Um Amor Incômodo

Elena Ferrante · Capítulo 18 de 26

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Um Amor Incômodo

Capítulo 18

Não notei a porta se abrindo. Ouvi, porém , quando alguém a trancou.

Polledro tirou o paletó e o j ogou sobre um a cadeira. Disse em dialeto:

Não vão m e dar um tostão.

Olhei para ele, perplexa. Eu não entendia do que ele estava falando:

talvez um em préstim o bancário, talvez dinheiro de agiotagem , talvez um suborno. Parecia um m arido cansado que achava que podia m e contar seus problem as com o se eu fosse sua esposa. Sem paletó, era possível ver a cam isa estufada sobre o cinto, o tórax com o peitoral largo e pesado. Preparei-m e para ordenar que ele saísse do quarto.

Em vez disso, querem que eu devolva o dinheiro que m e adiantaram —

continuou o m onólogo do banheiro, a voz chegando até m im j unto ao som do j ato de urina no vaso. — Meu pai foi pedir dinheiro a Moffa sem m e avisar. Na idade dele, quer recuperar a confeitaria da Via Gianturco e fazer sei lá o quê. Contou lorotas, com o sem pre. Agora Moffa não confia m ais em m im . Diz que não sei controlar o velho. Vão m e tirar a loj a.

Não íam os alm oçar j untos? — perguntei.

Ele passou na m inha frente com o se não tivesse ouvido. Foi até a j anela

e abaixou a persiana. Restou apenas a luz fraca que saía da porta aberta do banheiro.

Você dem orou dem ais — queixou-se por fim . — Significa que vai pular

o alm oço: às quatro, a loj a abre novam ente, não tenho m uito tem po.

Olhei m ecanicam ente para os ponteiros lum inosos do relógio: eram dez

para as três.

Deixe eu m e vestir.

Você está bem assim — respondeu. — Mas se prepare para m e

devolver tudo: vestidos, robe, calcinhas.

Com ecei a sentir o coração disparar. Não suportava o seu dialeto e a

hostilidade que ele em anava. Além disso, eu não via m ais a expressão do rosto dele, o que m e im pedia de entender até que ponto estava exibindo características prim árias de um m odelo de virilidade, e até que ponto, por outro lado, aquele com portam ento m aterializava intenções reais de violência. Eu via apenas a silhueta escura desatando a gravata.

Essas coisas são m inhas — retorqui, pronunciando com cuidado as

palavras. — Foram presentes de aniversário da m inha m ãe para m im .

São coisas que m eu pai pegou na loj a. Por isso, você vai m e devolver

tudo — respondeu ele com um a leve inflexão infantil na voz.

Eu não tinha dúvida de que ele não estava m entindo. Im aginei Caserta

escolhendo aquelas roupas para m im : cores, tam anho, m odelos. Senti um arrepio de noj o.

Fico só com o vestido e deixo todo o resto — decidi. Estendi a m ão em direção à cam a para pegar o vestido e correr para o

banheiro, m as o gesto cortou o ar com velocidade excessiva e atingiu a parede com a Nossa Senhora de Pom peia e o ram o de oliveira. Eu precisava m e m ovim entar m ais lentam ente. Desci o braço de m odo contido para evitar que todo o quarto ganhasse vida e tudo com eçasse a m udar de lugar dom inado pela ansiedade. Eu odiava os m om entos em que o frenesi assum ia o controle.

Polledro notou m inha hesitação e agarrou m eu pulso. Não reagi,

sobretudo para evitar que, ao tentar cortar pela raiz um esboço de resistência da m inha parte, ele m e puxasse para si com força. Eu sabia que só conseguiria m anter sob controle a im pressão de violência im inente se a velocidade dos m ovim entos parecesse escolhida por m im .

Ele m e beij ou sem m e abraçar, m as ainda apertando com força o

pulso. Prim eiro apoiou os lábios nos m eus, depois tentou abri-los com a língua. Seu j eito m e tranquilizou: sim , estava apenas se com portando com o achava que um hom em devia se com portar em um a situação com o aquela, m as sem agressividade real e, talvez, sem convicção. Havia provavelm ente abaixado a persiana para aproveitar a escuridão e, disfarçadam ente, m udar de expressão, relaxar os m úsculos do rosto.

Entreabri os lábios. Quarenta anos antes, im aginei com terror fascinado

que a língua do pequeno Antonio fosse igual à de Caserta, m as nunca tive com o com provar. Quando criança, Antonio não se interessava por beij os, preferia explorar o acesso à m inha vagina com os dedos suj os enquanto puxava m inha m ão para suas calças curtas. Depois, com o tem po, descobri que a língua de Caserta era um a fantasia. Nenhum dos beij os que ganhei m e pareceu igual aos que im aginei que ele desse em Am alia. O Antonio adulto tam bém confirm ava que não estava à altura daquelas fantasias. Não m e beij ou com m uita convicção. Assim que percebeu que aceitei abrir a boca, em purrou com ím peto excessivo a língua entre m eus dentes e, em seguida, ainda apertando m eu pulso, passou m inha m ão sobre as suas calças. Senti que não devia ter entreaberto os lábios.

Por que no escuro? — perguntei em voz baixa, com a boca encostada

na dele.

Eu queria ouvi-lo falar para ter certeza de que não tentaria m e

m achucar. Mas ele não respondeu. Deu um respiro curto, beij ou m inha bochecha, lam beu m eu pescoço. Enquanto isso, não parava de apertar com força m inha m ão contra o tecido das suas calças. Insistia para que eu entendesse que não deveria ficar inerte, com a palm a aberta. Segurei seu sexo. Só então ele largou m eu pulso e m e abraçou com força. Murm urou algo que não entendi e se curvou ligeiram ente para buscar m eus m am ilos, em purrando m eu torso para trás, provando com a boca o tecido de cetim e m olhando de saliva m eu robe.

Naquele m om ento, eu soube que nada de novo aconteceria. Estava

iniciando um ritual conhecido ao qual, quando j ovem , m e subm eti m uitas vezes, esperando que, ao trocar de hom ens com frequência, m eu corpo inventasse, vez por outra, respostas adequadas. A resposta, porém , sem pre foi a m esm a, idêntica à que eu estava expressando naquele m om ento. Polledro havia aberto m eu robe para chupar m eus seios, e eu com eçava a sentir um prazer leve, não localizado, com o se água quente estivesse escorrendo sobre m eu corpo enrij ecido pelo frio. Enquanto isso, com um a das m ãos, tom ando cuidado para não atrapalhar a m inha, que apertava seu m em bro em baixo do tecido, ele m e acariciava o sexo com sofreguidão excessiva, excitado por ter descoberto que eu estava sem calcinha. Mas eu não sentia nada além daquele prazer difuso, agradável e, todavia, não urgente.

Fazia tem po que eu tinha certeza de que j am ais superaria aquele

estágio. Eu só precisava esperar que ele ej aculasse. Por outro lado, com o sem pre, eu não sentia nenhum ím peto em aj udá-lo; pelo contrário, m al podia m e m exer. Eu sabia intuitivam ente que ele estava esperando que eu desabotoasse suas calças, pusesse o pênis para fora, não m e lim itasse a apertá-lo. Eu o sentia agitar os quadris, tentando m e transm itir instruções hesitantes. Mas eu não conseguia responder. Tem ia que m inha respiração j á lenta cessasse totalm ente. Além disso, estava paralisada por um constrangim ento crescente pelos líquidos copiosos que eu estavavertendo.

Na j uventude, quando eu tentava m e m asturbar, acontecia a m esm a

coisa. O prazer se difundia com tepidez, sem nenhum crescendo, e a pele logo com eçava a ficar m olhada. Por m ais que eu m e acariciasse, só conseguia fazer com que os fluidos do corpo transbordassem : a boca, em vez de secar, se enchia de um a saliva que m e parecia gélida; o suor escorria pela testa, pelo nariz, pelas bochechas; as axilas se tornavam poças; nenhum centím etro de pele ficava seco; o sexo se tornava tão m olhado que os dedos escorregavam sobre ele sem atrito, e eu não sabia m ais se estava realm ente m e acariciando ou se era apenas im aginação. A tensão do m eu corpo nunca crescia: eu ficava exausta e insatisfeita.

Até então, Polledro parecia não ter percebido nada daquilo. Em purrou-

m e para a cam a, sobre a qual, para evitar que caíssem os j untos devido à velocidade induzida por seu peso, prim eiro ele m e sentou cuidadosam ente e depois eu m e estendi com docilidade. Vi sua som bra dem orar alguns segundos, indecisa. Depois ele tirou os sapatos, a calça, a cueca. Subiu na cam a de j oelhos e ficou de quatro em cim a de m im , levem ente apoiado na m inha barriga, sem j ogar o peso sobre o m eu corpo.

E então? — m urm urou.

Venha — falei, m as perm aneci im óvel.

Ele gem eu, o peito bem ereto: esperava que finalm ente seu sexo,

grosso e grande na penum bra, m isturasse seus desej os aos que ele atribuía a m im . Com o nada aconteceu, depois de um longo respiro ele estendeu um a das m ãos e voltou a esfregar entre as m inhas pernas. Deve ter achado que, daquela m aneira, finalm ente m e induziria a reagir: por paixão, por piedade m aterna; a m odalidade da reação não lhe parecia im portante, só estava procurando a alavanca para m e estim ular. Mas m inha com placência sem participação com eçou a desorientá-lo. Pensei, com o sem pre pensava naquelas circunstâncias, que deveria fingir um frenesi suspiroso e descontrolado ou rechaçá-lo. Mas não ousei fazer nem um a coisa nem outra: tem ia precisar correr para vom itar, porque o resultado seria com o as ondas de um terrem oto. Era só esperar. Além disso, eu j á não estava m ais sentindo seus dedos: talvez ele tivesse recuado com noj o, talvez ainda estivesse m e tocando, m as eu j á houvesse perdido toda a sensibilidade.

Decepcionado, Polledro pegou m inhas m ãos e as colocou em volta do

seu sexo. Àquela altura, entendi que nunca penetraria m inha vagina a m enos que se convencesse de que eu o desej ava. Percebi, tam bém , que sua ereção com eçava a cessar, com o um néon defeituoso. Ele tam bém se deu conta disso e se deslocou para a frente, a fim de ficar com a barriga próxim a da m inha boca. Senti por ele um a vaga com paixão, com o se aquele fosse realm ente o Antonio criança que eu havia conhecido, e queria dizer isso a ele, m as a voz não saiu: ele estava se esfregando lentam ente contra os m eus lábios, e fiquei com m edo de que um leve e im perceptível m ovim ento da boca acabasse sendo tão incontrolável a ponto de dilacerar seu sexo.

Por que você foi até a loj a? — perguntou ressentido, deslizando de volta

ao longo do m eu corpo ensopado de suor. — Não fui eu que procurei você.

Eu nem sabia quem você era — respondi.

E todas aquelas histórias? O vestido, as calcinhas... O que você queria? Não fui lá para ver você — expliquei, m as sem agressividade. — Só

queria encontrar seu pai. Queria saber o que aconteceu com a m inha m ãe antes de ela se afogar.

Percebi que ele não estava convencido e tentava m e acariciar

novam ente. Balancei a cabeça para que ele entendesse: chega. Agachou-se em cim a de m im , m as só por um instante. Recuou com um gesto de repulsa ao m e sentir encharcada de suor.

Você não está passando bem — disse, incerto. Estou bem . E, m esm o que estivesse doente, seria tarde dem ais para m e

curar.

Polledro rolou, conform ado, para o m eu lado. Vi na penum bra que

estava enxugando com o lençol os dedos, o rosto, as pernas; depois acendeu a luz na m esinha de cabeceira.

Você está parecendo um fantasm a — falou ele, olhando para m im sem

ironia. Com um a ponta da cam isa que ainda vestia, com eçou a enxugar m eu rosto.

A culpa não é sua — tranquilizei-o, e pedi que apagasse novam ente a

luz.

Não queria ser vista e não queria vê-lo. Perdido e desolado daquela

m aneira, parecia-se dem ais com o Caserta que eu havia im aginado ou realm ente vira quarenta anos antes. A im pressão foi tão intensa que até pensei em contar para ele logo, no escuro, o que se aglom erava em volta daquele seu rosto tão diferente do rosto exaltado e cam orrista que ele exibira durante toda a m anhã. Ao falar, eu queria apagar tanto a m im quanto a ele naquela cam a, diferentes das crianças de antigam ente. Tínham os em com um apenas a violência que havíam os testem unhado.

Quando m eu pai descobriu que Am alia e Caserta se encontravam

secretam ente no porão

pensei em contar-lhe lentam ente —, não perdeu tem po. Antes de m ais

nada, saiu correndo atrás de Am alia pelo corredor, depois pela escada, depois pela rua. Senti o cheiro das tintas a óleo quando ele passou na m inha frente e tive a im pressão de que ele m esm o estivesse m uito colorido.

Minha m ãe fugiu para debaixo da ponte da ferrovia, escorregou em

um a poça, foi alcançada, levou socos, tapas, um chute nas costas. Depois de puni-la com o devia, levou-a de volta para casa sangrando. Bastava ela tentar falar que ele tornava a golpeá-la. Olhei durante um bom tem po para ela, m achucada, suj a, e ela olhou durante um bom tem po para m im , enquanto m eu pai explicava o acontecido a tio Filippo. Am alia tinha um olhar espantado: m e fitava e não entendia. Então, irritada, fui em bora espiar os outros dois.

Meu pai e tio Filippo estavam ao longe, e eu podia observá-los da

j anela: eram soldadinhos de lata tom ando sérias decisões no pátio. Ou figurinhas de m ilitares para serem recortadas e coladas em um álbum , um a ao lado da outra, de m odo que pudessem se falar em particular. Meu pai havia calçado botas e vestido um traj e de safári. Tio Filippo pusera um a farda verde- oliva, ou talvez branca, ou talvez preta. E não só isso: tinha pegado um revólver.

Ou ficou à paisana, em bora, na penum bra do quarto 208, um a voz

ainda dissesse: “Vai m atá-lo, pegou o revólver.” Talvez fossem aqueles sons que m e fizessem ver m eu pai de botas, tio Filippo de farda, com os dois braços para baixo, próxim o ao corpo, e o revólver na m ão direita. Juntos, seguiam o j ovem Caserta, com o capote de lã de cam elo, subindo a escadaria de sua casa. Atrás deles, a distância, para não ser novam ente m assacrada, ou porque estava fraca e não conseguia correr, estava Am alia com o seu tailleur azul-escuro e o chapéu com plum as, dizendo em voz baixa, cada vez m ais atônita: “Não o m atem , ele não fez nada.”

Caserta m orava no últim o andar, m as foi alcançado no segundo. Ali, os

três hom ens pararam com o que para um a assem bleia secreta. De fato, produziram em uníssono um vozerio de insultos em dialeto, um a longa lista de palavras que term inavam em consoantes, com o se a vogal final tivesse caído em um abism o e o resto da palavra ganisse surdam ente de desgosto.

Term inada a lista, Caserta foi em purrado escada abaixo e rolou até o

prim eiro andar. Levantou-se ao chegar no final e subiu correndo outra vez: não se sabe se para ir audaciosam ente ao encontro dos vingadores ou se para tentar chegar até sua casa e sua fam ília no quarto andar. O fato é que conseguiu passar e — com um a das m ãos deslizando levem ente sobre o corrim ão, m as agarrando-o quando seu corpo fazia a curva, sem que as pernas parassem de galgar os degraus de três em três — foi rodopiando escada acim a até a porta de casa, perseguido por chutes que não o acertavam e cusparadas que às vezes o atingiam com o m eteoros.

Meu pai o alcançou prim eiro e o derrubou. Levantou sua cabeça pelos

cabelos e com eçou a batê-la na grade. Os baques produziam um eco interm inável. Por fim , deixou-o desfalecido sobre o sangue no chão, graças ao conselho do cunhado — que até tinha um revólver, porém era m ais sábio. Tio Filippo segurou m eu pai por um braço e o puxou calm am ente para longe: não fosse por isso, ele teria deixado Caserta m orto ali no chão. A m ulher de Caserta tam bém afastava m eu pai: estava agarrada ao seu outro braço. De Am alia, restava apenas a voz, que dizia: “Não o m atem , ele não fez nada.” Antonio, que havia sido m eu com panheiro de brincadeiras, chorava, m as com a cabeça baixa, suspenso no vão da escada com o se voasse.

Percebi Polledro respirando ao m eu lado em silêncio e senti pena da

criança que ele tinha sido.

Vou em bora — falei.

Levantei-m e e logo pus o vestido para evitar seu olhar em m inha

som bra. Senti que a peça caía perfeitam ente em m im . Então procurei na sacola de plástico um a calcinha branca e tam bém a vesti, deslizando-a por baixo do vestido. Em seguida acendi a luz. Polledro tinha um olhar ausente. Eu o observei e não consegui m ais pensar que havia sido Antonio, que se parecia com Caserta. Seu corpo pesado j azia na cam a, nu da cintura para baixo. Era o corpo de um estranho, sem nexos evidentes com a m inha vida passada ou presente a não ser pela m arca úm ida que eu deixara no seu quadril. Mas fiquei grata assim m esm o a ele pela dose m ínim a de hum ilhação e dor que m e causara. Dei a volta na cam a, sentei-m e do lado onde ele estava e o m asturbei. Ele deixou, de olhos fechados. Ej aculou sem um gem ido sequer, com o se não estivesse sentindo prazer algum .