Um Amor Incômodo
Capítulo 13
Talvez eu tenha voltado a m im por causa da chuva no rosto. Ou porque
tio Filippo, de pé ao m eu lado, m e sacudia pelo braço com sua única m ão. O fato é que senti um a espécie de descarga elétrica e m e dei conta de que havia adorm ecido.
Está chovendo — balbuciei enquanto m eu tio continuava a m e sacudir
furiosam ente.
Berrava, apoplético, m as eu não conseguia entender o que dizia. Estava
m e sentindo fraca e assustada, não conseguia m e levantar. As pessoas chegavam correndo em busca de abrigo. Os hom ens gritavam ou davam gargalhadas e, apressados, esbarravam perigosam ente na m esinha. Fiquei com m edo de que m e derrubassem . Um deles atirou a um m etro de distância a cadeira que pouco antes estivera ocupada por tio Filippo.
Que tem po m aravilhoso! — disse e entrou no bar. Tentei m e levantar, achando que m eu tio quisesse m e puxar para cim a.
Mas ele largou m eu braço, cam baleou em m eio às pessoas e correu gritando insultos m irabolantes na beirada da calçada, indicando com o braço estendido o outro lado da rua, atrás dos carros e ônibus engarrafados sobre os quais a chuva tam borilava.
Levantei-m e arrastando a sacola e a bolsa. Queria ver com quem ele
estava tão furioso, m as o tráfego criava um m uro com pacto de latarias, e a chuva caía cada vez m ais forte. Deslizei, então, ao longo da parede do edifício para evitar m e m olhar e ao m esm o tem po encontrar um a brecha entre os ônibus e os carros parados. Quando consegui, vi Caserta na m ancha verm elha da Upim . Andava quase totalm ente recurvado, m as depressa, virando-se o tem po todo para trás com o se tem esse estar sendo perseguido. Esbarrava nos transeuntes, m as parecia nem se dar conta e não dim inuía o passo: curvo, com os braços balançando, a cada encontrão dava um a pirueta, m as não parava, com o um a silhueta presa a um eixo que, graças a um m ecanism o secreto, deslizava depressa pela calçada. De longe, parecia que estava cantando e dançando, m as talvez estivesse apenas praguej ando, gesticulando.
Com ecei a apertar o passo para não perdê-lo de vista, m as, com o todos
os pedestres estavam am ontoados nos portões, nos átrios das loj as ou sob cornij as e sacadas, para m e m exer com m ais velocidade fui obrigada a abandonar qualquer tentativa de abrigo e ficar descoberta, sob a chuva. Vi Caserta saltar para desviar de plantas e vasos de flores expostos por um florista na calçada. Não conseguiu, tropeçou, acabou batendo no tronco de um a árvore. Parou um instante com o se estivesse colado à casca, depois se afastou e voltou a correr. Tem ia sabe-se lá o quê. Im aginei que tivesse visto m eu tio e fugido. Talvez os dois velhos estivessem reproduzindo, com o que por brincadeira, um a cena j á vivida quando j ovens: um seguia, o outro fugia. Pensei que fossem brigar na calçada m olhada, tom bando ora para um lado, ora para o outro. Eu não sabia bem com o reagiria, o que teria feito.
No cruzam ento da Via Scarlatti com a Via Luca Giordano, percebi que
o havia perdido. Procurei por tio Filippo, m as tam bém não o vi. Então, atravessei a Via Scarlatti, que havia se tornado um longo ponto de interrogação de veículos parados, até a Piazza Vanvitelli, e com ecei a voltar correndo pela outra calçada até a prim eira transversal. Estava trovoando sem raios visíveis, e as trovoadas soavam com o rasgos em um tecido. Vi Caserta no final da Via Merliani, chicoteado pela chuva sob o m etal azul e verm elho de um grande letreiro, encostado no m uro branco do parque de Villa Floridiana. Corri atrás dele, m as um j ovem saiu bruscam ente do abrigo de um portão, agarrou m eu braço, rindo, e disse em dialeto:
Por que tanta pressa? Venha aqui que eu enxugo você. O tranco foi tão forte que senti dor na clavícula e escorreguei com a
perna esquerda. Só não caí porque bati em um a caçam ba de lixo. Recobrei o equilíbrio e m e libertei com força, gritando, para m inha própria surpresa, insultos em dialeto. Quando eu tam bém cheguei ao m uro do parque, Caserta estava quase no fim da rua, a poucos m etros da estação do funicular em restauração.
Parei com o coração na boca. Ele avançava, sem correr, ao longo da
fila de plátanos, entre os carros estacionados à direita. Andava com dificuldade, sem pre curvo, com um a resistência nas pernas surpreendente para um hom em daquela idade. Quando parecia não aguentar m ais, apoiou-se ofegante nos tapum es de um canteiro de obras. Eu o vi se contorcer; naquela posição, parecia que, da sua cabeça branca, estivesse saindo o andaim e em que estava preso o cartaz: “Obras de dem olição e reconstrução da estação de Piazza Vanvitelli — Funicular de Chiaia.” Eu tinha certeza de que ele não teria m ais forças para sair dali, então algo voltou a alarm á-lo. O hom em bateu com as costas na parede de tapum es da obra com o se quisesse derrubá-la e escapar através da fenda. Olhei para a esquerda a fim de ver quem o assustava tanto: esperava que fosse m eu tio. Não era. Sob a chuva, saindo da Via Bernini, vinha correndo Polledro, o hom em da loj a Vossi. Gritava algo para ele, ora gesticulando para que parasse, ora apontando na sua direção de m aneira am eaçadora, com a m ão toda aberta.
Caserta saltitou de um pé para outro, olhando à sua volta em busca de
um a via de escape. Parecia ter decidido voltar pela Via Cim arosa, m as m e viu. Então parou de se agitar, arrum ou os cabelos branquíssim os e, de repente, pareceu pronto a enfrentar tanto Polledro quanto a m im . Deslizou com as costas ao longo dos tapum es da obra, depois em um carro estacionado. Tam bém voltei a correr só para ver Polledro se m ovim entar com o se estivesse patinando sobre o cinza m etálico do calçam ento, um a figura m aciça, porém ágil, contra o andaim e de barras de ferro am arelas na entrada da Piazza Vanvitelli. Foi quando m eu tio reapareceu. Despontou de um a lanchonete onde devia ter buscado abrigo. Vira-m e chegar e estava correndo na m inha direção em pertigado, com passinhos velozes sob a chuva. O hom em da Vossi surgiu na frente dele de repente, e os dois acabaram se chocando. Depois da trom bada, abraçaram - se, tentando aj udar-se a ficar em pé e, então, giraram j untos em busca de um ponto de equilíbrio. Caserta aproveitou para m ergulhar na luz branca da Via Sanfelice, sob um a chuva cintilante, em m eio à m ultidão que procurava abrigo na entrada do funicular.
Eu reuni o pouco de energia que m e restava e corri atrás dele, em um
am biente abafado pela respiração das pessoas, enlam eado de chuva, cinzento de cal. O funicular estava prestes a partir, e os passageiros em purravam uns aos outros na direção das m áquinas de validação dos bilhetes. Caserta j á estava m ais à frente e descia os degraus, m as parava com frequência, esticando o pescoço a fim de olhar para trás e, depois, aproxim ando de repente o rosto averm elhado de quem estivesse cam inhando ao seu lado para sussurrar algum a coisa. Ou então falava sozinho, m as com um a voz que se esforçava para m anter baixa, agitando o braço direito para cim a e para baixo com três dedos bem esticados e o polegar e o indicador unidos. Por alguns segundos, esperava inutilm ente um a resposta. Em seguida, recom eçava a descer.
Com prei o bilhete e tam bém m e precipitei para os dois vagões
am arelos e lum inosos. Não consegui ver em qual dos dois ele havia entrado. Segui até a m etade do segundo vagão sem conseguir rastreá-lo, depois decidi entrar tentando abrir passagem pela m ultidão. O ar estava pesado e com um odor de suor e tecido m olhado. Olhei à m inha volta, em busca de Caserta. Vi, porém , Polledro, que descia os degraus de dois em dois, seguido por m eu tio, que gritava sei lá o que para ele. Só tiveram tem po de entrar no prim eiro vagão antes de as portas se fecharem . Poucos segundos depois, eles apareceram atrás do vidro retangular que dava para o m eu vagão: o hom em da loj a Vossi olhava em volta, furioso, e m eu tio o puxava pelo braço. O funicular partiu.