Sete, Para a Morgue

Doug Lamoreux · Capítulo 10 de 18

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Sete, Para a Morgue

Oito

"Eu estou tendo sangramento de vagina há duas semanas."

Isso é o que ela disse para Max Berg.

Max suspirou e balançou a cabeça com consternação. Por que razão ele? O que ele parecia ser, um médico? Ele não era um médico, ele era um ninguém, ele era um técnico de química. Um técnico de química desempregado. Ele tinha a aparência de que poderia ajudar ela? Ele parecia como se importasse? Porque ele não se importava nem um pouco. Ele era um estranho, isso era tudo. Um estranho, sofrendo um dos mais frios invernos já registrados, tremendo no seu assento, apenas preocupado com a sua própria vida, dirigindo o ônibus na cidade. Então esta velha senhora, cheia de pó rosa, como uma colmeia prateada e de cabelo azul, com um casaco de tweed cinzento mofado, trazida por uma explosão de frio, subiu a bordo. Direto da neve derretida, ela fez seu caminho pelo corredor abaixo, mirando o lugar ao lado dele, ignorando uma meia dúzia de outros assentos vazios, e pousou sua ossada de biscoitos nele. Ela tirou fora uma luva, limpou sua garganta com uma leve tosse com um punho esquelético de pele de papel, e confessou, "Eu tenho tido sangramento na vagina há duas semanas."

O que ele podia dizer? O que alguém poderia dizer quanto a isso? Nada. E ele não poderia. Max tinha estado tempo suficiente para saber que era tudo parte do dirigir um ônibus. Esperar o inesperado. Esse era o seu lema de direção de ônibus. Espere o inesperado, e tudo o que possa imaginar.

Enquanto havia exceções (havia exceções para tudo), geralmente era dois tipos de pessoas que andavam de ônibus; aqueles que estavam indo implorar por dinheiro e, pior, aqueles que vinham para tentar entrar na sua vida. Bastardos. Não, não era politicamente correto. Mas Max não sabia nada sobre política; ele nem mesmo votava, assim, o que importava para ele? As pessoas que se metiam na vida alheia para decidir o que era e não era aceitável fazer em público não viajavam no ônibus maldito.

Pense você, Max não teve problemas em admitir que esses dois tipos de passageiros, eram como sorvete e sorbet, possuíam uma ampla variedade de sabores. Havia os dorminhocos. Max até mesmo não lembra da última vez que ele viajou quando não tinha algum vagabundo degenerado dormindo no ônibus para evitar o frio lá fora. Por que não? A vida era muito mais simples quando você era inconsciente. Havia o pessoal de cadeira de rodas. Não o critique, Max não tinha nada contra eles. Mas com a graça de Deus, você sabe. Mas parar para pegar algum cara em uma cadeira de rodas era uma eternidade, e cobriam o piso com neve, gelo e lama e ela ocupava até quatro lugares, e você não poderia passar pela maldita coisa. Quem criou o sistema de transporte público está de parabéns por serem colocados na parte de trás para ajudar os deficientes, mas eles também não usavam o maldito ônibus.

Isso não era tudo. Havia o rato de biblioteca, o baderneiro, os comilões secretos (ignorando a sinais e mordiscando algo dentro dos bolsos cheios de comida não permitida), os caras com fone de ouvido, os que enviavam torpedos, os tipos eu-vou-berrar-no-meu celular, os da velha guarda, os silenciosos, o arrepiante; todos os tipos de passageiros. Mas se eles não faziam nada mais do que viajar, se eles falavam com você, Max sabia, que você estava numa grande roubada. Eles queriam dinheiro ou queriam lhe perguntar algo que não era da conta deles ou desejavam dizer algo que você não deseja saber. Tal como a ‘Vovó Pó Cor de Rosa’ no assento ao lado dele.

Havia um monte de retardados que andavam de ônibus. Mas, Max sabia também que a espada corta dos dois lados, se você perguntasse para ele, porque a cidade perdeu o juízo por encoraja-los viajar. O terminal central estava cheio de sinais de ameaça, sobre as máquinas de bebidas, nas portas dos banheiros, e sobre as janelas das cabines de bilheteira e informações, "Não faça isso", "Não faça aquilo", "Se fizer isso, será cobrado de você", "Se fizer isso os policiais serão chamados', todos postados com um sorriso dentro de uma distância de um bem velho, ou muito jovem, ou demasiado magrela, ou demasiado gordo guarda transportando uma arma, patrulhando o terminal, e pensando que ele é o presente de Deus na aplicação da lei. A cidade tratava seus passageiros, seus clientes, como lixo. Eles têm o que eles merecem.

O ponto era, nada contra ninguém, mas, Max sabia que era uma boa ideia manter um olho para fora quando ele rodava com o ônibus. Porque dois tipos de pessoas, o que significa que todos os tipos de pessoas, viajam de ônibus. Não precisava ser meia-noite para os criminosos se apressarem para botar para fora suas pedras e não tem de ser o Dia das Bruxas para os monstros saírem para fora. A chave para dirigir seguro, para não ser incomodado, era de ser um camaleão, de vestir a carapuça e assim você não fica de fora. Era assim que você mantinha um perfil lá em baixo, evitando ser visto, e evitar problemas no ônibus. Sim, na selva de pedra, especialmente nos ônibus, Max era um camaleão.

Naquele dia, Max estava na rota número 7, na Av. Express. A Av. Express atravessa o oeste-leste da cidade em uma linha reta a partir do terminal no centro, passando pelo Hospital Polaco-Americano (onde todos eram tratados, mas os Polacos da cidade começaram há oitenta anos a cobrar um dólar por caso para dar assistência), passando pelo meio da cidade, passando o Hospital Católico (apelidado de Santa Agonia, por pessoas não receberem o serviço que achavam que mereciam), e sobre a Wally World (a grande loja de departamentos) no final da jornada. Lá ele fez com cuidado um U de volta para o estacionamento da sub loja de sanduíches ‘Mom & Pop’, tendo o cuidado de não derrapar para fora da estrada coberta de gelo, para a vala no caminho, e voltado para direção oposta.

Max estava sendo um camaleão na Express quando a velha senhora subiu a bordo, tomou o assento ao lado dele e começou dividindo "demasiada informação". Ok, sendo as vezes um camaleão não ajudava para que parassem de importunar você, mas, felizmente, ela se levantou, com a sua parafernália, e desceu direto no Hospital Polaco e boa sorte para a velha galinha. Ele achou que iria tomar um folego, mas, mas o que parecia, que ser um camaleão não estava ajudando em nada naquele dia. Na mesmo minuto, assim que a velha senhora tinha caído fora, filho da mãe se não era a sua substituição que sentou ali.

Este cara tinha um tufo de cabelos negros selvagens mais de seis pés no ar, dois dias de crescimento irregular de barba, escuro (marrom sujo ou talvez cinza) emendado com calças e um casaco acolchoado verde de inverno todo rasgado, quase em trapos. Ele era enorme e o ônibus encolheu como um pequeno cais de porto, quando suas trezentas plus libras pisaram dentro do ônibus. Ele veio rolando como uma bola de neve pelo corredor, direto para o Max, trazendo um jato de ar gelado com ele.

Definitivamente não era o dia do camaleão porque o cara girou o seu tênis tamanho-14 e, apesar de um terço dos assentos estarem vazios, sentou com o seu imenso traseiro direto no assento que a velha menina tinha apenas desocupado. Respirando em estertores profundos como um asmático definhando e cheirando como alho amassado, sua cintura avançando caindo de um lado para o corredor e no outro para o Max. Isso era parcialmente o que ele parecia.

Ele era um homem de cor, mas nada como alguém que Max tinha visto antes. Ele era uma mistura de tons de terra, de um cinzento mortal (nos seus punhos, orelhas, e no seu rosto), um marrom fosco (nos seus olhos, lábios e garganta), com amarelo desbotado como uma sujeira de nutriente, como um vestido gasto e uma relíquia negligenciada tirada da cômoda no sótão da vovó. Ele tinha muita cor, como se ele exalava uma aura, como se a sua pele fosse como uma cobertura protetora para o seu enorme corpo mais do que o que era um barómetro dos sentimentos sendo produzidos. Seu corpaço sugeria superabundância, mas de tudo que ele já tinha chorado de solidão, necessidade e desejo.

Não iria surpreender você que Max, em grande parte, era insensível, e isso dito suavemente. Para ser franco, o bastardo gordo cheirava mal e estava afogando ele com seu sobrepeso nojento e isso era tudo que Max não poderia suportar mas mandar ele se mudar para outro lugar. Mas fazer uma cena ia contra a sua regra de camaleão. Em vez disso ele mordeu a sua língua, no sentido figurado, como se alguém tinha feito algo no ônibus. Estranhas coisas acontecem muitas vezes e que era melhor serem geralmente observadas sem comentário.

Em seguida, falando de coisas estranhas, algo aconteceu.

Reluzindo com neve derretida, o homem gordo se virou silenciosamente em direção dele, sorriu um sorriso amistoso, e depois levantou as suas pálpebras pesadas mostrando uns olhos azuis embaçados. Em um instante, seu olho esquerdo se dilatou, a íris desapareceu e toda a superfície do olho se tornou uma enorme pupila preta. Ele olhou sem piscar para o Max, como um réptil de um tronco de árvore, e direto na sua alma. O seu olho direito inalterado, entretanto, agindo de forma totalmente independente do outro, rodado afastado para olhar para a frente do ônibus. Tão assustado Max estava com aquilo que ele tinha visto, que ele não notou no mesmo instante, um soco direto no lado acima de seu quadril. Foi quando ele mordeu a sua língua novamente, desta vez literalmente, para segurar os gritos.

Não foi porque ele sentiu dor; fosse o que fosse que tinha acontecido, era indolor. Mas foi uma surpresa do inferno, vindo como veio saindo do campo esquerdo. O colega do lado parecia não ter se movido de tudo e certamente não tinha levantado a mão. Max não esperava nada. Um pouco mais tarde, após o choque inicial, ele sentiu mais claramente e percebeu que não era de tudo um punho. Nem era uma arma como ele pensava. Foi uma espécie de apêndice vivo, uma parte do homem gordo, um objeto como um tentáculo afiado atingindo um dos furos no seu casaco e empalando Max pela lateral. Ele não tinha sido apenas nocauteado ou esfaqueado. Isso teria sido suficientemente ruim, mas Max podia sentir o tentáculo empurrando, enrolando e torcendo, invadindo profundamente ele.

No entanto, Max não sentiu nenhuma dor. De alguma forma o homem gordo, a coisa, tinha subitamente e inexplicavelmente anestesiado ele. Max não podia pronunciar nenhum som e não poderia gritar se ele quisesse. Ele deu uma volta rápida com a cabeça, um olhar na direção do estranho, antes que a paralisia sobrenatural tomasse posse dele. Ele não conseguia se mover.

"Você tem muitas perguntas", o homem gordo disse, sem mover os seus lábios ou falar em voz alta. Max ouviu apenas na sua cabeça, mas ele ouviu tudo isso mesmo. "Eu sei. Você tem medo e você tem muitas perguntas. Lamento que haverá tempo para responder somente poucas perguntas. Eu sou de um pequeno e relativamente planeta próximo, apenas fora da órbita do seu Pluto; o nome do nosso planeta não corresponde com nada no seu idioma. Confie em mim, para você não importa. Como eu vim para o mundo é uma longa história e também fora de sua preocupação".

O ônibus estava vibrando e saltitando no seu percurso abaixo, passado por árvores com gelo, casas, lojas e em torno de um acidente testemunhado pelos escorregadores e um boneco de neve com olhos de carvão. Os freios de ar assobiaram como pilotos a bordo. As campainhas tocaram como se outros chamassem para as suas paradas. Todos a bordo, ele ou ela envolvidos consigo mesmo. Ninguém prestou a menor atenção em Max ou no homem gordo.

"Nós não somos novos na sua Terra", disse o alienígena. "Muitos da minha sociedade vieram antes; muitos virão. Estamos impressionados com os seus filmes com os seus alienígenas superiores trazendo verdades sagradas e alertas desesperadores para os seus líderes. Somos o verdadeiro negócio, como diria o seu povo, e aprendemos que o melhor começo de uma das nossas missões é comprar tranquilamente um passe de ônibus."

O alienígena sorriu. Seu olho negro olhando inexpressivamente. "Nós não temos nenhum interesse em reconstruir a sua sociedade. Não estamos tentando evitar que poluam ou conquistem o universo; como se isso fosse possível para vocês." O alienígena riu calorosamente sem a mínima alteração de sua expressão facial. "Não temos nenhuma mensagem para você. Estamos aqui para se alimentar; de forma independente para sobrevivência e comunitariamente para a nossa sociedade. Sua essência de vida, seu sangue e tecidos, estão me alimentando agora."

Max sentiu. Enquanto eles rodavam silenciosamente, ele afundando no seu assento, mantido em posição vertical apenas por tudo o que tinha saído do lado do alienígena e entrado nele, ele estava sendo drenado de tudo o que fazia dele um ser humano vital.

"Suas emoções, entretanto", o alienígena continuou, "alimentarão o meu mundo. Como os gostos clássicos procurados pelos chefs do seu planeta, a nossa sociedade é sustentada pelas clássicas emoções; amor doce, ódio picante, força salgada, decepção azeda, retribuição adstringente. Nossos agentes têm a capacidade de instantaneamente sentir e atacar indivíduos com personalidades amadurecidas com emoções específicas, para coletar essas emoções em todos os seus aspectos e transferir esses sentimentos caseiros para consumo comunitário. Como você deve ter adivinhado," disse a criatura com um rolar do seu olho esquerdo, "Eu recolho o amargo".

Max não tinha capacidade para protestar ou força para xingar. Logo ele perdeu o desejo. Sua consciência se tornou confusa. O seu contato com a realidade começava a fugir. A paisagem invernal parecia corrida, por blocos passando por fora das janelas como se a cidade estivesse se movendo e o ônibus estático. Embora ele sabia que era de manhã cedo, começou a parecer como se o amanhecer estava se aproximando.

Max não era o único que estava sentindo. As alterações estavam acontecendo também com o homem gordo. Ele respirou mais delicado e mais livremente como ele pode. Seu chiado desapareceu. A repugnante cheiro de alho tinha ido com ele. Os amarelos, cinzentos e desgostoso marrom desbotado se apagou da sua pele, foi substituído por um champanhe cintilante branco com um verde animado ao redor dos seus olhos e na sua boca e nariz. Foi como se uma nova criatura dentro dele estivesse sendo liberada; terrível, sim, mas jovem, forte e saudável.

"Sim", o alienígena confessou, "Eu fui forçado a julgar você. Só posso pedir desculpa pelo ilógico dilema que se criou, mas seu idioma limitado não tem palavras para descrever precisamente quem ou o que eu sou, ou precisamente, aquilo que eu faço. Admiro um certo número das suas palavras que dão uma definição: viajante, coletor, apagador. Existe um termo que eu particularmente gosto, dada a emoção eu sou obrigado a me conter: varredor de rua. Perdoe-me por eu não sentir por você. Seria um desperdício; humanos como você já estão mortos. Em vez disso eu me sinto obrigado em relação aos meus irmãos de colher os seus amantes da vida".

Antes de qualquer um deles saber, com um frear dos freios, o ônibus tinha parado na parada do lado de fora do Hospital Católico.

"Ah", disse o alienígena na mente mal consciente de Max. "Perfeitamente no tempo. Eu acabei com você e então, como o seu povo diz, é aqui que eu caio fora. Meu mundo agradece a você e eu te agradeço. Você estava delicioso." Com um sorver do seu tentáculo que foi retirado e sumido no seu casaco rasgado. Max caiu contra a janela enquanto o viajante se levantou de seu assento batendo no seu lado com satisfação.

O ônibus respirou com alívio quando ele saiu para fora da plataforma e na neve. Dois passageiros esperavam ansiosos por algum calor, pagando não importa quanto, subiram a bordo. O alienígena se movia pesadamente e lentamente ao redor e atrás do quiosque da parada de ônibus.

Através dos semiabertos e desfocados olhos, através da janela embaçada do ônibus, através da parede fosca do quiosque, o moribundo Max viu o alienígena caminhar a pé e percebeu que, quanto aos camaleões, ele tinha sido um amador. Quando ele viu que, conforme ele caminhava, o alienígena começou a se transformar. Todo o seu corpo monstruoso tinha se encolhido para baixo. Suas mãos carnudas, já caiam ainda mais para baixo, pendendo e assumido a forma e as cores de sacolas de compras cheios. Seu emaranhado cabelo preto se tornou um marrom ‘babushka’, seu casaco rasgado juntado para acomodar sua silhueta, debruçada sobre si mesmo, acima dos seus tornozelos como algo consertado e virado cinza e branco. Ele...agora ela, para o passageiro tinha se tornado uma mendiga octogenária flácida com calçado ortopédico de borracha, que começou a caminhar lentamente até a calçada cheia de sal no sentido do St. Agonia na subida.

Nenhum dos leitores, impertinentes, comedores secretos, os fones de ouvido, os mensageiros de torpedos, os gritadores de telefone celular, os da velha guarda, o silencioso ou o arrepiante a bordo do ônibus, prestou a menor atenção no alienígena e na sua transformação. Nem prestaram qualquer atenção quando Max Berg deu o seu último suspiro ou para a carcaça que ele deixou para trás. Por que razão deveriam? No inverno, sempre havia pessoas dormindo no ônibus.