Tigana: A Lâmina na Alma
Parte dois – Dianora
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Uma vez, muito tempo antes, a vila se encontrava próxima a uma das estradas que
bifurcavam a nordeste, vindo da estrada principal que passava pelo Passo Sfaroni, nos dias
em que ainda se comercializava com Quileia, ao sul. Por isso a antiga taverna era tão grande,
em meio a uma aldeia agora tão pequena, com quatro quartos no andar de cima para os
viajantes que não vinham já havia muitos anos.
Dianora escondera a prata de seu pai ao sul da vila, numa encosta bem arborizada, longe
de onde os pastores costumavam car e fora trabalhar como servente na taverna. Não havia
dinheiro para pagá-la, é claro. Ela trabalhara em troca do quarto e da escassa comida
disponível naquelas primeiras estações do ano; e labutara no campo com as outras mulheres
e os garotos para levar para casa tudo o que pudessem colher.
Ela lhes dissera que era do norte, perto de Ferraut, que sua mãe estava morta e seu pai e
seu irmão tinham ido para a guerra. Dissera que seu tio começara a abusar dela e por isso
fugira. Era boa com sotaques, e soube ngir ser do norte bem o su ciente para acreditarem.
Ou ao menos não fazerem perguntas. Havia muita gente passando pela Palma naqueles dias,
e as perguntas di cilmente eram insistentes. Ela comia pouco e trabalhava tanto quanto
qualquer um no campo. Na verdade, havia pouco a se fazer na estalagem, já que os homens
estavam na guerra. Ela dormia em um dos quartos no andar de cima, e até o tinha só para si.
À sua própria maneira, eram gentis com ela, dada a natureza das coisas naquela época.
Quando a luz e o local estavam adequados, geralmente pela manhã, em certos pontos dos
campos mais altos, conseguia olhar para oeste, através da fronteira e em direção ao rio, e ver
as torres restantes e a fumaça sobre o que fora Avalle. Uma manhã, perto do nal do ano,
percebeu que não conseguia ver mais nada. Que, na verdade, já fazia tempo desde que vira
algo. A última torre se fora.
Naquela mesma época, os homens começaram a retornar para casa, cansados e feridos.
Novamente, houve trabalho na cozinha e espera nas mesas ou atrás do balcão do bar.
Também se esperava mais uma coisa dela, para a qual se preparara da melhor forma possível
por todo o outono: que levasse um homem para o quarto, caso ele oferecesse o preço justo.
Toda vila parecia precisar de uma mulher assim, e ela fora a candidata óbvia daquele lugar.
Tentara não se importar, mas aquela fora a sua tarefa mais difícil até então. No entanto,
tinha uma missão, uma razão para estar ali, uma vingança para realizar; e aquilo, mesmo
aquilo, dizia ela a si mesma enquanto subia as escadas com alguém, fazia parte dessa missão.
Ela endurecera, mas nem sempre, e não o bastante.
Talvez isso tenha cado nítido. Vários homens pediram-na em casamento. Um dia, ela se
agrou pensando em um deles enquanto limpava as mesas após o almoço. Era quieto e gentil, tímido quando ele a levava para o andar cima, e seus olhos a seguiam na taverna com
grande concentração sempre que estava lá.
Foi o dia em que soube que deveria partir.
Ela ficou um pouco surpresa ao notar que já haviam-se passado três anos. Era primavera.
Escapou numa noite, novamente sem se despedir, lembrando-se da chegada mesmo
enquanto partia. Flores do prado desabrochavam junto à trilha das colinas. O ar estava limpo
e morno. Sob a luz mista das duas luas, encontrou sua prata enterrada e caminhou sem olhar
para trás, tomando a estrada para o norte, em direção ao forte de Sinave. Tinha 19 anos.
Dezenove e, em algum momento daqueles últimos dois anos, tornara-se bonita. Suas
feições angulares e ossudas haviam se amenizado, mesmo enquanto perdia os últimos traços
de meninice. Seu rosto era oval, com bochechas largas, quase austero. Isso mudava quando
ria — e por alguma razão ainda sabia rir —, tornando-a calorosa e animada, enquanto seus
olhos negros pareciam prometer coisas que iam além da mera diversão. Homens que
conseguiram fazê-la rir ou sorrir iriam encontrar aquele olhar novamente mais tarde, seja nas
memórias ou na tênue fronteira entre sono e sonho, anos depois que Dianora se fora.
Em Sinave, os barbadianos a incomodavam com seu tamanho opressivo e sua brutalidade
descuidada e casual. Ela se forçara a manter a calma e permanecer ali. Duas semanas seriam
o suficiente, imaginara. Precisava deixar uma impressão e uma lembrança.
Uma lembrança cuidadosamente construída, de uma garota ambiciosa e bonita do interior,
de algum lugarejo perto das montanhas. Uma garota que costumava se calar durante as
conversas na taverna; mas que, quando falava, contava histórias vívidas e marcantes de sua
vila ao sul. Contava-lhes com a perceptível dicção lacônica e as vogais arredondadas que a
marcariam em qualquer lugar da Palma como uma mulher nascida nas terras altas de
Certando.
As histórias eram geralmente tristes — como a maioria naquele tempo. Mas, de vez em
quando, Dianora oferecia uma jocosa imitação de algum rústico das terras altas, dando sua
opinião embasada sobre os grandes negócios do mundo, e aqueles que se sentavam à mesa
com ela riam por muito tempo.
Ela passava a impressão de ter algum dinheiro, provavelmente ganho da maneira que
garotas bonitas costumavam ganhar. Mas dividia um quarto com outra mulher na melhor
das duas hospedarias dentro das muralhas do forte, e nenhuma delas jamais havia sido vista
convidando um homem a subir. Ou aceitando o convite de alguém para ir a outro lugar. Os
soldados barbadianos poderiam ter sido um problema — e, no inverno, foram —, mas
ordens haviam chegado de Astibar, e eles estavam de rédeas curtas na primavera.
O que Dianora pretendia, segundo con ara certa noite ao grupo de jovens homens e
mulheres ao qual havia se juntado, era trabalhar numa taverna, ou local semelhante, que
servisse um tipo melhor de pessoas. Ela já havia visto o su ciente e mais um pouco daqueles
tipos de estalagem, muito obrigada, declarara.
Alguém mencionara A Rainha, em Stevanien, do outro lado da fronteira de Baixa Corte.
Com um sincero suspiro de alívio, Dianora começara a fazer perguntas sobre o lugar.
Perguntas para as quais já sabia a resposta havia três dias; naquele período, sentara-se em
meio àquelas mesmas pessoas, plantando sugestões sutis na esperança de fazer o nome vir à
tona. Mas não valia a pena desperdiçar sutileza entre os jovens da fronteira de Certando, e
ela praticamente teve de arrastar a conversa na direção que queria.
E então ouvira, parecendo arrebatada e interessada, enquanto dois de seus novos
conhecidos descreviam a mais recente e elegante inovação ygratheana em Baixa Corte. Um
restaurante coordenado por um cozinheiro trazido da própria Ygrath pelo atual governador
de Stevanien e suas distradas. Parecia que o Governador era um grande apreciador de
vinhos, comidas e boa música tocada em salões confortáveis. Ele havia ajudado o novo
mestre de cozinha a se estabelecer num conjunto de salões no andar térreo de uma antiga
casa bancária e se deleitava na glória re etida pelo restaurante mais elaborado e luxuoso da
Palma. Ele mesmo jantava lá várias vezes por semana, ouvira Dianora.
Pela segunda vez.
Ela já ouvira tudo isso em meio às fofocas dos mercadores, enquanto conferia os preços e os
estilos das roupas disponíveis no Forte Sinave. Sabia que precisava se vestir de acordo com a
cidade. Isso poderia fazer a diferença.
Desde a primeira vez em que ouvira o nome, percebeu que A Rainha seria a estalagem
perfeita para o próximo estágio do plano para mudar seu passado.
O que ela aprendera com os mercadores era que ninguém de Baixa Corte tinha autorização
para comer ali. Comerciantes de Corte eram bem-vindos, assim como aqueles das distantes
Asoli ou Chiara. Qualquer ygratheano, soldado, mercador ou quem quer que buscasse
riqueza na nova colônia, era gentilmente convidado a saudar o retrato da Rainha Dorotea,
pendurado na parede em frente à porta. Mesmo os mercadores que estivessem cruzando a
divisa entre a Palma Oriental e a Ocidental eram mais do que bem-vindos a deixar ali uma
parte de qualquer forma de dinheiro que carregassem.
Apenas os verdadeiros inimigos do Rei — os cidadãos de Baixa Corte ou de Stevanien —
eram proibidos de contaminar e sujar o ambiente com sua presença imunda e infecta de
assassinos de herdeiro.
E um mercador de Ferraut que trazia couro de Stevanien com a expectativa de vender com
algum lucro, apesar das tarifas daquele ano, contou a Dianora que os ditos inimigos nunca
entravam na Rainha. O que os habitantes de Stevanien zeram em resposta à proibição foi
simplesmente se recusar a trabalhar no novo estabelecimento. Nem como garçons, nem
como ajudantes de cozinha, nem no estábulo, nem como músicos ou artesãos que
auxiliassem a decorar e a manter seus esplêndidos salões.
O Governador, ao descobrir o que estava acontecendo, jurou, vermelho de raiva, que
obrigaria os desprezíveis habitantes dali a trabalharem em qualquer lugar em que fossem
solicitados por seus mestres de Ygrath. Iria forçá-los com masmorras, chicotes e rodas de
tortura se fosse preciso.
O cozinheiro chefe, Arduini, discordou.
Arduini argumentou, numa demonstração muito semelhante do temperamento artístico,
que ninguém poderia construir e manter um estabelecimento de qualidade por meio de
trabalho forçado e de malgrado. Seus padrões eram simplesmente altos demais para aquilo.
Mesmo os garotos que cuidavam dos estábulos de seu restaurante, disse Arduini de Ygrath,
deveriam ser treinados e bem dispostos, além de terem certo estilo.
Quando aquilo se espalhou, houve risos: ajudantes de estábulo com estilo, ora essa. Mas o
deboche logo se tornou respeito; pois Arduini, pretensioso ou não, sabia o que estava
fazendo. O mercador de Ferraut disse a Dianora que A Rainha era como um oásis em meio
aos desertos de Khardhun. Na desolada e destruída Stevanien, era como um brilho cálido de
civilidade e graça ygratheana. Ele lamentou, embora com certa discrição, já que estava desse
lado da fronteira, que tais traços não aparecessem nos barbadianos, que haviam ocupado sua
própria província.
Mas, sim, disse ele, em resposta à questão aparentemente casual de Dianora: Arduini ainda
estava passando por problemas em conseguir funcionários. Stevanien não era um local
movimentado e, além do mais, cava na província mais oprimida da Palma, seja
militarmente, seja por meio de impostos. Era praticamente impossível fazer com que pessoas
viajassem até lá ou mesmo permanecessem ali. E, como nenhum dos aventureiros de Ygrath
havia viajado até tão longe para lavar pratos, limpar mesas ou ajudar em um estábulo —
ainda que o estábulo tivesse muito estilo —, havia uma necessidade crônica de trabalhadores
de outros locais da Palma.
Naquele momento, Dianora mudou todos os seus planos. Traçou a linha de sua vida com
base naquela informação do acaso e fez um pedido silencioso a Adaon. Ela já esperava, com
alguma preocupação sincera, ir até Corte. Aquele sempre fora o destino quase nal de seus
planos. E nas noites em que não conseguia dormir, como era frequente, ponderara se três
anos em Certando seriam su cientes para que não começassem a buscar a verdadeira
história de sua vida. Mas não tinha ideia do que mais poderia fazer.
Agora tinha.
Algumas noites depois, na maior das tavernas do Forte Sinave, uma animada multidão de
jovens assistia sua nova amiga beber mais do que deveria, pela primeira vez desde que
chegara. Mais de um dos rapazes viu ali um motivo para otimismo no que dizia respeito às
possibilidades daquela noite.
— Então, está decidido! — gritava Dianora, com sua voz atraente e seu sotaque interiorano.
Ela se recostava, amparada contra o ombro de um carroceiro perplexo. — Amanhã será um
novo começo para mim! Vou para a fronteira assim que puder, para visitar A Rainha de
Ygrath! Que a Tríade abençoe seus dias!
Que a Tríade proteja e cuide da minha alma, pensava ela enquanto falava, completamente
sóbria, sentindo um profundo calafrio com as palavras que gritava com tanta facilidade.
Eles a silenciaram, rindo alto — em parte, para cobrirem suas palavras. Na Certando dos barbadianos, saudar a Rainha de Ygrath estava longe de ser uma decisão inteligente.
Dianora riu de modo cativante, mas por m se acalmou. O carroceiro e outro homem
tentaram acompanhá-la até seu quarto, mas acabaram sendo delicadamente dispensados,
indo beber juntos em meio a outros mercenários fora de seu horário de trabalho na única
taverna do Forte Sinave que funcionava a noite toda.
Eles concordaram, sabiamente, que ela era descontrolada e interiorana demais para que
tivessem sucesso em suas ambições. E também concordaram, alguns copos depois, que ela
tinha o mais encantador dos sorrisos. Algo sobre como os olhos dela cavam quando estava
satisfeita.
Pela manhã, Dianora viu-se vestida e pronta, com todas as suas coisas guardadas e
esperando, logo cedo, em frente ao portão principal do forte. Barganhara uma carona até
Stevanien com um mercador de meia-idade bastante simpático que vinha de Senzio
carregando especiarias barbadianas para o mercado de luxo. A única razão para ir até a triste
e acabada Stevanien, dissera-lhe o mercador, era o novo restaurante, A Rainha. Ela
interpretara aquela feliz coincidência como um bom sinal, fechando os dedos da mão
esquerda sobre o polegar três vezes, para fazer com que o desejo se tornasse realidade.
As estradas andavam melhores do que se lembrava. Certamente, os mercadores que
cruzavam por ali pareciam sentir-se seguros. Enquanto viajavam, ela perguntou sobre isso ao
senziano. Ele sorriu, sarcástico:
— Os tiranos acabaram com a maioria dos bandidos da estrada. É apenas uma questão de
proteger os próprios interesses. Eles querem ter certeza de que ninguém mais irá nos roubar
antes deles, com seus impostos e as tarifas nas fronteiras. — Discretamente, ele cuspiu na
poeira da estrada. — Pessoalmente, eu preferia os bandidos. Havia modos de se lidar com
eles.
Pouco depois, Dianora vira evidências do que ele dizia: passaram por duas rodas de tortura
ao lado da estrada, os corpos de supostos ladrões presos com braços e pernas abertos, girando
lentamente sob o sol, com as mãos decepadas apodrecendo em suas bocas. O cheiro era
horrível.
O senziano parou em frente à fronteira para negociar no Forte de Forese. Pagou também a
taxa de passagem, enquanto aguardava na la para que sua carroça fosse examinada e
taxada. As rodas de tortura, comentou depois, à maneira cáustica dos senzianos, não eram
destinadas apenas aos bandidos de estrada ou aos magos capturados.
Como já estava tarde, passaram a noite num estabelecimento naquela estrada, juntando-se
a um grupo de mercadores de Ferraut para o jantar. Dianora se retirou cedo e foi para a
cama. Ela pagara para ter um quarto individual e tivera a precaução de arrastar um armário
de carvalho para bloquear a porta. Mas nada a perturbou, a não ser seus sonhos. Viu-se de
volta a Tigana, mas não estava lá, pois ali não era Tigana. Sussurrara o nome para si, como
um talismã ou uma oração, antes de cair em um sonho agitado, repleto de imagens de
destruição daquele ano de guerra.
Passaram a segunda noite em outra estalagem, ao lado do rio, em frente às muralhas de
Stevanien, já que haviam chegado após o toque de recolher do pôr do sol, que fechava os
portões. Daquela vez, comeram sozinhos e ela conversou com o senziano até tarde. Ele era
decente e estava sóbrio, negando os clichês sobre sua província decadente, e cou claro que
gostava dela. Ela gostava de sua companhia e, de certo modo, sentia-se atraída por seu jeito
seco e espirituoso. Ainda assim, foi para a cama sozinha. Aquela não era a vila em Certando:
não tinha obrigações.
Ou, ao menos, não aquele tipo de obrigações. E quanto à diversão ou às necessidades
comuns de interação humana... nada disso faria sentido para ela, caso alguém lhe explicasse.
Tinha 19 anos e estava na Tigana-que-já-existira.
Pela manhã, dentro das muralhas da cidade, se despediu do senziano, tocando palma com
palma, brevemente. Ele parecia um tanto afetado pela noite anterior, mas Dianora se virou e
saiu andando antes que ele conseguisse encontrar as palavras que seus olhos procuravam.
Ela encontrou uma estalagem não muito distante. Uma em que sua família nunca se
hospedara. Não estava realmente preocupada em ser reconhecida; sabia o quanto tinha
mudado e que havia muitas garotas chamadas Dianora em toda a Palma. Pagou adiantado
pela estadia de três dias e deixou suas coisas lá.
Então caminhou pelas ruas do que fora, não muito tempo antes, Avalle das Torres. Avalle,
nas margens verdejantes do Sperion, logo antes do rio voltar-se a oeste para buscar o mar.
Uma dor crescia nela enquanto andava. O que mais lhe doeu foi perceber o quanto um lugar
poderia ser o mesmo após ter mudado completamente.
Atravessou o distrito do couro e o distrito da lã. Conseguia se lembrar de andar por ali com
sua mãe, quando toda a família fora até Avalle para ver uma das esculturas de seu pai ser
colocada, com cerimônias, em alguma das praças. Ela até reconheceu a loja em que comprara
seu primeiro par de luvas de couro cinza, com moedas guardadas de seu aniversário no verão
especialmente com esse propósito.
Cinza era a cor para mulheres crescidas e jovens, não para meninas, o artesão de barba
ruiva provocara. Eu sei, dissera orgulhosa a Dianora de 6 anos naquele outono tão distante.
Sua mãe rira. Em algum lugar do tempo, sua mãe havia sido uma mulher que ria. Dianora se
lembrava.
No quarteirão da lã, viu mulheres e meninas trabalhando sem descanso, cardando e
tecendo da mesma maneira que zeram por séculos, diante de portas abertas para os
primeiros raios de sol daquele começo de verão. Do outro lado do rio, conseguiu sentir o
cheiro dos galpões e pátios de tintas.
Quando Quileia, além do sul das montanhas, se voltara para seu matriarcado, centenas e
centenas de anos antes, Avalle sofreu graves consequências. Talvez maiores do que qualquer
outra cidade na Palma. Como estava diretamente localizada entre uma das duas rotas
principais de comércio entre as montanhas, encontrava-se em súbito risco de se tornar
irrelevante. Com uma ingenuidade coletiva que beirava a genialidade, a cidade decidiu mudar seu foco.
No espaço de tempo de uma geração, aquela cidade de bancos e comércio se tornou o
principal centro de trabalhos com couro e da lã tingida suntuosamente em toda a Palma.
Sem perder tempo, Avalle perseguira sua nova prosperidade e seu orgulho. E as torres
continuaram subindo.
Sentindo uma sgada no coração, Dianora nalmente reconheceu que trilhava seu
caminho, cuidadosamente, pelos arredores de Stevanien, os distritos periféricos, os
quarteirões dos artesãos, olhando apenas para o outro lado e para dentro das casas. Nunca
para o centro, em direção às colinas. Onde costumavam ficar as torres.
Então, ao perceber que fazia isso, voltou seu rosto, permanecendo imóvel no meio de uma
praça, no início da rua da Guilda dos Artesãos. Em frente à praça, havia um templo de
Morian, pequeno e muito bonito, feito de mármore com detalhes róseos. Ela o encarou por
um instante, para então direcionar seu olhar por cima dele e adiante.
Naquele momento, Dianora foi atingida por uma verdade decisiva: o quanto algo conseguia
parecer inalterado em todos os pequenos detalhes super ciais de sua existência, nos detalhes
em que as coisas nunca mudavam verdadeiramente, homens e mulheres sendo o que são.
Mas como o coração, a base, o cerne de tudo havia se tornado completamente diferente do
que fora outrora.
As lindas e amplas ruas pareciam ainda mais amplas do que antes. Mas é porque estavam
quase vazias. Havia um barulho abafado à sua esquerda, à beira do rio, onde o mercado
ainda se encontrava. Sua memória lhe dissera, contudo, que o som não era sequer uma
fração do que havia sido nas manhãs que se haviam perdido.
Havia pouquíssimas pessoas. Tantos haviam partido ou morrido, e os soldados ygratheanos
cavam ainda mais visíveis no vazio das ruas. Dianora deixou seu olhar viajar além do
templo, além da linha da larga avenida que estava ao seu lado, até o coração da cidade.
Nós podemos e vamos construir e expandir, dissera certa vez o povo de Avalle; mesmo no
começo, quando as cidades em todos os outros locais eram viveiros tortuosos de becos
entrelaçados e vias retorcidas e fáceis de defender. Não haverá outra cidade como a nossa em
todo o mundo e, se for preciso nos defender, iremos nos defender do alto de nossas torres.
Torres que não mais existiam. A linha feia do horizonte, reta e contínua, acertou Dianora
dolorosamente. Era como se seus olhos tivessem sido enganados, procurando algo que
deveria estar ali.
Desde os primeiros dias daquela grande e elegante cidade na beira do Sperion, as torres
eram o símbolo de Avalle, a rmações do orgulho tiganês — pura arrogância, como diziam
nas províncias de Corte, Chiara e Astibar. Eram sinais da rivalidade interna, pois cada família
rica, assim como cada grupo rico de banqueiros, comerciantes ou artesãos, construíra sua
própria torre, o mais alto que conseguiram, e então ainda mais alto. Graciosas ou de aspecto
bélico, de pedras vermelhas, cor de areia ou acinzentadas, as torres de Avalle se erguiam em
direção ao céu de Eanna como uma floresta dentro das muralhas da cidade.
Os con itos internos chegaram a ser verdadeiramente perigosos durante um tempo,
comumente repletos de assassinatos e sabotagens, e os melhores construtores e arquitetos
cobravam valores assombrosos. Fora o terceiro Príncipe Alessan di Tigana que colocara um
fim àquela insanidade da maneira mais simples possível, mais de duzentos anos antes.
Ele recebera Orsaria, a mais celebrada entre as arquitetas, requisitando a construção de um
palácio para ele em Avalle. E aquele palácio deveria ter uma torre, dissera o Príncipe Alessan,
que seria — e se manteria, pela força da lei — a mais alta da cidade.
E assim o fora. A Torre do Príncipe, esguia e graciosa, era envolta em faixas de verde e
branco, de modo a servir como memória do mar em meio à terra, colocando um m à
competição pelo topo de Avalle. E dali em diante, seguindo o exemplo daquele Príncipe
Alessan e criando um costume e uma tradição, os príncipes e as princesas de Tigana
nasceriam em Avalle, no palácio abaixo daquela torre, para que pertencessem a ambas as
cidades: Tigana das Ondas e Avalle das Torres.
Dianora sabia que, um dia, chegaram a existir mais de setenta torres, coroadas em glória
por aquela presença verde e branca. Um dia? Quatro anos antes.
E Dianora pensara, enquanto sua visão sentia a dor daquela ausência: o que é uma pessoa
que segue seus dias como sempre fez, que fala, anda e trabalha, que come, faz amor, dorme
e às vezes até consegue rir, mas cujo coração foi cortado e arrancado de seu corpo?
Nenhuma cicatriz fora deixada à vista. Nenhuma ferida, pela qual pudessem se lembrar do
golpe da lâmina.
Todos os escombros foram removidos. Não havia fumaça, a não ser aquela vinda dos locais
de tinturas. O dia estava agradável e brilhante, os pássaros cantavam boas-vindas ao calor
que chegava. Não havia nada, absolutamente nada que mostrasse que um dia houvera torres
naquele lugar. Naquela cidade de Stevanien, baixa e cada vez mais baixa, num canto remoto
da Península da Palma, na mais oprimida das províncias.
O que é tal pessoa?, pensou Dianora mais uma vez. Uma pessoa cujo coração havia sido
arrancado? Ela não tinha uma resposta; como poderia ter? A perda nasceu e se enrolou
dentro dela, seguida pelo ódio, como se fossem dois recém-nascidos, ainda mais frios e
agudos do que antes.
Ela subiu aquela larga avenida até o centro de Stevanien. Passou pelas barracas dos
soldados e pelas portas do Palácio do Governador. Não muito longe, encontrou A Rainha.
Foi contratada imediatamente, para começar naquela mesma noite. Precisavam
desesperadamente de ajuda. E era difícil encontrar quem quisesse trabalhar ali. Arduini de
Ygrath, que cuidava de todas as contratações pessoalmente, decidiu que aquela bela criatura
de Certando tinha certo estilo. Mas ela deveria fazer algo, ele avisou, a respeito daquele
sotaque miseravelmente vulgar das terras altas. Ela prometeu tentar.
E Arduini comentaria, seis meses depois, que Dianora já falava quase como uma nativa da
cidade. Naquele tempo, ela já passara da cozinha à sala da frente, para servir as mesas,
vestida de creme e marrom-escuro, assim como todo o estabelecimento. Cores que combinavam bastante com ela.
Dianora era quieta, hábil, despretensiosa e educada. Lembrava-se dos nomes e das
preferências dos fregueses. Aprendia rápido. Quatro meses depois, na primavera antes de
completar 21 anos, Arduini lhe ofereceu a cobiçada posição à frente da Rainha, recebendo os
clientes e supervisionando os funcionários nas três salas de jantar.
Ela o surpreendeu ao recusar. Surpreendeu várias pessoas. Mas Dianora sabia que aquele
cargo era proeminente demais para seus propósitos, que não haviam mudado. Se pretendia
viajar para o norte rumo à Corte em breve, além de ser tida como inegavelmente vinda de
Certando, deveria ser associada com A Rainha, mas não de maneira tão eminente. Pessoas
eminentes tinham que responder perguntas sobre si, ela sabia disso.
Então ngiu um ataque de ansiedade, típico de garota do interior, na noite em que Arduini
lhe fez a proposta. Quebrou duas taças e derrubou uma bandeja, deixou cair vinho verde de
Senzio no Governador.
Em lágrimas, tinha ido até Arduini e implorado por mais tempo para ganhar autocon ança.
Ele concordou. O fato de já estar apaixonado por ela ajudou. Ele a convidou, graciosamente,
a ser sua amante. E aquilo ela também recusou, alegando que tal relação traria uma
inevitável tensão ao local e aos funcionários, prejudicando A Rainha. Fora o argumento
certo. Aquele estabelecimento era a verdadeira amante de Arduini.
De fato, Dianora havia se decidido a não deixar homem nenhum tocá-la. Estava em
território ygratheano e tinha um propósito. As regras haviam mudado. Com hesitação,
decidiu que partiria para o norte, para Corte, durante o outono. Havia começado a traçar
desculpas e planos, quando os acontecimentos a atingiram de forma tão espetacular.
Humildemente circulando pela câmara de audiências, Dianora parou para cumprimentar a
esposa de Doarde, de quem gostava. O poeta aproveitou a oportunidade para apresentar sua
lha. A garota corou, mas abaixou a cabeça, unindo as mãos de modo re nado. Dianora
sorriu para ela e prosseguiu.
Um dos serviçais chegou até ela, trazendo khav em um cálice negro com pedras preciosas
vermelhas. Um presente dado, anos antes, por Brandin. Era sua marca em ocasiões como
aquela: nunca bebia nada mais forte do que khav em recepções públicas. Com um olhar
culpado em direção à porta em que sabia que Scelto estaria, recostado à parede, tomou um
agradecido gole da bebida quente. Abençoados fossem a Tríade e os agricultores de Tregea,
pois o khav era negro, denso e muito forte.
— Minha querida senhora Dianora, você está mais magnífica do que nunca.
Ela se virou, suprimindo o olhar de desgosto. Reconhecera a voz: Neso de Ygrath, um
nobre menor de além-mar que chegara recentemente à corte de Brandin, no primeiro navio
da estação, com a única esperança de se tornar um nobre maior na colônia. Ele era, até onde
Dianora conseguira discernir, um homem sem talento ou moral.
Sorriu radiantemente para ele e permitiu que tocasse sua mão.
— Meu caro Neso, que gentileza a sua mentir tão habilidosamente para uma mulher que está envelhecendo.
Gostava de dizer aquele tipo de coisa. A nal, como Scelto observara uma vez, se ela estava
velha, o que dizer de Solores?
Neso apressou-se em oferecer todas as enfáticas e previsíveis negações. Elogiou o vestido e a
pedra-de-veiro, observando com olhos e língua de um cortesão como as pedras daquele
cálice ecoavam suas cores naquele dia. Então, abaixando a voz até que apenas Dianora o
ouvisse, com uma intimidade que ele não tinha, perguntou-lhe pela oitava vez, no mínimo,
se ela ouvira algo mais a respeito daquela posição vaga de Mestre das Tributações, ao norte
de Asoli.
Era, de fato, um cargo lucrativo. O homem que ocupara essa posição anteriormente zera
sua fortuna, ou ao menos o que julgava su ciente, e voltaria para Ygrath em algumas
semanas. Dianora odiava aquele tipo de politicagem e, certa vez, fora corajosa o su ciente
para dizer isso a Brandin. Divertindo-se um pouco — o que a irritara —, ele apontou de
forma prosaica o quão difícil era conseguir homens para servir em locais tão desprovidos de
atenção quanto o norte de Asoli, sem lhes oferecer a chance de enriquecer um pouco.
Os olhos cinza por baixo da grossa sobrancelha escura repousavam sobre ela enquanto
reclamava, até que nalmente cedera à triste verdade em suas palavras. En m, Dianora
olhara para cima e acenara, relutante, que concordava — o que o zera soltar uma
gargalhada.
— Estou tão aliviado — gracejara Brandin de Ygrath — que minha lógica e meu governo,
tão desajeitados, estejam de acordo com a sua aprovação.
Ela corara até a raiz dos cabelos, mas então, percebendo a ironia, rira também diante do
absurdo de sua presunção. Isso fora há muitos anos.
Então, tudo o que tentava fazer, de forma discreta, era que cargos como esses não fossem
parar nas mãos dos mais mesquinhos entre aquela mistura de pequenos cortesãos
ygratheanos. Decidira que Neso não conseguiria o cargo se pudesse evitar. O problema era
que d’Eymon parecia, sabe-se lá por que motivo, favorecer a nomeação de Neso. Ela já
pedira a Scelto para tentar descobrir a razão daquilo.
Naquele momento, Dianora deixava o sorriso se esvair num olhar sério de preocupação
benevolente, enquanto encarava aquele ygratheano lustroso e gordo. Baixando a voz,
embora sem se curvar em sua direção, murmurou:
— Estou fazendo o que posso. Você precisa saber que parece haver certa oposição.
Os olhos de Neso se apertaram por trás da fumaça que se erguia de seu khav. Com
discrição, eles passaram sobre seus ombros e chegaram até onde ela sabia estar d’Eymon, à
porta do Rei. Neso olhou de volta para ela, erguendo as sobrancelhas discretamente. Dianora
deu de ombros, como se pedisse desculpas.
— Você tem alguma... sugestão? — perguntou Neso, seu rosto sulcado pela ansiedade.
— Eu começaria sorrindo um pouco — disse ela, com acidez proposital. Não havia sentido
em fazer intrigas que seriam conhecidas por toda a corte.
Neso forçou uma risada imediatamente e então aplaudiu, como se ela houvesse feito
alguma piada irresistível.
— Perdoe-me — disse o cortesão, sorrindo conforme ordenado. — Esse é um assunto de
grande importância para mim.
É um assunto muito mais importante para o povo de Asoli, seu parasita ambicioso, pensou
Dianora. Ela colocou a mão levemente sobre as mangas bufantes de Neso.
— Eu sei que sim — disse, em tom gentil. — E farei o que puder. Se as circunstâncias... me
permitirem.
Neso, fosse o que fosse, conhecia bem esse tipo de coisa. Mais uma vez, a falsa risada se
ergueu diante de uma piada que não existia.
— Espero conseguir ajudar as circunstâncias — murmurou.
Dianora sorriu novamente e retirou sua mão. Era o bastante. Scelto receberia mais dinheiro
naquela tarde. Ela esperava que fosse o su ciente para cobrir uma parte do custo da pedra-
de-veiro. E quanto a d’Eymon, ela provavelmente acabaria falando diretamente com ele, em
algum momento da semana. Ou o mais diretamente quanto fossem possíveis as conversas
com aquele homem.
Tomando mais um gole de khav, voltou a andar. Pessoas vinham até ela por onde quer que
fosse. Na corte de Brandin, era uma má ideia não ter uma boa relação com Dianora di
Certando. Enquanto mantinha conversas de modo ausente e aleatório, continuava com os
ouvidos apurados, à procura de algum empregado ou arauto que deixasse escapar o que
Brandin anunciaria naquele evento. Ela notou que Rhun fazia caretas para si mesmo em um
dos espelhos e ria com o resultado. Ele estava de bom humor, o que era um bom sinal.
Voltando-se para o outro lado, viu de repente um rosto de que gostava. Um que havia sido,
inegavelmente, de suma importância para sua própria história.
Muitos poderiam dizer, de várias maneiras diferentes, que a culpa fora do Governador. Ele
estava tão ansioso para amenizar a evidente frustração de Rhamanus, capitão do navio de
tributos daquele ano, que ordenou à garota de Certando que servia as mesas — e que se
desculpara de modo tão charmoso depois do incidente com o vinho, um tempo antes — que
trouxesse mais dos melhores vinhos da Rainha para aqueles à mesa.
Mais cedo naquele dia, Rhamanus, jovem o su ciente para ainda ser ambicioso, velho o
bastante para sentir suas chances escapando, zera alguns comentários bastante ácidos sobre
a situação em Stevanien e seus arredores. Um lugar morto, com taxas e impostos descabidos,
murmurara ele bastante casualmente, dizendo que não tinha nem mesmo a certeza de que
valeria a pena subir o rio na primavera, à bordo da galé... diante das atuais circunstâncias
administrativas.
O Governador, que já alcançara tudo o que sua ambição queria, mas ainda precisava de
mais alguns anos arrancando sua parte das tarifas e impostos, estremecera por dentro e
amaldiçoara o alinhamento dos planetas. Por que, depois de ter lutado tanto para ser decente e incontestável em tudo o que fazia, tentando deixar a água em que entrara tão
calma quanto antes, por que tinha tão pouca sorte?
A não ser pela ação militar na primeira metade do verão, não havia outro modo de
conseguir arrancar mais dinheiro ou bens daquela região tão empobrecida. Se Brandin
realmente quisesse extrair alguma riqueza de Stevanien, deveria ter sido aconselhado a não
destruir a cidade e suas distradas daquele modo.
Não que o Governador tivesse algum dia sequer sonhado em deixar um comentário como
aquele chegar aos seus lábios. Mas a verdade é que estava fazendo o melhor que podia. Se
espremesse os grupos de couro ou de lã ainda mais do que já fazia, eles iriam simplesmente
começar a ruir. Stevanien, já tão pouco habitada e com tão poucos homens em idade de
trabalho, iria tornar-se uma cidade de fantasmas e praças vazias. E ele recebera ordens
explícitas do Rei para evitar aquilo.
Se as várias ordens e desejos do Rei se acumulavam e se contradiziam de forma tão violenta
e tão evidente, o que poderia fazer um administrador de meio-escalão?
Não que tal queixa pudesse ser apresentada contra o ouriçado e infeliz Rhamanus. Por que
o capitão iria se importar com os dilemas do Governador? Os capitães de um navio de
tributos eram julgados pelo que traziam de volta até Chiara. Seu trabalho era colocar tanta
pressão nos administradores locais quanto conseguisse — chegando ao ponto, por vezes, de
forçá-los a entregar uma parte de seus próprios impostos para alcançar a meta que tinham
dentro do navio. O Governador já se resignara, funestamente, a fazer exatamente isso até o
nal da semana, caso a última colheita prematura da distrada, que ordenara, não fosse
su ciente para satisfazer Rhamanus. E sabia que não seria. Ele lidava com um capitão
ambicioso, e a última colheita havia sido escassa em Corte — a próxima parada de
Rhamanus.
O local onde se aposentaria, no leste de Ygrath e no alto da colina que já escolhera em sua
mente, parecera naquela noite mais distante do que nunca. Ele zera um sinal, pedindo mais
uma rodada de vinho para todos, lamentando internamente pela beleza do mar e pelas
esplêndidas florestas de caça ao pé da casa que provavelmente nunca construiria.
Vendo por outro lado — como gostavam de dizer por ali —, parecia que sua tentativa de
apaziguar a ira de Rhamanus tivera um sucesso inesperado. O Governador pedira ao incrível
Arduini, a verdadeira e única alegria que conseguia encontrar naquele lugar boçal, que lhes
preparasse um jantar inesquecível.
— Todos os meus pratos são inesquecíveis — respondera Arduini, previsivelmente, embora
tivesse sido acalmado por uma mistura de bajulação, ygras de ouro e um rápido lembrete
(quase certamente uma mentira, re etiu o Governador sem remorsos) de que os convidados
daquela noite tinham acesso direto aos ouvidos do Rei em Chiara.
O jantar foi uma série crescente de surpresas; o atendimento era prestativo, suave e
discreto; os vinhos, uma sequência de graciosas notas complementares ao talento inegável de
Arduini. Rhamanus, um homem que parecia ter di culdade em manter seu porte físico, passara do nervosismo pela apreciação silenciosa a um deleite crescente, culminando num
bom humor expansivo e volúvel.
E em algum lugar em meio às garrafas de vinho de sobremesa importadas de Ygrath,
também acabara ficando bêbado.
Algo que era a única explicação, a única explicação possível, para o fato de, após o jantar
estar terminado e A Rainha já estar fechado, ele formalmente con scar a garçonete de
cabelos negros daquela noite como um tributo para Brandin em Chiara, enviando-a
diretamente para o navio.
A garçonete. A garçonete de Certando.
Certando, do outro lado da fronteira, um lugar dominado por Alberico de Barbadior, e não
por Brandin de Ygrath!
O Governador de Stevanien fora acordado ao amanhecer pelo secretário do conselho,
assustado, saindo de um sono irregular e com gosto de vinho. Ainda nu e sem nem um gole
de khav para ajudar, ele ouvira aquelas notícias — em meio a uma colossal dor de cabeça.
— Pare aquela galé! — urrou ele, enquanto as assustadoras consequências lutavam para
fazer sentido na consciência que acordava lentamente. Ou pelo menos ele tentara urrar. O
que havia saído era um ganido patético que fora, no entanto, explícito o su ciente para
enviar o secretário voando, com sua túnica balançando atrás dele.
Bloquearam o Rio Sperion, parando Rhamanus exatamente quando ele levantava a âncora.
Infelizmente, o capitão dos tributos procedeu de modo a revelar uma teimosia que ia
incrivelmente contra o mais elementar bom-senso político. Ele se recusou a devolver a
garota. Em um momento de alucinação e desespero, o Governador chegou a considerar a
hipótese de atacar a galé.
A galé de Brandin, Rei de Ygrath, Senhor de Burrakh em Khardhun, Tirano das províncias
ocidentais da Península da Palma. A dita galé, que carregava os próprios desejos de Brandin,
assim como a bandeira de Ygrath.
Rodas de tortura, pensou o Governador, eram especialmente preparadas para funcionários
menores que faziam tais manobras.
Desesperadamente, com seu cérebro afetado pela injusta claridade da luz do sol matutino
ao pé do rio, o Governador tentou encontrar um modo de incutir razão a um capitão de
tributos acometido pelos espasmos de uma loucura de verão.
— Você quer começar uma guerra? — gritou do cais.
Tivera de gritar do cais. Eles não o deixaram subir na galé. A maldita garota não estava em
nenhum local visível; com certeza, encontrava-se en ada na cabine do capitão. O
Governador desejara que ela estivesse morta. Desejara que ele mesmo estivesse morto.
Desejara, no maior sacrilégio de todos, que Arduini, o cozinheiro-chefe, nunca tivesse
colocado os pés em Stevanien.
— E por que — disse Rhamanus, calmamente, do meio do rio — eu causaria uma guerra, se
estou fazendo exatamente meu trabalho para meu Rei?
— Por acaso o sal do mar acabou com essa porcaria que você chama de cérebro? — gritou o
Governador, impropriamente. A expressão no rosto do capitão cou sombria. O Governador
insistia, pingando suor sob o sol. — Ela é de Certando, pelo amor das sete irmãs sagradas do
deus! Você tem alguma ideia de como seria fácil para que isso incitasse Alberico a começar
uma guerra por fronteiras?
Ele enxugou o suor da testa com um pedaço de pano vermelho que um servo tardiamente
trouxera.
Rhamanus, amaldiçoadamente disposto após ter bebido tanto quanto o Governador na
noite anterior, não parecia estar convencido.
— Até onde eu sei — disse ele devagar, suas palavras atravessando lentamente a água —,
ela estava vivendo em Stevanien, trabalhando em Stevanien e foi levada de Stevanien. Até
onde eu sei, isso faz dela perfeitamente adequada para a saishan, ou o que quer que o Rei,
em sua sabedoria, decida fazer com ela.
E, apontando um dedo ameaçadoramente para o Governador, continuou:
— Agora tire esses barcos da minha frente ou eu vou acelerar e afundá-los em nome de
cada uma das sete irmãs e do Rei de Ygrath. A não ser — concluiu ele, esticando a mão —
que você queira solicitar uma conversa de longe e deixar que o Rei resolva isso, lá de Chiara.
Eles tinham uma expressão ali na colônia: pelado entre um punho e um punho. E era
perfeita para descrever o lugar onde aquela proposta, tão insidiosa, calculada e injusta
colocara seu ouvinte. A expressão descrevia, de forma precisa e bastante visual, onde o
Governador de Stevanien repentinamente sentia-se estar. O lenço vermelho era passado de
forma repetitiva e ineficaz em sua testa e em seu pescoço.
Ninguém realizava conversas de longe com o Rei, a não ser por um motivo realmente
importante, o que fora dolorosamente reforçado a todos os administradores regionais da
Palma Ocidental. O poder exigido de Brandin para manter uma conversa com seus
subalternos não feiticeiros era considerável.
E ninguém faria isso justamente nas primeiras horas da manhã, quando o Rei poderia estar
ainda sonolento. E o que talvez fosse o mais importante de tudo: ninguém se apressava em
solicitar a presença mental de um monarca, estando com a mente ainda confusa pelos efeitos
tardios do vinho, para falar de um assunto que envolvia, em essência, a apreensão de uma
garota do interior para ser tributo.
Esse era um dos punhos.
O outro era a possibilidade de uma assustadora guerra na fronteira. Pois quem, pelo amor
das irmãs e do deus, saberia como a insidiosa mente pagã de Alberico de Barbadior
funcionava? Como ele interpretaria — ou decidiria interpretar — um incidente como aquele?
Apesar da análise super cial de Rhamanus, o fato de que a garota trabalhava na Rainha
deixava óbvio que ela não era realmente de Baixa Corte. Pelo amor das irmãs, eles não
poderiam sequer levar alguém de Baixa Corte como tributo! Não tinham permissão, por
ordem do próprio Rei. Para levar a mulher, ela deveria ser de Certando. Se Rhamanus quisesse argumentar que ela era uma moradora de Stevanien, bem, isso signi cava que ela
era de Baixa Corte — e que não poderia ser levada! O que signi cava que... ele não sabia o
que aquilo signi cava. O Governador descartou seu lenço ensopado e recebeu um novo.
Sentia como se seu cérebro estivesse fritando sob o sol.
Tudo o que ele quisera, naqueles últimos anos de trabalho, era manter o calmo e lucrativo
posto conquistado por meio do contínuo, mesmo que pequeno, apoio de sua família à
sucessão de Brandin ao trono de Ygrath. Era isso. Apenas isso. Com uma casa decente
naquela colina a leste, num dia em que poderia assistir ao sol erguendo-se sobre o mar e ir
caçar na floresta com seus cachorros. Era pedir demais?
Em vez disso, um punho e um punho.
Por um instante, considerara a ideia de lavar suas mãos por completo — e que os malditos
habitantes dessa península vejam o que é uma boa expressão! — e deixar aquele capitão de
tributos imbecil levar sua galé, rio abaixo, do jeito que ele quisesse. Na verdade, ele percebeu
que, se tivesse cado na cama e ngido que não recebera a mensagem a tempo, seria
considerado totalmente inocente sobre aqueles delírios de um capitão bêbado. Ele fechou
seus olhos, saboreando a doçura de tal possibilidade.
Tarde demais. Estava à margem do rio, sob a luz cegante e o calor do sol, e metade de
Stevanien ouvira o que ele e Rhamanus gritavam um ao outro por sobre as águas.
Com uma pequena e discreta oração para seus próprios deuses da comida e da oresta, e
uma imagem precisa daquela propriedade à beira-mar, o Governador escolheu seu punho.
— Deixe-me subir então — disse, tão vivamente quanto conseguiu. — Eu não irei conversar
de longe com o Rei enquanto estou parado neste cais. Quero uma cadeira e um pouco de
calma e uma caneca extremamente forte do que quer que vocês usem numa galé para
substituir o khav.
Rhamanus cou visivelmente perplexo. E o Governador pôde sentir certo prazer diante do
fato.
Eles lhe deram tudo o que pedira. A mulher fora levada para o deque inferior e ele fora
deixado, a sós, na cabine do capitão. Tomara fôlego uma vez, e então de novo e de novo.
Bebera seu khav, esfolando a língua — o que, tanto quanto todas as outras coisas, acordara-
o. Então, pela primeira vez em três anos de cargo, focou sua mente em uma imagem pontual,
como Brandin o ensinara, e enquadrou, interrogativamente, o nome do Rei em seus
pensamentos.
Numa velocidade muito inquietante, a voz fria de Brandin entrava em sua cabeça, com o
tom levemente mordaz que lhe era comum. Era desorientador. O Governador lutou para
manter sua compostura. Então descreveu a situação que encarava, o mais cuidadosa e
rapidamente quanto conseguiu, já que todos eles haviam aprendido que a velocidade era
fundamental. Ele se desculpou duas vezes, mas não ousou tomar tempo com um terceiro
pedido, apesar de todos os seus instintos vitais o dizerem para fazê-lo. De que serviam os
instintos de uma vida inteira como diplomata, quando imerso em feitiçaria? Ele se sentiu enjoado com o fluxo e a descontinuidade da conversa de longe.
Então, com uma a uência de seu espírito, com glórias, com hinos a vinte entidades
diferentes ecoando dentro dele, o Governador de Stevanien compreendeu que o Rei não
estava bravo. E mais: que procedera corretamente em invocar uma conversa de longe, que o
momento não poderia ser mais apropriado para testar as determinações de Alberico e que,
portanto, Rhamanus deveria levar a garota como tributo, mas — e o Rei enfatizou este ponto
— a garota deveria ser claramente identi cada como certandeana. Uma certandeana que,
por acaso, estava em Baixa Corte. Esse fato deveria ser sua reivindicação de autoridade: nada
de evasões sobre ela morar em Stevanien ou algo do tipo. Eles veriam, en m, que tipo de
espírito esse pequeno feiticeiro barbadiano possuía.
O Rei disse que o Governador fizera bem.
A imagem da casa à beira-mar cresceu, nitidamente vívida no fundo da mente do
Governador, mesmo enquanto ouvia a si mesmo balbuciar em silêncio, através da ligação
feita por Brandin, suas abjetas declarações de amor e obediência. O Rei o interrompeu.
— Devemos encerrar agora — disse ele. — E vá mais devagar com o vinho por aí.
E então ele se foi.
O Governador permaneceu sentado na cabine do capitão por um longo tempo, tentando se
convencer de que a última frase de Brandin havia sido bem-humorada, e não reprovadora.
Ele tinha certeza de que era. Tinha quase certeza.
Seguiram-se momentos bastante tensos. Deixaram a galé partir naquela mesma manhã.
Durante os quinze dias seguintes, o Rei conversou de longe com ele duas vezes. Na primeira,
ordenou que a defesa na fronteira, em Forese, fosse aumentada discretamente, mas não em
proporção su ciente para parecer uma provocação. O Governador passou uma noite de
angústia, tentando calcular que número de soldados corresponderia àquele comando.
Reforços da cidade de Baixa Corte chegaram, subindo o rio, complementando as forças de
Stevanien. Mais tarde, o Rei o instruiu a vigiar, procurando um possível enviado barbadiano
de Certando, que deveria ser recebido com cordialidade, e que todas as suas perguntas
deveriam ser enviadas para serem respondidas em Chiara. Ele também foi avisado a estar
preparado para uma invasão retaliatória na fronteira de Sinave — e para aniquilar toda e
qualquer tropa barbadiana que se aventurasse em Baixa Corte. O Governador possuía muito
pouca experiência pessoal em aniquilamentos, mas jurou obedecer.
Disse-lhe ainda que os mercadores deveriam ser aconselhados a adiarem seus planos de
viajar para leste por um tempo. Não eram ordens, não era nada o cial, apenas um pequeno
conselho que um homem de negócios prudente talvez gostasse de ouvir. E a maioria deles
ouviu.
No fim, nada aconteceu.
Alberico escolheu ignorar por completo o assunto. A não ser que estivesse disposto a ver as
coisas se alongarem demais, não havia nada que pudesse fazer sem perder o prestígio. Por
algum tempo, especulou-se que ele poderia punir os comerciantes ou músicos itinerantes da Palma Ocidental que por acaso estivessem em suas províncias, mas também não houve sinal
algum disso. Os barbadianos simplesmente consideraram a garota uma moradora
estabelecida em Baixa Corte, exatamente como Rhamanus tão despreocupadamente
sugerira, na manhã em que ela fora levada.
Nas províncias ygratheanas, no entanto, a garota era propositadamente descrita, desde o
início, como sendo de Certando. Era a mulher do território barbadiano que Brandin havia
buscado, zombando de Alberico. E também se dizia que era linda.
Rhamanus voltou lentamente para casa, numa viagem que levou o resto daquele verão e o
início do outono. A galé desceu o rio, e todos os tributos recolhidos em terra foram
transferidos para o grande navio de tributos, com suas velas largas. Lentamente, subiu a
costa, coletando taxas e impostos nos lugares designados de Corte e de Asoli.
De fato, a colheita fora ruim em Corte, e eles tiveram de se esforçar para atingir as cotas por
lá. Por duas vezes, deixaram a âncora baixa, enquanto o capitão ia até um dos postos
estabelecidos em terra. O tempo todo, Rhamanus buscou mulheres que pudessem ser usadas
como mais do que reféns ou símbolos da dominação de Ygrath. Mulheres que honrariam a
própria saishan, e então fariam a carreira de certo capitão de tributos que, depois de mais de
vinte anos no mar, estava pronto para um cargo em terra firme.
Três possibilidades foram encontradas. Uma era de berço nobre, cuja existência fora
revelada por um informante. A moça fora tomada somente após a mansão de seu pai em
Corte ter sido, lamentavelmente, queimada.
À distância em meio à paisagem de outono, o navio de tributos deslizara, belo até mesmo
em meio à desagradável Asoli no período de chuvas, pelas enganosas passagens do Estreito
de Asoli, entrando nas águas do Mar de Chiara. Alguns dias depois, com suas velas
vermelhas e douradas recurvando-se triunfantemente, ele velejara para o grande porto da
ilha, celebrado em canções por mais décadas do que era possível contar.
O navio de tributos de Rhamanus já carregara ouro, pedras preciosas e moedas dos mais
diversos tipos. Levara couro de Stevanien, madeira de Corte e grandes rodas de queijo
salgado vindas da costa oeste de Asoli. Eles tinham especiarias, ervas e facas, vitrais, lãs e
vinhos. Havia duas mulheres de Corte e uma de Asoli; e, além daquelas três, havia outra, e
esta era diferente. Tinha cabelo negro, olhos castanhos e uma beleza que passou a ser
conhecida por toda a península, no momento em que a viagem terminou, como aquela que
quase havia começado uma guerra.
Seu nome era Dianora di Certando.
Dianora, que pretendera ir à ilha desde o começo, desde os primeiros passos de seu plano,
quando se sentara sozinha diante de uma lareira apagada, certa noite, na silenciosa casa de
seu pai. Ela, que havia se endurecido, da maneira como se dizia que os soldados faziam,
diante do pensamento de ser capturada e trazida ali e trancada pelo resto de sua vida dentro
da saishan do Tirano. Ela planejara isso cinco anos antes, uma garota com a morte no
coração, com um pai morto, um irmão perdido e uma mãe que se perdera de forma muito pior: as imagens dos três se erguiam em seus sonhos das cinzas de sua terra que queimava.
E a morte ainda estava com ela, ali, naquele navio. Ainda tinha aqueles sonhos, mas junto a
eles vinha agora outra coisa, conforme Chiara surgia sob a luz do céu: uma incredulidade
atordoada e quase inerte sobre o modo como sua vida se desenrolara, como as coisas haviam
dado completamente errado, e ainda assim, tão precisamente de acordo com seus planos
iniciais.
Ela tentara ver aquilo como um sinal, fechando a mão esquerda três vezes sobre o polegar
para fazer com que o desejo virasse realidade enquanto entrava naquele mundo novo.