Um Amor Incômodo

Elena Ferrante · Capítulo 4 de 26

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Um Amor Incômodo

Capítulo 4

Pedi as chaves para a vizinha, a viúva De Riso. Ela as entregou, m as se

recusou term inantem ente a entrar com igo. Era gorda e desconfiada, com um grande sinal na bochecha direita, pontuado por dois longos pelos grisalhos, e cabelos repartidos ao m eio presos na nuca em um a espiral de tranças. Estava de preto, talvez por hábito, talvez porque ainda estivesse usando a roupa do funeral. Ficou na soleira de sua casa, observando-m e escolher as chaves certas. Mas a porta não estava bem fechada. Ao contrário do que geralm ente acontecia, Am alia havia usado apenas um a das duas fechaduras, a que dava duas voltas. A outra, que previa cinco voltas da chave, estava aberta.

O que aconteceu? — perguntei à vizinha, escancarando a porta. A sra.

De Riso hesitou.

Ela andava um pouco avoada — disse. Mas deve ter considerado a

expressão desrespeitosa, pois acrescentou: — Estava contente.

Então, hesitou um pouco m ais: dava para ver que teria fofocado de

bom grado, m as tem ia o fantasm a de m inha m ãe, que pairava no vão da escada, no apartam ento, certam ente tam bém na sua casa. Convidei-a novam ente para entrar, esperando que m e fizesse com panhia com sua conversa. Ela se recusou resolutam ente, com um arrepio, e seus olhos ficaram m arej ados.

Por que ela estava contente? — perguntei. Hesitou m ais um a vez,

depois se decidiu.

Há algum tem po, um senhor alto, m uito distinto, passou a visitá-la.

Olhei-a com hostilidade. Decidi que não queria que a vizinha continuasse.

Era o irm ão dela — falei.

A sra. De Riso sem icerrou os olhos, ofendida: ela e m inha m ãe eram

am igas havia bastante tem po, e ela conhecia m uito bem o tio Filippo, que não era alto nem distinto.

O irm ão dela — repetiu com falsa condescendência. Não? — perguntei, irritada por aquele tom . Ela se despediu com frieza

e fechou a porta.

Quando entram os na casa de um a pessoa m orta recentem ente, é difícil

acreditar que estej a deserta. As casas não guardam fantasm as, m as retêm os efeitos das últim as ações em vida. Prim eiro ouvi o barulho de água corrente na cozinha e, por um a fração de segundo, com um a torção abrupta do verdadeiro e do falso, pensei que m inha m ãe não estivesse m orta, que sua m orte tivesse sido apenas o obj eto de um a longa e angustiante fantasia que teve início sabe-se lá quando. Tive certeza de que ela estava em casa, viva, diante da pia, lavando os pratos e m urm urando para si m esm a. Mas as venezianas estavam fechadas, e o apartam ento, escuro. Acendi a luz e vi a antiga torneira de latão que j orrava água copiosam ente na pia vazia.

Fechei-a. Minha m ãe fazia parte de um a cultura extinta que não

concebia desperdícios. Ela não j ogava fora o pão seco, usava até a casca do queij o, cozinhando-a na sopa para dar gosto, e não com prava carne quase nunca, m as pedia ao açougueiro ossos de descarte para fazer caldo e os chupava com o se contivessem substâncias m ilagrosas. Jam ais teria esquecido a torneira aberta. Usava a água com um a parcim ônia que se transform ara em um reflexo do gesto, do ouvido, da voz. Se, quando m enina, eu deixasse um filete silencioso de água escorrendo para o fundo da pia com o um a agulha de tricô, ela gritava um segundo depois, sem repreensão: “Delia, a torneira.” Senti-m e inquieta: ela havia desperdiçado m ais água com aquela distração nas últim as horas de vida do que em toda a sua existência. Im aginei-a boiando de bruços, suspensa no centro da cozinha, sobre o fundo de laj otas azuis.

Mudei de am biente depressa. Circulei pelo quarto, recolhendo em um

saco plástico as poucas coisas que ela tinha m antido: o álbum de fotografias da fam ília, um a pulseira, um velho vestido de inverno dos anos cinquenta do qual eu tam bém gostava. O resto eram coisas que nem m esm o os brechós iam querer. Os poucos m óveis eram velhos e feios, a cam a era com posta apenas pelo estrado e o colchão, os lençóis e as cobertas eram rem endados com um cuidado que, tendo em vista a idade que tinham , não m ereciam . O que cham ou m inha atenção foi que a gaveta na qual ela costum ava guardar as roupas íntim as estava vazia. Procurei o saco de roupa suj a e olhei lá dentro. Não havia nada além de um a cam isa m asculina de boa qualidade.

Exam inei-a. Era azul-clara, de tam anho m édio, com prada

recentem ente e escolhida por um hom em j ovem ou de gosto j ovial. O colarinho estava suj o, m as o cheiro do tecido não era desagradável: o suor havia se m isturado a um a boa m arca de desodorante. Dobrei-a com cuidado e a pus na sacola plástica j unto às outras coisas. Não era um a peça de roupa do tipo que o tio Filippo usava.

Segui para o banheiro. Não havia escova nem pasta de dente. Na porta,

estava pendurado um velho roupão de banho azul-claro. O papel higiênico estava no fim . Ao lado do vaso, havia um saco de lixo cheio até a m etade. Dentro não havia lixo, m as sim aquele m au cheiro de corpo cansado que se entranha nas roupas suj as ou em tecidos envelhecidos, im pregnados em cada fibra pelos hum ores de décadas. Com ecei a retirar, um a peça de cada vez, com um leve asco, toda a roupa íntim a da m inha m ãe: velhas calcinhas brancas e cor-de-rosa, com m uitos rem endos e elásticos antiquados que despontavam aqui e ali no tecido descosturado, com o trilhos de ferrovias nos intervalos entre um túnel e outro; sutiãs deform ados e gastos; cam isetas cheias de furos; elásticos para suspender as m eias, daqueles que se usavam quarenta anos antes e que ela guardava inutilm ente; m eias-calças em estado penoso; com binações fora de m oda que ninguém m ais vendia havia tem po, desbotadas, com rendas am areladas.

Am alia, que sem pre se vestiu com trapos porque era pobre, m as

tam bém porque tinha o costum e de não se m ostrar atraente — costum e esse adquirido m uitas décadas antes para aplacar o ciúm e do m eu pai —, parecia ter decidido de repente se livrar de todo o seu guarda- roupa. Voltou à m inha m ente a única peça de roupa que ela estava usando quando foi encontrada: o refinado sutiã novo em folha com os três Vs que uniam as taças. A im agem dos seus seios cingidos por aquela renda intensificou m inha inquietação. Deixei as roupas espalhadas pelo chão, sem força para voltar a tocá-las, fechei a porta e m e recostei nela.

Mas foi inútil: todo o banheiro passou por cim a de m im e se recom pôs à

m inha frente, no corredor. Am alia, então, estava sentada no vaso, m e olhando com atenção enquanto eu m e depilava. Eu estava cobrindo os tornozelos com um a cam ada de cera quente para depois, gem endo, com eçar a arrancá-la da pele com determ inação. Enquanto isso, ela m e contava que, quando garota, cortava a penugem negra dos tornozelos com tesouras. Mas os pelos logo cresceram novam ente, duros com o aram e farpado. Tam bém na praia, antes de pôr o m aiô, aparava com a tesoura os pelos pubianos.

Passei a m inha cera nela, em bora ela tenha tentado se esquivar.

Espalhei com cuidado a cera nos tornozelos, na parte interna das coxas m agras e firm es, na virilha, censurando-a com severidade desnecessária pela anágua rem endada. Depois fui arrancando a cera enquanto ela m e observava, sem piscar. Não fui cautelosa, com o se quisesse subm etê-la a um a prova de dor, e ela m e deixou agir sem dar um pio, com o se tivesse aceitado a provação. Mas a pele não resistiu. Prim eiro tornou-se verm elho-fogo e, logo em seguida, arroxeada, revelando um a rede de capilares rom pidos.

Não tem problem a, depois passa — dissera ela enquanto eu m e

arrependia ligeiram ente do estado em que a deixara.

Arrependim ento que era m ais intenso agora, ao m e esforçar para

m andar o banheiro de volta para trás da porta na qual eu m e recostava. Para tanto, afastei-m e da entrada, deixei desvanecer no corredor a im agem das pernas lívidas de m inha m ãe e fui buscar a bolsa na cozinha. Quando voltei ao banheiro, escolhi cuidadosam ente dentre as calcinhas no chão aquela que m e parecia m enos estragada. Lavei-m e e troquei o absorvente interno. Deixei m inha calcinha no chão, entre as de Am alia. Ao passar diante do espelho, sorri para m im m esm a sem querer, com a intenção de m e tranquilizar.

Fiquei não sei quanto tem po ao lado da j anela da cozinha, ouvindo o

vozerio do beco, o vaivém das lam bretas, os passos na calçada. A rua exalava um cheiro de água parada que subia pelos andaim es. Eu estava esgotada, m as não queria m e deitar na cam a de Am alia nem pedir aj uda ao tio Filippo ou telefonar para o m eu pai ou cham ar de novo a sra. De Riso. Sentia pena daquele m undo de velhos perdidos, confusos entre im agens de si m esm os que rem ontavam a épocas passadas, ora em harm onia ora em desacordo com som bras de coisas e pessoas de outros tem pos. Todavia, eu tinha dificuldade em m e m anter afastada. Sentia-m e tentada a ligar um a voz a outra, um a coisa a outra, um fato a outro. Já sentia Am alia de volta, querendo observar com o eu passava crem es, com o eu usava a m aquiagem e a rem ovia depois. Eu j á com eçava a im aginar com aversão sua velhice secreta na qual brincava com o próprio corpo o dia inteiro, com o talvez tivesse feito quando j ovem , se m eu pai não houvesse interpretado aquelas brincadeiras com o um desej o de agradar outros hom ens, um a preparação para a infidelidade.