Semiótica e Pragmatismo: Interfaces Teóricas, Volume 2

IX – A ontologia da ação na Filosofia de Peirce

IX – A ontologia da ação na

 

Filosofia de Peirce302

 

O conceito de ação é central em várias correntes do

Pragmatismo, notadamente aquelas que o tomam como um fim que se justifica por produzir efeitos práticos, a saber, efeitos que, ao fim e ao cabo, importam para o significado das teorias, cujo universo semântico volta-se para a solução de problemas humanos ou, em outros termos, vitais. Peirce, em diversas ocasiões, fez restrições a esta concepção de ação que, originária de seus contemporâneos James e Dewey, e sabemos hoje extensível ao Neopragmatismo rortyano, a tomava como um fim em si mesmo, em um errôneo e

nominalista entendimento do conceito de efeitos práticos303. Tal concepção, segundo Peirce, deixava à margem a generalização necessária e constitutiva do crescimento conceitual que o agir proporcionava, ou seja, desconsiderando-se o cerne semântico do Pragmatismo, em seu aspecto reflexivo afeito ao diálogo semiótico

entre o particular da ação com o geral do pensamento 304.

De outro lado, tomando-se como eixos de reflexão na filosofia de

Peirce suas categorias, o conceito de ação assume um aspecto ontológico, ligado às ideias metafísicas de existência e mundo exterior. Tal abordagem proporciona um conceito diferenciado de significação que se amplia e se harmoniza com uma filosofia realista, não antropocêntrica, como é a de Peirce.

Este texto buscará mostrar, assim, a crítica de Peirce às visões

reducionistas do conceito de ação e, sequencialmente, uma abordagem ontológica do conceito à luz das categorias do autor.

 

1 Sobre as categorias de Peirce

 

1.1 Fenomenologia da Razão Pragmática

Tenho afirmado em outros trabalhos que o pensamento de Peirce

estrutura-se em suas três categorias. Entendê-las, distintamente sob dois âmbitos filosóficos, a saber, nos planos fenomenológico e ontológico, fornece uma chave mestra para pensar todo o sistema

de doutrinas que enforma a filosofia peirciana 305. No plano da Fenomenologia, Peirce afirma serem as categorias os modos que exaurem as formas em que ocorre nossa humana experiência. Na sequência da classificação das ciências, as três categorias associam-se às Ciências Normativas, designadas por Estética, Ética e Lógica. Primeiridade, segundidade e terceiridade estão com elas

relacionadas, nesta ordem 306.

É interessante perceber que, até as Ciências Normativas, as

categorias estão associadas ao âmbito humano, seja no da experiência fenomenológica, seja no que as Ciências Normativas rezam sobre como devem ser os ideais do raciocínio, da conduta e do que se deve admirar como finalidade autojustificada da ação

humana 307. Elas são, nesses contextos filosóficos, poder-se-ia dizer, antropocêntricas. Toda a diferença de uma filosofia não antropocêntrica, como é a de Peirce, irá apenas aparecer quando se estuda sua Metafísica, onde a ideia de um mundo real irá configurar as razões pelas quais nossas formas de representação tornam-se frequentemente contestadas pela experiência. Essa é, certamente, a maior evidência de que não podemos simplesmente tomar a constituição de nossa linguagem como constituição do mundo fenomênico em que estamos inseridos, sob pena de não se poder justificar por que a contingência fática, em sua particularidade, estaria autorizada a negar as teorias que buscam representá-la como processos espaçotemporais estáveis (contínuos), ou seja,

como instâncias gerais dos fenômenos308.

Boa parte da obra de Peirce é direcionada a mostrar que se

necessita, para a justificativa do ajuste de nossas teorias aos fatos, de uma ontologia que simetrize uma correspondência entre generalidade teórica e generalidade fática. Nesse esforço do autor, que ele próprio denomina realismo dos continua, em uma atualização da antiga questão escolástica dos universais, está a chave para a transposição do antropocentrismo para uma filosofia não antropocêntrica. Assim, é minha opinião enfática que a verdadeira filosofia de Peirce, no seu traço mais genuinamente distintivo, não pode ser apreendida senão pelo estudo de sua Metafísica. É também evidente que não se pode estudar essa região da filosofia peirciana sem uma necessária passagem pela Fenomenologia e pela Semiótica. Para Peirce, a Fenomenologia é a primeira ciência da filosofia e que se inicia por um estar em um mundo interativo com a alteridade, com a onipresença de não egos dos quais distinguimos nosso próprio ego de modo imediato, em uma experiência genuína de segundidade. Estar nesse mundo de alteridades é vivenciar o traço mais forte de realidade evidenciado por essa experiência de reação dos fatos contra nossa consciência. O sonho e o imaginário não apresentam essa característica reativa, e essa distinção entre mundos real e onírico que se constitui, antes de tudo, experiencialmente, também é um traço marcante da filosofia de Peirce.

Na Fenomenologia, uma presença potencial do que seja realidade

se anuncia, cujo conceito irá se complexificar na Metafísica, mantendo, não obstante, como fulcro central, a noção de alteridade. Tal noção, na filosofia de Peirce, irá assumir um estatuto bastante geral, para além de sua redução a relações intersubjetivas, como sói acontecer em filosofias centradas na ideia de sujeito e, de certa forma, exclusivamente interessadas nos fenômenos de natureza psicológica. Alteridade é uma propriedade generalizada na filosofia peirciana, a saber, está implicada na possibilidade de reação fática de tudo o que, não obstante seu aparecer imediato, possa ser objeto de representação cognitiva, ou, utilizando-se o vocabulário da

Semiótica, de 309 semiose. Toca-se agora, ao se pronunciar esse termo – semiose – em uma experiência também ubíqua considerada pela Fenomenologia, a saber, a de concepção de mediações, ou terceiro elemento que incorpora a temporalidade da terceiridade na não temporalidade da segundidade. Essa precisa ser observada para que se comprove algum grau de redundância que permita sua

inserção em representações dotadas de continuidade 310 – de fato, aquelas que proporcionarão pensar a experiência em seus predicados. A conduta do outro precisa ser representada à luz de alguma regra, de algum suposto hábito a ele atribuível, para que se possa prever como ele agirá em ocasião futura – em verdade, a única oportunidade que temos de ajustar nossa própria conduta a uma suposta situação fática que possa ocorrer. Isso é tudo o que a razão pode fazer em seu sentido pragmático, isto é, produzir

semioses que nos permitam fazer 311 escolhas – e escolhas são somente facultadas pela possibilidade de iluminarmos razoavelmente a região escura do tempo: o futuro. Lá é que podemos exercer nosso autocontrole, ou seja, agir na direção de algum fim que queremos, em face de um contexto potencialmente reativo, de alteridade, portanto. Não parece descabido afirmar que temos a experiência de fazer escolhas – experienciamos, em verdade, o exercício de nossa racionalidade na formação de mediações diante da alteridade. Somos, nesse contexto, em princípio, problems solvers, na medida em que estamos inseridos em um mundo potencialmente reativo aos fins que possamos querer.

A impossibilidade de se fazer escolhas é caracterizada pela

experiência que Peirce denomina de força bruta que não poderia ser reduzida a nenhuma continuidade. Este é o caso em que desconhecemos absolutamente a faticidade em que estamos envolvidos, restando-nos a formulação de uma hipótese que dê início a um processo de semiose para nos habilitar a escolher que conduta adotar. Essa é a esperança da razão: encontrar possivelmente um sistema de signos que faculte pensar a alteridade e, por assim fazê-lo, propor uma mediação que permita coabitarem

sujeito e objeto 312. A mera força bruta não é redutível ao pensamento porque, ao não evidenciar redundância de conduta fenomenológica, impede a construção de seu conceito, com o qual seu caminho futuro poderia ser predito.

Alternativamente, pode ocorrer que essa faticidade seja

completamente acidental, contingente, não submetida a qualquer regra e que seja, portanto, destituída de redundância fática – suas réplicas não indicializam alguma forma de hábito ou lei. Qualquer hipótese que se tente fazer sobre essa faticidade é condenada ao fracasso, pois nenhuma forma lógica pode a ela se ajustar – qualquer ajuste é não mais que ilusório pela sua contingência, uma vez que todas as previsões de conduta do objeto de cognição

mostram-se inverossímeis, sem qualquer 313 aderência entre teoria e curso dos fenômenos. Essa experiência não é a da força bruta imposta por alguma forma de incognoscibilidade, como se poderia pensar, mas daquilo que não tem regularidade e que, assim, não apresenta continuidade futura de conduta. Muitas vezes, no que respeita a fenômenos aleatórios, pode-se encontrar alguma forma de distribuição estatística, não obstante de alto teor de desvio, a exemplo de funções gaussianas de elevado desvio padrão, o que permitiria alguma forma de previsão bastante afetada por intenso grau de incerteza. Funções preditivas deste tipo, contudo, na prática das ciências aplicadas, por exemplo, têm métodos de compensação da incerteza por meio do que se denominam coeficientes de segurança, bastante utilizados em diversos campos da tecnologia e engenharia. Tais coeficientes expressam a adoção de procedimentos preventivos em face da incerteza associada à possibilidade de ocorrência de acidentalidades.

Sob o ponto de vista das categorias, a presença da primeiridade

nos fenômenos se dá em diversos teores 314, gerando o que lhe é mais característico, ou seja, desvio de regras, erraticidade, resistência a generalizações. Essa incidência do irregular no fenômeno traz um ensinamento epistemológico importante: os modelos de representação devem abdicar de precisão absoluta, aderência completa com os fenômenos, convivendo com um grau de erraticidade que introduz definitivamente a noção de incerteza. A última palavra está com os fatos, não apenas como quesito fundamental do que se possa considerar realidade em sua formulação metafísica, a saber, como inferência sobre uma estrutura geral independente de toda representação ou opinião que dela se faça, mas, também, quanto ao grau de desvios em relação a uma suposta relação lógica de natureza determinista. Sob este aspecto, todos os modelos teóricos são, assim, considerados como de natureza probabilística, à luz de um convicto indeterminismo que caracteriza a epistemologia de Peirce.

É interessante perceber o caráter fenomenológico dessas

experiências ou, em outros termos, reconhecê-las como remanescentes no fundo de toda operação de construção de mediações. Muito embora toda investigação que implique conhecimento inferencial para além da mera taxonomia categorial, tal como pretende a Fenomenologia, requeira apelo à Semiótica, toda semiose assim produzida tem sempre o fundo fenomenológico que a justifica e motiva.

Essa concepção de razão que se faz como forma eficiente e que

pode, antes de tudo, ser experienciada como produtora de mediações em face dos fenômenos, insere-se também no âmbito do senso comum, subtraindo-se de uma exclusividade meramente teórico-especulativa. Como faculdade associada às escolhas de vida que moldam nossa humana conduta, tal razão não é mais que uma razão pragmática, disposta permanentemente a aprender com a experiência. O compromisso dessa razão assim pensada é manter-se semioticamente dialogante, de modo a não ceder a dogmatismos, no sentido em que esses impõem princípios que estranham a dinâmica do fluxo dos fenômenos em sua alteridade e

se cristalizam como verdades distantes de qualquer dialogia315.

A esperança em conhecer é, ao fim e ao cabo, sob a visão do

Pragmatismo, a própria esperança de se atingir fins gerais que mantenham diálogo permanente com a experiência. Por assim se constituírem tais fins, impõe-se repugnar a cristalização de representações que se distanciam da dinâmica de seus objetos. Uma vez mais relembrando o vocabulário da Semiótica, o objeto imediato não pode romper suas relações fenomenológicas com o objeto dinâmico, sob o risco de se entregar a razão aos dogmatismos em seus matizes de instalação de crenças por autoridade ou suportadas por quaisquer modos de

transcendência316.

É importante também considerar como, no âmbito da faticidade,

ocorrências completamente acidentais, aleatórias, podem se introduzir como fenômenos sem qualquer regularidade, e, assim, não sustentarem a formulação de conceitos preditivos. Neste caso de completa acidentalidade, possivelmente ilustrável por distribuições equiprováveis que poderiam ser caracterizadas, exemplarmente, por um jogo constituído de um número finito de dados, as mediações lógicas podem apenas inventariar a possibilidade de ocorrência de certa combinação de resultados. Distribuições equiprováveis não permitem distinção de probabilidades e, assim, os resultados de seus lances não são previsíveis. Sabe-se, contudo, que as regras de alguns jogos acabam proporcionando probabilidades distintas de seus resultados, como, por exemplo, o jogo de pôquer. No primeiro caso, o dos jogos equiprováveis, qualquer resultado estará sob segundidade pura, pura alteridade não redutível a qualquer conceito preditivo. Evidentemente, o caráter lúdico dos jogos está justamente no risco que ele envolve, e por isso se diz que determinados jogos comportam apenas apostas, nunca escolhas. A escolha se reduz à decisão ou não de jogar, mas não de prever seus resultados, o que, de fato, descaracterizaria o jogo como tal, não obstante se possa estar consciente dos graus de risco que jogos não equiprováveis

permitam estimar317.

Transporte-se o âmbito desses jogos para situações

fenomenológicas de vida. De fato, podem-se reconhecer eventos acidentais cuja imprevisibilidade não é devida a uma ignorância de alguma forma de lei que esteja por detrás dos fatos, mas porque tais fatos não permitem a formação de conceitos preditivos de modo que sua ocorrência pudesse ser prevista e, deste modo, facultar um ajuste de conduta em face deles. Esse é um ponto interessante que, diante da recusa de instâncias incognoscíveis na filosofia de Peirce, requereria a consideração de formas alternativas de mediação que não as que inserem a experiência em signos interpretantes habituais. Que formas de mediação seriam essas?

É lícito especular que as experiências humanas advindas de uma

mera acidentalidade fática podem ter significados condicionados aos graus variáveis de influência na conduta que, por assim ser, poderiam ser considerados de algum modo de natureza pragmática. Evidentemente, acidentalidades podem nada significar em face de seu eventual efeito efêmero, ou podem produzir alguma consequência na conduta que tenha certa duração ou, mesmo e finalmente, produzir um choque bruto que pode alterar pronunciadamente um caminho de vida. Os dois primeiros casos talvez até dispensem mediações em face de sua fraca influência sobre a conduta. Todavia, o terceiro caso produz interpretantes emocionais cuja transposição para interpretantes lógicos não é factível, em vista da acidentalidade fática que não suporta logicamente a construção de conceito. É também interessante perceber que essa presença mais forte da primeiridade na experiência correlaciona fenomenologicamente sentimento com a espontaneidade fática do Acaso, sendo essa uma das teses peircianas que só assumem consistência explicativa por meio de sua Cosmologia.

De qualquer modo, a recusa do incognoscível por Peirce, uma de

suas mais fortes teses antikantianas, deve então, como consequência, sempre admitir formas de mediação cuja tessitura pode não ser lógico-preditiva, face à falta de suporte fenomenológico que seria dado por uma redundância fática, ausente

no caso de acidentalidades318. Supõe-se, assim, que os interpretantes emocionais, uma vez não transponíveis para interpretantes lógicos, devem dialogar semioticamente com mediações dadas por formas sígnicas que representam fundamentalmente a primeiridade dos fenômenos, que, a meu ver, são dadas pelas diversas expressões da arte, na produção de uma poética que busca traduzir um sentido não alcançável por mediações de natureza lógica que dependem, por sua natureza, de que os fatos estejam submetidos a leis ou hábitos de conduta. Essa tese das mediações de natureza poética requer reflexão adicional

que não cabe no presente texto 319, valendo mencioná-la como uma saída para a enfática recusa de instâncias incognoscíveis na filosofia de Peirce.

 

1.2 Sobre a ontologia da ação

 

A passagem das categorias fenomenológicas simetricamente para

o âmbito ontológico, ou seja, como modos de ser da realidade, não é uma tarefa de predicação injustificada das coisas em si mesmas que exprimiriam alguma forma de interioridade à qual está vetado qualquer acesso. Trata-se, ao contrário, de uma operação inferencial que busca encontrar os princípios gerais responsáveis por um aparecer redutível às três categorias e, sendo assim, não poderá prescindir da Semiótica que, lembremos, é outro nome que

Peirce atribui à Lógica320.

De qualquer modo, na filosofia de Peirce, as formas do aparecer

não constituem por si mesmas realidades, tal como ocorre na fenomenologia husserliana, por exemplo, em uma tentativa de se evitar uma Metafísica que especulasse sobre o que estaria por detrás dos fenômenos. Contudo, ao se atribuir aos fenômenos a instância única da realidade, abdicando-se de encontrar um real constituído por princípios ontológicos gerais responsáveis pelo aparecer, tem-se que iniciar a filosofia por um nominalismo ao qual resta encontrar tais formas na instância da linguagem e do

pensamento. Esse não é o caminho peirciano, como se sabe 321. Ele irá se desenhar por meio de um realismo dos universais que na maturidade de sua obra se generaliza para um realismo do contínuo, consumado na doutrina por ele chamada de Sinequismo. Em verdade, o conceito de realidade estará escorado nas três categorias, como formas de potencialidade, determinação e ordem, dados pelos princípios do Acaso, Existência e Lei que, nessa ordem, correspondem a primeiridade, segundidade e terceiridade.

Há na filosofia de Peirce um sentido bastante forte do que seja

mundo real, por que ele é, qual sua função. Sua Metafísica correlaciona-se não apenas com sua epistemologia, mas com um sentido geral em que se encontrará até a forma lógica do Pragmatismo como princípio de aprendizagem, nas relações entre mundo interno e externo, para além das relações meramente subjetivas ou intersubjetivas.

Sente-se nesta estruturação da filosofia peirciana a influência de

Kant, sem dúvida, mais talvez no que respeita a uma epistemologia que supera empirismo e racionalismo, conciliando-os, e na formulação de uma heurística baseada no poder de descoberta dos diagramas, malgrado recusando com ênfase a noção de incognoscibilidade, como afirmei antes. Todavia, visualizam-se aspectos muito intensos das filosofias de Schelling e Hegel na forma final de sua Metafísica. De Schelling, a ideia de uma história cósmica de um Absoluto que é possibilidade pura em sua origem. De Hegel, a ideia de que a história humana assume sentido ao consumar-se como comunidade ao revelar um Absoluto que é pura Razão. Schelling irá sobrepor-se a Hegel nessa influência, contudo, e o estudo da Cosmologia peirciana irá comprovar a afinidade maior entre os dois autores. Filosofia, caso se pretenda genética, deve basear-se em algum princípio de possibilidade e não em alguma

forma pronta, como é a Razão em Hegel 322.

Assim, a cosmologia de Peirce é uma saga lógica da possibilidade

para a necessidade, em que infinitas formas possíveis se convertem em formas gerais reais. A condição de possibilidade de tal saga é a existência de um teatro de reações no qual se consume uma passagem de um mundo de interioridade indeterminado para um mundo de exterioridade de determinações. Neste se confrontam alteridades cuja conciliação se dará em formas de mediação nascidas de tendência eidética de generalização. O permanente dueto entre o geral e o particular constituindo uma filosofia evolucionária é onipresente em todos os aspectos da filosofia de Peirce. Generalidade, neste âmbito, é modal: possibilidade e necessidade inter-relacionam-se cosmicamente e perfazem uma história das categorias em sua realidade. Essa é a trajetória de um realismo radical que se acentua na maturidade da obra de Peirce, cujo pano de fundo é seu Idealismo Objetivo, doutrina metafísica necessária para explicar a possibilidade desse Realismo. Ela, na verdade, tem a função única de propor um necessário monismo pragmático entre mente e matéria para explicar por que o movimento cósmico é vetorial para formas que tornam mediadas, por representação de lei, a mera força bruta da determinação do

particular323.

Parece ir-se muito longe para justificar um conceito ontológico de

ação. Mas esse é o contexto sistêmico do pensamento peirciano, onde suas diversas áreas se inter-relacionam e se suportam reciprocamente. Agir é, à luz da estrutura categorial de Peirce, a passagem do geral ao particular, adentrando-se um mundo externo de alteridades, um teatro de reações, um teatro fático de segundidades. Pode-se fazê-lo como apostas ou como escolhas, mas toda possibilidade de aperfeiçoamento e aprendizagem das formas requer tal passagem da potencialidade de um mundo interno, que no plano humano é predominantemente de sentimentos ou de pensamento racional, em que ambos se mesclam em teores variáveis nas formas dos interpretantes emocionais e lógicos, para um mundo externo, em que se confrontará com o outro. O mundo das ações, pelo qual se exercitam os fins que se quer, acaba por ser o lado externo, subsumido à categoria da segundidade, do lado interno, associado às categorias da primeiridade e terceiridade. O externo é revelação que permite cognição e essa é o substrato do que constituirá comunidade semiótica, a saber, comunidade constituída por formas reflexionadas na experiência, consumando assim o que Peirce quis conceituar por significado pragmático.

 

2 Uma palavra para finalizar

 

Muito mais poderia ser dito para diluir melhor a densidade deste

capítulo. Mas fica aqui ao menos um caminho e uma tarefa sugerida a se fazer no contexto da filosofia de Peirce. Agir pode trazer angústia, sem dúvida, pois não queremos errar. Por isso, devemos buscar transformar nossas apostas em escolhas, fazendo o que transparentemente nos pareça ser o melhor. Agir angustia porque toda ação se inserirá como história visível, externa, se não contingentemente para outras mentes interpretantes, ao menos para nós mesmos – ela se tornará passado irrevogável e poderá retornar presentificada na forma semiótica da reflexão. Ao agir, abandonamos inúmeros outros modos de fazê-lo. Eles ficarão como possibilidades não realizadas naquela contingência.

Há em tudo isso, a par das formas lógicas implicadas na ontologia

peirciana, uma face evidentemente ética e, por que não dizer, também humanamente psicanalítica. Escolhas, mais que apostas, proporcionam olhar nossas ações com maior possibilidade de perdoar nossos erros, os caminhos que porventura não trilhamos. Não há como evitar a angústia: podemos apenas minimizá-la fazendo escolhas que nos parecem ser mais razoáveis. Existir implica sempre em alguma forma de ação, seguindo a saga lógica que, no fundo, explicita a máxima do Pragmatismo: o mundo interior necessita ser fora de si para colimar alguma forma de significação ao retornar a si mesmo como forma aperfeiçoada por aprendizagem.