Semiótica e Pragmatismo: Interfaces Teóricas, Volume 2

XI – Aspectos éticos das fake news e fatos alternativos: uma abordagem semiótico-pragmática

XI – Aspectos éticos das fake

 

news e fatos alternativos: uma

 

abordagem semiótico-

 

pragmática 342

 

1 Considerações sobre o tema

 

Pretendo aqui trazer uma análise sobre o fenômeno socialmente

recente das fake news e fatos alternativos à luz de conceitos trazidos pela Semiótica e pelo Pragmatismo de Peirce, refletindo sobre suas possíveis consequências de natureza ética, ou seja, como sua ocorrência poderia afetar a conduta de uma sociedade e a que fins essa conduta estaria direcionada.

No título deste capítulo mantenho o termo fake news em língua

inglesa não simplesmente porque isso seria justificável por nela ter tido origem, mas, essencialmente, porque acabou se popularizando internacionalmente como tal.

Essa reflexão inclui, igualmente, a distinção entre o que seriam

fake e true news, assim como entre fatos alternativos e simplesmente fatos, uma vez que este último termo poderia dispensar uma adjetivação que o retirasse de seu âmbito próprio, a saber, o da genuína alteridade, aquilo que o caracteriza como sendo outro que não quaisquer representações que dele se façam.

Assim, fatos, nesse sentido, resultariam do modo como não

apenas nós humanos agimos e nos inserimos em um teatro social, mas, também, como circunstâncias históricas diversas confluem para definir o lado duro do que chamamos alteridade. Fatos e representações de fatos seriam, então, sob este prisma, distinguíveis em um contexto de realidade.

Essa distinção entre representação e realidade pode se valer do

vocabulário da Semiótica e, sob esse prisma, dizer que representações dos fatos, quando correspondem razoavelmente ao modo como eles se apresentam à experiência passível de ser objetivamente partilhada, são consideradas verdadeiras. Semioticamente, dir-se-ia que verdade seria uma condição de

correspondência 343 entre signos e seus objetos, e essa condição que poderia também ser nomeada de aderência entre ambos. É importante marcar que a noção de verdade sob a filosofia de Peirce implica, portanto, uma certa capacidade de conceitos, teorias ou sistema de signos que representam um sequenciamento de fatos de prever seu curso futuro com algum sucesso.

Não seria a expressão 344 pós-verdade, termo também

contemporâneo aos conceitos de 345 fake news e fatos alternativos,

meramente seu simples abandono, assumindo, assim, uma arbitrária autonomia do discurso, de independência de um possível curso que a faticidade teria e que legitimaria a verdade? A par de descartar esse caráter preditivo que as representações verdadeiras da realidade devem proporcionar, não traria a pós-verdade, em seu bojo, uma espécie de superação de uma etapa histórica da cultura humana em que pretensamente se adotava o conceito de verdade como um valor intocável? Seria, assim, possível descartá-la como algo necessário não apenas como recurso lógico de uma racionalidade que cumpre sua função de antecipação da experiência possível, mas também fundamental à convivência social entre os seres humanos, extensiva às relações pessoais e privadamente?

Surgem, nesse âmbito, questões sobre que consequências éticas,

ou mais amplamente, que nuances éticas estariam envolvidas no abandono do compromisso com a possibilidade da verdade assim concebida como correspondência com os fatos. Por que a verdade seria uma busca convergente para uma monossemia, enquanto a polissemia seria apenas eticamente viável no âmbito da arte e do estágio hipotético da pesquisa científica?

Ainda nessa linha de inquirição, poder-se-ia pensar que

consequências éticas teria uma apropriação indébita da possibilidade da polissemia dos signos, a serviço de interesses de grupos, nesta época das mídias digitais e dos big data, associada a uma pública circulação alucinante de informações.

 

2 Alguns tópicos históricos

 

Pretendo aqui elencar alguns exemplos históricos que

evidenciariam que o fenômeno das fake news não é uma exclusividade contemporânea.

Há na história abundantes exemplos, como na Segunda Grande

Guerra a propaganda nazista, cuidadosamente articulada para fazer circular e valer os valores do Nacional-Socialismo do partido hitlerista. Cite-se, também, e de maneira comprovadamente registrada, a produção de notícias falsas, associadas à versão de fatos alternativamente elaborados por estados e sistemas políticos totalitários. Essa prática de uma versão oficial dos fatos não é exclusiva do momento histórico em que vivemos, senão uma sua manipulação de acordo com conveniências de natureza política.

É interessante ressaltar que esse predicado da alternatividade

pode fazer competir interpretações rivais dos fatos ou, simplesmente, torná-los opacos a uma interpretação que seria potencialmente verossímil e, assim, monossêmica. Nesse caso, fatos alternativos seriam os que simplesmente desviariam a atenção de seus receptores daqueles que estariam evidentes e abertos a uma interpretação verdadeira.

Se recuarmos na História bem mais que a sua modernidade,

poderíamos considerar a sociedade ateniense na época de vigência da filosofia sofista em meio ao nascimento do platonismo. O ceticismo epistemológico da escola sofista, expresso exemplarmente nos pensamentos de Protágoras e Górgias, descredenciava a possibilidade de partilhamento universal da experiência – sua contingência subjetiva tornava a linguagem apenas um exercício de retórica, de que, a propósito, eram os sofistas professores, ensinando a arte de convencer os ouvintes de um discurso mediante uma aparente plausibilidade lógica nele expresso. O relativismo que singularizava as visões de mundo em cada indivíduo evidentemente não poderia facultar um acesso universal à experiência fenomênica e, consequentemente, um reconhecimento de verdades para além da mera doxa. Evidente se torna, também, que valores comunitários que balizam e normatizam uma sociedade não poderiam passar pelo crivo de um acordo de opiniões, já que o estatuto da verdade enquanto partilhamento de experiências, uma vez descredenciado, carrearia consigo a impossibilidade do reconhecimento social do que poderia ser um bem comum. Esse clima cético de indistinção comunitária entre o falso e o verdadeiro, e consequentemente de infactibilidade de valores socialmente reconhecíveis à luz do conceito de bem comum, foi fator marcante, como se sabe, para o surgimento da filosofia de Sócrates e Platão. O platonismo pode ser lido como uma reação a esse ceticismo que estaria levando, de certa forma, a sociedade ateniense a um esgarçamento de valores sociais, transformando-os em fins privativos a serviço de grupos de interesse. Atenas passará nesse período por uma de suas mais difíceis etapas históricas, plena de conflitos entre a classe dos aristocratas e a mais pobre da

população346, e por um pernicioso, deletério, clima de descrédito e relativismo de natureza ética entre os jovens cidadãos atenienses.

Vale ressalvar que não obstante o relativismo epistemológico da

escola sofística tenha acarretado consequências práticas para a sociedade de então – poder-se-ia dizer, por essa razão, um relativismo de sentido pragmático – ela não teve origem em uma filosofia moralmente comprometida com o falso, a saber,

genuinamente347 produtora de fake news. É bem verdade, também, que o termo fake news – literalmente notícias falsas – não se aplica a essa situação histórica aqui convocada. Contudo, a disseminação de uma ideologia, no sentido de uma teoria política que encerra valores sociais ou conjunto de ideias que balizam a conduta de um grupo social, estava vigente e se fazia pela linguagem – então a mídia socialmente ativa e disponível aos cidadãos atenienses.

Neste sentido e com essa ressalva, nesse período não se poderia

dizer que a utilização da linguagem como mero instrumento de retórica e não como mediação para o verdadeiro tivesse alguma forma de venalidade, baseada que estava na convicção da impossibilidade de uma verdade de caráter objetivamente lastreada. Há aqui uma distinção importante a ser apreciada sobre a produção e utilização das fake news, mais detidamente tratada à frente, pela

sua importância de natureza ética348.

 

3 Classes de fake news

 

Vou considerar neste capítulo apenas duas classes de fake news

à luz de uma análise de natureza ética:

a) as notícias falsas decorrentes de erros de produção, ou seja,

que não tiveram, de origem, a intenção de iludir o receptor com um supostamente falso estado de coisas;

b) as notícias falsas que, contrariamente, foram assim produzidas,

com a finalidade explícita de fazer seu receptor crer em um estado de coisas sem lastro fático ou, mais sutilmente, obnubilando esse lastro com a vagueza proporcionada pela linguagem que seria conducente a uma interpretação dirigida aos fins de interesse de seu produtor. Aqui apareceriam os fatos alternativos, na forma de sua invenção ou de uma interpretação de fatos que, embora evidentes, passariam por uma operação de opacidade de significado sob muitas maneiras pelas quais isto se possa fazer. Uma delas seria subjetivá-los, atribuindo-lhes intencionalidade ideológica ou associá-los a valores rejeitáveis pela classe de sujeitos receptores.

À primeira classe de fake news não pode ser atribuída alguma

forma de má-fé ou a intenção de se gerar algo falso. Mencione-se, exemplarmente, as que são erros de procedimento das mídias sociais. Tais erros de procedimento podem ser e são frequentemente corrigidos pelo agente em questão. Mídias com comprometimento com a verdade, tomada essa sob o prisma simples de razoável correspondência com os fatos, soem adotar mecanismos de correção de erros acidentais de divulgação de notícias falsas. Portanto, malgrado se possa prever que uma notícia não intencionalmente falsa possa acarretar, também contingentemente, condutas equivocadas, elas poderão ser em algum momento revistas, balizadas por um quadro fático que deverá ser corrigido.

Nessa classe de fake news destituídas da intenção de iludir os

seus receptores, pode-se elencar tipos que se valem de mídias diversas, como, por exemplo, textos jornalísticos e ou videotextos de cunho político eivados de ironia, sarcasmo e formas diversas de humor e que podem dar margem a interpretações variadas, não infrequentemente balizadas por contextos ideológicos que vedam o acesso aos fatos que estão sob foco crítico daquelas formas de expressão. Mas, aqui, considere-se que a conduta social e ou de um grupo social não foram intencionalmente conduzidas a crer em fatos inexistentes ou trazidos por narrativas criadas para este fim. Haverá, sempre, independentemente do fenômeno recente trazido pela extraordinária expansão midiática, conflitos de interpretação e de condutas previamente já orientadas por crenças prévias, como se pode abundantemente verificar ao longo da história.

Não parece ser profícuo reler esses conflitos de opiniões,

crenças, interpretações, próprios à historicidade da cultura humana, à luz do conceito de fake news e renomeá-los em classes de distintos tipos de falsas notícias, apesar da intensidade e amplitudes diferenciadas de que se valem as redes sociais

contemporaneamente349. Assim, considerando que condutas equivocadas integram parte própria de nossa longa história cultural, concentremo-nos em restringir o interesse no tema das fake news à sua face marcadamente ética.

 

4 Sobre a distinção semiótica entre

 

objeto imediato e dinâmico: realidade

 

e ficção

 

Utilizando alguns conceitos da Semiótica de Peirce, vale trazer à

tela a distinção entre objetos imediato e dinâmico350. Para os fins que aqui se pretende alcançar, entenda-se o primeiro como sendo aquele que se configura como objeto representado. Em outras palavras, o objeto imediato seria o referente contido nos signos, nas diversas linguagens que o expressam. De sua vez, o objeto dinâmico é aquele que permanece independente de sua representação e, por assim ser, atende o quesito de definição do

que seja 351 real segundo Peirce.

Sob esses conceitos, poderia ser considerado como conceito de

verdade, conquanto de modo aproximado e falível, uma correspondência entre ambos esses objetos, verificável não simplesmente como aparente semelhança entre eles, mas pela observação de como ambos se comportam no tempo. Esse é o quesito peirciano de significação pragmática de um conceito, dependente sempre de observação futura de suas consequências: “O valor de um símbolo reside em fazer o pensamento e a conduta

racionais e nos permitir prever o futuro.”352.

Utilizando esse vocabulário, pode-se dizer que falsas

representações dos fatos distanciam o objeto imediato do dinâmico. No primeiro caso retro mencionado, em que não há premeditadamente um plano de falseamento intencional das news, tornando-as, assim, fakes, a sua fonte geradora será supostamente direcionada para reaproximar ambos os objetos. Não haveria, consequentemente, venalidade propositalmente pensada nessa situação. Denominarmos erros, equívocos de interpretação, próprios do falibilismo humano, genericamente de fake news, resulta em diluir um conceito cuja análise mais interessante, a meu ver, deveria estar submetida a uma eticidade indicativa de suas consequências deletérias para uma sociedade.

As razões pelas quais, contudo, as fake news são

intencionalmente criadas devem estar associadas a fins privativos de grupos de interesse. Sob esse conceito de interesse podem ser arroladas situações também diversas, de natureza econômica, ideológica e, talvez, se possam incluir também fatores de caráter psicanalítico que possivelmente estariam lastreando tal conduta.

De todo modo, é importante perceber que o conceito de grupo de

interesse está intimamente conectado ao de privativo e, na medida em que seja assim, também predique seus fins, que ele fragmenta e particulariza em uma sociedade o que deveria ser um bem partilhável. A atenção para esse ponto faz trazer, a par da ideia de bem comum, antigos conceitos de democracia e justiça social.

Não à toa, se constatam virem à baila tais conceitos em recentes

discussões que envolvem a análise das fake news, na forma de como certos valores sociais de caráter coletivo se encontrariam ameaçados por uma manipulação midiática de falsas notícias, valendo-se da linguagem em todo o seu potencial de carreamento de sentido lógico e emocional, conquanto distante de uma faticidade que a pudesse credenciar como comprometida com o seu objeto dinâmico.

Por que isso assim se daria? Parece lícito arrolar razões que, por

um viés, destinam-se a angariar apoio e aprovação de camadas da sociedade propensas a se identificarem com os fins implicados no discurso assim produzido, em suas diversas formas midiáticas. Por outro viés, a de criar uma realidade paralela – fatos alternativos –

que indistinguem realidade de ficção 353, direcionadas a induzir condutas que deverão incidir em fins equivocados, mas que temporariamente proporcionarão suporte a fins meramente privados dos grupos geradores dessas fake news. Ambos os casos se identificam quanto a seus resultados: faccionar a sociedade direcionando grupos de opiniões e condutas a seus interesses privados.

 

5 Uma passagem pela Teoria das

 

Crenças de Peirce

 

Considere-se possível entender a distinção entre os tipos de

crenças tais como propostos por Peirce em 354 The Fixation of Belief

– entre científicas e dogmáticas 355.

Crenças de natureza científica caracterizam-se pela interação

sígnica entre os objetos imediato e dinâmico. Essa interação se baliza por um constante diálogo com a experiência, tal como determinada por um critério de relevância decorrente de uma teoria sobre algum recorte de mundo. É importante destacar que essa cientificidade da crença não se confina ao âmbito das práticas científicas exclusivamente, mas à luz da filosofia de Peirce se estende a toda mente que está disponível para aprender com a experiência, dispondo-se a alterar seus hábitos de conduta sempre que ela assim o indicar.

De sua vez, crenças dogmáticas seriam as que se instalariam

sem acesso aos objetos da experiência. Proponho que elas poderiam ser classificadas como transcendentes e coagidas. As primeiras definitivamente não têm acesso a seus supostamente objetos dinâmicos – supostamente porque não pode ser afirmada sua realidade e, em consequência, não saem do plano de seu conceito, contraditando, assim, sua própria natureza de alteridade em relação ao objeto imediato. Peirce as denomina de crenças a priori.

Denomino crenças coagidas aquelas impostas por autoridade.

Elas frequentemente ocorrem em organizações sociais hierarquizadas, determinando condutas vedadas às razões que as determinaram. Essas organizações, de seu lado, podem, no plano da autoridade, interagir com a experiência e determinar assim suas ações – tome-se exemplarmente como isso ocorre em um exército. Contudo, crenças transcendentes, sem recurso à experiência, valem-se de modo mais explícito da autoridade para impor as condutas a elas submetidas.

Por fim, considerem-se as crenças dogmáticas de natureza tenaz.

Elas primam pelo seu confinamento ao objeto imediato, tornando-o radicalmente apartado do objeto dinâmico em um sentido em que este poderia eventualmente influenciar aquele. Não é demais dizer que crenças tenazes se apegam às suas próprias concepções de mundo e vedam qualquer influência fática que possa fraturá-las. Parece evidente que os que adotam esse tipo de crença estejam mais inclinados a crer em narrativas que venham a se harmonizar com a visão de mundo que possuem e os valores nela implícitos.

Em maior ou menor grau, poder-se-ia afirmar que as crenças de

natureza dogmática estariam mais propensas a recepcionar acriticamente as fake news, em face de seu distanciamento de uma realidade que, ao fim e ao cabo, seria a única âncora para corrigir condutas equivocadas por elas induzidas. Com acentuada frequência, as crenças tenazes não se disporiam a mobilizar correção de seus conceitos e, em consequência, de suas condutas. Elas apenas se retroalimentam daquilo que já nelas está conceitualmente cristalizado.

Poder-se-ia perguntar: não seriam os cidadãos afeitos a essa

classe de crenças um foco primordial de direcionamento das fake news?

 

6 A ficção deletéria das fake news: a

 

indistinção entre imaginário e real

 

Um dos aspectos mais importantes da teoria da significação é

trazida pela máxima do Pragmatismo de extração peirciana. Significação pragmática requer algo além de uma semântica linguística, a saber, o quesito de que algo de natureza fática deva influenciar a conduta. Tal quesito, em verdade, resume-se a uma relação entre as categorias de Peirce, em que a ação sob a segunda categoria, a segundidade, deva exibir o conceito, sob a terceiridade, em sua forma definida. Isso equivale a dizer que a indeterminação potencial, a generalidade do conceito, se torne réplica fenomênica particular, diretamente aberta à experiência de qualquer mente cognitiva. A conduta, como modo de ser das ações, deve exibir o conceito que lhe deu forma nutrindo suas diretrizes, proporcionando definidamente uma inferência sobre seus fins.

É deste modo que o realismo da filosofia peirciana se manifesta

em seu Pragmatismo – não basta a simples significação no plano da linguagem, senão que ela deva estar ligada ao modo como se está disposto a agir sob sua influência. Longe de ser uma “teoria da ação”, o Pragmatismo tem no agir a instância em que o geral aparece em sua forma particular e, por assim fazer, integra os personagens objetuais expostos à observação de outras mentes capazes de cognição.

Pode-se então perguntar a que tipo de conduta as fakes news

conduziriam? Supõe-se que estariam direcionadas àquelas cujas consequências práticas – termo caro ao Pragmatismo – poderiam ser de duas naturezas, a saber:

a) conflituosa com os fatos, uma vez ter sido gerada por

narrativas ficcionais, distantes de uma faticidade observável. Nessa classe podem-se incluir condutas sem lastro em conceitos razoavelmente reflexionados na experiência, as quais acabam incidindo em fins distintos daqueles prometidos pela narrativa que lhes foi originária. É importante realçar como na filosofia de Peirce essa distinção entre ficção e realidade se faz frequentemente presente. Veja-se essa passagem:

 

A realidade das coisas consiste em persistentemente se forçarem sobre

nossa recognição. Se alguma coisa não possui tal persistência, ela é um

mero sonho. Realidade, então, sua persistência, é regularidade. No caos

original, onde não havia regularidade, não havia existência. Ele era um

completo sonho confuso. Isto podemos supor ter ocorrido em um passado

infinitamente distante. Mas na medida em que as coisas foram se tornando

mais regulares, mais persistentes, tornaram-se assim menos oníricas e

mais reais.356

 

Pode-se dizer que a ficção não tem o poder de gerar réplicas

fáticas que pretensamente se harmonizariam com as ações que elas viriam a induzir. Ao contrário, o cenário onde as ações individuais ou parcialmente coletivas ocorrem deve destoar do que a narrativa ficcional criou. Lembremos que o significado de um conceito está não apenas na conduta que ele possa influenciar mas, também, em sua capacidade de prever o curso futuro dos fatos com os quais essa conduta deverá coabitar. Tratando-se de ficção, seu poder preditivo da realidade é simplesmente nulo e, assim a conduta induzida por ela estará inserta em uma faticidade alheia à contida na narrativa.

b) indiferente aos fatos e propensas a aceitar o que a narrativa

traz de encontro a sua própria visão de mundo, certamente fechada à experiência. Crenças dogmáticas, como anteriormente expostas, tendem a aderir seus fins, imunes à observação e, portanto, a recurso de retroanálise corretiva, a fins que uma narrativa encerra e que com eles parecem se harmonizar.

Enquanto condutas designadas por ‘a’, malgrado

temporariamente conflituosas com a faticidade em que são lançadas por uma falsa descrição da realidade, possam ser corrigidas e assim buscar sua consistência lógica com a experiência, as designadas como ‘b’ se encerram no interior da linguagem, das representações de mundo e tendem a se satisfazer com elas. As razões pelas quais isso assim acontece são múltiplas e parecem exceder a esfera meramente ideológica. Uma delas, pode-se apontar, seria de natureza psicológica. No âmbito da Psicanálise, por exemplo, poderiam ser enumerados conflitos de natureza humana originários de uma indistinção entre realidade e ficção. Decepções com o curso futuro da experiência certamente decorrem da adoção de conceitos sem qualquer lastro na realidade para se pretenderem preditivos. Mas, aqui, fique-se apenas com o âmbito ético de análise dos efeitos deletérios das fake news, não obstante suas consequências se estendam para diversas esferas da vida humana.

 

7 Síntese teórica

 

Retome-se que a análise aqui trazida sobre as fake news se

concentrou exclusivamente em seu núcleo ético, deixando de lado outros prismas que, a meu ver, estão associados a erros de representação e de conduta, uma vez estarem, em verdade, espraiados ao longo da história humana e não propriamente implicarem no que pode ser considerada uma falsificação da realidade, intencionalmente produzida e vetorizada para criar bolsões de suporte político ou, em termos mais gerais, condutas voltadas para fins particulares de grupos de interesse.

Mencionou-se de início a polissemia própria à natureza mesma da

arte e da investigação científica em seu estágio hipotético, associando-a ao que se poderia predicar de eticamente sã.

De fato, sob o prisma de análise aqui adotado, uma polissemia

intencionalmente produtora de fatos alternativos estaria inspirada na intenção de obnubilar uma faticidade genuína, capaz de ser reconhecida como independente de quaisquer representações que dela se possa fazer. Essa oculta faticidade é, em síntese, o cerne mais simples do realismo que dá o tom da filosofia de Peirce, ao contrário de outras posturas filosóficas de cunho nominalista que afirmam ser a realidade algo que não se distingue de suas representações. Poder-se-ia plausivelmente dizer que essa posição filosófica dificilmente poderia expor claramente uma distinção pragmática entre ficção e realidade.

Não por outro motivo, a categoria da segundidade em Peirce

detém o predicado fundamental da alteridade, como aquilo que potencialmente irá reagir a toda forma de apropriação de sua condição ontológica, caracterizada pela sua independência em relação a qualquer representação que dela se possa fazer. Um discurso sem âncora em uma ontologicamente pública realidade fragiliza um tecido social que deveria estar voltado ao bem comum e o fragmenta a serviço de fins particulares.

É bem verdade, também, que as sociedades contemporâneas,

sujeitas a uma avalanche de informações no âmbito dos big data e submetidas a uma circulação desenfreada de signos das mais diversas naturezas, incluindo, principalmente, as fake news, são constituídas por indivíduos e grupos em que se divide aquela variedade de crenças aqui expostas. Em cada um deles, a recepção dos signos se dará de modos diversos e, possivelmente, alguns deles estarão mais afetados pelos danos causados pela falsificação da verdade dos fatos.

Inclui-se nesse rol de danos uma publicidade intensamente

midiática, não apenas em sua face muitas vezes enganosa, mas em seu papel de estimular um consumo supérfluo no fundo do qual se encontram valores que mascaram outros que, de fato, poderiam genuinamente conduzir a ação humana na direção do que seria um bem comum.

É então interessante refletir que as fake news, sob o prisma de

sua afecção deleteriamente ética incidente no esgarçamento do

tecido social357, deveriam ser confrontadas pela mobilização da sociedade em defesa de seus valores mais caros, na forma de recursos jurídicos e institucionais nela disponibilizados.

A par dessas medidas, cabe retomar a importância da educação

dos indivíduos, não apenas voltada para uma habilitação tecnológica, com a importância que lhe é própria, mas, e principalmente, para uma formação cultural ampla que proporcionasse o reconhecimento e a adoção de valores necessários a um tecido social voltado ao bem comum. Ela deveria proporcionar tanto uma visão eticamente crítica dos mecanismos que movimentam a história social, como a capacidade de contrapor, a valores supérfluos, outros que de fato merecem o selo de genuinamente humanos.

Caminhos errados a que uma sociedade é contingentemente

conduzida pelo falseamento intencional da realidade resultam em retardamento da História, na proporção mesma em que bem comum, busca genuína de sentido de vida e desenvolvimento do potencial de cada ser humano sejam valores factíveis mediante a vigência do que se denomina verdade, em seu poder de lastrear um acordo possível de opiniões.

Não é demais dizer que caminhos errados, quando ensejam

revisão de conceitos, de hábitos de conduta e, consequentemente, aprendizado, são cognitiva e eticamente bem-vindos. Todavia os erros intencionalmente induzidos, uma vez submetidos ao escrutínio crítico, tornam-se apenas formas perdulárias de se lidar com o Tempo.

Parece ser legítimo valermo-nos de nossa imaginação para

vivermos hiatos necessários em meio à onipresente alteridade da existência. Nesse sentido, a arte, ao produzir ficção com suas diversas linguagens, extrai do real um sentido mais amplo que o meramente lógico, complementando seu conteúdo mais verdadeiro, sem, contraditoriamente, jamais ser falsa.

Contudo, práticas ficcionais da linguagem que se pretendem

verdadeiras, descrevendo mundos como se ancorados em fatos, ocultam tão somente a escusa intenção de submeter a inteligência da comunidade a crenças dogmáticas, fazendo-a, como já assinalado, serva de seus interesses.

Não mais que justo é esperar que as por vezes longas pernas

curtas da mentira não retardem em demasia a saga de uma narrativa verdadeira, tão importante ao lastreamento ético de uma sociedade.