Um Defeito de Cor
Capítulo sete
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
que dormíssemos quando o dia já estava amanhecendo, poucas horas antes de o Suleimane chamá-las a pedido do mala Abubakar.
Eu também me levantei e fui para a oficina de fumo, na esperança de que alguns dos homens fossem trabalhar, mesmo sendo domingo, e me contassem o que tinha acontecido. Eles só apareceram depois da hora do almoço, e provavelmente estiveram dormindo até então.
O que ouvi foi muito silêncio e pedaços de conversa que não me levaram a conclusão alguma, e só fiquei sabendo de toda a história no fim do dia seguinte, quando o Fatumbi apareceu em casa para perguntar sobre a quantidade de barretes prontos, pois o mala Abubakar tinha antecipado a rebelião.
À reunião na mesquita, ou no machacali, como a chamavam, tinham comparecido todos os principais chefes muçurumins, inclusive alguns do Recôncavo.
Houve um jantar e logo em seguida todos começaram a discutir as atitudes que tomariam em relação à prisão do alufá Licutan, quando foram surpreendidos pela chegada do inspetor de quarteirão. O inspetor, depois de receber uma denúncia que os muçurumins achavam que fora feita por alguns nagôs do povo de santo, falou que não queria saber de confusão de pretos e muito menos de templos pagãos, e mandou que todos fossem para suas casas, tratando-os de maneira muito arrogante. Não se dando por satisfeito, comunicou o fato ao juiz de paz da freguesia da Vitória, que foi conversar com o dono da casa e exigiu que ele tomasse providências.
O inglês, não querendo problemas com as autoridades brasileiras, chamou o James e o Diogo e mandou que eles pusessem abaixo o machacali com a ajuda de alguns dos presentes, o que foi assistido pelos policiais e pelos escravos da casa, que trataram de correr a notícia entre os pretos da Bahia. O fato se espalhou rapidamente e os muçurumins viraram motivo de troça, o que feriu o
orgulho e a dignidade deles, que precisaram reagir logo, antes que a situação desfavorável causasse a debandada dos pretos dispostos a aderir. Por isso o mala Abubakar tinha escolhido uma nova data, que só seria divulgada na véspera. Com esse segredo, eles queriam evitar as delações que tinham posto a perder muitas rebeliões anteriores. Tentei saber mais alguma coisa, mas o Fatumbi não quis falar; disse apenas que em breve todos seriam instruídos a ficar em estado de alerta para uma convocação a qualquer momento.
Os preparativos
Durante todo o mês de dezembro foi intensa a movimentação na loja dos muçurumins, que também estavam se preparando para o Ramadã, e também foi grande o trabalho na oficina de fumo, que recebeu várias encomendas além do que estava programado. As horas do dia pareciam insuficientes para tanto trabalho, que ainda incluía a confecção dos barretes, e foi até bom, porque não tive muito tempo para pensar no que ia acontecer. Do que eu menos gostava era não saber tudo, não saber como ia acontecer, quais os verdadeiros propósitos e os planos para depois que tudo acabasse. A sinhazinha mandou convite para passarmos as festas de Natal com ela e resolvi aceitar, e foi só então que me lembrei da viagem programada para os dias do entrudo.
O doutor José Manoel tinha conseguido um sítio a algumas horas da capital, e sugeri que seu pai nos acompanhasse, depois de contar que continuávamos nos encontrando, pois ele não se dava bem com a esposa.
Para mim, que já tinha planejado não ir, mas sim mandar que todos fossem na frente e me esperassem por lá, a data não tinha tanta importância. Mas quanto antes, melhor, apesar de achar que os muçurumins não adiantariam muito a rebelião, pois ficavam mais recolhidos durante o Ramadã, fazendo orações que não combinavam com guerras. Foram alguns dias de
descontração aqueles de final de ano, que passamos na casa do Tico e do Hilário, participando de batuques que iam até o amanhecer, cercados dos novos amigos deles.
Homens com suas mulheres e filhos, a maioria mascates como os meninos, e alguns considerados muito ricos, que era o que os meninos também estavam se tornando.
Fomos para lá três dias antes da virada do ano, porque a Esméria queria ajudar na preparação das comidas, e no dia primeiro de janeiro visitamos a Adeola, mais conformada com a morte do padre. Ela estava cuidando muito bem das crianças, que naquele momento já eram quase cinqüenta, e disse que se salvara por meio daquele trabalho, que a felicidade das crianças era um santo remédio que Deus tinha enviado para curar as tristezas dela.
Quando voltamos para casa, fomos recebidos com outra novidade que tinha causado mais um desgosto aos muçurumins. Punido por alguma coisa que já não me lembro qual, e por aí se vê que não era nada importante, o mestre Ahuna foi mandado para o Recôncavo, Santo Amaro. Houve grande confusão e novamente foi difícil conter os ânimos dos pretos que queriam fazer a rebelião naquele momento, pois o mestre Ahuna tinha sido bastante humilhado, andando algemado pelas ruas.
Por onde ele passava, os pretos se juntavam em cortejo de despedida, seguindo-o até o cais.
O Fatumbi ficou desconfiado de que as autoridades sabiam de alguma coisa, pois dois dos principais mestres tinham sido afastados das ruas e do contato com seus discípulos. O alufá Licutan continuava preso, sem data marcada para ir a leilão. Embora não soubessem se o envio do mestre Ahuna para o Recôncavo tinha sido apenas coincidência, deram um jeito de esconder os outros mestres, o Dassalú, o Ali, o Dandará, o Nicobé, o Sali e o Calafate, até apurarem o que estava acontecendo.
Só o mestre Sanin não quis se esconder, em consideração ao alufá Licutan, que ele ia visitar na cadeia todos os dias, para levar comida e para que orassem juntos, tão grande era a amizade entre os dois velhos muçurumins. Por outro lado, o mala Abubakar se expunha cada vez mais, atendendo a todos que iam procurá-lo em busca de proteção. Perguntei ao Fatumbi se era por causa da rebelião e ele me disse que não só, mas também porque os espíritos e poderes malignos perdiam as forças durante o Ramadã, e as pessoas aproveitavam para fazer os pedidos que só dependiam do bem.
Eu, você, a Esméria, a Claudina e a Malena ganhamos tiras feitas pelo mala Abubakar, com orações escritas em pequenos pedaços de papel dobrados e colocados dentro de um saquinho de pele de carneiro costurado à mão. No dia em que fui recebê-los, foi a primeira vez em quase dois anos que entrei na loja, e fiquei sentada em um banco encostado à parede, ao lado de várias pessoas que esperavam atendimento. Todo o salão da parte da frente, onde ficava o atendimento da padaria, era destinado ao culto e às aulas, tendo um banco grande de cada lado da mesa, onde os alunos se sentavam, e uma mesa baixa a um canto, onde ficava o mala Abubakar, tendo ao lado o Suleimane, que o ajudava com as mandingas. Logo atrás dos dois, pendurado na parede, havia um quadro com o desenho de uma mesquita de Meca.
De onde eu estava sentada não dava para ver direito a parte de trás da construção, onde tinha funcionado a cozinha da padaria, mas me pareceu que só o lugar onde o mala Abubakar dormia com suas esposas era separado com um pano, e todos os outros dormiam em esteiras espalhadas pelos cantos. Ao lado de algumas esteiras havia caixotes de madeira, que devia ser onde eles guardavam seus pertences.
O mala Abubakar atendia a todos com muita paciência,
ouvia o que tinham a dizer e fazia os encantamentos, que podiam ser no papel ou no quadro de madeira que chamavam de wala. A wala tinha a forma de um retângulo com um cabo em uma das pontas, que era mais estreita, e o mestre escrevia nela usando a tinta feita de arroz queimado. Havia as walas de ensinar e as religiosas, como era o caso da do mala Abubakar, na qual ele escrevia usando letras árabes e desenhos estranhos, que variavam de acordo com o problema da pessoa que estava se consultando. Ele escrevia vinte vezes e depois lavava o encantamento, e então dava a água para a pessoa beber, pois ela ficava impregnada com a baraka do mestre e dos textos religiosos, tendo o poder de realizar curas e de fechar o corpo contra todo tipo de má sorte. Os feitiços também poderiam ser feitos contra os desafetos, e o mestre então enchia a wala com uma oração forte e transferia seu poder para a água das lavagens, que depois deveria ser jogada no caminho por onde o desafeto costumava passar.
Além dos amuletos e das águas com baraka, o mestre também fazia cader-ninhos de orações que protegiam seus donos das más línguas e dos maus desejos, usando apenas as palavras do Alcorão. Conhecendo as rezas e para que elas serviam, qualquer muçurumim podia fazer tais cadernos, mas eles eram muito mais poderosos quando escritos pela mão de um mestre. O Fatumbi disse que cada amuleto ou livrinho era feito com determinada intenção, e por isso os pretos carregavam vários deles. Ele me contou que o muçurumim em cuja casa tínhamos ficado na ocasião da festa do Bonfim, um hauçá chamado Antônio, tinha enriquecido por ter fama de acertar a mão.
Ele vivia de vender amuletos e ganhava o valor diário de quatro ou cinco férias de escravos de ganho, por volta de um mil e quinhentos réis por dia. O mala Abubakar também cobrava por seus trabalhos, mas nós ganhamos nossos amuletos de presente, menos um, que foi
encomendado pela Esméria. Ela não resistiu quando soube que o mala Abubakar também fazia rezas que ajudavam a controlar os ventos, ou iskoki, que é como os hauçás chamam os espíritos que se parecem com os djins, que podem carregar uma série de doenças que precisam ser afastadas. A Esméria tinha medo de ficar com deformações no corpo ou sem poder andar por falta de força nas pernas, tudo por obra dos ventos.
Ganhamos também anéis de metal, que foram distribuídos pela Emerenciana, a mulher do mestre Dandará, iguais aos anéis de prata usados pelos muçurumins, que poderiam ser muito úteis quando tudo terminasse, identificando quem estava do lado deles.
O início do mês de janeiro foi de muita euforia e muito trabalho, e andei léguas e léguas entregando charutos com recados nas lojas dos mestres, e que eram levados aos esconderijos deles por pessoas de confiança. Fui algumas vezes à cadeia, pedir a bênção do alufá Licutan e levar recados do Fatumbi, e ele sempre perguntava pelo mestre Ahuna. Um preto chamado Pompeu tinha ido para o Recôncavo apenas para ficar perto do mestre Ahuna e cuidar para que nada lhe acontecesse, e passava notícias para o Tico, o Hilário ou qualquer conhecido que transitasse a negócio entre as duas cidades. O Aprígio, companheiro de loja do Manuel Calafate, era carregador em um canto na cidade baixa, e enquanto esperava freguês, ficava escrevendo na frente dos outros pretos. Ele tinha percebido que isso chamava a atenção de muitos que se mostravam interessados em aprender, e já tinha conseguido várias adesões com a conversa de que seria bom se os pretos assumissem o poder e pusessem os outros para trabalhar enquanto eles só estudavam.
Por volta do dia vinte de janeiro, chegou recado do mestre Ahuna avisando que dentro de três ou quatro dias estaria de volta a São Salvador, e que tudo deveria estar preparado. Acho que já estava, pois nada alterou o
ritmo de trabalho dos muçurumins da loja. Como eu tinha pedido, fui avisada com antecedência pelo Fatumbi, para que desse um jeito de fazer com que pelo menos a sinhazinha e o Alberto saíssem da cidade, mas com a promessa de que não diria nada sobre a rebelião.
Cheguei à casa da sinhazinha ainda sem saber como justificar uma viagem àquela altura, pois ainda faltava muito tempo para o entrudo. Eu disse que estava muito cansada e precisando de alguns dias de folga imediatamente, pedindo que ela seguisse na frente, levando você, a Malena e a Esméria, deixando-me sozinha para terminar uns compromissos com mais calma. Mas a minha história não foi convincente e ela disse que não tinha condições de viajar dentro de tão pouco tempo, que tinha as três crianças e uma série de providências a tomar. Saí de lá bastante preocupada, mas pelo menos ela prometeu que começaria a arrumar a bagagem, o que podia facilitar se tivesse que deixar a cidade às pressas. Por via das dúvidas, no dia seguinte mandei a Malena ao solar levando um dos anéis que tínhamos ganhado da Emerenciana, dizendo que era para ela guardá-lo muito bem e, em qualquer dificuldade, mostrá-lo e dizer que tinha ganhado do mestre Dandará. Fiz a mesma coisa com seu pai, e torci para que os dois tivessem entendido a mensagem que eu tentava passar sem trair a confiança do Fatumbi.
No dia vinte e dois de janeiro, o Manoel Calafate passou pela loja e pediu a bênção do mala Abubakar antes de partir para o Recôncavo levando as últimas instruções, e de onde voltaria com o mestre Ahuna. Os outros mestres também voltaram para as suas casas e começaram a convocar os discípulos. No dia vinte e três, o Fatumbi pegou todos os barretes que estavam comigo e entregou-os a um grupo de convocados para fazer a distribuição junto com os abadás. Eles carregavam trouxas do tipo das usadas para levar as roupas da casa para as lavadeiras, um bom disfarce para não chamar a
atenção da polícia. Já estava tudo certo, e a rebelião começaria às quatro horas da madrugada do dia vinte e cinco de janeiro daquele ano de um mil oitocentos e trinta e cinco.
Expectativas
Na manhã do dia vinte e quatro de janeiro, saí de casa com o sol ainda por nascer e deixei você dormindo na minha cama, para onde o levara na noite anterior. Eu estava certa de que nada me aconteceria, mas, de qualquer forma, queria fazer preciosas aquelas últimas horas que antecediam a rebelião, e não havia nada que me fosse mais caro do que estar com você. Eu sabia que voltaria, mas não sabia quando, principalmente porque ninguém conhecia todo o plano, nem qual o papel que teria nele. Passei no quarto dos santos e orei para Xangô, para que a coragem e a proteção dele descessem sobre mim como um raio, principalmente na hora de lutar. Encontrei a Esméria na cozinha e disse a ela que não tinha hora certa para voltar, pedindo que cuidasse de você e rezasse por mim. Não precisei falar mais nada; ela me deu um abraço e a bênção, pedindo que me cuidasse. Saí com o Fatumbi, o Suleimane, o Buraima e o Mussé, pois os outros iriam depois em pequenos grupos, para não chamar atenção, e nos reuniríamos na loja do Manoel Calafate.
Por onde passávamos, eu sentia os outros pretos nos olhando como se quisessem dizer que estávamos todos juntos, que eles sabiam que éramos um deles. O
Suleimane estava muito confiante, e apontava os carregadores de cadeirinha dizendo que seria a última vez que veríamos aquela cena, que olhássemos bem à nossa volta e prestássemos atenção a todos os trabalhos e humilhações a que os pretos eram submetidos, porque os dias de escravidão estavam acabando. Durante dois ou três dias Alá guiaria nossas mãos e nossas armas, e depois que a vitória estivesse garantida, não haveria um
só preto fiel trabalhando como escravo.
Ele olhava para os poucos brancos que estavam na rua àquela hora e dizia que muito lhe agradava ver os rostos deles, confiantes, arrogantes, sem saber o que os esperava. Às vezes eu pensava no que poderia acontecer se não desse certo, mas era tão grande a confiança dos muçurumins ao meu lado que eu logo me convencia de que estávamos mesmo sob as graças de Alá, que ele queria que fizéssemos aquilo. Antes de sairmos da loja, o Suleimane tinha me dado uma outra tira, feito especialmente para fechar o corpo e desviar lâminas e tiros, que amarrei junto com o amuleto da Taiwo.
O próprio Manoel Calafate foi abrir a porta, e dentro da loja o clima era de muita alegria. Além do mestre Calafate, encontramos o Aprígio e o Belchior, que moravam com ele, um preto chamado Vitorio Sule, o Gaspar, o outro Belchior e mais seis ou sete pretos.
Todos já estavam vestidos com as roupas muçurumins, e tratamos de pôr as nossas, que tinham sido mandadas para lá. Eu e a Edum, as únicas mulheres do grupo, não colocamos o barrete, mas amarramos um lenço branco na cabeça. O Fatumbi disse que as roupas também serviam para que ficássemos parecidos, o que dificultava o reconhecimento por parte das autoridades ou o possível acerto de desafetos. Essa era a parte prática, porque, para eles, o que mais importava era estarem vestidos com suas roupas de festa, a grande festa que celebrariam para Alá.
Aos poucos foram surgindo mais pessoas e notícias de como as coisas estavam acontecendo em diversos pontos da cidade. Um nagô chamado Eusébio tinha acabado de chegar de Santo Amaro e contou que o mestre Ahuna e o mestre Dandará já estavam em São Salvador e tinham mandado avisar que tudo estava como o programado, que alguns pretos chegariam do Recôncavo e outros esperariam por lá. Ao longo do dia, mais dois ou três
pretos do Recôncavo também foram até a loja, contando quantas pessoas tinham desembarcado com eles e para onde tinham ido. Logo após o almoço apareceu o mestre Sanin, que antes tinha passado pela cadeia e levava um bilhete do alufá Licutan que seria lido mais tarde, na presença de todos que estavam convocados para a reunião na loja.
O mala Abubakar apareceu no fim da tarde, quando já éramos quase cinqüenta, e o Manoel Calafate distribuiu as armas que caberiam a cada um. Mesmo sem nunca ter atirado, peguei uma parnaíba novinha, mas nem tive tempo de me acostumar com ela, pois logo tivemos que deixar as armas de lado para fazer uma oração. Naquele dia, os muçurumins obedeceram a todos os horários de oração, e o mala Abubakar quis comandar os dois últimos. Somente eu, a Edum e mais quatro pessoas.
Não éramos muçurumins, mas por respeito, e também porque estávamos nos sentindo parte daquela gente, repetimos os gestos e as frases deles. Não sei dizer quanto aos outros, mas enquanto eu fazia aquilo, pensava nos meus orixás, nos meus voduns, nos meus antepassados e, apesar de estar falando uma língua estranha, tinha certeza de que eles me entendiam.
Depois que o mala Abubakar terminou as orações, chegaram algumas pessoas distribuindo comida. Eu tinha comido algumas frutas oferecidas pelo Belchior, mas os muçurumins faziam jejum por causa do Ramadã.
Perguntei se aquilo não ia deixá-los fracos para a luta e o Belchior disse que não, que o sacrifício e a fé sempre fortaleciam. E foi sobre isso que o mala Abubakar falou, que não havia data melhor para transformar São Salvador em uma nova Meca, a nova terra de Alá, e durante todo o sábado, enquanto estávamos recolhidos nos preparando, muitas pessoas andavam pelas ruas visitando lojas e casas, fazendas e sítios, casas de comércio e cantos, convidando os pretos a se juntarem à luta.
Quando rompesse o domingo, seria o dia vinte e cinco de Ramadã, e dois dias depois seria o Lailat Qadar, o Dia de Glória, e com a graça de Alá teríamos muitas glórias para comemorar. Foram palavras bonitas, e, quando ele se calou, tínhamos certeza de que venceríamos pronunciando as palavras com que tinha terminado sua fala: "A vitória vem de Alá. A vitória está perto. Boas novas para os crentes." Os ânimos se exaltaram e o Manoel Calafate pediu que não falássemos muito alto para não criarmos problemas com os outros moradores da loja, mas já era tarde e ouvimos palmas insistentes do lado de fora.
Depois de um momento sem saber o que fazer, o Suleimane mandou que a Edum abrisse a porta. Quem estava chamando tinha ouvido vozes denunciando a presença de pessoas dentro da casa e, se não abríssemos, poderia desconfiar de alguma coisa. O
Suleimane mandou que eu e outra mulher chamada Benta também ficássemos na sala, enquanto os homens foram para o quintal e para o quarto do Belchior. Antes, tiramos os abadás que tínhamos vestido por cima das roupas e a Edum recebeu ordem para não deixar ninguém entrar, e se percebesse que não conseguiria evitar, era para dizer que ia chamar o marido e entrar na casa, deixando o resto com eles.
A mulher A loja ficava no porão, do qual se saía por uma porta que dava acesso a um corredor lateral e um lance de escadas que ia até a rua, separada por um portão baixo de ferro.
Quando a Edum abriu a porta, fiquei aliviada ao ouvir a voz de uma mulher perguntando pelo Vitorio Sule. A Edum disse que não sabia quem era, que ali não tinha ninguém com esse nome, mas a mulher insistiu, afirmando que tinha ouvido a voz dele minutos antes, que ele era o pai dos filhos dela e precisava encontrá-lo.
A mulher empurrou o portão, caminhou até a Edum e começou a forçar a entrada, pondo a cabeça para dentro da loja. A Edum voltou a afirmar que não conhecia nenhum Vitorio Sule, mas a mulher estava muito nervosa e disse que não era a primeira vez que ia naquela casa buscar seu homem, onde ele sempre se reunia com "o maioral", e que não iria embora sozinha.
Ela estava falando bastante alto, gritando para o Vitorio Sule que tinha ouvido a voz dele no meio da festa que estávamos fazendo. Para acabar com aquele escândalo, a Edum disse que não era festa e que não ia deixá-la entrar, e se ela tinha certeza de que o Vitorio estava lá, era para esperar por ele em casa, no dia seguinte, quando os pretos fossem os donos da terra.
A Edum falou isso em tom de brincadeira, o que enfureceu ainda mais a mulher, que finalmente foi embora, depois de dizer que os pretos, e principalmente nós, íamos ganhar era surra e não terra. A Edum então fechou a porta, mas se esqueceu de passar a tramela, e assim que os homens voltaram para a sala entrou o Domingos, mulato que morava com a família no andar de cima, querendo saber o que tinha sido aquela confusão.
Para ele não foi possível disfarçar, pois todos estavam vestidos com os abadás e voltavam dos fundos da casa com as armas nas mãos. O Manoel Calafate pôs o Domingos para dentro e fechou a porta, dizendo que ia haver uma rebelião dentro de poucas horas e que ele tinha duas escolhas: morrer naquele momento ou colaborar e continuar vivo. O mulato tentou argumentar dizendo que ia voltar para casa, e que fizessem quantas rebeliões quisessem, mas que não contassem com ele.
Era pai de família e não queria se envolver em confusões, principalmente porque também era o responsável pelo aluguel daquela loja.
Quando ele tentou sair, o Mussé e o Umaru o cercaram, enquanto o Aprígio o ameaçava com uma faca, dizendo que ninguém o chamara ali, mas já que tinha tomado
conhecimento do que estava para acontecer, querendo ou não teria que ajudar. Era para ele ficar do lado de fora do portão e não permitir a entrada de ninguém, dando uma batida forte na parede caso percebesse algum estranho se aproximando, principalmente a polícia. Disse também que havia gente nossa passando pela rua e que qualquer atitude suspeita seria a sentença de morte dele, Domingos, e da família.
O mulato disse que tinha entendido e faria o que estava sendo mandado, mas não era para mexermos com a família dele, e foi se sentar no parapeito da janela, pelo lado de fora da casa. O mala Abubakar e os outros mestres que estavam conosco foram lembrados de que era hora de irem para suas casas, onde ficariam orando para o sucesso da rebelião, menos o Manoel Calafate, que morava naquela loja. O mala Abubakar comandou mais uma oração e saiu dizendo que não temêssemos nada porque Alá era poderoso e já tinha garantido a vitória, e o Mussé e o Umaru começaram a explicar o que aconteceria quando chegasse a hora.
O plano
O plano era simples, e como éramos muitos, fomos divididos em dois grupos, sendo que em diversos pontos de São Salvador havia mais grupos sendo preparados. Às quatro horas da manhã, todos deveriam sair às ruas ao mesmo tempo e atacar pontos estratégicos da cidade, pegando de surpresa os guardas que estariam de plantão durante a madrugada. Contávamos ainda com a boa notícia de que muitos deles tinham ido para Itapagipe, onde estava acontecendo a festa de Nossa Senhora da Guia.
A festa do Senhor do Bonfim tinha sido realizada dois domingos antes, mas as celebrações só terminavam com a festa de Nossa Senhora da Guia e de São Gonçalo do Amarante, muito freqüentada pelos brancos, e boa parte
da população estava lá, veraneando ou festejando. O
horário também era importante, porque às quatro da madrugada os escravos começavam a sair de casa para buscar água nas fontes, e os muçurumins contavam com a adesão dos que ainda não sabiam de nada, principalmente dos escravos de dentro de casa, mais difíceis de serem avisados. Os aguadeiros envolvidos tratariam de fazer as convocações, e também eram eles que levavam boa parte das armas, escondidas dentro dos potes usados para carregar água.
Eu estava muito confiante, como todas as pessoas dentro da loja, e só esperava não ter que matar ninguém, o que seria difícil, pois a ordem era acabar com qualquer pessoa que tentasse nos impedir de seguir adiante, fosse ela branca, preta, liberta, escrava, mulata, homem, mulher, velho ou criança. Quem não estava a favor da rebelião estava contra, e por isso não merecia viver as conquistas que ela nos proporcionaria.
Devíamos evitar os prédios ocupados por soldados e só atacar aqueles que nos atacassem, porque eles eram mais bem armados que nós, que tínhamos muitos facões e espadas e pouquíssimas armas de fogo. O grupo também deveria se manter unido, porque assim um protegia o outro, e um bando causava mais temor que um indivíduo. Eu estava ansiosa, querendo que tudo começasse e terminasse logo, e o Fatumbi achava que no meio do dia já teríamos feito o que fosse possível em São Salvador e estaríamos na região de Itapagipe, onde todos os grupos se reuniriam para seguir até o Recôncavo. Depois de nos juntarmos aos pretos das principais cidades do Recôncavo, já estaríamos em maior número que a polícia, e mais bem armados, porque não deveríamos deixar uma só arma pelo caminho, de qualquer tipo.
Fomos surpreendidos com a segunda parte do plano, que também não ficamos sabendo direito naquele momento,
pois seria revelado de acordo com os acontecimentos, que, por sua vez, dependiam da reação da polícia. O
Mussé explicou que deixaríamos a cidade de São Salvador o mais rápido possível, antes que a polícia tivesse condições de montar um plano de reação. Se ficássemos na cidade, não tardariam a chegar reforços de outras províncias, e acabaríamos cercados e tendo que nos render.
Do Recôncavo era até mais fácil escapar caso precisássemos, e também era muito grande o número de pretos por lá, principalmente de recém-chegados de África, mais dados às rebeliões. Então, primeiro tomaríamos o poder nas principais cidades de lá, enquanto São Salvador começaria a ter problemas por causa da falta de mão-de-obra, e depois voltaríamos, numerosos e vitoriosos. O Mussé disse que estava tudo planejado, mas para que as coisas ocorressem do jeito que eles queriam, ainda teríamos que passar por várias etapas e seríamos informados do papel que nos caberia em momento oportuno. Fiquei ainda mais animada, porque comecei a ver um propósito naquilo tudo, um plano inteligente que não queria apenas provocar bagunça na cidade, como nas rebeliões anteriores, o que pegaria todas as autoridades de surpresa.
Por volta de uma hora da manhã do domingo, já não nos agüentávamos mais dentro da casa de tanta empolgação, e alguns homens sugeriram começar antes, para ir adiantando o trabalho dos outros. Mas o Mussé e o Umaru disseram que era impossível, que cada grupo que saísse à rua dependeria do trabalho simultâneo do outro.
Só assim dividiríamos a força da polícia, que não saberia a que lugar atender. Mas, infelizmente, eles foram obrigados a mudar de idéia pouco tempo depois, porque por volta das duas da manhã ouvimos uma tosse insistente e batidas na parede, sinal de que o Domingos queria nos avisar da aproximação de alguém.
Ficamos em silêncio, torcendo para que fosse novamente a mulher do Vitorio Sule ou qualquer outra à procura do marido. Mas foi uma voz masculina que perguntou ao Domingos se ali dentro da loja estava havendo uma reunião de pretos. Com medo da ameaça do Aprígio, ele disse que não, que na loja moravam apenas dois inquilinos muito bem comportados. Os policiais quiseram saber quem eram e o que faziam tais inquilinos, e o Domingos respondeu que eram o Manoel Calafate, que o próprio nome já dizia da profissão, e o Aprígio, vendedor de pão e carregador de cadeirinha.
O Domingos estava muito nervoso, e acho que os policiais desconfiaram da quantidade de elogios que ele começou a fazer aos dois homens que, segundo ele, àquela hora estavam dormindo, pois começavam a trabalhar muito cedo. Dentro da casa, o Manoel Calafate fez sinal para que todos ficássemos atentos e com as armas nas mãos, e o Mussé e o Umaru gesticularam pedindo que ninguém se mexesse.
Como a loja ficava abaixo do nível da rua, o Manoel Calafate abriu uma fresta na porta lateral para escutarmos direito a conversa, e ouvimos quando os policiais disseram que queriam revistar a loja. O
Domingos fez o que pôde, insistindo em dizer que não podia incomodar os inquilinos, que trabalhariam cedo na manhã seguinte, apesar de ser domingo, mas não houve jeito. Os policiais mandaram que ele abrisse o portão e receberam a desculpa de que tinha perdido a chave, que se eles quisessem poderiam entrar pela janela. Mas a janela dava para a casa do Domingos, no nível da rua, e não para a loja do Manoel Calafate. Percebendo isso, os policiais disseram que se o portão e a porta não fossem abertos, eles arrombariam. Então o Manoel Calafate disse baixinho que não tinha mais jeito, que a rebelião ia começar.
O Mussé queria falar mas ninguém prestava atenção, e ele só teve tempo de separar um grupo de homens e pedir que pulassem o muro do quintal e dessem a volta no quarteirão para cercar os policiais. Ele e o Umaru teriam preferido tocaiar os visitantes inoportunos na casa e provavelmente matá-los, esperando o horário certo para começarmos a agir, e talvez isso tivesse feito toda a diferença. Mas ninguém estava disposto a ouvi-los. Fora a ansiedade para que tudo começasse de uma vez, a liderança espiritual do Manoel Calafate foi mais importante que a estratégia, e ninguém tinha a menor dúvida de que seríamos vencedores, independentemente da hora.
Quando ouvimos os passos no corredor, já bem perto da porta da loja, o Manoel Calafate saiu na frente gritando em árabe "em nome de Alá, mata soldado!", e foi seguido pelo nosso grupo de mais ou menos trinta pessoas, armadas com uns poucos bacamartes, algumas parnaíbas, facas, lanças e espadas. Não me causou boa impressão esse início de luta, antecipando o momento planejado. Mas atribuí o mal-estar às primeiras cenas de terror, e durante todo o tempo que durou a correria pela cidade não parei para pensar no que estava acontecendo.
Algumas das coisas que vou contar a partir de agora fiquei sabendo mais tarde, juntando pedaços que as pessoas me contavam sobre o que tinham ficado sabendo, ou de que tinham participado. Mas acho melhor contar como se tivesse visto tudo acontecer, como se estivesse presente em todos os lugares onde havia alguém lutando, pela liberdade ou simplesmente para não morrer.
A rebelião
A denúncia de que uma rebelião estava para começar foi feita no início da noite de sábado por um nagô liberto, que também se chamava Domingos e que tinha ouvido
comentários estranhos entre os pretos do cais do porto, onde durante todo o dia chegaram vários saveiros com pretos do Recôncavo.
Perguntados, e achando que podiam confiar, alguns desses pretos disseram que iam se juntar ao maioral mestre Ahuna, que tinha programado um levante para o domingo de manhã. Ao chegar em casa, o tal Domingos comentou isso com a esposa, Guilhermina, e ela o incentivou a mandar um bilhete para o ex-dono dele, a quem eram muito leais. A Guilhermina então ficou na janela da casa onde morava, na Rua do Bispo, e também notou uma movimentação diferente na rua, com pretos que nunca tinha visto antes, e ouvindo a conversa de dois nagôs que passavam, confirmou o que o marido tinha dito.
Os nagôs estavam convidando um outro a participar do levante que, segundo eles, começaria com o toque da alvorada, por volta das cinco horas da manhã. Também achando que devia lealdade ao próprio ex-dono, a Guilhermina resolveu avisá-lo, principalmente porque já tinha a confirmação do horário em que tudo aconteceria.
Na volta para casa, depois de fazer a denúncia, ela encontrou sua comadre, a nagô Sabina, que era ninguém menos que a mulher do Vitorio Sule. Naquele momento, a Sabina tinha acabado de sair da loja do Manuel Calafate e estava justamente indo até a casa da comadre, para se aconselhar com ela sobre que atitude tomar.
Eu acho que, na verdade, a Sabina queria apenas se vingar do Vitorio Sule denunciando uma rebelião da qual ele participaria, fazendo com que ele ficasse malvisto entre os companheiros. Ela tinha brigado com o Vitorio Sule logo de manhã e ido para o ponto onde vendia comida, na cidade baixa. Ao retornar, já de noite, encontrou a casa toda revirada e os filhos sem saber do paradeiro do pai, que tinha saído de casa levando
algumas roupas. Achando que tinha sido abandonada, a Sabina resolveu ir até os lugares que ele costumava freqüentar, como a loja do Manoel Calafate.
Sabia que ele estava lá dentro porque tinha ouvido sua voz no meio de muitas outras que falavam da vitória dos pretos sobre os brancos. Como a Guilhermina ainda estava com medo de que o seu antigo dono e o do seu marido não tivessem acreditado, foi até a casa de um vizinho importante, contando a história desde o início, acrescida das informações da comadre. Na casa desse vizinho, para nosso azar, estavam dois amigos do juiz de paz do distrito da Sé, que trataram de avisá-lo imediatamente. O juiz também não perdeu tempo, passou na casa do comandante da guarda municipal e os dois foram juntos até a casa do presidente da província, que tinha sido empossado pouco tempo antes e estava querendo mostrar serviço. Isso aconteceu por volta das dez horas da noite e, sem demora, o presidente mandou reforçar a guarda do palácio e convocou o chefe da polícia, dando instruções para que todos os quartéis da cidade ficassem em alerta máximo, para que os juizes de paz reforçassem as rondas em seus distritos e avisassem os inspetores de quarteirão.
Além disso, o chefe da polícia mandou uma fragata vigiar o mar e evitar que os navios ancorados fossem tomados para fuga durante a possível rebelião, e que um comandante de cavalaria seguisse com uma tropa rumo ao Bonfim, para proteger as pessoas que estavam na festa, caso o levante atingisse as roças e os engenhos de Itapagipe. E, por fim, ordenou que os juizes de paz da freguesia da Sé, onde estávamos, organizassem patrulhas para revistar todas as lojas onde moravam africanos, na região indicada pela Sabina. Foi uma dessas patrulhas que enfrentamos, comandada pelo juiz de paz do segundo distrito da Sé.
Quando saímos para o corredor, tendo o Manoel Calafate
à frente, o Mussé atirou e matou um dos policiais. Do lado de fora da loja, na rua, já estavam os homens que tinham pulado o muro do quintal, e logo dominaram o restante da patrulha, formada por quatro oficiais e alguns paisanos. Nós também perdemos dois homens, um que não cheguei a conhecer, morto a cacetadas por dois crioulos pertencentes ao juiz de paz, e, para azar ou punição da Sabina, o Vitorio Sule, que morreu ao ser atingido por um tiro na cabeça. Eu tentava me acostumar ao barulho para saber como agir, e, misturados aos gritos de guerra em árabe, hauçá e iorubá, além da luta corpo a corpo, os tiros eram o que mais incomodava.
O Fatumbi percebeu minha perturbação e me disse para ficar atenta se quisesse continuar viva, e para não ficar parada esperando chumbo. Os dois grupos foram separados, como tinha sido combinado antes, e tomamos a rua, batendo nas portas das casas, avisando aos companheiros que a rebelião já tinha começado. O grupo do Mussé tomou a direção das ruas dos Capitães, Pão-de-ló e da Ajuda, enquanto meu grupo, liderado pelo Mussé, subiu a Ladeira da Praça.
Inicialmente, éramos mais ou menos quarenta pessoas, mas outros pretos se juntaram a nós quando chegamos à Praça do Palácio, e já devíamos ser quase cem. Paramos em frente à Câmara Municipal, perto da cadeia onde o alufá Licutan estava preso, e o Mussé disse que ali tínhamos a importante missão de soltar o mestre e todos os outros pretos, além de tomar as armas dos guardas.
Mas eles já estavam de prontidão e, das janelas abertas para a praça, começaram a atirar assim que tentamos arrombar a pesada porta. Foi quando os guardas do Palácio do Governo, do outro lado da praça, também começaram a atirar, e tivemos que voltar a nossa atenção para eles, que eram em maior número.
Muitos dos nossos caíram feridos pelas balas e foram
levados até os estaleiros da Preguiça. Como não podíamos enfrentar os guardas armados e açoitados, o Mussé disse que depois cuidaríamos da libertação do alufá Licutan, e mandou que alguns de nós fossem para o Terreiro de Jesus e outros para o Largo do Teatro, entre os quais me incluí. Nestes dois lugares estavam programados encontros com grupos que partiriam de diversos pontos da cidade, e de fato alguns pretos já estavam por lá, escondidos nos becos e nas ruas vizinhas. Em frente ao teatro encontramos uma pequena patrulha, que rapidamente foi desarmada e posta para correr, sendo que àquela altura eu já estava querendo entrar em combate também, e não apenas fazer parte do grupo.
Era uma sensação estranha, uma vontade de me vingar, de atacar alguém com a parnaíba que tinha nas mãos, principalmente quando via um dos nossos sendo atingido, o abadá branco manchado de sangue no lugar perfurado pela bala. Mas os guardas evitavam o confronto, como fizeram também na nossa parada seguinte, um quartel em São Bento, onde mais gente nos esperava para se juntar à rebelião. Eles correram para dentro do quartel e se puseram às janelas, atirando, e contra isso não tínhamos o que fazer, pois não havia armas de fogo suficientes. Já éramos muitos, mas também era grande a quantidade de pretos desertando, e eu tentava convencê-los a continuar.
Era desesperador que eles não soubessem que não era só aquilo, que não podíamos responder às armas de fogo dos guardas, mas que também não era aquela a intenção. Não pretendíamos tomar os quartéis ou outros prédios, mas apenas provocar confusão na cidade, reunir o maior número possível de pessoas e nos encontrar com os pretos que nos esperavam em Itapagipe e nas matas do Engenho do Cabrito.
Aproveitando a adesão de alguns pretos que estavam no
Terreiro de Jesus, conseguimos passar em frente ao quartel e fomos para a Vitória, onde era grande o número de muçurumins. No caminho, paramos em frente ao Convento das Mercês para nos reorganizarmos e encontramos o nagô Eslebão, que era sacristão e estava escondendo uma malta de pelo menos vinte pessoas em seu quarto. Enquanto o Mussé tentava explicar aos outros que precisávamos ficar juntos e seguir até a Vitória, onde os pretos que moravam por lá ainda não sabiam que a rebelião tinha sido antecipada, encontramos uma patrulha que fazia a ronda e que, diante da nossa reação, correu para o Forte de São Pedro.
Aliás, esse forte era um grande problema, por estar no nosso caminho e por abrigar o batalhão de infantaria.
Alguém perguntou ao Mussé se esse batalhão se juntaria a nós, visto que sempre estava à frente das rebeliões que ocorriam na cidade, e ele respondeu que não, que a eles interessavam apenas as rebeliões federalistas, não as que tinham relação com os pretos, embora os pretos tenham se apresentado sempre que convocados por eles.
Enquanto pensávamos em como passar pelo forte, percebemos uma confusão se formando diante dele.
Eram os pretos da Vitória, que tentavam passar para se encontrar com o nosso grupo. Alguns queriam ajudá-los, mas o Mussé disse que apenas poríamos mais vidas em risco, que era melhor esperar. Eles também estavam vestidos com os abadás brancos e armados com espadas, lanças e algumas armas de fogo, e passaram correndo em frente ao muro do forte, atrás do qual os guardas se entrincheiraram. Quando nos encontramos, disseram que tinham deixado pelo menos dois mortos para trás. O
Mussé afirmou que seria muito difícil continuarmos sem as armas de fogo que tínhamos espalhadas por vários lugares, em poder de pessoas que ainda estavam esperando a hora marcada para sair às ruas. Decidiu-se então que tentaríamos tomar o quartel da polícia no
Largo da Lapa e nos apossar das armas atacando em duas frentes, com um grupo seguindo pela Rua São Raimundo e outro pela Rua da Piedade.
Não eram muitos os soldados em frente ao quartel, mas novamente as armas de fogo de que dispunham nos puseram para correr, numa batalha desigual, que, se aceita, seria suicida da nossa parte. Apesar disso, eram muitas as demonstrações de coragem, e nos jogávamos contra os guardas que estavam do lado de fora, sem a proteção dos muros, conseguindo tirar de combate pelo menos quatro ou cinco, e pegando as armas que, de fato, eram o que nos interessava. Precisávamos deixar logo a cidade, e novamente nos dividimos em dois grupos, sendo que um deveria descer a Barroquinha e passar pela Cadeia, desta vez pelos fundos, e fazer nova tentativa de libertar o alufá Licutan.
Meu grupo tinha que ir direto para o Terreiro de Jesus, reunir o máximo de pessoas que conseguisse e esperar pelos outros, para finalmente seguirmos para Itapagipe.
Em frente ao antigo Colégio dos Jesuítas, novamente entramos em combate com um grupo de vinte ou trinta soldados, que pusemos para correr com a ajuda do grupo que voltava sem ter conseguido libertar o alufá Licutan. O Mussé calculou que éramos pelo menos duzentos, bastante gente para aquela época, o que hoje já não sei, pois dizem que a cidade cresceu bastante.
Descemos a Ladeira do Pelourinho, seguimos para a Baixa dos Sapateiros e pegamos a Ladeira do Taboão até a cidade baixa. É estranho como todos esses nomes e lugares me voltam à memória sem esforço algum, como se eu estivesse vendo a história acontecer neste exato momento.
Eu estava com o grupo que ia à frente abrindo caminho, tentando não perder de vista o Fatumbi e o Mussé, e quando olhava para trás e via todas aquelas pessoas, pensava no que poderiam ter passado para estar ali.
Á
Pelas palavras de ordem gritadas em línguas de África e respondidas por todos, dava para perceber que quase não havia crioulos entre nós, que aqueles homens e mulheres que rumavam para Itapagipe tinham feito a mesma viagem que eu. Mas a grande maioria provavelmente não tinha firmado laços, não tinha filhos nem casa e, portanto, quase nada a perder. Depois de tudo começado, não pensei em abandonar o grupo, mesmo sabendo que muita coisa não tinha dado certo, que a precipitação nos tinha impedido de contar com boa parte dos pretos e com a maioria das armas. Com eles, talvez tivéssemos conseguido passar pelo quartel da cavalaria em Água de Meninos.
Era o único caminho, o último problema a enfrentar dentro da cidade, e nunca achamos que justo ali haveria maior resistência. Quando dobramos a Rua do Pilar, havia alguns guardas do lado de fora do quartel, e acredito que tenham se assustado com a determinação com que marchávamos, animados por gritos e toques de tambores, e foram se abrigar atrás dos muros. Mas logo saiu a cavalaria, que se pôs no meio da rua e barrou nossa passagem, e por trás da primeira fileira de cavalos e soldados foi se formando outra, que voltava do Bonfim naquele momento. Era a patrulha que tinha ido até lá para o caso de os escravos dos engenhos vizinhos se rebelarem, mas que retornou à cidade tão logo foi avisada dos acontecimentos.
Já estávamos cansados, correndo de um lado para outro havia mais de três horas, ainda longe do destino e sem saber se teríamos forças para chegar até lá. E mesmo se tivéssemos, era bem possível que não houvesse tempo para um descanso antes de seguirmos para o Recôncavo.
Muitos fugiram antes mesmo de a luta começar para valer, e não os condeno, porque eu também tive vontade de aproveitar que não estava machucada e ir para casa.
Mas depois pensava nas vidas que já se tinham perdido e olhava para meus companheiros, a grande maioria
mais velhos e mais cansados do que eu, mas ainda acreditando que era possível. O Fatumbi era um desses, com o rosto demonstrando cansaço a cada movimento e a voz rouca de tanto gritar, mas não havia em seus gestos e olhos a menor dúvida quanto a ir até o fim.
Mesmo quando as patas dos cavalos avançavam sobre nós, mesmo quando as poucas armas de fogo que tínhamos já estavam sem munição, mesmo quando um ataque contínuo de mais de quinze minutos de balas vindo de dentro do quartel deixava muitos dos nossos fora de combate ou a correr pelos matos e montes da vizinhança. As patas dos cavalos também terminavam o serviço das balas, pois bastava que um de nós caísse para receber a pisada ou o coice de misericórdia.
Durante algum tempo fiquei sozinha no meio daquela confusão toda. Olhei para os lados e não vi mais os conhecidos, e então fechei os olhos, como tinha feito no caminho de Savalu para Uidá. Os guardas, os mortos, o sangue, os cavalos e até mesmo o barulho sumiram por uns instantes, dentro do que meus olhos não queriam ver. Não sei por quanto tempo permaneci assim, sem que nada me tocasse, até que fui sacudida pelo Eslebão, aquele que tinha se juntado a nós no Convento das Mercês, dizendo que estava tudo acabado, que tínhamos que sair dali.
Olhei ao redor e já não havia mais quase ninguém de pé.
Os pretos apanhados vivos eram fuzilados na hora contra o muro do quartel, e tive a impressão de que os que ainda restavam ilesos, como eu, só esperavam chegar a sua vez. De fato, essa era a idéia de alguns deles, que gritavam que não iam se entregar, que iam morrer lutando, como tinha morrido o Pai Calafate.
Estavam falando do Manoel Calafate, que tinham visto cair bem no início, ainda na Ladeira da Praça.
O Eslebão tentava me puxar pelo braço na direção da praia, e eu disse que não iria sem o Fatumbi, que
encontrei ajoelhado junto com quatro ou cinco pretos, orando. Corri até ele e disse que precisávamos sair dali, mas antes que ele pudesse responder o que eu já imaginava, que dali só saía morto, uma bala bem no meio da testa o dispensou de falar. Não sei se saí correndo de susto ou para não ver meu amigo morrer, ou para não ter o mesmo fim que ele.
Quando vi que o Eslebão ainda estava ao meu lado, aflito, repetindo com lágrimas nos olhos que estava tudo acabado, enquanto dois homens a cavalo vinham na nossa direção, peguei a mão dele e saímos correndo para a praia, onde nos juntamos a um grupo que não sabia se entrava no mar ou se tentava dar a volta pela encosta. Muitos não sabiam nadar mas não tiveram escolha, porque a cavalaria já tinha descoberto aquela rota de fuga e estava atrás de nós. Eu me atirei no mar atrás do Eslebão, mais para ter alguém a quem seguir, pois não estava em condições de decidir nada, nem ficar e morrer, e nem fugir.