Semiótica e Pragmatismo: Interfaces Teóricas, Volume 2
VI – A continuidade da vida: sobre o Idealismo Objetivo de Peirce
VI – A continuidade da vida:
sobre o Idealismo Objetivo de
Peirce 191
A Metafísica peirciana é um complexo sistema de conceitos
constitutivos de uma teoria de mundo. Entre eles estão o de continuidade, ou Sinequismo [Synechism], como Peirce o chamou, e também o de Idealismo Objetivo. Ambas são doutrinas interconectadas, uma vez que a primeira mantém que toda a realidade é de alguma forma contínua, não obstante uma continuidade imperfeita ou incompleta, e a segunda refuta qualquer separação ontológica entre mente e matéria, afirmando que ambas são manifestações de uma única e mesma substância, a saber, idealidade.
O Sinequismo é, de fato, uma síntese entre o idealismo e o
Realismo peircianos, no sentido de que é possível conceber uma realidade constituída por relações e possibilidades reais sob uma única substância, isto é, eidos ou idealidade.
Leitor dos autores do romantismo alemão, principalmente Schiller
e Schelling, Peirce se comprometeu também com a concepção de vida, tão cara àquele movimento filosófico. Com sua Metafísica, ele pode alcançar alguns objetivos românticos, realçando a Natureza como um organismo vivo, em que, da pedra até o ser humano, a vida é uma gradação de vivacidade, medida por sua capacidade de espontaneidade. Assim, este capítulo mostrará como diferentes graus de vida interagem dialogicamente, trocando signos que exigem a nova e importante ciência da Biossemiótica para dar conta das razões e significados de tal diálogo.
1 Sobre terminologia filosófica:
preparando o terreno para melhor
compreensão de alguns conceitos
peircianos
O convívio longo com um grande autor da história da filosofia que
se admira faz desenvolver, a par da absorção de seus conceitos e
de seu vocabulário, uma espécie de instinto para adivinhação 192, que não só tenta decifrar o que há de espírito por detrás da letra, portanto algo que paira para além do texto, como não dito, mas também aquilo que o autor disse, mas não o fez de modo suficientemente claro.
Peirce é um desses autores, e peculiaridades de sua obra
estimulam o aparecimento daquele instinto para adivinhar, como o fato de ela ser constituída majoritariamente de manuscritos que ele não pôde ver editados, nem pôde em vida rever, suprimir e acrescer, suponho, passagens que a iminência de uma publicação estimula polir, a bem de sua qualidade e precisão. Clareza terminológica,
todavia, sempre foi motivo de suas preocupações 193, com uma quase obsessão em dar nomes novos, muitas vezes insólitos, aos novos conceitos que foi criando no desenvolver de seu trabalho, muitos deles de raízes na tradição, mas que dele receberam abordagem original e coerente com o edifício teórico de sua filosofia.
Essa preocupação com uma terminologia biunívoca dos conceitos
vem, provavelmente, e aqui aparece um exemplo de adivinhação,
de sua formação e prática em ciências naturais 194. De fato, as ditas ciências da Natureza e mesmo seus derivativos como ciências aplicadas, conseguiram a prática de uma terminologia biunívoca entre termos e seus objetos, que em muito se supõe ter contribuído para o avanço do saber nessas áreas. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito, por diversas razões, das assim chamadas ciências humanas, em especial a filosofia.
Entre as causas da doença da linguagem de que muitos autores
contemporâneos acusaram a filosofia, raramente esteve, prioritariamente, o vírus da má terminologia, que infectava as doutrinas com a vagueza e a polissemia inviabilizantes da clareza de conceitos, senão que ela, a doença, estaria nas pretensões metafísicas inerentes ao uso da linguagem filosófica. Salve-se dessa crítica, deve-se reconhecer, a insistência na indispensável análise da sanidade lógica dos argumentos a que se deveriam submeter as teorias filosóficas.
Não é incomum se afirmar que os objetos das ciências humanas
em geral e da filosofia em particular são de complexidade maior que os das ciências da Natureza, demandando, assim, abdicar da biunivocidade terminológica em favor de uma linguagem que expresse tal complexidade, legitimando uma certa e permitida indeterminação semântica. Contudo, essa linha de argumentação se, por um lado, peca por ignorar o quão complexos são os objetos das inúmeras áreas de saber das ciências naturais, por outro parece querer resguardar o direito de usar a linguagem filosófica de um modo que mantenha, para o leitor desavisado, a indefinição perigosa entre dificuldade conceitual e obscuridade linguística, em que um discurso terminologicamente confuso muitas vezes se traveste de profundo.
A história da filosofia mostra que cada autor, e raramente se
poderia isso generalizar para todo um período, guarda seu próprio vocabulário, tal que, se não pode ser acordado em prol de uma terminologia biunívoca, ao menos deveria ser respeitado em seu contexto próprio. Essa é uma maneira de ser justo com os conceitos em filosofia, a saber, buscar – em cada sistema teórico – o mais claro sentido que um autor quis dar a um conceito, uma vez que um mesmo termo aparecerá sob significações distintas em autores distintos.
Sem dúvida, esse respeito do contexto terminológico implica em
um estudo não trivial da história da filosofia, a propósito salutar sob muitos aspectos, em que o primeiro deles seria familiarizar-se terminologicamente com o respectivo autor que se está estudando. Como segundo objetivo, dever-se-ia entender os conceitos em seu contexto histórico. Não é infrequente se incorrer em uma espécie de paralaxe histórica – permita-se aqui essa metáfora – ao se julgar conceitos antigos à luz de conhecimentos contemporâneos. Por fim, um terceiro benefício desse estudo seria evitar a proposição de conceitos pretensamente novos, quando eles já tenham sido formulados, muitas vezes com admirável profundidade, por um autor ou escola de período muito anterior.
Legitimar uma reinvindicação de originalidade em filosofia passa,
sem dúvida, por um honesto exame da história das ideias. Nas ditas ciências exatas, o conhecimento é cumulativo e o passado do saber aparece sempre atualizado, de algum modo, nas teorias vigentes. Em ciências humanas, encontram-se áreas em que dificilmente o saber se constrói crescentemente, passo a passo, em um processo histórico. A filosofia é uma delas e o não acordo terminológico exigiria uma remissão constante à história das ideias para então se ter consciência de estar propondo algo novo.
Passemos, é tempo, à questão específica de terminologia que
ensejou essas considerações iniciais. Ela está afeita aos termos realismo e idealismo, tal qual aparecem no vocabulário da obra de Peirce. Contemporaneamente, esses termos, como se sabe, são considerados designando posturas filosóficas opostas: os realistas seriam aqueles que admitem a existência de um mundo externo, independente da mente que o representa; de sua vez, os idealistas afirmam que mundo é constituído pela mente e sua capacidade perceptiva, de tal modo que não haveria algo como uma realidade independente de sua representação. Essa questão, assim posta, deve-se dizer, não pertence ao contexto teórico da obra peirciana. Não obstante, desavisadamente, muitos estudiosos se perguntam como Peirce pode ser considerado simultaneamente realista e nominalista?
Toquei anteriormente no estudo necessário da história da filosofia
porque ele seria o único recurso capaz de sanar tal questão, ao se tomar ciência de que o Realismo, tal qual apregoado por Peirce, é
de extração escolástica 195 e, assim, não se confina tão somente ao predicado da alteridade em relação à sua representação, senão que essa realidade também se organiza em relações gerais que, no vocabulário peirciano, recebem o nome de leis ou hábitos naturais.
De seu lado, idealismo deve ser distinguido historicamente em
suas duas nuanças, ou seja, subjetivo e objetivo. De um modo geral, o primeiro associa-se à concepção de uma realidade confinada à subjetividade, enquanto o segundo refere-se a uma predicação substancial da realidade, afirmando-a como de natureza ideal. Distinguem-se aí, exemplarmente segundo essa conceituação, Berkeley e Fichte como idealistas subjetivos, enquanto sob um Idealismo Objetivo podem ser consideradas as posturas de Platão e
Schelling, além de Peirce196.
Eis um caso claro em que o desconhecimento do contexto
histórico de termos filosóficos compromete sobremaneira o entendimento da posição conceitual de alguns autores. Verifica-se, surpreendentemente, estudiosos focados em análise da linguagem filosófica embaraçados em questões que, ao fim e ao cabo, são de natureza linguística, não obstante dependentes de conhecimento de história da filosofia, muitas vezes desdenhado por escolas que pregam que tal história não é mais que um desfile delirante de doutrinas metafísicas.
Essas considerações não solucionam de modo satisfatório, é
certo, o entrelaçamento conceitual possível entre Realismo e Idealismo Objetivo, sobre o que o desenvolvimento deste capítulo sequencialmente irá tratar.
2 Por que Realismo e Idealismo em
Peirce? Conjecturas de gênese
O estudo das ciências da Natureza e, principalmente, sua prática
no sentido de investigar fenômenos à luz de teorias, confrontá-las com resultados experimentais, pode ensinar muitas coisas sob o ponto de vista filosófico. Não à toa, Peirce menciona em seu famoso
What Pragmatism Is197 como sua mente foi treinada em laboratório e como isso o distingue de outros pensadores em filosofia. O fato de essa distinção ser por ele reconhecida, estimula, de certa forma, adivinhar o que aquele texto não traz de modo explícito. Nesta atividade de adivinhar, nada há que não atenda princípios que Peirce irá formular em sua lógica da Abdução, a saber, que somos estimulados a conjecturar, se quisermos ir adiante em qualquer
pesquisa que pretenda explicar fatos198.
De fato, a investigação científica põe as representações teóricas
em contato com seus objetos por meio de fenômenos advindos de experimentos, e isso nada mais é que um contato direto com a alteridade de tais fenômenos. Os objetos podem, genuinamente, objetar às previsões teóricas por meio de suas réplicas experimentais, índices, no vocabulário da Semiótica – os símbolos, representados pelo caráter geral das teorias, confrontam-se com eles, os signos indicativos dos objetos. Para uma mente assim adestrada em tal prática, é trivial dizer que o processo de validação das teorias se faz por um certo grau de aderência com os resultados experimentais e, quando não o faz, elas devem ser reajustadas parametricamente ou, mesmo, serem radicalmente modificadas. Por essa razão, para o homem de ciência, dizer-se que a última palavra
que legitima uma teoria pertence ao objeto deve soar-lhe trivial199. Assim, essa prática, em última análise, é uma espécie de, permita-se a expressão, lição de alteridade, em seu significado filosófico.
Por outro viés, a obrigatoriedade de intervir na estrutura das
teorias, ajustando formas e parâmetros, quando as previsões delas advindas não aderem aos dados experimentais, leva à questão: que estranho poder tem a contingência do experimento, em sua particularidade e finitude, de desautorizar uma teoria geral? Não seriam esses dados necessariamente réplicas de algo também geral que se manifestaria por sua indicialização ou, em outros termos, tal manifestação não se evidenciaria como uma sequência de índices que se organizam segundo alguma regra geral? Sem aqui adentrar no que seria uma boa indução, basta que se assinale que uma certa redundância da sequência de índices – sua permanência em experimentos sequenciais similares – reforça a ideia de que seja alguma ordem meramente contingente presente nos fenômenos.
Essa seria uma segunda lição, a do despertar da crença de que a
investigação é, em verdade, da natureza de um diálogo com objetos gerais dotados de regras lógicas, de estruturas sintáticas que lhes pertencem. Essa pressuposição é, pode-se admitir, a de que há alguma forma correspondencial entre objeto investigado e sua representação teórica, e que esse objeto, não é, em absoluto, um
particular, mas algo da natureza de um símbolo200. tanto quanto o são as teorias que buscam representá-lo. Ciência é ciência do universal, já afirmavam Platão e Aristóteles – buscam-se os símbolos, e não meramente índices que os existencializam.
A partir dessas considerações, sustentar uma teoria de
espelhos 201 parece descabido. Para essa teoria, toda investigação almeja uma foto genuína do fenômeno, sua imagem perfeita. Ora, sabe-se bem que essa esperança pertence a um período da história quando, justificadamente, em face do sucesso da revolução científica na Renascença, os pensadores da época formularam a ideia de um universo similar a um relógio, cujo mecanismo seria possível de ser descoberto e representado em sua perfeição. Volte-se à história, para novamente se fazer justiça às ideias de cada época e não simplesmente condená-las como disparates metafísicos. Razões de natureza teológica, entre outras apontáveis na cultura da época, estimularam essa visão determinista de mundo
propagada até a primeira metade do século dezenove 202. Mas esse determinismo foi abandonado em filosofia na segunda metade desse mesmo século e, em ciência, na segunda década do século vinte. Darwin foi um marco ao se valer do princípio de Acaso para sua Teoria da Evolução. Mas ele não era, propriamente, um filósofo. Esse princípio foi, em finais do século dezenove, formulado em filosofia pioneiramente por Peirce, como explicitamente reconheceu
Popper203.
Abdicar da teoria do espelho jamais se formulou como um
problema para Peirce. As imagens do mundo no plano do saber, se necessárias para representá-lo, sempre deveriam ser, em sua filosofia, consideradas, de alguma forma, esmaecidas, muitas vezes desfocadas, mostrando seu objeto de modo aproximado, não obstante sob o ponto de vista preditivo, finalidade essencial do conhecimento, suficientes para mostrar que conduta futura se deveria razoavelmente esperar de tal objeto. A busca mitológica pelo conhecimento absolutamente certo foi felizmente abandonada,
e nesta tarefa Peirce foi, de fato, um pioneiro204.
Sua teoria do Acaso, introduzindo a indeterminação no plano da
ontologia do objeto, foi acompanhada epistemologicamente pela
doutrina do Falibilismo 205, a saber, que nosso conhecimento é falível, aproximado, e se encontra em processo de correção permanente. O espelho e o objeto espelhado são, assim, indeterminados em variados graus. A incerteza definitivamente moldaria a racionalidade humana e toda a tarefa do saber é reduzir o esmaecimento das imagens, até um ponto ontologicamente factível. São elas que substanciam o pensamento na forma de signos e por meio deles procuramos melhorar o foco dos objetos
imediatos com respeito aos dinâmicos 206. Prossigo aqui utilizando a metáfora rortyana do espelho apenas para mostrar como, ao contrário do uso que dela faz Rorty, ela seria factível com respeito à filosofia de Peirce.
Retomando a possibilidade de se conjecturar sobre o espírito de
uma obra filosófica, uma hipótese parece se auto sugerir, pelo longo convívio com a obra de Peirce, a saber, sobre como a formação em ciência e a sua prática experimental devam ter possivelmente inspirado Peirce a defender um realismo, não tão somente da existência de um mundo externo de particulares, senão também constituído de relações de ordem entre eles. Teria ele se interessado tão vivamente pela obra de Scotus como o fez na juventude, caso os germens do Realismo já não estivessem instilados em sua mente pela prática precoce de uma ciência
experimental207? Parece-me plausível pensar que a prática científica, a busca de ajuste de teorias, em função da alteridade dos fenômenos e da relação de ordem que exibem, sugere, para aqueles que fazem dessa prática objeto de reflexão filosófica, como o fez Peirce, um realismo de natureza escotista, ou seja, o reconhecimento de que alguns universais são reais.
Se se prossegue nessa reflexão perguntando-se sobre a natureza
desses universais, que Peirce denominou de 208 leis e, mais tarde,
de 209 210 continuidades reais , incidir-se-á no Idealismo Objetivo. Conjecturo que a ideia do idealismo em Peirce não deva ter tido origem na prática em ciência – dessa, parece plausível dizer, origina-se um realismo constituído pelos predicados de alteridade e generalidade. A história da filosofia no final do século dezenove já havia feito desfilar muitas escolas idealistas, sejam de caráter subjetivo ou objetivo. Peirce foi um sério leitor da história das ideias, e seu idealismo, conforme explicitamente confessa, foi retirado de
Schelling 211, de onde deriva a complexificação de especular não somente sobre a natureza dos universais, mas, também, sobre as relações substanciais entre matéria e idealidade, sobre o que este capítulo tratará mais adiante. Acresça-se, também, na temática da reflexão sobre o idealismo, a natureza das qualidades sensíveis, como cores, sons, odores etc., e não apenas sobre a tessitura das relações gerais reconhecidas como próprias do objeto.
A prática de uma ciência que lida com fenômenos e tem um
campo específico de experimentação, ao marcar a mente do investigador com a noção de realidade constituída por uma alteridade generalizada, não predispõe, suponho, a que se adotem posturas subjetivistas em filosofia. O lidar constantemente com o objeto, com aquilo que potencialmente pode sempre objetar à sua representação, deve induzir à admissão de uma realidade objetiva indiferente a qualquer apropriação constituidora de natureza subjetiva. Sob essa hipótese, o Realismo como posicionamento filosófico parece se harmonizar com predicações objetivas. Neste sentido, embora no atual estágio em que esta reflexão se encontra seja ainda incipiente o desenvolvimento das relações possíveis entre Realismo e Idealismo na filosofia de Peirce, vale assinalar, todavia, que tal idealismo, se simultaneamente factível com um
realismo, deva ser de natureza objetiva212. Seria, de fato, estranho admitir-se um realismo dos universais, necessariamente de natureza objetiva, simultaneamente com um idealismo centrado em um sujeito constituidor. Admitir-se um universo de símbolos reais, isto é, leis naturais que se constituem por si mesmas, independentemente do modo como possam ser representadas, requer aceitar
simultaneamente que tais leis sejam de natureza eidética213 – tal universo de símbolos reais é potencialmente representável em um universo teórico de símbolos e isso já sugere uma conaturalidade
entre objeto e signo214. O reconhecimento dessa conaturalidade, tal qual aqui se sugere, nasce apenas de uma conjectura filosófica sobre as consequências da prática científica. Na verdade, o conceito de conaturalidade está harmonicamente presente naquilo que venho chamando de simetria das categorias, não obstante formulado a partir da conceituação dessa simetria.
Considero conaturalidade um conceito importante. Ele abre
muitas portas de reflexão ontológica, a qual não se pode mais evitar, caso se queira, de fato, entender o que pretendia Peirce com sua filosofia. Mas Peirce, estudioso de Kant, não iria propor uma má metafísica, senão aquela que, à moda kantiana, esteja estritamente fundada em uma fenomenologia, com a cautela de se ter em conta o amplo conceito de fenômeno proposto por Peirce. Ao fim e ao cabo, ambos esses autores concordam sobre o que seria uma sã metafísica, mas certamente se distinguiriam sobre o que, afinal, pode ser considerado fenômeno. Sonhos para Peirce são fenômenos, assim com a irregularidade da copa de uma árvore
também o é215. Dificilmente Kant consideraria tais exemplos, até porque tal não seria de interesse teórico para sua epistemologia, em que a condição de possibilidade semântica de um fenômeno deveria estar em sua submissão a uma regra estrita do entendimento, ou seja, a da causalidade. Sabe-se, todavia, que fenômenos que gozam de alto grau de espontaneidade e que repugnam se submeter a regras causais são, em Peirce, fundamentais tanto para a epistemologia quanto para sua sempre correlata ontologia. Tratam-se, afinal, de decorrências de dois pressupostos filosóficos
distintos, a saber, 216 determinismo e indeterminismo.
Perguntas vão aos poucos surgindo nesse procedimento
heurístico de reconstrução possível do realismo-idealismo de Peirce, que não tem outra finalidade senão mostrar que tais doutrinas não necessariamente surgem de desvarios metafísicos, mas de uma reflexão sobre a natureza ontológica dos objetos de investigação científica. Ver-se-á que tal ontologia não irá perguntar inocuamente sobre o que é o ser das coisas, mas irá conjecturar sobre o que o
constitui, em face de suas 217 consequências práticas. Aqui, o Pragmatismo é convocado não apenas como regra de significado de teorias, senão também como regra lógica capaz de adentrar o universo de significação de natureza ontológica, a saber, o plano dos objetos reais.
Deixo, contudo, esse aspecto para mais adiante, retomando um
conceito precioso para a Semiótica, o de diálogo, visando enfatizar a importância da noção de conaturalidade, cuja relação com o Idealismo Objetivo é profunda.
3 Conaturalidade, dialogia semiótica e
pragmatismo
Há pouco afirmei que a investigação científica pode ser entendida
como um diálogo advindo da operação de adequação das teorias aos fenômenos, em que nesses os objetos evidenciam o que são pelo modo como aparecem. Aqui, aparecer e ser são correlatos lógicos e não aspectos que possivelmente se contradizem, como nas metafísicas da Antiguidade.
Propor refletir sobre a noção de diálogo implica em considerar a
possibilidade de modificação de conduta mediante a experiência. Mudar conduta implica em interpretar, de algum modo, o mundo fenomênico em que se está inserido. De sua vez, interpretar requer uma extração de significado pragmático, a saber, que possivelmente influencie a conduta futura. Ora, planejar conduta futura não é outra coisa que alimentar a esperança de que uma nova forma de ação, guiada por reformulação de conceitos, possa exercer o papel de mediação eficiente em relação à alteridade dos fenômenos, ou seja, com respeito à realidade dos objetos. Em um universo de existentes, essa circulação de significados capazes de modificar conduta ou, mesmo, de reforçar condutas já estabelecidas na forma de hábitos, implica em um diálogo sígnico, semiótico, portanto, em
que a noção de linguagem 218 se estende para um contexto realista de filosofia. Significado, aqui, extravasa sua mera consideração como propriedade das linguagens praticadas pelos homens, mas se estende ao todo do universo dos fenômenos, adquirindo sua legitimação pragmática. Refiro-me a essa última expressão no sentido de assentar que significação, para o Pragmatismo, implica em um estágio necessário de interação existencial, inserção em um teatro de reações – segundo o vocabulário de Peirce, de transformação do indeterminado em determinação que envolva o possivelmente contraditório em um contexto espaçotemporal. Menciono a palavra estágio para lembrar que a significação se consumará sempre em uma instância geral, ou seja, implicando em um retorno reflexivo da experiência ao plano do conceito. Sob o ponto de vista das categorias, a segundidade da experiência é um estágio necessário à significação geral no plano da terceiridade.
Ao se admitir um realismo dos universais, deve-se aceitar como
consequência a sua idealidade objetiva. Neste ponto, o idealismo nada mais é que um reconhecimento da natureza mesma do que constitui a terceiridade real. Conaturalidade no plano da idealidade também decorre do reconhecimento de que o objeto é de mesma
natureza que suas representações 219. Estruturas lógicas permeiam igualmente signo e objeto.
Um idealismo dessa estirpe constitui-se, apenas, em uma doutrina
de fundo, a saber, de mero reconhecimento de uma conaturalidade substancial entre os objetos cognoscíveis em sua generalidade e as teorias que os representam. Na linguagem da Semiótica, signo e objeto são conaturais e tal reconhecimento filosófico apenas justifica como o diálogo das teorias com a experiência pode ser possível. Doutrinas de fundo, e proponho aqui essa expressão, constituem-se, assim, em condição de possibilidade epistemológica, e não em instrumentos direta ou explicitamente eficientes para a pesquisa, malgrado se deva reconhecer que elas instituem uma visão de mundo cujas consequências extravasarão a mera efetividade de consolidação do conhecimento. Procurarei enunciar algumas dessas consequências ao final deste capítulo.
4 Mente e matéria: o Idealismo à luz
do Pragmatismo
A reflexão de Peirce sobre matéria e mente220 consta de alguns
ensaios sobre o tema 221. Nela ele especula sobre as possíveis relações entre ambas, descartando, em primeiro lugar, o cartesianismo como um dualismo que não cabe em filosofias que buscam superá-lo de um modo geral, unificando conceitos à luz da simplificação recomendada pela navalha de Ockham. De outro lado, uma relação entre matéria e mente que defenderia ser a primeira geneticamente primordial e a segunda um caso dela especial incorreria em um materialismo. Uma análise pragmática do conceito de materialismo levaria, entretanto, a confundi-lo com um
determinismo ontológico222, cuja consequência seria a redução dos fenômenos de natureza psíquica a um fisicalismo determinável por leis da matéria.
Peirce enfaticamente rejeita essa alternativa de relação entre
matéria e mente, propondo-se imaginar, exemplarmente, o quanto
seria absurdo conceber um mecanismo capaz de 223 sentir. Seria, em outras palavras, a redução dos sentimentos a leis mecânicas que os produzissem, o que, para Peirce, constituiria uma inexplicável regularidade última. Categorialmente ter-se-ia, por consequência, uma redução da primeiridade à terceiridade,
rompendo a independência daquela em relação a essa 224.
Restaria, então, como relação possível entre matéria e mente, a
subsunção da primeira em relação à segunda, caracterizando o que ele denominou de idealismo. Mas que idealismo seria esse, decorrente de uma análise lógica que parte do dualismo substancial cartesiano? Sem dúvida, dado o teor ontológico da questão, Peirce se refere a um Idealismo Objetivo, que afirmaria serem as leis físicas de natureza eidética. Contudo, lembremos que essa consequência já havia sido extraída da adoção do realismo, pela conclusão de que lei natural deve ser entendida como um sistema de relações lógicas da natureza semiótica dos símbolos e, assim
sendo, eidéticas225.
Resta, todavia, refletir mais profundamente sobre a sempre
perturbadora, para não dizer insólita para muitos estudiosos, sentença enunciada por Peirce sobre o que é matéria. A par de resumir sua argumentação a favor de um idealismo, a passagem que se segue finaliza com tal sentença:
A doutrina materialista parece-me bastante repugnante tanto à lógica
científica como ao senso comum, desde que ela requer que suponhamos
que um certo tipo de mecanismo irá sentir, o que seria uma hipótese
absolutamente irredutível à razão ─ uma última e inexplicável
regularidade, enquanto a única justificação possível de qualquer teoria é
que ela tornaria as coisas claras e razoáveis. O neutralismo é
suficientemente condenado pela máxima lógica conhecida como a navalha
de Ockham, isto é, que não devem ser supostos mais elementos
independentes que o necessário. O ato de colocar os aspectos interno e
externo da substância em um par, parece torná-los ambos primordiais. A
única teoria inteligível do universo é a do idealismo objetivo, de que
matéria é mente esgotada, hábitos inveterados tornando-se leis físicas 226 .
Sabe-se que o idealismo de Peirce, como já observado, é
derivado de Schelling 227, conforme ele próprio confessa, incluindo a sentença que afirma ser a matéria mente esgotada por hábitos inveterados. A passagem mais significativa da obra schellinguiana que mantém similaridade com o trecho da obra de Peirce retro citado é:
A matéria é, na verdade, nada mais que a mente vista em um equilíbrio de
suas atividades. Não há necessidade de demonstrar à exaustão como, por
meio dessa eliminação de todo dualismo, ou de toda real oposição entre
mente e matéria, onde essa última é tomada meramente como mente em
condição de embotamento, ou a primeira, conversamente, como matéria
em transformação […].228
Sob o enfoque do Pragmatismo, dizer o que a matéria é, é dizer
como ela se conduz fenomenicamente ou, em outras palavras, quais são as consequências práticas que dão significado possível ao conceito de matéria, considerando tais consequências como os predicados experimentalmente verificáveis da matéria, passíveis não apenas de afetar a conduta humana, mas a conduta interativa do próprio universo dos eventos materiais. Evidentemente, aqui proponho tomar a expressão consequências práticas também em um sentido radicalmente realista, ontológico, estendendo a noção de conduta a todos os seres que coabitam um determinado universo real, não obstante respeitando a gênese lógica da doutrina, que se traduz, em linhas mais gerais possíveis, na necessária passagem da indeterminação para a determinação, do geral para o particular, implicando que haja algum teatro de reações que se torne a
condição de possibilidade de tal determinação229. Mantendo essa linha amplificada de compreensão da ideia de Pragmatismo, a passagem do geral indeterminado para o particular determinado e, assim sendo, reativo para os demais particulares, é a passagem
correlativa necessária de um mundo interno230 a um externo, em que o primeiro é constituído por continuidades e o segundo por
descontinuidades 231 . Um vocabulário da teoria da continuidade aqui aparece quase naturalmente para dar suporte a uma melhor compreensão das relações necessárias entre o geral e o particular. Vou me valer dele não apenas como alternativa ao emprego dos termos geral/particular, como também em um contexto explicitado adiante e atinente com o sentido ontológico das categorias peircianas.
Embora aparentemente se esteja, com essas considerações,
extrapolando os limites do Pragmatismo 232 para além de seu propósito de se constituir em regra semântica associada à conduta humana, em verdade se procura, aqui, interfacear os vocabulários da Lógica e da ontologia, buscando criar, à luz do pano de fundo do realismo, ferramentas heurísticas mais potentes para a
compreensão da 233 simetria das categorias. De fato, essas relações entre o particular e o geral, mundos interno e externo, continuidades e descontinuidades, se consumam nas inter-relações entre as três categorias de Peirce. Enquanto a primeira e terceira categorias são de natureza contínua ou, em outros termos, abrigam o modo de ser do que é contínuo, geral e interior, a segundidade configura-se como o modo de ser do teatro de reações que abriga o descontínuo, o particular, o lado exterior das outras duas categorias. Essas considerações sobre as três categorias de Peirce devem valer – novamente recorrendo ao pano de fundo do realismo-idealismo do autor – tanto fenomenologicamente quanto ontologicamente e, por essa razão, justifica-se empregar a expressão simetria das categorias, com ela significando três modos de ser que indiferenciam ou simetrizam direitos lógicos entre sujeito e objeto, homem e Natureza, rompendo de modo radical dualismos de gênese e propondo o abandono de posturas antropocêntricas de filosofia.
5 O Idealismo fundado
evolucionariamente
Uma das funções do Idealismo Objetivo de Peirce, conforme a
exposição anterior, é romper o dualismo mente-matéria de modo a considerar o universo material uma forma especial de mente, cuja conduta estaria tomada por hábitos arraigados. O entendimento dessa proposição implica, então, em entender as leis naturais como hábitos de conduta da matéria, e a utilização dessa terminologia assume relevância ao permitir a reflexão sobre como tais hábitos foram adquiridos, abrindo uma porta conceitual de imbricamento do idealismo com alguma forma de evolucionismo. A hipótese de Peirce sobre a formação dos hábitos da Natureza, ou seja, sobre a origem das leis naturais, é, a propósito, uma de suas ideias mais
brilhantes, segundo a opinião de William James234. De um lado,
Peirce propõe um evolucionismo que permeará toda sua filosofia235. De outro, na mesma linha de argumentação, ele conjectura sobre a formação das leis da Natureza. Vejamos uma passagem crucial de sua obra sobre o tema:
Que espécie de explicação pode, então, haver? Respondo que podemos
esperar por uma explicação evolucionária. Podemos supor que as leis da
natureza são resultados de um processo evolucionário. 236 [...] Mas, se as
leis da natureza são o resultado de uma evolução, este processo
evolucionário deve ser suposto ainda em progresso. Pois ele não pode
estar completo na medida em que as constantes das leis não encontraram
nenhum limite possível último. Além disto, há outras razões para esta
conclusão. Porém, se as leis estão ainda em processo de evolução de um
estado de coisas no passado infinitamente distante no qual não havia
quaisquer leis, segue-se que nem mesmo agora os eventos são
absolutamente regulados pela lei.237
Sequencialmente, Peirce especula sobre uma tendência objetiva
de aquisição de hábitos:
Mas, se as leis da natureza são resultados da evolução, esta evolução
deve proceder de acordo com algum princípio; e este princípio será, em si
mesmo, da natureza de uma lei. Porém, ele deve ser uma lei que pode
evoluir ou se desenvolver por si mesma [...] Evidentemente ela deve ser
uma tendência à generalização ─ uma tendência generalizadora [...]
Contudo, a tendência generalizadora é a grande lei da mente, a lei de
associação, a lei de aquisição de hábitos [...] Assim, sou levado à hipótese
de que as leis do universo têm sido formadas sob uma tendência universal
de todas as coisas à generalização e à aquisição de hábitos. 238
Esse sempre me pareceu o argumento mais forte a favor de seu
Idealismo Objetivo. De fato, perguntas de gênese como as que Peirce formulou sobre as leis naturais só podem ser feitas se o sistema teórico da filosofia comportar uma metafísica sã, ou seja, fundada na Fenomenologia e na Lógica, e tal como ocorre no sistema filosófico peirciano.
Leis naturais são, então, hábitos adquiridos por uma tendência
típica do universo mental. Esse argumento evidentemente propõe um idealismo de teor objetivo, uma vez que conjectura sobre a capacidade da Natureza de generalizar, ou seja, de uma competência indutiva. De fato, o desdobramento mais radical do realismo-idealismo de Peirce irá evidenciar que duas formas lógicas se encontram objetivamente nos processos naturais, a saber, Abdução e Dedução. Embora não caiba aqui uma exposição mais profunda sobre este ponto, brevemente se pode dizer, apenas satisfazendo a possível curiosidade daqueles que não tiveram contato com essa parte da obra de Peirce, que abduções naturais são evidenciadas pela inserção de diversidade e crescente
complexificação do universo239, enquanto as leis da Natureza atuam dedutivamente sobre os eventos que lhes são pertinentes, isto é, fazendo com que eles transcorram por necessidade das regras que as constituem.
Há assim um monismo substancial eidético que se associa ao
realismo e que, na verdade, é sua condição de possibilidade, à luz do argumento evolucionário sobre a origem das leis naturais. Leis surgem como hábitos adquiridos e tal somente pode se dar mediante uma tendência de natureza eidética. Permanece o idealismo uma doutrina de fundo, que viabiliza a realidade das continuidades que constituem a primeira e a terceira categorias. O universo de descontinuidades da segunda categoria não deve, de sua vez, ser substancialmente estranho à idealidade, uma vez ser ele, na fundação das categorias, o locus do aparecer como exterioridade da primeiridade e da terceiridade. Admitida essa condição de harmonia substancial entre as categorias como modos de ser da realidade, a matéria deve ser considerada, assim, de natureza eidética, uma vez ser ela o que constitui a existência dos objetos em sua particularidade.
É interessante, sob esta linha de desenvolvimento da ontologia de
Peirce, lembrar como ele afirma que
O pragmatismo é uma doutrina correta apenas na medida em que se
reconhece que a ação material é o mero aspecto exterior das ideias […]
Mas o fim do pensamento é a ação na medida em que o fim da ação é
outro pensamento.240
Evidenciando como pensamento e ação são conaturais e
interativos, como relações que se estabelecem entre o geral e o particular, ou entre interioridade e exterioridade. Assim, ação deliberada não seria outra coisa que pensamento dotado de propósito, que adentra um universo de reatividade existencial.
6 Idealismo e a noção peirciana de
vida
Matéria, conforme conceituado, é então uma forma de mente
governada por hábitos inveterados, significando que seus predicados possuem um grau acentuado de estabilidade e, sua conduta, alto teor de redundância. Contudo, esses hábitos não são completamente cristalizados e determinantes de um comportamento exato que constituiria um universo de leis estritas conducentes a uma concepção determinista de mundo. Peirce irá afirmar que a presença da primeiridade na conduta da matéria, nela atuando por meio do Acaso, promove certo grau de erraticidade, fazendo com que aquelas leis ou hábitos sejam de natureza probabilística. As regularidades do universo são, assim, meramente aproximadas, e os eventos naturais acusam, por um lado, a presença da primeiridade que insere, sempre, por meio do princípio de Acaso, dispersão, irregularidades e assimetrias, enquanto, de seu lado, a terceiridade atua na existência fazendo-a redundante, habitual, malgrado de modo não estrito.
É a presença da terceiridade real, a propósito, que proporciona
toda e qualquer operação cognitiva, a qual sempre depende, para ser possível, da condição de seus objetos se apresentarem fenomenicamente organizados espaçotemporalmente. Um mundo caótico não seria absolutamente cognoscível – essa necessidade de uma ordem real como condição de possibilidade epistemológica
talvez seja a mais vigorosa prova do Realismo241. Recorrendo-se ao vocabulário do Sinequismo, cognição requer continuidades reais que possam ser representadas no continuum do pensamento. Na filosofia de Peirce, pode-se dizer, epistemologia e ontologia se entrelaçam de um modo que dificilmente se possa pensar uma sem a outra.
À luz dessas considerações, pode-se definir, entre o que se
denomina mente e matéria, uma gradação de vivacidade ou de vida, associando um grau maior à mente e um menor à matéria, e isso seria o mais importante critério de distinção entre elas, uma vez que se tenha desfeito o dualismo substancial instaurador de uma cisão de natureza. Mas, o que definiria tal vivacidade? Quais seriam seus predicados mais importantes?
Parece ser lícito afirmar que a capacidade de romper hábitos que
se mostram inadequados como mediações, com respeito à alteridade com a qual se coabita, é uma medida adequada para aferição desses graus de vivacidade. Uma certa capacidade assim considerada envolve propósitos e, por conseguinte, uma vez que a consecução de tais propósitos esteja comprometida por uma interação existencial ou conduta inadequadas, justifica-se a ruptura dos hábitos que atuam como guias de ação.
A partir desse ponto, parece ser legítimo convocar o conceito de
aprendizagem, nesse sentido de mudança deliberada de hábitos, abandonando-se aqueles que não se evidenciam mais como mediações eficientes para os propósitos da conduta. Hábitos ineficientes para os fins pretendidos, se permanecem como tais, acabam interrompendo o diálogo semiótico da mente com seu ambiente de interação existencial, diálogo esse que é o esteio mesmo do que se pode denominar aprendizagem. Aprender, portanto, é estar potencialmente apto a mudar conduta, e essa capacidade para assim proceder define o principal parâmetro determinador do grau de vivacidade mental. Uma mente viva deve manter aquele diálogo e, por assim fazer, à luz do Falibilismo, pode incidir frequentemente em erros que exigirão mobilizar com mais agilidade ainda recursos de correção de conduta, até que novos hábitos possam se instalar com o predicado, sempre, de mediações eficientes diante da alteridade.
O emprego do termo mente em um sentido realista, tal como aqui
se faz, não se reserva ser exclusivamente humano, mas extensivo a todos os seres que coabitam algum universo semiótico, ou seja, em que haja uma circulação, um comércio de signos e significações pragmáticas, isto é, aptas a afetar a conduta. Sob essa ampla significação, então, se considera não apenas o universo humano, senão também os universos animal e vegetal, cada um deles inserido distintamente dentro da gradação de vivacidade definida pela respectiva competência de aprendizagem.
7 A continuidade da vida
A concepção peirciana de universo se desenha como algo
essencialmente dinâmico, uma realidade inacabada, em que uma natureza eidética tudo permeia e em que, sob um fundo de idealidade substancial, os atores que o coabitam partilham os modos de ser das três categorias.
Uma vez mais se deve repetir que o idealismo não é uma doutrina
operacional no sentido de ser essencial ao bom andamento da investigação científica – uma vez fundada e reconhecida, ela não necessita ser mais convocada para solucionar problemas que impliquem em escolhas de mediações e de conduta. Peirce, após formulá-la, suponho ser por essa razão, não necessitou mencioná-la
como suporte a outras doutrinas242. Ela permaneceu no fundo, como cenário de um teatro vital de natureza semiótica e pragmática. Essa natureza desenha-se no Universo de Peirce como a contínua produção de signos, de interpretantes que antecedem a adoção de uma conduta, e que nela se consumam como seu lado externo, na forma de ação deliberada e dotada de propósito.
As ciências especiais, na classificação das ciências de Peirce,
dependem da filosofia. De um modo mais diretamente evidente, tal dependência se dá com respeito à Fenomenologia e à Lógica ou Semiótica, mas menos evidente com relação às demais Ciências Normativas, a saber, Estética e Ética e, talvez menos ainda, à Metafísica como ontologia. Todavia, a consciência e o reconhecimento dessa dependência não evidente acabam por conduzir a investigação afeita a uma ciência especial a um patamar heurístico mais elevado, não apenas pela introdução de um vocabulário enriquecedor, que proporcionará a percepção de aspectos novos dos fenômenos, mas, também, por trazer o reconhecimento filosófico da igualdade de direitos lógicos introduzido pela simetria das categorias.
Uma ciência como a Biossemiótica terá seus horizontes
ampliados, não tão somente pelas razões mencionadas, mas pela possibilidade de considerar seu objeto primordial, a vida, à luz de um Idealismo Objetivo condicionante de um realismo. A realidade vista sob a lente dessas doutrinas permite justificar procedimentos naturais dotados de propósito e, portanto, necessariamente interpretativos, exibindo a presença de inteligência na construção de mediações em relação ao ambiente circundante, envolvendo processos de cognição que buscam representar a conduta da alteridade para a ela adequar sua própria conduta.
Se se considera inteligente todo procedimento que, de algum
modo, envolve propósito e conduta deliberada, verificar-se-á que a
Natureza está plena deles 243, e os seres que nela coabitam partilham um propósito geral e comum a todos eles, a saber, a continuidade da vida. Saber isso proporciona, a par do reconhecimento da idealidade substancial da Natureza, olhar para ela com admiração, finalidade última de natureza estética que determinará uma desejável Ética da investigação.