Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 9 de 12 · parte 2/6

Páginas do PDF

Um Defeito de Cor

Capítulo sete

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

E foi somente alguns dias depois da partida do Alberto que voltei a prestar atenção neles, tentando me inteirar do que realmente estavam fazendo ali, dividindo um poço e um quintal comigo.

A Esméria já tinha chamado minha atenção para a tristeza do João Badu depois da morte do Banjokô. Às vezes ele pegava o cavalo de madeira e ficava andando em círculos no quintal, e para quem perguntasse o que estava fazendo, ele apenas balançava a cabeça, abria um riso triste e olhava para o céu dizendo que aquele era o brinquedo preferido do menino. Para sofrer um pouco menos, eu queria que o João Badu entendesse o que eu já entendia, que o Banjokô tinha partido porque assim quisera, e que não havia nada que pudéssemos ter feito para impedir. Mas eu sei que era difícil, e a Esméria disse que não adiantava tentar explicar, que o João Badu também queria morrer, e, à espera disso, nem tinha se interessado pelo meu pedido de plantar um jardim na nova frente da casa.

O Sebastião o encontrou morto pela manhã, com o rosto sereno de quem parecia dormir depois de um dia muito cansativo. Agradeci quando o Fatumbi se ofereceu para cuidar do funeral porque, por mais que eu gostasse do João Badu, a lembrança da morte do Banjokô ainda estava muito viva, assim como a amizade que havia entre os dois. Despedi-me do corpo quando saiu de casa, levado por pessoas da Irmandade de Nossa Senhora da Soledade Amparo dos Desvalidos. A confraria tinha sido fundada no ano anterior na Capela dos Quinze Mistérios,

e abrigava tanto cristãos como muçurumins, entre eles alguns amigos do Fatumbi.

Os charutos

Foi também por intermédio do Fatumbi que os muçurumins da loja se interessaram em trabalhar na produção de charutos, depois que o Tico, o Hilário e o Nego Ginga voltaram do Recôncavo com o conhecimento e o material necessários. Eles já tinham comprado as folhas de fumo fermentadas e envelhecidas, prontas para serem enroladas, o que tinha que ser feito com firmeza suficiente para que o charuto não ficasse nem mole nem apertado demais, impedindo a fumaça de circular dentro dele.

Não sei se ainda é assim que se fabrica um charuto, mas lembro que fazíamos os miolos com folhas torcidas e colocávamos dentro de fôrmas, onde ficavam prensados por mais ou menos uma hora. Depois enrolávamos os miolos nas folhas mais inteiras, cortadas ao meio, que são as capas do charuto, escolhidas entre as mais bonitas. Havia várias qualidades e tamanhos de charutos, e os meninos acharam que seria melhor fazermos um de qualidade e tamanho médios, por serem mais fáceis de vender.

Tinha mais ou menos seis polegadas de comprimento por quase uma de largura, baseada na medida de um anel de madeira por onde o charuto deveria passar.

Quando ele estava no tamanho certo, aparávamos as pontas e colocávamos nelas uma cola feita com uma mistura de plantas, que também já recebíamos pronta.

Tinha que ser essa cola, nenhuma outra servia, pois ela não soltava nenhum tipo de cheiro ou de gosto, o que podia estragar um bom charuto. Depois de pronto, ele era colocado dentro de uma caixa, onde ficava descansando por mais de um mês, e então dávamos o acabamento com bonitos anéis de papel que o Fatumbi

recortava, desenhava e colava, um a um, com a nossa marca: São Félix, em homenagem à cidade onde o fumo era plantado. Com a ajuda dos muçurumins, que recebiam por charuto enrolado, fizemos a conta e vimos que poderíamos produzir quase dez mil por mês, mas o Tico e o Hilário não tinham certeza de que conseguiriam vender tudo isso. Como experiência, fizemos apenas mil e resolvemos esperar para ver o que aconteceria. O

Fatumbi estava entusiasmado com o novo negócio, embora não se atrevesse a pôr um charuto na boca; nem ele nem os outros muçurumins.

Mas sempre dava boas idéias e caprichava muito nos anéis de papel, desenhados com tinta de arroz. Dizia que a apresentação era muito importante, pois mostrava a qualidade e o cuidado com que o charuto era feito. Eu admirava o Fatumbi cada vez mais, e pelo jeito você também, porque sempre que o via vestindo o abadá, pedia para colocar um que ele tinha dado de presente para você. Além da atividade de desenhista de anéis de charuto, ele era uma espécie de secretário do mala Abubakar, estava sempre tomando nota de tudo o que ele falava em papéis que depois passava para os outros lerem. Nessa época, também escreveu um texto falando sobre os problemas que os escravos forros enfrentavam nas ruas da cidade, que foi publicado em um jornal chamado O homem de cor.

As relações

Enquanto esperávamos que os charutos ficassem prontos para serem vendidos, fiz várias oferendas a Oxum, pedindo prosperidade. Não me esqueci também da minha avó, da minha mãe, do Kokumo, da Taiwo e, pela primeira vez ao honrar meus mortos, do Banjokô.

Sempre que você perguntava por ele, eu te contava histórias alegres, lembrava os passeios que vocês dois tinham feito e as coisas que ele gostava de te ensinar.

Certo dia, fomos visitar o orfanato da Adeola, e o Tiago e

o Mateus também ficaram muito tristes com a notícia da morte do seu irmão. O orfanato estava precisando de ajuda, não só dinheiro, mas principalmente pessoas que tivessem um pouco de tempo para dedicar às crianças, que já eram quase vinte.

A Adeola disse que, depois que o lugar se tornou conhecido, cinco crianças já tinham sido abandonadas na porta durante a noite, todas doentes e mal alimentadas. Se eu tivesse condições, ajudaria bastante, mas em muitas ocasiões a gente deve se ater ao que pode, e não ao que quer fazer. Prometi ir até lá sempre que pudesse e, claro, levando dinheiro, ou comida, ou roupa, o que pudesse conseguir. Achei que a sinhazinha também poderia ajudar e, na volta, passamos na casa dela, onde você gostou de brincar com as meninas. Elas estavam grandes e muito ansiosas com a chegada do irmão ou da irmã, que estava para nascer a qualquer hora.

Como tinha feito um novo enxoval e muitas roupas das meninas perdiam o uso ainda novas, a sinhazinha prometeu que mandaria tudo para as crianças da Adeola, bem como uma ajuda em dinheiro, já que isso não era problema para ela. Foi a primeira vez que nos encontramos depois que eu me mudei do sítio, e ela comentou que estava muito triste pelo fim da minha relação com o Alberto. Disse que tinha sido convidada para uma recepção no sobrado, organizada pela Ressequida, mas não quis ir. Primeiro, por não estar mais saindo de casa por causa da barriga enorme, mas também, e principalmente, por minha causa. O doutor José Manoel também não tinha ido, mas sabia que os comentários eram unânimes, entre os amigos comuns dele e do Alberto, de que ninguém gostava dela.

Não tive coragem de comentar com a sinhazinha que eu e seu pai tínhamos feito um acordo para continuarmos juntos, mesmo ele estando casado, mas sabia que ele

também compartilhava a opinião dos amigos sobre a Ressequida. Ele percebeu que tinha cometido um grande erro se casando com ela, e eu inclusive tinha ficado sabendo por intermédio do Júlio que eles não dormiam no mesmo quarto. Tinham brigado muito em uma noite em que o Alberto voltou bêbado para casa, depois de jogar em casa de amigos. Os jogos não eram mais permitidos no sobrado, a não ser os organizados por ela, durante a tarde e com a presença de algumas amigas.

Mas ela brigou com o Alberto e disse que não ficava bem para um homem casado andar em casa de amigos sem a esposa, ainda mais de amigos solteiros. O Alberto protestou, dizendo que continuaria saindo quando e com quem bem entendesse, e depois disso a discussão ficou bastante feia. Eu ficava feliz com tais brigas, mas não podia deixar de dar razão a ela, pois achava que os jogos e a bebida eram dois péssimos vícios. Quando estava conosco, ele quase não bebia, mesmo porque eu fazia questão de não ter bebida em casa, mas se a estada se prolongava um pouco mais, ele arrumava um jeito de beber fora de casa, voltando para dormir com uma expressão de quem sabia que tinha feito algo errado, mas que não conseguia controlar o desejo de continuar fazendo.

O Tico e o Hilário venderam todos os charutos da primeira leva e disseram que havia mercado para muito mais. De novo com a ajuda do Nego Ginga voltaram ao Recôncavo e compraram mais tabaco, combinando entregas a cada quinze dias. Como não tínhamos um bom local para armazenar as folhas e evitar que elas pegassem umidade ou alguma praga, as entregas eram feitas já às vésperas de trabalharmos com os fardos novos. Começamos a produzir mais de mil charutos por semana, que os meninos negociavam com comerciantes do sul da província, onde conseguiram contratos que garantiam a compra de quase toda a produção.

O Nego Ginga tinha muita paciência para nos falar de todos os segredos e cuidados que garantiam um bom charuto, e fazia isso com tanta simpatia que até os muçurumins gostavam dele. As aulas eram dadas na sala da minha casa, já que eles não permitiam que quase ninguém entrasse na loja. Eu mesma só consegui entrar lá depois de provar que merecia confiança, mas sabendo que muitos assuntos não eram tratados na minha frente.

O Ajahi estava sempre por lá, desde que tinha conseguido comprar dos Clegg a carta de alforria e começado a trabalhar como carregador de cadeirinha, função que oferecia maior liberdade para circular sem ser incomodado.

Quando eu estava pensando em separar alguns charutos para dar de presente ao doutor José Manoel, para que ele distribuísse no dia do nascimento, chegou a notícia de que a criança, outra menina, tinha nascido havia quase uma semana, mas não tinha vingado. O doutor José Manoel mandou recado para saber se eu e a Esméria poderíamos visitar a sinhazinha, que estava inconsolável. Só então ela quis saber como eu tinha me sentido após a morte do Banjokô, reconhecendo que perder um filho de nove anos era muito mais doloroso do que outro que mal acabara de nascer.

Falei toda a verdade, disse que sentia muito, mas que, para o bem do meu filho, que devia estar contente no Orum, eu não tinha o direito de ficar me lamentando. No nosso primeiro encontro depois da morte do Banjokô ela ainda estava pejada, e percebi que não queria tocar no assunto. Pediu desculpas por isso, dizendo que não tinha sido descaso com a minha dor, mas sim porque pressentia que alguma coisa de ruim aconteceria com a criança que estava esperando, e por isso não queria pensar e muito menos falar em morte.

Quando saímos do solar ela parecia mais tranqüila, mais conformada, mesmo porque tinha sido examinada por

um médico que garantiu que não havia nada de errado com ela, que ainda poderia ter quantos filhos quisesse.

Ela me pediu para entregar à Adeola todo o enxoval feito para o anjinho que não vingou, mesmo depois de saber que não recebiam bebês, que talvez quisessem o enxoval apenas para vender e comprar algo de que precisassem.

Eles não recebiam bebês porque era muito mais difícil para as crianças maiores encontrar um lar que as abrigasse. Os bebês mandados para lá, a Adeola levava até uma chácara nas proximidades do Dique do Tororó, onde irmãs de caridade e outros benfeitores tinham mais condições de cuidar deles. Mais tarde, já em África, fiquei sabendo que no local foi instalada uma pupileira.

O começo

Se não falo muito sobre o Banjokô é porque realmente tinha me conformado, pois, desde o nascimento dele eu convivia com a idéia de que o laço que o ligava ao ayê era muito mais frouxo que os laços das crianças que não são abikus. Mas não pense que fui mãe ingrata; a ausência dele sempre foi muito sentida, mas havia você, havia os vivos e o tempo de seguir vivendo. E como eu não precisava mais pensar em um jeito de ganhar dinheiro depois de tudo acertado com os charutos, voltei a me interessar pelos muçurumins e pelo que estavam planejando.

Eu sabia que era coisa muito importante, ou não teriam se dado ao trabalho e à despesa de levar para a Bahia gente de São Sebastião do Rio de Janeiro e da África.

Estávamos em pleno Ramadã, e alguns deles passavam o dia rezando, principalmente o mala Abubakar, que fazia dois meses de jejum, e não apenas um mês, como os outros. Nos dias e horários em que podiam trabalhar, eles se juntavam a mim, ao Sebastião, ao Jongo e ao Adriano, e passávamos o dia enrolando charutos na sala da nossa casa. Como era lá que também armazenávamos

as folhas de fumo, logo a casa inteira passou a exalar um cheiro difícil de agüentar, principalmente à noite, com as portas e janelas fechadas.

Então os homens se juntaram e em poucos dias construíram uma armação no quintal, perto do poço, e o Sebastião fez uma longa mesa de pés baixos na qual trabalhávamos, sentados sobre almofadas.

Aquele passou a ser o lugar preferido de todos, e acabávamos fazendo ali todas as refeições do dia, apenas afastando os instrumentos de trabalho. O único inconveniente era não haver paredes, mas esticávamos uma vela estragada de navio, arranjada por um amigo dos muçurumins, de tamanho suficiente para proteger dois lados da armação, que escolhíamos de acordo com a posição do sol, da chuva ou do vento. Quando o tempo não atrapalhava, ela era dispensada para dar lugar aos panos coloridos que a Fátima, a Binta e a Safya estendiam naquele espaço, que passamos a chamar de oficina. Foi ali que, aos poucos, começamos a ganhar a confiança dos muçurumins, que faziam um ou outro comentário sobre os planos da rebelião.

Eles pareciam ter papéis bem definidos, sendo que o mala Abubakar era o líder religioso, o que sempre comandava os cultos e a quem ouviam para solucionar qualquer problema que surgia entre eles. O mala Abubakar falava pouco, mas prestava grande atenção ao que todos diziam. Segundo ele, para aprender mais sobre as pessoas e saber aconselhá-las melhor. Na falta dele, ou quando estava muito ocupado, quem assumia suas funções era o Suleimane, e o Mussé e o Umaru elaboravam as estratégias de rebelião.

O Bacar e o Buraima, que já tinham morado na Bahia, eram uma espécie de informantes, andavam pela cidade conversando com os outros pretos e se inteirando do que acontecia, para então relatar tudo ao Suleimane, ao

Mussé ou ao Umaru, dependendo do assunto. Os lugares preferidos do Bacar e do Buraima eram as fontes de água logo pela manhã, quando muitos pretos de vários pontos da cidade iam buscar água para seus senhores e trocavam informações. Os dois também andavam pelo estaleiro e pelo porto, lugares onde havia sempre grande número de marinheiros e viajantes com notícias recentes de vários lugares da província, da África e da Europa. Os navios que chegavam da África eram os mais esperados, principalmente os do Daomé e arredores. Os marinheiros, sobretudo os que também eram escravos, sabiam das novidades pelos que tinham sido capturados pouco tempo antes, e conversavam sobre elas com os carregadores

que

faziam

o

desembarque

das

mercadorias, quase todos hauçás.

Estes

carregadores,

alguns

deles

muçurumins,

acompanhavam com muito interesse as guerras africanas, que mandavam para a Bahia um grande número de guerreiros capturados, fulanis, hauçás, bornus, nupês, mandingas e iorubás convertidos à religião do profeta. Sabendo do desenrolar das guerras africanas, os escravos da Bahia se sentiam ainda mais estimulados a fazer guerra do outro lado do oceano, buscando o maior número possível de aliados. Essas informações eram retransmitidas também aos que não eram muçurumins, tentando convertê-los ou pelo menos fazer com que ficassem do lado deles, caso tomassem a iniciativa de uma grande guerra na Bahia. Esse era o trabalho do Issa, do Issufo e do Tahir, os três que completavam a lista dos muçurumins que moravam na loja, e que também davam esclarecimentos a todos que iam procurá-los querendo se converter.

Todas as sextas-feiras, os muçurumins faziam cultos iguais aos que eu já tinha visto na casa do alufá Ali, mas que eram freqüentados por muito mais gente e tinham mais prestígio, celebrados pelo mala Abubakar. Às sextas, eles também sacrificavam carneiros e salgavam a

carne para que se conservasse por mais tempo, para ser vendida aos outros muçurumins. Eu ficava observando os cultos da janela do meu quarto, no andar de cima, e via também as festas que faziam depois dos sacrifícios, com muita comida e bebida. O Alberto não acreditou quando eu disse que não havia nada de álcool naquelas bebidas, tal era a alegria com que eles brindavam, dançavam e conversavam.

Àquelas festas compareciam os muçurumins mais importantes da cidade, e depois falarei sobre alguns deles, mas por ali eu vi e mais tarde tive contato com o Ahuna, que parecia ter quase tanta importância quanto o mala Abubakar, o alufá Pacífico Licutan, o mestre Dandará, o mestre Dassalu, o mestre Nicobé Sule e o mestre Sanin, além do Manoel Calafate, que eu já conhecia. Havia muito mais gente importante, ou que adquiriu importância conforme os planos da rebelião foram tomando corpo, e na hora certa também vou falar sobre eles.

As festas santas

Fiquei surpresa quando, no dia oito de dezembro, o Fatumbi me convidou para a festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia. A igreja, que tinha sido montada quase toda em Portugal e transportada em partes, era uma bonita construção feita de mármore que ficava na cidade baixa. Era a primeira vez que você entrava em um lugar daqueles e ficou admirado. Você não parava de olhar os ornamentos feitos em bronze e ouro e o teto pintado com imagens de santos, perguntando quem eram aquelas pessoas, mas nós não sabíamos responder.

Sabíamos apenas que também era dedicada a Santa Bárbara, que os escravos fingiam ser Iemanjá, a rainha das águas, motivo pelo qual a Esméria tanto insistiu em ir. Se ela se arrependeu eu não sei, mas depois de muito andar até lá ainda teve que ficar um bom tempo de pé,

porque estava tudo tão cheio de gente que foi difícil conseguir lugar para nos sentarmos até mesmo na escadaria. Dentro da igreja foi impossível, mas não estávamos interessados na missa, assistida pelos brancos e por alguns mulatos e pretos convertidos, todos muito elegantes. Eu me arrependi de não ter usado uma roupa melhor, porque do lado de fora da igreja, onde ficavam os pretos, todos estavam vestidos como se fossem a uma festa muito rica. A maioria vestia azul, cor associada ao mar e à sua rainha, e as pretas usavam as batas que deixavam um dos ombros descoberto, e muitos colares de corais e de ouro, o mesmo material dos braceletes empilhados até o cotovelo. Eram bonitas figuras, com as saias rodadas de tecido bordado e um pano do mesmo tecido para montar o turbante que cobria a cabeça, e muitas ainda tinham as cinturas marcadas com fieiras de ouro de onde pendiam figas e outros penduricalhos, que faziam barulho e marcavam o passo de dança que usavam para caminhar.

Eram, na grande maioria, crioulas, e eu as invejava porque nunca conseguiria ser como elas, ter aquele jeito de andar e de sorrir tão próprios da gente da Bahia. Os homens também estavam muito bonitos, alguns vestindo calça e paletó, outros vestindo batas, e ainda outros, mesmo em desrespeito à santa, tinham o tronco nu e a barra das calças enrolada até os joelhos. Eles se espalhavam pelos arredores da igreja e, nos lugares mais afastados, arriscavam rodas de batuque e capoeira, embaladas por instrumentos que faziam um som muito bonito.

As bandas de barbeiros também tocavam na porta da igreja, várias delas ao mesmo tempo, chamando a atenção do público por causa da animação e da altura com que executavam os números que tinham ensaiado.

Claro que isso tudo depois de acabada a missa e depois de ter saído uma procissão com a imagem de Santa Bárbara, que não acompanhamos. No mar, em frente à

igreja, estavam ancoradas embarcações de todos os tamanhos,

que

também

saíram

em

procissão, balançando ao vento as bandeirinhas coloridas que usavam de enfeite.

Ficamos até o entardecer e nos fartamos de comida nos vários tabuleiros montados no pátio da igreja, que vendiam de tudo que se podia imaginar, e depois alugamos uma cadeirinha para que você e a Esméria voltassem para casa, já que estavam muito cansados.

Caminhando logo atrás com o Fatumbi, fiquei sabendo que a rebelião seria marcada para um dia de festa de santo, e por isso ele e outros companheiros estavam participando de algumas das festas, as mais importantes, para observar quanto tempo duravam, a quantidade de gente que comparecia e o número de policiais que se deslocavam para lá, deixando o resto da cidade menos protegido. Com o mesmo intuito, participamos também da festa de Natal na cidade alta, mas fomos somente eu, você e o Fatumbi. Ele disse que, por estar acompanhado de uma mulher e uma criança, dificilmente chamaria atenção para o trabalho que estava fazendo.

Fomos para a região da Sé e do Terreiro de Jesus ainda na manhã do dia vinte e quatro, e a cidade já era uma grande festa. Apesar de ser uma festa católica, os pretos estavam todos nas ruas e achavam um jeito de comemorar à maneira da sua religião, como participar de um rancho chamado cucumbi, que vimos se apresentando no Maciel de Baixo. Aliás, perto do sobrado do seu pai. Durante todo o tempo fiquei imaginando o que aconteceria se ele estivesse por lá e você o visse, como ele reagiria ao seu chamado, principalmente

se

estivesse

acompanhado

da

Ressequida.

Até torci para que isso acontecesse, mas não havia a menor possibilidade, pois mais tarde ele disse que tinha

passado o Natal em uma casa de veraneio na província de Itapagipe. Procurando o rosto dele entre os muitos que se aglomeravam em volta do rancho, não prestei muita atenção à dança de homens e mulheres que se divertiam ao som de músicas de África, tocadas em tambores, atabaques, agogôs, maracas e sinos. Os que se apresentavam no cucumbi estavam vestidos com roupas castanhas e com enfeites de penas nos joelhos, o que você tentou imitar no dia seguinte no sítio, correndo atrás das galinhas para arrancar as penas delas. Pela cidade também andavam os ranchos de pastoras, que batiam de casa em casa, vestindo roupas brancas e chapéus de palha enfeitados com fitas coloridas, e com certeza o seu irmão teria adorado vê-las pelas ruas.

Havia também alguns grupos de cheganças, que representavam no meio das ruas ou das praças, alguns se fazendo de marinheiros, que eram os portugueses, que lutavam e venciam os que se faziam de turcos.

Você gostou mais da Burrinha, com seus enormes bonecos com cara de boi, de padre, de ema, de vaqueiro e da própria burrinha, é claro. Ficamos até depois da meia-noite na rua, o que era uma grande novidade para o Fatumbi, que evitava o sereno e tinha ficado o dia inteiro sem fazer as orações como deviam ser feitas. Mas ele achava que não tinha problema, pois estava cumprindo uma missão importante. À noitinha, os pretos que tinham se cansado do dia inteiro de diversão voltaram para suas casas, e os brancos começaram a sair em direção às igrejas para a Missa do Galo.

Iam famílias inteiras pelas ruas, rezando ou entoando salmos, com velas nas mãos e seguindo em filas que tinham o pai à frente, a mãe logo atrás, depois os filhos, e por último os escravos. Os pretos ficavam do lado de fora das igrejas, onde cabiam apenas os brancos, e ficamos sentados com alguns deles em frente à igreja da Ordem Terceira de São Francisco. Quando fomos embora, passamos pelas casas onde as famílias serviam as fartas ceias, um cheiro muito bom de comida lembrando que estávamos com muita fome. Sorte que, ao chegarmos em casa, o Jongo e o Adriano tinham preparado uma comida especial e guardado a nossa parte.

Ano-novo

No primeiro dia de janeiro, quando estávamos saindo para a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, seu pai apareceu de surpresa. Ele tinha tomado boléia em um dos barcos que saíam de Itapagipe para se concentrar em frente à Nossa Senhora da Praia, esperando a saída da procissão, que era feita no mar. Você quis ir mesmo assim, pois estava adorando aqueles passeios, e o Fatumbi disse que cuidaria de você, levando a Safyia no meu lugar. Foi bom porque assim pude ficar a sós com seu pai, aproveitando que a Esméria e o Sebastião tinham ido até a casa da sinhazinha, e o Adriano e o Jongo estavam visitando alguns angolas na Barroquinha.

Tomamos juntos o desjejum e fomos para o quarto, onde nos demos um ao outro e ficamos conversando, e seu pai me disse que estava muito arrependido de ter se casado.

Tentei fazer com que continuasse falando, mas ele não quis, disse que não tinha importância para mim o que estava acontecendo, e apenas queria que eu soubesse que, podendo, voltaria atrás. Foi bom você não tê-lo visto direito naquele dia, pois estava mais triste do que jamais tinha estado, e ao mesmo tempo que eu compartilhava a tristeza dele, sentia uma alegria que era só minha, como se o sofrimento dele vingasse o meu.

Ele só se alegrava nos momentos em que falava de você, perguntando as coisas de que você gostava, querendo saber dos seus interesses, se você falava nele, coisas assim. Perto da hora do almoço, fui pegar água no poço e os muçurumins estavam se preparando para servir a refeição na oficina, e nos convidaram. Eu falei que estava com o seu pai e eles disseram que se ele andava comigo devia ser boa pessoa, comentário que também acabou vencendo a resistência do Alberto.

No início estavam todos inibidos, sem assunto, e o Alberto ficou muito constrangido por se saber causador daquela situação. Eu já estava pensando em inventar um motivo qualquer e voltar para casa, principalmente quando alguns muçurumins começaram a conversar em árabe, o que dava a impressão de falarem de nós. Não estavam apenas os muçurumins da loja, e foi sorte o mestre Dandará dizer que achava que conhecia o Alberto, que, depois do comentário, também achou que o conhecia.

Os dois chegaram à conclusão de que já tinham se encontrado muitas vezes na loja de negociar fumo que o mestre Dandará, também chamado de Elesbão do Carmo, tinha no mercado de Santa Bárbara, e logo estavam conversando sobre preços e tipos de fumo e de charutos, a qualidade dos fumos da Bahia, tipos de folhas que eram mandados para a Europa e para a África, e quanto valiam por lá. O mestre Dandará já tinha falado com o Fatumbi para que vendêssemos nossos charutos na loja dele, o que depois se confirmou um excelente negócio.

O alufá Licutan e o mestre Sanin, também chamado de Luiz, entraram na conversa, pois trabalhavam como enroladores de fumo para seus donos, já que ainda não tinham conseguido comprar a liberdade. O mestre Dandará era hauçá e estava acompanhado da esposa, a Emerenciana, de quem gostei muito. As ricas roupas dos dois mostravam que estavam muito bem de vida, o que depois o Fatumbi confirmou, contando que tinham uma bela casa no Caminho Novo do Gravata, perto do Guadalupe, onde também eram realizadas algumas reuniões. Além de comerciar, o mestre Dandará dava aulas de leitura e escrita árabe em sua loja para

muçurumins recém-convertidos. Era bom que todos aprendessem a ler o árabe por causa do Alcorão e das cerimônias que realizavam na língua do profeta Maomé.

O mestre Agostino também apareceu para me cumprimentar pela passagem do ano e acabou sendo convidado.

No

início

os

muçurumins

ficaram

desconfiados, mas quando eu falei que o mestre Agostino tinha um filho que era militar e sabia muitas coisas que estavam acontecendo dentro dos quartéis, o Mussé e o Umaru logo arrumaram lugar para que ele se sentasse perto deles. Naquele dia ninguém falou de rebelião, foi apenas festa, mas depois o Fatumbi ficou bravo comigo por causa do mestre Agostino, e fui incumbida de saber a opinião dele sobre os muçurumins.

Quando vocês chegaram, já era quase noite e a festa estava no fim, restando apenas os moradores da loja.

Mesmo cansado, você quis contar ao seu pai tudo o que tinha visto durante o dia, e dava gosto ver os dois juntos, conversando. Ele ficou para dormir e só foi embora na tarde do dia seguinte, quando então fui conversar com o mestre Agostino.

Ele me recebeu com a simpatia de sempre e fez questão que entrássemos na casa dele, e não apenas na barbearia. Cerrou as portas para que não fôssemos incomodados e abriu um vinho do Porto, guardado para ocasiões especiais. A casa do mestre Agostino era simples e tinha alguma coisa que não combinava com o que eu conhecia dele, muito arrumada, com todas as coisas em seus devidos lugares, bem diferente da bagunça que era a barbearia, com todas aquelas lâminas e bisturis, capas para aparar cabelo e barba, agulhas, alicates, vidros com ungüentos e sanguessugas.

Fiquei somente na sala, mas deu para reparar o cuidado com que cada objeto ocupava um lugar que não poderia ser outro senão aquele, as figuras de santos pelas

paredes, a mesa coberta com toalha muito limpa, a canastra a um canto, as cadeiras como se nunca tivessem se afastado da mesa, uma coleção de copos muito bem ordenada por tamanho e cor dentro de um armário com portas de vidro.

Um aparador com uma jarra de pedra e uma moringa de louça esmaltada pintada de azul sobre uma bacia com desenhos do mesmo motivo, um castiçal com três velas novas, duas lamparinas pequenas com alças e mais duas grandes com os vidros brilhando de limpos. Puxo pela memória e é como se visse aquilo ainda hoje, nada com aparência de novo, mas muito bonito e apropriado. Ele reparou que eu estava olhando para tudo, admirada, e comentou que as coisas estavam do mesmo jeito que ela tinha deixado, referindo-se à mulher com quem se amasiara, a Margarida, que ele chamou de "minha flor"

com os olhos embaçados de lágrimas.

Constrangida, eu já pensava em ir embora quando ele perguntou se eu tinha algo importante para dizer ou se era apenas uma visita. A pergunta me desarmou e não consegui fazer como o Fatumbi tinha sugerido, fingir que era uma visita sem motivo e, no meio de uma conversa qualquer, perguntar o que ele tinha achado da festa e dos convidados. Não pude fazer isso com um homem que ainda amava tanto uma mulher que tinha o nosso sangue correndo nas veias, o sangue africano. Eu disse então que ia ser direta e gostaria de saber o que ele tinha achado dos muçurumins, se não tinha nada contra os muçurumins.

Ele sorriu novamente e respondeu que não, que há muito tempo tinha percebido que eles estavam na loja e deviam ser gente graúda, e que até simpatizava com eles. O mestre Agostino já morava na Bahia quando se deu a rebelião que acabou com a maioria dos hauçás muçurumins que havia na cidade, em um mil oitocentos e treze, e disse que eles foram muito corajosos, que

aprendera a admirá-los com a Margarida, a quem fizemos um brinde. Voltei para casa e disse ao Fatumbi que seus amigos não corriam perigo algum, e que, se precisasse, possivelmente tínhamos mais um aliado.

A simpatia pelos muçurumins, entretanto, não aconteceu com o Jongo e o Adriano, e eles voltaram da casa dos angolas dizendo que tinham arrumado outro lugar para morar. Perguntei se havia algum problema e o Jongo ficou relutante, mas depois comentou que achava que os muçurumins não os viam com bons olhos, que provavelmente tinham desconfiado do que existia entre os dois e não aprovavam. Tentei argumentar que não era bem assim, que eles deviam estar enganados, pois o Fatumbi era um muçurumim e sempre tinha convivido muito bem com os dois.

O Jongo confirmou que o Fatumbi nunca tinha sido hostil, como os outros muçurumins também não eram, mas que nunca trocara uma palavra sequer com eles, nem mesmo um olhar. Eu não tinha reparado nisso e pedi desculpas aos dois, dizendo que talvez não fosse o caso de irem embora, pois gostávamos muito deles e, se quisessem, eu até conversaria com o Fatumbi.

Mas eles estavam decididos, mesmo também gostando muito de nós. Disseram para não me importar porque já estavam acostumados com tratamentos como aquele, que acontecia mesmo entre os patrícios deles, ao lado de quem estavam indo morar. Se já estava tudo resolvido, eu não tinha mais o que dizer, e concordei na hora quando perguntaram se poderíamos fornecer charutos para eles venderem, caso conseguissem um ponto na Baixa dos Sapateiros. Dois dias depois eles foram embora, e me deixaram pensando em quantos éramos desde a mudança para aquela casa e quantos restavam, eu, você, a Esméria, o Sebastião, a Malena e o Fatumbi, sendo que dois estavam mortos e dois estavam de partida, e que um pouco antes da mudança ainda havia

mais quatro, o seu pai, a Zolá, o Mateus e o Tiago. Eu também sentia falta dos amigos dos quais tinha me afastado, como a Adeola, a Claudina e a sinhazinha, mas, para falar a verdade, não me sentia muito inclinada a procurá-las, de tão interessada nos muçurumins.

O Senhor do Bonfim

Em meados de janeiro, eu e o Fatumbi continuamos as visitas às festas de santos, e achei melhor deixar você em casa quando fomos passar quatro ou cinco dias em Itapagipe, para as festas do Senhor do Bonfim. Pegamos um saveiro em frente à Nossa Senhora do Cais e fomos admirando

a

cidade

vista

da

baía,

sempre

surpreendente, mesmo para quem já a viu muitas vezes.

Ficamos hospedados na casa de amigos muçurumins e recebemos uma espécie de féria diária de um caixa organizado pelo Sanin, que recolhia mensalmente de todos os muçurumins que pudessem pagar a quantia de trezentos e vinte réis, que era mais ou menos a féria de um dia de trabalho de um escravo de ganho. Esse dinheiro era usado para situações como aquela e para a compra e distribuição de livros do Alcorão, pagar alfaiates e tecidos para fazer abadás, para ajudar os muçurumins escravos que precisavam guardar o dia santo deles mas não eram aliviados da féria diária cobrada pelo dono, para fazer as festas santas e para ajudar na compra de alforrias.

Era uma quarta-feira e a festa do Bonfim começaria na quinta, mas, quando nos aproximamos do cais, já era grande o número de embarcações ancorando com pessoas de vários locais, principalmente do Recôncavo, que iam pedir graças ou pagar promessas. A igreja era uma construção imponente, não muito grande mas muito bonita, que ficava no alto da Colina do Bonfim, com a fachada coberta de azulejos brancos e muitos adornos por todos os lados. Ficava em uma região tranqüila, habitada por muitos pretos livres e brancos de condição

de vida mais simples, como pescadores, carpinteiros, alfaiates,

costureiras,

lavadeiras,

engomadeiras,

santeiros, sapateiros e vendedoras de comida. Mas também era onde estavam construídas ricas casas de veraneio pertencentes a comerciantes, militares e religiosos.

A baía ficou movimentada e barulhenta com a chegada de saveiros que soltavam rojões ao se aproximarem do ancoradouro, onde deixavam os romeiros, que subiam a colina entoando cânticos de louvor. Os donos da casa onde estávamos hospedados só chegariam no sábado e, com eles, outros muçurumins, pois eles tinham uma consideração muito especial pelo Cristo do Bonfim, ou Oxalá. A festa principal seria no domingo, mas na quinta-feira já foi realizada uma parte muito importante dela, a que mais gostei de presenciar, não só por estar na companhia de bons amigos que encontrei por acaso, como também pela história que fiquei sabendo, pois sempre gostei de ouvir histórias, como você. Eu te contei tudo o que vi e vivi naqueles dias em Itapagipe, mas acho que não deve se lembrar, faz muito tempo.

Uma das primeiras pessoas que eu e o Fatumbi encontramos em frente à igreja foi a Adeola, que estava acompanhada da Monifa, da Fayola e da Trindade, as três inteiramente vestidas de branco. Quando viu que eu tinha companhia, o Fatumbi disse que daria uma volta até o ancoradouro e pelas redondezas, e que também tinha marcado encontro com uma pessoa no Largo da Penha, mas que, se eu quisesse, poderia ficar com meus amigos.

Eu quis, e seria até melhor, porque enquanto ele olhava como era feita a segurança em outros locais, eu ficaria por ali fazendo o mesmo. Passei o dia com minhas amigas, e senti pena por não ter ido preparada para participar da lavagem da igreja junto com elas e muitas outras pretas que começaram a aparecer especialmente

para aquele momento, vindas dos mais diversos lugares da província. Todas se cumprimentavam e pareciam velhas conhecidas, como de fato eram, pois se encontravam ano após ano naquela data, em que aproveitam o Senhor do Bonfim para saudar Oxalá, o maior dos orixás.

Era grande o número de mulheres esperando para começar a lavagem e de pessoas para assistir, homens, mulheres e crianças. Quase todos pretos ou mulatos, mas também havia alguns brancos. O povo começou a aplaudir quando uma procissão surgiu ao pé da colina, com centenas de pretas carregando bilhas de água na cabeça, saudando os fiéis e os curiosos com ramos de palma e panos brancos. Elas tinham caminhado desde a igreja da Conceição da Praia, distante muitas léguas da colina do Bonfim.

Mas não pareciam cansadas, pelo contrário, e quanto mais perto chegavam da igreja, mais força tinham nas vozes e mais alegria nos rostos pretos e suados, em contraste com o branco imaculado das roupas e dos turbantes. Aquela festa tinha começado quando os escravos eram mandados para lavar a igreja para a festa dos brancos, algum tempo antes do dia consagrado ao Senhor

do

Bonfim,

para

que

tudo

estivesse

impecavelmente limpo e cheiroso para a missa, e acabaram conseguindo fazer uma festa muito parecida com a que havia em África. Junto com as pretas, também subia a colina o cheiro bom das ervas colocadas dentro das bilhas de água, e o povo abria caminho para que elas passassem e se dirigissem ao interior da igreja. Minhas amigas se juntaram a elas, e só depois de muito tempo tentando me manter no meio da multidão que queria entrar na igreja foi que consegui ver o que acontecia lá dentro.

As pretas tinham tomado todo o espaço central, e a nós, que queríamos apenas ver, estava reservado o corredor

que ia da porta de entrada até uma saída lateral, pelo qual caminhávamos tentando permanecer por mais tempo dentro da igreja. Mas não era possível prolongar muito porque a multidão que estava do lado de fora também queria entrar, e empurrava para que ninguém ficasse parado.

Consegui entrar e sair três vezes, levando mais de quatro horas, e me espantei com a quantidade de pessoas fazendo o percurso de joelhos, correndo o risco de serem pisoteadas, e das que carregavam esculturas de madeira representando partes do corpo que, enfermas, tinham sido curadas pela fé em Oxalá. As pretas também se revezavam para que todas pudessem saudar o orixá, e enquanto umas derramavam a água com as ervas de cheiro, as outras, agachadas, esfregavam o chão com ramos de plantas ou panos brancos, entoando cantigas alegres.

Algumas também se colocavam ao lado de onde passávamos e brandiam ramos molhados na água para Oxalá, com a qual todos queriam ser respingados.

Quando o orixá já estava devidamente homenageado e as pretas saíram da igreja, o povo do lado de fora começava a se divertir, com muitas barracas de comidas e bebidas sendo montadas e apresentação de bandas de música e de batuque, que os policiais pareciam ignorar, desde que não começassem a acumular muita gente ao redor. Esperei minhas amigas à saída e elas me convidaram para almoçar na casa em que estavam hospedadas, onde também me encontrei com o Babalaô Gumfiditimi e o Ifasen, o filho para o qual ele estava ensinando os segredos, o que tinha sido ewi no seu batizado e no do Banjokô.

A casa ficava em um sítio um pouco afastado, no meio de um grande terreno com muitas árvores, e estava cheia de gente. Tivemos que tomar muito cuidado para não pisar nas pessoas que tinham estendido esteiras e panos

pelo chão e dormiam, alheias ao vozerio que vinha da parte dos fundos. Eram todos pretos, homens, mulheres e crianças de todas as idades espalhados em rodas de conversa e de batuques, em que tambores batiam para vários orixás. Logo encontramos o Babalaô Gumfiditimi junto com outros babalaôs e ialorixás, e ele se disse surpreso mas muito feliz por me ver ali. Cumprimentei também o Ifasen e fomos ouvir a história que seria contada por um babalaô com terreiro na Barroquinha, o Babalaô Xalufã de Ketu. Antes que ele começasse a falar, apareceu uma moça com um tabuleiro de acarás, que foi deixado no centro da roda para que comêssemos enquanto ouvíamos em silêncio.

O babalaô disse que na Bahia já existiam dezesseis Oxalás assentados, e os mais importantes eram Oxalufã e Oxagiyan. Oxalufã, que tinha sido rei de Ifã, era um Oxalá muito velho que andava curvado e apoiado em seu paxorô, um bastão de metal branco enfeitado com a figura de um pássaro, com discos de metal e com pequenos sinos, e Oxagiyan era um Oxalá guerreiro, jovem e corajoso, que gostava muito de inhame machucado no pilão, e por isso o seu nome, já que yian é inhame em iorubá.

Certa vez, Oxalufã decidiu fazer uma visita ao seu amigo Xangô, rei de Oyó, reino vizinho a Ifã. Antes de partir, foi visitar um babalaô para saber como seria a viagem, se correria tudo bem. Consultando o Ifá, o babalaô lhe disse para não ir, porque aconteceria um desastre e ele morreria. Mas Oxalufã não quis desistir e pediu ao babalaô que visse alguma coisa que pudesse ser feita para que a viagem pelo menos não terminasse em morte.

O mensageiro do Ifá disse que a viagem, contudo, seria muito penosa, cheia de provações, e que se Oxalufã não quisesse perder a vida, não poderia negar qualquer pedido que lhe fosse feito e nem reclamar de nada que acontecesse no meio do caminho, e que também deveria levar três roupas brancas para trocar.

Oxalufã partiu, caminhando com muita dificuldade, e logo encontrou Exu Elopo Pupa, o "Exu-dono-do-azeite-de-dendê", que pediu ajuda para colocar um barril sobre a cabeça. Lembrando-se do conselho do babalaô, Oxalufã não se recusou a ajudar, mas Exu se fingiu de desastrado e virou o barril em cima dele, que ficou todo sujo de azeite. Como também não podia reclamar, lavou-se em um rio, trocou de roupa e seguiu adiante. Antes de chegar a Oyó, a mesma situação se repetiu com Exu Eledu, "Exu-dono-do-carvão-de-madeira", e com Exu Aladi,

"Exu-dono-do-óleo-de-amêndoa-de-palma".

Na

fronteira de Oyó, Oxalufã encontrou o cavalo de Xangô, que tinha fugido, reconheceu o animal e começou a amansá-lo para levá-lo de volta ao amigo. Mas quando estava fazendo isso, os servidores de Xangô apareceram e o levaram preso, achando que ele queria roubar o animal.

Passaram-se sete anos durante os quais o reino de Xangô sofreu muito com a seca que acabou com as colheitas, as doenças que mataram os rebanhos e as mulheres que ficaram com os ventres secos. Muito preocupado, Xangô foi consultar um babalaô, que lhe revelou que toda aquela desgraça era por causa de um velho que estava preso injustamente. Todos os velhos que estavam presos foram levados à presença de Xangô, que reconheceu o amigo Oxalufã e, envergonhado, pediu desculpas várias vezes. Para provar ao amigo o quanto o estimava, Xangô mandou que todos os súditos vestissem branco e fossem buscar água três vezes seguidas para lavar Oxalufã, e guardando silêncio em sinal de respeito.

Assim foi feito, e o reino de Xangô voltou a prosperar.

Na volta para Ifã, Oxalufã passou por Ejigbo para visitar seu filho Oxagiyan, que, muito feliz por rever o pai, organizou grandes festas e distribuiu muita comida e bebida para todos os habitantes do lugar.

Essa história é contada todos os anos nas festividades de Oxalá, para que os devotos não se esqueçam do motivo

pelo qual estão reunidos, celebrando o poderoso orixá. E

como o Babalaô Gumfiditimi me contou mais tarde, a lavagem da igreja não é o principal da festa, que já tinha começado na sexta-feira anterior, quando o axé (Axé: neste caso é a força emanada do orixá e que fica condensada nos lugares consagrados a ele, e que pode ser transferida para locais de devoção, objetos de culto e pessoas relacionadas a eles), de Oxalá foi retirado de seu peji (Peji: o santuário dos orixás), e levado em procissão para uma pequena cabana construída no fundo do quintal.

Essa procissão representa a viagem de Oxalufã, e a cabana, a prisão onde ele tinha ficado. Depois de sete dias, os sete anos de cativeiro, é feita nova cerimônia chamada Águas de Oxalá, que já estava sendo preparada. Quando o Babalaô Gumfiditimi me contou o que aconteceria, decidi que queria participar e fui atrás do Fatumbi para avisá-lo, e peguei uma roupa branca, com a qual todos deveriam estar vestidos. O Fatumbi ainda não tinha chegado e, por sorte, encontrei um pedaço de papel e escrevi um recado, usando um torrão de barro como pena. Quando voltei, a Adeola disse que assim que começasse a escurecer todos guardariam silêncio até a manhã seguinte, como tinham feito os súditos de Xangô. Alguns aproveitaram para orar, outros, para dormir, e foi o que eu fiz, por estar muito cansada.

Ainda antes de o sol nascer, sem que precisassem ser chamados, todos se levantaram e se reuniram no meio do terreiro, ao redor de uma ialorixá que parecia ser mais velha que Oxalufã. Formamos um longo cortejo, que foi em silêncio até uma fonte próxima, seguindo a velha filha de Oxalá, que agitava o adjá, um pequeno sino de metal branco. A procissão foi repetida mais duas vezes em meio à escuridão, sendo que na volta ao terreiro jogávamos a água recolhida nos objetos que continham o axé de Oxalá. Na terceira vez, com o dia

clareando, todos os vasos com água foram colocados em volta do axé.

Quando o último vaso foi oferecido, o silêncio pôde ser quebrado, com a velha que tinha puxado as procissões entoando um canto para Oxalá e sendo acompanhada por outras vozes e batidas de mão ritmadas. Os tambores começaram a soar e logo todos estavam dançando em louvor a Oxalá, as mulheres arrastando as saias brancas no chão de terra e acompanhando o ritmo cada vez mais rápido dos instrumentos preferidos do orixá. Fiquei fascinada com aquele belo espetáculo, que se tornava ainda mais animado quando algumas filhas de Oxalá entravam em transe, ora contorcendo o corpo no ritmo da música, ora imitando o caminhar curvado do velho Oxalufã, recebendo vivas de todos os presentes. O

transe era um sinal de que o orixá estava satisfeito com o ritual e queria participar.

A festa continuou por toda a sexta-feira e entrou pela noite, e fiquei espantada ao ver que algumas pessoas dançaram o tempo todo sem parar, como se estivessem mesmo possuídas pelos orixás, inclusive a velha ialorixá.

Um dos momentos mais emocionantes foi quando pessoas

vestidas

com

roupas

de

cores

que

representavam os outros orixás se aproximaram da velha e, sempre dançando, apanharam cada qual um pedaço da bainha da saia dela, formando uma bonita rosa de pétalas coloridas e miolo branco. Os instrumentos paravam de tempos em tempos, e a mulher, que eu já achava ser o próprio Oxalufã, dava alguns passos hesitantes, como se fosse tombar, enquanto os outros orixás ao redor curvavam o corpo para a frente e deixavam cair os braços e a cabeça, como se prestassem uma homenagem ou como se estivessem muito cansados, solidários com o cansaço de Oxalufã.

Ficavam assim por alguns segundos, mas logo a música

voltava a encher o terreiro e todos endireitavam os corpos e recomeçavam a dançar com a animação de quem estava entrando na roda naquele momento. Eu me senti muito bem naquela festa, de volta a uma África que nem cheguei a conhecer, junto com pessoas que eu parecia conhecer desde sempre. Cheguei a pensar muito no que estava fazendo envolvida com os muçurumins, que tinham uma religião muito diferente, costumes diferentes, e só um pouco antes de me encostar em uma parede e quase desmaiar de cansaço foi que percebi que a proximidade com eles era outra coisa, não tinha nenhum laço de fé religiosa, mas de fé na liberdade e na justiça. Essas duas palavras, junto com igualdade, eram as preferidas do Fatumbi e de seus amigos, e acho que não há quem não goste delas.

Continuar: parte 3 de 6