Um Amor Incômodo

Elena Ferrante · Capítulo 14 de 26

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Um Amor Incômodo

Capítulo 14

Eram veículos novos, bem diferentes daqueles em serviço quando eu

era m enina. A única sem elhança era o form ato de paralelepípedo, que parecia ter sido form ado através de um violento choque frontal que proj etou para trás toda a sua estrutura. Mas, quando o funicular com eçou a descer pelo poço oblíquo à sua frente, reapareceram os rangidos, as vibrações e os trancos. Apesar disso, os vagões deslizavam pelo declive pendurados aos cabos de aço com um a velocidade que pouco tinha a ver com a tranquila lentidão pontuada por baques e solavancos de antigam ente. Pareceu-m e que o veículo havia se transform ado de um a sonda circunspecta no ventre da colina em um a brutal inj eção na veia. E, incom odada, senti que isso esm aecia a lem brança das viagens agradáveis com Am alia, de quando ela j á não costurava luvas e m e levava j unto para entregar às clientes abastadas do Vom ero as roupas que havia feito para elas. Minha m ãe se arrum ava e se em belezava para não parecer m enos m adam e do que as m ulheres para quem trabalhava. Eu, por outro lado, era m agra e suj a, ou pelo m enos era assim que m e sentia. Ficava sentada ao lado dela no banco de m adeira e carregava nos j oelhos, cuidadosam ente esticada para que não am assasse, a roupa na qual ela estava trabalhando ou que tinha acabado de term inar, enrolada em papel de em brulho preso nas extrem idades com alfinetes. O pacote ficava apoiado nas m inhas pernas e na m inha barriga com o um estoj o no qual estavam guardados o cheiro e o calor da m inha m ãe. Eu o sentia em cada m ilím etro de pele tocado pelo papel. E aquele contato, à época, suscitava em m im um a m elancólica languidez intercalada pelos solavancos do vagão.

Agora, porém , eu só tinha a im pressão de perder altitude, com o um a

Alice envelhecida correndo atrás do Coelho Branco. Por isso, afastei-m e da porta e m e esforcei para chegar ao centro do carro. Eu estava na parte alta do vagão, no segundo com partim ento. Tentei abrir cam inho, m as os passageiros m e encaravam com irritação, com o se houvesse algo repugnante na m inha aparência, e m e em purravam com hostilidade. Avancei com dificuldade, depois desisti de m e m exer e procurei Caserta com o olhar. Encontrei-o no fundo do últim o com partim ento, em um a plataform a am pla. Estava atrás de um a garota de uns vinte anos com aparência bastante descuidada. Eu o via de perfil, assim com o a m oça. Parecia um senhor tranquilo, de um a velhice distinta, absorto na leitura do j ornal cinza por causa da chuva. Segurava-o com a m ão esquerda, dobrado em quatro, e, com a direita, apoiava-se no corrim ão de m etal polido. Mas logo percebi que, acom panhando as oscilações do vagão, se aproxim ava cada vez m ais do corpo da m oça. Estava com as costas arqueadas, as pernas um pouco abertas, a barriga apoiada sobre as nádegas dela. Não havia nada que j ustificasse aquele contato. Apesar da lotação, havia atrás dele espaço suficiente para que m antivesse a devida distância. Porém , quando a m oça se virou com um a raiva m al contida e avançou um pouco para fugir dele, o velho não desistiu. Esperou alguns segundos antes de recuperar os centím etros perdidos, então encostou novam ente o tecido das calças azul-escuras no j eans dela. Recebeu um a tím ida cotovelada nas costelas, m as continuou im passível, fingindo ler, então pressionou com m ais determ inação a barriga contra ela.

Virei-m e em busca do m eu tio. Avistei-o no outro vagão, concentrado,

boquiaberto. Polledro, ao seu lado, no m eio da m ultidão, batia no vidro. Talvez estivesse tentando cham ar a atenção de Caserta. Ou a m inha. Não tinha m ais o ar irritante que eu vira na loj a. Parecia um rapaz hum ilhado e ansioso, obrigado a ficar atrás de um a j anela assistindo a um espetáculo que o fazia sofrer. Desviei o olhar dele para Caserta, desorientada. Pareceu-m e que tivessem a m esm a boca, de um plástico verm elho, enrij ecida pela tensão. Mas não consegui fixar aquela im pressão. O funicular parou oscilando, e notei que a m oça se dirigia para a saída quase correndo. Caserta, com o se estivesse colado nela, a seguiu com as costas arqueadas e as pernas abertas, causando espanto e algum as risadas nervosas dos seus com panheiros de viagem . A m oça saltou do vagão. O velho hesitou um instante, se recom pôs e ergueu o olhar. Achei que fosse por causa das batidas no vidro, a essa altura frenéticas, de Polledro. Porém , com o se tivesse sabido o tem po todo o ponto exato no qual eu estava, logo m e localizou no m eio da m ultidão, que agora apontava para ele com m urm úrios de desaprovação, e m e dirigiu um olhar alegrem ente alusivo para m e fazer entender que a pantom im a à qual estava se dedicando tinha a ver com igo. Então saiu bruscam ente do vagão com o um ator rebelde que decidiu abandonar o roteiro.

Percebi que Polledro tam bém procurava saltar. Tentei chegar até a

porta tam bém , m as eu estava longe da saída e fui repelida pelo fluxo de passageiros que entravam . O funicular voltou a se m ovim entar. Olhei para cim a e percebi que o hom em da loj a Vossi tam bém não havia conseguido descer. Mas tio Filippo, sim .