ela.
Depois de desligar, Liz sentiu vontade de se m atar. Adeus em prego, adeus carreira, adeus Paris, alô para um a sentença de perpétua servidão em algum a cidadezinha do Meio-Oeste am ericano.
Certam ente aquele era o m om ento m ais desolado de toda a sua vida adulta.
Ela ouviu o telefone tocar e rezou para que fosse a sua salvação.
A voz era de Am anda Spenser.
— Estou contente por tê-la encontrado, Liz. Conversei com o Padre Ruland, com o lhe disse que faria. Está lem brada? Ele foi bastante cooperativo.
— Sobre o quê?
— Deu-m e o nom e da pessoa em Bartrès de quem ele com prou o diário de Bernadette. É Madam e Eugénie Gautier e m arquei um encontro com ela. Estou de partida para Bartrès e pensei que você talvez quisesse m e acom panhar.
— Obrigada, m as não quero. Infelizm ente, j á ouvi tudo o que poderia querer saber a seu respeito. Meu pessoal em Paris sim plesm ente não está interessado. Já chega para m im .
— Nunca se pode saber... — m urm urou Am anda.
— Pois eu sei. Boa sorte, Am anda. Vai precisar.
O Dr. Paul Kleinberg estava estendido em sua cam a, no Hotel Astoria, descansando e lendo, enquanto esperava o telefonem a de Edith Moore, anunciando a sua decisão. Irritava-o que houvesse um a decisão a tom ar, j á que a pobre não tinha realm ente opção. Seu prognóstico fora definitivo e inequívoco. A doença era fatal. A m enos que ela se subm etesse ao bisturi do Dr. Duval e à im plantação genética, podia se considerar m orta. Parecia im possível que ela arriscasse a vida na dependência de um segundo m ilagre, quando o prim eiro finalm ente lhe falhara. Contudo, ela estava entregando seu futuro nas m ãos do m arido, Reggie, que era egoísta, irrealista e aparentem ente insensível ao destino da esposa.
Aquela dem ora era um a loucura total. Kleinberg desej ou estar com pletam ente fora daquele caso, de volta a seu confortável apartam ento em Paris.
E subitam ente o telefone ao seu lado, am plificado pela introspecção, tocou com o um a trom beta.
Ele levantou o fone, preparado para ouvir Edith Moore. Ficou surpreso ao descobrir que o interlocutor era hom em .
— Dr. Kleinberg? Aqui é Reggie Moore. Considerando o últim o encontro e a separação, Kleinberg ficou
ainda m ais surpreso com o tom de cordialidade de Reggie.
— Eu estava esperando que sua esposa telefonasse, Sr. Moore.
— Ela m e pediu que ligasse. Edith m e falou de sua visita ao hotel. Ela não estava passando bem e lhe agradeço.
— Já sabe então do Dr. Duval?
— Sei, sim . Ela m e contou tudo sobre essa nova cirurgia.
— Ela não pôde se decidir im ediatam ente — com entou Kleinberg. — Queria prim eiro conversar com você.
— Conversam os a respeito longam ente — disse Reggie, enigm aticam ente.
— E chegaram a um a decisão?
— Eu gostaria de lhe falar antes. Gostaria de discutir o assunto. Está livre?
— Totalm ente disponível. Sua esposa é m otivo da m inha presença aqui.
— Quando posso vê-lo?
— Agora.
— Está no Astoria — disse Reggie. — Conheço o hotel. Tem um lindo pátio nos fundos onde servem café. Poderíam os nos encontrar lá... deixe-m e ver... dentro de 15 m inutos. Está bom assim ?
— Está ótim o. Dentro de 15 m inutos. Kleinberg largou o livro e se levantou. Estava m ais exasperado do que nunca e tam bém desconcertado. Por que diabo Reggie Moore queria lhe falar? O que havia para discutir? Por que Reggie não podia lhe com unicar a decisão pelo telefone? Poderia então reservar tem po num a sala de operações num hospital de Lourdes ou então fazer as m alas e voltar logo para casa. Mas ele foi se lavar, penteou os cabelos, pôs a gravata e o paletó. Assim arrum ado, o Dr. Kleinberg desceu.
Descobriu que o pátio do Hotel Astoria era até agradável, com sua fonte m urm urante habitual, alegrada pelas j anelas am arelas dos quartos por cim a dos arbustos verdes. Havia seis m esas redondas de plástico branco, cadeiras de ripas. Todas se encontravam vazias, com exceção de um a. Essa era ocupada por um hom em grande, acendendo um charuto. E soprando o charuto estava Reggie Moore.
Kleinberg desceu apressadam ente os degraus para o pátio e aproxim ou-se da m esa. Moore apertou-lhe a m ão sem levantar. Kleinberg sentou-se no outro lado da m esa.
— Pedi café para nós dois — disse Reggie.
— Está bom ou quer outra coisa?
— Justam ente o que o m édico teria pedido — disse Kleinberg. Reggie soltou um a risada e tragou o charuto. Gradativam ente, seu rosto assum iu um a expressão solene. Quando falou, estava quase abj eto e parecia contrito:
— Lam ento a nossa pequena briga. Não tenho o hábito de gritar com quem quer que sej a.
— Tinha razão para estar transtornado — com entou Kleinberg, que não confiava em pequenas vitórias assim .
— Parece consideravelm ente m ais calm o agora.
— E de fato estou.
Reggie ficou observando enquanto o garçom aj eitava na m esa o café, crem e, açúcar e a nota. Mas não parecia interessado. Kleinberg percebeu claram ente que Reggie pensava em outra coisa. E não tinha pressa em falar.
Reggie levou a xícara aos lábios, o dedo m ínim o incongruentem ente estendido. Provou o café. Fez um a careta e tornou a pôr a xícara na m esa.
— Detesto o café francês, se m e perdoa dizê-lo.
Divertido, Kleinberg com entou:
— Não sou eu quem o faz.
Reggie tornou a tragar o charuto e depois aj eitou-o m eticulosam ente no cinzeiro, obviam ente preparando-se para tratar de negócios.
— Eu e a patroa tivem os um a longa conversa. Não m udou de ideia sobre o seu diagnóstico?
— Claro que não. Ela estará num a situação m uito difícil, a m enos que se tom e providências im ediatas.
— Doutor, o que é essa nova cirurgia? É com o qualquer outra cirurgia?
— Sim e não. — Kleinberg tentou pensar na m elhor m aneira de explicar com o m áxim o de sim plicidade. — Inicialm ente, há a cirurgia na m aneira com o provavelm ente conhece... a rem oção do , osso doente, a im plantação de novo tecido ósseo ou de um a prótese artificial. Mas a engenharia genética é diferente. Não conheço exatam ente o processo do Dr. Durval, m as sei que essa parte crucial não exigiria um a intervenção cirúrgica clássica. Consistiria na transplantação de genes saudáveis, m ais ao estilo de... de um a transfusão de sangue, digam os assim . Essa parte consistiria m ais de um a inj eção ou um a série de inj eções. Gostaria que eu explicasse o que é a engenharia genética?
— Eu... eu poderia com preender?
— Já ouviu falar em DNA, não é m esm o?
— Eu... eu acho que j á li algum a coisa a respeito — m urm urou Reggie, hesitante.
Pelo seu tom , Kleinberg avaliou que ele nunca lera nada a respeito, não sabia se DNA era a sigla de um a agência do governo ou o nom e de um cavalo de corrida. E Kleinberg se perguntou até que ponto poderia ir.
— O corpo hum ano consiste de células e cada célula contém 100 m il genes, espalhados por quase dois m etros de DNA, tensam ente enrolado. Quando um a célula se deteriora, torna-se um a célula aberrante, que desencadeia um câncer e com eça a se m ultiplicar, o corpo fica em grave perigo. As descobertas na pesquisa de separação de genes perm item agora aos especialistas usar enzim as para cortar filam entos de DNA, substituindo um gene defeituoso por outro saudável. Estou sim plificando bastante, m as pegou a ideia?
— Acho que sim — respondeu Reggie, que obviam ente nada havia entendido. — Mas não é necessário que eu saiba tudo a respeito, doutor, assim com o tam bém não sei de que m aneira funciona um com putador ou um aparelho de televisão, em bora os aceite e os use. Muito bem , a substituição genética ou qualquer coisa parecida. Aceito a sua palavra de que é a últim a coisa que a ciência descobriu, que j á foi provada que funciona e cura, que pode salvar a vida da m inha Edith.
— Setenta por cento em favor dela.
— É um a chance das m ais razoáveis para um apostador — disse Reggie, tornando a pegar seu charuto, batendo a cinza, riscando um fósforo e acendendo-o. Ela ficaria boa?
— Com o nova.
— Com o nova... m as não m ais a m ulher do m ilagre, não m ais um a m ulher curada m ilagrosam ente.
— Não, ela não seria curada m ilagrosam ente. Seria curada pela m edicina... pela ciência.
— O que m e traz um problem a.
— Um problem a?
— Com o ela lhe disse, estarei falido se não tiver um a esposa m ilagrosa. Nós dois estarem os liquidados.
— Lam ento m uito, m as isso não está no reino da m inha especialização — disse Kleinberg. — E um a coisa sobre a qual nada posso fazer.
Reggie observava-o com um a expressão astuta.
— Tem certeza, doutor? Tem certeza de que nada pode fazer a respeito?
Por um m om ento, Kleinberg sentiu-se desorientado.
— Nada a respeito do quê?
— A respeito de nos aj udar, deixando-nos com o bolo para com er, com o se costum a dizer. Ou sej a, salvando a vida de Edith pela cirurgia, m as ainda deixando que o seu caso sej a declarado um a cura m ilagrosa.
Kleinberg com eçava a entender tudo. O inglês queria fazer um a barganha.
— Está querendo que eu não faça qualquer referência à cirurgia depois, apenas certifique que ela foi curada m ilagrosam ente? É isso o que está m e pedindo?
— Mais ou m enos.
— Mentir para eles, para o Dr. Berry er e os outros, não lhes contar que o sarcom a voltou, não lhes falar da cirurgia, apenas confirm ar que Edith foi curada na gruta e nos banhos? Não estou fanaticam ente preso ao j uram ento de Hipócrates, m as m esm o assim ...
Reggie em pertigou-se na cadeira.
— Os m édicos estão sem pre fazendo essas coisas.
O Dr. Kleinberg sacudiu a cabeça.
— Sou um m édico que hão pode fazer isso. Duvido que até m esm o ,o m ais dedicado m édico católico aceitasse tal coisa. De qualquer form a, eu não posso fazer. Lam ento m uito, m as é im possível.
Levantando os olhos, Kleinberg ficou surpreso ao contem plar o rosto de Reggie. Estava abalado pela derrota e desespero, passara por um terrível envelhecim ento súbito, com o um novo Dorian Gray. Pela prim eira vez, o coração de Kleinberg sentiu pelo hom em , o ser hum ano no outro lado da m esa. Tentou pensar em algum a coisa confortadora para dizer e acabou m urm urando:
— Claro que estou confinado aos aspectos m édicos do caso, não tenho qualquer interesse na parte religiosa, na parte m ilagrosa. Meu único interesse é salvar Edith m edicam ente. Mas se outros ficarem desinform ados e alguém quiser ignorar esse aspecto, declarando-a curada m ilagrosam ente, não vej o m otivos para interferir. — Um a pausa e ele se ouviu acrescentando: — Se alguém responsável quiser dizer que ela foi curada m ilagrosam ente, o Dr. Duval e eu não vam os interferir. Não m encionarem os a operação. Isso dependerá de você e de qualquer clérigo a quem confidenciar o problem a. Da m inha parte, sim plesm ente sum irei, voltarei a Paris e ao m eu trabalho.
Era o m om ento de se agarrar à últim a tábua de salvação e Reggie ressuscitou.
— Quem ... quem poderia fazer o anúncio sem o seu certificado? Quem poderia considerar Edith curada m ilagrosam ente?
— Com o sugeri, poderia ser alguém na Igrej a, alguém bem situado. Não conhece alguém na alta hierarquia?
Reggie balançou a cabeça vigorosam ente.
— Alguns. Especialm ente, um . O Padre Ruland, que é o sacerdote m ais im portante em Lourdes. Foi ele quem achou desde o início que Lourdes precisava da cura m ilagrosa de Edith. Sem pre esteve do lado dela durante todo o tem po.
— Pois então descubra agora até que ponto ele está do lado de Edith — disse Kleinberg. — Peça a Edith para falar com ele. Tente conquistá-lo. Se Edith procurar o Padre Ruland e lhe contar a verdade, é possível que ele não tenha obj eções e se m ostre disposto a declará-la curada m ilagrosam ente. Pode estar certo de que não protestarei, não revelarei que ela foi salva pela cirurgia. Ficarei quieto.
Os olhos desbotados de Reggie com eçavam a brilhar.
— Faria m esm o isso?
— Por que não? Repito: o lado religioso não m e interessa. Se o Padre Ruland souber o que vam os fazer, depois fechar um olho e fingir que nunca aconteceu, dispondo-se a declarar que a cura de Edith foi m ilagrosa, então eu tam bém fecharei um olho... significando que fecharei a boca. E ponto final.
Reggie se levantou bruscam ente e apertou a m ão de Kleinberg efusivam ente.
— É um a boa pessoa... um hom em sensacional para um m édico. Pedirei a Edith para conversar im ediatam ente com o Padre Ruland, talvez até ir à confissão... Isso m esm o, a confissão é a m elhor m aneira. Contar tudo a um padre e tentar persuadi-lo a falar com Ruland... conseguir o apoio de Ruland... e um anúncio oficial.
— E se não conseguir obter o apoio dele?
— Vam os virar essa esquina quando chegarm os lá — declarou Reggie, antes de sair do pátio apressadam ente.
A viagem de 15 m inutos até Bartrès, no Renault alugado, transcorreu calm am ente para Am anda.
A única coisa acidentada era a sua cabeça.
A deserção de Liz Finch da busca de fatos para desm ascarar o m ito de Bernadette perturbara Am anda durante todo o percurso. Quando alguém tão sensata e experiente em pesquisa com o Liz finalm ente desistia, era im provável que outra pessoa — e m uito m enos um a am adora com o Am anda — pudesse descobrir qualquer coisa útil. O que tam bém incom odava Am anda era que a sua busca da verdade estava levando m uito tem po e dentro em breve se tornaria inútil. Quando ia para a cam a com Ken todas as noites e o aninhava em seus braços, era-lhe evidente que ele se encontrava num declínio acelerado, cada vez m ais fraco. Ele tinha até um a dificuldade sem pre m aior para descer até a gruta e rezar. Som ente um a convicção fanática nos poderes curativos da Virgem Maria o m antinha indo até lá. Não havia lógica ou súplica de Am anda que pudesse dissuadi-lo de sua dependência na fé religiosa.
E ali estava ela, seguindo para um a aldeia cham ada Bartrès, a fim de conversar com a guardiã do diário sensacional de Bernadette. Esse esforço final era a tentativa de descobrir algum fato que estourasse a redom a de Bernadette e perm itisse a Am anda levar seu am ado de volta a Chicago para um a cirurgia há m uito atrasada.
Era tudo bastante depressivo e Am anda desconfiava que m ais um a vez se encam inhava a um beco sem saída. Tam bém sentia-se culpada por desperdiçar seu tem po a tentar m inar a fé de Ken, quando deveria perm anecer ao lado dele, proporcionando-lhe conforto no que poderiam ser os seus últim os dias.
Ela estava agora num a estrada estreita, passando por duas casas m odernas, depois um santuário à beira da estrada — um Jesus grande de gesso, com um buquê de flores roxas a seus pés — e depois atravessava um vale, subia de novo. Foi lá de cim a que avistou à sua frente os típicos telhados franceses da aldeia de Bartrès.
Guiando devagar na descida, com o cam panário de um a igrej a à vista, Am anda pensou no que estava à sua espera. Não parecia m uito prom issor. Telefonara"para Madam e Eugénie Gautier de Lourdes e tivera um a acolhida fria. Depois de se certificar de que Madam e Gautier era m esm o a m ulher de quem o Padre Ruland com prara o últim o diário de Bernadette, Am anda solicitara um encontro pessoal.
— Para quê? — perguntara Madam e Gautier, que falava em tom áspero e era avarenta com as palavras.
Am anda explicara que viera de Chicago, Illinois, nos Estados Unidos, pesquisando para um estudo que escreveria a respeito de Bernadette. Ao que Madam e Gautier dissera bruscam ente:
— Não quero saber de j ornalistas.
Am anda explicara pacientem ente que não era j ornalista.
— Sou um a psicóloga clínica e um a professora associada na Universidade de Chicago.
Madam e Gautier dissera:
— É um a professora? Um a professora universitária de verdade?
E Am anda respondera:
— Isso m esm o, Madam e Gautier. Ensino na Universidade de Chicago.
Houvera um a pausa prolongada e depois Madam e Gautier perguntara:
— O que é a Universidade de Chicago? Nunca ouvi falar.
Am anda assegurara que era um a universidade grande e prestigiosa, bastante conhecida nos círculos acadêm icos am ericanos. Citara algum as estatísticas para m ostrar as dim ensões da universidade. Madam e Gautier a interrom pera para indagar:
— Quando quer vir até aqui?
A súbita reviravolta fizera Am anda gaguej ar:
— Eu... eu... eu gostaria de ir o m ais depressa possível. Esta tarde m esm o, se puder.
Madam e Gautier respondera:
— Estarei fora até cinco horas. Apareça às cinco. Am anda pedira o endereço e o anotara.
— Todos sabem onde m oro — acrescentara Madam e Gautier. — Logo depois da Maison Burg.
Ela desligara enquanto Am anda ainda agradecia.
Entrando em Bartrès agora, Am anda constatou que quase não chegava a ser um a aldeia. Algum as casas velhas, em péssim as condições, nos dois lados da estrada, sem que houvesse à vista um a rua principal de com ércio. Procurando alguém para orientá-la, Am anda olhou para o relógio no painel. Eram 4:32 e Madam e Gautier só estaria em casa às cinco horas.
Im aginando com o poderia passar o tem po de espera, Am anda percebeu que se aproxim ava da velha igrej a e que bem em frente havia um café, com o um a placa identificando-o com o À LA PETITE BERGÈRE, que ela traduziu com o "Na Pequena Pastora"... um sinal de que se encontrava em terra de Bernadette. O café oferecia a possibilidade de um pequeno descanso e a oportunidade de descobrir com o chegar à casa de Madam e Gautier.
Am anda estacionou ao lado de um a cerca que protegia o pátio de um a escola e foi se sentar num a m esa à som bra, no lado de fora do café. Um a j ovem garçonete aproxim ou-se e Am anda pediu pão branco torrado com m anteiga e um café. Ficou tom ando o café e com endo o pão, enquanto definia a sua estratégia para lidar com Madam e Gautier. Mas, na verdade, estava tentando definir o que procurava.
Term inando de com er, ela localizou a conta, cham ou a garçonete, pagou e perguntou com o poderia chegar à casa de Madam e Gautier. A garçonete apontou na direção por onde Am anda viera.
— Logo depois da curva, não m uito além da Maison Burg, que é a casa em que Bernadette m orou. É um m useu agora. A casa de Madam e Gautier fica alguns m etros depois, a m ais nova residência da estrada, com dois andares. A rica vai recebê-la?
Am anda acenou com a cabeça.
— Tenho um encontro m arcado. A garçonete soltou um a risada.
— Deve ser alguém m uito especial, caso contrário ela não a receberia. Espero que se divirta.
A bolsa debaixo do braço, um pouco revigorada, m as ainda apreensiva com a m ulher que estava prestes a encontrar, Am anda voltou ao Renault, fez a m anobra em U e seguiu na direção apontada pela garçonete.
Dali a pouco, passando por um conj unto de construções que identificou com o a Maison Burg, Am anda com preendeu que ali estava a antiga fazenda da fam ília Laguês. Fora ali, há m uito tem po, que a j ovem Bernadette de 13 anos sonhara com um a vida m elhor — um m ês antes de retornar a Lourdes e à glória eterna. Era um a história estranha, m uito estranha, refletiu Am anda. Talvez ela soubesse m ais a respeito m uito em breve. Lentam ente, ela continuou a avançar.
Mesm o sem o endereço, Am anda teria encontrado a casa de Madam e Gautier sem qualquer dificuldade. Era a m ais nova e a m ais esplêndida residência da área. A casa cinzenta de dois andares tinha as j anelas recém -pintadas de verde e se encontrava num a pequena elevação, com um cam inho pavim entado até a frente. Am anda subiu e parou o carro diante da porta.
A m ulher que atendeu à cam painha não devia ter m uito m ais que um m etro e m eio de altura e acabara de sair do cabeleireiro. Um m onte de cabelos brancos, m atizados de roxo, erguia-se no alto de sua cabeça, com o um a peruca de ferro. As lentes grossas dos óculos am pliavam as pupilas. O nariz era tão adunco quanto um bico de gavião e tinham a boca contraída. Parecia um a górgona. Ela abriu a porta apenas parcialm ente, avaliando a visitante.
— É Madam e Clay ton, de Lourdes?
— E dos Estados Unidos — acrescentou Am anda. — É Madam e Gautier?
— Entre.
Am anda teve de se esprem er pela porta relutantem ente aberta, depois esperou que Madam e Gautier a fechasse, em purrasse a tranca e a levasse pelo vestíbulo escuro para um a sala de estar escassam ente m obiliada, com algum as im itações de peças ao estilo Luís XIV. Havia um diva e Madam e Gautier orientou Am anda para lá. Depois, puxou um a cadeira de encosto reto para a frente de Am anda e sentou-se, com o um a inquisidora. Por um instante, exam inou Am anda atentam ente.
— Quem lhe deu m eu nom e? — indagou Madam e Gautier.
— O Padre Ruland, em Lourdes. Madam e Gautier fungou.
— Esse hom em ...
Ela não discorreu sobre o com entário.
— Para dizer a verdade, pedi a ele que m e inform asse quem fora a pessoa que lhe vendera o diário de Bernadette.
— Por quê? _
— Eu... eu tinha visitado o antigo convento de Bernadette em Nevers. Soube por interm édio de um a freira de lá que a Igrej a adquirira apenas a parte principal do últim o diário de Bernadette, a parte em que ela fizera o relato das 18 aparições. Fui inform ada que a Igrej a não se interessara em com prar a parte anterior do diário, em que Bernadette escreveu sobre a sua criação em Lourdes e a estada em Bartrès com seu ancestral. Quando m encionei esse fato ao Padre Ruland, ele confirm ou. Perguntei se não poderia falar com a pessoa que vendera o diário e ele m e forneceu seu nom e.
As fendas por trás das lentes grossas dos óculos avaliavam Am anda. Depois de um a breve consideração, a francesa falou:
— Disse pelo telefone que estava fazendo um estudo sobre Bernadette. É um a tese de doutorado?
— Não. Já tenho o m eu doutorado. É um estudo profissional sobre o estado psicológico de Bernadette na ocasião em que com eçou a ver as aparições. Espero que sej a publicado em breve.
— Você é católica?
Am anda ficou indecisa, sem saber se devia contar a verdade ou m entir. Não podia adivinhar qual era a resposta esperada. Decidiu que a verdade era m ais segura.
— Não, não sou.
— Então é um a descrente.
O com entário foi feito sem qualquer inflexão, sem nenhum a acusação.
— Fui criada em outra fé...
Madam e Gautier sacudiu a cabeça im pacientem ente.
— Estou m e referindo às visões de Bernadette.
Acuada de novo, Am anda optou pela verdade.
— Com o qualquer racionalista, desconfio de visões e m ilagres. Mas estou interessada em saber com o algum as pessoas as têm , especialm ente Bernadette. Quero saber qual era... qual era o seu estado de espírito quando foi à gruta pela prim eira vez.
O sem blante de Madam e Gautier pareceu relaxar, em bora ligeiram ente. As fendas se transform aram em olhos e a boca se descontraiu.
— Então é um a descrente — repetiu Madam e Gautier. Am anda ainda estava indecisa.
— Sou um a estudiosa.
— Por que quer saber dos prim eiros anos de Bernadette?
— Isso seria vital para a m inha investigação. Afinal, o que Bernadette pensava ou fazia antes de ter suas visões seria de suprem a im portância. Obviam ente, não era im portante para o Padre Ruland, caso contrário ele teria se em penhado em com prar tam bém essa parte do diário.
— Ele não podia com prar, porque eu não venderia. Am anda franziu o rosto.
— Talvez eu o tenha entendido m al, m as tive a im pressão de que lhe m ostrou as prim eiras páginas do diário, ele leu e concluiu que não tinham m uito interesse, exceto com o um a peça de m useu. Achou então que não vale a pena insistir.
— Ele m entiu — declarou Madam e Gautier. — Não sei o m otivo. Talvez com o um historiador, para provar que viu e leu tudo. Mas tem a m inha palavra... ele não viu um a única página em que Bernadette escreveu sobre a sua vida na Gaol em Lourdes e sua vida com os Laguês em Bartrès.
— Isso é m uito estranho... — m urm urou Am anda. — Ele não quis com prar a prim eira parte, j unto com a segunda?
— Claro que quis. Mas eu sabia que, se lesse a prim eira parte, ele não com praria a segunda. E eu queria vender a segunda parte, porque precisava do dinheiro para m im m esm a e para Jean. — Ela fez um a pausa. — Jean é m eu sobrinho de 16 anos. Considero-o m eu filho, m eu único filho. Quero o m elhor para ele.
Am anda sentiu um a em oção intensa enquanto Madam e Gautier falava. Descobrira algum a coisa. Ela descruzou as pernas e inclinou-se para a frente no diva.
— Madam e, disse m esm o que não venderia nem m ostraria ao Padre Ruland a prim eira parte do diário de Bernadette porque ele não com praria a segunda parte se a visse?
— Isso m esm o.
— Mas o que há nessa prim eira parte, a que descreve a estada de Bernadette em Bartrès, que poderia levar o Padre Ruland a não querer com prar a segunda parte, sobre as visões? Pode m e dizer?
— Você deve prim eiro m e dizer um a coisa. Disse pelo telefone que é professora num a universidade am ericana... a tal Universidade de Chicago. Isso é correto?
— Perguntou se eu era um a professora de verdade e eu disse que sim . Sou um a professora.
— Essa Universidade de Chicago tem estudantes de ciências? A digressão não fazia sentido para Am anda, m as ela atendeu a
Madam e Gautier.
— Tem os um grande departam ento de biologia e...
— Bioquím ica?
— Claro. O departam ento de bioquím ica é am plam ente conhecido. Há cursos de tudo, de ácidos nucléicos a síntese de proteína, vírus bacterianos e genética. Há tam bém cursos de pós-graduação e um estudante pode se preparar para o seu Ph.D.
— E m esm o?
— Não sei qual é o seu interesse, m as posso lhe enviar o últim o catálogo da universidade.
— Não há necessidade. — Madam e Gautier estudou sua convidada. — Por enquanto, preciso saber de outra coisa. Você é influente?
— Não sei se entendi. Sou influente na escola?
— Nessa Universidade de Chicago. Aturdida, Am anda respondeu:
— Sou um a professora. Conheço a todos na adm inistração. E m antenho boas relações com os diretores. Mas por que quer saber?
— Já vai com preender — disse Madam e Gautier, enigm aticam ente. — Agora, voltem os à sua pergunta. Por que eu não m ostraria ao Padre Ruland a prim eira parte do diário de Bernadette.
— Isso m esm o, por quê? — indagou Am anda, ansiosam ente.
— Eu disse ao Padre Ruland que a prim eira parte não estava à venda e por isso não havia sentido em m ostrá-la. E disse que não estava à venda porque versava sobre a estada de Bernadette com os ancestrais de m inha fam ília em Bartrès, eu queria conservá-la por questões sentim entais, a fim de que Jean... o últim o de nossa linhagem ... a herdasse. O Padre Ruland aceitou essa explicação. Mas o m otivo que apresentei para ficar com a prim eira parte do diário não correspondia à verdade.
— Disse que ele poderia não com prar a segunda parte se visse a prim eira.
— Isso m esm o.
— Madam e Gautier, preciso saber, é indispensável que eu saiba, o que há nessa prim eira parte do diário que torna a segunda tão invendável.
— Eu lhe direi.
Am anda esperou. Madam e Gautier aj ustou os óculos e focalizou o rosto inquisitivo da visitante.
— Porque na prim eira parte Bernadette escreveu coisas que deixam perfeitam ente claro... quer ela soubesse disso ou não... que não passava de um a pequena im postora.
— Um a o quê?
— Com o cham aria alguém que vê coisas que não existem .. .que sem pre as está vendo?
— Um a histérica — respondeu Am anda prontam ente. — Um a pessoa que tem alucinações... em psicologia, às vezes relacionam os isso com a fantasia eidética... um a percepção nítida de algum a coisa, com o se realm ente existisse.
— É o caso de Bernadette — declarou Madam e Gautier.
— Por Deus, o que está dizendo?
— Escrevendo em seu diário as experiências em Bartrès, Bernadette afirm a que nos sete m eses que aqui passou, enquanto cuidava das ovelhas viu Jesus três vezes e a Virgem Maria seis vezes... viu a Virgem seis vezes antes de vê-la 18 vezes um m ês depois, em Lourdes. Teve m edo de contar a alguém em Bartrès. Os Laguès não adm itiriam um a bobagem assim . Certam ente a m andariam em bora. Mas, por sorte, Bernadette não dem orou a descobrir que as pessoas em Lourdes eram m ais crédulas.
— Ela estava vendo a Virgem incessantem ente... antes de ir à gruta? E vendo Jesus tam bém ? Inacreditável!
— Pode estar certa de que ela disse isso... em suas próprias palavras. Eu lhe m ostrarei.
Madam e Gautier levantou-se quase de um pulo, foi até a parede por trás de Am anda e rem oveu um a gravura colorida em oldurada de Versalhes. Havia um cofre de m etal na parede, parecido com o do Padre Ruland. Madam e Gautier girou o dial rapidam ente e a porta se abriu. Ela m eteu a m ão no interior e tirou um caderno com um , do tipo escolar, capa azul. Com eçou a virar as páginas enquanto voltava ao divã.
— O diário estava em dois cadernos. Este é sobre os seus prim eiros anos. O outro caderno relatava o que aconteceu na gruta. Aqui está, pode verificar pessoalm ente. Sabe ler francês?
— Sei, sim .
— Leia as páginas 12 e 13, onde eu abri. — Ela entregou o caderno a Am anda. — Pode ler.
A escrita inclinada de Bernadette cobria as duas páginas pautadas. Am anda teve dificuldade em segurar o caderno até que seus olhos deslizaram pelas páginas.
Estava tudo ali, Jesus visto três vezes, a Virgem Maria vista seis vezes entre as ovelhas, por um a m enina solitária e rej eitada, a prova de um a neurótica em ocional absolutam ente instável.
— Preciso disto — declarou Am anda, levantando os olhos, enquanto Madam e Gautier recuperava o diário. — Quero com prá-lo. Pagarei qualquer quantia razoável que pedir.
— Não.
— É m edo do que o Padre Ruland e a Igrej a poderiam dizer?
— Eles não podem dizer nada. E m uito m enos receber seu dinheiro de volta. Pagaram por um a parte autêntica do diário de Bernadette e a obtiveram . Se Bernadette os enganou antes, isso não é problem a m eu.
— Então qual é o problem a? Por que se recusa a vender?
— Não falei que m e recuso a vender. Apenas não quero vender sim plesm ente por dinheiro. Em bora eu não sej a rica, ao contrário do que dizem os outros, não preciso de m ais dinheiro para m im m esm a. O que desej o é garantir o futuro de m eu sobrinho. Para isso, preciso de um a quantia suficiente para m anter Jean num a boa escola. Mas há m ais do que isso. Jean quer estudar bioquím ica num a m oderna universidade am ericana. E seu grande sonho. Talvez ele pudesse se candidatar a um a bolsa e obtê-la pelos m eios norm ais, m as j á m e disseram que isso pode ser m uito difícil. Quero assegurar o seu futuro. Quero ter certeza de que ele poderá ingressar num a universidade am ericana, com o a sua Universidade de Chicago. Se você puder...
— Claro que posso — declarou Am anda. — Se as notas de Jean forem boas...
— São as m elhores — interrom peu-a Madam e Gautier. — Ele é brilhante. Eu lhe m ostrarei.
Ela saiu apressadam ente da sala e voltou um m om ento depois com um a pasta, que abriu no colo de Am anda.
— Pode verificar pessoalm ente — disse Madam e Gautier, com o m aior orgulho.
Am anda exam inou rapidam ente os boletins escolares de Jean e os elogios de seus vários professores. Parecia evidente que o rapaz era m esm o brilhante. Sorrindo, Am anda devolveu a pasta a Madam e Gautier.
— Posso perceber que ele é de fato especial. Não haverá problem a. Tenho os contatos para conseguir o ingresso dele na Universidade de Chicago. Posso prom eter...
— Deve garantir — interrom peu-a Madam e Gautier. — Em troca disso, eu lhe venderei o diário.
— Garantir o quê? Minha garantia de que ele será m atriculado na Universidade de Chicago ou outra de igual im portância e... que eu pague os seus estudos? E que m ais?
— Só isso, nada m ais. Quero Jean num a universidade am ericana. Quero que ele tenha a m elhor oportunidade.
Am anda estava trasbordando de excitam ento.
— Seu sobrinho terá a oportunidade. Eu prom eto. Dê-m e o diário e eu prom eto...
Madam e Gautier guardou o caderno no cofre e trancou-o.
— Um a prom essa não é suficiente. Isto é um negócio. Quero um a garantia por escrito, um contrato assinado entre você, a com pradora, e eu, a vendedora.
— Qualquer coisa! — exclam ou Am anda.
— Falarei com Monsieur Abbadie...
— Quem ?
— Um velho am igo e um avocat aposentado... um advogado. Deve ser tudo legal. Ele preparará o contrato. — Ela encam inhou-se para outra sala. — Espere aqui.
Am anda não podia ficar sentada por m ais tem po. Levantou-se e com eçou a andar de um lado para outro da sala, proj etando o que significava aquela descoberta espetacular. A princípio, significava apenas a abertura com Ken. Ela lhe m ostraria o diário. Ele leria, verificaria pessoalm ente, com preenderia que se deixara iludir a ponto de cultuar um a criança que sofria alucinações. Ken voltaria com ela para um a operação im ediata. Se houvesse um a possibilidade de salvá-lo, ele seria salvo.
Enquanto Am anda andava de um lado para outro, a descoberta adquiriu um segundo valor. Haveria outra pessoa que poderia ser salva, sua nova am iga, Liz Finch, que teria um a das histórias m ais sensacionais da década e m anteria o seu em prego em Paris. Am anda podia im aginar as m anchetes no m undo inteiro — e depois percebeu m ais algum a coisa e parou de andar. Podia contem plar o fim de Lourdes. Podia contem plar Lourdes com o um a cidade fantasm a, um a aldeia esquecida. Sentiu um a pontada de pesar e culpa por ser a Átila que a destruía, m as... que diabo, ela disse a si m esm a. Em seu m undo de realidade, não devia haver doentes e falsas fés que corrom piam e, à sua m aneira, iludiam e destruíam as pessoas. Era m ais provável, refletiu ela, que se Lourdes não existisse as pessoas inventariam outro santuário. Mas tudo isso não era da sua conta. Sua preocupação devia ater-se ao hom em a quem am ava, Ken, e secundariam ente com sua am iga, Liz Finch.
Ela percebeu que Madam e Gautier voltara à sala. Virou-se e ouviu-a dizer:
— Meu vizinho, Monsieur Abbadíe, não está em casa. Foi visitar os netos. Mas falei com ele pelo telefone, em Pau. Expliquei do que se tratava. Ele m e disse que será um contrato sim ples de fazer. Voltará a Bartrès am anhã de m anhã. Vai elaborar o contrato e m e entregará. Você poderá vir assiná-lo na hora do alm oço.
— Am anhã? — m urm urou Am anda.
— Pode voltar a Lourdes agora e vir aqui de m anhã. Não é longe. Ou pode ficar e j antar com igo e Jean, passar a noite na hospedaria de crianças britânicas que tem os aqui perto, a Hosanna House. Norm alm ente não se faz isso, m as posso abrir um a exceção para você.
— Lam ento, m as não posso. Tenho de voltar a Lourdes. Meu m arido está lá. Ele...
— Está rezando por um m ilagre?
Pela prim eira vez, as feições de Madam e Gautier se suavizaram .
— Volte para ele. Terá o diário em suas m ãos am anhã. Eu lhe prom eto.
No início da noite, Edith Moore parou j unto à base da estátua do Padre Pey ram ale, cura de Lourdes no tem po de Bernadette e o prim eiro clérigo im portante a aceitar a visão da pequena cam ponesa. Ela inclinou a cabeça para trás, a fim de contem plar m elhor o cam panário ilum inado da Igrej a do Sagrado Coração. Era confortador para Edith lem brar que aquela igrej a, em 1903, finalm ente substituíra a pequena igrej a paroquial original do Padre Pey ram ale. Seus restos m ortais haviam sido sepultados num a cripta no porão e seu confessionário de m adeira original tam bém fora transferido para lá.
Era tam bém confortador para Edith saber que o próprio Padre Ruland m arcara sua confissão. O Padre Ruland se interessara pelo caso de Edith três anos antes e se tornara am igo dela e de Reggie. Depois de saber do encontro da esposa com o Dr. Kleinberg e de ter conversado pessoalm ente com o m édico, Reggie telefonara para o Padre Ruland, a fim de providenciar para que houvesse um padre disponível para ouvir a confissão de Edith. Reggie insinuara que a confissão era m uito im portante para sua esposa. Ele dissera a Ruland que o desej o de Edith não era o de fazer a confissão num a capela no dom ínio, m as sim na Igrej a do Sagrado Coração, na Cidade Velha. Por m otivos sentim entais. Porque fora na Igrej a do Sagrado Coração que Edith se confessara há três anos, horas antes de sua cura. Se todos aqueles arranj os pareciam insólitos, isso aparentem ente não incom odara o Padre Ruland. Ele se m ostrara bastante cooperativo. O lugar e a hora foram acertados — e a hora era agora.
Claudicando perceptivelm ente, Edith atravessou a Rue St. Pierre, desceu pela Rue de l'Eglise, subiu os degraus para a porta da igrej a e entrou. Havia ali um punhado de fiéis nos bancos. Edith foi para um banco isolado, aj oelhou-se e ofereceu um a oração de penitência.
— Oh, Deus, lam ento profundam ente por tê-lo ofendido — sussurrou ela. — Detesto todos os m eus pecados por causa de suas punições, m as acim a de tudo porque o ofendem , m eu Deus, que m erece todo o m eu am or. E resolvo firm em ente, com a aj uda de sua graça, a confessar m eus pecados, a fazer penitência e a corrigir m inha vida. Am ém .
Levantando-se, claudicando pela nave, Edith encam inhou-se para o confessionário em que o Padre Ruland dissera que haveria um padre à espera. Ao se aproxim ar, Edith tentou especular sobre a reação do padre à sua confissão. Com o o Padre Ruland sabia que haveria um padre ali para ouvi-la, havia algum a esperança de que esse sacerdote pudesse ser tão tolerante quanto ele. Reggie sem pre dissera que, entre todos os sacerdotes de Lourdes, o Padre Ruland era o m ais prático e razoável, o m ais consciente das dificuldades do m undo. Talvez o clérigo que ele escolhera fosse igualm ente razoável e flexível naquela noite ou talvez ele ficasse ofendido. Edith não podia adivinhar o que aconteceria.
Dentro do confessionário, Edith tornou a se aj oelhar e falou para a grade aberta na parede:
— Padre, preciso de sua aj uda.
Um a voz paternal, ligeiram ente abafada, soou através da grade:
— Pode falar.
Pela prática frequente nos últim os anos, Edith iniciou prontam ente o processo do confessionário.
— Abençoe-m e, padre. Confesso a Deus Todo-Poderoso e a você, padre, que tenho pecado. Tem quase um a sem ana desde a m inha últim a confissão. Acuso-m e de um único pecado, que ocorreu hoj e.
Não houve resposta do outro lado, m as Edith sabia que o padre ali estava atento. Ela recom eçou, sentindo-se confiante porque suas palavras estariam protegidas pelo sigilo do confessionário.
— Padre, m inha recuperação, que o Serviço Médico aceitou com o um a cura m ilagrosa e que m eu arcebispo em Londres avisou que seria anunciada com o tal, é um fracasso. O últim o m édico cham ado até aqui, para a confirm ação final, descobriu que a cura foi apenas tem porária. O tum or está crescendo outra vez.
Houve um breve silêncio e depois o padre disse, baixinho:
— Tem certeza? Seu m édico está absolutam ente convencido?
— Está, sim .
— Ele com unicou isso ao Dr. Berry er?
— Só falou a m im e a Reggie.
— E seu pecado? Está pronta para confessá-lo?
— Estou, Padre. O Dr. Kleinberg inform ou que o estado se agravaria e provaria ser fatal, a m enos que eu m e subm etesse a um novo tipo de tratam ento que um determ inado m édico vem experim entando secretam ente. Esse m édico está disposto a vir a Lourdes am anhã, para m e operar no dom ingo. Fui inform ada que teria 70 por cento de chances de recuperação. Se eu for curada pela cirurgia, não poderei m ais ter sido curada m ilagrosam ente, não é m esm o?
O padre esquivou-se à pergunta.
— Qual é o seu pecado?
— Estou lutando com um a tentação, padre. Enquanto eu for considerada um a m ulher m ilagrosa, poderei aj udar m eu m arido. Neste m om ento ele está indo m aravilhosam ente bem com o nosso restaurante. No instante que eu não for m ais um a m ulher m ilagrosa, os negócios vão se deteriorar e acabarem os perdendo tudo. Reggie e eu com eçam os a pensar e form ulam os um plano. É esse o m eu verdadeiro pecado, padre. Mandei Reggie procurar o Dr. Kleinberg e perguntar se, caso eu m e subm etesse a esse tratam ento m édico e fosse bem -sucedido, ele poderia fechar os olhos e dizer ao Serviço Médico que fui curada m ilagrosam ente. Pedim os a ele para m entir por nós.
— E qual foi a resposta do Dr. Kleinberg?
— Ele disse que não poderia m e confirm ar com o um a cura m ilagrosa. Som ente a Igrej a poderia fazer isso. Falou que se eu pudesse encontrar alguém na Igrej a que estivesse disposto a ignorar o tratam ento... caso eu o faça... e declarar que m inha cura foi m ilagrosa, ele não interferiria e não falaria a ninguém da operação. Sugeriu que eu pedisse a alguém da Igrej a que considerasse a possibilidade de anunciar que m inha cura foi um m ilagre. — Edith fez um a breve pausa e depois acrescentou, a voz hesitante: — Isso é possível, padre?
Houve um breve silêncio. E a resposta do padre finalm ente passou pela grade:
— Não, não é possível. Saber que você foi curada por m eios m édicos, m as fingir que foi curada por m eios m ilagrosos, seria um a fraude que a Igrej a não poderia adm itir. Sinto m uito.
Abalada e envergonhada, Edith suplicou queixosa, através da grade do confessionário:
— Eu m e sinto inteiram ente perdida, padre. O que devo fazer?
— Para salvar-se? Com o seu padre, só posso sugerir que se ofereça m ais um a vez à m isericórdia da Virgem Abençoada. Mas com preendo a hesitação que pode experim entar para fazer isso, j á que acreditava que fora curada por Ela, descobrindo agora, por algum a razão que nos é desconhecida, que isso não aconteceu. Por outro lado, seu m édico sugere que, caso se subm eta à ciência m édica e à cirurgia, possui um a possibilidade m aior de sobrevivência. Deve fazer a escolha.
— Acha então que devo m e subm eter à cirurgia, padre?
— Por que não? Pode m uito bem ser curada e se tornar útil neste m undo, m as não será possível dizer que sua cura foi m ilagrosa.
— O que quer que eu faça, acho que estarei escolhendo entre duas espécies de m orte. Porque, m esm o que eu viva, nunca m ais poderei ser um a m ulher m ilagrosa.
Houve um silêncio m ais prolongado e finalm ente o padre voltou a falar:
— Não acreditam os que os m ilagres sej am desfrutados apenas por pessoas doentes, m ilagrosam ente curadas na gruta. Na sabedoria infinita de Deus, há num erosos outros m ilagres que ocorrem . Haverá um a espécie diferente de m ilagre esta sem ana em Lourdes. A pessoa para quem a Virgem Abençoada aparecer, a pessoa que contem plar a Virgem , será um a pessoa m ilagrosa... um hom em ou um a m ulher.
— É m esm o?
— Claro. Essa pessoa, com o Bernadette antes, será conhecida por toda a eternidade com o m ilagrosa.
Edith balançou a cabeça e encerrou a confissão:
— Estou arrependida por m eu pecado... m eus pecados... pedir ao m eu m édico o que pedi... e pedir a você. Estou arrependida por esses pecados e todos os pecados da m inha vida, em particular com os m eus pecados de egoísm o e ganância.
O padre respondeu autom aticam ente. Com o penitência pelos pecados, determ inou um a dúzia de aves-m arias. E depois lhe concedeu a absolvição.
Quando acabou, Edith levantou-se, deixou o confessionário, subiu pela nave e deixou a Igrej a do Sagrado Coração. Seu curso estava definido.
Telefonaria para Reggie no restaurante, onde o exortara a ficar, pediria que com unicasse ao Dr. Kleinberg que ela estava pronta para a nova cirurgia do Dr. Duval — cirurgia e inevitável penúria subsequente — o m ais depressa possível.
Depois disso, ela iria à gruta e rezaria sob o nicho, m ais um a vez, fervorosam ente, na esperança de que a Virgem Maria lhe aparecesse e a salvasse, antes que o bisturi tocasse sua carne.
Profundam ente angustiada, ela se afastou a claudicar. Enquanto andava, som ente um a coisa estranha a preocupava: a voz do padre no confessionário parecera ligeiram ente fam iliar — se fosse m ais nítida, ela teria j urado que era a voz do Padre Ruland.