Semiótica e Pragmatismo: Interfaces Teóricas, Volume 2

I – Tópicos sobre os estudos do Pragmatismo de Peirce e filosofia norte-americana no Brasil

I – Pragmatismo de Peirce e

 

filosofia norte-americana no

 

Brasil 4

 

1 Panorama dos estudos de filosofia

 

norte-americana no Brasil

 

Cumpre registrar que os estudos mais aprofundados que ocorrem

da filosofia norte-americana em meu país referem-se à obra de Charles Sanders Peirce (1839-1914). Comparavelmente, é bem menor o volume de pesquisa da obra de Dewey e, suponho, menos ainda da obra de James. Dewey tem sido estudado na área de filosofia da educação, um curso de pós-graduação independente do

curso de filosofia em minha universidade5. Há grandes especialistas nesta área da educação em meu país, muitos deles versados na pedagogia de Dewey. Há também, no Brasil, inúmeros estudiosos da obra de Rorty.

Peirce foi trazido ao Brasil principalmente por semioticistas, no

final da década de 1970. Em contato com colegas semioticistas, professores na área de comunicação, pude com eles colaborar com minha formação na área de ciências exatas, pois me graduei em engenharia civil. Na época, interessava a conexão entre Semiótica e teoria da informação, cujo desenvolvimento dependia de linguagem matemática. Por este viés, cheguei à obra de Peirce e, com certo background que tinha em filosofia, logo percebi que havia nela muito mais que uma teoria dos signos, e que uma justificativa da Semiótica como ciência deveria ser buscada no interior do que então me parecia um imenso conjunto de ideias. Tive imediata identificação com o pensamento de Peirce – sua formação científica, seu amor pela Lógica e pela pesquisa investigativa, a par de seu vasto diálogo com a tradição filosófica – sua obra sugeria se constituir em um sistema teórico cujo estudo poderia trazer uma contribuição possivelmente original a uma compreensão mais aprofundada da Semiótica. O significado desta ciência parecia-me se estender para além da constituição de uma ciência meramente taxonômica dos signos. De outro lado, divulgar no Brasil um autor absolutamente novo no campo da filosofia também se apresentava como uma tarefa desafiadora.

Após alguns anos de estudo autodidata da obra de Peirce, fui

convidado a dar, experimentalmente, um curso de Semiótica no Departamento de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), ao que se seguiram meus trabalhos de mestrado, em 1986, e doutorado, em 1994 – ambos sobre aspectos do pensamento peirciano.

Em 1998, fundei o Centro de Estudos de Pragmatismo da PUC-

SP, formando dentro dele diversos grupos de estudos temáticos sobre Peirce e sobre autores que lhe foram caros, como Kant e Schelling, por exemplo. Nesse mesmo ano de 1998, foi promovido o 1º Encontro Internacional sobre Pragmatismo (EIP), que em 2019 completou sua 19ª edição. Os Encontros têm estimulado muito os estudos de Pragmatismo em meu país, mormente porque paralelamente à apresentação de palestras seniores de scholars internacionais convidados, abrimos, a partir de 2004, um espaço para apresentação de comunicações, inicialmente constituídas por palestras curtas de jovens mestres e doutores e de alunos de pós-graduação do Brasil e de diversas partes do mundo. Atualmente, as participações nessas seções têm contado também com a presença de professores seniores, o que, juntamente com a participação dos convidados para conferências, cuja intervenção nos debates sempre é de extrema valia para os jovens pesquisadores, tem em muito contribuído para a integração entre pesquisadores com diferentes níveis de formação e atuação. Em 2018, celebramos 20 anos dos Encontros Internacionais sobre Pragmatismo, consagrando um evento que tem crescido em tamanho, interesse e, para minha satisfação, prestígio internacional.

No ano de 2000, fundei a revista Cognitio, especializada em

Pragmatismo, visando publicar as conferências seniores dos EIPs, bem como receber submissões de textos de filosofia, não apenas sobre Pragmatismo, mas que ao menos tivessem uma área de intersecção com ele. Seguiu-se, em 2004, a fundação da revista Cognitio-Estudos, com escopo semelhante, embora voltada para jovens pesquisadores. Ambas têm publicado pontualmente dois volumes por ano.

Como consequência, pela primeira vez no Brasil, começou um

trabalho sistemático de desenvolver a filosofia clássica norte-americana, no âmbito de cursos de pós-graduação, com produção de trabalhos de mestrado e doutorado. Apenas sob minha

orientação, já foram concluídos e estão em fase de conclusão6 oitenta teses e dissertações específicas em filosofia americana, com uma predominância significativa de teses sobre a obra de Peirce e, dentre elas, temas sobre o diálogo de Peirce com nomes clássicos da história da filosofia, como Scotus, Descartes, Berkeley, Hume, Kant, Schelling, Fichte, Hegel etc. Devo também mencionar o trabalho pioneiro de estudiosos da obra de Peirce em meu país, seja na área de Comunicação e Semiótica, bem como na da Filosofia: professores Lauro Silveira, Lúcia Santaella, Lucrécia Ferrara, Décio Pignatari e muitos outros que foram intelectualmente moldados por eles.

Cumpre enfatizar que temos recebido em nosso Centro alunos de

todas as partes do Brasil interessados em estudar Pragmatismo, muito em função do alcance e divulgação trazidos pelos Encontros Internacionais de Pragmatismo e pela revista Cognitio.

É importante ainda relatar que os estudos de filosofia norte-

americana no Brasil, quando de seu início no final da década de 1970, eram olhados com desconfiança e preconceito pelos departamentos de filosofia das universidades mais tradicionais do país. Inicialmente, parecia-lhes que os Estados Unidos não poderiam ter gestado filosofias cuja profundidade se igualasse à dos clássicos europeus. Somente o tempo e a persistência dos estudiosos, divulgando seus trabalhos e conquistando espaços acadêmicos de discussão, puderam reverter tais preconceitos. Pode-se hoje dizer que a filosofia de origem norte-americana é respeitosamente recebida no meio filosófico brasileiro. Em parte, esta aceitação se deu porque se insistiu em tornar evidente que, no interior da filosofia norte-americana, situavam-se argumentos originais para o tratamento de questões clássicas da história da filosofia. Tal linha de trabalho estabeleceu uma abertura dialógica com os autores que tradicionalmente frequentavam há muito mais tempo os departamentos de filosofia. Em particular, a escola clássica alemã, muito estudada em meu país, teve em Peirce um interlocutor de peso, que trouxe propostas originais para a reflexão dos problemas mais profundos colocados pelo idealismo alemão. Peirce, como se sabe, se destacou na filosofia norte-americana como um grande e importante lógico. A este respeito, cumpre também comentar que os lógicos brasileiros têm estudado a obra de Peirce de modo mais intenso nos últimos anos. A revista Cognitio, a propósito, dedicou algumas de suas edições a estudos de Lógica, alguns deles inspirados em temas peircianos. Também, números anteriores da revista publicaram trabalhos sobre lógica dos grafos e a originalíssima lógica da Abdução [Abduction].

 

2 Refletindo sobre a específica

 

recepção do pensamento de Peirce no

 

Brasil

 

Como comentei anteriormente, dentre os autores da assim

chamada filosofia norte-americana, há um interesse mais destacado na obra de Peirce.

Peirce dialogou com muitos autores da história da filosofia,

menciono mais uma vez, apresentando soluções originais para velhos e tradicionais problemas filosóficos. Em especial, seu diálogo com o idealismo alemão, cujo pensamento desde há muito teve grande acolhida no Brasil, trouxe o interesse dos estudiosos desta especialidade na obra de Peirce, abrindo um espaço de debate com a inserção de um pensador norte-americano antes visto com reservas pelos departamentos. Tal reserva, como disse anteriormente, constituía, por um lado, mero preconceito de considerar que uma filosofia de origem norte-americana não teria, por não dispor da mesma tradição e longa história do pensamento europeu, alcance conceitual para debater com grandes nomes da filosofia, como Kant e Hegel. Por outro lado, constatava-se também, até certo ponto, uma espécie de ranço ideológico que, nas vezes em que aparece no mundo da cultura, desfaz, a meu ver, dogmaticamente as possibilidades de qualquer debate inteligente.

Assim, a recepção de Peirce se fez não porque houvesse algo

notavelmente “norte-americano” em sua filosofia, mas porque tematicamente seu pensamento permitiu dialogar com outras escolas de filosofia já estabelecidas no Brasil. Sob este aspecto, o caminho do pensamento de Peirce no Brasil se deu pelo viés de se mostrar universalista, sem, assim, propriamente, um conteúdo que o evidenciasse como culturalmente “norte-americano”.

A contribuição brasileira ao estudo de Peirce se deu não apenas

pelas vias mais conhecidas de sua obra, a saber, a Semiótica, o Pragmatismo, sua teoria da ciência e sua Lógica, mas de modo muito especial pela sua Metafísica. O interesse nesta área de seu pensamento produziu algumas publicações originais sobre as doutrinas metafísicas do autor, incluindo sua tão pouco estudada, e diria também, tão pouco compreendida cosmologia.

Interessou-me sobremaneira, desde longa data, o estudo da obra

de Schelling a partir da declaração de Peirce de que aquele autor alemão o havia influenciado de maneira marcante. Esta interface com o pensamento schellinguiano tem aberto um território conceitual muito interessante no meio filosófico brasileiro. Tal território de conceitos volta-se para o diálogo entre estes dois filósofos realistas, no sentido escolástico do termo, que partilham uma ontologia extremamente fecunda, sugerindo linhas de pesquisa inspiradas em ambos e que ainda não têm sido devidamente exploradas, a saber, o desenvolvimento de uma teoria semiótica da arte que tenha em conta uma metafísica do objeto. Não deveria ser estranha esta linha de estudos mesmo para aqueles que estudam Peirce exclusivamente voltados para a lógica da investigação [logic of inquiry]. Estes scholars, ao estudarem a teoria da Abdução de Peirce, certamente tiveram que lidar com conceitos como instinto, adivinhação, introvisão, sentimento cognitivo, que geram certo espanto em todos que, pela primeira vez, tomam contato com eles, espanto que possivelmente se transforma em profundo incômodo para mentes de formação mais acentuadamente dedutivista.

Mentes possivelmente mais abertas e com um leque de

interesses mais amplo, não tendem a ficar no plano meramente epistemológico do Falibilismo de Peirce, mas adentram também a ontologia que se associa a esse Falibilismo, a saber, a presença da categoria da primeiridade que atribui aos objetos reais graus de liberdade e dispersão em relação às leis naturais. O realismo de Peirce nos obriga a pensar simetricamente, ou seja, de acordo com

a 7 simetria das categorias, as quais não são apenas definidoras de classes de nossa humana experiência, mas constituem, também, modos de ser da realidade. Peirce concebe que o real contém elementos gerais, continuidades e, principalmente, alteridade [otherness]: uma fundamental independência em relação a todas as suas formas de representação. Esta simetria categorial, isto é, esta dupla validade das categorias tanto para o plano do mundo humano quanto do natural, impõe que se estude a epistemologia de Peirce associada à sua ontologia: entre signo e objeto deve haver um diálogo semiótico. Para que haja “dupla mão de circulação de signos”, devem-se romper quaisquer relações de estranhamento substancial e de forma entre homem e Natureza.

Este foi o esforço intelectual de Peirce ao conceber uma filosofia

que deixasse necessariamente de ser antropocêntrica. O antropocentrismo conduz a uma subjetividade constituidora das formas gerais – este é o caminho pelo qual o estranhamento da relação homem-Natureza tem gênese. Segundo a crítica de Peirce, esta tem sido a tradição da filosofia ocidental em geral, uma tradição nominalista. Ao desenvolver esta crítica, ele já traz uma contribuição original à filosofia, pois todos os sistemas podem ser vistos à luz da questão dos universais. Levar o realismo de Peirce aos estudantes de filosofia provoca a percepção de que se trata de um autor diferenciado de todos os sistemas nominalistas que fazem parte da tradição da história das ideias, e com os quais obrigatoriamente têm contato em seus cursos. A ruptura do estranhamento tal qual aqui o considero proporciona novos e heurísticos caminhos para uma reflexão filosófica original, da qual, suponho, mesmo Peirce não se deu conta ou, alternativamente, não teve tempo de vida para inseri-los em sua já imensa obra. Entre estes novos caminhos, abrem-se justificativas sobre a possibilidade do conhecimento, em face do trânsito sígnico substancialmente conatural entre representação e realidade, entre pensamento e mundo. A doutrina que consolida esta conaturalidade substancial foi denominada por Peirce de Idealismo Objetivo, cujas raízes, confessa ele, já se encontravam em Schelling.

Todavia, há muito mais que apenas consequências

epistemológicas advindas do sistema filosófico de Peirce. Não creio que haja sistema filosófico mais adequado a proporcionar uma clara visão dos limites da racionalidade e da cientificidade humanas na apreensão da realidade. Ao invés de condenar como perversa tal racionalidade por desdenhar o universo da arte, dos sentimentos humanos e de tudo aquilo que não cabe em juízos cognitivamente lógicos, como fazem muitos sistemas filosóficos europeus, o sistema peirciano, ao introduzir o conceito de primeiridade [firstness], abre portas para a consideração de elementos de indeterminação e vagueza como constitutivos da realidade. Com tais elementos, pode-se refletir sobre um contínuo entre ciência e arte que envolve as relações entre, de um lado, mediação e temporalidade e, de outro, imediação e não tempo. Suponho, a título ilustrativo, que aquilo que Heidegger, por exemplo, não conseguiu tornar claro, a meu ver, com seu obscuro conceito de Ser, poderia ser mais bem esclarecido pelo sistema de Peirce ao propor o presente como um ponto de descontinuidade no continuum do tempo. Esta consideração da imperfeição da continuidade do tempo, que Peirce explora com maestria em sua cosmologia, tem consequências ainda não exploradas, por exemplo, em teoria da arte.

O realismo dos universais ou dos contínuos em Peirce

proporciona também estabelecer os limites de representação da linguagem conceitual, fazendo com que se tome consciência de que a grande maioria dos objetos do mundo não tem nome e que a rede lógico-conceitual da linguagem nada tem a fazer com respeito a eles. Novamente a heurística presença da primeiridade introduz novos problemas filosóficos, fazendo buscar em muitos autores antigos conexões conceituais para um diálogo muito interessante, a exemplo da ideia de haecceitas de Duns Scotus. Apesar de seu senso agudamente crítico em relação aos diversos sistemas filosóficos com que teve contato, Peirce mantém uma relação de profundo respeito com a tradição filosófica, que não à toa estudou em profundidade. Ele nos ensina que devemos considerar, ao contrário de certas linhas contemporâneas de filosofia, todas as especulações metafísicas desta tradição, onde certamente se encontram preciosos insights filosóficos. A rejeição a priori do estudo da tradição, como se nela habitasse uma horda de pensadores delirantes, incide no grave erro de estimular uma indolência intelectual nos jovens estudantes de filosofia, que ignorantemente desdenham certos pensadores com uma ironia a que não têm direito, confinando-se a sistemas estreitos de filosofia que, por esta razão, não acolhem determinados problemas pela absoluta falta de ferramental teórico para resolvê-los.

Assim, neste pequeno espaço que aqui disponho para justificar a

boa recepção que Peirce tem no Brasil, procurei delinear que ela se apoia em um amplo espectro de problemas que sua filosofia proporciona, dialogando de maneira muito original com a maioria dos pensadores europeus que já ocupavam um espaço de longa data nos departamentos de filosofia de meu país.

 

3 Um elemento latino na filosofia de

 

Peirce?

 

Malgrado as diferenças que podem ser apontadas entre as obras

dos pensadores pragmatistas norte-americanos, algumas delas de princípio, outras de objeto, parece-me que elas partilham algo que é tipicamente da cultura dos Estados Unidos, cuja tradição não tem, a meu ver, termo de comparação em nenhuma parte do mundo, a saber, um genético amor pela liberdade. Tal amor não precisou ser consolidado por processos históricos negativos, isto é, pela dura experiência de viver sob sistemas tiranos que após desfeitos fizessem valorar períodos de liberdade e direitos individuais, como ocorreu em quase todas as partes do mundo, inclusive em meu país, o Brasil.

Não obstante Peirce não tenha desenvolvido uma filosofia política,

como ela pode ser encontrada nas reflexões de Dewey e Rorty, por exemplo, passando também pelo conceito de pluralismo de James, ele introduz o conceito de liberdade de modo muito amplo em seu sistema de ideias, de modo a não o confinar apenas à consideração da liberdade humana, mas concebendo-a ontologicamente como propriedade do real por meio de sua categoria da primeiridade. Fundam-se, assim, seu indeterminismo metafísico, sua noção de Acaso pioneiramente por ele renascida no final do século dezenove, quando ainda prevalecia o determinismo herdado do Iluminismo.

Esta abertura conceitual sobre a noção de liberdade, de

incidência simétrica no plano semiótico do signo e do objeto, traz consequências notáveis para a filosofia, que ainda, volto a afirmar, se encontram até onde sei inexploradas. Peirce, ao desenvolver o conceito de comunidade de investigação tensionada para o futuro, parece ter deixado um convite para darmos continuidade à sua filosofia. Nós, no Brasil, temos há mais de 20 anos nos empenhado em imodestamente aceitar este convite e desenvolver uma pequena parte possível do que ele não pôde fazer, dentro do espírito da doutrina do Sinequismo [Synechism] que ele nos legou.

Vejo a este propósito, por exemplo, o Pragmatismo em sua

possível dimensão metafísica, para além, portanto, de seu papel de discernir o significado de conceitos presentes na linguagem. Tenho procurado também entendê-lo como uma ampla relação entre o geral e o particular, conforme recomenda o próprio Peirce, e, sob este ponto de vista, abordar o Pragmatismo como uma interação entre as três categorias, seja no plano epistemológico, seja no ontológico. Com esta abordagem, o Pragmatismo pode ser considerado como uma relação geral entre mundo interno e mundo externo, sem que esta predicação de “interioridade” seja confinada ao universo meramente humano. “Significado”, a propósito, à luz do pensamento de Peirce, não pode, como uma consequência de seu realismo, se restringir ao mundo da linguagem humana. Eis aí disponível a ciência da Semiótica para dar conta dos signos naturais e neles encontrar seu significado pragmático, isto é, evidenciar como tais signos afetam a conduta dos seres que habitam o universo em que vivemos.

De outro lado, fascina-me, conforme sugere a cosmologia de

Peirce, a insólita ideia de que o início de nosso universo tenha se dado por um estado de coisas da natureza de um sentimento ou, valendo-se do vocabulário da Semiótica, da natureza de um qualissigno. Entendo, também, que um possível traço antropomórfico na filosofia de Peirce decorre de uma filosofia que se empenha em romper aquele estranhamento homem-Natureza mencionado anteriormente, além de estar convencido pelo próprio Peirce que “todas” as teorias que aceitamos como verdadeiras são, de algum modo, antropomórficas: dizemos de um mundo tal qual contido em nossa humana linguagem.

Menciono aqui alguns poucos pontos que temos trabalhado em

nosso Centro de Estudos de Pragmatismo, inspirados pela filosofia de Peirce. De acordo com uma declaração de um scholar norte-americano ao participar de nosso 12º Encontro Internacional de Pragmatismo, há em nossa abordagem algo que somente uma sensibilidade latina poderia trazer à tona. Crendo imodestamente nesta hipótese, ela nos permitiria, não obstante a origem norte-americana do pensamento de Peirce, valermo-nos dessa sensibilidade para investigar “o que possivelmente haveria de latino na filosofia peirciana”. Minha primeira contribuição pessoal a essa linha de pesquisa encontra-se no ensaio Reflections on a Poetic

Ground in Peirce’s Philosophy8 entre outras que se seguiram. Nesse ensaio, procuro mostrar como a obra de Peirce constitui um sistema de ideias cuja estrutura se fundaria em um sentimento poético de mundo, refletido na beleza do entretecimento lógico de suas teorias.

Creio que a Peirce Latin-American Society (PLS), que agora se

inicia, poderá somar entre seus temas de estudo essa linha de pesquisa, para além de enfoques que soem se deter em detalhes hermenêuticos sem ter por pano de fundo a bela estrutura teórica que enforma toda a filosofia do autor.

Em nome de nosso Centro de Estudos de Pragmatismo no Brasil,

reafirmo nossos votos de sucesso e trabalho profícuo à PLS, contando com nosso apoio e valendo-se da longa experiência que acumulamos por muitos longos anos de atuação acadêmica contínua.