Um Amor Incômodo

Elena Ferrante · Capítulo 22 de 26

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Um Amor Incômodo

Capítulo 22

Atravessei a rua. Na esquina, reconheci facilm ente o “Coloniali”, que

havia sido do pai de Caserta. Estava fechado com duas tábuas cruzadas por cim a de um a porta de ferro enrolada de um lado com o a beirada da página de um livro. No alto, havia um letreiro m anchado de lodo no qual se lia com dificuldade: “Fliperam a”. Do triângulo negro, aberto na porta de ferro dilapidada, saiu um gato de olhos am arelos com o rabo de um rato se agitando entre os seus lábios: olhou para m im alarm ado e, depois, se esgueirou entre a porta de ferro e as tábuas, afastando-se.

Cam inhei ao longo da parede do edifício. Achei as saídas de ar dos

porões. Estavam exatam ente com o eu lem brava: aberturas retangulares a m eio m etro da calçada, sulcadas por nove barras e cobertas por um a densa retícula. De dentro saía um ar fresco e um cheiro de um idade e poeira. Olhei para o interior protegendo os olhos e tentando m e acostum ar à escuridão. Não vi nada.

Voltei à entrada da loj a e exam inei a rua. Havia um vozerio infantil

inquieto em um a rua que, com sua esqualidez ao crepúsculo, não m e tranquilizava. O ar quente estava im pregnado de um forte cheiro de gás vindo das refinarias. A água das poças, coroada por bandos de insetos. Na calçada em frente, crianças entre quatro e cinco anos apostavam corrida em triciclos de plástico. Pareciam estar sendo displicentem ente vigiadas por um hom em de uns cinquenta anos, calça apertada na barriga em baixo de um a regata am arelada m uito protuberante. Ele tinha braços m aciços, torso longo e peludo, pernas curtas. Estava encostado na parede, ao lado de um a barra de ferro que parecia não lhe pertencer: tinha uns setenta centím etros de com prim ento, afiada na ponta — a sobra de um a velha grade abandonada ali por algum garoto que a pegou no lixo para brincar perigosam ente. O hom em fum ava um charuto e m e observava.

Atravessei a rua e perguntei em dialeto se m e daria uns fósforos. Ele

tirou devagar do bolso um a caixa de fósforos de cozinha e a estendeu para m im , olhando ostensivam ente a m ancha no vestido. Peguei cinco, um por vez, com o se seu olhar não m e envergonhasse. Ele m e perguntou em um tom inexpressivo se eu tam bém queria um charuto. Agradeci: eu não fum ava charutos nem cigarros. Então ele m e disse que não era bom eu circular por ali sozinha. Aquele lugar não era seguro: tinha um a gente ruim que perturbava até as crianças. Indicou-os, agarrando a barra de ferro e girando-a rapidam ente na direção deles. Estavam se xingando em dialeto.

Filhos ou netos? — perguntei.

Filhos e netos — respondeu pacatam ente. — O prim eiro que tentar

encostar neles m orre.

Agradeci novam ente e atravessei de volta a rua. Passei por cim a de

um a das tábuas, curvei- m e e entrei no triângulo escuro do outro lado da porta de ferro.