Um Amor Incômodo
Capítulo 9
O café estava quase pronto quando cheguei na casa do tio Filippo. Com
um braço só, ele m isteriosam ente conseguia fazer tudo. Tinha um a cafeteira antiquada, do tipo que se usava antes que as m áquinas de espresso italianas se estabelecessem em todas as casas. Era um cilindro de m etal com um bico que, desm ontado, se dividia em quatro partes: um recipiente para ferver a água, um com partim ento para o café m oído, a tam pa de rosca coberta de pequenos furos e o bule. Quando entrei na cozinha, a água quente j á estava caindo no bule e um cheiro intenso de café se espalhava pelo apartam ento.
Você está ótim a — afirm ou, m as não creio que aludisse à m aquiagem . Nunca m e parecera capaz de distinguir entre um a m ulher com e sem
m aquiagem . Queria apenas dizer que eu estava com um a aparência particularm ente boa naquela m anhã. De fato, enquanto bebericava o café pelando, acrescentou:
Das três, você é a que m ais se parece com Am alia. Esbocei um sorriso. Eu não queria alarm á-lo contando o que havia
acontecido durante a noite. Tam bém não queria com eçar a discutir m inha sem elhança com Am alia. Eram sete da m anhã e eu estava cansada. Meia hora antes, eu havia cruzado um a Via Foria sem ideserta, com sons ainda tão suaves que era possível ouvir o canto dos pássaros. O ar estava fresco, aparentem ente lim po, e a luz nebulosa, indecisa entre um dia de céu aberto ou fechado. Mas, na Via Duom o, os sons da cidade j á tinham se intensificado, as vozes das m ulheres nas casas tam bém , e o ar se tornara m ais cinza e pesado. Com um a grande sacola de plástico na qual eu enfiara o conteúdo da m aleta e da bolsa da m inha m ãe, cheguei na casa do m eu tio surpreendendo-o com suas calças desabotoadas e largas, a regata sobre o torso ossudo, o cotoco de braço nu. Ele escancarara as j anelas e logo se arrum ara. Então tinha com eçado a m e atorm entar com ofertas de com ida. Eu queria pão fresco, queria leite, queria uns biscoitos?
Não m e fiz de rogada e com ecei a beliscar um a coisa ou outra. Tio
Filippo enviuvara havia seis anos, m orava sozinho com o todos os velhos sem filhos, dorm ia pouco. Estava contente com a m inha presença, apesar da hora m atutina, e eu tam bém m e sentia feliz de estar ali. Queria uns poucos m inutos de trégua, a bagagem que eu havia deixado na casa dele uns dias antes, trocar de roupa. Planej ava ir logo à loj a das irm ãs Vossi. Mas tio Filippo estava ávido por com panhia e conversa. Am eaçou Caserta com m ortes horríveis. Desej ou que j á tivesse m orrido de m aneira dolorosa durante a noite. Censurou a si m esm o por não tê-lo m atado no passado. E, depois, usando conexões difíceis de identificar, com eçou a pular de um a história de fam ília para outra em um dialeto fortíssim o. Não parou nem para tom ar fôlego.
Após algum as tentativas, desisti de interrom pê-lo. Ele resm ungava, se
enfurecia, ficava com os olhos cheios d’água, fungava. Quando o discurso chegou em Am alia, passou em poucos m inutos de suspiros e elogios à irm ã a críticas im piedosas pelo fato de ela ter abandonado m eu pai. Para com pletar, esqueceu-se de falar dela no passado e com eçou a censurá-la com o se ainda estivesse viva e presente, ou prestes a despontar do outro côm odo. “Am alia”, ele com eçou a gritar, “nunca pensa nas consequências: sem pre foi assim , deveria ter sentado, refletido e esperado; em vez disso, um dia acordou e foi em bora de casa com as três filhas”. Não devia ter feito isso, segundo tio Filippo. Logo percebi que queria traçar um a conexão entre aquela separação de vinte e três anos antes com a decisão da irm ã de se afogar.
Não fazia o m enor sentido. Fiquei incom odada, m as deixei que ele
falasse, ainda m ais porque, vez por outra, interrom pia-se e, m udando o tom de hostil para afetuoso, corria e pegava da despensa m ais latas: balas de m enta, biscoitos velhos, um a geleia de am ora em branquecida de m ofo, m as, segundo ele, ainda boa.
Enquanto eu, de início, rej eitava suas ofertas e, depois, beliscava
conform ada, ele recom eçava a falar, confundindo datas e fatos. Era 46 ou 47? — esforçava-se para lem brar. Então m udava de ideia e concluía: depois da guerra. Depois da guerra, foi Caserta quem percebeu que era possível usar o talento do m eu pai para viverm os um pouco m elhor. Tínham os de ser honestos e adm itir que, sem ele, m eu pai teria continuado a pintar, por um a ninharia, m ontanhas, luas, palm eiras e cam elos nas loj as do bairro. Caserta, porém , que era esperto, de pele escura com o um sarraceno, m as com olhos de diabo assanhado, com eçou a andar para cim a e para baixo com os m arinheiros am ericanos. Não para vender m ulheres ou outras m ercadorias. Caserta ficava atrás dos m arinheiros angustiados pela saudade. E, em vez de m ostrar fotos de m oças à venda, insistia para que eles tirassem da carteira as fotos das m ulheres que haviam deixado em casa. Depois de transform á-los em m eninos abandonados e ansiosos, negociava o preço e levava as fotos para o m eu pai, que as transform ava em retratos a óleo.
Eu tam bém m e lem brava daquelas im agens. Meu pai perm aneceu
trabalhando com elas durante anos, m esm o sem Caserta. Parecia que os m arinheiros, de tanto suspirar, deixavam as im agens de suas m ulheres gastas. Eram fotos de m ães, irm ãs e nam oradas, todas louras, sorridentes, fotografadas com perm anente nos cabelos, sem um fio fora do lugar, j oias penduradas no pescoço e nas orelhas. Pareciam em palhadas. E, ainda por cim a, com o na nossa foto que Am alia guardava e em todas as fotos corroídas pela ausência, a pátina da im pressão havia se desgastado, e a im agem m uitas vezes estava dobrada nos cantos ou atravessada por fendas brancas que cortavam rostos, roupas, colares, penteados. Eram rostos m oribundos m esm o na fantasia de quem os guardava com desej o e sentim ento de culpa. Meu pai as pegava das m ãos de Caserta e as prendia ao cavalete com um a tachinha. Depois, em um piscar de olhos, fazia surgir na tela um a m ulher que parecia verdadeira, um a m ãe- irm ã-esposa que suspirava em vez de causar suspiros. As rachaduras sum iam , o preto e branco se tornava cor, pele. E a m aquiagem daquele arrim o da m em ória era executada com perícia suficiente para deixar contentes hom ens perdidos e desolados. Caserta passava para retirar a m ercadoria, deixava um pouco de dinheiro e ia em bora.
Assim — relatava m eu tio —, em pouco tem po a vida m udou. Graças
às m ulheres dos m arinheiros am ericanos, com íam os todos os dias. Meu tio tam bém , pois na época estava sem em prego. Minha m ãe lhe dava um pouco de dinheiro, m as com o consentim ento do m eu pai. Ou talvez escondido. Finalm ente, depois de anos de privações, tudo estava m elhorando. Se Am alia tivesse prestado m ais atenção às consequências, se não tivesse se introm etido, sabe- se lá aonde teríam os chegado. Muito longe, segundo m eu tio.
Pensei naquele dinheiro e na m inha m ãe, em com o ela aparecia nas
fotos do álbum de fam ília: dezoito anos, o ventre j á arqueado pela m inha presença dentro dela, em pé, ao ar livre, em um a varanda; ao fundo, sem pre se via um a parte de sua Singer. Devia ter largado a m áquina de costura som ente para ser fotografada; em seguida, após aquele instante, tenho certeza de que voltou a trabalhar, curvada, e nenhum a foto j am ais a im ortalizou naquela m iséria da labuta com um , sem um sorriso, sem olhos brilhantes, sem cabelos arrum ados para que parecesse m ais bonita. Acho que tio Filippo nunca pensou na contribuição do trabalho de Am alia. Nem m esm o eu havia pensado. Balancei a cabeça, insatisfeita com igo m esm a: odiava falar do passado. Por isso, enquanto m orei com Am alia, vi m eu pai no m áxim o dez vezes, obrigada por ela. E, desde que m e m udara para Rom a, apenas duas ou três vezes. Ele ainda m orava na casa onde nasci, com dois côm odos e um a cozinha. Passava o dia todo sentado, pintando feias paisagens do golfo ou toscos m ares revoltos para feirinhas de vilarej os. Sem pre ganhou a vida assim , recebendo uns trocados de interm ediários com o o tal Caserta, e j am ais gostei de vê-lo acorrentado à repetição dos m esm os gestos, das m esm as cores, das m esm as form as, dos m esm os cheiros que eu conhecia desde a infância. Sobretudo, eu não suportava que ele expusesse para m im seus m otivos confusos, cobrindo Am alia de insultos e nunca lhe dando qualquer m érito.
Não, eu não gostava de m ais nada do passado. Havia cortado laços com
todos os parentes para evitar que, em cada encontro, lam entassem no seu dialeto o grande azar da m inha m ãe e disparassem am eaçadoras vulgaridades sobre o m eu pai. Só sobrara ele, o tio Filippo. Ao longo dos anos, eu o vira não por escolha, m as sim plesm ente porque ele aparecia do nada lá em casa e brigava com a irm ã. Era veem ente, com a voz altíssim a, depois os dois faziam as pazes. Am alia era m uito apegada àquele único irm ão trapalhão, dom inado desde j ovem pelo cunhado e por Caserta. E, de certo m odo, ficava contente que ele continuasse a visitar m eu pai e fosse contar a ela com o estava, o que andava fazendo, no que estava trabalhando. Já eu em bora sentisse um a antiga sim patia por aquele seu corpo m utilado e por sua agressividade de m afioso fanfarrão que, se eu quisesse, poderia nocautear com um único soco teria preferido que ele tam bém tivesse desvanecido com o tantos outros tios e tias-avós. Eu tinha dificuldade em aceitar que ele desse razão ao m eu pai e culpasse m inha m ãe. Era irm ão dela, a vira centenas de vezes inchada por causa de tapas, socos, chutes; contudo, nunca m overa um a palha para aj udá-la. Fazia cinquenta anos que continuava a reiterar sua solidariedade ao cunhado, fielm ente. Faz som ente poucos anos que consigo ouvi-lo sem ficar alarm ada. Mas, quando garota, eu não suportava que ele tom asse partido daquela form a. A certa altura, enfiava dois dedos nos ouvidos para não escutar. Talvez eu não tolerasse que a parte m ais secreta de m im usasse aquela sua solidariedade para validar um a hipótese cultivada igualm ente em segredo: a de que m inha m ãe levava inscrita no corpo um a culpa natural, independente da sua vontade e das suas ações, aparecendo prontam ente quando necessário, em cada gesto, em cada suspiro.
Esta cam isa é sua? — perguntei para m udar de assunto, tirando de um a
das sacolas de plástico a cam isa azul que eu havia encontrado na casa de Am alia.
Interrom pi bruscam ente seu discurso, e ele ficou desorientado por um
instante, de olhos arregalados e lábios entreabertos. Depois, em burrado, exam inou longam ente a peça de roupa. Mas enxergava pouco ou nada sem óculos: fez aquilo só para se acalm ar depois do ataque de fúria e passar um a aparência de controle.
Não — respondeu —, nunca tive um a cam isa assim . Contei que a havia encontrado na casa de Am alia entre as roupas suj as.
Foi um erro.
De quem é? — quis saber ele, voltando a ficar agitado, com o se eu não
estivesse tentando descobrir a m esm a coisa.
Tentei explicar que eu não sabia, m as foi inútil. Ele devolveu a cam isa
com o se a j ulgasse infectada e recom eçou a criticar im placavelm ente a irm ã.
Ela sem pre fez isso — voltou a disparar, furioso, em dialeto. — Lem bra
da história das frutas que ela recebia em casa, de graça, todos os dias? Era um m istério: ela não sabia nada a respeito. E o livro de poesia com a dedicatória? E as flores? E os sfogliatelle diariam ente às oito em ponto? E o vestido, você se lem bra dele? Será que não se lem bra de nada? Quem com prou aquele vestido, do tam anho dela certinho? Ela afirm ava que não sabia de nada. Mas usou o vestido para sair, às escondidas, sem dizer ao seu pai. Explique-m e você por que ela fez isso.
Percebi que ele continuava a considerá-la sutilm ente am bígua, com o
Am alia sabia ser até m esm o quando m eu pai a pegava pelo pescoço, deixando hem atom as em form a de dedos. Para nós, filhas, ela dizia: “Ele é assim . Não sabe o que faz e eu não sei o que dizer a ele.” Mas nós, por outro lado, pensávam os que ele, por tudo o que fazia com ela, devia sair de casa um a m anhã e m orrer queim ado ou esm agado ou afogado. Pensávam os isso e sentíam os ódio dela, por ser o com bustível daqueles pensam entos. Quanto a isso, não tínham os dúvidas, e eu não esquecera.
Eu não esquecera nada, m as tam bém não queria lem brar. Se
necessário, podia contar tudo a m im m esm a, nos m ínim os detalhes, m as para quê? Contava-m e apenas o que servia de acordo com a situação, decidindo a cada instante, conform e a necessidade. Naquele m om ento, por exem plo, eu via os pêssegos pisoteados no chão, as rosas sendo m arteladas dez, vinte vezes contra a m esa da cozinha com as pétalas verm elhas voando pelos ares e caindo por toda parte, os caules espinhentos ainda em brulhados em papel-alum ínio, os doces atirados pela j anela, o vestido queim ado no fogão. Sentia o cheiro nauseante que em ana de um tecido quando alguém deixa, distraído, o ferro quente em cim a dele, e estava com m edo.
Não, vocês não se lem bram nem sabem de nada — disse m eu tio,
com o se eu representasse ali, naquele m om ento, tam bém m inhas duas irm ãs.
E quis m e obrigar a lem brar: sabíam os que m eu pai com eçara a bater
nela só quando quis desistir de Caserta e dos retratos para os am ericanos e ela se opôs? Não era assunto para Am alia se m eter. Mas ela tinha o vício de se m eter em tudo, sem pensar. Meu pai tinha criado um a cigana que dançava nua. Mostrou o desenho a um suj eito que com andava um a rede de am bulantes que percorriam as ruas da cidade e da província vendendo cenas cam pestres e m arinhas. O suj eito, que se cham ava Migliaro e sem pre arrastava consigo um filho de dentes tortos, considerou que seria um sucesso no consultório dos m édicos e dentistas. Disse-lhe que, por aquelas ciganas, estava disposto a pagar um a porcentagem m uito m ais alta do que a de Caserta. Mas Am alia foi contra, não queria que m eu pai deixasse Caserta, não queria que ele pintasse ciganas, não queria nem m esm o que ele as m ostrasse a Migliaro.
Vocês não se lem bram e não sabem — repetiu tio Filippo, rancoroso
pela m aneira com o haviam passado aqueles tem pos que lhe pareciam bons: evaporando sem dar os frutos prom etidos.
Perguntei-lhe então que fim havia levado Caserta depois da ruptura
com m eu pai. Passaram por seus olhos m uitas respostas furiosas possíveis. Depois ele decidiu deixar de lado as m ais violentas e afirm ou, com orgulho, que tinham dado a Caserta o que ele m erecia.
Você contou tudo ao seu pai. Ele ligou para m im , e saím os para m atá-
lo. Se tivesse tentado reagir, nós o teríam os realm ente m atado.
Tudo. Eu. Não gostei daquela alusão e não quis saber quem era o
“você” que ele havia m encionado. Apaguei qualquer som que fizesse as vezes do m eu nom e, com o se não fosse possível, de nenhum m odo, se referir a m im . Ele m e olhou com ar interrogativo e, ao m e ver im passível, balançou novam ente a cabeça em desaprovação.
Você não se lem bra de nada — voltou a repetir m eu tio, desconsolado. E passou a m e contar sobre Caserta. Depois do ocorrido, Caserta ficara
assustado e entendera o recado. Vendera um bar-confeitaria m eio falido que era do pai, e fora em bora do bairro com a m ulher e o filho. Depois de um tem po, houve boatos de que se tornara receptador de rem édios roubados. Na sequência, disseram que havia investido o dinheiro obtido com tráfico em um a gráfica. Estranho, porque ele não era tipógrafo. A hipótese do tio Filippo era a de que ele im prim ia capas para discos falsificados. De qualquer m aneira, a certa altura, um incêndio destruiu a gráfica, e Caserta passou um tem po internado por causa das queim aduras que sofreu nas pernas. Desde então, tio Filippo não soubera de m ais nada. Alguns achavam que Caserta ficara rico com o dinheiro do seguro e fora m orar em outra cidade. Outros diziam que, depois daquelas queim aduras, passara de m édico em m édico sem nunca receber alta: não pelo ferim ento nas pernas, m as pelos parafusos a m enos na cabeça. Sem pre fora um hom em estranho: diziam que, ao envelhecer, foi se tornando cada vez m ais. E isso era tudo. Tio Filippo não sabia de m ais nada sobre Caserta.
Perguntei qual era o nom e de batism o dele: eu havia procurado na lista
telefônica, m as existiam Casertas dem ais.
Não ouse procurá-lo — ordenou, novam ente raivoso. Não estou procurando por Caserta — m enti. — Quero ver Antonio,
filho dele.
Brincávam os j untos quando eu era criança.
Não é verdade. Você quer ver Caserta.
Vou perguntar ao m eu pai — ocorreu-m e dizer. Ele m e olhou
espantado, com o se eu fosse Am alia.
Você está fazendo isso de propósito — m urm urou. E acrescentou
baixinho: — Nicola. Ele se cham ava Nicola. Mas não adianta procurar na lista telefônica: Caserta é um apelido. O sobrenom e verdadeiro está em algum lugar na m inha cabeça, m as não m e lem bro.
Pareceu realm ente se concentrar para m e agradar, m as depois cedeu,
abatido.
Chega, volte para Rom a. Se você realm ente tem intenção de ver seu
pai, pelo m enos não m encione essa cam isa. Mesm o hoj e, ele m ataria sua m ãe por algo assim .
Ele não pode fazer m ais nada a ela — lem brei-lhe. Mas m eu tio
perguntou, com o se não tivesse ouvido:
Quer m ais um pouco de café?