Um Amor Incômodo

Elena Ferrante · Capítulo 21 de 26

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Um Amor Incômodo

Capítulo 21

A porta do apartam ento estava entreaberta. Senti-m e hesitante e, por

isso, entrei com tanta decisão que a porta bateu na parede com estrondo. Não houve reação. Atingiu-m e apenas um cheiro intenso de tinta e cigarro. Entrei no quarto com a sensação de que o resto do apartam ento fora destruído pelos anos. Todavia, tinha certeza de que, naquele quarto, tudo perm anecera inalterado: a cam a de casal, o arm ário, a penteadeira com o espelho retangular, o cavalete ao lado da j anela, as telas enroladas em todos os cantos, os m ares revoltos, as ciganas e os idílios cam pestres. Meu pai, grande e curvado, estava de costas, de regata. O crânio pontudo estava calvo, com m anchas escuras. A nuca, coberta por um a cabeleira branca.

Desloquei-m e levem ente para a direita a fim de ver na luz certa a tela

em que ele estava trabalhando. Pintava com a boca aberta, os óculos perto da ponta do nariz. Na m ão direita, segurava o pincel que, depois de leves toques entre as tintas, se m ovia com segurança pela tela; entre o indicador e o dedo m édio da m ão esquerda, segurava um cigarro aceso, com posto até a m etade de cinzas prestes a caírem no chão. Após algum as pinceladas, recuava e ficava im óvel por longos segundos; depois em itia um a espécie de “ah”, um leve sobressalto sonoro, e recom eçava a m isturar tintas e a fum ar o cigarro. O quadro não estava m uito avançado: o golfo esm orecia em um a m ancha azul-clara; o Vesúvio sob um céu verm elho- fogo estava m ais trabalhado.

O m ar não pode ser azul-claro se o céu for verm elho-fogo — falei.

Meu pai se virou e m e olhou por cim a dos óculos.

Quem é você? — perguntou em dialeto, hostil na expressão e no tom . Estava com grandes bolsas arroxeadas em baixo dos olhos. A lem brança

m ais recente que eu tinha dele teve dificuldade para aderir àquele rosto am arelado, afogado em em oções não digeridas.

Delia — respondi.

Ele pôs o pincel em um dos j arros. Levantou-se da cadeira com um

longo lam ento gutural e se virou para m im com as pernas abertas, o tronco inclinado, esfregando as m ãos suj as de tinta nas calças frouxas. Olhou-m e com crescente perplexidade. Depois disse, sinceram ente adm irado:

Você ficou velha.

Percebi que ele não sabia se m e abraçava, se m e beij ava, se m e

convidava para sentar ou se com eçava a gritar e m e expulsava de sua casa. Estava surpreso, m as não de m aneira agradável: sentia que eu era um a presença fora de lugar, talvez nem tivesse certeza de que eu era sua filha m ais velha. Nas raras vezes que nos vim os depois que ele se separou de Am alia, brigam os. Na cabeça dele, sua verdadeira filha deveria ter ficado presa em um a adolescência petrificada, m uda e obsequiosa.

Já vou em bora — tranquilizei-o. — Só passei para saber da m inha m ãe. Morreu — disse ele. — Eu estava pensando nisso, que ela m orreu antes

de m im .

Ela se m atou — pronunciei com clareza, m as sem ênfase. Meu pai fez um a careta, e percebi que lhe faltavam os incisivos superiores. Os de baixo haviam se tornado com pridos e am arelos.

Ela foi nadar em Spaccavento — m urm urou —, à noite, com o um a

garotinha.

Por que você não foi ao enterro?

Quando alguém m orre, m orre.

Devia ter ido.

Você irá ao m eu?

Pensei por um instante e respondi:

Não.

As grandes bolsas em baixo dos olhos dele ficaram verm elhas. Você não irá porque vou m orrer depois de você — m urm urou ele.

Depois, sem que eu conseguisse prever, m e deu um m urro.

Recebi o golpe no om bro esquerdo e tive dificuldade em controlar a

parte de m im aniquilada por aquele gesto. A dor física, por sua vez, não m e pareceu grande coisa.

Você é um a vagabunda igual à sua m ãe — disse, ofegante, e se agarrou

à cadeira para não cair.— Vocês m e deixaram aqui com o um bicho.

Procurei a voz na garganta e, só quando tive certeza de tê-la, perguntei: Por que foi à casa dela? Você a atorm entou até o fim . Ele tentou m e acertar novam ente, m as dessa vez eu estava preparada:

não conseguiu e ficou com m ais raiva.

O que ela pensava de m im ? — com eçou a gritar. — Eu nunca sabia o

que ela pensava. Era m entirosa. Todas vocês eram m entirosas.

Por que foi à casa dela? — repeti com calm a. Ele disse: Para m atá-la. Porque ela achava que ia aproveitar a velhice e m e

deixar apodrecendo aqui neste quarto. Olhe o que eu tenho aqui em baixo. Olhe.

Levantou o braço direito e m ostrou a axila. Tinha pústulas arroxeadas

entre os pelos enrolados de suor.

Você não vai m orrer por causa disso — declarei. Abaixou o braço, esgotado pela tensão. Tentou endireitar o tronco, m as

a coluna só se ergueu uns poucos centím etros. Ficou com as pernas abertas, um a das m ãos agarrada à cadeira, um sibilo catarrento saindo do peito. Talvez ele tam bém pensasse que, no m undo, naquele m om ento, tivesse sobrado apenas aquele chão, apenas aquela cadeira à qual se apoiava.

Eu os segui por um a sem ana — m urm urou. — Ele chegava toda noite

às seis, bem - vestido, de paletó e gravata: parecia um figurino. Depois de m eia hora, saíam . Ela usava sem pre os seus quatro trapos habituais, m as os aj ustava para parecer j ovem . Sua m ãe era um a m ulher m entirosa, sem sensibilidade. Cam inhava ao lado dele, e os dois conversavam . Depois entravam em um restaurante ou no cinem a. Saíam de braços dados, e ela fazia aqueles trej eitos típicos sem pre que via um hom em : a voz de um j eito, a m ão de outro, a cabeça para cá, os quadris para lá.

Enquanto falava, agitava frouxam ente um a das m ãos na altura do peito,

balançava a cabeça e piscava, proj etava os lábios, rebolava com desprezo. Estava m udando de estratégia. Antes queria m e assustar, agora queria m e divertir ridicularizando Am alia. Mas não tinha nada dela, de nenhum a das Am alias que havíam os inventado para nós, nem m esm o das piores. E não tinha nada de divertido. Era som ente um hom em velho destituído de qualquer hum anidade pela insatisfação e pela ferocidade. Talvez esperasse um pouco de cum plicidade, um esboço de sorriso. Recusei-m e. Em vez disso, concentrei todas as energias em reprim ir m eu asco. Ele percebeu e ficou sem graça. Estava na frente da tela em que trabalhava, e m e dei conta de repente de que, com aquele céu verm elho-fogo, estava tentando pintar um a erupção.

Você, com o sem pre, a hum ilhou — falei.

Meu pai balançou a cabeça, confuso, e voltou a se sentar com um longo

gem ido.

Fui dizer a ela que não queria m ais viver sozinho — m urm urou e olhou

com despeito a cam a ao seu lado.

Você queria que ela voltasse a viver com você? Ele não respondeu. Pela j anela, entrava um a luz alaranj ada que batia

no vidro, refletia no espelho do arm ário e se expandia pelo quarto, tornando nítidas sua desordem e esqualidez.

Tenho m uito dinheiro guardado — disse ele. — Falei para ela: tenho

m uito dinheiro.

Acrescentou outras coisas que não ouvi. Enquanto ele falava, vi de

esguelha, em baixo da j anela, o quadro que eu tinha adm irado quando garota na vitrine das irm ãs Vossi. As duas m ulheres gritando com os perfis que quase coincidiam — j ogadas da direita para a esquerda em um m ovim ento m utilado de m ãos, pés, partes das cabeças, com o se o quadro não tivesse conseguido contê-las ou tivesse sido grosseiram ente serrado — tinham ido parar ali, naquele quarto, entre os m ares revoltos, as ciganas e as pastorinhas. Soltei um longo suspiro de esgotam ento.

Caserta deu isso para você — falei, apontando para a pintura. Então percebi que tinha errado: não fora a sra. De Riso que contara ao

m eu pai sobre Caserta e Am alia. Fora o próprio Caserta. Ele tinha ido até ali, dado ao m eu pai aquele presente desej ado havia anos, falado de si, dito que a velhice era árdua, que o filho o j ogara na sarj eta, que entre ele e Am alia sem pre houve um a am izade devota e respeitosa. E m eu pai acreditara. E talvez tenha falado de si m esm o. E, sem dúvida, descobriram -se desolados e solidários na m iséria. Senti que eu era um obj eto m isteriosam ente em equilíbrio no m eio do quarto.

Meu pai se agitou na cadeira.

Am alia era um a m entirosa — desabafou —, nunca m e disse que você

não viu nem ouviu nada.

Você m orria de vontade de dar um a surra em Caserta. Queria se livrar

dele achando que, com as ciganas, você finalm ente fosse ganhar dinheiro. Achava que Am alia gostava dele. Quando eu disse que os vira j untos no porão da confeitaria, você j á tinha im aginado m ais do que eu estava dizendo. O que falei serviu só para que você se j ustificasse.

Fitou-m e, surpreso.

Você se lem bra? Eu não m e lem bro de m ais nada. Lem bro-m e de tudo ou quase tudo. Só m e faltam as palavras de então.

Mas guardo o horror e o sinto novam ente cada vez que alguém nesta cidade abre a boca.

Eu achava que você não se lem brava — m urm urou. Eu lem brava, m as não conseguia contar a m im m esm a. Você era pequena. Com o eu podia im aginar...

Você podia im aginar. Você sem pre soube im aginar quando o assunto

era m agoá-la. Você procurou Am alia para vê-la sofrer. Disse a ela que foi Caserta quem procurou você especialm ente para contar sobre eles dois. Disse que ele falou de m im , de com o eu havia m entido quarenta anos antes. Descarregou em cim a dela toda a culpa. E acusou-a de ter feito um a filha doente e m entirosa.

Meu pai tentou se levantar outra vez.

Você j á era noj enta desde criança — gritou. — Foi você que forçou sua

m ãe a m e deixar. Vocês m e usaram e depois m e j ogaram fora.

Você arruinou a vida dela — rebati. — Nunca a aj udou a ser feliz. Feliz? Eu tam bém nunca fui feliz.

Eu sei.

Ela achava Caserta m elhor do que eu. Você se lem bra dos presentes

que ela ganhava? Sabia perfeitam ente que era Caserta quem os m andava por interesse próprio, para se vingar: hoj e, um a fruta; am anhã, um livro; depois, um vestido; em seguida, flores. Ela sabia que ele fazia aquilo para que eu suspeitasse dela e a m assacrasse. Bastava que ela recusasse os presentes. Mas ela não recusava. Pegava as flores e as colocava em um vaso. Lia o livro sem nem se esconder. Punha o vestido e saía. Depois apanhava sem reagir até sangrar. Eu não podia confiar nela. Não entendia o que ela escondia na m ente, o que pensava.

Murm urei, indicando o quadro atrás dele.

Nem você sabe resistir aos presentes de Caserta. Ele se virou para olhar

a pintura, incom odado.

Fui eu que pintei — disse. — Não é um presente. É m eu. Você nunca teria sido capaz — m urm urei.

Pintei quando m oço — insistiu, e tive a im pressão de que estava

suplicando para que eu acreditasse. — Vendi o quadro para as irm ãs Vossi em 1948.

Sentei-m e na cam a sem que ele m e convidasse, ao lado da sua cadeira.

Disse com ternura:

Vou em bora. Ele se sobressaltou.

Espere.

Não — falei.

Não vou incom odar você. Podem os viver bem j untos. No que você

trabalha?

Histórias em quadrinhos.

Pagam bem ?

Não tenho grandes exigências.

Tenho dinheiro guardado — repetiu.

Estou acostum ada a viver com pouco

Pensei em expulsá-lo da área infantil da m inha m em ória abraçando-o ali, naquele m om ento, para torná-lo hum ano com o talvez realm ente fosse, apesar de tudo. Não tive tem po. Ele m e acertou de novo, no peito. Fingi não sentir dor. Em purrei-o, m e levantei e saí sem nem sequer olhar para o outro lado do corredor.

Você tam bém está velha — gritou atrás de m im . — Tire esse vestido.

Está horrível.

No cam inho para a porta, senti-m e em equilíbrio precário sobre um a

tábua de m adeira do chão da casa de quarenta anos antes: ela ainda conseguia sustentar m eu pai, seu cavalete, o quarto, m as tem i que m eu peso pudesse fazê-la desm oronar. Saí depressa para o corredor e encostei a porta com cautela. Já na rua, olhei m eu vestido. Descobri só então, com desgosto, que, na altura do púbis, havia um a grande m ancha com a beirada esbranquiçada. O tecido estava m ais escuro naquele ponto e, ao toque, parecia engom ado.