Um Amor Incômodo
Capítulo 7
Eu era forte, enxuta, rápida e decidida. Não só isso: eu gostava de ter
certeza de ser assim . Mas, naquela circunstância, não sei o que aconteceu. Talvez tenha sido o cansaço, talvez tenha sido a com oção de encontrar escancarada aquela porta que eu havia trancado diligentem ente. Talvez tenha ficado atordoada pela casa com as luzes acesas, pela m aleta e pela bolsa da m inha m ãe na soleira. Ou talvez tenha sido outra coisa: a repulsa que senti ao perceber que a im agem daquele hom em idoso do outro lado dos vidros arabescados do elevador m e pareceu, por um instante, ter um a beleza obscura. Assim , em vez de segui-lo, fiquei im óvel, esforçando-m e para fixar na m em ória os detalhes, m esm o após o elevador ter desaparecido no vão da escada.
Quando m e dei conta, senti-m e sem energia, triste pela sensação de ter
m e hum ilhado diante daquela parte de m im que sem pre estava atenta a qualquer possibilidade de rendição da outra. Fui até a j anela em tem po de ver o hom em afastando-se pelo beco sob a luz dos postes, o corpo ereto, com passo ponderado, m as não custoso, o saco na m ão direita, o braço bem estendido e distante do corpo, o fundo do plástico preto resvalando pelo calçam ento. Voltei até a porta e fiz m enção de m e precipitar escada abaixo. Mas percebi que a vizinha, a sra. De Riso, havia aparecido em um a faixa vertical de luz cautelosam ente aberta entre a porta e o batente.
Estava usando um a cam isola com prida de algodão cor-de-rosa e m e
olhava com hostilidade, o rosto dividido pela corrente que devia im pedir a entrada dos m al- intencionados. De certo estava ali havia tem po, observando pelo olho-m ágico e ouvindo atrás da porta.
O que está acontecendo? — perguntou em tom litigioso. — Você não
parou a noite toda.
Eu estava prestes a responder de m aneira igualm ente litigiosa, m as m e
lem brei de que ela havia m encionado um hom em que m inha m ãe encontrava e percebi em tem po que deveria m e conter se quisesse saber m ais a respeito. Vi-m e obrigada a desej ar que aquela insinuação de fofoca que m e incom odara à tarde se tornasse um bate-papo detalhado, um a conversa, um a com pensação para aquela velha solitária que não sabia com o passar suas noites.
Nada — respondi, tentando norm alizar a respiração —, não consigo
dorm ir. Ela resm ungou algum a coisa sobre os m ortos que têm dificuldade de ir em bora.
Na prim eira noite, eles nunca deixam ninguém dorm ir — disse. A senhora ouviu barulhos? Eu a incom odei? — perguntei com falsa
cortesia.
Durm o pouco e, depois de certo tem po, não m uito bem . Além do m ais,
essa fechadura não aj udou: você ficou abrindo e fechando a porta.
É verdade — respondi —, estou um pouco nervosa. Sonhei que aquele
hom em que a senhora m encionou estava aqui no corredor.
A velha entendeu que eu havia m udado o tom de voz e estava disposta a
ouvir suas fofocas, m as quis ter certeza de que eu não a rej eitaria novam ente.
Que hom em ? — perguntou.
Aquele que a senhora m encionou... o que vinha aqui visitar m inha m ãe.
Dorm i pensando nele...
Era um hom em de bem , que deixava Am alia de bom hum or. Trazia
sfogliatelle, flores. Quando ele vinha, eu os ouvia conversar e rir o tem po todo. Sobretudo ela, com um a risada tão forte que dava para ouvir até do térreo.
Do que falavam ?
Não sei, eu não ficava ouvindo. Cuido da m inha vida. Fiz um gesto
im paciente.
Mas Am alia nunca falava dele?
Falava — adm itiu a sra. De Riso. — Um a vez os vi saindo de casa
j untos. Ela m e disse que o conhecia havia cinquenta anos, que era quase com o um parente. Se é assim , você tam bém deve conhecê-lo. Era alto, m agro, com os cabelos brancos. Sua m ãe o tratava quase com o um irm ão. Com m uita intim idade.
Com o se cham ava?
Não sei. Ela nunca m e disse. Am alia fazia o que queria. Um dia, m e
contava tudo, m esm o que eu não quisesse ouvir, e, no seguinte, nem m e cum prim entava. Sei sobre os sfogliatelle porque eles não com iam todos, e ela dava os que sobravam para m im . Tam bém m e dava as flores, porque o cheiro a deixava com dor de cabeça. Nos últim os m eses, ela vivia com dor de cabeça. Mas m e convidar para entrar e m e apresentar o tal hom em , nunca.
Talvez tivesse m edo de deixá-la sem graça.
Que nada, ela queria tom ar conta da própria vida. Entendi e fiquei na
m inha. Mas quero dizer que sua m ãe não era de confiança.
Em que sentido?
Não se com portava devidam ente. Eu vi de relance esse senhor só um a
vez. Era um velho bonito, bem -vestido, e quando passou por m im fez um a sutil reverência. Ela, por sua vez, virou para o outro lado e disse um palavrão.
Talvez a senhora não tenha entendido direito.
Entendi m uito bem . Ela andava com a m ania de dizer palavrões
horríveis, em voz alta, até m esm o quando estava sozinha. Depois com eçava a rir. Eu podia ouvi-la daqui, da cozinha.
Minha m ãe nunca falava palavrões.
Falava, sim ... Com um a certa idade, precisam os ter um pouco de
recato.
É verdade — disse.
Voltaram -m e à m ente a m aleta e a bolsa na porta de casa. Eu as via
com o obj etos que, devido ao percurso que deviam ter feito, perderam a dignidade de pertences de Am alia.
Queria tentar restabelecer aquela dignidade. Mas a velha, encoraj ada
por m eu tom subm isso, tirou a corrente da porta e saiu.
De qualquer m odo — disse —, a esta hora não durm o m ais. Fiquei com o m edo de que ela quisesse entrar em casa e rapidam ente
recuei para o apartam ento de m inha m ãe.
Já eu vou tentar dorm ir um pouco — rebati.
A sra. De Riso fechou a cara e logo desistiu de m e seguir. Voltou a pôr a corrente na porta com ressentim ento.
Am alia tam bém sem pre queria entrar na m inha casa, m as nunca m e
deixava entrar na dela — m urm urou.
Depois fechou a porta na m inha cara.