Semiótica e Pragmatismo: Interfaces Teóricas, Volume 2

Apresentação

 

https://doi.org/10.36311/2021.978-65-59541-28-7.p13-19

 

Ivo Ibri is a philosopher and engineer with the heart of a poet. There is a

core aesthetic dimension to his life and work that bears witness to Peirce´s

conviction that before there can be meaning there must be feeling.

(Nathan Houser, Sementes de Pragmatismo na Contemporaneidade,

FiloCzar, 2018)

 

A afirmação colhida em Houser constitui síntese da atividade

intelectual de Ivo Ibri, por isso a tomamos como epígrafe dessa apresentação; entretanto, parece instigante tentar recuperar o percurso daquela trajetória, que ocorre como exercício reafirmado em aulas, conferências, artigos e reflexões retomados como prática cotidiana. Ivo Ibri desenvolve a atividade diária, amenizando-a com sua capacidade de refletir poeticamente.

Há mais de trinta anos, convivo com a produção científica de Ivo

Ibri e acompanho o desenvolvimento de sua leitura da obra de Peirce, entretanto, há grande diferença entre a leitura curiosa e a reflexão necessária à apresentação de um trabalho que reúne, em livro e em segunda coletânea, a produção de trinta anos. Tenho o prazer de apresentar esse segundo volume de Semiótica e Pragmatismo e procuro encontrar, entre a reflexão de Ibri e minha própria leitura, os vetores daquela trajetória.

Não há dúvida de que, na atmosfera acadêmica brasileira, a

atuação de Ivo Ibri ocupa lugar de destaque, como decorrência da iniciativa de investigação e parceria que os Encontros Internacionais sobre Pragmatismo promovem entre pesquisadores nacionais e internacionais. Esses Encontros dão à atividade de investigação da obra de Peirce, desenvolvida no Brasil e na Universidade Católica de São Paulo, indubitável lugar de prestígio. A liderança de Ibri lançou o país e a Universidade na atmosfera internacional do debate filosófico e, sobretudo, permitiu, no Brasil e em São Paulo, um adequado florescimento da pesquisa da filosofia de Peirce. A liderança de Ibri é aquela de um semeador de promessas para hoje e amanhã. Essa figura de alguém que dissemina ideias constitui um dos vetores da produção científica de Ibri e está presente na raiz da epígrafe que inspira esse prefácio: cabe-nos recolher essas sementes. Vejo-me impelida a ir além da leitura prazerosa, a fim de empreender a interlocução com a obra que se apresenta e valorizar os pontos que poderão inspirar o prazer de outras leituras e, talvez, levar a florescer sementes de novas pesquisas ou estimular outros pesquisadores da obra de Peirce.

Dividido em três seções, além de um capítulo inicial no qual se

apreende o desenvolvimento dos Estudos do Pragmatismo de Peirce no Brasil, o livro apresenta, para cada seção, um título abrangente que resume o objetivo de estudo em cada uma. Desse modo, a leitura pode ser guiada por aqueles títulos que versam

sobre: Teoria dos Hábitos, Pragmatismo e Idealismo Objetivo,

Pragmatismo e Pragmaticismo. O sumário do volume constitui, portanto, uma eficiente sinalização de leitura pois, além de permitir acompanhar um possível trajeto eficiente de compreensão da filosofia de Charles Sanders Peirce, apresenta aquilo que Ibri entende como didática da filosofia à luz do que denomina Idealismo Objetivo e interface entre Semiótica e Pragmatismo. A organização da obra constitui, em resumo, um convite à leitura de alguém que convive com a rede de conceitos elaborada por Peirce e a apresenta de modo a ser possível apreender a arquitetura daquele sistema filosófico. Aceitemos o convite.

Porém, aceitando o convite, é necessário ponderar que a filosofia

de Peirce nos estimula a simplesmente “contemplar o mundo” enquanto experiência que se desenvolve, na medida em que nos desembaraçamos de limites norteadores de uma rede conceitual que nos permite ir além dela.

Embora a filosofia de Peirce se apresente como uma

fenomenologia, sua proposta desmobiliza, desde o início, qualquer redução perceptiva rumo a um conceito essencial, ou seja, a fenomenologia proposta por Peirce solicita simplesmente atenção ao modo de ser da experiência. Nesse sentido, observa-se que “estar no mundo” é completamente diferente do que “estar ante o mundo”, como aponta a tradicional fenomenologia de Husserl.

Entretanto, a atenção àquela base fenomenológica de

simplesmente “estar no mundo” parece ser essencial para apreender a estranha rede epistemológica construída por Peirce, ao superar qualquer prática metodológica como base explicativa do mundo decorrente de uma simples aplicação conceitual. Indo além de um rigor metodológico como caminho a seguir, Peirce considera a simetria do mundo como objeto cognitivo que se propõe como alteridade e desafia o conhecimento.

Esse cuidado nos encaminha para a apreensão da conexão

conceitual que, liderada de modo prudente pela liberdade de pensar, se denomina heurística, e desenvolve uma lógica não necessária ou exclusiva, mas simplesmente possível para elaborar as conjecturas que pensam o mundo. Nessa lógica, encontram-se as diretrizes de diferentes aspectos observados pela análise cuidadosa que Ibri desenvolve da filosofia de Peirce e possibilita apreender a base de elementos essenciais sugeridos pela leitura de Semiótica e Pragmatismo volume 2. Entre aqueles aspectos, há alguns que, constantes, são norteadores da leitura desenvolvida por Ibri e resultados do seu convívio com a filosofia de Peirce.

A proposta de uma penetrante capacidade abdutiva assinala a

apreensão de coordenadas essenciais do Pragmaticismo que colocam Peirce em posição distinta do simples pragmatismo como filosofia da ação, considerada posição marcante de seus contemporâneos e raiz de uma compreensão instrumental do signo e da linguagem. Indo além da exclusiva dimensão instrumental da representação, observa-se a natureza mais exigente da relação entre mente e natureza que, ao final, supera toda possibilidade de uma proposta filosófica de base antropocêntrica.

É aquela aguda capacidade abdutiva que permite a Ibri a

percepção do Idealismo Objetivo, que Peirce colhe em Schelling, mas desenvolve na proposição de reais universais que estabelecem a conaturalidade entre sujeito e objeto do conhecimento. A percepção desse idealismo objetivo permite, a Ibri, explicitar com clareza didática a matriz do falibilismo como constante epistemológica do conhecimento, ao lado da indeterminação e do sinequismo como matrizes ontológicas, surpreendidas pelo acaso que constitui chave mestra da evolução do conhecimento. A leitura do artigo A Formação de Hábitos e a Origem das Leis, que compõe a sessão Sobre Teoria dos Hábitos, nos permite apreender aquelas matrizes do conhecimento proposto pela filosofia de Peirce.

De um lado, esse idealismo objetivo permite a Ibri estudar, no

pragmatismo de Peirce, a posição das ciências normativas e a consequente eticidade que, complementada pela cumplicidade estética, constitui o elemento norteador da rede conceitual realista que estabelece a relação entre mundo externo e interno, apreendido formalmente através das categorias semióticas entendidas, não como estruturas explicativas do mundo, mas estruturantes das relações universais de simetria entre sujeito e objeto do conhecimento, tal como está presente em A Face Estética da Epistemologia Pragmaticista de Peirce na sessão Sobre Pragmatismo e Pragmaticismo. Por outro lado, observa-se que, se as coordenadas do tempo cronológico registram a contiguidade entre crenças e hábitos e justificam a mediação da terceiridade, impõe-se também a percepção da experiência do mundo através de adesões atentas a simples estímulos sensíveis, apreendidos de modo desinteressado e no compasso indeterminado do tempo contínuo da primeiridade, estabelecendo a diferença entre Chronos e Kairós. A leitura de A Dupla Face dos Hábitos: Tempo e Não tempo na Experiência Pragmática, presente em Sobre Teoria dos Hábitos, permite entender a síntese que é contemplada pelo sentido da epígrafe desse prefácio e constitui a matriz de vários textos ou fragmentos de observações que compõem o livro.

A sólida base conjectural estabelecida pelo idealismo objetivo

permite o desenvolvimento de leituras inspiradas pelo contemporâneo e constata, ao mesmo tempo, o confronto entre a realidade enquanto choque bruto próprio da segunda categoria de Peirce e o embate entre interpretantes emocionais e lógicos inspirados, respectivamente, pela imprevisibilidade da primeiridade e a inalienável relação entre crenças e hábitos que caracteriza a terceiridade.

À luz dessa dominante, há artigos que nos levam a perceber

como Ibri recupera a fundamentação teórica da filosofia de Peirce para produzir a leitura fenomênica da realidade social. Entre esses trabalhos, situam-se A Mente Semiótica Resiliente: Relação Conflituosa e Agápica entre os Interpretantes Lógicos e Emocionais e Aspectos Éticos das Fake News e Fatos Alternativos: Uma Abordagem Semiótico-Pragmática, presentes, respectivamente, nas sessões Sobre Pragmatismo e Idealismo Objetivo e em Sobre Pragmatismo e Pragmaticismo.

Nos dois artigos, temos a possibilidade de verificar como Ibri

opera com o Pragmaticismo levando seu leitor a perceber a diferença entre verdade e realidade ou a diferença entre representação das leis que regem os fatos e os fatos que delas decorrem. No primeiro trabalho, evidencia-se, de um lado, a tendência do interpretante lógico de se adaptar de modo resiliente ao embate da alteridade e, de outro, a adesão a um interpretante emocional que permite a flexibilidade de uma resiliência que reconhece a diferença estabelecida entre alteridade e imposição do outro, apresentado como choque bruto induzido pela realidade dos fatos. No segundo trabalho e conforme o título, Ibri encaminha-se, não propriamente para a leitura das frequentes Fake News, mas volta-se para o estudo da fragilidade da dimensão ética, que se submete ao fato, entendido como verdade indiscutível e dogmática. Na dominante daquela fragilidade, confundem-se ética e moral e induz-se a compreensão da crença como verdade monossêmica que impede a experiência polissêmica, facultada à mente aberta aos embates sociais e, como consequência, resiliente à definitiva capacidade de evoluir, aprender e, talvez, alterar a conduta.

A evolução cognitiva capaz de aprender é estimulada, de um lado,

pela experiência da qualidade sensível que se revigora na constante indeterminação do conhecimento e, de outro, pela corajosa capacidade de assumir o desafio da alteridade que se manifesta como diferença que habita, ao mesmo tempo, a imprevisibilidade do sentir e a cognoscibilidade, desafiados pela regularidade social de crenças e hábitos. Essa dupla manifestação da alteridade põe em evidência a diferença entre ser e ser representado, na medida em que aproxima o evoluir e o aprender. Essa é a realidade presente no idealismo objetivo que parece orientar a reflexão de Ivo Ibri e nos é apresentada como convite de convivência com o pensamento de Peirce.

A leitura de Semiótica e Pragmatismo volume 2 constitui, não só,

a possibilidade de estudar com um pesquisador da filosofia de Peirce, mas sobretudo, apreender outras dominantes reflexivas do Pragmatismo, nos seus nexos teóricos com a Semiótica. Com Ibri, é possível reler Peirce e descobrir que a realista tessitura da sua rede conceitual possibilita, ao homem, reconhecer seu lugar na simetria da natureza e levá-lo a superar dimensões dualistas que parecem marcar nossa cultura.

 

Lucrécia D´Alessio Ferrara

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo