Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 9 de 12 · parte 3/6

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Um Defeito de Cor

Capítulo sete

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

No sábado de manhã, acordei com o sol forte batendo no rosto e com o corpo doendo por ter dormido em posição tão incômoda. Procurei o Babalaô Gumfiditimi e as mulheres, e os encontrei dormindo debaixo de uma mangueira. Achei melhor não incomodá-los e fui para casa conversar com o Fatumbi.

Quando cheguei, ele parecia bravo, de poucas palavras, dizendo que já estava preocupado com o meu sumiço e que não tinha feito nada na sexta-feira, dia de guarda dos muçurumins. Falei que sexta-feira também era o dia dedicado a Oxalá e ele comentou que já sabia, que havia muitas coincidências entre o povo de Alá e o de Oxalá, como o uso da cor branca. Ele me apresentou a três muçurumins que estavam na casa e disse que se eu quisesse podia voltar, porque já tinha companhia. Era exatamente o que eu estava querendo, mas tinha ficado sem jeito de falar quando o vi com a cara amarrada.

Afinal de contas, eu estava ali para ajudá-lo. Mas antes que ele mudasse de idéia, voltei para meus amigos e fomos para a praça. Por lá ainda havia sinais da festa da lavagem misturados aos da festa que ia começar, com flores e enfeites espalhados por todos os cantos, as

pretas de roupas brancas sentadas pelo chão, tendo ao lado as bilhas de água vazias e as vassouras ainda enfeitadas com fitas brancas. Os homens também descansavam ou conversavam em animadas rodas de bebedores de cachaça, todos com aparência de que não tinham voltado para casa desde quinta-feira. Havia também alguns animais enfeitados com flores e fitas amarrados às árvores, os burros e as bestas de carga que tinham ajudado a transportar a água-de-cheiro.

Paramos em uma barraca e tomamos farto desjejum de mingau, bolo, refresco e frutas, observando as vendedoras de comida que passeavam por todos os lados com tabuleiros equilibrados sobre as cabeças.

Contrastando com o branco das roupas, o colorido das comidas era de lambuzar os olhos, vatapá, caruru, efó, acará, abará, e ainda refrescos e frutas da terra, laranja, manga, abacaxi, umbu, banana, sapoti. Naquele dia, os brancos também tomaram a praça, e famílias inteiras passeavam pelo largo, com os pais muito bravos porque as sinhazinhas se esqueciam do recato e correspondiam aos olhares dos rapazes mais atrevidos.

Muitos brancos preferiam ficar dentro da igreja, que mais parecia salão de festa desde a entrada até a sacristia. À noite se apresentaram os ternos e os ranchos formados pelos brancos mais pobres e por alguns mulatos, que cantaram, dançaram e beberam até as seis horas da manhã de domingo, quando então uma missa aquietou um pouco o ânimo para devolvê-lo logo em seguida, e assim até o fim da segunda-feira, que era chamada de Segunda-feira Gorda da Ribeira. De sábado para domingo dormimos na praça mesmo, por trás de uma barraca de acará montada por uma amiga da Adeola, mas na segunda-feira de manhã fui atrás do Fatumbi, que, como eu, já estava cansado daquela movimentação toda. Descemos até o cais e esperamos a nossa vez de embarcar em um dos muitos saveiros que saíam lotados para todos os cantos da cidade e

arredores.

Ainda haveria mais dois domingos de festa para Oxalá, mas não tive ânimo para ir. Era muito longe e, para falar a verdade, eu já estava cansada de festas, querendo ficar em casa, cuidar do trabalho, de você, e receber o Alberto. No domingo seguinte foi feita a procissão do Axé de Oxalá, quando o axé é levado de volta ao peji, que estava assentado em um quarto daquela mesma casa, ao qual ninguém teve acesso durante todos os dias de comemoração. Essa procissão representa a volta de Oxalufã ao seu reino. E o segundo domingo foi o dia da festa do Pilão de Oxagiyan, que representa a festa que o filho dá na volta do pai, com distribuição de muita comida para todos os presentes, sempre feita com inhame, que também é oferecida aos orixás que aparecem para cantar e dançar para Oxalá.

Famílias

Depois da festa do Bonfim, o Fatumbi não me convidou mais, decerto achando que eu não tinha sido boa companhia. Mas não me arrependi, pois estava mesmo precisando de um pouco de diversão, e aqueles dias foram para sempre lembrados, principalmente quando ajudei nas festividades do Bonfim em África. A produção de charutos estava aumentando bastante, com o Tico e o Hilário conseguindo fazer bons negócios em São Jorge dos Ilhéus e no Recôncavo, e o mestre Dandará também estava vendendo muito bem em sua loja no Mercado de Santa Bárbara.

Eu já conseguia guardar um pouco de dinheiro, porque também tinha a renda de metade do aluguel da loja. A Claudina foi morar na nossa casa, ocupando o quarto que tinha sido do Jongo e do Adriano, pois não suportava mais a companheira de quarto na loja do alufá Ali, e também começou a vender nossos charutos no canto onde trabalhava. E o dinheiro falso que circulava na

cidade de São Salvador começou a ser recolhido, o que nos dava mais tranqüilidade para fazer negócios.

Seu pai nos visitava bastante e sempre ficava em nossa casa por dois ou três dias, que dizia serem os únicos momentos em que tinha paz e estava com pessoas que gostavam dele de verdade. Perguntei se a esposa gostava dele e ele disse que não, mas não quis continuar a conversa, fechando o rosto de um jeito tão triste que nunca mais tive coragem de voltar ao assunto, a não ser quando ele tomou a iniciativa, alguns meses depois.

Nesse meio tempo, o Júlio contava ao Sebastião tudo o que acontecia no sobrado, e eu ficava com muita raiva ao saber das grandes festas que eram dadas por lá, freqüentadas por homens e mulheres muito bem-vestidos que dançavam o cotilhão, o minueto e a gavota, animados por tocadores de rabeca e de piano.

O Júlio dizia que naquela casa não se economizava e que a sinhá, ou seja, a Ressequida, vivia em função de se embelezar para as aparições em tais festas, o que nunca conseguia, porque tinha sido muito prejudicada pela natureza, feia como ninguém. Os vestidos dela eram comprados das modistas que buscavam roupas na França, e ela estava ainda mais magra, amarrada dentro de uma blusa que a Anastácia precisava ajudá-la a vestir e a tirar, para só então colocar o vestido por cima. Eram os espartilhos, dos quais o Júlio não sabia o nome. E ela também andava sempre pintada e coberta de jóias, e reclamava com o Alberto o tempo inteiro, dizendo que era uma vergonha residirem em sobrado tão modesto.

O Tico e o Hilário tinham comprado uma casa na Rua da Alegria, e durante um bom tempo a Esméria falou em ir morar com eles, o que eu torcia para que não acontecesse. Eu não queria falar nada porque ela já estava muito velha para deixar de fazer algo que fosse do seu gosto, mas os próprios meninos fizeram com que ela desistisse. Não porque não a quisessem, mas porque

viajavam bastante e não queriam que ela passasse muito tempo sozinha. Mas eles não tiveram como recusar o oferecimento do Sebastião, acredito que estimulado pela própria Esméria, de ir morar com eles para tomar conta da casa, para não deixá-la fechada enquanto eles estivessem fora da cidade.

A idéia fazia sentido, porque as casas vazias eram invadidas por pessoas que moravam nas ruas, e que depois davam muito trabalho para sair, e às vezes ainda se vingavam de quem as tinha expulsado. Na volta de uma das viagens, os meninos passaram na casa da sinhazinha para contar da nova morada e depois nos deram a notícia de que ela estava pejada novamente, esperando que a criança nascesse antes do Natal.

Estávamos em junho, bem perto do dia em que você faz aniversário. Eu nunca me esqueci da sua alegria quando recebeu o presente dado pelo seu pai, vinte e seis volumes da Encyclopaedia Britannica, um presente estranho para uma criança de quatro anos, mas não para você. Era de admirar a sua curiosidade ao virar as páginas e olhar com demora cada figura, e muitas vezes eu tinha que brigar para que você fosse fazer outra coisa.

Lembro-me bem do dia em que tomei um dos volumes da sua mão e o obriguei a ir brincar no quintal, apoiada pela Esméria, que dizia que você ia ficar cego de tanto olhar para aquelas letras e figuras e tentar entendê-las.

Até hoje, nada me convence de que você não fez de propósito, que se cortou apenas para que eu o deixasse quieto dentro de casa. Só não imaginava que o corte ia ser tão feio, e sorte nossa que o filho do mestre Agostino já tinha se formado médico e estava morando com o pai, pois cuidou de você e passou a incumbência dos curativos para a Esméria. Foi naquele mesmo dia que o Fatumbi me contou que já tinham escolhido a data da rebelião, ia ser durante as festas de entrudo do próximo ano, no fim de fevereiro. Ele disse isso quando ainda

escorria sangue do seu dedo, e só depois de tudo acontecido foi que entendi a associação que ele tinha feito, a de que ia correr muito sangue. Quando soube da data, voltei a me interessar e a participar das reuniões permitidas, também me oferecendo para fazer o que fosse necessário. Minha primeira tarefa foi convencer o Tico e o Hilário a levar algumas informações aos muçurumins do Recôncavo.

Quem fazia isso até então era o mestre Dandará, que sempre ia até lá comprar charutos, mas o Fatumbi achava que não era mais seguro, pois muitas pessoas sabiam que ele era muçurumim, e se alguma informação sobre a revolta chegasse ao conhecimento das autoridades, poderiam começar a seguir os principais suspeitos, dificultando tudo. Seria melhor uma pessoa que não estivesse ligada a eles, e só depois de muito conversarem comigo e com o Fatumbi, e entenderem que não havia perigo, foi que os meninos aceitaram.

O primeiro recado foi sobre a data escolhida, que o Tico e o Hilário preferiram levar por escrito, pois não queriam nem saber do que se tratava para não caírem na tentação de contar, caso fossem pegos. Eles também achavam que se protegiam daquele jeito porque, não conhecendo o recado, não poderiam ser acusados de traidores se alguma informação chegasse aos ouvidos das autoridades. O Fatumbi concordou, pois quanto menos pessoas soubessem, melhor, e o lugar escolhido para carregar os bilhetes foi dentro dos próprios charutos. Deixávamos alguns sem as capas para o Fatumbi, que os encapava com uma folha em que escrevia a informação que os meninos deveriam levar, e só então enrolava por cima a folha de fumo e colocava o selo escrito Charutos São Félix. Quem olhasse não veria nada diferente dos outros charutos, a não ser que iam separados, dentro de caixas que pareciam encomendas especiais feitas por certos destinatários.

Arranjos

Todo o dinheiro que os muçurumins ganhavam enrolando charutos era usado na organização da revolta, e naquele momento eles estavam empenhados em comprar as cartas de alforria de alguns escravos que teriam papel importante. O alufá Licutan era quem eles mais queriam libertar, mas o dono se recusava a vender, alegando os mais diversos motivos. Tinham sido montadas várias escolas de árabe, e a mais importante funcionava na loja do mestre Dandará. Como fiquei sabendo ao ceder à curiosidade, toda a correspondência que trocavam era escrita em caracteres árabes.

Tive que confessar ao Fatumbi que abri um dos recados que também começara a transportar pela cidade, embrulhados nos charutos, como faziam os meninos. Ao contrário deles, eu queria saber tudo que se passava, e reconheci a escrita que já tinha visto em livros, mas que estava um pouco diferente. O Fatumbi disse que já imaginava que eu não resistiria, e contou que a língua que eles usavam era o hauçá, mas escrito em caracteres árabes, e fiquei mais tranqüila por mim e pelos meninos.

Mesmo se aqueles charutos caíssem em mãos erradas, seria muito difícil decifrar a mensagem que carregavam.

Para saber o que estava escrito, só conhecendo o árabe e o hauçá, o que quase se limitava aos hauçás muçurumins, e era bem difícil que algum deles não estivesse envolvido na rebelião. Foi com eles que comemorei a notícia de que quase duzentos nagôs desembarcados ilegalmente tinham sido encontrados no Pirajá, junto com os feitores, já quase chegando a um engenho em Santo Amaro das Pitangas, para onde estavam destinados. Foram considerados contrabando, pois tinham desembarcado dias antes na praia de Itapuã, e o proprietário do engenho estava sendo processado.

Era bem possível que se livrasse da acusação, mas já era alguma coisa, uma apreensão entre os muitos

carregamentos de pretos que chegavam sem ninguém ficar sabendo. Foi o Diogo, o escravo do inglês Mister Mellors, quem deu aquela notícia ao Fatumbi, e disse que os ingleses estavam vigiando a Ilha dos Frades, pois havia denúncias de que muitas embarcações suspeitas ancoravam por lá. A Ilha dos Frades tinha sido minha primeira morada no Brasil, e tenho boas lembranças dos dias que passei lá, como já contei, mas acredito que tal sensação seja mais do alívio pelo fim da viagem e por saber que não seria sacrificada como carneiro. Quanto sofrimento em vão passam os pretos que não conhecem o destino que será dado a eles, e falo tanto do destino de lugar quanto do destino de vida.

Depois da festa do Bonfim, comecei a me interessar mais pela religião dos pretos da Bahia, que se reuniam em diversos locais, principalmente em torno das confrarias.

A mais antiga delas era a Venerável Ordem Terceira do Rosário de Nossa Senhora das Portas do Carmo, com sede na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Pelourinho. Era freqüentada por homens e mulheres, desde que fossem pretos e católicos, mas eu não tinha muito contato com eles por serem quase todos angolas, muito diferentes de nós, os minas. Os angolas foram dos primeiros africanos a chegar à Bahia e, tirando os recém-desembarcados, consideravam-se baianos e brasileiros, alguns abraçando a religião dos brancos com verdadeira fé. Os daomeanos jejes, como eu, costumavam se reunir na Igreja do Corpo Santo, na cidade baixa, na confraria do Senhor do Bom Jesus das Necessidades e Redenção dos Homens Pretos.

Também não tive muito contato com eles, porém, mais tarde, em África, em iguê, conheci uma igreja que tinha uma cópia da estátua que ficava no Corpo Santo, levada por um jeje-maí liberto. Havia também a Irmandade da Nossa Senhora da Boa Morte, só de mulheres, a maioria de Ketu, com sede na igreja da Barroquinha, da qual a Esmeralda sempre me falava, mas que só conheci

melhor tempos depois, quando fui morar no Recôncavo.

Existiam muitas outras, mas essas de que falei se tornaram grandes e importantes porque estavam ligadas a alguma igreja, com a permissão dos brancos, que viam com bons olhos os pretos convertidos, mais conformados com a situação de escravos. Nem todos, é claro; havia alguns que não se conformavam de maneira alguma e só freqüentavam as confrarias porque eram de grande ajuda em situações difíceis e ponto de encontro de pessoas que pertenciam à mesma nação.

O Fatumbi contou que alguns muçurumins freqüentavam essas confrarias procurando pessoas que quisessem fazer parte da rebelião, e perguntei a ele sobre os mulatos, os que tinham ajudado nas rebeliões dos militares e dos federalistas. Ele disse que era o povo que mais desprezava, pois renegava os pretos, e que, se dependesse só dele, Fatumbi, os mulatos seriam os mais castigados depois da rebelião vitoriosa, servindo de escravos para os pretos. Quando perguntei o que mais imaginava, ele não quis contar, muito menos o que estava sendo planejado direito, que ele disse não saber, mas que logo tudo seria esclarecido. Fiquei pensando sobre os mulatos e sobre o ódio sentido pelo Fatumbi, por eles se misturarem aos brancos na tentativa de serem confundidos com eles.

Mesmo os mulatos que ainda eram ou tinham sido escravos se achavam superiores aos escravos pretos ou crioulos, apesar de viverem em condições semelhantes.

Muitos mulatos livres ou ingênuos (Ingênuo: que nunca tinha sido escravo, por ser libertado ao nascer ou por ser filho de mãe liberta), sobretudo os mais instruídos, bacharéis e doutores que tinham estudado na Bahia, em Olinda, em São Paulo, em São Sebastião ou mesmo na Europa, se comportavam como se seus pais ou avós, na maioria portugueses, nunca tivessem vivido com as pretas. Eles só se casavam com mulheres brancas, quanto mais branca melhor, mesmo se feias, pobres,

doentes ou burras, para ralear o sangue e os traços africanos. O senhor Amleto era um desses, e eu ria só de imaginá-lo escravo, servindo a um preto e sendo obrigado a engolir aqueles modos afetados que dizia ter adquirido dos ingleses. Nem mesmo os ingleses legítimos eram iguais a ele, que não passava de um mentiroso.

Os mulatos sem pais dispostos a assumi-los, ou filhos de padres, que eram muitos, tratavam de se fazer respeitados adotando apelidos de famílias importantes de Portugal, Espanha e Inglaterra. O filho médico do mestre Agostino disse que tinha estudado com muitos daqueles que se diziam parentes de pessoas que tinham feito atos gloriosos na Europa, e melhor ainda se fossem nobres.

Problemas legais

No mês de agosto houve uma reunião muito importante na loja da padaria, e, saindo de lá, o Fatumbi foi me perguntar se eu achava que o doutor José Manoel poderia ajudá-los na questão da compra da carta do alufá Licutan. Eles já tinham tentado várias vezes sem sucesso, inclusive oferecendo mais dinheiro do que o dono pedia, e estavam com medo de que acontecesse algo até bem comum, de os senhores de escravos se apossarem do dinheiro das cartas à força, negando-se a dar a liberdade. Muitas vezes o preto nada podia provar e ficava por isso mesmo, porque era a palavra dele contra a palavra do dono, que sempre tinha mais valor.

Mas não me pareceu ser esse o caso do alufá Licutan, como de fato o doutor José Manoel conseguiu esclarecer.

O alufá Licutan era um homem velho, embora tivesse mais disposição que muitos com bem menos idade, e talvez por isso o dono precisasse tanto dele, que não tinha medo do trabalho e fazia o seu melhor, mesmo contra a vontade. O alufá Licutan tinha esse tipo de

responsabilidade, homem sério e justo, muito respeitado entre os companheiros, além de ter a baraka (Baraka: força ou poder espiritual dos chefes religiosos muçulmanos, usados para a bênção.

Assim também pode ser chamada a própria bênção). Era magro, alto, tinha uma barba rala e rosto pequeno, marcado por muitos sinais, o que fazia dele uma pessoa difícil de se esquecer. Seu dono, um médico respeitado, até porque na Bahia existiam poucos médicos, chamado doutor

Antônio

Varella,

não

o

tratava

bem.

Possivelmente até nem gostava dele, mas talvez o conservasse porque sabia que era muito estimado pelo seu povo, o que valorizava um escravo. Mas também não era só isso, como o doutor José Manoel apurou, pois o doutor Antônio Varella tinha uma dívida vencida com os padres carmelitas, para a qual tinha oferecido seus bens como garantia, entre eles o alufá Licutan.

Ou seja, a venda não poderia ser feita nem se os muçurumins tivessem o dinheiro pedido pelo doutor Varella, porque antes o médico teria que acertar a dívida com os padres. Outro escravo que eles também estavam tentando comprar era o Ahuna, um nagô de estatura baixa e com quatro marcas de cada lado do rosto. O

Ahuna morava na Rua das Flores, perto do Pelourinho, e seu dono vendia água, o que muito o entristecia. A religião dele pregava que certas coisas nunca podem ser vendidas, como aquelas de que o homem depende muito para viver e que são abundantes na natureza. O que compensava era que tal dono tinha engenho em Santo Amaro, no Recôncavo, para onde sempre mandava o Ahuna, facilitando o contato com os pretos daquela região.

Havia alguns muçurumins que, apesar de convertidos na Bahia, fingiam que não o eram, para se proteger ou para continuar em contato com os pretos das suas antigas tribos ou religiões. Como o Issa e o Tahir, que, junto com

o Issufo, eram muito bem informados sobre o que acontecia em África, principalmente perto do Daomé, e sobre os desembarques clandestinos na cidade de São Salvador, bem como de onde os navios tinham partido e de que tribo eram os recém-chegados. Os marinheiros amigos deles também compravam em África e entregavam para eles, na Bahia, grande variedade de produtos usados nos cultos dos pretos, que eles repassavam para mascates ambulantes que percorriam batuques e candomblés, onde também vendiam a idéia da rebelião. Quando o Fatumbi tinha tempo para conversar comigo sobre a organização, eu me espantava com a inteligência deles e queria participar mais ainda.

Mas ele não permitia, dizendo que o importante naquele período não era uma pessoa fazer muitas coisas, porque poderia atrair a atenção sobre si, mas sim ter o maior número de pessoas para dividir o trabalho entre elas, e que isso também seria importante no dia da luta.

Eu queria saber como e onde seria a luta e ele dizia ter esperanças de que ela nem chegasse a acontecer, que até o dia marcado eles tivessem conseguido juntar tanta gente que a polícia não veria condições de defesa e entregaria a Bahia sem qualquer resistência. Mas também estavam se preparando para a luta armada, função do Mussé e do Umaru, que aos poucos iam conseguindo armas e dando um jeito de escondê-las nas várias lojas e casas ocupadas por muçurumins.

Os lugares

Os lugares preferidos para vender os produtos que chegavam de África eram os batuques, onde se reuniam pretos de várias tribos, ou de apenas uma tribo, para brincar e louvar os orixás. Os batuques eram proibidos na cidade, mas a polícia quase sempre tolerava alguns, desde que os pretos não arrumassem confusão. Na Praça da Graça e na do Barbalho, aos domingos, podia-se fazer batuque até a hora da Ave-Maria, quando então

os participantes tinham que voltar para suas casas ou para as de seus senhores.

Estes eram os batuques oficiais, mas também havia outros realizados em diversos pontos da cidade e começavam de repente, convocados antes ou não, bastando que se reunissem alguns pretos que tinham instrumentos. Havia inclusive alguns senhores que não se importavam com batuques em frente às suas casas, e até estimulavam os pretos a fazê-los, desafiando a polícia. Queriam mostrar a quantidade de escravos que possuíam, o que os tornava importantes, e também acalmar os pretos, deixando que eles se divertissem um pouco. No canto onde trabalhava, a Claudina ficava sabendo de quase todos os batuques da cidade e das redondezas, nas casas de santo escondidas em lugares menos habitados. Quando o Fatumbi começou a pedir essas informações, ela quis saber o motivo, já que ia a muitos deles e nunca encontrava nenhum dos muçurumins, e ele disse que era por causa do comércio.

Ela já desconfiava que havia algo mais por trás da estada deles na loja, porque percebia a movimentação, as visitas, os segredos que diziam em voz baixa ou em árabe. Eu disse que ela era de confiança, mas o Fatumbi preferiu guardar segredo e só perguntar se ela não queria ajudá-los na venda dos produtos que recebiam, o que seria bom para todos. A Claudina sabia muito bem que tipo de produto oferecer a determinada pessoa, pois conhecia muita gente, e assim haveria mais dinheiro para eles e para ela, que me chamou para ir junto.

Ajudando a Claudina, eu também recebia parte do lucro, mas o que me interessava era conhecer os lugares onde os pretos da Bahia se reuniam. A Claudina não praticava religião alguma a sério, embora tivesse fé em certos orixás, mas freqüentava muitas festas de terreiro pela diversão. E eram muitas, porque na Bahia eram louvados os orixás dos nagôs e dos iorubás, os voduns dos fons e de todos os povos do Daomé, e os nkisis (Nkisi: força

mágica, divindade, na língua quicongo), dos bantos do Congo e de Angola.

Sobre o culto dos voduns, a Claudina disse que havia um lugar na Federação onde moravam algumas pessoas do meu povo, uns jeje-maís, mas não fomos lá porque eram poucos e os nossos produtos interessavam mais aos que cultuavam orixás. Por isso também não fomos às festas dos congos e dos angolas, que se concentravam no Cabula.

Os nagôs e iorubás eram numerosos e estavam espalhados por toda a cidade, e tinham levado para o Brasil quase todos os orixás que cultuavam em África.

Havia casas de pretos da mesma nação que cultuavam apenas um orixá, o da própria tribo, mas também havia casas freqüentadas por muitas nações, onde vários orixás eram cultuados, e por isso recebiam o nome de candomblés.

Os povos de Ketu e de Savê cultuavam Oxóssi e Omolu, os de Oyó cultuavam Xangô, os egbás tinham levado Iemanjá e Ogum, os ijexás tinham assentado minha mãe, Oxum, os ekitis também cultuavam o deus do ferro, Ogum, a gente de Ifé tinha levado Oxalá, os de Ifã levaram Oxalufã. Oxagiyan apareceu pelas mãos dos ejigbos e os povos da foz do Niger não se esqueceram de Iansã, a que governa as tempestades. Havia mais alguns orixás, como Nana, que quase todos cultuavam, mas estes eram os mais importantes, os que sempre recebiam festas de louvor, onde eram usados produtos que só existiam em África. Para nossa sorte, havia muitos produtos que só os muçurumins conseguiam por intermédio dos que tinham ficado em África, para os quais tínhamos freguesia certa.

Eram temperos como o pejerecum, o lelcum e algumas pimentas, mas também vendíamos nozes-de-cola, obis e opelês para os jogos de adivinhação, panos de alaka,

penas vermelhas de cauda de papagaio, penas cinza de outros pássaros africanos e pós chamados efun e òsun.

Muitos africanos podiam não ter dinheiro para comprar comida, mas davam um jeito de pagar o que fosse pedido pelos produtos preferidos dos seus orixás. Vendíamos muito por causa da confiança que as pessoas tinham na Claudina, pois preferiam comprar das mãos dela a correrem o risco de serem enganadas com produtos que até podiam ser parecidos, mas eram falsos, não procediam de África.

As pessoas primeiro se conheciam nos batuques de ruas e praças e iam se unindo às de sua tribo, para então começarem a freqüentar os candomblés e as casas de santo. Nessas casas também havia música, dança e cachaça como nas ruas, mas primeiro os orixás eram servidos com as comidas que cada um preferia.

Eles eram invocados e recebidos com a saudação, o toque de tambor e a dança próprios de cada um, e recebiam as primeiras honrarias das ialorixás ou dos babalaôs, mãe ou pai do terreiro, chamados de mãe ou pai-de-santo porque tinham vários filhos-de-santo que eles guiavam e instruíam.

Dentro de cada casa de santo havia uma hierarquia entre esses filhos, como em África, que dependia do conhecimento que tinham do culto e do tempo que freqüentavam a casa exercendo as mais diferentes funções, inclusive de limpeza e preparação das comidas dos santos, dos filhos e dos visitantes. Quando fomos a uma casa freqüentada pelos de Ijexá, fiz questão de levar minha Oxum para ser benzida, ela que tinha me valido tanto no momento em que mais precisei. A mãe-de-santo que me atendeu disse que eu precisava prestar mais atenção a ela, entrar mais vezes no quarto e estar mais tempo por lá, nem que fosse apenas para conversar, porque Oxum também é boa conselheira.

Oxum entende suas filhas e dá a elas tudo que pedem, mas também gosta de atenção, de presentes, de boa comida e de enfeites. De fato eu devia muito a Oxum, e percebi isso quando conheci melhor os freqüentadores dos batuques, única diversão que tinham, única alegria.

Eu tinha tantas, e além disso tinha uma casa, uma família e fartura de comida, o que era bastante raro entre os pretos.

Havia pessoas mais novas que pareciam muito mais velhas que eu, de tão prejudicadas pelo trabalho, como uma moça que tinha os calcanhares com enormes rachaduras em carne viva e uma tonsura não raspada no alto na cabeça. Os pés ficaram grelhados ao andar na areia quente da praia, onde ela vendia alguma coisa também quente que equilibrava no alto da cabeça, o que fez com que o cabelo caísse e não nascesse mais.

Brancos ou pretos À medida que se aproximava o fim do ano, eu me questionava se devia mesmo participar da rebelião, se não havia outra maneira de conseguir a liberdade, pois era triste saber que muita gente ia morrer, inclusive os pretos que não quisessem aderir. Era morrer ou sofrer depois as conseqüências de um governo dos muçurumins, e eu não tinha certeza se eles estavam preparados ou se apenas pensavam em vingança por causa das humilhações que sofriam. Na minha convivência com brancos e mulatos, vi que nem todos eram maus, que existiam os de bom coração e até mesmo os que eram contra a escravatura, mas não haveria como separar uns dos outros.

Perguntei ao Fatumbi se podia avisar pelo menos a sinhazinha e o Alberto, e ele disse que não, que nenhum branco ou preto que não estivesse participando poderia saber da revolta, e deixou muito claro que eu seria responsabilizada caso alguma denúncia fosse feita por

alguém que eu conhecesse. Se os muçurumins desconfiassem de mim, ele não teria condições de me proteger. Havia muitas pessoas que eu não gostaria que sofressem as conseqüências, e durante algum tempo não quis saber de mais nada, e acho que o Fatumbi entendeu, pois até se mudou para a loja. Quando o Alberto apareceu, tive vontade de colocar a situação toda como hipótese para saber o que ele achava, mas não confiei. Ele estava bebendo cada vez mais, mesmo na nossa casa, onde antes evitava beber perto de você.

Não tinha atitudes hostis ou irresponsáveis e, para falar a verdade, ficava até mais divertido. Mas quando o efeito da bebida começava a passar, o que quase sempre acontecia durante a noite, ele ficava inconsolável.

Chorava muito e se dizia incapaz de ser um homem honrado, de cuidar da família, e que, se pudesse voltar no tempo, não teria saído de Portugal. Naquelas horas eu tinha pena, mas não sabia como ajudar, porque ele não queria contar o que estava acontecendo. Chamei o Sebastião e pedi que fosse até o sobrado conversar com o Júlio, para ver se ele sabia de alguma coisa.

O Júlio comentou que a Ressequida brigava muito com o Alberto, e que nas noites em que ele saía para encontrar os amigos não entrava em casa. Dormia no quintal, porque também era proibido dormir na porta da frente, para não chamar a atenção dos vizinhos. Mas a Ressequida continuava dando festas em casa, e a Anastácia já tinha presenciado um pedido dela para que ele não descesse, para que ficasse no quarto, porque sempre arranjava um jeito de envergonhá-la na frente dos convidados quando bebia. E para tais convidados ela sempre se arrumava, vestindo roupas e jóias caras, tudo pago pelo seu pai. O Júlio achava que ela estava tomando todo o dinheiro dele, e que não tinha certeza, mas a Anastácia pensava ter ouvido um comentário dela para uma amiga sobre a compra de um sobrado que estava sendo mobiliado do jeito que ela queria, para

então, sempre conforme as palavras dela, abandonar aquele traste de marido.

Quando eu soube disso, senti algo entre pena pelo que o seu pai estava sofrendo e felicidade por estar vingada do abandono, e ao mesmo tempo seria capaz de esganar a Ressequida se a visse na minha frente. Por mais que o Alberto tivesse defeitos, e não eram poucos, não merecia ser tão humilhado. A Esméria ouviu a conversa e disse que era bem-feito, mas que eu deveria aceitar caso ele quisesse voltar, pois minha vida seria mais fácil ao lado de um homem. Eu não quis discutir e disse que aceitava, mas não sabia se era verdade, se realmente o queria ao nosso lado, visto que, naqueles dias, já não passávamos de irmãos, sem desejo um pelo outro. Por você sim, pois ele sempre tinha sido um ótimo pai, mas eu queria algo mais de um homem, algo que ele já tinha sido, ou que eu já tinha merecido, não sei.

Mesmo com todos os preparativos para a rebelião, os muçurumins não deixaram de enrolar charutos. Os pedidos aumentavam e tínhamos que trabalhar dia e noite, na oficina ou em casa. Foram bons aqueles dias de dúvidas sobre a minha participação, porque quase não saí do seu lado, e nem sei o que fizeram com os recados que precisavam ser entregues. Mesmo tendo muito trabalho, havia dois momentos do dia em que eu fazia questão de estar com você, que era no desjejum e na hora de dormir. Você não dormia sem ouvir histórias, e eu costumava inventar muitas sobre a África, dizendo que lá era bom e que todos os pretos viviam livres.

Eu não tinha certeza se você entendia o que era ser livre, pois sempre tinha sido, mas percebi que entendia quando me perguntou se em África existiam brancos, e quando eu disse que sim, quis saber por que os brancos da Bahia não eram iguais aos brancos de lá, que deixavam os pretos serem livres. Você tinha apenas quatro anos, e me espantei ao perceber o quanto

entendia ao prestar atenção às nossas conversas, e como também não tinha idéia do que significava ser branco ou preto, porque quando te falei que na Bahia também existiam brancos bons como seu pai, você me perguntou se seu pai era branco. Acho que para você, ser branco não era ter a pele clara, mas ter a alma má. Depois daquele dia, você sempre me perguntava se determinada pessoa era branca ou preta, e embora eu sempre te respondesse levando em conta a cor da pele, não havia como não pensar de acordo com o seu critério.

Para você, a sinhazinha e o doutor José Manoel, por exemplo, eram pretos, e eles riram muito quando contei essa sua idéia.

Eu, você e a Esméria fomos visitá-los porque a terceira filha deles tinha acabado de nascer, a Amélia. A Carolina já estava uma mocinha e, ao vê-la, fiquei com muita saudade do Banjokô, por me lembrar dos dois brincando no sítio, quando você e a Mariana ainda eram bebês.

Tenho pena de você não ter aproveitado aquela época, porque, com certeza, foi das mais felizes das nossas vidas. Durante aquela tarde na casa da sinhazinha, vendo você brincar com a Mariana, nos lembramos de muitas passagens da nossa "infância e do sítio, quando estávamos confinados com medo de os federalistas fazerem mal aos nossos portugueses.

Tive vontade de alertá-la sobre a rebelião, mas não pude, pois tinha assumido um compromisso com o Fatumbi, mas, mesmo assim, perguntei se ela tinha planos para a época do entrudo do próximo ano, pois talvez fosse bom descansar alguns dias em um sítio afastado. Ela gostou da idéia e nos chamou para ir junto, o que foi melhor ainda. Naquela tarde também combinamos que ela deixaria uma criada levar a Carolina e a Mariana à nossa casa, para uma festa de São Cosme e Damião, já que ela estava de resguardo.

A resolução

O caruru foi uma festa bonita, com a presença das filhas da sinhazinha e algumas crianças da vizinhança, que se fartaram de caruru, doces e queimados, que fiz em homenagem aos Ibêjis. O mestre Agostino se ofereceu para tocar, e no fim da festa até os muçurumins estavam cantando e dançando no meio de vocês, aproveitando que era festa de criança e não de adulto, sem cachaça.

No início você nem sabia como se comportar com todas aquelas crianças, pois estava acostumado a conviver com adultos. Confesso que também tinha medo de que a companhia de outras crianças atraísse os abikus, como acho que pode ter acontecido com o seu irmão. Mas você gostou tanto que no dia seguinte resolvi te levar até a casa da Adeola para brincar com as crianças do orfanato, e também porque eu estava com saudade dela.

Foi bom termos ido, porque encontramos tudo rodeado de imensa tristeza. A Adeola e a dona Maria Augusta estavam abrigando um crioulo que tinha chegado na noite anterior para avisar da morte do padre Heinz, covardemente pego à traição. Assim que chegou à cidade onde teria sua paróquia, o padre começou a fazer o mesmo trabalho que fazia em São Salvador, defendendo os pretos contra a crueldade dos brancos.

Mas os brancos de lá eram mais cruéis, e o padre foi morto enquanto dormia, com um tiro dado bem no meio da testa, sem que tivesse a possibilidade de fugir ou de se defender. Um preto liberto a quem ele dava pouso ouviu o barulho, foi averiguar e viu a fuga de dois brancos, que depois reconheceu como capatazes de uma fazenda onde trabalhavam muitos escravos sob condições em que nem animais sobreviviam. O juiz de fora encarregado de apurar o caso não acreditou na palavra do preto, acusando-o de dar falso testemunho contra a moral de senhor tão importante, e ele nunca mais foi visto, com rumores de que também teria sido morto, para que a história terminasse por ali.

O corpo do padre Heinz foi parar nas mãos do tal fazendeiro, que, para se fazer de bonzinho e fingir alma caridosa, tinha se oferecido para cuidar do enterro. Mas alguns pretos o roubaram de volta e o levaram para a vila vizinha, onde teve um enterro cristão feito pelo padre local. Padre que também não foi poupado, tendo sua casa incendiada dias depois. O caso datava de quase dois meses, mas só naquele momento o preto tinha conseguido ir até São Salvador avisar a Adeola, seguindo orientação do próprio padre Heinz, que já temia algo de ruim.

A Adeola estava inconsolável, e já havia algum tempo que era perseguida por maus pressentimentos, depois de parar de receber as cartas regulares que o padre enviava. Sentia também muita raiva, e acho que as palavras dela, dizendo que para pagar aquele tipo de pecado nenhum branco merecia viver, foram muito importantes na minha decisão de não pensar mais em nada e seguir com os planos dos muçurumins.

Ao voltar da casa da Adeola, chamei o Fatumbi e disse que estava pronta, que ele podia me dizer o que mais eu deveria fazer, além de continuar passando recados.

Quem gostou do novo trabalho foi a Esméria, que vivia pela casa procurando o que fazer, atrapalhando o serviço da Malena. À noite, o Fatumbi apareceu com grande quantidade de tecido branco e um modelo de barrete em dois tamanhos, que deveríamos reproduzir, para que os muçurumins os usassem na hora da luta. Todos os participantes também deveriam vestir abadás brancos, confeccionados pela Fátima, pela Binta, pela Safyia e pelas mulheres da loja do alufá Ali.

Nos dias seguintes fiquei sabendo de outros preparativos, e que o Mussé e o Umaru estavam calculando a participação de mais de três mil pessoas só em São Salvador. Eles ainda não sabiam como estavam os preparativos no Recôncavo, mas pretendiam viajar

em breve para conversar com os muçurumins encarregados de organizar tudo por lá. Em vários pontos da cidade foram montadas mais classes para os novos muçurumins aprenderem a palavra do profeta e, se possível, a ler e a escrever em caracteres árabes.

Conheci muitos desses lugares, pois boa parte das aulas, um tipo de ABC, era preparada pelo Fatumbi e pelo mala Abubakar, e fiquei encarregada de fazer a distribuição para os outros mestres. Em algumas delas não passei da porta por segurança, para que ninguém desconfiasse da presença de pessoas estranhas, mas em outras fui convidada a entrar. Eram todas bem parecidas, sempre uma sala com uma mesa grande onde ficavam livros religiosos, tábuas de escrita, tinteiros e penas especiais.

Se o mestre-escola também era mestre religioso, havia uma arca com os paramentos religiosos e quadros com versos do Alcorão. Era assim na casa dos nagôs libertos Gaspar e Belchior, outro Belchior, não o que eu já conhecia da fazenda.

Esse novo Belchior morava na Rua da Oração, onde pregava o mestre Luís Sanin. Aulas também eram dadas nas lojas do Manuel Calafate e do alufá Ali, no estabelecimento do mestre Dandará, no mercado de Santa Bárbara, e na casa que este alugara só para servir de templo e escola, no Beco do Mata-Porcos. Alguns alunos também eram atendidos na casa do alufá Licutan, no Cruzeiro de São Francisco, às escondidas do seu dono, o doutor Varella. Os mestres Dassalú e Nicobé não tinham lugar fixo e ensinavam na região da Vitória, nas casas dos ingleses. O lugar de que mais gostei foi a loja do Gaspar e do Belchior, onde só se falavam línguas da África e onde moravam muitas pessoas que conheci melhor mais tarde, como o Ojô, o Ová, o Nanosi, o Dada, o Aliará e a Edum. O nome do Gaspar era Huguby, e apesar de já estar no Brasil havia muito tempo, ele não falava português. Nessa loja, todos os pretos usavam seus nomes de África, e alguns nem mesmo se conheciam pelos nomes de branco.

Incidentes

O mala Abubakar comandava sacrifícios de carneiros todos os dias, para consumo dos muçurumins da loja e também de outros, inclusive alufás e mestres. A baraka dele era muito respeitada e bastante forte, e todos precisavam se fortalecer para enfrentar o que viria pela frente. Nós também ganhamos bons pedaços de carne-de-sol de carneiro, que achei muito boa. As peles eram postas para secar e depois serviam para fabricar mantas, capas de livros sagrados, quadros com inscrições de oração, tapetes de rezar e os amuletos muito procurados por todos na Bahia, muçurumins ou não, brancos, mulatos, pardos, pretos, cabras, caboclos e crioulos.

Durante os dias comuns, eles nunca trabalhavam às sextas-feiras, e durante o Ramadã, alguns outros dias também eram guardados e as orações se intensificavam em quantidade e devoção. O mala Abubakar também fazia várias rezas que serviam para todas as situações, e que a gente da Bahia chamava de mandinga, sendo que de mandingas, ou mandes, também eram chamados os povos de uma nação da África, talvez uma das primeiras que se tornaram muçurumins.

Todos tinham muita fé nos trabalhos de proteção do mala Abubakar, pois ele era um dos únicos na Bahia que já tinham ido a Meca. O Fatumbi disse para eu não contar a ele que podia ser chamada de gente de santo, ou seja, que eu cultuava os orixás. Entre os muçurumins que não tinham a importância do mala, os pretos da religião dos orixás eram até suportados, mas os grandes mestres nos desprezavam. Eu sabia que muita gente de santo também desprezava os muçurumins, a quem chamavam de malês. Para devolver a provocação, os muçurumins os chamavam de adoxu (Adoxu tem dois significados. O primeiro deles é uma mistura de cera e ervas que é colocada sobre o corte feito na cabeça da

pessoa que vai ser iniciada na "feitura do santo", ou seja, consagrar a cabeça ao orixá. Na cerimônia, nesse pequeno corte é introduzido o axé, que é coberto com o adoxu, até cicatrizar. Adoxu também pode ser "aquele que tem o oxu", ou seja, o tufo de cabelo que é deixado na cabeça raspada em cerimônias de consagração aos santos, os orixás).

Uma troca de ofensas gratuita, porque havia muita semelhança entre as duas religiões. Inclusive alguns alufás mais poderosos, apesar da proibição de se mexer com essas coisas, invocavam os aligenum, os gênios ou espíritos diabólicos, que podiam ser chamados para fazer o bem ou o mal, o que para mim se parecia bastante com o culto a Exu. Os alufás também tinham grandes livros de magia escritos com tinta vermelha feita com sangue de carneiro, com poderosos idams, que era como eles chamavam as mágicas, que ensinavam como fazer chover dizendo apenas uma palavra, ou fazer obis aparecerem onde antes só havia vento.

Um dia cheguei à janela para tentar descobrir o motivo de uma discussão que ouvi na loja, mas nada consegui entender da misturada de línguas que eles usavam para conversar. Depois, o Fatumbi contou que estavam revoltados com a prisão do alufá Licutan, e muitos queriam ir até a cadeia e soltá-lo à força, ou então antecipar a rebelião para que pudessem tomar o poder e libertá-lo por meios legais.

Em África, os mestres eram tratados com todo o respeito que mereciam, não só por serem mestres e conhecerem como ninguém as palavras do profeta, mas também por serem idosos. Mas na Bahia os brancos não respeitavam nada disso, não se importavam em jogar na cadeia um homem que nada tinha feito a não ser pertencer a um senhor que o tinha dado como garantia no pagamento de uma dívida. Tinha sido esse o motivo da prisão, e o alufá Licutan não seria solto enquanto o doutor Varella não pagasse o que devia aos carmelitas.

Alguns muçurumins estavam pensando em matar o médico, e o Fatumbi disse que foi difícil convencê-los de que um ato assim só pioraria a situação, pois a polícia poderia desconfiar e começar a persegui-los, arruinando todo o plano. Faltava pouco tempo e eles precisavam esperar, apesar da raiva. Um grupo tinha partido para tentar conversar com o médico e ver o que poderia ser feito. O Fatumbi estava de saída para a prisão e me deixou acompanhá-lo.

Quando chegamos à cadeia, já era grande o número de pretos por lá, não só muçurumins, mas de todas as religiões, que protestavam contra a prisão de um preto inocente. A figura dele impunha respeito, e ainda mais porque estava calmo, tentando tranqüilizar todo mundo, dizendo que não lhe haviam feito mal, que aproveitaria aqueles dias para rezar. Acho que as pessoas o tomaram por santo, porque se ajoelhavam na sua frente e pediam a bênção com grande comoção, depois de beijarem a mão dele. Os muçurumins sabiam que a presença e a colaboração espiritual do alufá Licutan era muito importante, e estavam dispostos até a pagar toda a dívida do doutor Varella.

Mas já não havia mais como fazer isso, como ficamos sabendo no dia seguinte, pois o alufá Licutan iria a leilão em benefício dos credores. O bom disso era que os muçurumins poderiam arrematá-lo por uma quantia até menor que a pedida pelo dono, e o ruim era que não sabiam quando esse leilão seria realizado, se dentro de poucos dias ou de vários meses. Diante da possibilidade da demora, os muçurumins ficaram ainda mais revoltados, e foi preciso convocar uma reunião para decidirem o que fazer, e que seria realizada na mesquita que o James e o Diogo tinham construído no quintal da casa do inglês, na Vitória.

Eu adoraria ter ido, mas só os homens foram convidados. Não haveria somente a reunião, mas também uma festa, um grande jantar para comemorar a data que eles chamam de Lailat al-Miraj, a ascensão ao céu do profeta Maomé. A Fátima, a Binta e a Safyia não quiseram ficar sozinhas na loja e foram para a nossa casa, levando um pedaço de carneiro assado que comemos todos juntos. Para nós era um sábado comum, vinte e nove de novembro, mas, no calendário diferente que os muçurumins seguiam, era o dia vinte e seis de Rajab.

As três mulheres se sentiam à vontade na nossa casa, mesmo porque você era o único homem e só tinha quatro anos de idade. Desde que o Sebastião tinha ido morar com o Tico e o Hilário, e o Fatumbi passava as noites e os dias na loja, restamos apenas eu, você, a Esméria, a Malena e a Claudina. Estávamos todas conversando e nos divertindo na sala, com você dormindo no meu colo, quando ouvimos os homens chegando, e as muçurumins se levantaram para retornar à loja. Mas voltaram logo em seguida, dizendo que devia ter acontecido algo muito sério, pois os homens estavam nervosos e acompanhados de vários outros muçurumins, e tinham pedido que elas ficassem na nossa casa até que fossem chamá-las.

Estávamos curiosas, mas só depois que a Esméria, a Malena e a Claudina se deitaram foi que pudemos conversar melhor, e elas disseram que muitos deles estavam vestindo abadás e armados com facas, que temiam que a rebelião tivesse se precipitado e sido rapidamente controlada pela polícia. Elas sabiam muito mais coisas do que eu, mas se calaram, talvez por estarem acostumadas a nunca serem ouvidas, ou por lealdade, não se achando no direito de comentar algo que tinham ouvido só porque ocupavam a mesma casa que os principais organizadores. Respeitei o silêncio delas e só o cansaço venceu a curiosidade, fazendo com

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