O Milagre

Irving Wallace · Capítulo 15 de 16

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O Milagre

Capítulo 14

Sábado, 20 de Agosto

 

O sol se levantava no início da m anhã em Lourdes quando o Padre Ruland, depois de term inar o café da m anhã, deixou a Residência do Capelão, por trás da Basílica Superior, e encam inhou-se para a passarela que o levaria a seu escritório na Basílica do Rosário.

Norm alm ente, durante essa cam inhada, ele acostum ara-se a aspirar profundam ente o bom ar de Deus, para sua saúde, com o um a com pensação pela vida sedentária que levava. Contudo, naquela m anhã aprazível, sentia-se atordoado dem ais para respirar profundam ente.

Enquanto andava, o Padre Ruland se concentrava em seus pensam entos. O que ocupava sua m ente era a confissão de Edith Moore na noite anterior. Quase no m om ento final, ele decidira sentar-se no confessionário da Igrej a do Sagrado Coração e ouvir pessoalm ente a confissão de Edith. Ruland não sabia se Edith reconhecera sua voz, apesar de ter coberto a boca parcialm ente ao falar. Mas se ela desconfiara ou adivinhara, isso realm ente não tinha a m enor im portância. O que im portava era a própria confissão, que algum instinto o levara a ouvir.

A cura m ilagrosa que Ruland esperava tão ansiosam ente anunciar, um a declaração m aravilhosa no Mom ento da Reaparição, não m ais existia. A notícia fora inesperada, m as não podia haver qualquer dúvida. O Dr. Kleinberg fora cham ado a Lourdes porque estava entre os m elhores na sua especialidade e seus exam es e radiografias — que levaram ao diagnóstico — não podiam m entir.

Edith Moore fora curada (provavelm ente um a rem issão espontânea) e agora não estava m ais curada.

O Padre Ruland m editou a respeito. De um ponto de vista egoísta, era um triste resultado. A Igrej a poderia tirar um m áxim o de proveito da cura m ilagrosa de Edith, apregoada am plam ente, com um a publicidade favorável. Ele tam bém não estava indiferente à perda que isso representava para os Moores. Eles haviam investido tudo na com ercialização da cura e ficariam falidos tam bém em m uitas outras coisas.

Ele desej ava poder adm itir a fraude que Edith Moore lhe suplicara. Em sua fraqueza, com etera m uitos pecados pequenos. Mas j am ais um grande. Na verdade, sentia-se surpreso que o Dr. Paul Kleinberg, um m édico de reputação im pecável, se prestasse a colaborar num a fraude — m as, na verdade, isso não acontecera. Ele deixara a decisão final e a própria fraude a um clérigo, ao próprio Ruland. Por um m om ento, Ruland especulou se o Dr. Kleinberg, sabendo da rej eição de Edith, não reconsideraria a sua posição e certificaria a cura m ilagrosa por sua própria iniciativa. Mas com preendeu no m esm o instante que Kleinberg não faria isso. Sabia que Kleinberg era j udeu e não teria o m enor desej o de se tornar um Drey fus m édico. Pois estava acabado. Pobre e infeliz Edith.

Ainda assim , o Padre Ruland lem brou a si m esm o, ele tentara aj udar Edith Moore, à sua m aneira. Tentara lhe dizer algum a coisa. Fora indireto, sutil, Deus não poderia absolutam ente culpá-lo pelo ato de hum anidade. Mas Ruland receava que Edith Moore fosse obtusa dem ais para entender o que tentara lhe dizer.

Ele suspirou. Fizera tudo o que um honesto servidor de Deus podia fazer. E tam bém podia ser absolvido por não ter m ais qualquer envolvim ento adicional no caso da infeliz m ulher.

Consciente de ter chegado à Esplanada do Rosário, ele seguiu para o seu escritório, onde planej ava se instalar à sua m esa para um dia longo e cansativo de trabalho.

Ao entrar, o Padre Ruland ficou surpreso com o visitante que o precedera. Mas não ficou surpreso pelo fato de o visitante ter localizado a chave do único arm ário na sala, abrindo-o, pegando a garrafa de uísque J & B e se servido de um a dose.

O alto e m agro Bispo de Tarbes e Lourdes, Monsenhor Pey ragne, afastou-se do arm ário com o copo de uísque na m ão, saudou Ruland com um aceno curto de cabeça e arriou na cadeira à frente da m esa.

— Estou im pressionado com a hora m adrugadora em que você com eça a trabalhar — com entou o bispo.

— E estou ainda m ais im pressionado pelo fato de vê-lo aqui tão cedo — disse o Padre Ruland, ocupando sua cadeira, por trás da m esa. — Passam os por dias bem m ovim entados. — Ele fez um a pausa, estudando o rosto vincado do bispo. — Algum problem a, excelência?

— Isso m esm o, dias m ovim entados. — O Bispo Pey ragne tom ou um gole do scotch, depois inclinou a cabeça para trás e bebeu o resto. — Mas dias im produtivos. É isso o que m e preocupa.

— Im produtivos em que sentido?

— Sabe m uito bem a que estou m e referindo, Ruland. Esta é um a sem ana especial. Estam os aqui em Lourdes... ou pelo m enos eu estou... por um m otivo especial.

— Claro... o reaparecim ento da Virgem Abençoada.

— Sei que você é o depositário das inform ações sobre tudo o que está acontecendo em Lourdes — disse o bispo. — Há algum a coisa acontecendo? Já houve algum sinal do reaparecim ento da Virgem ?

— O núm ero habitual de visões por uns poucos que são instáveis ou em ocionalm ente transtornados. Um breve interrogatório acaba com suas fantasias. Não é difícil arrancar a verdade.

— É verdade. Im agino que você é m uito bom nisso.

—.Apenas experiente — com entou o Padre Ruland, m odestam ente.

— Não m e incom odo de lhe dizer que estou preocupado. Tenho estado assim desde o m om ento em que Sua Santidade nos ordenou que fizéssem os o anúncio. Afinal, em toda a m inha vida, m ais do que isso, desde o tem po de Bernadette, a Virgem Abençoada nunca apareceu nesta região. Isso é m otivo para preocupação. Um a pressão m uito grande se acum ulou. Não gosto do clim a de Grandes Esperanças.

— Mesm o assim , excelência, isso é o resultado da palavra que a Virgem nos transm itiu.

— Através de Bernardette, som ente por interm édio de Bernadette — disse o bispo, desconsolado. — Talvez os escritos dela do diário tenham sido m al-interpretados.

— Não creio que possa haver qualquer erro. Estudei o diário pessoalm ente, m uitas vezes. Bernadette foi precisa ao relatar o segredo que a Virgem Maria lhe confidenciara... exata em relação ao ano, m ês e dias do reaparecim ento da Virgem . Este é o ano, este é o m ês, estam os nos dias prom etidos.

— A Virgem prom eteu que reapareceria dentro de um período de oito dias. Este é o sétim o dia. Isso só nos deixa m ais um dia.

— Tem razão.

— E creio que isso nos causa m otivos para preocupação. E se a própria Bernadette com eteu um erro? E se ela não ouviu a Virgem corretam ente? E se, ao registrar o que ouviu em 1858, depois de tantos anos transcorridos, a m em ória distorceu suas recordações? Se algum erro hum ano desse tipo pudesse ser descoberto antes do tem po se esgotar e fosse anunciado, certam ente seria com preendido e a Igrej a escaparia à censura. Isso m esm o... e se Bernadette com eteu um erro?

O Padre Ruland não se deixaria influenciar.

— Não creio que ela tenha com etido um erro, excelência. O bispo em pertigou-se na cadeira.

— Pois está agora em suas m ãos. — Ele pôs o copo vazio na beira da m esa e levantou-se. — Devo ir agora. Só restam hoj e e am anhã. Espero que você se m antenha em perm anente contato. — O bispo encam inhou-se para a porta, acrescentando: — Eu gostaria de ter tanta certeza quanto você.

O Padre Ruland tam bém se levantou e fez um a pequena m esura.

— Tenha fé — disse ele, sorrindo.

O bispo de Tarbes e Lourdes parou por um instante, respondeu com um olhar furioso e deixou o escritório na Basílica do Rosário.

Na sala agradavelm ente decorada do Inspetor Fontaine, no Comissariat de police de Lourdes, na Rue du Baron-Duprat, 7, Liz Finch encerrara a sua entrevista e a página do caderno de espiral sobre os seus j oelhos cruzados ainda se encontrava em branco.

Aquela entrevista era um exercício infrutífero, com o Liz j á sabia. Além do m ais, Bill Trask lhe dissera que ele e a API não tinham o m enor interesse pelo assassinato de um a m oça sem a m enor im portância. Ainda assim , esperando por algum a novidade na história, m as principalm ente porque tinha pouco m ais a fazer ou a noticiar e porque com eçara a se desesperar, Liz m arcara a entrevista e a realizara.

Para agravar a situação, o Inspetor Fontaine era o típico funcionário. Nascido com um a sólida aparência de autoridade, grisalho agora, m as de corpo atlético (Liz soubera que ele fora o capitão do tim e de futebol local), ele era um hom em desprovido de im aginação. Liz tinha certeza de que Fontaine levantava cedo todas as m anhãs, folheava todos os docum entos, ocupava a m archa das horas e dorm ia profundam ente. Na parede às suas costas, o inspetor tinha duas fotografias em olduradas, um a de Alphonse Bertillion, de Paris, a outra do Professor Edm und Locard, de Ly on. Representavam todo o poder cerebral detetivesco que havia na sala. Não se podia esperar que o Inspetor Fontaine com preendesse que o brutal assassinato de um a deslum brante j ovem francesa naquele paraíso de cura talvez oferecesse algum as possibilidades de um a história.

— Portanto — disse Liz, cansada das divagações do inspetor — essa é a últim a palavra... não há suspeitos.

— Porque não há pistas — repetiu o Inspetor Fontaine. — Estou propenso a acreditar que alguém , um estranho, arrom bou o apartam ento para assaltar a Srta. Dupree. Ela provavelm ente tentou resistir, ele m atou-a e fugiu.

— Mas se fosse um assalto, algum a coisa teria sido roubada. O apartam ento pertencia a Dom inique, a am iga garçonete de Gisele. E Dom inique fez um a verificação no apartam ento e inform ou que nada fora levado.

— Provavelm ente o assaltante foi interrom pido e fugiu antes de poder levar algum a coisa.

— Possivelm ente — m urm urou Liz.

Mas "im possivelm ente" era a palavra para o inspetor, im possivelm ente obtuso.

— O que torna o nosso trabalho ainda m ais difícil é que a Srta. Dupree conhecia todo m undo e não havia quem não a am asse — continuou o Inspetor Fontaine. — Nenhum m orador local teria qualquer m otivo para lhe fazer m al.

Prestes a fechar o caderno, Liz perguntou subitam ente:

— O que m e diz de alguém que não fosse um habitante local, talvez um estrangeiro, um peregrino ou visitante com um ?

— Deve com preender com o seria difícil descobrir isso, tendo em vista a profissão da Srta. Dupree. Ela era guia de excursões e m uitos de seus grupos eram form ados por estrangeiros.

— Ela algum a vez estabeleceu am izade com algum desses turistas estrangeiros?

— Não, exceto... — O Inspetor Fontaine ficou pensativo por um m om ento, m as Liz continuou a duvidar que ele fosse capaz de pensar. — Agora que falou nisso, havia um estrangeiro que ela conhecia um pouco m elhor do que a m aioria. Quando tive de ir a Tarbes para com unicar aos pais da vítim a... um terrível dever, m as tinha de ser feito... conversei um pouco com os Dupree sobre quaisquer pessoas que sua filha pudesse ter conhecido recentem ente. Eles nada sabiam a respeito dos turistas em seus grupos, m as lem bro que o pai m encionou um peregrino, um estrangeiro, am ericano, que passara um a noite na casa. Depois, a Srta. Dupree aj udara-o a conseguir um quarto de hotel em Lourdes. Seu nom e... — Fontaine puxou um envelope pardo em cim a da m esa, abriu-o e tirou alguns papéis, exam inando-os. — Sam uel Talley, professor de um a universidade em Nova York, que veio a Lourdes na esperança de um a cura.

Dupree não acreditava que a filha não conhecia o am ericano m uito bem . Além disso, declarou Dupree, o am ericano era de reputação im pecável. Mesm o assim , tentam os localizar Talley e interrogá-lo. Mas quando chegam os a seu hotel, ele j á saíra, em barcando num avião para Paris, ao final de ontem . Rotineiram ente, pedim os à Sureté em Paris para verificar. Mas o Sr. Talley não pôde ser localizado. Presum im os que voltara a Nova York, em bora seu nom e não constasse de qualquer lista de passageiros. Mas é claro que isso pode ter sido om issão de algum a em presa aérea.

— Mas não tem m otivo para desconfiar desse Talley ?

— Nem de Talley nem de ninguém . Não tem os um único suspeito neste estágio das investigações.

Liz fechou o caderno decidida, guardou-o na bolsa e levantou-se.

— Obrigada por seu tem po, inspetor. Se descobrir algum a coisa, eu agradeceria se m e avisasse.

Ele tam bém se levantou, provavelm ente na esperança de que ela escreveria seu nom e certo. Acom panhou-a até a porta.

Deixando o prédio da polícia, chegando à calçada da Rue Du Baron-Duprat e o m undo relativam ente m ais estim ulante da cidade, Liz por pouco não colidiu com um a dupla que entrava. Um a das pessoas, um a j ovem loura francesa, pegou Liz pelo braço.

— Com o vai, Sita. Finch? Sou Michele Dem aillot...

— Ah, sim ... do Serviço de Im prensa. Com o vai? Michelle apresentou um rapaz pequeno, que carregava um equipam ento fotográfico pendurado no om bro.

— Este é um colega seu de Paris. Monsieur Pascal, do Paris-Match. Não se conheciam ?

— Infelizm ente, não — disse Liz, apertando a m ão do fotógrafo.

Mantendo a sua atitude habitual de Câm ara de Com ércio, Michelle acrescentou:

— Está descobrindo boas histórias?

— Não m uita coisa até agora — respondeu Liz. — Parece que não está acontecendo m uita coisa por aqui.

— Exceto um a coisa horrível. Já soube o que aconteceu com Gisele Dupree? Lem bra-se dela, não é m esm o? Vi as duas j antando j untas no Restaurante Milagre. Já soube o que houve?

Liz acenou com a cabeça.

— Já, sim . E fiquei bastante chocada.

— É inacreditável... —m urm urou Michelle, deixando transparecer um pesar genuíno. — Um a coisa terrível, especialm ente quando as coisas com eçavam a correr tão bem para ela. Gisele m e telefonara no dia anterior, dizendo que com eçava a escrever em seu tem po vago. Recebera a encom enda de um a revista para escrever um artigo sobre o fam oso m inistro do Exterior russo, Tikhanov, a quem conhecera na ONU. Gisele precisava de um a fotografia de Tikhanov e lem brei que Pascal estava vindo de Paris para fazer um a cobertura aqui. Telefonei para ele em Paris e pedi que m e trouxesse fotografias de Tikhanov. Ele atendeu ao m eu pedido. E Gisele foi buscar as fotografias na noite anterior.

Algum a coisa aflorou na cabeça de Liz.

— Ela pegou as fotografias do Ministro Tikhanov?

— Isso m esm o. Deixei o envelope em seu nom e e ela foi buscar.

— Gisele j á acabara o artigo sobre ele e estava pronta para rem etê-lo? Ou ainda estava escrevendo?

— Acho que ainda no processo de escrever.

Estranho, pensou Liz. Depois de encontrar o corpo de Gisele, ela revistara o apartam ento, apressada m as m eticulosam ente, m as não encontrara quaisquer anotações ou artigo sobre Tikhanov nem as fotografias do Paris-Match. Se Gisele realm ente as tinha, só podiam estar em algum lugar no apartam ento. Gisele não possuía um a sala própria na agência de turism o ou em qualquer outra parte. O m aterial de Tikhanov só podia estar no apartam ento. Mas Liz descobrira o corpo de Gisele, revistara 0 apartam ento e nada encontrara. Era com o se alguém tivesse passado antes pelo apartam ento para rem over as fotos... m atar Gisele e rem ovê-las.

Despedindo-se de Michele e do fotógrafo, Liz com eçou a voltar para o hotel, refletindo sobre o fato insólito e gradativam ente acelerando o ritm o.

Assim que ficou a sós em seu quarto, ela pegou o telefone e fez um a ligação para Bill Trask em Paris. E o fez sem a m enor hesitação, porque j á era um a perdedora e assim nada tinha a perder. No instante em que Bill atendeu, ela disse:

— Tem um a coisa que eu gostaria que você pedisse a alguém no escritório para verificar por m im , Bill.

— Pode falar.

— É sobre Sergei Tikhanov, o m inistro do Exterior soviético. Gostaria de saber se ele está em Paris.

— Está cobrindo Lourdes neste m om ento, Liz. Que diabo Lourdes tem a ver com Tikhanov?

— É j ustam ente o que estou querendo descobrir. Tenho um palpite de que Tikhanov pode ter estado em Lourdes recentem ente.

— Procurando pela Virgem Maria? — Trask soltou um a risada. — Mas que loucura é essa? Tikhanov em Lourdes? Isso é m uito engraçado.

— Tam bém acho. E é por isso que estou lhe telefonando. Porque a ideia é m uito engraçada. Mas tenho um m otivo para pedir que verifique se ele está em Paris.

— Se você tem um m otivo...

— Por favor, Bill, m ande alguém ligar para a Em baixada Soviética e descobrir se Tikhanov está lá. E depois m e telefone para dar a resposta. Ficarei esperando em m eu quarto.

— Está bem .

Liz desligou e ficou esperando. Estava im paciente dem ais para sentar e por isso se levantou, especulando se o seu subido palpite, baseado num fato insólito, poderia se converter num a notícia sensacional de últim a hora, salvando o seu em prego e a perm anência em Paris.

Ela acabara de constatar que seis m inutos haviam transcorrido quando o telefone tocou. Trask não perdeu tem po.

— Liz, ligam os para a Em baixada Soviética, com o você pediu. O Ministro Tikhanov está m esm o aqui, o que não chega a ser nada de excepcional, pois ele está sem pre correndo de um lado para outro. E am anhã estará de volta a Moscou.

— Não! Liz teve de se conter para não gritar. — Não o deixe escapar, Bill. Ele tem de ser detido para interrogatório...

— Interrogatório sobre o quê?

— Sobre o assassinato daquela garota francesa em Lourdes ontem ... a garota de quem lhe falei.

— Ah, isso... E com o acha que vou deter o m inistro do Exterior da União Soviética?

— Pedindo à Sureté para detê-lo, até que possa ser interrogado.

— A Sureté precisaria acusá-lo do crim e para poder detê-lo. De que prova você dispõe...

— Ele pode ter m atado a garota para recuperar algum a inform ação que ela tinha e poderia prej udicá-lo.

— Um a prova concreta, Liz, um a prova concreta. Ainda não tenho. Mas dê-m e um a chance...

— Ainda não acabei o que estava dizendo, Liz. Mesm o que a Sureté tivesse um a prova concreta, nada poderia fazer. Nunca ouviu' falar, m ocinha? Sergei Tikhanov é o m inistro do Exterior da União Soviética. É um diplom ata de prim eira categoria visitando a França. Nunca ouviu falar, de im unidade diplom ática?

— Eles não invocariam isso.

— Pode apostar que os soviéticos invocariam . Mas não faz a m enor diferença, porque você não tem nenhum a prova. Pare de agitar, Liz. Esqueça Tikhanov. E fique de olhos bem abertos à procura da Virgem Maria. Está m e entendendo? É um a ordem .

— Está certo, chefe — balbuciou ela.

— Um a ordem e não a esqueça — acrescentou Trask. — E volte ao trabalho. Arrum e-nos um a história de Lourdes.

Liz ouviu o estalido alto no outro lado da linha e tam bém desligou.

Arriou num a cadeira, desconsolada. Outra esperança de sobrevivência que se desvanecera. Estava tentando com em penho dem ais, agarrando-se a qualquer coisa, tornando-se m uito desesperada. Tinha de haver algum a coisa que pudesse despachar daquele m aldito lugar. Ela procurou se concentrar. Havia um zum bido doloroso em sua cabeça. Com o não havia nenhum a história sensacional ali, o que poderia representar um a história, m esm o que m edíocre, m as aceitável? Sua m ente se encam inhou lentam ente para a única pessoa que conhecia que podia ser um a história. Edith Moore.

Relutantem ente, Liz pediu à telefonista de inform ações o núm ero daquele restaurante novo ou reform ado, o que se cham ava Restaurante do Milagre de Madam e Moore. Depois que a telefonista lhe forneceu o núm ero, Liz discou. Disse à m ulher que atendeu que queria falar com o Sr. Reggie Moore.

— Avise a ele que é Liz Finch, da API, a agência noticiosa am ericana.

Quase não houve espera e Reggie estava ao telefone, sem pre suave, com o seu sotaque do lado errado de Londres. Liz não estava agora com paciência para isso.

— Sr. Moore, quero fazer um a reportagem sobre sua esposa, um a entrevista sobre a sua cura e seus sentim entos pela im inente confirm ação com o a nova m ulher m ilagrosa de Lourdes. Será um a reportagem para distribuição internacional. Acha que ela vai cooperar?

— Eu... eu tenho certeza absoluta de que ela vai adorar.

— Pois então vam os m arcar o encontro no seu restaurante, às duas horas da tarde de am anhã. Tom arem os um chá e conversarem os. Leve sua esposa e eu farei a reportagem .

— Com todo prazer — m urm urou Reggie. — Estarem os esperando am anhã.

Enquanto desligava, desconsolada, sem qualquer expectativa em ocionante, Liz pensou em sua atraente rival, Marguerite, em seu atraente escândalo envolvendo o atraente André Viron.

E ela ficava com as m igalhas, com a desgraciosa Edith Moore.

Pela centésim a vez, Liz sentiu vontade de se m atar. Mas, depois, filosoficam ente, decidiu que um a m ulher precisa viver, precisa ganhar a vida e tirar o m elhor proveito do que puder obter. E enquanto esperava, sairia para com prar um saco de bom bons e ter algum a coisa com que se ocupar.

Am anda voltou a Lourdes, procedente de Bartrès, em bem pouco tem po.

Mantivera ligado o rádio do Renault durante todo o percurso, cantarolando as m elodias francesas. No banco, ao seu lado, estavam o original e três fotocópias do últim o diário de Bernadette; com o diário, ela tinha tudo o que precisava.

Entrando em Lourdes, ela se m ostrou m ais consciente do que nunca das loj as na cidade, os hotéis e os cafés, os peregrinos nas calçadas. Pensou m ais um a vez que tinha ao seu lado o m aterial que devastaria toda a com unidade, arrasaria a cidade para sem pre. De certa form a, ela lam entava que isso tivesse de ser feito com a Pom peia francesa. Mesm o que Lourdes fosse um a fraude, fizera m ilhões de pessoas crédulas no m undo inteiro se sentirem m elhor e lhes proporcionara um a esperança. Mesm o assim , Am anda garantiu a si m esm a, o que estava prestes a fazer com a cidade seria apreciado por todas as pessoas racionais e civilizadas do m undo que queriam a honestidade e a verdade predom inando.

Aproxim ando-se do Hotel Galha & Londres, Am anda com eçou a procurar um a vaga para estacionar. Teve sorte e encontrou um a im ediatam ente. Pegando o diário e as três fotocópias que fizera, ela entrou apressadam ente no hotel, ansiosa em m ostrar a Ken, deixá-lo ler pessoalm ente. Esperava encontrar Ken na cam a, descansando depois de outra prolongada visita à gruta. Mas ele não estava na cam a nem no quarto. O que havia na cam a, em vez disso, era um bilhete, um a folha do papel tim brado do hotel, dobrada, com o nom e dela por fora.

Abrindo o bilhete, ela descobriu que a letra m al era reconhecível, m as com preendeu que fora escrito por Ken. Decifrando as palavras, ela leu:

Am anda:

Piorei esta m anhã. O hotel providenciou para que eu fosse levado ao Centre Hopitalier General de Lourdes, na Avenue Alexandre-Marque, 2, para exam e e tratam ento. Não se preocupe. Deus cuidará de m im .

Com todo am or,

Ken

Am anda sentiu que m urchava. Talvez fosse tarde dem ais. Talvez todos os seus esforços e sua grande descoberta tivessem sido por nada. A doença potencialm ente fatal de Ken estava dom inando-o por com pleto e a volta às pressas para Chicago de nada adiantaria agora.

Ela tratou de se controlar. Pegando um dos envelopes, com um a cópia do diário de Bernadette, deixou o quarto im ediatam ente.

Vinte m inutos depois, seguindo a orientação da recepcionista do hotel, Am anda estava no Centre Hopitalier General de Lourdes, avançando apressadam ente pelo corredor do segundo andar, até encontrar o núm ero do quarto de Ken. Havia um cartaz na porta: "Visitas proibidas". Ignorando-o, Am anda bateu na porta, nervosa. Depois de um a breve espera, a porta foi aberta parcialm ente. Um a m ulher m eteu a cabeça para fora e olhou inquisitiva para Am anda.

— Fui inform ada de que o Sr. Kenneth Clay ton está aqui — disse Am anda. — Preciso vê-lo.

A m ulher balançou a cabeça.

— É a Sra. Am anda Clay ton?

— Isso m esm o. A esposa dele.

— Um m om ento, por favor.

A porta tornou a se fechar e Am anda ficou esperando im pacientem ente. Quando a porta foi aberta outra vez, a m ulher, que estava de vestido com um e não de uniform e, pegou de leve o braço de Am anda e foi afastando-a pelo corredor.

— Mas eu quero vê-lo! — protestou Am anda.

— Ainda não — disse a m ulher. — Sou a enferm eira do Dr. Kleinberg, Esther Levinson. Explicarei tudo. Vam os até a sala de visitantes, onde poderem os conversar.

— Com o ele está?

— Melhor, m elhor.

Na sala de espera, Esther levou Am anda para o sofá e sentou-se ao seu lado.

— Por que não posso vê-lo? — insistiu Am anda.

— Porque o doutor está com ele. Aparentem ente estava fora da cidade...

— Estava, sim . Mas se eu soubesse...

— Não tem im portância. Perm ita-m e que lhe explique o que aconteceu. Quando o Sr. Clay ton com eçou a passar m al, antes de m eio-dia, ligou para a recepção do hotel pedindo aj uda. A recepcionista telefonou para o Dr. Berry er, no Serviço Médico. Ele disse que havia em Lourdes um especialista em sarcom a de Paris, o Dr. Paul Kleinberg, m eu patrão. Com o o Dr. Kleinberg fora ao aeroporto para receber um colega e tam bém a m im , não foi possível localizá-lo. Assim , o Dr. Berry er falou com um m édico residente em Lourdes, Dr. Escalona, que se encontra com o Sr. Clay ton neste m om ento. O Dr. Kleinberg, depois de nos receber no aeroporto, deixou-m e em nosso hotel e saiu... não sei para onde... a fim de conferenciar com seu colega. Encontrei no hotel o recado do Dr. Berry er para o Dr. Kleinberg. Com o não tinha ideia do paradeiro do Dr. Kleinberg, resolvi vir direto para o hospital, a fim de verificar o que estava acontecendo e esperá-lo aqui.

— Fico m uito agradecida — m urm urou Am anda. — Mas o que está acontecendo com Ken agora?

— Ele está sendo exam inado e deixado o m ais confortável possível, até que o Dr. Kleinberg receba o recado e venha para cá. — Esther inclinou a cabeça para o lado, estudando Am anda por um m om ento. — Posso ser absolutam ente franca?

— Por favor, conte-m e tudo o que sabe.

— Só há um a coisa a dizer, m as j á deve saber. Tenho visto m uitos casos assim e sei que a única esperança do Sr. Clay ton é a cirurgia. Estou certa de que o Dr. Kleinberg confirm ará a necessidade. Mas tenho certeza de que o Dr. Kleinberg não conseguirá m ais do que eu quando conversei a respeito com seu m arido. Ele recusou.

— Ken ainda não quer aceitar a cirurgia?

—Não adm ite de j eito nenhum . Está se entregando inteiram ente nas m ãos da Virgem Maria e seus poderes curativos. Mas... perdoe-m e se é um a crente...

— Justam ente o oposto.

— ... m as a Virgem Maria não é a especialista em quem eu confiaria num caso tão... tão grave com o este.

— Concordo plenam ente — declarou Am anda. — Venho m e em penhando todos os dias para fazer Ken voltar a Chicago e à m esa de operações. Mas não fui capaz de convencê-lo.

Ela tocou no envelope pardo em seu colo, estava prestes a falar a respeito, m as acabou m udando de ideia.

— Creio que possuo agora os m eios para convencê-lo a se subm eter à cirurgia im ediatam ente. É por isso que preciso vê-lo agora.

— Não pode vê-lo agora nem por m ais algum tem po, Sra. Clay ton. Quando saí do quarto, o Sr. Clay ton estava recebendo um sedativo. A esta altura, j á se encontra profundam ente adorm ecido.

— E poderei lhe falar quando ele acordar?

— Tenho a im pressão de que não poderá falar com seu m arido pelo m enos por duas horas.

— Então ficarei esperando aqui. Quero estar presente quando ele acordar.

Esther levantou-se.

— Pode ficar, se assim desej ar. Eu a avisarei quando o Sr. Clay ton acordar.

Sozinha, Am anda recostou-se no sofá e bateu de leve na cópia do diário de Bernadette em seu colo. Fazia com que se sentisse m ais segura. Em sua im aginação, viu Ken na pós-cirurgia, a saúde e o vigor recuperados, viu os dois no casam ento, na lua-de-m el em Papetee, alguns anos depois com o prim eiro filho.

Am anda fechou os olhos para excluir tudo o m ais que não fosse a m aravilha do que sua im aginação procurava. Tentou abrir os olhos depois de algum tem po, m as as pálpebras estavam pesadas. Deixou-os fechados. O corpo, dom inado pela fadiga, gradativam ente relaxou e logo ela cochilava.

Am anda não sabia por quanto tem po dorm ira no sofá da sala de espera, m as um a m ão gentil em seu om bro finalm ente despertou-a.

Ela olhou para a enferm eira cham ada Esther, parada à sua frente com um sorriso. Am anda olhou ao redor. As luzes estavam acesas e pelas persianas ela percebeu que era noite lá fora.

Um a súbita com preensão do que acontecera e de onde estava fez com que Am anda despertasse totalm ente. Ela se em pertigou no sofá.

— Que horas são?

—Já passam os de 11 horas, estam os nos aproxim ando da m eia-noite.

— Posso ver Ken agora?

— Não, não esta noite. Ele dorm irá durante a noite inteira. O Dr. Kleinberg esteve aqui depois do j antar e exam inou-o. O Dr. Kleinberg diz que o Sr. Clay ton deve descansar... a m elhor coisa para ele... e não ser incom odado esta noite. O Dr. Kleinberg voltará pela m anhã. O Sr. Clay ton estará então acordado e poderá vê-lo. Achei que deveria avisá-la agora, a fim de poder voltar ao hotel e dorm ir direito.

— Acho que não m e resta opção. — Am anda fez um esforço para levantar-se. — Quando poderei ver Ken?

— Tenho certeza de que às nove e m eia da m anhã não haverá qualquer problem a. O Dr. Kleinberg j á o terá então exam inado.

— Estarei aqui antes disso. Obrigada por tudo.

Depois de deixar o hospital e entrar no carro alugado, Am anda percebeu que ainda tinha na m ão o envelope contendo a cópia do diário de Bernadette. Mas com o Ken não poderia ler antes da m anhã seguinte, ela resolveu levar-lhe um a das outras cópias, que deixara no quarto do hotel, entregando aquela a Liz Finch, o m ais depressa possível. Proporcionaria a Liz a grande história de sua vida e ela bem que m erecia.

Ao invés de seguir diretam ente para o hotel, Am anaa desviou-se até o serviço de im prensa. Estacionou o carro perto do dom ínio. As ruas de Lourdes estavam virtualm ente desertas àquela hora. Am anda encam inhou-se para o 'escritório da im prensa, instalado num a barraca, levando o envelope pardo.

O interior estava intensam ente ilum inado e apenas três correspondentes trabalhavam naquele m om ento. A m esa de Liz Finch se achava vazia. Aquela hora, Liz estava certam ente m ergulhada num sono profundo. Am anda resolveu deixar o seu presente em cim a da m esa de Liz, com um bilhete curto.

Indo até a m esa, Am anda sentou-se na cadeira giratória, encontrou um lápis verm elho e escreveu em letras grandes no envelope pardo:

PARA LIZ FINCH, API.

PESSOAL E MUITO IMPORTANTE

Depois, Am anda pegou um pedaço de papel e escreveu um bilhete apressado:

Liz querida:

Obtive o maior sucesso em Bartrès. Aqui está uma cópia do diário de Bernadette que comprei... a parte que a Igreja não viu. Leia. Isto deve lhe proporcionar o furo do ano. Mas não faça coisa alguma até conversarmos. Eu lhe fornecerei então todos os detalhes. Ken está no hospital. Irei vê-lo às nove e meia. Poderemos nos encontrar no hotel por volta das 11 horas.

Sua amiga, Amanda

Relendo o bilhete, Am anda m udou de ideia sobre deixá-lo na m esa de Liz. Outros repórteres que partilhavam ou passavam pela m esa de Liz podiam se sentir tentados a ler — e possivelm ente confiscar — a cópia do diário. Im aginando onde Liz recebia sua correspondência particular, Am anda resolveu exam inar m ais cuidadosam ente o interior da barraca. E encontrou num a parede lateral o que não percebera ao entrar. Lá estavam fileiras do que pareciam ser cofres — várias centenas — e num lado um a m ulher corpulenta, de m eia-idade, em uniform e de guarda de segurança, sentada a um a m esa, lendo um livro.

Dobrando apressadam ente o bilhete que escrevera, Am anda ;colocou-o dentro do envelope pardo. Levantou-se e foi até a m ulher.

— Com licença, m adam e — disse Am anda —, onde se deixa a correspondência particular para os repórteres? Nessas caixas?

—Isso m esm o. Cada repórter credenciado possui um a caixa trancada, com sua própria chave.

— Pois eu gostaria de deixar um a coisa pessoal para a repórter am ericana Liz Finch.

— Se m e entregar, posso cuidar disso.

A m ulher parecia afável e de confiança. Mas tendo chegado até ali com sua preciosa descoberta, Am anda não estava disposta a correr qualquer risco.

— Se não se im porta, prefiro deixar na caixa pessoalm ente.

— Com o quiser. — A m ulher puxara um a gaveta e estava consultando um a lista. — Liz Finch, Caixa 126.

Pegando um m olho de chaves, a m ulher levantou-se e levou Am anda pelas fileiras de caixas. Parou de repente, m eteu um a chave num a caixa de m etal na altura do om bro e abriu-a.

— Pode pôr seu envelope aqui. Ficará absolutam ente seguro.

Dentro da caixa, Am anda pôde ver alguns outros envelopes, pasta Denty ne, diversos m aços de cigarros e um a lata de pastilhas de m enta Altoid. Sorrindo, Am anda pôs seu precioso envelope pardo na caixa. A m ulher fechou-a e trancou-a cuidadosam ente.

— Está pronto. Agora pode ter certeza de que a Srta. Finch será a única que receberá.

— Muito obrigada — disse Am anda.

Aliviada, ela observou a m ulher retornar à m esa. Satisfeita por estar oferecendo um grande furo à am iga, ela esticou os m úsculos doloridos, tom ou consciência m ais um a vez de sua exaustão e depois encam inhou-se lentam ente para o carro e o hotel, para um a noite de sono profundo, que a fortaleceria para o que a m anhã reservava.

Às 11:32 daquela noite, saindo da cam a sem fazer barulho e certo de que Natale dorm iria até de m anhã, Mikel Hurtado vestiu-se lentam ente e procurou as chaves do Ford europeu que alugara. Com um últim o olhar para o corpo em repouso de Natale e um a pontada de pesar pela separação forçada, ele saiu do quarto, trancou a porta e encam inhou-se para o elevador e para seu encontro com o destino basco.

Deixando o Hotel Galha & Londres, Hurtado virou à direita na Avenue Bernadette Soubirous. A tensão foi aum entado à m edida que se aproxim ava da esquina. Fora até aquela esquina duas vezes, nos últim os três dias, deparando com a polícia de Lourdes de patrulha na ram pa de acesso para o dom ínio lá em baixo. Isso não desconcertara Hurtado, porque fora alertado por Yvonne, a recepcionista do hotel, a esperar pela presença policial. A am iga de Yvonne que dorm ia com o Inspetor Fontaine, chefe de polícia de Lourdes, contaram que a vigilância continuaria pela sexta-feira, m as seria suspensa no sábado.

Hurtado refletiu que nos últim os três dias poderia ter-se desesperado de preocupação e angústia se não fosse por Natale. A presença dela de m anhã, de tarde e de noite, durante 72 horas, fora fundam ental para distraí-lo e acalm á-lo. Jam ais conhecera um a m ulher com o Natale. Apesar de sua deficiência, ela se m ostrava inabalavelm ente anim ada e divertida. Espirituosa e zom beteira ao acordarem pela m anhã e com eçarem a fazer am or. Apaixonada e ardente ao ato sexual. Séria e devota na gruta ao final da m anhã e à tarde. Fascinante e filosófica em suas conversas no alm oço e j antar. Um a fêm ea totalm ente sensual na cam a à noite. Hurtado j am ais experim entara um a capacidade tão absoluta de entrega da carne por um a pessoa do sexo oposto. Natale era um a m aravilha, um ser excepcional, a perfeição de sua beleza da cabeça aos pés era extraordinária. E depois que haviam alcançado o orgasm o j untos, apenas duas horas antes, depois que ela adorm ecera, Hurtado se sentira hesitante, pela prim eira vez, em concluir a sua m issão.

Na cam a, ao seu lado, ele refletira sobre o que havia pela frente. Para com eçar, a culpa que experim entaria por destruir a gruta antes do últim o dia do reaparecim ento da Virgem Maria, um dia em que ele sabia que Natale planej ava realizar um a sessão de m aratona, a fim de entrar em contato com o único ser que ela acreditava capaz de se com over com sua situação. Natale partiria sem o dia m ístico final em que ofereceria suas preces, sem a gruta para se aj oelhar, sem o hom em por quem se apaixonara. Ela voltaria a Rom a desolada e sozinha.

Pois ele próprio estaria a m uitos quilôm etros de distância, escondido com com panheiros bascos num a aldeia da França, aguardando o dia em que a polícia francesa suspenderia a caçada pelo m ais blasfem o terrorista de todos os tem pos, em que seria atenuada a vigilância na fronteira com a Espanha, em Henday e. Ele retornaria então à Espanha, acum ularia força e pressão contra o Ministro Bueno e o governo espanhol, poderia se j untar às m ultidões exultantes nas ruas de San Sebastián quando a Espanha Basca se tornasse a nação independente de Euskadi. Som ente então — por quanto tem po? quantos anos? — poderia partir num a peregrinação solitária a Rom a, procurar e talvez encontrar um a Natale m ais velha.

Estendido na cam a com tais pensam entos, ele tivera outras ideias, considerara a possibilidade de abandonar a sua m issão violenta, rezar com e para Natale no últim o dia e, se nada m udasse para ela (com o ele tinha certeza de que não aconteceria), acom panhá-la de volta a Rom a. Poderia ali recom eçar sua carreira com o escritor — um autor podia escrever em qualquer parte — e ficar j unto de Natale, cuidar dela, pelo resto de suas vidas. Deixando que outros, algum dia, tentassem libertar Euskadi.

Mas essas ideias lhe pareceram um a autêntica heresia, um escárnio à sua fé na causa. Outros não eram tão capazes quanto ele na luta da resistência. Nem m esm o López, o antigo m estre da organização e planej am ento, dem onstrava um a força persistente. Envelhecendo, López se tornava m ais fraco, disposto a fazer concessões ao m onstro de Madri. Não, era Hurtado o m ais qualificado e necessário. Não podia ser um traidor de m ilhares de oprim idos e da m em ória de seu am ado pai.

A causa acabou prevalecendo sobre os sentim entos egoístas. Estava ali para destruir a obstrução à liberdade basca. E aquela seria a noite em que a explodiria em pedacinhos.

Era o que esperava.

Quase na esquina, o coração e os passos acelerados, ele ofereceu, em bora não fosse hom em de rezar, um a prece a um Deus Desconhecido para que a inform ação de Yvonne fosse acurada e que os guardas franceses tivessem suspendido a vigilância no acesso ao dom ínio.

Estava na esquina, descendo o m eio-fio... e o que viu deu-lhe vontade de pular de alegria. Não havia qualquer guarda à vista em nenhum lugar da avenida e a ram pa que descia para o dom ínio se achava com pletam ente deserta.

Quase correndo, Hurtado atravessou a avenida para o alto da ram pa. Esquadrinhou a base da ram pa e o terreno além do dom ínio. Desceu rapidam ente, a confiança aum entando. Na base da ram pa, em terreno plano, ele espiou pela Esplanada do Rosário para o outro lado, esquadrinhando cuidadosam ente, até onde podia ver, à procura do solitário guarda noturno que observara de patrulha na m adrugada. Mas até m esm o aquele guarda não se encontrava à vista.

Tentando conter seu j úbilo, Hurtado desviou-se para a esquerda, passando pela Basílica do Rosário e contornando a Basílica Superior, encam inhando-se apressadam ente para a gruta.

Estava ali, aquele buraco sagrado na encosta, parecendo fantástico à luz das velas bruxuleantes, que tam bém se proj etava sobre a im agem da Virgem Maria, a estátua idolatrada da Virgem vestida de branco no nicho lá em cim a.

O nicho era o seu alvo. Quando fosse explodido em pedacinhos, grande parte da encosta desm oronaria, j untando-se aos escom bros da própria gruta.

Hurtado virou-se um a últim a vez, olhando cautelosam ente ao redor, procurando por qualquer obstáculo ou am eaça potencial. O interior da gruta estava vazio. As cadeiras e os bancos estavam vazios. A área das torneiras com água da fonte e dos banhos m ais além estava vazia.

A longa espera term inara. O grande m om ento chegara.

Sem m ais nenhum a hesitação, Hurtado encam inhou-se para a encosta íngrem e, coberta de m ato, arbustos, m oitas de flores am arelas, pequenas m agnólias e enorm es carvalhos, que se erguiam além da rocha árida que cercava a gruta. Hurtado com eçou a subir, plantando cada pé firm em ente nos pontos de apoio.

Subindo cada vez m ais, ele logo pôde se apoiar nos galhos e troncos das árvores na floresta que se adensava. A respiração era agora ofegante, m as não por falta de vigor. Possuía o condicionam ento de um atleta. O que afetava a sua respiração era a expectativa e o excitam ento crescente, m isturando-se com a tensão do caçador.

Estava agora nas árvores grandes e contando para localizar a certa, um a das m aiores. Tinha certeza de que encontraria o seu tesouro. Finalm ente encontrou a árvore e contornou-a. Tirou a lanterna do bolso do casaco e proj etou o círculo de luz am arelada para a folhagem a seus pés.

E logo avistou a depressão, com a cam uflagem que preparara três dias antes para cobri-la e escondê-la. Aj oelhou-se, aj eitando a lanterna na beira da depressão, a fim de que o facho pudesse guiá-lo. Com as m ãos nuas, com eçou a recolher as folhas e gravetos, em purrando-os para o lado. Os detritos estavam úm idos do ar noturno, m as isso só tornava m ais fácil rem ovê-los.

A sacola de com pras dobrada que trouxera para cobrir os pacotes m enores se achava agora à sua frente. Ele tirou-a do esconderij o, largou-a ao lado, concentrou-se em retirar os pacotes com explosivos e dem ais equipam entos.

Com o se estivesse m anuseando um a preciosa porcelana, Hurtado aj eitou com extrem o cuidado cada peça. Desde o início, ele escolhera a um equipam ento de tem po elétrico com o o m ais seguro, o m ais certo, o que lhe perm itiria aum entar ao m áxim o a distância que o separaria da dinam ite no m om ento em que ocorresse a explosão. A ideia era ligar o explosivo a um detonador de ação retardada e ligar este a um relógio. Isso envolvia tam bém o uso de um a bateria e term inais. O relógio foi arm ado com o um despertador. Com eçou a bater; quando os ponteiros alcançassem a posição determ inada, os term inais seriam fechados e o circuito enviaria um a descarga elétrica através do detonador e o pavio para a dinam ite. Por um m om ento, no com eço, ele pensara em usar o plástico C-4 — que os franceses cham avam de plastique — com o o explosivo, ao invés da antiquada dinam ite. Mas depois concluíra que dinam ite — nitroglicerina num a m istura de serragem — era m ais sim ples, desde que os bastões fossem novos.

Aquela dinam ite, os bastões j á am arrados j untos, era nova. Com m ãos experientes — j á preparara pelo m enos um a dúzia daqueles artefatos para destruir lugares em anos recentes — Hurtado desenrolou o fio verde, deixando um a extrem idade perto do detonador e a bateria, fixados num bloco de m adeira. Isso feito, com eçou a descer pela encosta, na direção da gruta, estendendo o fio. Desligou agora a lanterna, pois a claridade das velas de cera se proj etava pela folhagem e delineava o nicho por cim a da gruta e a im agem de m árm ore da Virgem Maria.

Por um instante, entre m oitas, ele teve um vislum bre da área da gruta lá em baixo. Toda sua concentração estava no nicho, enquanto rastej ava cada vez m ais próxim o, estendendo o fio verde. Quando o nicho estava a um braço de distância, ele se aproxim ou ainda m ais, puxando o pacote com a dinam ite para a frente e colocando-o lá dentro. Aj eitou-o gentilm ente, a fim de que ficasse perfeitam ente assentado e seguro por trás da estátua de m árm ore e fora de vista.

Satisfeito, ele virou-se, de j oelhos, com eçou a voltar pelo m esm o cam inho, tateando o fio enquanto subia. Em poucos m inutos estava de volta, por trás da árvore grande, onde deixara o detonador e o relógio. Rapidam ente ligou os fios aos term inais, tom ando cuidado para evitar que fizessem contato. E depois arm ou o relógio. Calculara antes o m om ento para o contato autom ático. Precisava de tem po suficiente para escapar, m as não podia ser dem ais, o que aum entaria a possibilidade do artefato ser descoberto acidentalm ente por alguém . Quinze m inutos parecia o tem po exatam ente certo.

Cinco m inutos para descer da encosta, quatro m inutos para se afastar da gruta e subir a ram pa, um m inuto para alcançar o Ford (guardara a m ala antes), cinco m inutos para atravessar a cidade deserta e pegar a estrada para Pau.

A esta altura, a gruta seria destruída e a Euskadi se ergueria das cinzas. E ele teria desaparecido de Lourdes, estaria escondido bem longe, protegido por seus com patriotas franceses.

Quinze m inutos, a partir daquele segundo. Ele concluíra a ligação. Não havia necessidade de enterrar ou cam uflar o artefato. Seria explodido em pedacinhos incontáveis, j untam ente com todo o resto.

Hurtado se levantou e iniciou no m esm o instante a descida precária. Apontando o facho da lanterna para o chão à sua frente, segurando-se nos troncos e nos galhos m aiores, ele conseguiu m anter o equilíbrio, escorregando apenas um a vez, perm anecendo de pé e firm e por toda a descida. Quando avistou a base da encosta, o terreno plano que levava à gruta e a contornava, ele apagou a lanterna. Podia se deslocar m ais depressa agora, à m edida que se aproxim ava o terreno plano. Parou j unto da últim a folhagem protetora e esquadrinhou o que podia ver da área. Ainda não havia nenhum guarda à vista, absolutam ente ninguém . Estava seguro.

Ele desceu para o terreno plano e im ediatam ente levantou o braço direito, consultando o relógio de pulso. A descida levara cinco m inutos e dez segundos.

Dez segundos perdidos, m as ainda estava dentro do horário previsto.

Não havia m ais um segundo sequer a desperdiçar.

Apressando-se, ele com eçou a passar pela gruta, na direção da ram pa.

Avançando entre os bancos e cadeiras virados para o altar no interior da gruta, Hurtado lançou um últim o olhar para o nicho e a im agem , a fim de verificar se os explosivos eram visíveis. Nada era visível, exceto a estátua estúpida...

Nada. Perfeito.

Mas quando seu olhar baixou... algum a coisa.

Sobressaltado, ele parou no m eio de um passo, ficou im óvel. Com incredulidade, olhou para a entrada da gruta, por baixo do nicho, constatando que havia algo ali, alguém , um ser hum ano, um ser hum ano pequeno, a cabeça coberta por um xale, aj oelhado, de costas para ele, rezando. Ele j á vira aquele vulto antes, o xale na cabeça e a postura, a sem elhança ocorreu-lhe prontam ente. Vira um a fotografia de Bernadette naquele traj e e naquela postura rezando diante da gruta.

No prim eiro ím peto de incredulidade, Hurtado se preocupou com a sobrevivência, a autopreservação, o im pulso de seguir adiante, afastar-se o m ais depressa possível, ignorar aquela pessoa idiota perdida em sua oração.

Mas lá em cim a, na encosta, um relógio batia, im placavelm ente, dentro de nove m inutos ocorreria um a explosão gigantesca e um a pobre criatura hum ana seria m orta. Ao m esm o tem po, um instinto m ais forte prevaleceu. Hurtado não queria m atar ninguém ali, m uito m enos um a pobre coitada devota. Num a questão de segundos poderia salvá-la... e ainda salvar a si m esm o. Só precisava alertá-la de que corria perigo, avisá-la para fugir, sair dali, depois continuar em seu cam inho.

Ele virou-se para a gruta, correndo entre as cadeiras e bancos. Ao se aproxim ar da m ulher aj oelhada, esqueceu inteiram ente a cautela e gritou:

— Ei, você! Saia daqui! Tudo isto vai explodir!

Ele esperava que a m ulher aj oelhada se virasse, assustada, reagisse ao aviso, se afastasse correndo da área em perigo.

Mas ela não se m exeu, não fez qualquer m ovim ento, perm aneceu de j oelhos, em súplica silenciosa, tão im óvel quanto a estátua de m árm ore por cim a.

A ausência de reação era inacreditável para Hurtado, além de toda com preensão. Ele correu m ais depressa para a m ulher. Quando se encontrava quase em cim a dela, prestes a gritar de novo, estacou abruptam ente.

A m oça estava agora de perfil e podia divisar seu rosto.

Natale. Natale Rinaldi. A sua Natale.

Ele a deixara adorm ecida, m as ela não continuara a dorm ir até de m anhã, com o esperava. Vestira-se no escuro e encontrara o cam inho contando os passos no escuro, chegara até ali para realizar a sua últim a vigília.

— Oh, Deus! — m urm urou Hurtado. — Natale!

Não houve reação, não houve resposta, não houve um único m ovim ento. Era com o se ela não pudesse ouvi-lo.

Hurtado podia vê-la claram ente agora, os óculos escuros, o rosto pálido, apenas um m ovim ento m ínim o dos lábios.

Ela estava em transe, fora deste m undo.

Ele estava em cim a da m oça, segurando-a pelos om bros, tentando levantá-la, arrancá-la dali.

Mas ela não se m exeu. Parecia um peso m orto, ancorado ao chão, irrem ovível.

Hurtado puxou e em purrou, tentando fazê-la levantar, tentando erguê-la. Mas era im possível deslocá-la um centím etro sequer.

Com a respiração ofegante, ele parou de tentar. Era um fenôm eno além da sua com preensão. Ficou parado por cim a de Natale, contem plando-a, sem saber com o fazer contato, por que m eios rem ovê-la, levá-la para a segurança.

E depois, para seu espanto total, observou-a sacudir-se lentam ente e se levantar.

— Natale! — gritou ele, segurando-a pelos braços.

Mas ela estava lhe sorrindo, levantando um a das m ãos, rem ovendo os óculos escuros. Pela prim eira vez, seus olhos estavam largos e claros, lum inosos, fixados em Hurtado.

— Mikel... você é Mikel... deve ser — disse ela, suavem ente. — Mikel, eu vi a Virgem Maria. Ela veio a m im e falou, perm itiu que eu a visse. E pude vê-la, assim com o posso ver você agora. —Natale virou a cabeça. — E a gruta... pela prim eira vez posso vê-la, posso ver outra vez o m undo inteiro. A Virgem Abençoada m e devolveu a visão, Mikel. Posso ver!

Ele estava paralisado, aterrado, m al conseguindo com preender o m ilagre, sua m aravilha. Finalm ente, foi capaz de recuperar a voz e balbuciou:

— Você... você pode m e ver?

— Posso, sim ... você, tudo ao redor. É glorioso.

— Você... você viu a Virgem ?

— Quando m e aj oelhei para rezar, estava na escuridão, com o sem pre. Enquanto rezava, pude divisar um cone de claridade, um a luz. E depois pude ver a abertura, a própria gruta. Pude vê-la então, a m ulher de branco, não m aior do que eu, inclinando a cabeça, os braços estendidos, um a das m ãos segurando um a rosa de haste com prida. Peguei o rosário e a Virgem perm aneceu parada ali, sorrindo-m e graciosam ente. Era com o Bernadette a vira, exceto pela rosa na m ão. Um véu branco lhe cobria a cabeça, o vestido com prido era do branco m ais puro, com um a faixa azul, um a rosa am arela em cada pé. E ela disse, suavem ente: "Você verá de novo, por toda a duração de sua estada neste m undo, a cada m aravilha de Deus." Houve m ais, porém ... Mikel, Mikel, foi m aravilhoso! Eu am o você, o m undo inteiro, a vida, am o a nossa preciosa Massabielle...

— Ela se aninhara nos braços abertos de Hurtado, abraçando-o. Mas a m enção de Massabielle desencadeou-lhe a lem brança.

— Oh, Deus! — exclam ou ele, soltando Natale e olhando para o relógio.

Restavam m enos de seis m inutos.

Ele pegou firm em ente o braço da aturdida Natale e com eçou a afastá-la da gruta, bem depressa, puxando-a e arrastando-a.

— Corra! — insistiu ele, puxando-a pela base do.m orro, forçando-a a acom panhá-lo.

Ele parou subitam ente, afastando-a.

— O que foi, Mikel?

— Não im porta. Explicarei depois. Apenas faça o que eu m andar, exatam ente o que eu m andar. — Ele apontou para os banhos. — Vá para lá, passando pelos banhos, o m ais depressa que puder. Vá correndo, fique longe da gruta, o m ais possível. Irei ao seu encontro dentro de cinco ou dez m inutos. E agora vá!

Sem esperar para vê-la se afastar, ele se pôs a subir pela encosta, entre a folhagem , tão depressa quanto lhe perm itia a superfície escorregadia. Cam baleava e caía, tornava a se levantar, tropeçava, sem pre subindo, sem qualquer pausa. Estava agora se segurando nos galhos m ais fortes, nos troncos das árvores, subindo sem parar. Caiu de novo, estatelou-se de frente, levantou-se, olhou para o relógio em seu pulso. Quatro m inutos e m eio j á haviam transcorrido e ainda não chegara lá.

Num frenesi, Mikel recom eçou a subir. O tem po passava inexoravelm ente e ele ainda não chegara. Por um m om ento sentiu-se perdido, não conseguiu encontrar seu ponto de referência, o carvalho enorm e. E depois o viu, cam baleou até lá, caiu de j oelhos à sua frente.

Mais um olhar ao relógio.

Restava m enos de um m inuto. Menos de m eio m inuto.

E só restavam segundos, 24, 23, 22...

De j oelhos, ele engatinhava desesperadam ente em torno da árvore, procurando a depressão, o detonador e a bateria, o relógio ligado.

Estendeu-se de cabeça para o artefato, segurando o fio, arrancando-o com toda a sua força. Não se desprendeu. Estava com o um louco, puxando e puxando, até que o antebraço e o bíceps trem iam de dor, certo de que perdera, aguardando a explosão catastrófica, a erupção que traria a m orte para Massabielle e para si m esm o.

E subitam ente o fio se desprendeu, o artefato estava desligado, não havia qualquer trovoada ressoando em seus ouvidos.

No escuro, ele tentou verificar a hora em seu relógio de pulso.

Restavam dois segundos.

O ponteiro avançou um segundo, dois segundos, depois um segundo além do que teria sido o m om ento do inferno.

Hurtado ficou sentado com o fio solto nas m ãos suj as, escutando o silêncio m aravilhoso.

Depois de algum tem po, quando recuperou o fôlego, Hurtado levantou-se, com algum a dificuldade. Havia trabalho a fazer e teria de realizá-lo. Ele se adiantou tem erariam ente, caindo várias vezes, sem se im portar, finalm ente rastej ando até poder ver a estátua de m árm ore no nicho, por cim a da gruta. Quando estava ao seu alcance, estendeu a m ão e, por trás da base, encontrou o pacote volum oso com a dinam ite. Com paciência e cautela, tirou a dinam ite do nicho. Quando o explosivo se encontrava em sua m ão, com eçou a voltar para o carvalho, deslocando-se agora com m aior cuidado.

Chegando à árvore, abriu a sacola de com pras e pôs o pacote com a dinam ite lá dentro. Depois, um a a um a, pegou as diversas peças do equipam ento e tam bém guardou-as na sacola.

Acabara de pôr o últim o pedaço de fio solto na sacola quando teve um sobressalto ao ouvir seu nom e.

— Mikel.

Ele ouviu novam ente e lá estava Natale, parada ao seu lado.

— O que está fazendo aqui, Natale? Eu lhe disse... você poderia ... ora, não im porta...

— Eu queria saber para onde você estava indo. E o segui. Tive de engatinhar durante a m aior parte do cam inho. Pensei que m e perdera, m as... aqui estam os.

Ele estava de pé agora, abraçando-a, beij ando-a.

— Eu a am o, Natale... para sem pre.

— Eu tam bém o am o... para sem pre e m ais ainda. Soltando-a, Hurtado passou um braço por sua cintura, a outra m ão segurando a sacola. Ao com eçarem a descer pela encosta, ele sorriu para ela e disse:

— Então agora pode m e ver. E com o eu lhe pareço?

— Pecam inosam ente feio. —Natale soltou um a risada. —Mas adoro os hom ens pecam inosos e feios. — Ela fez um a pausa, a expressão voltou a ficar séria quando acrescentou: — Mikel, você é lindo, não tão lindo quanto a Virgem Maria... m as é bastante lindo para um m ero m ortal.

Quando chegaram ao terreno plano, ele não se virou para a gruta e o dom ínio. Em vez disso, continuou a seguir direto em frente, na direção da ponte que atravessava o Gave de Pau e levava à cam pina se estendendo à frente, ilum inada pelo luar. Andando ao lado dele, Natale indagou:

— Para onde estam os indo, Mikel?

— Para o rio lá na frente — Ele levantou a sacola de com pras. — Para que eu possa m e livrar disto, um a parte do m eu passado. — Ele sorriu para Natale enquanto continuavam e m urm urou: — Pela prim eira vez na vida, querida, eu tam bém posso ver.