O Milagre

Irving Wallace · Capítulo 16 de 16

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O Milagre

Capítulo 15

Domingo, 21 de Agosto

Liz Finch andava nas nuvens.

Na verdade, ela pisava firm em ente no tapete do corredor do quinto andar do Hotel Gallia & Londres, m as pela prim eira vez desde a sua chegada a Lourdes tinha a sensação de que andava nas nuvens.

Com o envelope pardo de Am anda e seu conteúdo seguro firm em ente na m ão, ela estava extasiada, nunca se sentira tão feliz. Tinha a denúncia da década e certam ente a história m ais sensacional de sua carreira, graças àquela m ulher incrível que se cham ava Am anda Spenser; e tinha para oferecer a m ilhões e m ilhões de leitores do m undo inteiro, que leriam e absorveriam cada palavra num espanto atordoado. Liz daria qualquer coisa para ver a reação de Bill Trask enquanto lhe ditasse a m atéria. Melhor ainda, daria m uito m ais para ver a cara daquela desgraçada da Marguerite quando ouvisse a respeito e com preendesse que suas revelações sobre Viron não passavam de refugo em com paração com aquilo.

O quarto de Am anda era o 503 e Liz chegou à sua frente. O bilhete de Am anda prom etera que estaria de volta do hospital e esperando em seu quarto, pronta para lhe dar um a explicação total sobre o fantástico diário de Bernadette, antes que Liz escrevesse e transm itisse a m atéria de m anchete no m undo inteiro.

Depois disso, aquela cidadezinha horrível seria liquidada, apagada do m apa para sem pre, com o bem m erecia.

Havia quase um a cadência no j eito com o Liz bateu na porta.

Ela ficou esperando que fosse aberta; com o isso não acontecesse, bateu com m ais força, torcendo para que Am anda estivesse, ao invés de ter sido retardada no hospital com Ken.

Abruptam ente, a m açaneta foi sacudida e a porta aberta. Lá estava Am anda, de cam isola de seda, sonolenta, os cabelos desm anchados, um a expressão confusa no rosto.

— É você, Liz?

— Quem m ais poderia ser? Esqueceu que m arcou um encontro com igo? — Ela levantou o envelope pardo. — Deixou-m e esta superdinam ite e pediu-m e para vir procurá-la aqui.

— Santo Deus! Que horas são?

— Onze e m eia em ponto, a hora que m arcou.

— Oh, diabo, dorm i dem ais. O dia de ontem deixou-m e esgotada. Não acordei com o despertador. Deveria m e levantar às oito horas e m e encontrar às nove e m eia com o m édico de Ken no hospital. Mas, principalm ente, para ver Ken e levá-lo de volta a Chicago. Entre, Liz. Poderem os conversar enquanto m e visto.

Liz entrou, alegrem ente, fechando a porta, enquanto Am anda atravessava o quarto até a côm oda, abrindo as gavetas à procura de roupas de baixo lim pas. Liz se acom odou num a cadeira, levantando o envelope pardo.

— Não terá qualquer problem a com o querido Ken, depois que ele der um a olhada nisto. Mas o que ele está fazendo no hospital?

Am anda estava tirando a cam isola.

— Ele m e deixou um bilhete, inform ando que seu estado se agravara e que fora levado para o hospital principal de Lourdes, na Avenue Alexandre-Marqui. Fui procurá-lo im ediatam ente, quando cheguei de Bartrès. Mas ele estava dorm indo, sob o efeito de sedativos.

— Com o ele está?

— Era j ustam ente o que eu deveria saber às nove e m eia. — Am anda aj eitou os seios leitosos no sutiã e estava prendendo-o nas costas. — Eu gostaria de não ter dorm ido dem ais. Não tenho tem po sequer para tom ar um banho.

Mas Liz Finch j á se concentrara outra vez na cópia do últim o diário de Bernadette, que tirara do envelope.

— Não terá m ais problem as com Ken depois que ele ler isto, Am anda. Ele nunca m ais poderá acreditar em qualquer das bobagens de Lourdes. Verá o quão profundam ente... e involuntariam ente... Bernadette se revelou com o um a im postora. Im agine aquela pequena cam ponesa histérica vendo a Virgem Maria e Jesus ainda por cim a em toda parte... vezes incontáveis, entre as ovelhas em Bartrès... e depois desse ensaio repetindo o seu ato um m ês m ais tarde em Lourdes. Puxa, Am anda, é a grande história do nosso tem po. Mas não queria que eu passasse a história antes de falar com você. E, de qualquer form a, eu precisava m esm o que você m e fornecesse todos os detalhes a respeito. Com o conseguiu, Mulher Maravilha, com o conseguiu pôr as m ãos nesta coisa sensacional?

— Tenho de ir ao banheiro. — Am anda tinha na m ão a m eia-calça. — Estou atrasada dem ais.

— Por favor, Am anda — im plorou Liz, enquanto a outra entrava no banheiro. — Você m e pediu para não passar a história antes de conversarm os. Não vai m e contar tudo agora?

— Só um instante, Liz. Espere eu term inar de m e vestir. Eu lhe contarei tudo o que sei enquanto descem os. E se o tem po não for suficiente, poderá m e acom panhar até o hospital.

Am anda saiu apressadam ente do banheiro um instante depois, vestiu a blusa, pôs a saia, prendeu-a, calçou os sapatos de saltos baixos e pegou um a segunda cópia de diário em seu envelope pardo, j á se encam inhando para a porta. Liz estava logo atrás dela, se apressando para acom panhá-la, na direção do elevador. Enquanto esperavam pelo elevador, Liz indagou:

— O Padre Ruland lhe deu o nom e de Eugénie Gautier em Bartrès, não é m esm o?

— Exatam ente.

— Com o soube que havia um a parte anterior do diário.

— A Irm ã Francesca m encionou isso de passagem , em Nevers.

O Padre Ruland adm itiu que existia, m as insistiu que não estava interessado. Na verdade, ele nunca viu essa prim eira parte do diário.

Madam e Gautier confirm ou sua existência e m ostrou-m e. Ela não queria dinheiro, apenas que eu providenciasse a m atrícula de seu sobrinho num a universidade am ericana. Quando li as páginas que Bernadette escreveu a respeito de sua perm anência em Bartrès, com o cuidava das ovelhas e sem pre via Jesus e a Virgem Maria entre os bichos... quantas vezes?

— Jesus três vezes. A Virgem seis vezes entre as ovelhas em Bartrès e com eçando um m ês depois m ais 18 vezes em Lourdes.

— Som ente em Lourdes ela teve testem unhas e sua encenação se tornou pública. Um a lunática sedutora.

"Estam os sem pre encontrando pessoas assim em psicologia clínica. A síndrom e da fuga da realidade. Tratam os de crianças m ais velhas que sofrem alucinações eidéticas... coloridas, nítidas, a tal ponto que a pessoa passa a acreditar. O elevador chegou.

— Posso citá-la, Am anda? — perguntou Liz. — A em inente professora de psicologia de Chicago, Dra. Spenser, diz.

Estavam dentro do elevador e descendo para o saguão.

— A Igrej a vai m e queim ar na cruz — disse Am anda. — Mas não im porta, a verdade vai aflorar. Pode citar.

Liz escrevia anotações furiosam ente. Term inando, ela saiu para o saguão, atrás de Am anda.

— Você m e ganhou o dia, a sem ana, a vida. Adeus aos m ilagres. Esta é um a m anchete internacional absoluta.

Enquanto as duas se afastavam do elevador, preparando-se para deixar o hotel, depararam com Natale e Hurtado, que acabavam de entrar no hotel e se encam inhavam para o elevador. Am anda se m anteve indiferente por um m om ento, m as Liz reconheceu im ediatam ente o casal.

— Sr. Mikel Hurtado — disse ela. — E Srta. Natale Rinaldi. Ora, ora, parecem dois pom binhos.

Eles estavam de m ãos dadas, radiantes de felicidade. Natale disse a Liz:

— É a prim eira vez que a vej o, m as reconheço sua voz. Você é Liz Finch, a correspondente am ericana.

— Ei, m as o que...

A voz de Liz m urchou e ela ficou olhando fixam ente para Natale. Ao m esm o tem po, Am anda percebeu o que Liz acabara de constatar. A linda m oça italiana não estava m ais usando óculos escuros, não estava m ais escondendo sua cegueira. Os grandes olhos escuros estavam brilhando, contem plando Liz e depois Am anda. Foi Am anda quem falou prim eiro, abruptam ente:

— Ouvi m esm o você dizer a Liz "É a prim eira vez que a vej o"? Está nos dizendo que pode ver?

Natale balançou a cabeça, com intensa satisfação.

— Isso m esm o. Posso ver perfeitam ente agora.

Liz ficou aturdida.

— Mas tenho certeza de que nos disse, quando j antam os j untas, que era totalm ente cega e os oftalm ologistas em Rom a não lhe deram qualquer esperança de que pudesse ter a visão restaurada.

Natale concordou.

— Falei m esm o isso. É verdade. A ciência m édica m e considerou um caso perdido. Por isso, eu tinha de rezar e esperar por algo m ais que a ciência, algo sobrenatural. E eu disse que foi j ustam ente por isso que vim a Lourdes.

Liz estava agora piscando incessantam ente.

— Quando isso aconteceu... quando recuperou a visão?

— De m adrugada, na gruta.

A voz de Liz trem ia. Ela conseguiu balbuciar apenas um a palavra:

— Com o?

— Isso m esm o, com o? — acrescentou Am anda.

Natale hesitou, lançando um olhar de lado para Hurtado. Ele respondeu com um aceno de cabeça, dizendo:

— Pode falar, Natale. Você tem perm issão para contar a verdade a seis pessoas... eu sou um a... seu pai e sua m ãe outras duas... sua Tia Elsa a quarta... e contar a Liz e Am anda com pleta as seis pessoas. Depois disso, m ais ninguém .

Os olhos de Natale se deslocaram de Liz para Am anda. Seu sem blante era solene quando fez o anúncio com sim plicidade:

— Eu vi a Virgem Maria ontem à noite. Tudo estava escuro diante de m im , depois surgiu um a claridade e a aparição da Virgem Abençoada pairou acim a de m im . Ela m e restaurou a visão e pude vê-la, pude ver tudo. A Virgem reapareceu, com o prom etera a Bernadette que faria. E m e devolveu a visão.

Am anda cam baleou sob o im pacto do anúncio. Estava de boca entreaberta. E sacudia a cabeça. Liz tam bém estava atordoada, piscando m ais furiosam ente do que nunca, o rosto contraído.

— Espere um pouco, espere um pouco... — balbuciou ela.— Tem certeza de que isso é verdade?

Natale respondeu sim plesm ente:

— Olhe para m im .

Liz fitou-a em silêncio por um longo m om ento e depois tentou form ular algum as palavras:

— Natale, se isso é verdade e você confirm ar, é um a das m aiores histórias que j á saiu de Lourdes no século e m eio desde Bernadette. Você... você tem que m e dar os detalhes... todos os detalhes... im ediatam ente.

Natale sacudiu a cabeça, lentam ente.

— Não se você for publicar. Não tenho perm issão para que o m eu m ilagre sej a divulgado.

Hurtado adiantou-se, com o se quisesse proteger Natale.

— Ela está querendo lhes dizer que é um a das prom essas que a Virgem Maria lhe pediu ontem à noite. A Virgem Abençoada disse a Natale: "Seu m ilagre e a m aneira com o ocorreu é para você e seis outras pessoas, a quem desej ar contar. Meu reaparecim ento a você, que devia ser um segredo antes, deve assim perm anecer agora. Espero que nunca perm ita que a verdade de seu m ilagre sej a divulgada. Mantenha este com prom isso e eu lhe prom eto a felicidade neste m undo e no Paraíso depois."

Natale estava escutando Hurtado e balançando a cabeça em confirm ação, a cada palavra que ele dizia. Ela olhou para Liz e Am anda, acrescentando:

— Prom eti à Virgem Abençoada que poderia confiar em

m im . — Mas...

Liz estava atordoada dem ais para continuar a falar.

— Vocês duas devem dar a sua palavra — continuou Natale. — Nunca falarão sobre isso nem escreverão a respeito. Contei a vocês com o am igas, querendo apenas revelar-lhes que a fé vale a pena e que os m ilagres nunca cessam de ocorrer. Estam os de volta da Basílica, onde oferecem os preces de agradecim ento por nossa sorte. Partirem os para a Itália esta tarde. Dam os adeus a vocês e desej am os boa sorte.

Ainda de m ãos dadas, Natale e Hurtado contornaram as atordoadas Liz e Am anda. O casal entrou no elevador e subiu.

Liz e Am anda continuaram paradas onde estavam , incapazes de falar ou de se m exer por longos segundos.

E, finalm ente, seus olhos se encontraram .

A voz de Liz parecia presa na garganta, m as ela acabou conseguindo articular algum as palavras, com esforço evidente:

— Am anda, talvez ela... ela não teria inventado? Am anda estava sacudindo a cabeça.

— Não, Liz, não. Ela pode m esm o ver. A cabeça de Liz subia e descia..

— Pelo am or de Deus, ela pode ver! Eu... eu não sei m ais o que pensar!

— Talvez nós duas devêssem os parar de pensar. Talvez Shakespeare estivesse certo...

— Lem bro o que ele disse. A história do Horácio. "Há m ais coisas entre o céu e a terra do que sonha a sua vã filosofia."

— É m elhor você acreditar nisso, Liz. Eu... eu estou com eçando a acreditar...

— Talvez Bernadette tenha m esm o visto Jesus e a Virgem Maria em Bartrès, talvez Bernadette tenha visto a Virgem 18 vezes em Lourdes, talvez a Virgem lhe dissesse que voltaria a Lourdes esta sem ana, este ano, talvez Natale tenha visto o seu reaparecim ento.

— Talvez — m urm urou Am anda.

— Algum a coisa aconteceu ontem à noite... quanto a isso, não resta a m enor dúvida. — Liz olhou ao redor. — Está vendo um a cesta de lixo em algum lugar por aqui?

— Um a cesta de lixo?

Liz levantou o envelope pardo contendo a cópia do diário de Bernadette.

— Para isto. Não posso m ais escrever a m atéria depois do que acabei de ver e ouvir. Não estou dizendo que voltei à religião, m as acabei de passar de ateia a agnóstica renascida. Pelo m enos para com eçar. — Ela fez um a pausa, beij ando o envelope. — Adeus a esta grande história. — Ela soprou um beij o para o elevador. — E adeus àquela grande história. Pobre Liz... Acho que vou sair agora e tom ar um porre, m uito, m uito grande...

No Centre Hopitalier General, atravessando o corredor para o quarto particular de Ken, Am anda dim inuiu os passos.

Queria ver Ken o m ais depressa possível, m as precisava clarear sua m ente confusa e definir um a posição sobre o futuro de seu noivo. O testem unho dos resultados do m ilagre de Natale abalara não apenas a ela, m as tam bém a Liz, além de toda a razão. Liz, um a cética por natureza e um a perpétua cínica alim entada pelo j ornalism o, finalm ente adm itira as suas dúvidas (em bora à sua m aneira) a respeito das visões de Bernadette e a de Natale. Mas Am anda, apesar de m ais profundam ente chocada pelo reaparecim ento da Virgem Maria, m ais prontam ente disposta a reavaliar todas as suas convicções racionais, ainda se apegava a um últim o resquício de lógica e realidade. Sabia que sua resistência a um a reviravolta provinha do longo condicionam ento com o um a psicóloga.

Um a psicóloga sabe o que está acontecendo no m undo real. Sem pre havia explicações bem fundam entadas para todas as form as de com portam ento aberrante. É claro que havia às vezes pequenos m istérios inexplicáveis, m as certam ente algum dia seriam esclarecidos. Goethe não nos lem brara... "os m istérios não são necessariam ente m ilagres"?

Contudo, não havia absolutam ente m istérios em 1858 ou na noite anterior quando se tinha a fé de que o hom em m arionete e toda a hum anidade dançavam em consonância com os cordões de um Mestre. É claro que todas as religiões form ais haviam sido inventadas pelo hom em para tornar aceitáveis os sofrim entos da vida na terra e os terrores da m orte... com a prom essa (e a recom pensa) da vida posterior. Ainda assim , esse conhecim ento não contestava o fato de que os seres hum anos, situados num planeta a girar, não eram um acaso, m as criados de um a m aneira ordenada por Algum a Coisa que controlava a própria vida. Se havia provas dessas disposições e controle, então poderiam acontecer eventos aos seres hum anos m uito além de sua capacidade de com preensão.

O que o hom em insignificante classificava com o m ilagres podia ser a intervenção lógica de um indefinível Poder Superior.

Isso explicaria Bernadette. Isso explicaria as curas instantâneas em santuários sagrados. Isso certam ente explicaria a restauração de Natale Rinaldi à com pleta norm alidade. Tudo,se resum ia realm ente a um a convicção na eficácia da fé ilim itada e não nas restrições da razão. Era um a nova terra em que os sentim entos de um ser conheciam um a sabedoria superior da m ente. Pascal expressara da m elhor form a: "É no coração que se percebe Deus e não na razão."

Ken instintivam ente com preendera isso, talvez acelerando à com preensão pelo desespero. E ela, em sua arrogância m ental, tentara subverter a fé de Ken.

Am anda avistou um recipiente grande, ao lado de um posto de enferm eira. Calculou que fosse um cesto de lixo. Foi até lá, tirou do envelope pardo a cópia do diário de Bernadette, rasgou deliberadam ente em pedaços pequenos, largou-os e ao envelope no cesto. Ponto final para classificar todos os m istérios com rótulos fáceis com o histeria. Até aquele m om ento, ela lutara contra Ken. Agora, estava pronta para se aliar a ele.

Reviravolta. Conversão. O que quer que fosse, não fazia a m enor diferença. Havia um a energia na convicção total e ela daria as m ãos a Ken no esforço de alcançá-la.

Afastando-se do cesto para encontrar o quarto de Ken, Am anda avistou Esther, a enferm eira, m agra e eficiente, num uniform e branco com prido e engom ado, encam inhando-se para o posto de enferm agem . Esther tam bém viu-a, no m esm o m om ento.

— Aí está — disse Esther. — Já m e perguntava por que não aparecia e ia lhe telefonar.

— Eu... eu dorm i dem ais — m urm urou Am anda. — Estava exausta e não ouvi o despertador. Com o ele está?

— O Sr. Clay ton está bem , um pouco m elhor. Acordou há várias horas e seu ânim o parece ter m elhorado. O Dr. Kleinberg veio vê-lo e ainda se encontra no quarto, à sua espera. — Esther estava guiando Am anda para o quarto de Ken enquanto falava, abrindo a porta. — Pode entrar agora. Os dois querem lhe falar.

Hesitante, Am anda entrou no quarto. Um quarto de hospital, branco e anti-séptico, com o cheiro de desinfetante e álcool, com o m ilhares de outros. Mas com um a diferença. Ken estava ali, o seu Ken, sua vida. Ele estava deitado na cam a, esquelético m as não m enos bonito, inexplicavelm ente sorrindo. O hom em m ais velho, de óculos, j aleco branco, sentado num a cadeira ao lado de Ken, levantou-se prontam ente.

— Sra. Clay ton? Sou Kleinberg. Prazer em conhecê-la.

— Olá, doutor — m urm urou Am anda.

Depois, praticam ente ignorando-o, ela correu para a cam a e debruçou-se sobre Ken, tentando m eio desaj eitada abraçá-lo sem causar qualquer m al, beij ando-o no rosto e nos lábios.

— Oh, querido, querido, eu tenho andado tão preocupada... Mas você ficará bom . Sei que vai. Tenho certeza.

Ken tentou debilm ente retribuir o abraço.

— Espero ficar m elhor. Acho que ficarei...

Indiferente à presença do m édico, Am anda caiu de j oelhos ao lado da cam a, segurando as m ãos de Ken.

— Quero que saiba que estou do seu lado, Ken. Estou agora com você até o fim . Não haverá m ais resistência da m inha parte. Peço que m e perdoe por isso. Estou agora com você em tudo. Vam os lutar e vencer. Vam os conseguir j untos. Eu... eu não sei com o explicar direito... m as tentarei explicar, assim que você quiser ouvir. Mas aconteceu um a coisa com igo. Não quero parecer piegas, m as... m as de algum a form a eu... eu vi a luz. Isso m esm o, eu vi a luz. Assim que você puder, irem os j untos à gruta. E rezarem os j untos por sua recuperação. Rezarem os por um a cura e você verá com o acontecerá. Tenho fé agora.

— Pois eu não tenho — m urm urou Ken.

Tendo acabado sua explosão, sua confissão, Am anda não podia acreditar no que ouvira. Tinha certeza de que não entendera direito o que Ken dissera.

— Você... você o quê?

— Eu disse que não tenho m ais fé. Não posso depender da fé para m e curar. Pode dar certo, m as é m uito arriscado. Preciso de algo m ais.

Atônita m ais um a vez, naquele dia de surpresas, Am anda fitou-o, atordoada.

— Mas o que está dizendo? — Ela sentiu vontade de falar-lhe de Natale Rinaldi, m as lem brou-se de sua prom essa de se m anter calada a respeito. Procurou por outra prova de fé. — Você... você viu pessoalm ente. Esteve com Edith Moore várias vezes. Ouviu a história, Edith sofria da m esm a coisa que você. Ela rezou à Virgem , acreditou e sua fé... deu resultado.

— Edith Moore... — m urm urou Ken, do travesseiro. — É j ustam ente esse o problem a. É exatam ente o que m e fez recuperar o bom senso. Talvez a fé sej a suficiente, Am anda, talvez possa aj udar alguns... m as eu quero algo m ais certo. — Ele olhou além da perplexa Am anda para o m édico e acrescentou: — Conte a ela, Dr. Kleinberg. Pode falar.

Ainda atordoada, Am anda levantou-se lentam ente e virou-se para olhar o m édico.

— O que está acontecendo, doutor?

A expressão do Dr. Kleinberg era séria, m as um pouco relaxada.

— Creio que posso explicar, Sra. Clay ton. Serei breve. Sente-se, por favor.

Confusa, o seu m undo recém -ordenado outra vez desbaratado, Am anda ocupou a cadeira com a rigidez de um autôm ato. O Dr. Kleinberg puxou outra cadeira para perto dela. Seu tom era profissional, desprovido de ênfase, quando se pôs a falar:

— Quando m e foi possível falar com Ken esta m anhã, eu estava a par da gravidade do seu caso. Recom endei-lhe que se subm etesse a um a cirurgia im ediata para o sarcom a.

— Mas eu recusei, com o sem pre — interveio Ken. — Disse ao m édico que não gostava das chances na cirurgia. Mas gostava das chances nas curas pela fé, com o aconteceu com Edith Moore. Insisti com o m édico que isso era suficiente para m im , a m esm a coisa que sem pre disse a você, Am anda. Se pôde funcionar para Edith Moore, tam bém poderia dar certo para m im . — Ele fez um a pausa, seus olhos outra vez se estendendo além de Am anda. — Pode continuar, doutor. Explique a ela.

O Dr. Kleinberg deu de om bros.

— Sra. Clay ton, é que não funcionou para Edith Moore. Am anda não pôde acreditar em seus ouvidos.

— Não funcionou? — balbuciou ela, incrédula. — Está dizendo que ela não foi curada m ilagrosam ente? Mas todos aqueles m édicos...

O Dr. Kleinberg acenou com a cabeça.

— Todos aqueles m édicos exam inaram -na, ao longo de três anos. E eram bons m édicos. Atestaram que Edith foi instantânea e inexplicavelm ente curada de um a condição de sarcom a term inal. Fui trazido de Paris para confirm ar sua cura m ilagrosa e esperava exam iná-la, radiografá-la e certificá-la com o curada. Mas prontam ente descobri que havia algum a coisa errada. Assim com o o sarcom a subitam ente desaparecera, sem qualquer explicação, descobri que voltara, tam bém sem qualquer explicação. Ela estava outra vez com o tum or. Aparentem ente, apenas a fé não lhe proporcionara um a cura perm anente. Pude constatar que ela estaria em breve em estado grave, haveria um a rápida deterioração e o fim inevitável.

— Mas ela era considerada um a coisa certa — m urm urou Am anda. — Todos com entavam a sua cura. E em bora eu sej a um a cientista por form ação, aprendi pela experiência que pode haver... curas inexplicáveis e m ilagrosas, que podem ser creditadas à fé.

— Não nego essa possibilidade — adm itiu o Dr. Kleinberg. — Com o o Dr. Alexis Carrel, digo sim plesm ente que não sei. É possível que algum as curas possam ser creditadas inteiram ente à fé. Ou talvez nenhum a possa ser. No atual estágio da ciência, Sra. Clay ton, não podem os saber. Mas, com o um hom em de ciência, sei de um a coisa com absoluta certeza. Edith Moore, não im porta o que tenha acontecido nos últim os três anos, não é m ais um a m ulher m ilagrosa. Ela não está curada. E foi o que eu disse a ela. Até a noite de ontem fui obrigado a m anter essa inform ação confidencial, enquanto a Sra. Moore considerava o que fazer. Agora, porém , j á tenho perm issão para falar a respeito. É, assim , falei a verdade a Ken esta m anhã.

— Mas se a fé não pode curar um tum or... — m urm urou Am anda, desolada.

O Dr. Kleinberg term inou a frase por ela:

— ... então a ciência, graças a um recente avanço m édico, pode curar esse tum or.

— É a cirurgia que você sem pre quis, Am anda, só que m ais nova, m elhor.

— Melhor? — ecoou Am anda.

— A de Chicago oferecia 30 por cento de possibilidade de sucesso — disse Ken. — Esta oferece 70 por cento. Não é m esm o, Dr. Kleinberg?

— Correto. — O Dr. Kleinberg virou-se de novo para Am anda. — É cirurgia com binada com engenharia genética, que um colega, o Dr. Maurice Duval, vem experim entando há alguns anos. Ele chegou ontem à noite a Lourdes, procedente de Paris. Vai realizar a operação em Edith Moore. E, j á que está aqui, ele concordou em operar Ken tam bém .

Am anda virou-se bruscam ente para Ken.

— Você consentiu? Ken assentiu.

— É a nossa m elhor chance, querida.

Tudo estava acontecendo depressa dem ais para Am anda.

— Quando?

— Hoj e — respondeu o Dr. Kleinberg. — O Dr. Duval deve voltar a Paris am anhã. Portanto, ele realizará as duas cirurgias hoj e, neste hospital. Não podem os esperar pela m anhã. Devem os fazê-lo agora. Esta tarde.

O Dr. Kleinberg levantou-se.

— Creio que desej a perm anecer aqui no hospital até que a operação sej a realizada, Sra. Clay ton. Agora, devem os preparar Ken para a cirurgia. Deixe-m e acom panhá-la até a sala de espera.

Am anda levantou-se e inclinou-se para beij ar Ken.

— Oh, querido...

— É o que am bos querem os, Am anda.

Ela sacudiu a cabeça enquanto se encam inhava para a porta;

— Não sei m ais o que devo fazer... rezar à Santa Bernadette ou ao Dr. Duval?

— Aos dois — respondeu Kleinberg, sorrindo.

No salão principal do Restaurante do Milagre de Madam e Moore todas as m esas estavam vazias àquela hora da tarde, exceto um a, ocupada por um a atordoada Liz Finch, tentando entrevistar Edith Moore.

Liz tentara se em briagar antes, afogara suas m ágoas em diversos scotches e só conseguira arrum ar um ligeiro zum bido nos ouvidos e um a dor de cabeça. Fracassara em tudo o m ais e não se sentia surpresa em fracassar tam bém na obtenção de um a verdadeira ressaca, um direito de qualquer repórter veterano. Concluíra então que era m elhor assim . Tinha um encontro m arcado com Edith Moore e, por m ais que relutasse em com parecer, Liz sabia que devia continuar até o fim . Tinha de enviar algum a coisa de Lourdes e aquela desoladora história, j á contada, era a única coisa que lhe restava. Edith Moore, curada m ilagrosam ente, a próxim a m ulher a ser anunciada oficialm ente com o tendo sido contem plada com um m ilagre em nosso tem po.

Quando ela chegara ao restaurante, Reggie Moore lhe oferecera a insípida Edith Moore e um chá, deixando-as a sós em seguida. E Liz tirara da bolsa o bloco de anotações, abrira-o e iniciara a entrevista depressiva.

Na últim a m eia hora, as duas haviam coberto todos os terrenos fam iliares, Edith despej ando os seus clichês interm ináveis e a m ão com cãibra de Liz a anotá-los. Agora, estava quase no fim , a entrevista e tam bém o futuro de Liz.

— Muito bem , então você está totalm ente curada por um m ilagre de Lourdes — disse Liz, cansada — e m uito em breve será anunciada com o a últim a m ulher m ilagrosa. Com o se sente por isso?

Não houve resposta. Liz, a cabeça inclinada sobre o chá e o bloco, repetiu a pergunta:

— E então, Edith, com o se Sente... por ser um a m ulher m ilagrosa?

Ainda não houve resposta.

Liz levantou os olhos abruptam ente e, para sua surpresa, descobriu que as faces da afável inglesa estavam cobertas de lágrim as. Ela estava chorando, procurando por um lenço, enxugando os olhos.

Liz ficou espantada. Nunca vira um a dem onstração em otiva naquela m ulher im passível, gorda, m ais parecendo um vegetal. E aquilo era m ais do que um a dem onstração em otiva. Observando-se atentam ente, m ais parecia um colapso nervoso.

— Ei, calm a, calm a... — m urm urou Liz, tentando estancar a torrente. — O que está acontecendo?

A voz de Edith soava com o um gargarej o desconsolado:

— Eu... eu... eu não sou um a m ulher m ilagrosa. Não passo de um a fraude. Não sou nada. Não posso continuar com esta conversa. Não adianta... não posso.

— Espere um instante — disse Liz, subitam ente interessada. — O que está querendo dizer com isso?

— Meu... m eu sarcom a... voltou. Não estou curada... não estou absolutam ente curada. O novo m édico acaba de descobrir. Estou doente outra vez e vou m orrer. Mas ele pode m e salvar... pode m e salvar a vida com um a nova cirurgia. Mas não quero viver, porque não seria m ais a m ulher m ilagrosa. Não serei nada e Reggie tam bém não será.

— Oh, Deus! — exclam ou Liz. — Mas pelo m enos estará salva, continuará viva. Ficou m aluca?

— Será que não entende? — balbuciou Edith, enxugando os olhos de novo. —

Não serei m ais um a m ulher m ilagrosa e isso é tudo o que Reggie e eu queríam os.

Liz se tornara outra vez plenam ente alerta, a caneta suspensa sobre o papel.

— Escute, Édith, esta é um a história de verdade, um a história concreta. É um a coisa fora do com um , diferente, sobre a qual posso escrever. Conte-m e tudo.

— Não — respondeu Edith. — Não se você vai escrever a respeito. Sou um fracasso e não quero que escreva sobre isso.

— Tenho de saber o que aconteceu com você esta sem ana, Edith... e o que vai acontecer.

— Não contarei, se você vai escrever sobre isso.

— Por favor, Edith.

— Não.

— Mas que diabo! — praguej ou Liz, fechando o bloco bruscam ente. — Lá se vai outra história. Três enorm es zeros por hoj e. Cest la guerre.

Ela contem plou Edith m ais um a vez, a pobre e desconsolada m ulher sem m ilagre. Sentiu um a com paixão profunda.

— Calm a, calm a, Edith... Não há história. Prom eto que não escreverei a respeito. Mas, m esm o assim , gostaria que m e contasse o que aconteceu.

Edith controlou-se.

— Não vai escrever? Prom ete?

Liz largou a caneta e pôs as m ãos no colo, por baixo do tam po da m esa.

— Está vendo. Não há m ãos.

— Com o?

—Um a expressão am ericana. Pode falar, Edith. Estou escutando.

— Tudo com eçou depois que o Dr. Paul Kleinberg veio de Paris para m e exam inar...

Em tom de lam ento, Edith Moore relatou a saga angustiosa de sua queda. Não om itiu nada de que pudesse se lem brar. Falou dos exam es efetuados pelo Dr. Kleinberg e de seu veredicto, com unicado prim eiro a Reggie e depois a ela. Falou da nova cirurgia, a engenharia genética, a técnica anunciada pelo Dr. Kleinberg. A cirurgia podia salvar sua vida. Mas se ela perdesse a situação de m ulher m ilagrosa, então todo o resto estava perdido tam bém , para Reggie e para si m esm a.

Edith continuou a falar, interm inavelm ente, dizendo tudo a Liz. O esforço para arrancar um com prom isso do Dr. Kleinberg, tentando persuadi-lo a efetuar a cura cirúrgica, m as ainda assim atestar que ela fora curada m ilagrosam ente. A recusa do Dr. Kleinberg em assum ir essa falsidade, concordando apenas em não contestar a história de cura m ilagrosa se alguém na Igrej a a apregoasse. Em desespero, explicou Edith, prosseguindo em sua triste saga, ela revelara tudo a um padre, talvez o próprio Padre Ruland, no confessionário, indagando se ele não estaria disposto a cooperar com a pequena fraude. Mas o padre se recusara a cooperar.

— Ele m e disse que eu não poderia ser um a m ulher m ilagrosa se fosse curada pela cirurgia — concluiu Edith. — A única m aneira para que um a pessoa sej a declarada um a m ulher m ilagrosa é ver a aparição da Virgem Maria na gruta, com o aconteceu com Bernadette. O padre disse que tal pessoa tam bém seria m ilagrosa.

Escutando atentam ente, Liz estava agora com a testa franzida, piscando os olhos.

— E... o que você disse ao ouvir isso?

— Ora, o que havia para dizer? Eu não podia falar nada. Sim plesm ente deixei o confessionário e resolvi fazer a cirurgia. Mas isso não significa m uito para m im , porque não serei m ais o que precisava ser.

— Espere um pouco, Edith. Deixe-m e ver se entendi direito. Um padre lhe disse que não apenas as m ulheres m ilagrosam ente curadas são m ilagrosas... m as qualquer m ulher que visse o retorno da Virgem Maria seria m ilagrosa pelo resto de sua vida. Foi isso?

— Foi, sim . Ela seria o m aior tipo de m ulher m ilagrosa. Sua idiota, pensou Liz, sua idiota.

— Edith, vam os supor que fosse você quem visse a Virgem Maria na gruta hoj e. Então você seria de novo um a m ulher m ilagrosa.

— Tem razão... — adm itiu Edith, hesitante. — Mas de que adianta tudo isso? Vam os supor que não sej a eu quem vej a... provavelm ente não serei eu a ver a Virgem Maria., e se não for eu...

Liz inclinou-se para a frente, m ais perto de Edith, fitando-a fixam ente.

— Edith...

— O que é?

— ...veja a Virgem Mana.

Edith ficou olhando para Liz, enquanto se levantava.

Ela se encam inhou para a porta do restaurante, lançou um últim o olhar assustado para Liz e depois, tentando correr, claudicando e correndo, saiu o m ais depressa que podia.

Liz continuou sentada por m ais alguns m inutos, em silêncio, absorvida em seus pensam entos. Finalm ente pediu outro scotch, não sabia se em com em oração ou suicídio.

Vinte m inutos depois, Reggie avançou freneticam ente pelo salão do restaurante.

— Srta. Finch, onde está m inha esposa? Estão telefonando do hospital. Ela lhe falou da cirurgia...? Posso ver que falou. Desconfiei que falaria. Sej a com o for, precisam dela no hospital. Querem realizar a cirurgia agora e não m ais esta noite. Para onde foi Edith?

— Ela saiu há algum tem po. Talvez tenha ido para o hospital. Mas m eu palpite é de que a gruta seria um lugar m elhor para procurá-la. Vam os até lá.

Os três estavam sentados, rígidos e nervosos, na sala de espera especial, no andar do centro cirúrgico. Para Liz Finch, a pequena sala possuía um cheiro singular, com o se lavada m edicam ente, exageradam ente lim pa.

Ela estava arriada num a cadeira, fum ando um cigarro atrás de outro, de vez em quando fixando sua atenção em Am anda e Reggie, instalados ainda m ais rigidam ente no divã, no outro lado da m esinha. Um em pregado do hospital, de j aleco branco, servira-lhes café pouco antes. Exceto por um gole — café francês, um a coisa horrível — Liz deixara sua xícara intacta. Am anda bebeu distraída, folheando as páginas de um a revista de m oda francesa, aparentem ente não prestando m uita atenção, m as se esforçando para afastar os pensam entos do que poderia estar acontecendo com Ken na sala de operações. Reggie tom ou o café m eio atordoado, entre baforadas do charuto. Parecia profundam ente abalado, am edrontado, constantem ente olhando pela porta para o corredor, esperando por algum a palavra de esperança, algum a boa notícia sobre Edith. Ocorreu a Liz, com o nunca acontecera antes, que aquele oportunista vulgar, com toda a sua exuberância, podia ter um coração, podia estar sofrendo, podia realm ente am ar a m ulher que se encontrava na m esa de operações, ao final do corredor.

Liz contraiu os olhos para divisar os ponteiros em seu relógio de pulso, o tipo de relógio que tem aparência sensacional, m as no qual raram ente se pode verificar a hora. Ela m al conseguiu fazê-lo agora. Mas assim que o fez, calculou que j á estava esperando ali, em vigília, há exatam ente quatro horas e 14 m inutos, rapidam ente se transform ando num a eternidade.

Liz com preendeu que cada um deles tinha m uita coisa em j ogo, envolvida nos cortes e im plantes no fundo do corredor. Reggie e Am anda tinham os seus com panheiros e suas próprias vidas em suspenso. Talvez Liz tivesse m enos em j ogo, m as havia um a considerável esperança e de certa form a era tam bém sua vida. Não era m uito fácil definir por que a vida de Liz estava em j ogo, m as sua esperança envolvia o que ela e Reggie haviam descoberto ao saírem apressadam ente do restaurante e descerem até a gruta à procura de Edith, a ex-m ulher m ilagrosa.

Os pensam entos de Liz voltaram ao m om ento em que chegara à gruta com Reggie. Havia ali um a grande concentração de pessoas, por ser o oitavo e últim o dia do prazo m arcado pela Virgem Maria para o seu reaparecim ento. Fora difícil encontrar Edith naquela m ultidão de fanáticos religiosos. Mas acabaram por localizá-la. Liz sentira-se estranham ente aliviada por ver Edith ali.

Ela não conseguira banir de sua m ente o que acontecera em seguida. Edith fora encontrada de j oelhos, rígida, a não m uitos m etros da beira da gruta, olhos vidrados fixados na im agem da Virgem no nicho. Reggie batera no om bro da esposa e com eçara a lhe falar, inform ando-a que era esperada no hospital e deveria ir agora. Mas Edith não apresentara qualquer reação. Perm anecera com pletam ente im passível, com o se fosse esculpida em pedra. Reggie continuara a lhe im plorar que fosse em bora, m as não recebera qualquer indicação de que ela ouvia. Quando Reggie, em desespero, olhara para Liz, ela prontam ente se adiantara, a fim de aj udá-lo. Mas bastara um olhar para que Liz com preendesse que Edith se encontrava em algum a espécie de estado catatônico e seria difícil tirá-la dali por m eios com uns. Apavorado com o estado da esposa, Reggie saíra correndo na direção dos banhos, a fim de pedir aj uda. Voltara poucos m inutos depois, com dois corpulentos franceses, am bos veteranos brancardiers, um deles carregando um a m aça. Levantaram Edith do chão com o se fosse um bebê, estenderam -na na m aça com algum a dificuldade e levaram -na para a am bulância do dom ínio, que prontam ente a transportara para o hospital.

Liz e Reggie seguiram -na num táxi, Liz especulando, Reggie se angustiando. Chegando ao hospital, foram conduzidos à sala de espera, onde j á encontraram Am anda.

Depois de 10 m inutos, aquele anj o de uniform e branco, Esther, m aterializara-se para acalm ar Reggie.

— Ela está bem ? — indagara Reggie. — Pode ser operada agora?

Esther o tranquilizara:

— A Sra. Moore se encontrava num estado auto-hipnótico, m as saiu do transe quando a trouxem os. O Dr. Duval exam inou-a e constatou que todas as funções vitais se achavam norm ais. Declarou que ela estava pronta para a cirurgia e a estam os preparando agora. Será levada para a sala de operações assim que acabarm os com o Sr. Clay ton. Por favor, fiquem sentados e tentem se acalm ar. Devo ter notícias para lhe dar, Sr. Moore... e tam bém para a Sra. Clay ton... dentro de... não posso dizer exatam ente... um as três ou quatro horas. Saibam por enquanto que as pessoas que am am estão entregues aos m elhores cuidados.

Isso acontecera há quatro horas ou m ais. Agora, haviam transcorrido quatro horas e 14 m inutos sem qualquer notícia da cirurgia.

Eles esperaram e esperaram , os três, na sala apertada, povoada pela fum aça e pelo suspense.

Subitam ente, a atenção dos três foi atraída para a porta aberta. Pois um a quarta pessoa acabara de entrar na sala de espera. Era aquela outra dam a de branco naquele m om ento de reaparição. Era de novo a enferm eira do Dr. Kleinberg, Esther.

E havia um sorriso largo no rosto da enferm eira.

— O Dr. Kleinberg estará aqui a qualquer m om ento — anunciou ela. — Lam ento que ele não tenha podido vir antes. Mas, agora que as cirurgias term inaram , ele não queria perder um m om ento sequer para inform á-los... Sra. Clay ton e Sr. Moore... de que as operações e os im plantes efetuados pelo Dr. Durval estão concluídos e prom etem ser um sucesso m aravilhoso. Não houve nenhum a com plicação. Os dois pacientes repousam confortavelm ente. O Dr. Durval prevê um a recuperação total para am bos.

Am anda perdera inteiram ente o controle e estava chorando quando se levantou e cam baleou pela sala para abraçar Esther. Reggie estava logo atrás dela, agarrando e sacudindo vigorosam ente a m ão da enferm eira, balbuciando seu agradecim ento em voz rouca. Depois de acalm ar e tornar a sentar os dois, Esther olhou pelo corredor e inform ou:

— Estou vendo o Dr. Kleinberg a cam inho daqui. Ele poderá lhes contar m ais.

Esther desapareceu, apenas para ser substituída por um cansado Dr. Kleinberg, a m áscara cirúrgica pendendo do pescoço. Ele apresentou um sorriso cansado, m as m esm o assim um sorriso, e disse a Am anda e Reggie:

— Já ouviram as notícias de Esther. A cirurgia nos dois pacientes parece um sucesso com pleto e as im plantações genéticas foram efetuadas com perfeição. — Ele ofereceu outro sorriso para Am anda e acrescentou: — O Dr. Duval pediu-m e para citá-lo com o dizendo que você e o Sr. Ken Clay ton estarão partindo naquela lua-de-m el protelada dentro de um ou dois m eses, no m áxim o.

Enquanto Am anda derram ava outra vez lágrim as de alegria, o Dr. Kleinberg virou-se para Reggie, fazendo sinal para que Liz se aproxim asse. Liz levantou-se de um pulo e estava ao lado dele no m esm o instante.

— Isto é para vocês dois — disse o Dr. Kleinberg — m as prim eiro para Reggie. Com o eu disse a Am anda que a operação e o im plante em Ken prom etiam ser um sucesso, posso lhe garantir a m esm a coisa a respeito de sua Edith. Ela deve estar saudável e retornar às atividades norm ais dentro de dois m eses, talvez m enos.

Quando Reggie, fungando, com eçou a agradecer, o Dr. Kleinberg levantou a m ão para detê-lo.

— Há m ais sobre Edith e essa parte é para você tam bém , Srta. Finch. Depois que a incisão de Edith foi suturada e ela saiu do efeito da anestesia, aconteceu um a coisa inesperada e realm ente extraordinária. Ela abriu os olhos e tentou nos falar... o Dr. Duval e eu estávam os j untos à sua frente... e finalm ente conseguiu sussurrar, as palavras saindo claras e articuladas. Ela disse: "Falem com Reggie... avisem a ele que eu vi a Virgem Maria na gruta antes de vir para cá... eu a vi claram ente, da m aneira com o Bernadette a descreveu... Ela reapareceu por cim a de m im e m e falou... prom eteu que eu seria curada e disse que eu deveria saber que a ciência é com patível com a fé e... e..." O Dr. Duval pediu a Edith que não falasse m ais, que descansasse, m as ela sacudiu a cabeça na m esa, visivelm ente, e acrescentou, a voz fraca, m as nítida: "Não, há m ais. Digam a Liz Finch... não-se esqueçam de dizer a ela tam bém que a Virgem Abençoada reapareceu a m im ... digam a ela que eu sou outra vez um a m ulher m ilagrosa... contem tudo isso a ela e digam a Liz que m ando m eus agradecim entos... que digo a ela m uito obrigada." — O Dr. Kleinberg fez um a pausa, levantando as m ãos. -— Aí está toda a m ensagem de Edith. Não é extraordinário que ela tenha visto a Virgem ? E um tanto enigm ático o final do recado, Srta. Finch. — O Dr. Kleinberg lançou um olhar inquisitivo para Liz. — O que ela teria para lhe agradecer? Mas Liz sabia.

— Eu é que deveria agradecer a ela — m urm urou Liz, na m aior felicidade. — E lhe diga isso assim que ela acordar.

Liz virou-se e saiu em disparada pelo corredor do hospital, tão depressa quanto suas pernas poderiam levá-la.

Em Paris...

Bill Trask, em seu cubículo envidraçado de editor-executivo no escritório da API, na Rue des Italiens, concentrando-se nos textos em pilhados em sua m esa, foi distraído pela cam painha do telefone a seu lado e atendeu.

A ligação era de Liz Finch, de Lourdes.

— Tem um a história? — perguntou Trask. — Deixe-m e ligar o gravador.

— E das boas, Bill. Creio que j ustam ente a história que você queria.

— Assim espero.

— A Virgem Maria cum priu sua palavra a Bernadette. A Virgem Abençoada, com o a Igrej a a cham a, m aterializou-se na gruta sagrada, com o um a aparição, houve um a pessoa que a viu, um a inglesa de m eia-idade, de Londres. Um a m ulher casada, cham ada Edith Moore. A Virgem e a Sra. Moore tiveram até um a pequena conversa.

— Autêntica?

— Tanto quanto as visões anteriores que foram aceitas pela Igrej a. Esta Sra. Moore não é um a m aluca. É do tipo de cidadã sólida e estável.

— E ela viu o reaparecim ento da Virgem Maria? Ótim o. Justam ente o que o m édico receitou.

— O m édico, isso m esm o... — m urm urou Liz. — Porém há m ais e é exatam ente o que torna a história m elhor.

— Continue.

— A Sra. Moore esteve m uito doente há três anos e descobriu que era câncer, sarcom a da bacia. Os m édicos concluíram que seu caso era perdido. Ela era católica, em bora não costum asse frequentar a igrej a. Agarrando-se a qualquer possibilidade de salvação, ela foi a Lourdes, em busca da cura. Na prim eira vez em que esteve aqui... fazendo orações na gruta, tom ando a água da fonte, m ergulhando nos banhos curativos, participando das procissões noturnas com velas... nada aconteceu. Ela voltou no ano seguinte e no seu últim o dia, depois de um banho, ficou instantaneam ente curada. Passou pela rotina m édica, passou pela rotina eclesiástica, estava próxim a de ser s oficialm ente declarada com o um a pessoa curada m ilagrosam ente. É um a grande honra se tornar um a m ulher m ilagrosa. E de repente algum a coisa saiu errada. Pelo que pude descobrir, nunca antes aconteceu algum a coisa parecida.

Trask estava se tornando cada vez m ais interessado.

— O que saiu errado?

— Ela foi cham ada a Lourdes esta sem ana para se subm eter a um exam e final por um especialista de Paris em sarcom a. Ele exam inou-a e descobriu que o tum or m aligno estava de volta e se espalhando. Um golpe terrível para a m ulher. Não era m ais um a m ulher m ilagrosa. Não havia m ais glória. Ela descobriu então que havia outro cirurgião francês que vinha realizando experiências bem -sucedidas em anim ais de substituição de genes ou engenharia genética. Ele estava disposto a experim entar esse tratam ento na Sra. Moore.

— O nom e do cirurgião francês?

— Não pode usá-lo, Bill. Ele ignorou os procedim entos m édicos para fazer a operação. Estaria m etido num a trem enda encrenca se o seu nom e fosse divulgado.

Trask, um oponente do anonim ato, protestou:

— Você deve estar brincando. Eu o transform arei no m ais fam oso m édico francês desde Louis Pasteur. Ninguém será capaz de prej udicá-lo. Liz, não pensa realm ente que pode esconder um a coisa : dessas, não é mesmo? Vamos, diga logo.

— Ela prendeu a respiração por um instante e depois disse:

— Está certo. Mas não fui eu quem lhe disse.

— Relaxe. Não será a única fonte dessa história e sabe disso. O Dr... qual é o nom e dele?

— Duval... Maurice Duval, De Paris.

— O Dr. Duval será o prim eiro a lhe agradecer quando voltar de Estocolm o. Não se preocupe. O que m ais?

— Pouco antes de sua operação, em Lourdes, a Sra. Moore claudicou até a gruta para m ais um a oração, com o sem pre invocando os bons ofícios da Virgem Maria. Quando o hospital a cham ou para a cirurgia, o m arido e eu fom os procurá-la. E nós a encontram os aj oelhada na gruta, em transe, quase catatônica. Ela teve de ser posta na m aça e carregada para o hospital. Ali, saiu do transe e foi conduzida ao centro cirúrgico. Fiquei na sala de espera durante a operação. E recebem os a notícia depois de quatro horas e m eia. A operação da Sra. Moore correu bem . Ela ganhara a vida, m as perdera a sua posição de m ulher m ilagrosa. E depois... preste atenção, chefe... ao sair da cirurgia ela disse que a Virgem Maria lhe reaparecera na gruta, prom etendo que seria curada, declarando que a ciência era com patível com a fé...

— Ei, esse ângulo é novo. Esta história pode ser sensacional. Toda a turm a da im prensa por aí tem a m esm a história?

— Bill, tenho tudo sozinha por 24 horas. Um furo exclusivo.

— Maravilhoso, m aravilhoso! Quer que trabalhem os a partir de suas anotações? Se quiser, precisarem os de m ais...

— Não precisa, Bill. Tenho tudo pronto... da últim a m oda da Virgem Maria ao nom e do hospital e assim por diante. Estou pronta para ler. Cerca de m il palavras. Quer que eu continue?

— A m áquina está ligada. Pode falar.

— Liz leu toda a m atéria sobre a nova m ulher m ilagrosa de Lourdes, enquanto o aparelho na m esa de Bill Trask registrava cada palavra. Ao final, Liz disse:

— Muito bem , está tudo aí.

— Parabéns, Liz. Você tem um a vencedora.

— Tenho m ais detalhes, m as podem esperar até eu voltar. Eu conhecia a Sra. Moore e cheguei a entrevistá-la antes que isso tudo acontecesse. Posso escrever um a m atéria de sequência assim que chegar ao escritório. — Liz fez um a pausa. — Se é que ainda estou trabalhando aí...

Era raro que um a dem onstração de prazer se insinuasse no constante m au hum or de Trask, um a decorrência de sua função. Mas agora ele esqueceu o m au hum or por um m om ento.

— Você tem notícias para m im , Liz. Pois eu tam bém tenho notícias para você. Fiquei aguardando até ver o que você m e m andaria. Muito bem , aqui vai a m inha notícia. Era você ou Marguerite, segundo determ inou a m atriz. Deixaram a decisão para m im . Reconheço que Marguerite tinha o assunto superior, a m atéria m ais suculenta. André Viron, possivelm ente o nosso novo Stavisky, certo? Pois Marguerite m e entregou a sua m atéria ontem . Li com o se fosse um m edíocre com unicado à im prensa de algum órgão oficial. Eu sabia que ela era capaz de fazer m elhor, j á fizera m elhor. Quis saber o que acontecera. Afinal, ela passara m uito tem po com Viron. Marguerite tentou se esquivar, até que a im prensei na parede, fui duro com ela, por assim dizer. Ela acabou confessando que havia m ais. Chegara bem perto de Viron... leia que isso significa que foi para a cam a com ele... e obteve m aterial abundante. Mas tam bém se apaixonou pelo filho da m ãe e não queria prej udicá-lo. Preferia continuar a m anter o relacionam ento. Assim , não podia m e dar a história real. Fiquei um a fera. Disse que era o m áxim o do anti-profissionalism o. A história sem pre vem prim eiro. E acrescentei que estaria despedida se não m e revelasse tudo. Ela se recusou. E por isso eu a despedi. O que lam entei. Marguerite tinha um bom rabo e sabia usar as palavras. Mas não era a repórter que eu queria. — Trask acentuou o com entário com um a pausa e depois continuou: — Mas você é a repórter que quero. É um a profissional. O em prego é seu e ainda terá um bom aum ento. Ficaria com o em prego de qualquer m aneira, depois de m e m andar um a história com o esta. Certo? Ele ouviu Liz chorar no outro lado da linha.

— Obrigada, chefe.

— Muito bem , m ulher m ilagrosa, volte logo para casa. Quero vê-la em sua m esa às nove horas da m anhã de am anhã. Chegue na hora e com ece logo a trabalhar. Não há lugar para prim as-donas por aqui.

Em Moscou...

Depois que o j ato de passageiros da Aeroflot, de Paris para Moscou, pousou suavem ente na pista do Aeroporto Vnukovo e taxiou para o term inal, a chegada à capital russa foi anunciada pelos alto-falantes. Desafivelando o cinto de segurança, um Sergei Tikhanov de rosto lim po pegou a sua bolsa de vôo e foi o prim eiro no corredor para o desem barque.

Parado ali, ele refletiu por um m om ento em sua saída de Lourdes. Fora um a fuga por um triz. Depois de deixar no apartam ento o cadáver de Gisele Dupree, ele se preocupara com a possibilidade de ter sido visto. E depois se preocupara, antes de sair do hotel em Lourdes, se conseguiria arrum ar um lugar no prim eiro vôo para Paris. Tikhanov descobrira que a sorte estava a seu lado. Todos estavam vindo para Lourdes, poucas pessoas partiam , não houvera qualquer problem a em fazer um a reserva. No aeroporto, m uito antes da hora, ele se preocupara com a possibilidade da polícia vir procurar Sam uel Talley antes que o avião decolasse.

Mas não houvera qualquer dificuldade e logo estava no ar, chegando a Orly um a hora e 15 m inutos depois. Antes de ir ao banheiro, telefonara para a Em baixada Soviética, identificara-se e pedira que um carro fosse buscá-lo. Logo em seguida, fora para o banheiro do aeroporto, trancara-se num reservado, rem overa e descartara o odiado bigode que usara em Lourdes, lavara o rosto. E Talley finalm ente desaparecera para sem pre, ressurgindo o fam oso Sergei Tikhanov.

Ele se m antivera na Em baixada Soviética por dois dias, a fim de criar um registro de reuniões e atividade. Descobrira duas coisas no segundo dia. Lendo o France-Soir, encontrara um a breve notícia despachada de Lourdes. Um pequeno m om ento de violência na sem ana santa. O corpo de um a conhecida guia de turistas local, Gisele Dupree, fora encontrado no apartam ento de um a am iga. Ela havia sido estrangulada. Não havia suspeitos. Ah, não havia suspeitos... E com o poderia haver. Sam uel Talley não m ais existia. Três horas depois, Tikhanov recebera um a segunda notícia. O Prim eiro-Ministro Skry abin m orrera enquanto ainda se encontrava em com a. O Politburo estava discutindo seu sucessor. E depois viera um telefonem a de Moscou, do chefe do KGB, General Kossoff, aconselhando-o a encerrar prontam ente todos os negócios de que tratava naquele m om ento e voltar a Moscou o m ais depressa possível, o m ais tardar até o dia seguinte.

E agora Tikhanov estava no Aeroporto Vnukovo, em Moscou, o aeroporto VIP.

E agora ele estava desem barcando do avião com pontadas de dor, não o senhor de sua distrofia m uscular e sua m ortalidade, m as certam ente chegando com o o senhor da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, no com ando de sua nação e um líder m undial pelo m enos por três ou quatro anos.

Descendo, ele constatou que seus subordinados haviam estendido figurativam ente o tapete verm elho para recebê-lo. Estavam todos agrupados ao pé da escada, esperando para cum prim entá-lo.

Ele descobriu-se cercado por sim patizantes, recebendo beij os daquele brutam ontes recendendo a alho, o General Kossoff, de seu velho am igo Alexei Izakov, o em baixador na ONU, apertos de m ãos de diversos oficiais do KGB.

Depois de atravessar o m ovim entado term inal, os passageiros com uns se afastando para lhe dar passagem e intim idados por sua presença, Tikhanov em barcou no luxuoso banco traseiro da lim usine Chaika preta. Partiram um m inuto depois, precedidos e acom panhados por carros brancos da polícia, a cam inho de Moscou e da sede do poder de Tikhanov, o Krem lin.

Durante a viagem de m eia hora, Kossoff ficou servindo vodca para os três hom ens do bar do carro e contando piadas grosseiras sobre bailarinas. Tikhanov agradou o chefe do KGB com gargalhadas contidas, em bora só estivesse interessado na decisão do Politburo para o sucessor do falecido prim eiro-m inistro e em seu futuro im ediato. Em determ inado m om ento, ele conseguiu intercalar na conversa um a pergunta a respeito. Kossoff, não dem onstrando qualquer ânim o de falar naquele m om ento sobre política, disse sim plesm ente:

— O Politburo está reunido durante toda a tarde. Foi prom etida um a decisão para esta noite. Mas a decisão j á está prevista.

Tikhanov sentiu-se m ais tranquilo depois disso, saboreou outro copo de vodca, enquanto escutava m ais um a das histórias interm ináveis e tediosas de Kossoff. Tikhanov se perguntou se teria de suportar a com panhia de Kossoff depois que se tornasse prim eiro-m inistro. Talvez o substituísse. Pensaria a respeito.

Subitam ente, ele percebeu que a lim usine dim inuía a velocidade e estava parando. Tikhanov pensou a princípio que fosse um sinal verm elho e por isso ficou surpreso ao descobrir que estavam na frente de um prédio branco, sem qualquer identificação, num subúrbio de Moscou. Kossoff estava abrindo a porta do carro.

— Venha com igo, Em baixador Izakov. E você tam bém Sergei. Vam os dar um a olhada. O m inistro do Interior quer que eu faça um a coisa aqui antes de seguirm os para o Krem lin.

Obediente, Tikhanov seguiu Kossoff para o interior ao prédio, passando por um a porta de painéis de vidro. Antes de entrar, Tikhanov vislum brou um m uro branco alto, encim ado por aram e farpado, estendendo-se pelo lado e fundos do prédio. Na outra extrem idade, viu tam bém um guarda, em punhando um a arm a autom ática.

Na sala de recepção — a m ais despoj ada que j á vira em m uitos anos, um banco de m adeira, sem m esas, outra porta para o interior do prédio — Tikhanov descobriu três hom ens à espera para cum prim entá-los. As apresentações de Kossoff foram rápidas e com a voz m eio engrolada. Tikhanov pôde entender apenas os títulos dos três... um era diretor, o outro tenente-coronel e o terceiro m aj or.

Puxando a m anga de Kossoff, Tikhanov estava curioso em saber por que haviam parado ali. E perguntou:

— Que lugar é este?

— Sua nova residência — respondeu Kossoff. Carregando sua pasta, Kossoff foi até o banco, colocou-a ali e

abriu-a. Com pletam ente confuso, Tikhanov seguiu-o.

— O que você disse?

Ignorando-o, Kossoff tirou um envelope grande da pasta, de onde rem oveu um envelope m enor e diversas folhas de papel. Abrindo o envelope m enor, Kossoff retirou o que parecia ser um a fotografia. Estendeu para Tikhanov.

— Um a lem brança para você. De suas férias.

Tikhanov teve um a prem onição de desastre no instante em que pegou a fotografia. Seus olhos se fixaram na fotografia. Era um a cópia de um dos instantâneos tirados perto da gruta em Lourdes por aquela vagabunda francesa cham ada Gisele. Tikhanov pôde sentir que seus olhos ardiam no crânio, a boca ressequida se entreabrindo. Quando levantou a cabeça, Kossoff estava desfocado e a sala parecia girar, cada vez m ais depressa. Para não cair, ele segurou-se no encosto do banco. E conseguiu balbuciar:

—Mas com o...?

— Merece um a explicação, Cam arada Tikhanov — disse o chefe do KGB. — Sua j ovem vítim a francesa foi esperta, m ais esperta do que você. Ela com preendia o perigo da chantagem e o que você poderia ter em j ogo. Em bora dispusesse de um a arm a para se defender, estava m uito ansiosa e era ingênua dem ais para poder usá-la direito. Mas ela não foi ingênua num a coisa. Se você a enganasse, ela teria a sua vingança. Na m anhã em que você a encontrou, antes de sua chegada, ela despachou um a cópia extra do instantâneo seu que tirara no santuário católico de Lourdes... j untam ente com um a carta sobre Sam uel Talley... para um francês im portante que fora seu patrão. Ela despachou tudo isso num envelope grande lacrado, com um a carta de explicação por fora. O destinatário era o em baixador francês na ONU, Charles Sarrat, que se encontrava em Paris. Ela dizia na carta que se ele lesse nos j ornais parisienses que lhe acontecera algum a coisa de m al deveria encam inhar o envelope ao em baixador soviético na França... à Em baixada Soviética em Paris. Com o todos sabem os, um grande m al aconteceu à Srta. Dupree. A notícia de seu assassinato apareceu com o um a pequena nota na m aioria dos j ornais parisienses. O Em baixador Sarrat leu e, seguindo as instruções, entregou o envelope na Em baixada Soviética, que prontam ente enviou pela m ala diplom ática para Moscou.

— Mas...

O General Kossoff não queria escutar. Era um hom em im placável.

— Assim que o conteúdo do envelope enviado por sua j ovem francesa foi estudado, o MVD convocou um a reunião no Ministério do Interior. Você foi j ulgado in absentia. Houve um a votação, chegou-se a um a decisão... e devo lhe dizer que foi unânim e. Por causa de sua aventura inadm issível, seus j urados decidiram que estava com a m ente abalada, era m entalm ente instável, para continuar a servir em qualquer cargo oficial na União Soviética.

— Eu estava doente, desesperado...

— Sabem os de sua doença, da distrofia m uscular. Efetuam os um a investigação com pleta antes da audiência. Mas qualquer cidadão soviético de m ente firm e, especialm ente num alto cargo, teria se entregado a nossos especialistas, m édicos que constituem a invej a até m esm o de nossos inim igos capitalistas. Mas som ente um hom em de m ente deficiente, perturbado, desequilibrado, até m esm o louco, teria considerado e realizado o que sabem os agora que você fez... viaj ar para aquele antro de iniquidade, Lourdes, aquele santuário cristão cheio de idiotas e descontentes drogados... para rastej ar de j oelhos diante de um a caverna na m ontanha, esperando pela aparição de um a fantástica figura m aternal, um a charlatã que supostam ente prom ove curas e m ilagres. Portanto, você foi condenado a ser confinado a este lugar.

Tikhanov fez m enção de protestar, m as Kossoff continuou, inexoravelm ente:

— Queria saber que lugar é este? É o HPE 15... Hospital Psiquiátrico Especial 15, nos arredores de Moscou. Foi condenado a passar o resto de sua vida dentro destes m uros. Esses três hom ens... o diretor do hospital, o coronel e psiquiatra-chefe, o m aj or e responsável pela segurança... estarão encarregados de seu tratam ento pelo resto dos seus dias. — O General Kossoff fechou bruscam ente sua pasta. — Contudo, em respeito a seus longos serviços ao Estado e ao partido, terá alguns privilégios. Ficará confinado a um a cela, é claro. Mas a cela, de seis m etros quadrados, que norm alm ente abriga dois pacientes, será exclusivam ente sua. E com o recreação, terá perm issão para ler... graças à consideração de nosso em baixador na ONU... um livro novo que foi recentem ente lançado em Nova York. Vai encontrá-lo em sua cam a. O título é Bernadette e Maria. Tam bém encontrará um rosário para se distrair nas horas extras. Tenha um a boa e longa vida, Cam arada Tikhanov. Adeus.

Em Veneza...

Eles chegaram a Veneza pouco antes do sol m ergulhar abaixo da costa continental. A lancha partiu do Aeroporto Marco Polo, atravessou a plácida laguna azul e subiu pelo curto canal que levava à entrada aquática do Hotel Danieli.

Mikel Hurtado nunca estivera em Veneza e ficou im pressionado com a beleza da cidade. Mas Natale sentia-se anim ada com o nunca antes pela oportunidade de ver aquela cidade gloriosa outra vez.

Depois de se registrarem , subiram apressadam ente para o quarto no segundo andar, dando para a laguna azul e a Ilha de San Giorgio, cintilando com a ilum inação, naquele início de noite.

Só havia um telefone e Hurtado achou m elhor que Natale o usasse prim eiro. Ela ligou para a loj a dos pais em Rom a, esperando alcançá-los antes que fossem para casa. Mas som ente Tia Elsa estava lá, fechando a loj a. Os Rinaldis tinham ido j antar fora. E assim , com dificuldades em m odular a voz e controlar sua em oção, Natale contou tudo à sua querida Tia Elsa — o m ilagre de ver a aparição da Virgem Maria na gruta, de ver a Virgem — isso m esm o, Tia Elsa, sim , sim , sim , eu posso ver de novo, m inha visão está restaurada. Um oftalm ologista em Milão confirm ara a inexplicável restauração de sua visão duas horas antes. Houve um a estridente conversa em italiano, um a incontrolável torrente de palavras dos dois lados. E finalm ente Tia Elsa estava fechando a loj a m ais cedo, saindo para localizar os pais de Natale ao j antar, inform á-los da notícia m aravilhosa. Natale advertiu-a de que ninguém m ais devia saber, além dos três, com o ocorrera a sua cura. Tia Elsa deu a sua palavra. Natale prom eteu telefonar m ais tarde para os pais, em casa. E disse que voltaria a Rom a — com um convidado-surpresa — dentro de dois dias.

Foi a vez de Hurtado usar o telefone, falando com Augustín López, em San Sebastián.

— Estou contente que tenha perdido a sua teim osia, m eu rapaz — disse López. — Ainda bem que atendeu à m inha palavra e não com eteu qualquer violência contra a gruta.

— Eu m e decidi contra isso depois de receber notícias suas.

— E deve concordar que foi um a boa coisa, Mikel. Pois a notícia j á se espalhou por toda parte, está no rádio, na televisão, que a Virgem reapareceu conform e prom etera e realizou algum a espécie de m ilagre para um a peregrina britânica.

— Eu j á soube.

— E ficará tam bém satisfeito ao saber de outras coisas, Mikel, os resultados de nossa paciência e confiança. Há m enos de m eia hora recebi um telefonem a de Madri. Do próprio Ministro Bueno. Ele estava feliz com a notícia, cheio de religião, absolutam ente eufórico com o m ilagre de Lourdes. Disse que fizera um a prom essa e estava pronto para cum pri-la. Queria acertar um a série de reuniões em Madri. Insinuou que haveria um acordo aceitável, que deixaria todos os bascos satisfeitos. Estou convencido de que vencem os, Mikel. O que acha disso?

— Acho sensacional. Meus parabéns.

— Quando você voltará para casa?

— Um dia, m uito em breve. E levarei alguém com igo. Nada de perguntas agora. Você verá pessoalm ente. E avise à m inha m ãe que telefonarei para ela am anhã. Boa sorte, Augustín. Deus o acom panhe.

Descendo a escada de m árm ore para o saguão do Danieli, Natale ficou satisfeita ao perceber que Hurtado não m ais claudicava.

— A fé — explicou ele, j ovialm ente.

Deixando o saguão, eles fizeram seus planos para a noite am ena. Prim eiro, a Basílica de San Marco, a fim de apresentar agradecim entos pela ressurreição de am bos.

Depois o Café Quadri, para cam páris.

Depois o Harry 's Bar, para piccata di vitello.

Depois um a gôndola, subindo pelo Grande Canal.

Depois de volta ao Danieli, para fazer am or.

— E depois disso? — perguntou Natale.

— Para Rom a, a fim de fazer com panhia a um a m oça que conheço e escrever um a peça para um a j ovem atriz que am o.

— Quem é essa j ovem atriz?

— Quem você acha que é?

— Se está falando da Srta. Rinaldi, ela aceita o papel, antes m esm o de você escrevê-lo. Vai m esm o escrever, Mikel?

— Vou.

— Terei o papel principal. —Natale sorriu. — E depois disso, Mikel?

— Quero lhe dar filhos, um a porção de bambinos... nossos filhos.

— Só se casar com igo, Mikel. Casará com igo?

— Acha que quero ter filhos ilegítim os? Você será a m ulher m ais casada que j á existiu na história.

— Am ém .

— De m ãos dadas, eles foram andando pela Piazza San Marco, na m aior felicidade.

Na Cidade do Vaticano...

Sua Santidade, o Suprem o Pontífice, João Paulo III, sucessor no trono de São Pedro, ainda vestido com a sotaina branca, solidéu branco, cruz peitoral de ouro pendendo da corrente tam bém de ouro em torno do seu pescoço, entrou lentam ente em seu quarto, o predileto dos 18 aposentos que constituíam o seu apartam ento particular, entre os 10 m il côm odos, câm aras e salões do Palácio Apostólico.

Avançando devagar pelo tapete afegão na direção das persianas de m adeira que cobriam as duas j anelas de canto naquele últim o andar, ele tencionava espiar a vasta Praça de São Pedro lá em baixo. Sua m ente se concentrava nas notícias que lhe haviam sido transm itidas ao j antar e divulgadas para o m undo e seus 740 m ilhões de católicos, um m ilhão de freiras, m eio m ilhão de padres, quatro m il bispos e cardeais. Certam ente aquela noite era o ponto alto de todo o seu pontificado.

Subitam ente, em sua profunda alegria, ele sentiu-se ansioso por entrar em com unhão com Deus.

Afastou-se das j anelas e aproxim ou-se de sua cam a de arm ação de latão. Im pecavelm ente dobrado sobre a cam a estava o seu cam isolão branco. Por cim a da cam a estava o com ovente quadro de Cristo em agonia na cruz.

Na m esinha-de-cabeceira estava o seu relógio elétrico, com algarism os rom anos, a velha Bíblia que ganhara em sua prim eira com unhão. Por hábito, ele verificou o relógio, certificou-se de que estava m arcado para despertar às seis e m eia da m anhã, depois se encam inhou, quase exuberante, para o seu genuflexório. Pendendo por cim a, no papel de parede de cor suave, havia dois obj etos, um crucifixo sim ples e um delicado retrato da Virgem Maria, num a m oldura fina de ouro.

O papa ficou parado em silêncio, olhando para a Virgem Maria. Aj oelhou-se gradativam ente sobre o genuflexório acolchoado e bordado.

Em bora cansado, sentiu um a força renovada fluir por seu corpo envelhecido pelas boas novas que ouvira durante toda a noite.

Uniu as pontas dos dedos encarquilhados em oração e fechou os olhos.

Para com eçar, um a passagem predileta do seu am ado São Marcos. Os lábios do papa se m exeram enquanto recitava a passagem , num a voz pouco acim a de um sussurro:

— Em m eu nom e eles proj etarão os dem ônios; e falarão novas línguas; e apanharão as serpentes; e se beberam algum a coisa m ortal, não lhes fará m al; e estenderão as m ãos sobre os doentes, que haverão de se recuperar.

Sua Santidade prendeu a respiração por um instante e depois continuou:

— Ó Senhor no Céu, abençoado sej a o Vosso nom e. Com o Vosso vigário na terra e sucessor de São Pedro, agradeço por Vossa bondade, pelo retorno da Im aculada Conceição e pela reafirm ação de que Vossos m ilagres j am ais cessarão. Enquanto Vós perm itires, haverá hum anidade na terra e fé, haverá bondade e esperança... e continuarão a ser m ilagres na eternidade e dedicam os nosso am or agradecido ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Am ém .

Em Paris...

Tarde da noite, faltando apenas 10 m inutos para m eia-noite, um a exausta e desgrenhada Liz Finch saiu do elevador na redação da API e quase que se arrastou pelo chão.

Liz observou que o turno da noite j á estava em ação e o único sobrevivente do turno do dia, Bill Trask, ainda se encontrava debruçado sobre a sua m esa, no cubículo envidraçado.

Ela abriu a porta do cubículo, entrou, fechou-a, encostou-se nela. O barulho fez com que Bill Trask levantasse os olhos e deparasse com Liz Finch. Ele virou a cadeira giratória em sua direção.

— Olá, Liz. Quando chegou?

— Agora. Vim de avião de Lourdes.

— Por que não foi direto para casa e dorm iu um pouco?

— O sangue de repórter — m urm urou Liz. — Não posso ficar longe. Na verdade, queria apenas dar um a olhada por um m inuto... agradecer pessoalm ente pelo em prego, chefe. Queria lhe dizer de novo... obrigada.

Trask soltou um grunhido.

— Você m ereceu, m enina. Estou recebendo os relatórios. Sua m atéria está fazendo o m aior sucesso no m undo inteiro.

— Maravilhoso.

— Mas a que se resum e, no final das contas? Um a sensacional história de fantasm a, com um a heroína de prim eira classe e um final feliz. O que m ais se poderia pedir? — Trask m exeu em alguns papéis na m esa, antes de continuar: — Para ser franco, neste m inuto, no m om ento em que você entrou, eu estava relendo a m atéria, talvez pela décim a vez. Um a coisa sensacional. — Ele sacudiu a cabeça. — Im agine só a Igrej a expor o pescoço dessa m aneira e sair num m ar de rosas? Muita coragem ... ou talvez irrealism o. Não im porta. A Virgem Maria vai reaparecer e, Bingo!, ela reaparece e Edith Moore de Londres a vê reaparecer. E de fato sensacional, um evento sem paralelo no m eu tem po. Mas...

Trask deixou a palavra pairar no ar e por um m om ento se perdeu em seus pensam entos.

— Mas o quê, chefe?

— Eu estava apenas pensando num a coisa quando você entrou.

— Pensando em que, chefe?

— Im aginando um a coisa. Liz, você acha... não consigo deixar de im aginar... você acha que alguém realm ente viu a Virgem hoj e?

Liz deu de om bros. E m urm urou: — Bernadette viu?

 

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Você terminou O Milagre

Irving Wallace

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