Um Amor Incômodo
Capítulo 25
Mas Caserta não apareceu. No porão, havia apenas caixas de papelão
vazias e garrafas velhas de refrigerante ou cervej a. Arrastei-m e para fora, em poeirada, incom odada pelo leve toque das teias de aranha, e voltei até a cam a. Vi m inha calcinha m anchada de sangue no chão e a em purrei com a ponta do pé para debaixo da cam a. Incom odava-m e m ais descobri-la naquele lugar com o um a parte roubada de m im do que im aginar com o Caserta a havia usado.
Voltei à parede onde estava pendurado o conj unto azul-escuro de
Am alia. Soltei o cabide, estendi com delicadeza o tailleur em cim a da cam a, tirei o blazer: o forro estava descosturado, os bolsos, vazios. Encostei-o sobre o corpo quase com o se quisesse ver com o ficava em m im . Depois m e decidi: pus a lanterna na cam a, tirei o vestido e o deixei no chão. Então m e vesti novam ente com atenção, sem pressa. Usei o alfinete de fralda com que Caserta havia prendido o sutiã à blusa para apertar a saia na cintura; era larga dem ais. O blazer tam bém ficava folgado, m as arrum ei-o no corpo com satisfação. Senti que aquela roupa velha era a narrativa final que m inha m ãe m e deixara, e que, naquele instante, com todos os artifícios necessários, m e caía com o um a luva.
A história podia ser m ais fraca ou m enos em ocionante do que a que eu
havia contado a m im m esm a. Bastava puxar um fio e segui-lo em sua linearidade sim plificadora. Por exem plo, Am alia partiu com seu velho am ante e, em sua com panhia, tirou as últim as férias secretas, rindo espalhafatosam ente, com endo e bebendo, desnudando-se na areia, vestindo e despindo as roupas com as quais planej ava m e presentear. A brincadeira de um a velha que finge ser j ovem para agradar outro velho. No fim , decidiu tom ar banho nua. Porém , levem ente em briagada, afastou-se dem ais da costa e se afogou. Caserta ficou com m edo, recolheu tudo e foi em bora. Ou então, lá estava ela correndo nua ao longo da arrebentação, ele a seguindo, os dois ofegantes, os dois aterrorizados, ela pela descoberta dos desej os dele, ele pela descoberta da repulsa dela. Até que Am alia achou que podia fugir dele em direção à água.
Sim , era só puxar um fio para continuar a brincar com a figura
m isteriosa da m inha m ãe, ora enriquecendo-a, ora hum ilhando-a. Mas percebi que eu não sentia m ais a necessidade de fazer aquilo e m e m exi no feixe de luz exatam ente com o eu achava que ela se m exia. Depois de apagar a lanterna, inclinei-m e na direção do triângulo azul da porta de ferro e pus a cabeça do lado de fora. As luzes da rua estavam acesas, m as ainda estava claro. As crianças não corriam nem gritavam m ais. Estavam em volta de um hom em curvado, com o rosto na m esm a altura dos rostos delas, as m ãos nos j oelhos. Era Caserta. A cabeça dele estava coberta pelos cabelos brancos, e a expressão era cativante. Estavam todos ali, os pequenos, o grande, com os sapatos em um a poça cintilante. As crianças com eçaram a desem brulhar as balas que ele acabara de distribuir.
Olhei aquele velho enxuto, bem -barbeado, bem -vestido, o rosto pálido e
liso, e não senti m ais necessidade algum a de falar com ele, de saber, de fazer com que ele soubesse. Decidi sair de fininho pela calçada, virar a esquina, m as ele se virou e m e viu. O espanto foi tam anho que ele não percebeu o que acontecia às suas costas. O hom em de regata havia apoiado com cuidado a barra no m uro, acabara de j ogar fora o charuto e agora estava se aproxim ando, olhando fixo para a frente, o tronco ereto, as pernas curtas dando passos razoavelm ente tranquilos. As crianças recuaram , afastando-se da poça. Caserta ficou sozinho no espelho d’água roxo, a boca aberta, os olhos ainda fixos em m im . Sua calm a m e aj udou a respirar. Entrei novam ente no “Coloniali” de quarenta anos antes, tom ei todo cuidado para não m e chocar com o balcão de palm eiras e cam elos, subi no estrado de m adeira, atravessei a confeitaria esquivando-m e habilm ente do forno, das m áquinas, dos balcões, das form as, saí pela porta que dava no pátio. Um a vez lá fora, procurei o passo certo para um a pessoa adulta que não tem pressa.