Semiótica e Pragmatismo: Interfaces Teóricas, Volume 2
Seção B - Sobre Pragmatismo e Idealismo Objetivo
Seção B
Sobre Pragmatismo e Idealismo
Objetivo
V – As raízes schellinguianas
do Idealismo de Peirce127
A filosofia alemã que imediatamente se segue a Kant é dele
herdeira das principais ideias e problemas, iniciando, de modo geral, o período denominado de “idealismo”. Não obstante, a generalidade da expressão “Idealismo Alemão” se desfaz de modo cabal quando se confrontam, por exemplo, os pensamentos de Fichte e Schelling. O primeiro é o ponto de partida do segundo, que chega, na juventude, a adotar as linhas mestras da filosofia fichtiana. Contudo, Schelling, dotado de um espírito sensivelmente poético, que é revelado na tessitura de seu texto, não poderia abrigar, por muito tempo, a ausência cabal de uma nítida qualidade estética comum à ambientação do romantismo alemão, como a que tonalizava a Doutrina da Ciência de Fichte. De fato, os princípios da filosofia fichtiana desenvolvem-se na fundação de um sujeito que, partindo de Kant, internaliza-se cada vez mais e se atribui um caráter legislador que leva a um extremo radical o problema da constituição subjetiva do mundo.
Retoma-se com vigor, neste período, a questão da dicotomia
necessidade-liberdade. Por um viés, a causalidade como regra fundamental do entendimento aprisionando o fenômeno na rede antecedente-consequente, herdada da solução kantiana para o ceticismo de Hume; por outro viés, os ventos franceses da revolução libertária que motivaram a reafirmação da incondicionalidade congênita do sujeito. Ora, a figura do sujeito constituidor, a meu ver, tem muito a dever a esta necessária reafirmação da liberdade; ela é o vértice do qual emanam o lado ético-libertário, impresso no Iluminismo, e o lado epistemológico-constituidor que marca a apologia da racionalidade, em face de uma pretensa e definitiva decifração dos princípios da Natureza, na forma de três leis da dinâmica newtoniana.
O espectro da coisa em si kantiana permaneceu, contudo, no
centro das questões do idealismo. Fichte recolhe-a na interioridade, resolvendo, por princípio, este resíduo de mundo, legado por Kant, e que incomodamente permanecia solto na Natureza, incomodamente fora do eu. Era, então, necessária uma solução extrema. Radicalmente, a interioridade se apropria do mundo para domesticá-lo à luz de um eu que surge como ser eminentemente prático: o ato fundador não é mais tão somente teórico; é o agir daquele sem o qual nenhuma realidade é possível e, neste palco construído por uma ação do sujeito, se dão, também, todas as ações morais. Em um passo ousado, Fichte funde os universos teórico e prático em um único mundo, recusando aquela cisão kantiana. Somente por isso aquele espectro incognoscível deveria ser também aprisionado no eu. A finalidade moral do sujeito legitima o estabelecer-se como ser cognitivo e ativo, propagando-se ao não eu, dando-lhe forma à luz de sua imagem que, em outras palavras, significa criá-lo em conformidade com seu espírito. Neuhouser, sobre este ponto, acrescenta:
Fichte irá se esforçar para provar a existência da razão prática mostrando
que tal faculdade é uma condição necessária para a possibilidade da
razão teórica [...] Embora a consideração da razão teórica irá preceder a
razão prática na ordem de exposição, esta estratégia implica, de fato, uma
primazia da razão prática sobre a teórica, no sentido em que se evidencia
que esta última é fundamentada ou condicionada pela primeira.128
É nos três princípios da 129 Doutrina da Ciência de 1794 que
Fichte consuma a base de seu projeto. O primeiro deles é uma autofundação do eu como a ativa apreensão de uma consciência de si que se põe como em si: ela é autoidêntica e, por isso, constitui uma unidade indissolúvel em sua gênese; palco de todas as reações que ela mesma, necessariamente, terá que se pôr e opor. Uma subjetividade absoluta, plasmada no princípio lógico da identidade A = A, que se substancializa na forma Eu = Eu, predicando-se de si mesma e, por isso, absoluta. Este autopor de si mesmo é, acima de tudo, prático. No dizer de Hartmann:
[...] nem o “eu sou”, nem o “eu penso” de Descartes; tão somente o “Eu
ativo”. A apercepção transcendental de Kant, a que Fichte aqui
conscientemente se liga, não se esgota para ele em ser o princípio
supremo da consciência cognoscitiva; constitui, também, o princípio
supremo da consciência prática.130
Este eu que se autoidentifica como tal, intui sua absoluta
liberdade e se põe como congenitamente prático é, por isso, geneticamente produtor; não haverá mais equivalência de direitos entre sujeito e objeto: este será produto daquele. Aquela intuição intelectual, fonte de todos os erros metafísicos segundo Kant, torna-
se o fundamento de toda realidade possível131. Obra e fruto desta primária ação produtora de um eu, a exterioridade é enquanto também posta como não eu; antiteticamente, como uma resistência àquela liberdade absoluta. Opondo, então, um não eu ao eu originário, estabelece-se uma dualidade que deve ser resolvida ao nível da razão. Esta redução do objeto a uma integral função do sujeito traduz-se na formulação do segundo princípio da Doutrina da Ciência: o eu põe o não eu como seu oposto; este ato de pôr, ativo, prático, é que funda a realidade de toda a exterioridade; sem o sujeito e seu ato ela nada é. A solução desta dicotomia é sinteticamente dada no terceiro princípio, com a consumação de um processo dialético que tem gênese e fim na interioridade. A possível conciliação só se realiza pela limitação daquela consciência que, de início absoluta, se recorta e se limita para conter aquilo que é estranho à sua liberdade, mas que ela mesma se colocou. De outro lado, este recorte e limitação não pode se restringir à consciência; o outro posto é outro limitado para que o substrato consciente
contenha a oposição de duas finitudes 132. Assim se conciliam eu e não eu, limitados em um processo de síntese que distingue semelhanças e diferenças, mas unidos sob a mesma consciência que, em última análise, requer o outro como resistência à ação ilimitada; ela, de início, é apenas uma autocontemplação de sua liberdade absoluta. Hartmann exprime bem este traço fundamental da Doutrina da Ciência:
Se o comportamento prático do Eu consiste simplesmente na atividade
pura que, sem resistência, iria até o infinito, o Eu prático coincidiria com o
Eu absoluto e não haveria, então, necessidade de pensar em explicar a
autodelimitação. Mas este não é o caso. A conduta, a ação, o agir não são
uma produção ilimitada, mas, sim, um agir sobre qualquer coisa. A sua
atividade é aspiração e aspirar é vencer. Ora bem, só se pode vencer
onde existe uma resistência, só se pode aspirar a algo onde exista
qualquer coisa que resista à aspiração, quer dizer, um obstáculo; numa
palavra, onde há um objeto ao qual se pode aspirar nalguma medida. Mas
o objeto nasce para o eu teórico no seu ato de pôr o não Eu como
determinante e real. A oposição é, portanto, condição da aspiração. O Eu
absoluto tem de tornar-se teórico para ser prático; tem de criar primeiro o
mundo dos objetos em cuja resistência há de tornar-se ativo.133
Em verdade, esta realidade posta pelo sujeito na sua própria
interioridade cumprindo o papel necessário de oposição é o meio através do qual a ação moral torna-se possível. É preciso, sob o prisma da antítese solucionável, resgatar aquela liberdade subjetiva congenitamente fundadora, agora não apenas como predicável de si mesma, mas predicável de toda uma história cognitiva desta relação dialética eu / não eu. Por esta razão, Fichte não pode admitir a coisa em si perdida no espaço da Natureza; seu aprisionamento na interioridade é, ao mesmo tempo, a condição básica de sua superação. Enquanto em Kant restou a substância externa e balizadora, em Fichte tudo foi interiorizado de modo radical, sob o jugo do sujeito ativo cuja missão é recuperar uma liberdade que experienciou como autocontemplação, criando um reino para si onde a Natureza é mera resistência que tem de ser superada.
Pôr o não eu no interior do sujeito absoluto é subtrair-se da infinita
liberdade para uma existência que reage também como finita, em uma determinação recíproca de absolutamente opostos. Primário, contudo, o eu absoluto é o fundamento onde se realiza o mundo: “A fonte de toda realidade é o eu, pois é ele o imediato e o pura e simplesmente posto. Só pelo eu e com o eu está dado o conceito de
realidade” 134.
Embora seja o espaço onde este mundo adquire sua condição de
possibilidade, o eu põe ativamente sua própria oposição para determinar-se na finitude e, ao fazê-lo, põe algo estranho à sua absolutez que, de gênese, não tem opostos:
Mas o homem, na medida em que o predicado da liberdade pode valer dito
dele, isto é, na medida em que ele é sujeito absoluto, não representado
nem representável, não tem nada em comum com os seres naturais e,
portanto, também não lhes é oposto.135
Torres Filho menciona a declaração de Fichte se intitulando
acosmista e afirmando a nulidade do mundo empírico:
o mundo dado – quer seja tomado como um sistema de coisas ou como
um sistema de determinações da consciência – absolutamente não existe
em nenhum sentido forte da palavra, e na sua base e fundamento não é
nada.136
É evidente que entre eu e não eu não cabe qualquer forma de
continuum que, em si mesmo, é apenas o traço fundamental daquela consciência absoluta preenchida por nada além de si mesma: “É assim que entre a natureza e a inteligência não pode
haver nenhuma espécie de continuidade”137.
Em busca de um idealismo em que a Natureza não seja tão
somente este obstáculo à ação moral, Schelling, de sua vez, irá, após se afastar do pensamento fichtiano, do qual absorveu os
princípios básicos138 ainda na juventude, substituir aquela genealógica intuição intelectual por uma intuição eminentemente empírica, onde as qualidades estéticas do mundo apontam para uma unidade consciência-Natureza bem distinta de uma unidade vazia e ilimitada que é livre, mas sem um mundo onde esta infinitude também possa ser de apreensão imediata. O olho schellinguiano não se volta para si mesmo como o faz Fichte; ele se abre para uma Natureza cujo silêncio verbal não é indicador de ausência radical de uma linguagem, mas, antes, é desafio para vê-la no tempo como processo teleológico inteligentemente por ela
articulado139.
A conciliação entre idealidade e realidade não se fará pela
concepção desta como produto da subjetividade, mercê de uma interiorização cabal do mundo, mas, sim, pela extensionalidade daquela à relação sujeito-objeto, que se consuma em uma ideia ontológica de Natureza e identidade. A experiência de infinitude que Fichte confinou ao vazio da intuição intelectual tornar-se-á
objetivada em Schelling140 enquanto experiência estética:
a completa e incontestável objetividade da intuição intelectual é a arte em
si mesma. Pois a intuição estética é simplesmente a intuição intelectual
tornando-se objetiva.
Esta infinitude objetivada deve, de sua vez, ser o ponto de partida
da filosofia; a arte é a fonte concreta desta fusão finito-infinito. O artista parte desta contradição de expressar, na obra finita, o infinito, que se torna a identidade real-ideal. A arte é documento primário desta identidade; sua produção, embora consciente, é extravasada pelo produto:
Assim como o homem predestinado não executa o que deseja ou pretende
mas, antes, o que ele é obrigado a executar por um destino inescrutável
que o governa, o artista, conquanto deliberado ele possa estar, parece ser
governado, no que concerne àquilo que é o verdadeiro objetivo na sua
criação, por um poder que o separa dos outros homens e o compele a
dizer ou retratar coisas que ele mesmo não compreende completamente e
cujo significado é infinito. 141
A inconteste polissemia da obra de arte, conceito original de
Schelling que a contemporaneidade parece desconhecer ao propor, como nova, a ideia de obra aberta, assume naquele autor importância cabal no plano filosófico, pois o produto artístico é uma espécie de documento do Absoluto e veículo do trânsito idealidade-realidade-idealidade, em um continuum de possibilidades onde está impressa a ideia central de liberdade. Este descontrole do sentido por parte do artista, que supera sua intencionalidade inicial ou mesmo final, é denominado por Schelling de atividade inconsciente transgredindo a consciente; é a obra de arte que consuma a
identidade entre elas142. Há uma poética permeando idealidade e realidade que, como universo de possibilidades heurísticas, supera a atividade puramente consciente, que é a habilidade metamorfoseadora e necessária à consecução do objeto artístico:
Se fôssemos procurar em uma das duas atividades, a saber, a consciente,
por aquilo que é ordinariamente denominado arte, embora seja ela apenas
uma parte, aquele aspecto dela que é exercitado com consciência,
pensamento e reflexão, e que pode ser ensinada, apreendida e adquirida
por meio da tradição e da prática, teríamos, de outro lado, de procurar no
fator inconsciente que adentra a arte aquilo que não pode ser apreendido,
nem obtido por prática, nem por qualquer outro caminho, mas pode
apenas ser inato por uma dádiva da natureza; é isto que podemos chamar,
em uma palavra, de elemento de 143 poesia na arte.
A experiência estética revela o Uno, o Absoluto; este deve ser o
ponto primário de toda filosofia: daí a importância da arte para ela. O Absoluto, agora, não mais está excluído da esfera da experiência possível; ao contrário, ele é experiência originária imediata em que há esta exclusão do tempo na consciência plena de infinito. Schelling vê em uma experiência primária de mundo um todo que não se opõe, que não resiste, e que se interioriza como sentimento estético. Fichte, de sua vez, para banir a resistência, necessita daquela interiorização genética fundadora da autoidentidade que o leva a experienciar uma liberdade vazia do empírico. No entanto, este espírito é dádiva de uma divindade que permanece oculta: Deus é absolutamente Outro como infinitude; a Natureza é absolutamente outra como finitude. O eu absoluto está primariamente só, e esta solidão jamais poderá ser rompida com a presença do não eu na consciência: antagonizam-se como o espírito e a pedra.
Em Bruno (1802)144, Schelling parece convidar Fichte a abdicar
daquela congênita solidão:
Abandonarás esse estreito em que te havias mantido anteriormente, ao
restringires a unidade suprema à consciência, e ganharás comigo o livre
oceano do Absoluto, onde não só nos moveremos mais vivamente, mas
conheceremos a infinita profundeza e altura da razão.
Colocar o Absoluto como gênese no âmbito cognitivo
legitimamente faria da filosofia schellinguiana um retrocesso pré-crítico, como poderiam alguns estudiosos suspeitar? Como bom herdeiro de Kant, Schelling não poderia incorrer em um discurso epistemológico sobre o Absoluto sem preparar-lhe, antes, um espaço adequado no universo da experiência possível. Neste aspecto, o Absoluto é dado, primariamente, como experiência estética que, de sua vez, é a expressão sensível da liberdade absoluta: não mais o eu, mas o todo da identidade sujeito-Natureza. Esta experiência, da ordem mesma do inefável, consuma-se absolutamente como contemplação que é, em última análise, a transgressão estética da possibilidade do conceito:
Conhecer o eterno, portanto, é contemplar, nas coisas, ser e pensar
somente unificados por sua essência, mas não pôr, seja o conceito como o
efeito da coisa ou a coisa como o efeito do conceito. Nada está mais
afastado da verdade do que isto. Pois coisa e conceito não são um por
uma vinculação de causa e efeito, mas pelo Absoluto e, considerados
verdadeiramente, são somente as perspectivas diferentes de um e do
mesmo; pois nada existe que não estivesse expresso no eterno finita e
infinitamente. [...] No entanto, a natureza daquele eterno em si e para si
mesmo é 145 difícil de se exprimir com palavras mortais .
A partir daquela experiência originária de infinito, Schelling traz o
Absoluto para o interior do universo, fazendo deste a expressão exterior e finita Daquele. Este é um dos pontos da crítica de Schelling às filosofias que consideram Deus fora da Natureza e do homem, e como cabal a oposição entre finito e infinito:
Através desta oposição, os homens aprenderam a ver a natureza fora de
Deus, e Deus fora da natureza e, na medida em que despojaram aquela
da necessidade sagrada, subordinaram-na à profana, que denominam
mecânica, mas, por isso mesmo, fizeram do mundo ideal um palco de uma
liberdade sem lei. Ao mesmo tempo, na medida em que determinaram
aquela como um ser meramente passivo, acreditaram ter adquirido para si
o direito de determinar Deus, que elevam acima da natureza, como
atividade pura, pura atuosidade, como se um desses conceitos não
permanecesse e perecesse com o outro, e tivesse verdade por si. [...] Mas
se se diz a eles que a natureza não está fora de Deus, mas em Deus,
entendem com isso essa natureza que foi morta pela separação de Deus,
como se essa, em geral, fosse algo em si ou, em geral, algo mais do que a
criatura fabricada por eles mesmos.146
Destacam-se neste texto as críticas a Kant e a Fichte. Àquele, a
referência ao conceito de Natureza como coisa em si; a este, as considerações da idealidade subjetiva, como palco de uma liberdade sem lei, e da Natureza, como mera criatura da subjetividade. Mesmo Espinosa, que Schelling com admiração considerou como “o primeiro que, com completa clareza, considerou
mente e matéria como uma unidade”147, todavia equivocou-se, segundo ele, ao colocar a identidade ideal-real fora do humano, na
Substância Infinita148.
Não obstante, que conceito se une a esta intuição schellinguiana
primária de infinitude, explicitando o modo como a Natureza está no Absoluto e reciprocamente? O que legitimaria, no universo do dizível, aquela experiência de totalidade, inefável de gênese? Schelling irá conceber a Natureza como o aspecto finito do infinito, isto é, a expressão exterior da divindade que, de potência, se faz atualidade e se dá a conhecer. Mas, como esta exterioridade é a forma finita do infinito, este se dar a conhecer não poderá ser para um outro, pois: “o Absoluto não produz, a partir de si mesmo, nada
além de si mesmo, portanto, mais uma vez, o Absoluto” 149. Deste modo:
O Absoluto é um eterno ato de conhecimento, que em si mesmo é matéria
e forma, um produzir no qual, de maneira eterna, ele faz de si mesmo, em
sua totalidade como ideia, como pura identidade, real, forma e,
inversamente de maneira igualmente eterna, dissolve a si mesmo como
forma, nessa medida como objeto, na essência ou no sujeito. 150
A refletividade do sujeito fichtiano migra, em Schelling, para o
Absoluto. Como eterno “ato de conhecimento”, a subjetividade é uma espécie de interioridade na exterioridade do Absoluto; poder-se-ia dizer que a contemplação é não mais que autocontemplação de um processo infinito de exteriorização como Natureza. Ideal e real se fundem, naquela unidade do Absoluto, como conaturalidade. A divindade tudo permeia, imprimindo, no finito, um caráter simbólico:
Na natureza eterna o Absoluto se torna para si mesmo, em sua absolutez
(que é pura identidade), um particular, um ser, mas também neste ele é
absolutamente ideal, absoluto ato de conhecimento; na natureza que
aparece, é conhecida somente a forma particular como particular, e nesta
o Absoluto se oculta em um outro do que ele mesmo é em sua absolutez,
em um finito, um ser, que é seu símbolo e que, como tal, adquire, como
todo símbolo, uma vida independente daquilo que significa. No mundo
ideal, ele como que despe o invólucro e aparece também como aquilo que
é, como ideal, como ato de conhecimento, mas tal que, em contrapartida,
deixa para trás o outro lado e conserva apenas um deles: o lado da
redissolução da finitude na infinitude, do particular na essência.151
Nos Seminários de Stuttgart (1810), Schelling propõe a fórmula
A/(B=C) para expressar que o Real (B) mantém uma relação de identidade originária com o Ideal (C), sob o Absoluto (A), afirmando que “não se trata de considerar que o Real e o Ideal são numérica ou logicamente os mesmos, mas, antes, designam uma unidade
essencial” 152. Nesta obra, ainda ele escreve:
Somos frequentemente questionados sobre como, se a filosofia concebe
Deus como seu fundamento, podemos chegar a um conhecimento de
Deus ou do Absoluto. Não há resposta para esta questão. A existência do
que é incondicional não pode ser provada como a existência de alguma
coisa finita. O incondicional é o elemento sobre o qual qualquer
demonstração se torna possível [...] A filosofia está ocupada da
progressiva demonstração do Absoluto, a qual não pode ser exigida como
princípio da filosofia.153
É certo, então, que não há uma prova definitivamente dedutiva
sobre o Absoluto ou, como bem demonstrou Kant, não cabe, sobre este assunto, aventurar-se no jogo das antinomias. Entretanto, esta passagem da obra de Schelling traz, tacitamente, uma ideia da tarefa da filosofia na progressiva demonstração, e a consciência do autor de que seu pensamento não é um retrocesso a uma metafísica pré-crítica. No que respeita àquele papel da filosofia, há um conceito de progressividade que não se confina, tão somente, a uma evolução do fazer filosófico no tempo, mas, também, à gradativa exteriorização do Absoluto como Natureza. O saber, em outras palavras, não tem por objeto algo sem vida, já realizado como processo. Esta é uma visão evolucionária da Natureza e de sua representação que, na análise da concepção de Absoluto em Schelling, bem caracterizou Arthur Lovejoy em The Great Chain of Being:
Mas a verdadeira filosofia e a verdadeira ciência objetiva não são uma
cantilena de tautologias. Seu objeto é sempre uma coisa concreta e viva, e
seu progresso e evolução são um progresso e evolução do objeto em si
mesmo.154
Esta concepção da exteriorização da atemporalidade do Absoluto
no tempo é, como comenta ainda Lovejoy, original face às ideias emanacionistas e criacionistas:
Deus foi temporalizado – foi, de fato, identificado com o processo pelo qual
toda a criação lentamente e arduamente ascende a escala de
possibilidades; se o nome é reservado para o ápice da escala, Deus foi
concebido como o termo final ainda não realizado do processo. Assim, o
emanacionismo e o criacionismo são substituídos pelo que pode melhor
ser denominado evolucionismo radical ou absoluto – o tipicamente
evolucionismo romântico do qual L'Evolution Créatice de Bergson é, em
grande parte, uma reedição. 155
É na ideia de uma Natureza eternamente processual que
Schelling vê este símbolo vivo do Absoluto como a gradual transposição do infinito no finito; a vida na Natureza, observável como fenômeno, antepõe a filosofia schellinguiana a todas aquelas que têm da exterioridade um conceito do inexoravelmente outro que, sem vida, simplesmente obstaculiza a liberdade do Absoluto:
Não é de se admirar que a linguagem, usada dogmaticamente, logo perde
o sentido e o significado. Tão logo eu mesmo sou idêntico com a
Natureza, entendo o que é uma natureza viva, tão bem quanto entendo
minha própria vida; aprendo como esta vida universal da Natureza revela-
se na multiplicidade de formas, em desenvolvimentos progressivos, em
graduais aproximações à liberdade. Tão logo, contudo, eu me separo, e
comigo toda a idealidade, da Natureza nada resta senão um objeto morto,
e cesso de compreender como a 156 vida fora de mim pode ser possível.
Para Schelling, certamente torna-se verossímil que onde há
liberdade há vida. E o conhecimento da vida já não se faz mais na imediatidade da intuição estética, mas pela observação temporal dos processos da Natureza que evidenciam organismos dotados de propósito:
Apenas nos seres organizados eles [os objetos] são reais; eles existem
sem minha participação, porque há uma relação entre eles e o todo. Deste
modo, um conceito reside na base de toda organização, pois, onde existe
uma relação necessária do todo com a parte e da parte com o todo, há um
conceito. Mas este conceito reside na organização em si mesma e não
pode de nenhum modo ser dela separado; ela organiza a si mesma, e não
é, simplesmente, digamos, uma obra de arte cujo conceito é encontrado
fora dela, no entendimento do artista. Não apenas suas formas, mas sua
existência é dotada de propósito [...]. No produto orgânico, por essa
mesma razão, forma e matéria são inseparáveis; esta particular matéria
poderia surgir e ser somente com esta forma específica e vice-versa. Toda
organização é, portanto, um todo; sua unidade reside em si mesma; ela
não 157 depende de nossa escolha de pensá-la como uma ou muitas.
Embora Schelling refira-se ao real como simplesmente aquilo que
está fora de nós, seja ele particular ou geral, ao contrário da escolástica realista que distingue real de existente, transparece nesta última passagem, na ideia de organismo, no qual reside um conceito responsável pela sua conduta sistêmica, a realidade do
universal enquanto 158 lei , cuja tessitura é de natureza intelectual. Além disto, ressalte-se, ainda, dois pontos desta passagem que, de
um lado, afirma esta lei 159 em si mesma e, de outro, conceitua-a como independente de nosso pensamento. Esta postura realista que lida com a coisa em si com desembaraço, e com a alteridade que, em última análise, decorre da cabal recusa da constituição subjetiva, é legitimada pelo Idealismo Absoluto schellinguiano. Na verdade, a ideia de organismo vivo de conduta teleológica, de origem na experiência, é dele uma prova. Somente um substrato mental, unificado ao conceito de matéria, pode conferir este télos para a vida. Ainda segundo o autor, o mero esquema mecânico da causalidade não pode explicar este caráter vivo e proposital das organizações naturais:
Causa e efeito são alguma coisa transitória, evanescente, mera aparência
(no sentido usual da palavra). Assim, se o propósito de um produto
orgânico deve ser explicado, o dogmatista encontra-se totalmente
abandonado pelo seu sistema. Aqui não é mais válido separar conceito e
objeto, forma e matéria, como nos apraz. Pois aqui, no mínimo, ambos são
originalmente e necessariamente unidos, não em nossa ideia, mas no
objeto em si mesmo. Eu gostaria que um destes que jogam com conceitos
como sendo filosofia, e fantasias de coisas como coisas reais, se
aventurasse conosco 160 neste campo.
Contrapondo-se, em um diálogo fictício, a um interlocutor que
defende um idealismo subjetivista161, Schelling afirma:
Assim, a primeira coisa com a qual você concorda é: qualquer concepção
de um propósito pode surgir, apenas, de uma inteligência, e somente em
relação a tal inteligência pode alguma coisa ser dotada de propósito [...]
Quando você pensa em cada planta como um individual, no qual tudo
concorre de modo conjunto para um propósito, você deve procurar a razão
para isso na coisa externa a você: sentir-se-á constrangido em seu
julgamento; você deve, portanto, confessar que a unidade com a qual você
pensa não é meramente lógica (no interior de seu pensamento), mas real
(de modo atual e externo a você).162
É interessante perceber que o assim chamado Idealismo Alemão,
dando a entender uma certa afinidade conceitual entre seus integrantes, abriga tanto o Realismo radical de um autor como Schelling, como o idealismo subjetivo de Fichte e o idealismo crítico de Kant. Embora aqueles autores sejam ponto de partida para o pensamento schellinguiano, este, supõe-se ter ficado claro, distancia-se cirurgicamente do idealismo fundado no sujeito constituidor. Sua crítica fundamental ao ponto de vista da constituição subjetiva, no que respeita à evidência empírica da lei natural, concentra-se na pretensão de dar forma ao fenômeno:
Aquilo que é forma nas coisas, dizem eles [certos filósofos], nós
inicialmente impomos às coisas. Mas de há muito quero saber como você
poderia estar inteirado sobre o que as coisas são, sem a forma que você
primeiramente a elas impõe, ou o que a forma é, sem as coisas sobre as
quais você a impõe. Você deveria admitir que, aqui, pelo menos, a forma é
absolutamente inseparável da matéria, e o conceito, do objeto. Ou, se
resta, à sua escolha, impor ou não a ideia de propósito nas coisas
externas, como é que você impõe esta ideia apenas a certas coisas e não
a todas?163
Há, no ver realista de Schelling, claramente esta alteridade que
embaraça o arbítrio da constituição subjetiva. Parece aqui ser legítimo considerar que o vetor de determinação ontológica é do objeto para a representação. Por outro lado, é evidente que na unidade mente-matéria professada por Schelling, deve haver estágios gradativos de vida, isto é, de formas mais livres e indeterminadas para mais determinadas: “há uma hierarquia de vida na Natureza. Mesmo na mera matéria organizada há vida, mas uma
vida de um tipo mais restrito”164.
Por não conceber no fenômeno essa autonomia da lei que
confere ordem à exterioridade, Kant, a exemplo de Fichte, não pode atribuir vida à matéria, no sentido de nela reconhecer um substrato organizado de natureza intelectual. Assim, por exemplo, nos
Fundamentos Metafísicos das Ciências da Natureza 165 (1786), Kant
identifica a inércia da matéria com a ausência de vida. No prisma evolucionário da filosofia schellinguiana, irá surgir quase de modo natural a questão da gênese da subjetividade. Friso, propositadamente, a naturalidade da questão porque ela pode ter um tratamento desenvolto no interior de uma filosofia realista e evolucionária, ao contrário dos embaraços que ela faz surgir no bojo do Nominalismo. Andrew Bowie ressalta este aspecto nesta passagem:
A filosofia teórica de Kant não tem meios para explicar esta gênese. Para
o Kant da filosofia teórica, respostas a tais questões de gênese dependem
do funcionamento cognitivo do sujeito já constituído, o que significa que
não se tem o direito de perguntar como tal sujeito, em si mesmo, se tornou
constituído. Schelling, justificadamente, pensa que isto é insuficiente para
dar conta de nossa habilidade de entender a natureza da qual somos uma
parte.166
Tal questão, em Schelling, é nítida no seguinte trecho das Ideias
para uma Filosofia da Natureza, em que ele parte da ideia de que a regra da causalidade, fundamental para uma visão mecânica de mundo, não se aplica àquilo que é dotado de crescimento e vida:
[...] os conceitos de causa e efeito são completamente inaplicáveis a uma
mente. Ela é, portanto, absolutamente autoexplanatória de seu ser e
capacidade, e apenas porque ela absolutamente existe, ela também é o
que ela é, ou seja, um ser de uma tal natureza à qual este particular
sistema de ideias das coisas externas também pertence. [...] A filosofia,
então, nada mais é senão a história natural de nossa mente. De agora em
diante, todo o dogmatismo167 [...] está revirado em seus fundamentos.
Consideramos o sistema de nossas ideias não em seu ser, mas em seu
devir. A filosofia torna-se genética; isto é, ela permite que a série completa
e necessária de nossas ideias surja e tome seu curso, como se diante de
nossos olhos. Daqui em diante não há mais separação entre experiência e
especulação. O sistema da Natureza é, ao mesmo tempo, o sistema de
nossa mente e somente agora, uma vez que a grande síntese tenha sido
realizada, retorna nosso conhecimento à análise (à pesquisa e ao
experimento).168
Deixar fluir a mente tal qual ela é, equivale a dizer que sua forma
natural irá se impor experiencialmente à sua representação, no devir de todas as suas nuances. Há, agora, origem da afinidade mente-Natureza e a ruptura radical do estranhamento entre interioridade e exterioridade ou, em outras palavras, entre sujeito e objeto. Como
método, a filosofia schellinguiana é primariamente 169 sintética; a análise encontra sua legitimidade naquela unidade essencial. Não há, por conseguinte, a caracterização de uma dialética de opostos cuja síntese se faz no interior da subjetividade através de formas a priori, operação que, por não mostrar sua gênese, dicotomiza o elo
necessário entre representação e mundo 170. É assim que a intuição, como lócus originário de todo conhecimento, não é mais, tão somente, a instância primariamente organizadora do fenômeno, conferindo-lhe apenas estrutura espaçotemporal, mas a faculdade que legitimamente apreende o dever ser externo às condições de verdade da representação:
[...] deste ponto é claro porque a intuição não é – como muitos pretensos
filósofos imaginaram – o nível mais baixo de conhecimento, mas o
primário, o mais elevado na mente humana, e que verdadeiramente
constitui sua natureza mental.171
A experiência torna-se o vértice fulcral por onde a forma penetra a
subjetividade, constituindo não um trânsito de matéria substancialmente estranha, mas congênita e exclusivamente mental:
[...] queremos saber não como a Natureza surgiu fora de nós, mas como
mesmo a própria ideia de uma Natureza introduziu-se em nós [...]. Não
queremos que a Natureza coincida com as leis de nossa mente por acaso
(como se fosse por um terceiro intermediário), mas que ela mesma,
necessária e originalmente, não apenas expresse, mas mesmo realize, as
leis de nossa mente, e que ela seja Natureza e assim seja denominada, na
medida em que o faça.172
A filosofia como história natural de nossa mente legitima-se, por
esta razão, ser, também, uma Filosofia da Natureza e da Identidade real-ideal, permitindo Schelling afirmar que: “A Natureza seria a
Mente tornada visível, e a Mente a invisível Natureza”173.
Ao recusar a causalidade estrita como método exclusivo de
investigação, Schelling, embora não tivesse vivido os ares do indeterminismo que aflora no início do século vinte, prenuncia, com suas ideias de liberdade e organicidade sistêmica dos produtos da Natureza, uma ciência que lida com a indeterminação parcial dos objetos. Este indeterminismo tácito de Schelling fundamenta-se nessa tríplice relação entre vida, liberdade e mente:
Assim, aqui novamente encontramos a absoluta unificação entre Natureza
e Liberdade em um único e mesmo ser. O organismo vivo é um produto da
Natureza: mas neste produto natural uma mente ordenadora e
coordenadora está governando.174
Parece lícito afirmar que Deus, alma e liberdade são resgatados
por Schelling para a esfera do cognoscível, por serem fundamentos primários de toda experiência. A liberdade apresenta-se não só temporalmente na intuição que proporciona a observação da vida na Natureza, seja na interioridade consciente ou na exterioridade
inconsciente 175, mas, também, naquele não tempo da intuição estética, primária, do Absoluto. É o que transparece nesta passagem das Investigações Filosóficas sobre a Essência da
Liberdade Humana, 176 de 1809: “Apenas quem saboreou a liberdade pode sentir o desejo de tornar tudo semelhante a ela, e
dela fazer participar todo o Universo”177.
Embora ambientado na ideia de progresso do romantismo da
época, Schelling não vivenciou o clima de evolucionismo típico de meados do século dezenove. Mas é patente a ideia de evolução presente em sua filosofia, resgatando um vetor caos-cosmos da filosofia antiga:
Depois do ato eterno de revelação de Si mesmo, tudo é, no mundo, tal
qual nos aparece agora: lei, ordem e forma; todavia permanece, no fundo,
sempre, o que não tem regra, como se pudesse, um dia, mais uma vez
irromper; e não aparece em parte alguma que a ordem e a forma
representam aquilo que é primitivo; parece, ao contrário que de uma
desordem inicial foi impressa a ordem.178
Hartman179, sintetiza, de seu lado, o pensamento schellinguiano
sobre o tema:
O processo evolutivo da natureza obedece a um princípio de diferenciação
progressiva em cujos primórdios se encontra a “indiferença” absoluta,
mas, ao mesmo tempo, obedece também a um princípio de produção
progressiva do superior no qual se exemplifica a tendência original da
unidade do todo [...]. Este pensamento projeta uma luz decisiva na
essência da natureza como totalidade, pois uma força primordial que,
sempre em crescimento, produz de si mesma a sua própria oposição e se
reduz à ação recíproca de forças polares, só pode, evidentemente, ser
uma força viva.
É naquele não tempo do caos inicial e sua unidade que penetra a
intuição estética, transgredindo as formas do tempo e da ordem da Natureza, encontrando aquela liberdade infinita e originária. Do mesmo modo, é nesta imediatidade que a arte se remete à sua fonte indizível, que a ciência só pode conhecer através do modo como esta fonte se exterioriza na finitude e na temporalidade.
Estas formas de cognição, arte e ciência, no universo
schellinguiano, têm caminhos distintos, porém o mesmo objeto:
No que concerne, particularmente, à relação entre arte e ciência, elas são
completamente opostas em tendência, pois se a ciência realizasse toda a
sua tarefa, como a arte sempre o fez, ambas coincidiriam e se fundiriam
numa só – que é a prova da oposição das direções que ambas possuem.
Pois a ciência, no seu nível mais alto, embora tenha o mesmo objetivo da
arte, tal objetivo, devido à maneira de realizá-lo, é para ela sem fim, e
onde a arte é, a ciência tem ainda de ser 180 .
Transitando com ampla liberdade pela idealidade dos mundos
externo e interno, a arte torna-se expressão heurística que é matéria-prima para a reflexão filosófica sobre uma poética cósmica:
O mundo objetivo é simplesmente a original e inconsciente poesia do
espírito; o organon universal da filosofia – e a pedra-chave de seu arco
completo – é a filosofia da arte. 181
Ciência e arte são, assim, com base na filosofia de Schelling,
geneticamente sintéticas. A tarefa de ambas é congenitamente heurística e deve, em um infinito tempo, como tendência, confluir em um mesmo fim. Segundo o autor: “um sistema só é completo
quando conduzido de volta a seu ponto de partida”182. Por esta razão:
A filosofia nasceu e foi alimentada pela poesia na infância do
conhecimento e, com ela, todas aquelas ciências que foram guiadas em
direção à perfeição; devemos, assim, esperar que elas, na conclusão,
escoem de volta, como muitos riachos individuais para o oceano de poesia
de onde tomaram sua origem 183 .
Não sem razão Schelling retorna à mitologia, como resgate desta
perdida origem da filosofia184. Todo este desafio heurístico de uma filosofia originalíssima, como a de Schelling, requer para a sua
aceitação, segundo o próprio autor, um 185 senso estético essencial a um olhar que, voltado para a interioridade ou para a exterioridade, não perceba dois mundos antagônicos onde a vida está confinada tão somente em uma subjetividade que se pretende origem da unidade, como se possível fosse uma profilaxia capaz de assegurar um arsenal de faculdades independentes da experiência, mas que, em verdade, dogmaticamente não exibe suas credenciais primárias. Deste modo, a originária indiferenciação ideal-real, para Schelling, garante o fundamento heurístico não apenas na ciência, mas, também, nas artes, tornando-as correlatas como atividades do espírito.
Em resumo, enquanto a temporalidade da história traça para a
ciência um longo e sofrido caminho necessário à consecução da identidade entre as formas lógicas do pensamento humano e da Natureza, no não tempo da poesia já tudo se prenuncia virtualmente escrito como convite amoroso e lúdico à decifração do Absoluto.
Não à toa o pensamento de Schiller parece ter total acolhida na
filosofia schellinguiana ao dizer: “O caminho para o intelecto precisa
ser aberto pelo coração”186.
Uma síntese: sobre o idealismo de
Peirce e suas raízes schellinguianas
Uma comparação entre as ontologias de Schelling e Peirce
requereria não um simples capítulo, mas certamente o volume inteiro de um livro. Não obstante essa limitação, o presente ensaio se destina aos estudiosos que razoavelmente conhecem os fundamentos da ontologia de Peirce, para os quais poderá ficar evidente a proximidade teórica entre ele e Schelling. Com respeito à Metafísica de Peirce, particularmente sua teoria da realidade, ou Ontologia, é válido lembrar que ela foi primariamente influenciada pelo Realismo de Duns Scotus, que afirmou a realidade dos universais, a saber, de generalidades reais como um aspecto atuante da Natureza. No seu pensamento maduro, Peirce aperfeiçoou seu Realismo por meio da Teoria da Continuidade, propondo-o em uma nova fórmula, expressada na questão que segue na passagem a seguir:
O continuum é aquilo que a lógica dos relativos mostra ser o verdadeiro
universal. Afirmo o verdadeiro universal, pois nenhum realista é tão tolo a
ponto de dizer que nenhum universal é uma ficção. Assim, a questão do
nominalismo e realismo toma esta forma: são alguns 187 continua reais?
Desse modo, generalidades ontológicas são reconceituadas como
continuidades reais. É interessante destacar que Peirce e Schelling têm similaridades teóricas fundamentais que podem ser encontradas em seus escritos sob vocabulários distintos. A propósito, pode ser mencionado, por exemplo, sua admissão conjunta de um realismo de continuidades o qual, em Peirce, corresponde a duas de suas três categorias, a saber, primeiridade e terceiridade. A primeiridade é cosmicamente fundada em seu aspecto interno como um continuum de possibilidades, continuum de qualidades de sentimento, enquanto em sua manifestação externa a segundidade é regida pelo Acaso.
Onde quer que a espontaneidade do acaso seja encontrada, lá existe
sentimento na mesma proporção. De fato, acaso é senão o aspecto
externo daquilo que internamente em si mesmo é sentimento.188
A terceira categoria é o modo de ser da continuidade das formas
– formas lógicas da necessidade. De fato, para ser mais justo com o indeterminismo de Peirce, formas quase necessárias constitutivas das leis da Natureza. Ambas continuidades podem ser encontradas na Filosofia da Natureza de Schelling. A primeiridade como a fenomenológica experiência estética de infinito, proporcionada por um tipo de contemplação inconsciente da Natureza ou de uma obra de arte em suas muitas manifestações. Os qualia que são uma parte da Natureza constituem a imediata presença do Absoluto que pode ser experienciada como unidade, de fato, como unidade originária. Schelling menciona abundantemente formas lógicas naturais, tal como este capítulo procurou evidenciar. Parece lícito considerá-lo um realista de mesma estirpe que Peirce, certamente sob diferentes vocabulários. É também permissível afirmar que o leitor de algum modo familiarizado com a ontologia de Peirce irá perceber uma ambientação filosófica similar que, algumas vezes explicitamente, outras tacitamente, proporciona a proximidade entre os dois autores: um tipo de fundamento poético que rege o palco onde ambas filosofias desenvolvem suas principais ideias.
Destaque-se, por um lado, que o realismo partilhado por eles
implica na rejeição de toda filosofia de caráter antropocêntrico. De outro, o indeterminismo essencial em ambos: em Schelling, o Ser real do Absoluto como Natureza impede que se a considere um mecanismo regido pela necessidade; Ele é de gênese pura liberdade, e sua passagem do infinito para o finito não pode implicar em dela abdicar. Em Peirce, a liberdade é também revelada na mais primária experiência: a de primeiridade. Aquele experienciar da incondicionalidade do fenômeno, de uma ruptura com o tempo, transfere-se do fenomenológico para o ontológico na forma do Acaso, em uma viagem promovida pela flecha da hipótese em sua
busca de conciliação definitiva entre aparecer e ser189. Em ambos, não mais se encontra um sujeito polarizador, fundante, criador de assimetria formal com a Natureza. Muito pelo contrário, nestes autores pode-se visualizar um esforço para descentralizar do sujeito a ontologia, criando simetrias com o objeto que proporcionem um trânsito natural entre interioridade e exterioridade. Em Peirce, tal trânsito correlaciona-se, fundamentalmente, à possibilidade de um comércio semiótico entre o humano e o natural; a inteligibilidade da Natureza confirma a experiência de unidade estética com ela – ambas experiências decorrem do entendimento de que entre sujeito e objeto não deve haver, de gênese, relação de estranhamento. É nesta unidade e inteligibilidade que Peirce e Schelling veem a presença mais densa e genética da filosofia. São experiências de encantamento e espanto, não à toa conducentes, em ambos os
autores, à concepção da ideia de 190 divino.