Um Amor Incômodo

Elena Ferrante · Capítulo 11 de 26

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Um Amor Incômodo

Capítulo 11

Parados no caos da Via Salvator Rosa, descobri que não sentia m ais

sim patia algum a pela cidade de Am alia, pelo idiom a em que ela falava com igo, pelas ruas que eu havia percorrido quando garota, pelas pessoas. Quando, a certa altura, surgiu na paisagem um a nesga de m ar (a m esm a que, durante a infância, m e entusiasm ava), pareceu-m e papel de seda violeta colado em um a parede rachada. Percebi que estava perdendo m inha m ãe para sem pre e que era exatam ente aquilo que eu queria.

A loj a das irm ãs Vossi ficava na Piazza Vanvitelli. Quando garota, eu

costum ava parar na frente das vitrines sóbrias, com vidros grossos em m olduras de m ogno. A entrada tinha um a velha porta com a m etade superior de vidro e, acim a do batente, estavam gravados os três Vs e a data de fundação: 1948. Atrás do vidro, que era opaco, eu não sabia o que existia: nunca tive a necessidade de verificar nem o dinheiro para fazê-lo. Parei m uitas vezes do lado de fora sobretudo porque gostava da vitrine de canto, onde as roupas para senhoras ficavam casualm ente apoiadas sob um a pintura que eu não era capaz de datar, m as que com certeza fora obra de um a m ão talentosa. Duas m ulheres, cuj os perfis quase se sobrepunham de tão próxim as que estavam , em penhadas em fazer os m esm os m ovim entos, corriam com a boca escancarada da direita para a esquerda da tela. Não era possível saber se estavam seguindo alguém ou se eram seguidas. A im agem parecia ter sido arrancada de um cenário m uito m ais am plo, de m aneira que não era possível ver a perna esquerda das m ulheres, e seus braços estendidos apareciam cortados na altura dos pulsos. Meu pai, que sem pre tinha críticas sobre tudo o que havia sido pintado ao longo dos séculos, tam bém gostava dela. Inventava autorias estapafúrdias fingindo ser um especialista, com o se todas nós não soubéssem os que ele não havia frequentado escolas de nenhum tipo, que sabia pouco ou nada de arte e que era capaz de pintar, dia e noite, apenas suas ciganas. Quando estava anim ado e disposto a se exibir m ais do que de costum e para as filhas, chegava até a atribuí-la a si m esm o.

Fazia pelo m enos vinte anos que eu não tinha a oportunidade de subir a

colina, de ir a esse local a poucos passos do castelo de San Martino que eu lem brava com o sendo diferente do resto da cidade, fresco e lim po. Logo m e irritei. A praça m e pareceu m udada, com esparsos plátanos m irrados, devorada pela lataria dos carros e encoberta por andaim es de ferro pintados de am arelo. No centro da praça de antigam ente, eu tinha lem branças de palm eiras que m e pareciam altíssim as. Restara apenas um a, anã, doente, cercada pelas barreiras cinza das obras em andam ento. Além disso, não encontrei a loj a à prim eira vista. Seguida por m eu tio, que continuava por conta própria a briga com os passageiros do ônibus, em bora o episódio tivesse acontecido um a hora antes, dei um a volta naquele espaço em poeirado, barulhento, bom bardeado por britadeiras e buzinas, sob as nuvens de um céu que parecia querer chover, m as não conseguia. Finalm ente, parei diante de m anequins de m ulheres carecas usando calcinha e sutiã, dispostos propositalm ente em poses audaciosas, m uitas vezes vulgares. Entre espelhos, m etais dourados e m ateriais com cores elétricas, tive dificuldade em reconhecer os três Vs na parte superior da porta, a única coisa que havia perm anecido idêntica. Nem o quadro de que eu gostava continuava lá.

Olhei para o relógio: dez e quinze. O vaivém era tal que toda a praça —

prédios, colunatas cinza-arroxeadas, nuvens de sons e poeira — parecia um carrossel. Tio Filippo deu um a olhada nas vitrines e logo se virou para o outro lado, constrangido: excesso de pernas abertas, excesso de seios volum osos; m aus pensam entos o acom etiam . Disse que m e esperaria na esquina e pediu que eu não dem orasse. Pensei que eu não havia pedido para ele m e seguir até ali e entrei.

Sem pre im aginei que a parte interna da Vossi ficasse im ersa na

penum bra e fosse habitada por três gentis senhoras com vestidos com pridos, colares de pérolas no pescoço e cabelos em coques presos com gram pos antiquados. Encontrei, porém , um am biente fastosam ente ilum inado, clientes barulhentas, m anequins vestidos com robes de cetim , cam isetas m ulticoloridas, shortinhos de seda, balcões e m esinhas que sobrecarregavam o am biente de m ercadorias, vendedoras m uito j ovens com m aquiagem pesada, todas usando uniform e cor de pistache m uito apertado e com os três Vs bordados no peito.

Esta é a loj a das irm ãs Vossi? — perguntei a um a delas, a que tinha

aparência m ais gentil, talvez desconfortável em seu uniform e.

É, sim . Posso aj udá-la?

Eu poderia falar com um a das senhoras Vossi? A garota m e olhou,

perplexa.

Não estão m ais aqui — disse.

Morreram ?

Não, acho que não. Elas se aposentaram .

Venderam a loj a?

Estavam idosas, venderam tudo. Tem os um a nova adm inistração agora,

m as a m arca é a m esm a. A senhora é cliente antiga?

Minha m ãe — respondi, e com ecei a tirar lentam ente da sacola de

plástico que eu havia levado com igo as roupas íntim as, o robe, os dois vestidos e as cinco calcinhas que encontrei na m aleta de Am alia, pondo tudo em cim a do balcão. — Acho que ela com prou tudo isto aqui.

A vendedora olhou com atenção.

A m ercadoria é nossa — confirm ou com ar interrogativo. Percebi que, com base na idade que eu aparentava, ela estava tentando

calcular a da m inha m ãe.

Vai fazer sessenta e três anos em j ulho — falei. Depois ocorreu-m e

m entir: — Não eram para ela. Eram presentes para m im , para o m eu aniversário. Fiz quarenta e cinco anos no últim o 23 de m aio.

Parece ter pelo m enos quinze a m enos — disse a m oça, esforçando-se

para fazer seu trabalho.

Expliquei em um tom cativante:

São peças bonitas, do m eu gosto. Só que esse vestido m e aperta um

pouco, e as calcinhas estão um pouco j ustas.

Gostaria de trocar? Precisam os da notinha.

Não tenho a notinha. Mas foram com prados aqui. Não se lem bra da m inha m ãe?

Não sei. Por aqui passam tantas pessoas.

Dei um a olhada nas pessoas a que a vendedora havia aludido: m ulheres

falando alto em um dialeto cheio de alegria forçada, rindo ruidosam ente e cobertas de j oias preciosíssim as, saíam dos provadores só de calcinha e sutiã ou em pequenos m aiôs dourados, prateados ou com estam pas de leopardo, ostentando um excesso de carne sulcada por estrias e perfurada de celulites, contem plando o púbis e as nádegas, erguendo os seios com as m ãos em concha, ignorando as vendedoras e se dirigindo naquelas poses a um hom em que parecia um a espécie de leão de chácara, bem -vestido e bronzeado, posicionado ali j ustam ente para canalizar o fluxo de dinheiro delas e am eaçar com os olhos as vendedoras ineficientes.

Não era a clientela que eu havia im aginado. Pareciam m ulheres cuj os

m aridos haviam enriquecido de repente e com facilidade, arrem essando-as em um luxo provisório do qual eram obrigadas a desfrutar, e cuj a subcultura era com o porões úm idos e lotados, com histórias em quadrinhos sem ipornográficas, com obscenidades usadas com o bordão. Eram m ulheres forçadas a ficar em um a cidade-prisão, corrom pidas antes pela m iséria e agora pelo dinheiro, sem interrupção. Ao vê-las e ouvi-las, percebi que estava ficando im paciente. Elas se com portavam diante daquele hom em da m aneira com o m eu pai im aginava que as m ulheres se com portavam , da m aneira com o ele im aginava que a própria esposa se com portava assim que ele dava as costas, da m aneira com o tam bém Am alia talvez tivesse sonhado se com portar durante toda a vida: um a m ulher do m undo que se curva sem ser obrigada a pressionar dois dedos no centro do decote, que cruza as pernas sem prestar atenção na saia, que ri vulgarm ente, que se cobre de obj etos preciosos, que se derram a, de corpo inteiro, em ofertas sexuais contínuas e indiscrim inadas, com petindo abertam ente com os hom ens na arena das obscenidades.

Não m e contive e fiz um a careta m al-hum orada. Falei: É da m inha altura, apenas com alguns cabelos brancos. Mas o penteado

é antiquado, ninguém se penteia m ais daquele j eito. Veio acom panhada de um hom em de uns setenta anos, porém bem -apessoado, m agro, com um a vasta cabeleira toda branca. Um belo casal... Deve se lem brar deles, com praram tudo isso.

A vendedora balançou a cabeça. Não se lem brava. Passa m uita gente aqui — insistiu ela. Depois olhou para o leão de

chácara, preocupada com o tem po que estava perdendo, e m e sugeriu: — Experim ente. Parecem ser do seu tam anho. Se o vestido está j usto...

Eu gostaria de falar com aquele senhor... — arrisquei. A vendedora m e em purrou em direção a um a cabine, angustiada por

aquele pedido recém -esboçado.

Se não tem certeza em relação às calcinhas, escolha outro m odelo...

Farem os um desconto — propôs.

E então m e vi dentro de um cubículo cheio de espelhos retangulares. Suspirei, cansada, e tirei o vestido do funeral. Eu tolerava cada vez

m enos a tagarelice frenética das clientes, que, ali dentro, ao invés de atenuada, parecia am plificada. Depois de um segundo de incerteza, tirei tam bém a calcinha da m inha m ãe que eu vestira na noite anterior e pus a de renda que havia encontrado na bolsa de Am alia. Era exatam ente do m eu tam anho. Perplexa, passei um dedo ao longo do rasgo no quadril que m inha m ãe provavelm ente havia causado ao vesti-la e, depois, enfiei pela cabeça o vestido cor de ferrugem . Ficava cinco centím etros acim a dos m eus j oelhos e era decotado dem ais. Mas não estava nem um pouco j usto; pelo contrário, deslizava pela m inha tensa e m usculosa m agreza, suavizando-a. Saí da cabine puxando o vestido para o lado, olhando para a batata da perna e dizendo em voz alta:

Olha só. Com o você pode ver, o vestido está j usto aqui do lado... E

tam bém é curto dem ais.

Ao lado da j ovem vendedora, porém , estava o tal hom em , um suj eito

de uns quarenta anos com bigodes pretos, pelo m enos vinte centím etros m ais alto do que eu, costas e tórax largos. Tinha traços e corpo inchados, am eaçadores; só que o olhar não era antipático, m as vivaz, fam iliar. Em um italiano digno da televisão, m as sem gentileza, sem som bra da consenciente cum plicidade que dem onstrava com as outras clientes e com visível dificuldade para m e tratar com form alidade, disse:

Ficou m uito bem na senhora, não está nem um pouco apertado. O

m odelo é assim m esm o.

É j ustam ente o m odelo que não m e convence m uito. Foi m inha m ãe

que o escolheu sem m im e...

Fez um a ótim a escolha. Fique com o seu vestido e aproveite. Observei-o por um segundo, em silêncio. Senti que queria fazer algo

contra ele ou contra m im m esm a. Dei um a olhada nas outras clientes. Ergui o vestido até os quadris e m e virei para um dos espelhos.

Olhe a calcinha — falei, apontando para o espelho —, está apertada. O

hom em não m udou de expressão nem de tom .

Bem , não sei o que dizer, a senhora nem tem a notinha — disse ele. Olhei m inhas pernas m agras e nuas no espelho: puxei o vestido para

baixo, sem graça. Recolhi o vestido velho e as calcinhas, enfiei tudo na sacola e procurei no fundo a capinha de plástico com a identidade de Am alia.

O senhor deve se lem brar da m inha m ãe — tentei novam ente, pegando

o docum ento e o abrindo diante de seus olhos.

O hom em deu um a olhada rápida e pareceu perder a paciência. Passou

para o dialeto.

Minha cara senhora, aqui não podem os perder tem po — disse e m e

devolveu o docum ento.

Só estou pedindo...

Não trocam os m ercadoria vendida.

Só estou pedindo...

Ele avançou para um leve toque no m eu om bro. Você está brincando? Veio aqui para brincar?

Não ouse tocar em m im ...

Não, você só pode estar brincando... Vam os, pegue suas coisas e sua

carteira de identidade. Quem m andou você? O que você quer? Diga a quem m andou você aqui para vir se entender com igo pessoalm ente. Depois a gente vê com o fica! Aliás, este é o m eu cartão de visita: Antonio Polledro, nom e, endereço e núm ero de telefone. Podem m e encontrar aqui ou em casa. Está bem ?

Era um tom que eu conhecia m uito bem . Logo em seguida, com eçaria

a m e em purrar com m ais força e, depois, a m e bater sem levar em consideração se eu era hom em ou m ulher. Arranquei o docum ento das m ãos dele com um desprezo calculado e, para entender o que o deixara tão nervoso, dei um a olhada na foto três por quatro da m inha m ãe. Os cabelos barrocam ente arquitetados sobre a testa e em volta do rosto tinham sido m inuciosam ente raspados no papel. O branco que surgiu em volta da cabeça foi transform ado com um lápis em um cinza nebuloso. Com o m esm o lápis, alguém havia endurecido ligeiram ente os traços do rosto. A m ulher da foto não era Am alia: era eu.