Semiótica e Pragmatismo: Interfaces Teóricas, Volume 2
X – Considerações sobre o estatuto da Ética no Pragmatismo de Charles S. Peirce
X – Considerações sobre o
estatuto da Ética no
Pragmatismo de Charles S.
Peirce 324
A máxima do Pragmatismo, enunciada por Peirce pela primeira
vez em janeiro de 1878 no 325 Popular Science Monthly, segundo a qual a “totalidade do significado de uma concepção constituía-se na totalidade de suas consequências práticas concebíveis”, acarretou uma série de equívocos de interpretação, conforme procuramos
mostrar, em trabalho anterior326, através de uma análise que abrangeu um arcabouço teórico sistemático. Do interior de tal arcabouço, buscamos evidenciar que aquela máxima poderia ser entendida sem o reducionismo semântico a que foi submetida pelos leitores contemporâneos do autor, notadamente William James.
A crítica peirciana a James327, resumidamente, centrou-se
frontalmente contra o confinamento da expressão “consequências práticas” a uma recomendação de que o significado de uma proposição ou de um corpo teórico de uma doutrina positiva pudesse ser reduzido ao conjunto de ações ou de experimentos singulares por elas eventualmente engendrados.
Tendo em conta as três categorias de Peirce, por ele nomeadas
de primeiridade, segundidade e terceiridade, correspondendo, grosso modo, a qualidade, alteridade e pensamento no nível fenomenológico, e a Acaso, Existência e Lei no nível metafísico, a redução da instância geral do significado à série finita de ações ou de experimentos a ela correlatos corresponderia a preconizar a redução da estrutura categorial, de caráter triádico, a um dualismo injustificável no interior do sistema do autor.
Em verdade, Peirce tencionou conciliar todas as suas doutrinas à
luz do Pragmatismo e, para tanto, torna-se fundamental reler seu sentido mais amplo subsumido às três categorias. Sob este prisma, a questão do significado, se não redutível à instância do particular, correspondente à segundidade, deverá ser remetida para a terceira categoria ou terceiridade, onde se situa o plano geral e contínuo da idealidade, seja do pensamento, seja da realidade, este último afeito
ao realismo ontológico de teor escolástico adotado pelo autor328.
Mercê destas considerações, aqui evidentemente colocadas de
um modo, talvez, insatisfatoriamente sintético, é que se entende a seguinte passagem da obra de Peirce:
Admitindo-se [...] que a ação requer um fim, e que este fim deve ser algo
similar a uma descrição geral, então o espírito da máxima de que devemos
olhar para os resultados finais de nossos conceitos a fim de apreendê-los
corretamente direcionar-nos-ia para alguma coisa diferente dos fatos
práticos, a saber: para ideias gerais, como as verdadeiras intérpretes de
nosso pensamento.329
Estes trechos do pensamento peirciano evidenciam a correlação
da máxima do Pragmatismo não tão somente com a terceira categoria, mas de modo direto com sua doutrina do Sinequismo, ou seja, do continuum dos sistemas gerais, a qual, não poderia ser de outro modo, está implicada naquela categoria.
Em 1905, Peirce propõe a máxima sob outra forma, não obstante,
a meu ver, ela não esclareça os pontos que, de início, provocaram o seu mau entendimento:
Objetivando determinar o significado de uma concepção intelectual,
considerar-se-iam que consequências práticas poderiam concebivelmente
resultar, por necessidade, da verdade daquela concepção; a soma destas
consequências constituirá o significado inteiro da concepção. 330
É de se observar que a palavra soma associada a consequências,
nesta passagem, parece ter colaborado para a má compreensão da máxima, conduzindo eventualmente o leitor não afeito ao sistema peirciano a uma indevida equivalência da significação com uma pluralidade finita de singulares.
Não obstante, Peirce busca elucidar o sentido pretendido para a
expressão “consequências práticas” conforme o que segue:
Por “prático” quero dizer apto a afetar a conduta; e por “conduta”, ação
voluntária que é autocontrolada, ou seja, controlada por deliberação
adequada.331
À luz do Sinequismo, o pensamento, parece ser lícito concluir,
discretiza-se na instância da ação intencionada – ela é, segundo Peirce, sua expressão fática, e deve suscitar sua continuidade geral.
De outro lado, a máxima vincula a significação a uma afecção da
conduta, não certamente como uma série individualizada de ações, mas em sua tessitura intelectual dada pelo propósito racional.
Neste ponto, não é demais perguntar, passando novamente a
palavra ao autor:
Mas, em que consiste o caráter intelectual da conduta? Claramente em
sua harmonia aos olhos da razão, isto é, no fato de que a mente, ao
contemplá-la, nela encontrará harmonia de propósitos. Em outras
palavras, ela deve ser capaz de interpretação racional para um
pensamento futuro. Assim, o pensamento é racional na medida em que ele
se recomenda para um futuro pensamento. Ou, em outras palavras, a
racionalidade do pensamento reside em sua referência a um futuro
possível.332
Na medida em que o significado de uma concepção é o modo
como ela afeta a conduta, e esta é “ação voluntária que é autocontrolada”, decorre que o pragmaticista, nas palavras de Peirce, “situa o significado em um tempo futuro; pois a conduta futura é a única conduta capaz de ser submetida ao
autocontrole” 333.
Esta ideia de autocontrole medeia, como se verá, a aproximação
entre Lógica e Ética na Filosofia de Peirce. De qualquer modo, é de se antever que o caráter lógico que o autor atribui à máxima, fazendo-a estar implicada nas três formas de argumento, que
denomina Abdução, Dedução e Indução334, tangencia, senão profundamente se imbrica, com uma filosofia da conduta, cujo caráter, por sua vez, encontra-se no âmbito de uma Ética.
No início do século vinte, após vários anos de pesquisa, Peirce
propôs uma classificação das ciências335, situando a Filosofia entre a Matemática e as Ciências ditas Especiais, como as ciências da Natureza, a exemplo da Física, Química etc., e as ditas ciências humanas, como a Sociologia, a Psicologia, a Linguística etc.
Por sua vez, segundo Peirce, a Filosofia constitui-se de três
ciências, a saber: Fenomenologia, Ciências Normativas e Metafísica. Para os fins que aqui interessam, examine-se o que ele denominou Ciências Normativas, formadas, por seu turno, pela Estética, pela Ética e pela Lógica ou Semiótica.
Tal classificação tem não somente uma pretensão cartográfica do
saber, mas estabelece uma hierarquia entre seus diversos departamentos. Sob a ótica temática aqui proposta, o autor propugna, então, uma interdependência entre as Ciências Normativas, de tal modo que a Lógica dependa da Ética e, esta, da Estética. Evidentemente, trata-se de um resgate contemporâneo das relações, já presentes na Filosofia antiga, entre o Belo, o Bom e o Verdadeiro.
Complexas que possam ser tais relações, não tão somente pela
quase necessidade de resgate de seu caráter histórico, mas, e principalmente, pela total necessidade de remetimento ao todo do sistema filosófico peirciano, aqui cabe mostrar, dentro dos propósitos deste trabalho, que a dependência entre Lógica e Ética já se encontrava no interior da máxima do Pragmatismo.
De fato, na primeira de sete conferências pronunciadas em 1903
por Peirce em Cambridge, Massachusetts, denominada, Pragmatism: The Normative Sciences, Peirce afirma:
[...] se, como o pragmatismo nos ensina, aquilo que pensamos deva ser
interpretado em termos do que estamos preparados para fazer,
certamente, então, a Lógica, ou a doutrina do que devemos pensar, deve
ser uma aplicação do que, deliberadamente, escolhemos fazer, o que é
Ética.336
Três anos mais tarde, em 1906, Peirce confirma esta posição na
seguinte passagem:
O controle do pensamento, com respeito a sua conformidade com um
padrão ou ideal, é um caso especial do controle da ação para fazê-la se
conformar com um padrão; e a teoria do primeiro deve ser uma
determinação particular da teoria da última. 337
Em outra série de conferências, denominadas Lowell Lectures,
também de 1903, Peirce profere Ideals of Conduct, talvez seu trabalho de maturidade mais bem acabado no que respeita à inter-relação entre as Ciências Normativas, explicitando aquela mediação do autocontrole no estabelecimento da dependência da Lógica com respeito à Ética:
Os fenômenos do raciocínio são, em seus aspectos gerais, paralelos aos
da conduta moral. Pois raciocínio é, essencialmente, pensamento
submetido a autocontrole, assim como a conduta moral é conduta sob
autocontrole. De fato, raciocínio é uma espécie de conduta controlada e,
como tal, necessariamente participa dos aspectos essenciais da conduta
controlada.338
Como as Ciências Normativas são, segundo Peirce, aquelas das
leis da conformidade das coisas com seus fins últimos, cumpre saber quais são tais fins últimos ou, nas palavras de Peirce, qual é, efetivamente, o summum bonum para cada uma das ciências que as compõem. Se admitirmos, com o autor, que o fim da Lógica é representar a verdade de um estado de coisas geral, acarretando afetar a conduta, esta deverá, por sua vez, no plano da Ética, buscar a conformidade da ação que a discretiza com respeito a um propósito. Não obstante, um propósito último deverá conter uma qualidade ou um complexo de qualidades que se justifica sem razão ulterior. Tal complexo, no ver de Peirce, é a própria escolha do que seja admirável, situando-se, de seu viés, no âmbito da Estética.
A recusa de fins singulares já havia se configurado no sentido
mais amplo do Pragmatismo. Assim, um fim último deve ser um fim geral e, como se situa no quadro da Estética, deve reunir de modo incondicionado qualidades que sejam em si admiráveis.
A idealidade deste fim deve ser evolucionariamente perseguida,
conciliando o continuum do representar com o continuum do fazer, existencialmente entendido, tendo ambos, como fim último, um constructo geral e temporal.
O entendimento deste constructo, passa, não obstante, pela
dissecação da cosmologia peirciana. Sua ontologia realista e evolucionária é que permitirá visualizar, com alguma nitidez, um vetor de crescimento da terceira categoria, configurada pelo pensamento e pela lei em seus estatutos de mediação subjetiva, de um lado, e natural, de outro. Este é, segundo o autor, o desenvolvimento mesmo da razoabilidade concreta, um vetor de
generalização que define, por si, uma 339 idealidade final admirável.
Não obstante a complexidade do modo como este tema se
entretece no interior da filosofia peirciana, cabe ver que aquela qualidade estética que define um fim último não à toa não é denominada de Belo por Peirce, mas sim de Admirável. Penso que a razão desta escolha prende-se à natureza de uma qualidade estética que somente se revela como summum bonum ao fim ideal de um processo evolucionário e, mercê deste importante aspecto, distingue-se da sedução de um mero aparecer, aprisionado na
finitude contingente da temporalidade 340.
Ainda extremamente mal resolvida a temática do Admirável no
âmbito dos estudiosos da obra peirciana, configura-se, todavia, a necessidade de sua remissão ao todo do sistema filosófico do autor, notadamente à sua Metafísica e à obra dos românticos alemães, em
particular de Schelling 341, autor que exerceu enorme influência de espírito que, a nosso entender, não é revelada na letra de Peirce. Não há dúvida, também, que o tema deverá passar pela obra de Platão, em um resgate das raízes das relações entre o Belo, o Bom e o Verdadeiro, ao menos por um viés que considere a integridade e uma forma de continuum desta tríade, que Peirce também pretende para as ciências componentes das Ciências cognominadas por ele de Normativas.
É deste modo que, não à toa, a complexidade do estatuto da Ética
no pensamento de Peirce ainda permanece aberta a futuras pesquisas, recomendando-se, àqueles que se aventurarem no intrincado pensamento do autor, considerar a dificuldade de abordagem de uma postura realista e profundamente crítica a toda forma de nominalismo que, no ver peirciano, predominou entre as doutrinas que imediatamente se seguiram ao início da filosofia moderna.