Um Amor Incômodo
Capítulo 17
O quarto 208 era tão esquálido quanto o de um hotel de terceira
categoria. Ficava no fundo de um corredor sem saída e m al-ilum inado, ao lado de um alm oxarifado deixado aberto por desleixo e cheio de vassouras, carrinhos, aspiradores de pó, roupa de cam a suj a. As paredes tinham um a cor am arelada e, em cim a da cam a de casal, havia um a Nossa Senhora de Pom peia com um ram inho seco de oliveira enfiado entre o prego e o triângulo de m etal que sustentava a im agem em oldurada. As instalações sanitárias, que em vista da pretensão do hotel deveriam estar lacradas, estavam suj as com o se tivessem sido usadas pouco antes. A lixeira não fora esvaziada. Entre a cam a de casal e a parede, havia um corredor estreito que dava acesso à j anela. Esperando um a vista para o m ar, eu a abri: naturalm ente, dava para um pátio interno. Percebi que não estava m ais chovendo.
Em prim eiro lugar, tentei telefonar. Sentei-m e na cam a, evitando m e
olhar no espelho à frente. Deixei o telefone tocar m uitas vezes, m as tio Filippo não atendeu. Então rem exi na sacola de plástico onde eu havia enfiado as coisas que estavam na m aleta da m inha m ãe, tirei o robe de cetim rosado e o vestido azul-escuro m uito curto. A roupa, j ogada na sacola sem cuidado, estava toda am arrotada. Estendi o vestido sobre a cam a, alisando-o com as m ãos. Depois peguei o robe e fui para o banheiro.
Despi-m e e tirei o absorvente interno: a m enstruação parecia ter
term inado bruscam ente. Enrolei o absorvente no papel higiênico e o j oguei na lixeira. Verifiquei o chão do boxe: havia repugnantes pelos curtos e pretos espalhados pela borda de porcelana. Deixei a água escorrer por bastante tem po antes de m e posicionar sob a ducha. Percebi com satisfação que eu conseguia dom inar a necessidade de m e apressar. Estava separada de m im m esm a: a m ulher que queria sair em disparada com os olhos arregalados era observada im parcialm ente pela m ulher sob a água. Eu m e ensaboava cuidadosam ente e fazia com que cada gesto pertencesse a um m undo exterior sem prazos. Eu não estava perseguindo ninguém e ninguém estava m e perseguindo. Não estava sendo esperada e não esperava visitas. Minhas irm ãs haviam partido para sem pre. Meu pai estava em sua velha casa, na frente do cavalete, pintando ciganas. Minha m ãe, que havia anos existia apenas com o um a obrigação incôm oda, às vezes com o um torm ento, estava m orta. Porém , enquanto eu esfregava vigorosam ente o rosto, especialm ente em torno dos olhos, percebi com um a ternura inesperada que, na verdade, Am alia estava sob m inha pele, com o um líquido quente que havia sido inj etado em m im sabe-se lá quando.
Torci bem os cabelos m olhados até deixá-los quase enxutos e verifiquei
no espelho se restara rím el entre os cílios. Vi m inha m ãe do j eito que ela aparecia na carteira de identidade e sorri para ela. Depois vesti o robe de cetim e, pela prim eira vez na vida, apesar daquela detestável cor rosada, tive a im pressão de ser bonita. Senti, aparentem ente sem m otivo, a m esm a surpresa agradável de quando eu encontrava em lugares inesperados os presentes que Am alia havia escondido, fingindo ter se esquecido de datas e festividades. Ela nos m antinha em suspense até que, de repente, o presente surgia em recantos da vida cotidiana que nada tinham a ver com a excepcionalidade do presente. Ao nos ver felizes, ela ficava m ais feliz do que nós.
Entendi repentinam ente que o conteúdo da m ala não era para ela, m as
para m im . A m entira que eu havia contado à vendedora da loj a Vossi era, de fato, a verdade. O vestido azul-escuro que m e esperava em cim a da cam a tam bém era certam ente do m eu tam anho. Percebi tudo aquilo de súbito, com o se fosse o próprio robe sobre a pele que estivesse m e dizendo. Enfiei as m ãos nos bolsos com a certeza de que encontraria um cartão de feliz aniversário. E, de fato, lá estava, preparado propositalm ente para m e surpreender. Abri o envelope e li a caligrafia cursiva de Am alia, com aquelas letras ornadas que ninguém m ais sabe fazer: “Feliz aniversário, Delia. Sua m ãe.” Logo em seguida, m e dei conta de que estava com os dedos um pouco suj os de areia. Enfiei as m ãos novam ente no bolso e descobri que, no fundo, havia um a leve cam ada de areia. Minha m ãe usara aquele robe antes de se afogar.