Semiótica e Pragmatismo: Interfaces Teóricas, Volume 2
Introdução
Este segundo volume traz nova coletânea de ensaios em três
seções constituídas por afinidades temáticas, assim como adotado no volume que o antecede. Revê-los, como cabe ao autor fazê-lo, tal como já mencionado no volume 1, mobiliza a lembrança do contexto e da motivação a eles associadas. Esta revisão traz à memória dois eixos que balizaram sua realização, a saber, a proposição de temas possivelmente relevantes para os leitores eventualmente interessados e o comprometimento com seu desenvolvimento razoavelmente claro.
É interessante refletir sobre o primeiro eixo: a quem destinar o
texto? Aos especialistas ou aos estudiosos de filosofia em geral? Essas questões se colocam quando se trata de refletir sobre a obra de um autor como Peirce, que dialogou intensamente com as ideias e problemas espraiados por toda a história da filosofia. Malgrado ser ainda um pensador pouco conhecido, não obstante cada vez mais estudado, coloca-se a missão de apresentar ao leitor um quadro de conceitos, definições, especificidades de vocabulário que lhe permitam se situar no universo de linguagem em que navegarão os tópicos do ensaio. Mais que isso, cabe dizer que a tarefa de se refletir heuristicamente sobre o pensamento de Peirce implica em deixar explícita uma abordagem que tem sido recorrente nestes ensaios, ou seja, a de que a compreensão mais plena de sua obra requer uma consciência do caráter sistêmico de sua filosofia, marcando um viés próprio e diferenciado, pode-se dizer, de interpretação. Paga-se um preço por cumprir esta espécie de missão de não se entediar com a quase ubíqua necessidade de tornar possível a compreensão do autor de referência do ensaio.
Com uma terminologia bastante original, muitas vezes extraída do
grego antigo, a linguagem filosófica de Peirce busca ser fiel a seu
texto denominado Ética da Terminologia 2, onde se prega a adoção de uma nomeação dos conceitos que busque atribuir univocidade semântica às ideias novas, a par do respeito aos nomes de conceitos já consagrados pelo tempo em seu específico contexto histórico, evitando-se renomeações injustificadas que soem trazer obscuridade de sentido.
Essa tarefa de cuidado com o vocabulário filosófico já cumpre, em
boa parte, a eliminação de polissemias danosas à clareza das ideias, sem contudo fazer deste foco na linguagem o objeto principal de que deva se ocupar a filosofia. Muito ao contrário, Peirce aventura-se por uma metafísica que ele próprio denominou científica, assentada no chão teórico de uma fenomenologia em que se encontra um espectro diferenciado e amplo de seu conceito de experiência. Experiência, no sentido peirciano, não se confina ao que é imediatamente dado aos sentidos, mas configura-se no que é passível de ser percebido e interpretado espaciotemporalmente. Este é um dos quesitos básicos de seu realismo ontológico, associado à continuidade cognitiva das interpretações sempre balizáveis pela alteridade fática.
Tal realismo nasce fenomenologicamente da descoberta
pragmática da insuficiência cognitiva do imediato, e nos obriga a uma relação com o Chronos, na forma de uma consciência de sua alteridade como passado irrevogável e na expectativa do modo como possa ele estar escrevendo o futuro: o que deste será habitualmente identificado e o que nele poderá nos surpreender.
Desta escritura, em verdade, temos tão somente percepção
limitada. Uma parcela fática, temporal, apreendemos mercê do espectro de nossas perguntas aos fenômenos, como diria Kant. Esta restrição perceptual é configurada pelo critério de relevância dos elementos que possivelmente sejam passíveis de serem interpretados. Há, aqui, um forte traço de uma filosofia realista de estilo peirciano: a realidade não é constituída pela linguagem ou pelo conjunto de representações que dela fazemos – que não se a confunda com o que dela apenas seleciona nossos critérios de relevância.
Tenho chamado aquilo que fica fora de nossas representações de
resíduo do mundo. Tal resíduo não é constituído apenas pelo que ainda não sabemos, senão também por uma parcela de fenômenos que não cabe na nossa rede da linguagem lógica, sem que isso demande deles silenciar. A rica ontologia categorial da filosofia de Peirce enseja pensar o inefável para além de um fatídico silêncio, credenciando semanticamente outras formas de linguagem nas quais tudo pode ser dito. Um universo de significações possíveis extravasaria, assim, as descrições lógicas do mundo, referenciando-se justamente ao abandono residual de parte de nossa experiência, a qual assumirá seu sentido pragmático pela possível afecção de nossa humana conduta.
Uma semiótica poética pode dar conta da parcela de mundo que
repugna estar em diagramas lógicos, até mesmo porque, por sua natureza própria, ela não se insere no Chronos. Para percebê-la, necessitamos aceitar seu convite para abandonarmos a cronologia fática e nos entregarmos a um tempo de natureza interior, subjetivo, onde a liberdade criadora da arte poderia, com propriedade, recolher aquele resíduo de realidade não predizível por teorias lógicas.
Consuma-se, de maneira clara, um realismo dos universais não
mais restritos àqueles dotados de sintaxe formal, conquanto, também, dos que, malgrado sem forma, tipificam contínuos de possibilidades que só podem ser representados em sistemas polissêmicos de signos, próprios das diversas expressões de que dispõe a linguagem da arte.
Toda a ambientação teórica em que se desenvolvem essas ideias
se encontra na filosofia de Peirce, não obstante o foco específico que aqui trazemos não tenha habitado sequer de modo próximo sua letra. A conquista desta ambientação requer trabalho árduo, cuja recompensa, como mencionado na Introdução do volume 1 desta obra, se dá por adentrar um horizonte heurístico que confere pensar antigos e novos problemas de filosofia à luz de uma perspectiva diferenciada.
Parte deste trabalho impõe, também, que se clarifique o que
distingue o pragmatismo de Peirce de outras vertentes que, por não disporem de um sistema complexo de doutrinas interligadas no qual seu pragmatismo também se inseriria, incluindo uma ontologia realista, redundam em versões reducionistas defensoras de uma visão vulgar do conceito de ação, atribuindo-lhe um significado que faz das teorias meros instrumentos ou ferramentas (sic) úteis para se atingir fins também dotados de alguma utilidade, numa forma rústica de praticalismo jamais almejado por Peirce.
Em verdade, na Introdução do volume 1 este ponto já havia sido
levantado. Permito-me abordá-lo novamente para adicionar que se trata de uma tarefa que em muitos textos se soma à necessidade de exposição da estrutura do sistema teórico tal qual o entendemos, para depois, então, desenvolver a particular ideia que o ensaio específico traz. É a isto que denomino missão, voltada a cumprir a finalidade de inteligibilidade da abordagem que se faz de um particular problema filosófico, com a ambição de evidenciar o pensamento de um autor de extrema originalidade com clareza e profundidade.
Poder-se-ia dizer que o trabalho de se discorrer sobre uma
filosofia relativamente nova impõe, a par desta tarefa básica de oferecer os pressupostos que a constituem, a bem de sua inteligibilidade, também ressaltar o seu caráter dialogante com a história das ideias, o que descaracterizaria abordagens monotemáticas, não infrequentes por escolas teóricas que dela se apropriam.
As consequências da filosofia de Peirce ainda não estão
devidamente exploradas, e uma vez inteligido seu sistema teórico pode-se conjecturar quais elas seriam. Esta é sem dúvida uma
expectativa nutrida pela doutrina do 3 Sinequismo, sob a qual o autor recomenda a continuidade da investigação e das conjecturas que lhes dão origem, alimentando uma filosofia que navega por invenção e descoberta.
Esse conjunto de tarefas que intenciona convocar o não
especialista a apreciar um autor diferenciado, oferecendo-lhe os fundamentos nos quais se desenham uma nova visão de mundo e do saber que seu pensamento proporciona, pode, em certas situações, enfastiar o especialista já afeito à obra de Peirce. Para este, espero que cada um dos textos que constam deste volume possa recompensar eventual retorno a fundamentos para ele já familiares, ofertando-lhe, neste sentido, a difícil condição de evidenciar algo que lhe seja original e provocativo para a continuidade de sua reflexão.
Creio que Peirce aprovaria que os estudiosos de sua obra se
deixem contaminar pelo espirito heurístico e especulativo de seu pensamento, para que em certo momento possam se aventurar em ideias novas em filosofia que lhes permitam dizer: com Peirce e para além dele.
Ivo A. Ibri