Um Amor Incômodo
Capítulo 6
Voltei ao banheiro. Chutei para trás do bidê m inha calcinha suj a, recolhi
a roupa íntim a de Am alia que eu havia espalhado pelo chão e a recoloquei no saco de lixo. Depois saí e fui até o corredor. Eu não m e sentia m ais deprim ida nem inquieta. Fechei cuidadosam ente a porta do apartam ento usando as duas fechaduras e cham ei o elevador.
Um a vez lá dentro, apertei o botão de núm ero cinco. No últim o andar,
deixei as portas do elevador abertas de form a que o espaço escuro ficasse ao m enos parcialm ente ilum inado. Descobri que o hom em havia m entido: a m aleta da m inha m ãe não estava lá. Pensei em descer novam ente, m as m udei de ideia. Pus o saco de lixo no retângulo de luz criado pelo elevador e, em seguida, fechei as portas. No escuro, acom odei-m e no canto do corredor, de onde eu poderia ver bem qualquer um que saísse do elevador ou chegasse pela escada. Sentei-m e no chão.
Havia décadas que, para m im , Caserta era um a cidade apressada, um
lugar inquieto onde tudo corre m ais rápido do que nos outros lugares. Não a cidade com características da realeza, cuj o parque do século XVIII, cheio de cascatas, visitei quando criança num a segunda-feira depois da Páscoa, entre um a m ultidão de turistas, confusa em m eio à parentada sem fim , e onde com i salam e de Secondigliano e ovos cozidos em um a pasta gordurosa e apim entada. Daquela cidade e daquele parque, eu só m e lem brava da água que caía rápida e do prazer aterrorizante de m e perder enquanto os gritos que m e cham avam tornavam -se cada vez m ais distantes. Porém , o que m inhas em oções m ais difíceis de verbalizar registraram sobre o nom e Caserta eram sobretudo enj oo, tontura e falta de ar. Às vezes, aquele lugar, que pertencia à m em ória m enos confiável, era com posto por um a escada pouco ilum inada e por um a balaustrada de ferro batido. Outras vezes, era um a m ancha de luz cortada por barras e coberta por um a densa retícula, que eu observava agachada no subsolo, na com panhia de um m enino cham ado Antonio, que segurava m inha m ão com força. Os sons que o acom panhavam , com o a trilha sonora de um film e, eram puro tum ulto, um estrondo repentino, com o de coisas a princípio em ordem que de repente desm oronam . O cheiro era o da hora do alm oço ou do j antar, quando, de todas as portas, no vão da escadaria, m isturavam -se os perfum es das cozinhas m ais variadas, porém estragados por um fedor de m ofo e teias de aranha. Caserta era um lugar ao qual eu não deveria ir, um bar com um letreiro, um a m ulher m orena, palm eiras, leões, cam elos. Tinha o sabor de am êndoas confeitadas em um a caixa de doces, m as era proibido entrar. Se as m eninas o faziam , não saíam m ais de lá. Nem m esm o m inha m ãe devia entrar lá, senão m eu pai a m ataria. Caserta era um hom em , um a silhueta de tecido escuro. A silhueta girava pendurada em um fio, prim eiro um a volta para cá, depois outra para lá. Não era perm itido falar sobre ele. Am alia m uitas vezes era perseguida dentro de casa, alcançada, golpeada no rosto, prim eiro com o dorso da m ão, depois com a palm a, só porque dissera o nom e “Caserta”.
Isso nas m inhas lem branças m enos datáveis. Naquelas m ais nítidas, a
própria Am alia falava secretam ente sobre ele, aquele hom em -cidade de cascatas e m atagais e estátuas de pedra e pinturas de palm eiras com cam elos. Ela não falava sobre ele com igo, que talvez estivesse brincando em baixo da m esa com as m inhas irm ãs. Falava com outras pessoas: com as m ulheres que, j unto a ela, costuravam luvas em casa. Em algum a parte do m eu cérebro, havia ecos de frases. Um a tinha ficado im pressa na m inha m ente, m uito nítida. Não eram sequer palavras, não m ais; eram sons com pactos m aterializados em im agens. Aquele Caserta, dizia m inha m ãe em um sussurro, a em purrara para um canto e tentara beij á-la. Eu, ao ouvi-la, via a boca aberta daquele hom em , com dentes branquíssim os e um a língua com prida e verm elha. A língua dardej ava para fora dos lábios e voltava para dentro com um a velocidade que m e hipnotizava. Nos anos da adolescência, eu fechava os olhos de propósito para reproduzir a m eu bel-prazer aquela cena na m ente e contem plá-la com um a m istura de atração e repulsa. Mas eu o fazia com culpa, com o se estivesse fazendo algo proibido. Já sabia então que, naquela im agem da fantasia, havia um segredo que não podia ser revelado, não porque um a parte de m im não soubesse com o acessá-lo, m as porque, se eu o fizesse, a outra parte se recusaria a nom eá-lo e m e expulsaria.
Ao telefone, pouco antes, tio Filippo m e dissera algum as coisas que eu
j á conhecia confusam ente: ele falava delas e eu sabia. Podiam ser resum idas assim : Caserta era um hom em infam e. Quando j ovem , fora am igo dele e do m eu pai. No pós-guerra, m eu pai e ele conseguiram fazer bons negócios: parecia ser um j ovem honesto, sincero. Mas ficara de olho na m inha m ãe. E não apenas nela: j á era casado, tinha um filho, m as im portunava todas as m ulheres do bairro. Quando passou da m edida, m eu tio e m eu pai deram -lhe um a lição. E Caserta, a m ulher e o filho foram em bora, para viver em outro lugar. Meu tio concluíra em um dialeto am eaçador:
Não queria tirá-la da cabeça. Então fizem os com que aquela vontade
passasse para sem pre.
Silêncio. Eu tinha visto sangue entre gritos e insultos. Fantasm as sobre
fantasm as. Antonio, o m enino que segurava m inha m ão, tinha ido parar no fundo m ais escuro do porão. Senti por um instante a violência dom éstica da m inha infância e adolescência voltar aos m eus olhos e ouvidos com o se escorresse ao longo de um fio que nos ligava. Mas percebi pela prim eira vez naquele instante, tantos anos m ais tarde, que era o que eu queria.
Vou até aí — propusera tio Filippo.
O que um velho de setenta anos pode fazer?
Ele ficara confuso. Antes de desligar, j urei que voltaria a entrar em
contato se Caserta desse sinal de vida.
E lá estava eu, no corredor, à espera. Passou-se ao m enos um a hora.
Do vão da escada, a claridade das luzes dos outros andares m e perm itia controlar, após m e acostum ar à escuridão, todo o espaço. Nada aconteceu. Só por volta das quatro da m anhã o elevador deu um tranco brusco e o m ostrador passou de verde a verm elho. A cabine desceu.
Com um salto, fui até a balaustrada: vi o elevador passar pelo quarto
andar e parar no terceiro. As portas se abriram e se fecharam . Depois, silêncio novam ente. Cessou tam bém o eco das vibrações em itidas pelos cabos de aço.
Esperei um pouco, talvez cinco m inutos, depois desci cautelosam ente
até o andar debaixo. Havia um a luz am arelada ali: as três portas que davam no corredor pertenciam aos escritórios de um a seguradora. Desci m ais um lance de escadas girando em torno da cabine im óvel e escura. Eu queria olhar lá dentro, m as não o fiz, tom ada pela surpresa. A porta da casa da m inha m ãe estava escancarada, e as luzes, acesas. Bem na soleira estava a m aleta de Am alia e, ao lado, sua bolsa de couro preto. Instintivam ente fiz m enção de disparar rum o àqueles obj etos, m as, às m inhas costas, ouvi o ruído da porta de vidro do elevador. A luz ilum inou a cabine, revelando um hom em idoso, bem -cuidado, bonito a seu m odo, com um rosto escuro e descarnado sob volum osos cabelos brancos. Estava sentado em um dos bancos de m adeira, tão im óvel que parecia um a am pliação de um a foto antiga. Encarou-m e por um segundo com um olhar am igável, ligeiram ente m elancólico. Depois, com um estrondo, a cabine partiu rum o ao alto.
Não tive dúvida. O hom em era o m esm o que desfiara seu rosário de
obscenidades durante o funeral de Am alia. Hesitei em segui-lo pela escada: achei que deveria fazê-lo, m as senti-m e pregada ao chão com o um a estátua. Fiquei observando os cabos até o elevador parar em m eio ao estrépito das portas que se abriam e se fechavam depressa. Poucos segundos depois, a cabine deslizou de novo à m inha frente. Antes de desaparecer rum o ao térreo, o hom em m e m ostrou, com um sorriso, o saco de lixo que continha a roupa íntim a de m inha m ãe.