Um Amor Incômodo
Capítulo 8
Sentei-m e no chão e com ecei pela m ala. Abri-a, m as não encontrei
nada que pudesse reconhecer com o pertence da m inha m ãe. Tudo era novo em folha: um par de pantufas cor- de-rosa, um robe de cetim rosado, dois vestidos nunca usados — um verm elho-ferrugem j usto e j ovial dem ais para ela, outro m ais recatado, azul-escuro, m as curto —, cinco calcinhas de boa qualidade, um nécessaire de couro m arrom cheio de perfum es, desodorantes, crem es, m aquiagens, loções de lim peza de pele... ela, que nunca se m aquiou na vida.
Passei para a bolsa. A prim eira coisa que tirei lá de dentro foram
calcinhas de renda branca. Logo percebi, devido aos três Vs bem visíveis na lateral direita e ao estilo elegante, que faziam par com o sutiã que Am alia estava usando quando se afogou. Exam inei-as com cuidado: tinham um pequeno rasgo do lado esquerdo, com o se houvessem sido usadas m esm o que fossem claram ente de um tam anho m enor do que o necessário. Senti um nó no estôm ago e prendi a respiração. Depois voltei a rem exer na bolsa, procurando, prim eiro, as chaves de casa. Obviam ente não as achei. Mas encontrei os óculos de leitura, nove fichas de telefone e a carteira. Nesta, havia duzentas e vinte m il liras (um a quantia vultosa para Am alia, que vivia com o pouco dinheiro que nós, as três filhas, lhe dávam os todo m ês), um a conta de luz paga, sua carteira de identidade dentro de um a capinha de plástico, um a velha foto m inha e das m inhas irm ãs com nosso pai. A foto estava danificada. Nossas im agens, capturadas tanto tem po antes, estavam am areladas, atravessadas por rachaduras com o as figuras de dem ônios alados que os fiéis riscavam com obj etos pontudos em certos retábulos.
Deixei a foto no chão e m e levantei, lutando contra um enj oo
crescente. Procurei um a lista telefônica pela casa e, quando a encontrei, rapidam ente busquei por Caserta. Eu não queria ligar para ele: queria o endereço. Quando descobri que havia três folhas cheias de Caserta, percebi tam bém que não sabia seu nom e: ninguém , durante toda a m inha infância, j am ais o cham ara por outro nom e a não ser Caserta. Então j oguei a lista telefônica em um canto e fui para o banheiro. Não consegui m ais conter a ânsia de vôm ito e, por alguns segundos, tive m edo de que todo o m eu corpo se rebelasse contra m im , com um a fúria autodestrutiva que sem pre tem i quando criança e que tentei dom inar enquanto crescia. Em seguida, m e acalm ei. Enxaguei a boca e lavei com cuidado o rosto. Ao vê-lo pálido e esgotado no espelho inclinado sobre a pia, decidi, de repente, m e m aquiar.
Era um a reação incom um . Eu não m e m aquiava nem com frequência
nem de bom grado. Era algo que fazia quando garota, m as que abandonara havia algum tem po: eu não achava que a m aquiagem m elhorava a m inha aparência. Mas, naquela ocasião, achei que precisava. Peguei o nécessaire da m ala da m inha m ãe, voltei ao banheiro, abri-o e tirei de dentro um pote repleto de crem e hidratante com a m arca do dedo de Am alia na superfície. Apaguei aquele rastro com o m eu e usei o crem e com abundância. Espalhei-o pelo rosto de form a enérgica, esticando as bochechas. Depois recorri ao pó de arroz e polvilhei-o m eticulosam ente no rosto.
“Você é um fantasm a”, eu disse à m ulher no espelho. Ela tinha o rosto de um a pessoa por volta dos quarenta anos, fechava prim eiro um olho, depois o outro, e, em cada um , passava o lápis preto. Era m agra, angulosa, com as m açãs do rosto proem inentes, m ilagrosam ente sem rugas. Os cabelos eram curtíssim os para ostentar o m ínim o possível o tom corvino que, finalm ente, com certo alívio, estava se tornando grisalho, preparando-se para sum ir de um a vez por todas. Passei o rím el.
“Não m e pareço com você”, sussurrei enquanto passava um pouco de
blush. E, para não ser desm entida, tentei não olhar para ela. Então, no espelho, notei o bidê. Virei-m e para entender o que estava faltando naquele obj eto de m odelo antigo, com m onum entais torneiras incrustadas e, quando percebi, senti vontade de rir: Caserta tam bém levara a calcinha ensanguentada que eu havia deixado no chão.