Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 9 de 12 · parte 6/6

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Um Defeito de Cor

Capítulo sete

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Expliquei que eu não podia mais fazer isso, que não tinha mais o direito de possuir bens, mas também achei melhor esperar um pouco para ver que rumo as coisas tomariam. Seria melhor contar com o dinheiro na mão, e avisei o Alberto que continuaríamos morando na casa até que não tivesse mais jeito, e que o doutor José Manoel faria tudo para prolongar esse prazo.

Foi também ao doutor José Manoel que pedi conselhos sobre o que fazer com o dinheiro, e fiquei muito grata quando ele se ofereceu para comprar letras de câmbio de um banqueiro inglês conhecido dele, que poderiam ser trocadas por dinheiro na hora que eu precisasse.

Logo depois disso, em alguns momentos achei que precisaria dele para realmente ir embora, pois novas medidas de precaução continuaram sendo tomadas pelo governo, principalmente por volta do mês de agosto ou setembro, quando surgiram boatos de nova rebelião.

Eu estava cadastrada junto ao juiz de paz da freguesia e já tinha contribuído com a taxa de permanência, mas fui avisada de que deveria comparecer à inspetoria de quarteirão com a certidão de batismo. Eu tinha fugido do meu batismo de branca e, portanto, não tinha esse documento. Mas, por sorte e por um motivo qualquer que não sei qual, as pessoas que desembarcaram comigo também não tinham, e foi isso que eu disse ao inspetor.

Ele me deu um mês para apresentar uma prova de que tinha sido batizada e, mais uma vez, quem me valeu foi a Adeola, por intermédio de um padre que tinha sido amigo do padre Heinz e que me arranjou um registro falso. A partir daquele momento, os nascidos livres ou libertos que não tinham certidão de batismo seriam deportados, e os donos de escravos teriam que pagar uma multa de cinqüenta mil réis por cada pagão de sua propriedade. E para fazer da Bahia um lugar ainda mais triste do que já estava, foram proibidos os batuques e todas as festas religiosas que não fossem católicas.

Com fé

Quando fui conversar com a Adeola, ela contou uma coisa muito estranha que estava acontecendo com os pretos libertos, principalmente os africanos. Se quisessem permanecer no Brasil, era mais vantagem que fossem escravos, porque assim seriam menos vigiados e

teriam garantidas a comida e a moradia, pois estava quase impossível arrumar trabalho. Então alguns brancos estavam fazendo um trato com eles, que se passavam por escravos e eram vendidos de verdade, ficando com uma parcela mínima do dinheiro que o falso dono recebia por eles.

Eu não conseguia compreender o desespero que fazia alguém tomar uma atitude dessas, mas a Adeola comentou que muitas vezes era apenas amor ao Brasil, ou medo de voltar à África e cair no meio de uma guerra, ou de morrer durante a travessia, já que, para muitos, parecia um verdadeiro milagre terem sobrevivido à primeira viagem. Muitos brancos pobres começaram a enriquecer com esse tipo de negócio, principalmente porque alguns navios suspeitos de tráfico foram proibidos de viajar para a África sob qualquer pretexto, e estava começando a faltar escravo no mercado. Os que morriam ou fugiam não estavam sendo substituídos, e também era grande o número de deportados, de presos, de impossibilitados de trabalhar por causa de castigos ou ferimentos, ou ainda de fugidos com medo de reprimenda da polícia ou dos próprios donos.

Ou seja, faltavam escravos na Bahia, e muitos africanos libertos, para não irem embora, porque gostavam do país ou tinham outros tipos de laços afetivos, se dispunham a virar escravos novamente. Sabe-se lá a que custo tinham conseguido comprar a liberdade e estavam sendo obrigados a abrir mão dela. Isso era revoltante, e me ajudou a ver que a minha situação nem era tão ruim assim, pois eu tinha amigos, tinha um trabalho com o qual ganhava o suficiente para que nada nos faltasse, tinha uma casa para morar e boas economias. Foi pensando nisso que comprei algumas oferendas para Oxum, agradecendo a prosperidade e pedindo que ela não me abandonasse, e decidi visitar o Babalaô Gumfiditimi, para encomendar um sacrifício de carneiro para Xangô.

Estávamos no mês de setembro, então resolvi esperar pelo dia vinte e nove, dia de homenagear os Ibêjis, quando sempre havia festa no sítio do Babalaô Gumfiditimi. Alugamos uma cadeirinha e fomos eu, você e a Esméria. Havia mais de três anos que eu não ia até lá, e o lugar estava cheio de crianças para o caruru dos meninos. Eu não os reconheci, mas o Babalaô Gumfiditimi me desculpou, dizendo que já havia muito tempo que ele também não sabia mais quem era quem, tantos eram os filhos, e também já não conseguia saber a que mulher pertenciam.

Até algum tempo atrás ainda conseguia separá-los por mãe, por causa de uma ou outra característica, mas, conforme cresciam, iam ficando cada vez mais parecidos uns com os outros. A Monifa disse que já estavam chegando nos cem, mas o Babalaô Gumfiditimi ainda queria mais. O Ifasen já conseguia substituí-lo no jogo do Ifá, e perguntou se eu queria fazê-lo. Eu só tinha a intenção de encomendar o sacrifício, mas aceitei, achando que talvez os orixás quisessem me dizer alguma coisa.

Tendo o Babalaô Gumfiditimi ao lado, para instruí-lo em caso de necessidade, o Ifasen disse que infelizmente não havia nada a ser dito que pudesse tranqüilizar meu coração, que eu passaria por um período de calmaria, mas que logo em seguida viria outro de grande peregrinação. Ele não soube dizer o motivo, pois o destino ainda não estava fechado, mas me via andando muito atrás da minha missão. Perguntei se eu estava me conduzindo certo e ele disse que sim, que, no que dependia de mim, não havia nenhum desvio do caminho traçado, mas que todo esse caminho ainda estava muito confuso, cheio de trabalho e decisões difíceis. Não sabendo mais o que perguntar a meu respeito, perguntei sobre você e sobre a Esméria, e ele disse que também estavam cumprindo o destino, que o seu futuro continuava amplo, sinal de que os abikus deviam ter

esquecido o trato, e que o da Esméria já estava chegando ao final, mas que isso era para ser encarado com alegria, como era o caso em vidas longas.

Pressentimentos

Fiquei muito triste depois daquela visita ao Babalaô Gumfiditimi, embora não soubesse ao certo o motivo. Às vezes achava que era de solidão, porque via cada vez menos os amigos, e nem mesmo o seu pai nos visitava como antes. Em conversa com o Júlio, o Sebastião soube que ele quase não parava em casa, o que era motivo de alegria para a Ressequida, que ficava insuportável na presença dele, brigando por tudo e com todos. Eu sentia pena, mas, como o Babalaô Gumfiditimi tinha dito e eu também achava, o que estava acontecendo com ele era em decorrência das escolhas que tinha feito.

À noite, às vezes eu me sentava com o mestre Agostino em frente à barbearia e ficávamos os dois em longos silêncios, depois de conversarmos um pouco sobre o Banjokô. Foi só então que descobri o quanto o velho gostava mesmo dele, a ponto de evitar tocar flauta em casa, fazendo-o somente junto com a banda e em eventos para os quais eram contratados. Isso quem me contou foi o doutor Jorge, a única pessoa com quem eu conversava sobre a rebelião. Eu gostava dele, muito parecido com o pai. O irmão policial era um pouco mais sério, e aparecia só de vez em quando, menos de uma vez por mês.

O doutor Jorge morava com o pai e dizia que nunca o abandonaria,

principalmente

porque

ele

estava

envelhecendo e precisando de mais cuidados e atenção.

Eu achei isso muito bonito da parte dele, pois em África é assim, quanto mais velhas as pessoas, mais merecem os nossos cuidados, o nosso respeito e a nossa admiração. O doutor Jorge queria saber o que mais eu me lembrava da África, mas era quase nada, e ficávamos

conversando sobre como deveria estar naqueles dias, com tanta gente voltando para lá. Ele foi a primeira pessoa para quem confessei que às vezes pensava em voltar também, em levar a Esméria para morrer na terra onde tinha nascido e da qual começava a falar constantemente.

Ela estava se lembrando de muitas coisas da infância na África, do tio que a vendera, dos amigos deixados para trás, e isso me pareceu vontade de retornar. Comecei a prestar mais atenção nisto depois que o Ifá tinha dito que no meu destino estava a tal peregrinação, que bem poderia ser uma volta à África. O doutor Jorge comentou que talvez não fosse bem isso, que a Esméria poderia apenas estar passando a vida a limpo, como acontece com as pessoas que se preparam para o momento final.

Ele disse que eu deveria pensar melhor antes de tomar qualquer decisão, mesmo porque a Esméria poderia não agüentar a viagem ou morrer assim que chegássemos, deixando-nos sozinhos, eu e você. Isso me fez pensar também em você, pois sabia que a vida em África não estava fácil e você não teria oportunidade de estudar e se tornar importante, a menos que eu tivesse dinheiro para mantê-lo na Europa, para estudar leis em Portugal, como o seu pai sempre dizia. Mas isso me parecia cada vez mais distante, não podendo contar com a ajuda dele.

Acho que comecei a pensar a sério na hipótese de voltar à África quando partiram os primeiros navios levando não apenas os que eram obrigados a retornar, mas os que tinham feito essa opção. O primeiro deles, o Maria Damiana, teve alguns dos tripulantes considerados verdadeiros heróis, mesmo depois de muito tempo da chegada à África. Quando atravessavam o mar, as histórias mudavam um pouco, e o que se comentava era que os principais líderes das revoltas da Bahia tinham sido condenados à morte ou estavam de volta à África, tidos como valentes demais para permanecerem escravos na terra de brancos, que os mandavam de volta

porque não conseguiam dominá-los. Logo depois do Maria Damiana partiu a galeota Annibal e Oriente, e com a notícia de que os escravos estavam sendo levados para uma colônia em África formada apenas por brasileiros, aumentou o número daqueles que queriam ir embora por vontade própria, sobretudo para a região de Lagos ou Uidá. Na época, muito me interessaram todas as informações sobre essas partidas, e eu conversava bastante com o doutor José Manoel e com o doutor Jorge, que, como advogado e médico de alguns condenados, podiam acompanhá-los mais de perto, saber o que pensavam e o que de fato queriam das suas vidas.

Embora oficialmente não entrassem mais escravos na Bahia, como eles tanto queriam, os ingleses não estavam contentes com o rumo das deportações, pois pretendiam aproveitar os libertos da Bahia como mão-de-obra nas colônias inglesas. O governo inglês tinha até oferecido dinheiro por cada africano que o governo da província da Bahia entregasse a eles, mas as relações estavam bastante estremecidas e o negócio não foi aceito. Os ingleses não podiam obrigar os africanos a seguirem com eles, e por livre vontade ninguém queria ir trabalhar nas Antilhas ou em Trinidad e Tobago, porque os brasileiros e portugueses trataram de espalhar notícias de que não havia melhor escolha do que voltar à África, onde os retornados eram muito bem recebidos e estavam prosperando como nunca, por serem mais preparados do que os africanos que não tinham saído de lá. Isso era verdade, mas, como soube depois, não era tão fácil assim, e a grande maioria dos retornados passou por sérias dificuldades e nunca conseguiu se adaptar.

Os boatos eram uma maneira de punir os ingleses, que não conduziam muito bem os casos dos navios brasileiros pegos no tráfico irregular, deixando de pagar indenizações quando se enganavam na captura de um navio que fazia o comércio legal de mercadorias ou

quando não conseguiam provas suficientes do verdadeiro propósito da embarcação aprisionada. Além do mais, alguns ingleses ainda pioraram a situação de todos eles, ao não permitirem que suas casas fossem revistadas à procura de escravos que tinham participado da revolta. Alguns ingleses entregaram os escravos contra os quais havia provas, mas a grande maioria optou por escondê-los.

Intimidações

Quase no meio do ano de um mil oitocentos e trinta e seis, a Claudina voltou a morar na nossa casa, depois de passar algum tempo com os amigos da Federação. Ela era uma boa amiga e, principalmente depois da morte do Fatumbi, eu não tinha com quem conversar, pois a Esméria estava cada dia mais estranha, alertando que eu deveria me preparar para viver sem ela, que estava para morrer. Apesar de gostar muito de festas e de se divertir, a Claudina não tinha medo de trabalho e foi de grande ajuda na oficina de charutos.

Por conta de desentendimentos com um inspetor, uma pessoa que os juizes de paz indicavam para tomar conta dos pretos de ganho, ela tinha saído do canto onde colocava tabuleiro. Antes da rebelião, os próprios ganhadores dos cantos se organizavam sob a tutela de um capitão de canto eleito por eles. Mas depois da rebelião, o capitão de canto foi transformado em capataz e tinha que prestar contas a um inspetor de capatazia, sempre branco e brasileiro.

Todos os meses o capataz atualizava uma ficha com informações

sobre

os

trabalhadores

sob

sua

responsabilidade, com nome, morada, nome do senhor se fosse escravo, e tipo de serviço que prestava ou produto que vendia. Ele tinha que correr o canto diariamente, confirmando a presença de todos os cadastrados e investigando o motivo de ausências, e

também cuidava para que não houvesse confusão no canto, e qualquer problema ou atitude suspeita tinham que ser comunicados ao inspetor, que se reportava ao juiz. A Claudina disse que o inspetor do canto onde ela trabalhava não se entendia muito bem com o capataz, prejudicando os ganhadores, que por qualquer motivo, mesmo inventado, pagavam multas ou eram presos se não pudessem arcar com elas. A Claudina já tinha recebido duas multas só porque havia um risco na pulseira de metal que era obrigada a usar, contendo seu número de matrícula municipal, ou registro de ganhadeira, como se não bastasse a taxa de sessenta réis que pagava todos os dias, para custear os salários do capataz e do inspetor.

Por causa do tempo que já havia passado, eu estava um pouco mais confiante em que talvez não precisássemos deixar a casa, e com a volta da Claudina perdi um pouco da tristeza que me acompanhava desde aquela visita ao Babalaô Gumfiditimi, pois a minha amiga era sempre uma alegria para a casa. Em muitos momentos ela me lembrava a Titilayo ou o Ayodele. Comemoramos a volta dela em uma ocasião muito especial, a do seu aniversário, que para mim era motivo de alegria maior, pois quanto mais se aproximava do sétimo ano, mais eu me tranqüilizava em relação à sua condição de abiku.

Foi uma festa bonita, e o mestre Agostino não se importou de tocar um pouco de flauta, acompanhado do doutor Jorge, que eu nem sabia que tocava um instrumento. Também estavam presentes o Sebastião, o Tico, o Hilário, o Jongo, o Adriano, a Adeola, o Tiago, o Mateus, o doutor José Manoel, a sinhazinha e as três meninas, ou melhor, quatro, porque ela já carregava mais uma na barriga. Além, é claro, do seu pai, que me pareceu muito magro e triste, com jeito de doente. Eu tinha ido até a loja do alufá Ali para ter notícias e convidá-los, mas ninguém soube me informar o paradeiro deles, e a mesma coisa aconteceu na loja onde

morava o Aprígio. Acredito até que as pessoas soubessem, mas tinham medo de serem acusadas de traidoras pelo governo ou, pior ainda, pelos próprios pretos, pois não sabiam a quem davam informações.

Já estava quase escurecendo quando a polícia foi entrando em casa, mandando parar com aquela bagunça. Eram quatro soldados, que deviam saber que ali era a casa de uma preta, e se assustaram ao ver tantos brancos. Receberam merecida descompostura do doutor José Manoel, que disse que era advogado e que eles não podiam invadir uma casa daquele jeito, teriam que chamar e só entrar quando a porta fosse aberta e a permissão fosse concedida. Eles disseram que os pretos não tinham esse direito, mas o doutor José Manoel mandou que se retirassem e voltassem com o papel onde estava escrita a tal lei, ou então que batessem à porta, como pessoas educadas, e dissessem o motivo da visita.

Depois de acompanhá-los até a rua, o doutor José Manoel voltou dizendo que eles ficaram bastante assustados e com raiva, e tinham ido até a nossa casa para conferir uma denúncia de muito barulho, perturbação da ordem pública, acho. Mas eles conseguiram acabar com a alegria da festa e logo cada um tomou o rumo de casa, e nem conseguimos comemorar a boa nova dada pelo Hilário, a que estávamos

brindando

quando

os

policiais

nos

interromperam. Ele tinha acabado de contar que estava de casamento tratado com uma mulata de São Jorge dos Ilhéus, filha de um comerciante que revendia nossos charutos.

Foi um início de noite bastante tenso, pois os guardas poderiam esperar o fim da festa, para voltar quando ficássemos sozinhos. Adivinhando a preocupação, o doutor Jorge se ofereceu para nos fazer mais um pouco de companhia e contou sobre o trabalho dele, as aulas, os alunos e os pacientes. A Esméria comentou que em Á

África, independentemente de como se podiam chamar, eram as mulheres quem mais curavam os doentes, usando as ervas, as rezas e os segredos que só elas conheciam e passavam de mãe para filha. O doutor Jorge já tinha ouvido falar nisso, e também acreditava na cura pelas plantas e as usava pois nelas estão armazenados os melhores remédios. Ele nos contou sobre o diretor da Escola de Medicina, um médico que tinha estudado na Europa e era muito respeitado por lá, e que estava fazendo uma grande campanha sanitária na Bahia. Não sabíamos o que era isso, mas ele disse que o assunto era longo e explicaria tudo em outro dia, mesmo porque os policiais não tinham voltado e estava ficando tarde.

Naquela noite fiquei pensando bastante nele, no quanto era simpático, sábio, bonito e, como o pai, respeitoso com todas as pessoas, não importando se fossem brancas ou pretas.

Acho que esse pensar e ainda o medo de os policiais aparecerem durante a noite não me deixaram dormir direito. Naquela noite nada aconteceu, mas a preocupação não era infundada. Dois ou três dias depois da festa, comecei a vê-los rondando a rua, geralmente de dois em dois, mas sempre os mesmos quatro, que olhavam com muita atenção para a nossa casa, como se esperassem um pretexto qualquer para entrar. Contei ao doutor José Manoel e ele disse para eu não me preocupar, apenas manter os documentos em dia e à mão, e mandar chamá-lo caso algo acontecesse, porque bem sabíamos que pretextos podiam ser arranjados.

O doutor Jorge

Eu, que sempre tinha sido tão corajosa, por causa dos policiais estava com medo de sair de casa, e nem mesmo aceitei o convite do Babalaô Gumfiditimi para o caruru dos Ibêjis, preferindo fazer um só para nós, os de casa, mais o mestre Agostino e o doutor Jorge. Quando o médico chegou, percebi que não era apenas o medo que

me fazia ficar em casa, mas também a vontade de vê-lo, e por isso muitas vezes ficava na janela do meu quarto, no andar de cima, de onde dava para ver o quintal da casa dele. Sempre que chegava da escola, ele ia até o poço, no fundo do quintal, e puxava água para lavar o rosto e as mãos, e eu sabia em quais horários fazia isso.

Eu observava da janela, e às vezes até fechava a porta do quarto e vestia uma roupa mais bonita, que tirava logo em seguida, só para o caso de ele me ver, o que não seria possível se já fosse noite.

Às vezes eu o via, iluminado pelo lampião. Tinha vergonha de que as pessoas soubessem desse meu segredo, embora já houvesse muito tempo que eu e seu pai éramos apenas amigos, desde antes da viagem para Cairu. Não sei dizer por que sentia vergonha, e nem para a Claudina tive coragem de contar, talvez porque não soubesse se era correspondida. Em certos dias eu também me achava muito velha, ou pelo menos muito vivida, que são coisas diferentes, mas que me levavam a pensar que não teria a mínima chance com o doutor Jorge, jovem e bonito, um excelente rapaz.

Um dia perguntei à Claudina o que ela fazia quando sentia vontade de ter um homem, de se deitar com ele.

Fiquei surpresa quando ela perguntou se eu estava falando do doutor Jorge, pois só um cego não teria percebido meus olhares para ele, segundo ela, que inclusive achava que eu era correspondida, que ele também me olhava diferente, e provavelmente não dizia nada por não saber o que havia entre mim e seu pai.

A oportunidade para contar ao doutor Jorge que eu e o Alberto já não éramos mais homem e mulher um para o outro surgiu em uma noite quente de setembro, quando eu estava no quintal, pensando na vida e refrescando os braços e o rosto com água tirada do poço. Ele tinha batido à porta e a Claudina disse onde eu estava.

Levei um susto quando ele se aproximou e disse que era assim que deveria ser, que as pessoas precisavam se preocupar mais com a limpeza do corpo, principalmente das mãos que levavam comida à boca. Fazia um bom tempo que não nos falávamos, e ele disse que andava bastante ocupado, mas que, se eu tivesse tempo, gostaria muito de ter uma conversa comigo. Confesso que imaginei que fosse falar de um certo interesse por mim, e fiquei decepcionada quando perguntou sobre a minha participação na revolta. Achei que podia confiar nele, como já tinha feito quando estávamos escondidos nos subterrâneos da escola, e falei das tarefas que realizei antes de tudo começar. Quando perguntei por que queria saber tudo aquilo, se havia indícios de uma nova rebelião, ele respondeu que não, que apenas era um admirador do meu comportamento e que até mesmo tinha se deixado influenciar por ele, e me falou sobre algumas idéias pelas quais estava lutando e que poderiam causar inquietações em toda a cidade, ou melhor, já estavam causando.

Como eu quase não saía de casa, não sabia de nada, e pedi que me contasse. Foi assim que começamos a conversar quase todas as noites, quando ele chegava e ia até a nossa casa, onde ficávamos sempre no fundo do quintal, muitas vezes com você dormindo no meu colo.

Os mortos

O doutor Jorge era católico, mas dizia que a Igreja estimulava muitas superstições, sendo que uma delas, em relação aos enterros, prejudicava bastante a saúde de quem freqüentava as igrejas. Todos os fiéis queriam ser enterrados no território santo, ou seja, dentro das igrejas, e quanto mais perto do altar, melhor. Não só porque assim estariam mais perto de Deus, mas também para aproveitarem as encomendações dos fiéis que lá faziam orações. O que não sabiam era o quanto isso fazia mal à saúde. Certa vez, voltando de uma missa que

não chegou a acontecer, a Esméria reclamou que ninguém conseguiu permanecer no ambiente, tão forte era o cheiro dos corpos se decompondo.

Quando contei isso ao doutor Jorge, ele disse que esse era um dos problemas, o cheiro, ou miasma, mas era apenas a parte que a gente podia sentir, porque a que não se sentia, essa sim, era a pior de todas. Não me lembro direito da explicação dele sobre o que de fato eram os miasmas, mas sei que estavam por toda parte.

Nasciam na imundície dos becos, nas plantas se decompondo nos pântanos e charcos, no lixo e nos dejetos das casas atirados nas valetas das ruas, nos animais mortos deixados ao ar livre, nos restos dos matadouros e curtumes. Tudo isso junto era a causa de muitas doenças que às vezes atacavam boa parte da população, mais a decomposição dos mortos dentro das igrejas, um grande perigo para quem freqüentava principalmente as missas da manhã. Algumas pessoas morriam quando entravam nas igrejas e respiravam o ar infecto que ficava preso lá dentro durante toda a noite.

A morte também era quase certa para os trabalhadores que abriam as covas e tinham a falta de sorte de pegar as que abrigavam mortos recentes, pois a maioria das pessoas era enterrada em covas comuns, mediante o pagamento de esmolas. Poucos tinham dinheiro suficiente para pagar por covas particulares, que ficavam pertencendo a uma determinada família. Alguns mortos eram enterrados do lado de fora da igreja, no adro, que também era considerado terreno sagrado, embora menos nobre.

Para lá iam os escravos e os pobres que não tinham condições de pagar as esmolas exigidas pelos padres, e nem sempre eram enterrados como se devia, a sete palmos, ameaçando a saúde da população que vivia ao redor. O doutor Jorge contou sobre uma casa que tinha visitado a pedido dos moradores, de parede vizinha ao

átrio da igreja. O problema era a tal parede, de onde escorria um líquido gorduroso, infectado e malcheiroso.

Ninguém agüentava morar ali mais de dez, quinze dias, e os que não saíam doentes era porque, antes e por sorte, a fedentina conseguia poupá-los de problemas mais graves.

Eu nunca tinha prestado muita atenção àquelas coisas, pois não imaginava que alguns tipos de doenças podiam ser causados pelo que ele chamava de falta de saúde pública. A cidade ficava doente e, junto com ela, os moradores. Além de falar muito sobre novos hábitos que deveriam ser adotados, os médicos e vereadores da capital tinham conseguido aprovar uma lei que dizia que os mortos tinham que ser sepultados em lugares próprios para eles, os cemitérios. Mas ser enterrado em cemitério era motivo de desprestígio para o morto, e a família fazia o possível para evitar. Existiam poucos cemitérios na cidade, como o do Campo da Pólvora e alguns outros criados pelas principais irmandades, mas tinha-se a idéia de que para eles iam apenas os suicidas, os criminosos, os indigentes e os escravos.

No caso dos escravos, se fossem mesmo enterrados, porque muitas vezes, principalmente nas fazendas, eram abandonados ao ar livre, à fome dos bichos ou, quando muito, em uma cova que não resistia às chuvas mais intensas e insistentes ou ao cavoucar de animais atraídos pelo cheiro. Foi o doutor Jorge quem me contou que todos os pretos que morreram na rebelião dos muçurumins tinham sido enterrados no Campo da Pólvora.

Além de convencer a população de que seria melhor para os vivos mandarem os mortos para um cemitério, havia ainda outro grande problema. Os enterros dentro das igrejas ou dos depósitos de corpos nos carneiros das irmandades eram negócios dos quais os religiosos não queriam abrir mão. Ganhavam dinheiro para preparar e

transportar os corpos nos bangüês ou caixões, com a venda de mortalhas, com a esmola que os parentes davam para que o morto conseguisse um bom lugar dentro das igrejas e com a encomenda de missas, que às vezes chegavam aos milhares, para todo o sempre.

Mas não eram apenas os religiosos que lucravam com os mortos, pois boa parte da população pobre também era paga para acompanhar enterros, porque um grande número de pessoas significava maior prestígio para o morto, como também se dava grande valor ao número de rezadeiras e carpideiras, funções exercidas pela maioria das pretas velhas da capital. Tudo isso poderia acabar com a vigência da nova lei que proibia o enterro nas igrejas e irmandades, função que passaria a ser exercida exclusivamente e, se não me engano, por um período de trinta anos, por uma empresa que tinha acabado de construir um cemitério novo, o Campo Santo.

Essa empresa, de acordo com o doutor Jorge, pertencia a alguns médicos e comerciantes ricos que queriam adotar em São Salvador o que já estava sendo feito nas mais importantes capitais da Europa. Os sócios da empresa e os que eram favoráveis ao projeto deles foram chamados de cemiteristas, e tinham a antipatia de toda a população, pelos mais diversos interesses. Como o cemitério era afastado da cidade, eles pretendiam usar carros funerários, o que tornaria bastante difícil o acompanhamento dos esmoleiros, que não teriam mais tempo de voltar à cidade e participar de várias cerimônias por dia. Então, um dia antes de a lei entrar em vigor, houve uma grande revolta, que ficou conhecida como Cemiterada.

A Cemiterada

Antes mesmo de o sol nascer, começamos a ouvir um repicar de sinos sem igual, e a Esméria comentou que devia ser o enterro de algum figurão. Pouco depois do

desjejum, o mestre Agostino apareceu na nossa casa bastante preocupado, pois o filho achava que algo estava sendo tramado contra a inauguração do Cemitério do Campo Santo, marcada para o dia seguinte. Não demorou muito para que seus temores se confirmassem, com a chegada do Sebastião dizendo que o centro da cidade estava em polvorosa.

Todas as igrejas dobravam os sinos e convocavam os fiéis para marcharem contra a profanação dos enterros, aos quais também se juntaram os membros das irmandades, tanto as de brancos quanto as de pretos. Os manifestantes estavam na Praça do Palácio, depois de uma concentração na Praça do Terreiro, no adro da Ordem Terceira de São Francisco, e eram milhares de pessoas, com os membros das irmandades e os padres vestindo roupas cerimoniais, carregando cruzes, bandeiras e um documento contra o cemitério, assinado pelas pessoas mais importantes da cidade pedindo que a lei fosse suspensa. Senti vontade de ir até lá ver o que estava acontecendo, mas fui impedida pela Esméria, que comentou que aquilo podia acabar mal e eu precisava evitar confusões.

Não achei que manifestações feitas por religiosos representassem grande perigo, mas resolvi acatar a sugestão. Pelo menos até a chegada do Alberto, logo após o almoço, pois ele contou que, ao passar pela Praça do Palácio, soube que o presidente da província tinha cedido ao apelo da população e adiado a aplicação da lei.

Mas, ao contrário do que se imaginava, o povo não se contentou com isso e resolveu ir até o cemitério para festejar a vitória e mostrar aos hereges que a vontade de Deus tinha prevalecido. Fui até a casa do mestre Agostino para saber se ele tinha mais notícias e encontrei a porta fechada.

De lá parti para a rua, pois não conseguiria ficar em casa

sem

saber

o

que

estava

acontecendo,

principalmente ao doutor Jorge. Temia que, como tinha acontecido aos portugueses, os manifestantes se achassem no direito de atacar os cemiteristas, entre os quais ele seria facilmente identificado, pois era um dos que sempre falavam em praça pública sobre o benefício de se manter os mortos longe dos vivos. Eu sabia que não poderia fazer nada, mas a curiosidade e a preocupação foram maiores que o bom senso. Como o Alberto tinha contado que os manifestantes queriam ir até o Campo Santo, fui direto para lá, sendo uma das primeiras a chegar.

Fiquei assustada quando vi aquela multidão raivosa se aproximar armada de pedras, machados, alavancas e outros instrumentos, grande parte vestida com as capas das irmandades, dando socos no ar e gritando "Morra cemitério!". Havia apenas cinco guardas vigiando o cemitério e, por cima do muro, vi algumas pessoas lá dentro e imaginei que o doutor Jorge pudesse estar entre elas, mas depois soube que eram operários terminando as obras.

Eu queria avisá-lo para que fugisse pelos fundos, porque a multidão se aproximava com jeito de que queria acabar com tudo, e estava tentando pular o muro quando recebi voz de prisão. Acredito que os guardas queriam apenas um pretexto para abandonar o local, que se tornaria perigoso para eles, em minoria, e fui conduzida pelos cinco até a Cadeia Municipal. Foi uma longa caminhada, de quase uma hora, durante a qual soube que estava sendo presa, injustamente, por perturbação da ordem pública. Quem visse a cena poderia achar que eu era uma pessoa muito perigosa, escoltada por cinco guardas armados.

Nova prisão

Na cadeia, éramos três presos pelo mesmo motivo, aguardando para conversar com o chefe de polícia, mas

já tinham anotado nossos nomes e nossas moradas. Eu estava pensando em como avisar o doutor José Manoel quando o doutor Jorge entrou e ficou muito surpreso de me ver ali. Uma série de desencontros tinha nos levado à cadeia e, para minha sorte, ele conseguiu me tirar de lá, a mim e aos dois homens, alegando que nada poderiam provar contra nós e que, portanto, era ilegal permanecermos presos.

Como ele tinha se apresentado como doutor Jorge apenas, acho que os policiais pensaram que se tratava de um advogado e não de um médico, acataram a defesa e nos soltaram, não sem antes fazerem com que ele assinasse um termo de responsabilidade. Enquanto caminhávamos para casa, ele disse que estava à procura do pai quando me encontrou. Tinha chegado em casa e encontrado tudo vazio, a casa e a barbearia, e foi perguntar à Esméria se ela sabia do paradeiro do mestre Agostino. A Esméria disse que tinha estado com ele de manhã, muito preocupado com o paradeiro do filho, mas que depois disso não sabia mais, e que eu também tinha saído à procura dele. Por isso a surpresa quando me encontrou na cadeia, onde tinha ido depois de procurar nos lugares por onde o pai poderia ter passado, como na escola. Ele não sabia que a manifestação tinha rendido presos, mas conhecendo bem o pai que tinha, que se exaltava quando o assunto eram os filhos, resolveu dar uma passada na cadeia, por desencargo de consciência.

Àquela hora, o mestre já estava em casa e nos recebeu com imenso alívio, pois tinha conhecimento de que a situação estava bastante feia para os lados do Campo Santo. Na tarde do dia seguinte, a Claudina contou o que tinha ouvido pelas ruas, dando conta de que a destruição

tinha

sido

total.

Os

manifestantes

derrubaram paredes, muros e portões, quebraram janelas e portas, arrancaram os mármores de algumas sepulturas, destelharam a capela e roubaram os paramentos, queimaram os panos fúnebres e os carros

funerários e levaram os destroços como troféus até a Praça do Palácio, onde, enfim, foram dispersados pela polícia. Tudo isso sem que ocorresse qualquer outra prisão, somente a minha e a dos dois homens, que nada tivemos com aquilo. Um grande azar para mim, ou então a mão do destino, que já começava a me indicar a nova direção a seguir.

Depois disso, fiquei com mais medo ainda de sair às ruas ou de, a qualquer momento, ser procurada em casa pela polícia. Novas levas de pretos continuaram sendo deportadas, e eu não queria ser incluída entre elas.

Aproveitei a reclusão para aumentar a produção de charutos, o que deu um bom dinheiro naquele final de ano. Mas não era só nesta parte que estava tudo bem, pois eu e o doutor Jorge começamos a nos deitar, depois que ele ficou sensibilizado ao saber que eu tinha saído às ruas à sua procura durante a Cemiterada.

Era uma situação no mínimo divertida, porque ele dormia muitas noites na nossa casa, onde também estava o seu pai, que, quando não estava bêbado, conversava longamente com o médico. Os dois tinham idéias políticas bastante parecidas e torciam para que os federalistas assumissem o poder. O doutor Jorge disse que aquilo era bastante raro em um português, e muito mais raro ainda em dois portugueses, depois de saber que o doutor José Manoel também tinha as mesmas idéias, durante uma visita que todos nós fizemos à casa da sinhazinha, logo que nasceu sua quarta filha. O

Alberto se deu tão bem com o doutor Jorge que fez a ele confidências que não tinha feito nem a mim, sobre o casamento com a Ressequida. Foi o doutor Jorge quem me contou que seu pai estava passando por grandes dificuldades, pois a mulher tinha conseguido mesmo ficar com todos os bens e a administração do dinheiro.

Como se não bastasse, a Ressequida ainda o desrespeitava, pois toda a cidade sabia que ela tinha

vários amantes, sustentados com o dinheiro que negava ao Alberto. Fiquei com pena, e mais ainda quando o doutor Jorge comentou que achava que seu pai ainda gostava de mim e que se eu quisesse ou desse qualquer sinal de que aceitaria, ele ia querer voltar a morar comigo como marido e mulher. Hoje penso se não deveria ter facilitado as coisas chamando-o de volta, porque a nossa história teria sido diferente. Mas, na época, tudo o que eu sabia era que não gostava mais dele, não como marido e mulher, embora ainda tivesse muita consideração, principalmente por ele gostar tanto de você.

Equívocos

Até o mês de novembro, o ano de um mil oitocentos e trinta e sete tinha transcorrido bem, como sempre acontece antes das grandes atribulações. Não sei se os períodos de calmaria são avisos ou dádivas, pois parecem nos aconselhar prudência e economia de forças. Em junho, comemoramos muito o seu aniversário de sete anos, que eu considerava um presente. Talvez nem devesse ter agradecido tanto, pois tal presente foi cruelmente tirado de mim, como se eu tivesse feito uma confissão de que não o merecia. Na festa, seu pai chorou feito criança, o que também me levou às lágrimas, por imaginar que ele se comovia com o fato de o filho estar crescendo. Como mais tarde tive raiva daquele momento! Ele já podia muito bem estar se sentindo culpado pelo que pensava em fazer, pode ser que a idéia já estivesse tomando forma.

Comemoramos também o dia de São Cosme e Damião, no final de setembro, com um almoço no sítio do Babalaô Gumfiditimi. O Alberto ficava cada vez mais na nossa casa, o que era muito bom para você, embora já tivesse idade para perceber quando ele estava bêbado.

Presenciei a sua infelicidade muitas vezes, quando ele não tinha condições de brincar ou mesmo de conversar.

Durante todos esses anos, eu sempre me lembrei dele com ódio, e só agora, depois de relembrar esta história desde o começo, entendo que tudo passou e que, apesar da mágoa, ainda consigo pensar nele com um pouco de carinho.

Como terá sido para você? Tenho imensa curiosidade de saber disso, de saber até que ponto você conseguiu perdoá-lo e a mim também, de saber quanto você conhece desta história toda. Assumo minha parte da culpa, e por ela me penitenciei em cada um dos dias que se passaram, na esperança de que você entendesse isso e não sentisse tanta raiva. Nem tanto por mim, mas por você mesmo, para que seu coração estivesse mais livre e menos preocupado para poder traçar o destino grandioso que eu sempre soube estar reservado para você.

Acho que o início da etapa seguinte da nossa vida pode ser marcado por uma conversa que ouvi entre o seu pai e o doutor Jorge sobre um médico, o doutor Sabino, diretor da Escola de Medicina, que esteve envolvido na Cemiterada. Nos jornais de toda a Bahia, que eram muitos naquela época, mesmo que lançados para ter um único número, falava-se cada vez mais de federalismo e separatismo. Eu gostava de ouvi-los discutindo as principais notícias que saíam nos jornais, não só sobre o que se passava na Bahia, mas também em outras províncias, como a do Rio Grande e a do Pará.

No Pará havia os cabanos, que já tinham sido vencidos mas ainda ofereciam alguma resistência. No Rio Grande havia os farroupilhas, que, se não me engano, já tinham fundado a República do Rio Grande, tendo como presidente o general Bento Gonçalves. O doutor Sabino, quando participou de alguma rebelião ou quando foi condenado por um assassinato político, já não tenho certeza, no ano de um mil oitocentos e trinta e quatro, tinha ficado preso em uma cadeia do Rio Grande, e lá

ficou amigo do general Bento Gonçalves. Os grandes líderes eram considerados muito perigosos para ficarem presos em suas próprias províncias e, por isso, naquele ano de um mil oitocentos e trinta e sete, o general Bento Gonçalves estava preso na Bahia, no Forte do Mar.

A prisão dele foi muito comentada nos jornais, principalmente depois que conseguiu fugir com a ajuda dos companheiros federalistas e dos maçons. Quanto a essas irmandades maçônicas, que eu nunca consegui entender direito como funcionavam, diziam ser verdadeiros criadouros de revolucionários. Foram eles que planejaram e puseram em prática a fuga do general Bento Gonçalves, que primeiro foi escondido na Ilha de Itaparica e depois mandado de volta para o Rio Grande, em um navio de carga que ia para Montevidéu. Mas foi durante sua estada no Forte do Mar que o federalismo ganhou força na Bahia. Acredito então que tudo aconteceu por influência dele, mas também das idéias de uma revolta ocorrida na França anos antes, e do modo de governo dos Estados Unidos da América, onde cada província era considerada um país. Lembro-me de que os jornais faziam verdadeiras guerras para ver quem defendia melhor a separação da Bahia do resto do Brasil, e faltava apenas pôr tal idéia em prática. Não entendo muito bem por que não deu certo, mas acho que mais uma vez os federalistas contavam com o apoio dos pretos, escravos e libertos, o que não aconteceu, porque todos estavam com medo das represálias, menos de três anos depois da rebelião dos muçurumins.

Contavam também com a grande influência do doutor Sabino, que, além de ser mulato e pobre, ajudava muito a população, atendendo sem cobrar nada. Diziam que o coitado mal conseguia dormir, pois quando não estava na Escola de Medicina, passava todo o tempo livre socorrendo as pessoas que o procuravam em casa, a qualquer hora do dia ou da noite. Foi ele quem, junto com três companheiros, no dia sete de novembro, se

dirigiu ao Forte de São Pedro e pediu ao corneteiro que executasse um determinado toque, a senha para começar a rebelião. Toda a guarnição do forte já estava de sobreaviso, e logo outras companhias militares se uniram a eles, inclusive a que tinha sido convocada para atacá-los e que desertou assim que foi dada a ordem de abrir fogo. Houve algumas manifestações do povo na Praça do Palácio e logo os principais líderes redigiram um documento declarando o governo da Bahia desligado do governo geral.

Desde a abdicação do D. Pedro I, o Brasil estava sendo governado pelos tutores do futuro D. Pedro II, e o doutor Sabino queria manter a Bahia independente até que o rapazinho atingisse a maioridade e subisse ao trono, pois, ele sim, era um brasileiro. O doutor Jorge sugeriu que eu não saísse de casa naqueles dias, pois embora parecesse que a rebelião tinha sido vencedora quase sem resistência, as coisas ainda não estavam bem resolvidas, e mesmo entre os revoltosos havia muitas discussões. Acredito que muitos pretos também estavam seguindo o mesmo conselho, porque nem o Sebastião nem o Tico ou o Hilário apareceram na nossa casa, onde já estava começando a faltar comida. Desde a revolta dos muçurumins, quando acharam que eu não deveria ficar circulando pela cidade, era sempre um dos meninos que comprava boa parte dos alimentos para nós.

Mas, na falta deles, resolvi ir até o mercado para comprar o que tinha acabado e fazer algum estoque, principalmente porque não sabíamos por quanto tempo aquela situação ia se arrastar, pois havia rumores de que as tropas fiéis ao governo pretendiam sitiar a cidade por terra e por mar. Como sempre acontece nesses casos, com medo da fome ou de ficarem presas nas cidades, as pessoas começavam a se exaltar. Foi o que achei que estava acontecendo quando vi três policiais espancarem um preto velho, provavelmente louco, que gritava vivas à República e ao Rio de Janeiro.

De longe, percebi que tinham machucado bastante o coitado, que nem se mexia, e quando eles se afastaram, dando vivas à nova República da Bahia, eu me aproximei para ajudá-lo. Assim que me certifiquei de que o homem estava vivo, comecei a pedir a ajuda dos que passavam para levá-lo até a Santa Casa, a pouca distância de onde estávamos, no Terreiro de Jesus. Ninguém se aproximou, e quando percebi que até se afastavam com certa pressa já era tarde para fazer o mesmo, pois os policiais tinham voltado e me agarravam por trás, pelos braços, acusando-me de ser contra o novo governo.

Tentei explicar que não era nada disso, que eu só não queria deixar o velho morrer sem atendimento, mas não quiseram saber de nada. Menos de quinze minutos depois eu estava novamente em uma cela no subsolo da Cadeia Pública, junto com mais duas mulheres. Senti muita raiva e chorei por horas seguidas, principalmente depois que percebi que não seria ouvida, que tinha sido atirada dentro da cela como presa política, e que provavelmente não haveria alternativa para a sentença de deportação. Pensava que nem ao menos conseguiria me despedir de vocês ou arrumar um jeito para que vocês fossem embora do Brasil junto comigo, pois ninguém sabia onde eu estava. Havia algum tempo que eu tinha desistido de participar de revoltas de qualquer natureza, querendo apenas trabalhar e levar uma vida tranqüila, com algum conforto e a possibilidade de proporcionar a você o futuro com que eu e seu pai sonhávamos.

E naquele momento tudo isso me pareceu distante e impossível. O segundo dia presa foi ainda mais desesperador,

pois,

conversando

com

minhas

companheiras de cela, descobri que elas estavam presas havia muito tempo, sem que nenhuma providência fosse tomada para resolver seus casos, nem mesmo um julgamento. Uma delas, a Celina, tinha matado o marido que a espancava, e a outra, a Luísa, coincidentemente o

mesmo nome de branco que eu usava, estava lá desde a rebelião dos muçurumins, quando tinha sido denunciada por uma vizinha invejosa. Nem sei dizer da minha alegria quando o doutor Jorge me encontrou no quinto dia, depois de me procurar pela cidade inteira. Ele tinha se lembrado da primeira vez que foi até lá me buscar, quando da Cemiterada, e achou pouco provável que me encontrasse presa novamente, mas resolveu arriscar, porque já tinha esgotado todas as outras possibilidades.

A fuga

No mesmo dia, mais tarde, o doutor Jorge voltou com o doutor José Manoel, e eles disseram que não conseguiriam obter minha liberdade por meios legais, por eu ter sido formalmente acusada de ser contra o novo governo, mas dariam um jeito, e foram conversar com o doutor Sabino. Ele também não podia mandar me soltar para não criar problemas com os companheiros, mas prometeu facilitar uma fuga. E assim aconteceu, sem que eu soubesse de antemão sobre esse arranjo, sendo necessário que o guarda encarregado de recolher as vasilhas em que eram servidas as refeições avisasse que a porta da cela estava aberta. Provavelmente o descuido proposital tinha sido do encarregado de levar as refeições, sem que percebêssemos, pois nunca poderíamos imaginar uma fuga assim tão fácil. Saímos uma a uma para não chamar atenção, e o doutor José Manoel, o seu pai e o Tico estavam me esperando do lado de fora.

Fomos direto para casa, de onde não saí nos dias seguintes. Eu estava ficando medrosa diante da idéia de voltar para a cadeia ou de ser mandada embora sozinha, ou pelo menos era assim que interpretava aquele aperto no peito. E foi melhor mesmo permanecer enganada, porque não conseguiria suportar os acontecimentos reservados pelo destino sabendo que nada poderia fazer para evitá-los. Acho que foi por causa desse medo que,

no dia em que o doutor Jorge apareceu em casa e disse que as coisas não iam nada bem, aceitei de imediato a sugestão dele, em concordância com o seu pai e a Esméria. Eles achavam que em breve a rebelião federalista seria vencida, pois a cidade estava sitiada e a população já começava a se revoltar contra a falta de alimentos.