Um Amor Incômodo
Capítulo 5
Dorm i não m ais do que duas horas, sem sonhar. Quando abri os olhos, o
quarto estava escuro e pela j anela entrava apenas a claridade nebulosa da ilum inação pública, que se difundia em um a nesga do teto. Am alia estava lá em cim a com o um a borboleta noturna, j ovem , talvez com uns vinte anos, envolvida em um roupão verde, com o ventre inchado por um a gravidez avançada. Estava deitada de costas e, apesar do rosto sereno, contorcia o corpo convulsivam ente devido a um espasm o de dor. Fechei os olhos para que ela tivesse tem po de se soltar do teto e voltar à m orte, depois os reabri e olhei o relógio. Eram duas e dez. Adorm eci novam ente, m as por poucos m inutos. Então passei para um torpor cheio de im agens com as quais, sem querer, com ecei a contar a m im m esm a a história da m inha m ãe.
Am alia, no m eu m eio-sono, era um a m ulher m orena e peluda. Os
cabelos, m esm o na velhice, m esm o sem vigor por causa da m aresia, brilhavam com o o pelo de um a pantera e eram densos, cresciam um ao lado do outro sem se abrir ao vento. Cheiravam a sabão para lavar roupa, não do tipo em pó, com um a escada im pressa na em balagem . Cheiravam a sabão líquido, aquele de cor m arrom que com právam os em um porão cuj a poeira, bem m e lem bro, causava coceira nas narinas e na garganta.
Aquele sabão era vendido por um hom em gordo e glabro. Ele o pegava
com um a pazinha e o colocava, j unto a um a baforada de suor e pesticida, em um papel am arelo e grosso. Eu corria ofegante até Am alia, segurando a em balagem e a soprando com as bochechas infladas para elim inar os cheiros daquele porão e daquele hom em ; corro da m esm a m aneira agora, com a bochecha no travesseiro em que dorm ia m inha m ãe, em bora m uito tem po tenha se passado. E ela, ao m e ver chegar, j á desam arra os cabelos, que se soltam com o se ela os tivesse esculpido em espirais sobre a testa e a negritude do penteado m udasse de estrutura m olecular sob suas m ãos.
Os cabelos eram longos. Am alia não term inava nunca de soltá-los e,
para lavá-los, não havia sabão que bastasse: era necessário todo o recipiente do hom em que o vendia no porão, no final dos degraus brancos de cinzas ou barrilha. Eu suspeitava que, às vezes, m inha m ãe, fugindo da m inha vigilância, fosse im ergi-los diretam ente na tina, com o consentim ento do hom em da venda. Depois virava-se alegrem ente para m im com o rosto m olhado, e a água que j orrava da torneira da cozinha escorria por sua nuca, os cílios e as pupilas negras, as sobrancelhas desenhadas com carvão, ligeiram ente acinzentadas pela espum a que, em um arco na testa, pingava em gotas de água e sabão. Elas escorriam pelo nariz, rum o à boca, até que ela as capturava com a língua verm elha e parecia dizer: “Gostosas.”
Eu não sabia com o Am alia fazia para estar em dois lugares diferentes
ao m esm o tem po: dentro da tina de sabão, ali no porão, usando um a com binação azul-clara, as alças caindo dos om bros pelos braços, e, ao m esm o tem po, entregue à água da nossa cozinha, que continuava a revestir seus cabelos com um a pátina líquida. Sem dúvida, eu havia sonhado acordada com tudo aquilo, o que estava fazendo pela enésim a vez naquele m om ento, sentindo, pela enésim a vez, um doloroso constrangim ento.
De fato, o hom em gordo não se contentava em apenas olhar. No verão,
arrastava a tina para fora, ao ar livre. Deixava à m ostra o torso nu, bronzeado, e tinha um lenço branco am arrado na testa. Rem exia o recipiente com um longo bastão e enroscava, suando, a m assa brilhosa de cabelos de Am alia. Enquanto isso, um rolo com pressor estalava um pouco m ais ao longe e avançava lentam ente com seu grande cilindro de pedra cinza. Era guiado por outro hom em , atarracado e m usculoso, tam bém de torso nu, com axilas cheias de pelos enrolados por causa do suor. Usava calças coloniais desabotoadas, m ostrando, quando sentado, um a cavidade assustadora na altura do abdôm en, e, bem -acom odado no banco da m áquina, verificava com o escorria da tina inclinada o alcatrão negro e denso dos cabelos de Am alia que, ao se espalharem sobre a brita, levantava vapores e fazia o ar ondular. Os cabelos da m inha m ãe eram piche e rareavam em pelos e penugens viçosas que se intensificavam nos lugares proibidos do corpo. Proibidos para m im : ela não perm itia que eu a tocasse. Escondia o rosto, j ogando por cim a dele a cortina de cabelos, e oferecia a nuca ao sol para secar.
Quando o telefone tocou, ela levantou a cabeça de repente, tanto que os
cabelos m olhados do chão voaram pelo ar, roçaram o teto e caíram novam ente sobre suas costas com um estalo que m e despertou totalm ente. Acendi a luz. Eu não lem brava onde ficava o telefone, que continuava a tocar. Encontrei-o no corredor, um velho aparelho dos anos sessenta que eu conhecia bem , preso à parede. Quando falei “alô”, um a voz m asculina m e cham ou de Am alia.
Não sou Am alia — respondi. — Quem está falando? Tive a im pressão de que o hom em estava reprim indo com dificuldade
um a risada.
Não sou Am alia — im itou em falsete e, em seguida, voltou a falar em
um dialeto fortíssim o. — Deixe no últim o andar o saco com a roupa suj a. Você m e prom eteu. E olhe direito: vai encontrar a m ala com as suas coisas. Deixei lá.
Am alia m orreu — falei em um tom tranquilo. — Quem é você? Caserta — disse o hom em .
O nom e soou com o soa o nom e do ogro nas fábulas. Eu m e cham o Delia — respondi. — O que tem no últim o andar? O que
você tem dela?
Eu, nada. É você quem está com um a coisa que m e pertence — disse o
hom em outra vez em falsete, deturpando afetadam ente m eu italiano.
Venha aqui — falei de m aneira persuasiva. — Conversarem os a
respeito e você leva o que precisar.
Houve um longo silêncio. Esperei a resposta, m as nunca foi dada. O
hom em não desligara: tinha sim plesm ente abandonado o telefone e ido em bora.
Fui até a cozinha e bebi um copo d’água; um a água densa, com um
gosto péssim o. Então voltei ao telefone e disquei o núm ero do tio Filippo. Ele atendeu após cinco toques e, antes que eu conseguisse dizer “alô”, berrou insultos de todo tipo.
Aqui é a Delia — falei com firm eza.
Senti que ele estava com dificuldade de m e identificar. Quando se lem brou, com eçou a balbuciar desculpas, cham ando-m e de “m inha filha” e perguntando repetidam ente se eu estava bem , onde eu estava, o que havia acontecido.
Caserta ligou para m im — afirm ei. Então, antes que ele recom eçasse a
desfiar o rosário de xingam entos, ordenei: — Fique calm o.