Um Amor Incômodo

Elena Ferrante · Capítulo 12 de 26

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Um Amor Incômodo

Capítulo 12

Saí arrastando m inha bagagem pela rua. Percebi que ainda estava com

a carteira de identidade na m ão e a pus de volta na capinha de plástico, deixando m ecanicam ente o cartão de visita de Polledro lá dentro tam bém . Joguei tudo na bolsa e olhei à m inha volta, transtornada, m as contente pelo fato de tio Filippo realm ente ter ficado m e esperando na esquina.

Logo m e arrependi. Ele arregalou os olhos e escancarou a boca,

m ostrando-m e os poucos dentes com pridos e am arelados pela nicotina. Estava perplexo, m as a reação estava se transform ando rapidam ente em contrariedade. Não consegui entender logo de cara o m otivo. Depois percebi: era o vestido que eu estava usando. Esforcei-m e para sorrir, certam ente para aplacá-lo, m as tam bém para m e livrar da im pressão de ter perdido o controle do m eu rosto, de ter um rosto que era a adaptação do de Am alia.

Não ficou bem em m im ? — perguntei.

Ficou — respondeu ele em burrado, claram ente m entindo. E então?

Enterram os sua m ãe ontem — protestou um pouco alto dem ais. Pensei em revelar, só para aborrecê-lo, que o vestido era j ustam ente

de Am alia, m as consegui, a tem po, prever que seria eu a ficar aborrecida: ele certam ente recom eçaria a falar m al da irm ã.

Eu estava abatida dem ais e quis m e dar um presente — disse-lhe. Vocês, m ulheres, se deixam abater m uito facilm ente — desabafou,

esquecendo, com aquele “m uito facilm ente”, o que havia acabado de m e lem brar: de que tínham os, havia pouco tem po, enterrado m inha m ãe, e que eu tinha um bom m otivo para estar abatida.

Por outro lado, eu não estava nem um pouco abatida. Estava sentindo

com o se eu tivesse m e deixado em um lugar e não conseguisse m ais m e achar: eu estava afoita, ou sej a, com os m ovim entos rápidos dem ais e pouco coordenados, a pressa de quem revista tudo e não tem tem po a perder. Pensei que um chá de cam om ila m e faria bem e em purrei tio Filippo para dentro do prim eiro bar que encontram os na Via Scarlatti, enquanto ele com eçava a falar da sua m ulher, que, j ustam ente, vivia triste: austera, m uito trabalhadora, cuidadosa, organizada, m as triste. No entanto, aquele lugar fechado teve o efeito de um chum aço de algodão enfiado na m inha boca. O cheiro intenso de café e as vozes altas dem ais dos clientes e atendentes m e im peliram de volta para a saída enquanto m eu tio j á gritava, com a m ão no bolso interno do paletó:

Eu pago!

Sentei-m e a um a m esa na calçada, em m eio ao guincho de freios, ao

cheiro de chuva im inente e de gasolina, aos ônibus superlotados a passo de tartaruga e às pessoas que passavam correndo, esbarrando na m esinha.

Eu pago — repetiu tio Filippo m ais baixo, em bora ainda nem

tivéssem os feito o pedido e eu duvidasse que um garçom fosse aparecer em algum m om ento.

Depois aprum ou-se na cadeira e com eçou a elogiar a si m esm o: Sem pre tive um caráter enérgico. Sem dinheiro? Sem dinheiro. Sem braço? Sem braço. Sem m ulheres? Sem m ulheres. O essencial são a boca e as pernas: para falar quando tiver vontade e para ir aonde quiser. Tenho razão ou não?

Tem .

Sua m ãe tam bém é assim . Som os um a raça que não desanim a. Quando

pequena, ela vivia se m achucando, m as não chorava. Mam ãe havia nos ensinado a assoprar a ferida e a repetir: “Vai passar.” Mesm o quando, trabalhando, se furava com a agulha, ela m anteve o costum e de dizer “vai passar”. Um a vez, a agulha da Singer perfurou a unha do seu indicador e saiu do outro lado, subindo e entrando de novo três ou quatro vezes. Bem , ela bloqueou o pedal e, em seguida, deixou-o subir apenas o suficiente para extrair a agulha, enfaixou o dedo e voltou a trabalhar. Nunca a vi triste.

Foi tudo o que escutei. Parecia que eu estava afundando até a nuca na

vitrine atrás de m im . Até o verm elho da parede da loj a Upim na m inha frente parecia tinta fresca, recém - aplicada. Deixei que os ruídos da Via Scarlatti se tornassem altos a ponto de abafar a voz do m eu tio. Vi seus lábios se m exendo, de perfil, sem som : pareciam de borracha, m ovidos por dois dedos pelo lado de dentro. Ele tinha setenta anos e nenhum m otivo para estar satisfeito consigo m esm o, m as fazia um esforço para tal, e talvez realm ente ficasse quando com eçava aquela tagarelice incessante que os m ovim entos im perceptíveis dos lábios articulavam velozm ente. Por um instante, pensei horrorizada nos hom ens e m ulheres com o organism os vivos, e im aginei um buril nos polindo com o silhuetas de m arfim , reduzindo-nos até ficarm os sem furos e sem excrescências, todos idênticos e sem identidade, nenhum conj unto de características som áticas, nenhum a calibragem das pequenas diferenças.

O dedo ferido da m inha m ãe, furado pela agulha quando ela não tinha

nem dez anos, era m ais fam iliar a m im do que m eus próprios dedos, graças j ustam ente àquele detalhe. Era roxo, e a unha parecia afundar na altura da cutícula. Quis durante m uito tem po lam bê-lo e chupá- lo, m ais do que os seus m am ilos. Talvez ela tenha deixado quando eu ainda era m uito pequena, sem se esquivar. Na ponta do dedo, havia um a cicatriz branca: a ferida infeccionara, fora lancetada. Eu sentia ali em volta o cheiro da velha Singer, com aquele form ato de anim al elegante, m eio cão m eio gato, o cheiro da correia de couro puída que transm itia o m ovim ento do pedal do volante grande até o pequeno, a agulha que subia e descia pelo focinho do anim al, o fio que corria pelas suas narinas e orelhas, o carretel que girava no perno fincado em seu dorso. Sentia o sabor do óleo usado para lubrificá-la, a pasta negra de graxa m isturada à poeira que eu raspava com a unha e com ia escondida. Eu planej ava furar m inha unha tam bém para que ela entendesse que era perigoso se recusar a m e dar o que eu não tinha.

Havia histórias dem ais sobre as diferenças infinitas e m inúsculas que a

tornavam inatingível, e que, j untas, faziam de Am ália um ser desej ado no m undo exterior com pelo m enos a m esm a intensidade com que eu a desej ava. Houve um tem po em que im aginei arrancar com um a m ordida aquele seu dedo excepcional porque eu não tinha coragem de oferecer o m eu próprio à boca da Singer. Tudo dela que não m e fora concedido eu queria apagar do seu corpo.

Assim nada m ais seria perdido ou dispersado longe de m im , porque finalm ente tudo j á teria sido perdido.

Agora que estava m orta, alguém havia raspado seus cabelos e

deform ado seu rosto para adaptá-lo ao m eu corpo. Aquilo acontecia depois de eu ter desej ado elim inar, durante anos, por ódio, por m edo, todas as m inhas raízes vindas dela, até as m ais profundas: seus gestos, suas entonações, a m aneira de pegar um copo ou de beber de um a xícara, o j eito de vestir um a saia com o se fosse um vestido, a ordem dos obj etos na cozinha, nas gavetas, o m odo de lavar as partes m ais íntim as, os gostos alim entares, as repulsas, os entusiasm os, e, enfim , o idiom a, a cidade, os ritm os da respiração. Tudo refeito, para que eu pudesse m e tornar eu m esm a e m e desligar dela.

Por outro lado, eu não quis ou não consegui enraizar ninguém em m im .

Mais algum tem po e perderei até a possibilidade de ter filhos. Nenhum ser hum ano j am ais se desligaria de m im com a m esm a angústia com que m e desliguei da m inha m ãe apenas porque nunca consegui m e apegar a ela definitivam ente. Não haveria nenhum m ais ou nenhum m enos entre m im e outro ser feito de m im . Eu perm aneceria sendo eu até o final, infeliz, insatisfeita com aquilo que arrastara furtivam ente para fora do corpo de Am alia. Pouco, dem asiadam ente pouco, o butim que eu conseguira tom ar, arrancando-o do seu sangue, do seu ventre e do seu fôlego para esconder no m eu corpo, na m atéria caprichosa do m eu cérebro. Insuficiente. Que m aquiagem ingênua e descuidada tinha sido essa tentativa de definir o “eu” com o essa fuga forçada de um corpo de m ulher, em bora eu tivesse levado com igo m enos do que nada! Eu não era nenhum eu. E estava confusa: não sabia se o que eu estava descobrindo e contando para m im m esm a, agora que ela não existia m ais e não podia retrucar, m e causava m ais horror ou prazer.