Um Defeito de Cor
Capítulo sete
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
Era uma noite escura, e logo sumimos das vistas da cavalaria, que começou a soltar fogos para atrair a atenção da fragata que o presidente da província tinha mandado ficar de prontidão. Mais alguns pretos morreram, porque não sabiam nadar ou porque estavam muito cansados, e outros foram atingidos pelas balas vindas da fragata, de onde atiravam a esmo, tendo a sorte de acertar. Eu também não sabia nadar direito e me mantive boiando e seguindo em frente com muita dificuldade, e não agüentaria por muito tempo mais quando vi que algumas pessoas começavam a sair da água, na altura do Pilar.
Nós nos sentamos na praia para recobrar o fôlego e a força nas pernas, e tentamos decidir sobre um bom esconderijo. Alguns acharam melhor cada um por si, por chamar menos atenção, e foram embora, mas outros decidiram permanecer juntos, para se ajudarem em caso
de necessidade. Todos achavam que haveria um grande policiamento na cidade, e a primeira coisa que fizemos foi tirar os abadás, amuletos e anéis e enterrá-los na areia, pois poderiam denunciar nossa participação na revolta. Fiquei com um grupo de mais seis pessoas e resolvemos seguir o Eslebão, que disse conhecer um excelente esconderijo, embora pudéssemos correr perigo para chegar até lá.
O esconderijo
Não havia tantos soldados pelas ruas; acredito que estavam nos quartéis se preparando para um novo ataque, e só duas vezes avistamos patrulhas, que não chegaram a nos ver. Fomos para o Terreiro de Jesus, o antigo Colégio dos Jesuítas, onde funcionava a Faculdade de Medicina. Trabalhando como sacristão em uma igreja, o Eslebão disse que conhecia outros esconderijos, mas aquele era um dos mais seguros, por estar desativado. Ele se referia ao subsolo, que alcançamos depois de pularmos o muro, atravessarmos o terreno e nos arrastarmos por um alçapão no mais absoluto silêncio.
Além do cansaço, não sabíamos ou não tínhamos o que dizer um ao outro, e assim continuamos depois de atravessarmos, no escuro, túneis estreitos que nos faziam andar agachados, até chegarmos ao que parecia ser um imenso salão. Naquela hora me arrependi de ter deixado o abadá na praia, pois fazia muito frio, tudo estava úmido, a parede, o chão, a nossa pele, a roupa. O
frio fazia aumentar a tristeza e a incredulidade.
Então tinha sido só aquilo? Tantos anos de trabalho e espera para acabar naquilo? Foi muito triste aceitar que sim. Nada parecia real, e quando acordei algumas horas depois, ainda antes de abrir os olhos, torci para que fosse um pesadelo. Mas meu corpo doía, e isso não deixou que eu me iludisse por muito tempo. Não dava
para saber se era noite ou dia; e os outros ainda dormiam ou fingiam dormir, e então esperei que alguém se manifestasse. Eu imaginava que os próximos dias seriam muito difíceis, mas ainda bem que não sabia quanto.
O primeiro a falar foi o Eslebão, que queria saber quantos e quem éramos, e fiquei sabendo que estava na companhia de seis homens. Três eram nagôs, um alfaiate chamado Basílio, um vendedor chamado Gregório, os dois libertos, e um escravo trabalhador de engenho em São Félix, chamado Salustiano. Outro deles era um hauçá chamado André, escravo e remador de saveiro, e o último, o Uzoma, um igbo liberto que trabalhava como sapateiro, além do Eslebão, que, como já disse, era sacristão. Como ninguém falava nada, para diminuir um pouco o desconforto, o Eslebão contou a história daquele subterrâneo, que tinha sido construído pelos jesuítas, que ali guardavam dinheiro para os senhores de engenho e para o governo de antigamente.
Ele disse que muitos conventos da cidade também tinham subterrâneos, e não me lembro se entre eles estava o das Mercês, onde trabalhava, que também serviam para outros fins. Havia túneis ligando subterrâneos de conventos de padres e de freiras, onde eles se encontravam para praticar o que estavam proibidos de fazer em público, e alguns subterrâneos eram bastante luxuosos, com cômodos bem mobiliados e confortáveis. O assunto despertou interesse, e logo os homens estavam contando casos de padres e freiras que se davam muito menos ao respeito do que quem não tinha feito votos de castidade.
Aquela conversa me lembrou o padre Notório e o seminarista Gabriel, e logo o pensamento foi longe, causando grande aperto no peito por me fazer lembrar daquela época, das pessoas boas que eu tinha conhecido e das maldades dos senhores de escravos. Perguntei ao
Eslebão se ele achava que já podíamos sair dali e ele disse que era muito cedo, que devíamos procurar um lugar onde desse para saber se era dia ou noite e então nos programarmos para sair quando anoitecesse, um a um.
Achamos uma galeria ampla e bem ventilada, onde o cheiro de mofo não era tão forte e onde havia uma pequena janela no alto da parede, acima do solo, que deixava entrar um pouco de luz. Ninguém tinha coragem de olhar no rosto do outro, como se cada um sentisse vergonha por ter falhado, como se fosse o único responsável pelo que tinha acontecido. Não sei quanto a eles, mas eu estava com muita fome e não tinha coragem de dizer, porque sabia que nada poderíamos fazer contra ela. Também estava preocupada com você, a Esméria e a Claudina, que provavelmente já sabiam da rebelião e não tinham notícias minhas.
Era difícil não pensar no que estaria sendo feito dos muitos pretos que foram mortos ou feridos pelas ruas, e no que aconteceria dali em diante. Passadas algumas horas, o Salustiano pediu que o Gregório desse uma olhada nas costas dele, que estavam feridas e doendo muito. Quando ele se virou para o machucado ficar sob a luz da janelinha, eu também vi um corte feio, com mais de um palmo de comprimento e cerca de meia polegada de profundidade, agravado pelo inchaço ao redor, e já estava minando pus.
O Gregório disse que precisava cobrir o machucado com alguma coisa, então rasguei um pedaço da saia e o amarramos apertado em volta do peito do Salustiano, para manter unidas as bordas do corte. Ele praguejou, lamentando ter acreditado que estava com o corpo fechado, que nada o atingiria, e ninguém teve coragem de dizer que não era bem assim, pois sabíamos que muitos tinham morrido acreditando na mesma coisa.
Quando começou a escurecer, o Eslebão disse que sairia para dar uma olhada nas ruas, e que se não voltasse dentro de algumas horas era porque nós também podíamos deixar o esconderijo. Mas voltou em menos de quinze minutos, dizendo que no pouco tempo que tinha ficado atrás do muro, ouviu duas patrulhas a cavalo passando por ali, e que, pelo menos por enquanto, nem deveríamos pensar em sair. Mais tarde aconteceu a mesma coisa e ele ainda se arriscou a olhar por cima do muro, quando viu uma patrulha parada no Terreiro de Jesus. Comecei a achar que não tínhamos escolhido um bom esconderijo, por ser muito central e passagem para vários pontos importantes da cidade, onde haveria guarda permanente. Reclamei da fome e todos disseram que também estavam famintos, depois de mais de um dia inteiro sem comer e sem beber nada, mas mesmo assim conseguimos dormir um pouco.
O Salustiano amanheceu com febre, e quando dei uma olhada na ferida, percebi que tinha piorado. As bordas do corte estavam ainda mais inchadas e infeccionadas, e não tínhamos nem água para lavar aquilo. Passamos mais um dia desanimados, tentando adivinhar o que estava acontecendo na cidade e tomando cuidado para ficarmos em completo silêncio quando ouvíamos passos ecoando em algum lugar sobre a galeria. No meio do dia a fome já estava insuportável, e o Eslebão, o Gregório e o Basílio resolveram andar pelas galerias para ver se encontravam uma passagem que nos tirasse de dentro dos muros da escola. Voltaram dizendo que tinham visto um alçapão, mas precisávamos esperar até a noite porque tinham ouvido passos no lado de cima.
A febre do Salustiano não diminuía e ele teve uma tremedeira que não passou nem quando o Basílio e o Gregório tiraram os camisões e os vestiram nele. À
noite, eu e o Salustiano ficamos na galeria e já estávamos preocupados quando eles voltaram dizendo que não tinham encontrado nada de comer, mas pelo
menos água e sabão havia em abundância na escola.
Levaram dois grandes baldes com água, que fingimos ser a bebida e a comida mais gostosas do mundo, e deixamos um pouco para lavar o ferimento do Salustiano. Ele gemia e reclamava da impressão de estar sendo marcado com ferro em brasa. Usando um pedaço de pano esfregado no sabão, o Uzoma limpou o corte sem dó, dizendo que na próxima subida procuraria linha e agulha. Como era sapateiro, achava que podia cerzir bem as duas bordas, como os médicos fariam. A água serviu para enganar a fome durante alguns minutos, mas logo ela já era a companhia mais presente, fazendo o dia seguinte se arrastar até que chegasse uma hora segura para eles subirem novamente. Levaram os baldes para encher de água e tiveram um pouco mais de sorte ao encontrar um pé de fruta-pão no quintal. Sem cozinhar, aquilo tinha um gosto horrível e era difícil de comer, muito dura, mas entre morrer de fome e fazer um esforço, preferimos a difícil tarefa.
No dia seguinte o Salustiano amanheceu um pouco melhor, mas piorou com o passar da tarde, ardendo de febre e reclamando que as pontadas de dor estavam mais fortes e mais constantes. À noite conseguiram pegar uma lamparina e foi bom não ficar na escuridão completa, embora a claridade nos proporcionasse a triste visão do Salustiano engolindo os lábios para não gritar de dor. O Eslebão deu uma casca de fruta-pão para ele morder, e seus dentes cortaram aquilo como se fosse casca de laranja, tamanha a força da mordida. Na noite seguinte decidimos que era preciso tirá-lo dali antes que fosse tarde demais, e me lembrei do filho do mestre Agostino, o doutor Jorge, pois sabia que ele dava aulas na faculdade. Todos foram contra a minha idéia de procurá-lo, dizendo que era muito arriscado. Mas o Salustiano disse que qualquer coisa era melhor do que ficar ali, sentindo dor e morrendo aos poucos, e perguntou se não podíamos levá-lo para a parte de cima, que ele se entregava e jurava ter entrado lá sozinho,
durante a noite.
A saída
Não foi uma operação muito fácil, pois o Salustiano não conseguia fazer muito esforço e quase morria de dor com qualquer movimento, mas no final deu tudo certo, e o deixaram no quintal, para que ninguém desconfiasse que ele tinha saído de dentro do alçapão. Sem que os outros ouvissem, eu tinha me aproximado do Salustiano e dito a ele para procurar o doutor Jorge, que poderia inclusive falar em meu nome, não se esquecendo de dizer que eu era muito amiga do mestre Agostino. Foi bom ter confiado, porque quatro dias depois, quando já estávamos querendo arriscar tudo para sair daquele lugar, o Eslebão achou um pedaço de papel caído perto do alçapão, um bilhete do doutor Jorge para mim.
Naquela noite eles não saíram, achando que alguém poderia estar de tocaia do lado de fora, esperando para pegá-los. O bilhete dizia que infelizmente o Salustiano não tinha sobrevivido, mas que ele queria nos ajudar.
Primeiro eles ficaram bravos comigo, dizendo que eu tinha posto tudo a perder, que tínhamos passado todos aqueles dias bebendo água e comendo fruta-pão crua por nada, pois seríamos entregues à polícia. Eu garanti que não, que a família do mestre Agostino era de confiança.
Discutimos a noite inteira, e o Uzoma quase me convenceu quando disse que àquela altura todos já sabiam que a rebelião tinha o propósito de, mais adiante, matar os brancos e escravizar os mulatos, e que, portanto, um mulato não poderia estar bem-intencionado ao nos oferecer ajuda. Mas minha intuição não costumava falhar, e algo me dizia que aquela era nossa única chance de sair logo dali, e quando eles disseram que iam embora naquela noite mesmo, pulando o muro, eu disse que ficaria e me responsabilizaria caso
quisessem ficar também, e acho que minha segurança os convenceu.
O dia seguinte foi bastante tenso, com eles se colocando de prontidão ao menor barulho, e à noite encontramos novo bilhete do doutor Jorge, indicando um esconderijo onde havia comida. Nenhum dos homens quis sair, e então eu disse que iria sozinha, que juraria estar sozinha se fosse pega. Demorei um pouco para me localizar naqueles corredores, mas encontrei o farnel exatamente no lugar indicado, dentro de um armário na cozinha.
Peguei o pacote, que era bem grande, e voltei para o esconderijo, onde cinco rostos felizes me receberam, por eu ter voltado sã e salva e por termos comida. Ao desamarrar o embrulho, imediatamente reconheci o bolo de laranja da Esméria e fiquei aliviada por saber que ela tinha notícias minhas, ou pelo menos sabia que eu estava viva. Além do bolo, ela também tinha mandado arroz, cuscuz, galinha assada e acarás, e aquela foi uma das refeições mais gostosas de toda a minha vida.
Durante dois dias aconteceu a mesma coisa, e o Gregório já tinha se oferecido para sair no meu lugar quando encontramos um bilhete do doutor Jorge no meio do farnel, perguntando se poderia descer para conversar conosco. Se sim, era para deixarmos um pedaço de papel, ou pano, ou qualquer coisa presa na porta do alçapão, de modo que ele pudesse ver do lado de fora.
Como já estavam cansados daquela prisão e menos desconfiados, meus amigos concordaram, e na noite seguinte estávamos todos na galeria quando a portinhola se abriu. O doutor Jorge primeiro jogou o farnel e depois desceu, amparado pelo Uzoma e pelo André, e nos contou que tinha obrigado o Salustiano a dizer onde eu estava, pois a Esméria, o Sebastião e a Claudina estavam desesperados à minha procura.
Disse também que já tinha um plano para nos tirar dali, um por vez. Todos concordaram que eu seria a primeira,
e na noite seguinte os homens me passaram pelo alçapão e me escondi em uma sala que o doutor Jorge tinha deixado destrancada, onde ele foi ter comigo assim que amanheceu. Levava um amigo que me disse ser de total confiança, e os dois me enrolaram em um lençol e me disseram para ficar quieta, fingindo de morta. E foi disfarçada de cadáver que fui carregada para fora da faculdade e colocada em uma carroça. Suspirei aliviada quando percebi que ela estava se movimentando, e mais ainda quando reconheci as vozes do Tico e do Hilário.
Em casa
Foi uma alegria voltar para casa e te abraçar. A Esméria fez um almoço com tudo de que eu gostava, e o convidado especial foi o doutor Jorge, que aos poucos conseguiu tirar todos os meus amigos do subterrâneo da faculdade com a ajuda do Tico e do Hilário. A Esméria continuou mandando comida durante quase um mês, tempo que demorou para que saíssem sem despertar suspeita, e nunca mais ouvi falar de nenhum deles.
Aliás, foi exatamente isso que combinamos, que se por acaso algum de nós fosse pego, nunca falaria nada sobre os outros, e negaríamos nos conhecer se fôssemos colocados frente a frente ou mesmo se passássemos um pelo outro na rua. Assim era mais seguro para todos. Eu não sabia como agradecer ao doutor Jorge, e ele disse que tinha ajudado por gosto, porque achava justa a nossa luta, para orgulho do pai, o mestre Agostino, que repetia que aquele filho tinha saído à mãe. Mas eu estava curiosa para saber dos acontecimentos depois de mais de uma semana do fracasso da rebelião, mas ninguém sabia contar direito. Só o Tico e o Hilário tinham algumas informações, e disseram que a polícia estava fazendo uma verdadeira devassa, que centenas de pretos tinham sido presos e seriam condenados à morte. Na noite do acontecido, enquanto ainda lutávamos em Água de Meninos, um grupo apareceu na
loja e recolheu todas as coisas dos muçurumins, que também tinham desaparecido sem deixar vestígios.
Eu tinha evitado pensar na cena durante todos aqueles dias, mas tive que me lembrar de detalhes, pois todos queriam saber do Fatumbi. Ainda não tinha me entristecido de verdade por ele e, ao entrar na casa onde ele também tinha morado, ao ver os objetos que já tinha tocado, ao me lembrar de tudo que eu lhe devia, caí em uma tristeza difícil de ir embora. A cada hora ele me fazia mais falta, as nossas conversas, as nossas confidências, e mesmo as discussões que tínhamos de vez em quando.
Foi bom ter deixado a casa e estas lembranças para trás durante um tempo e realmente participar da viagem que eu tinha tratado com a sinhazinha apenas para tirá-la da cidade. No início eu não queria ir, mas o Tico e o Hilário alertaram que seria bom eu desaparecer por algum tempo, e o quanto antes, pois a polícia tinha ordem de entrar em todas as casas de africanos libertos e procurar provas de que tinham participado da rebelião.
Encontrando qualquer coisa, por mais insignificante que fosse, era cadeia na certa ou coisa pior, como chibatadas e até mesmo a morte.
Já tinham passado pela casa deles, que no dia fatídico estavam em São Jorge dos Ilhéus e tinham como provar, e logo chegariam à Graça e principalmente à padaria, que tinha sido o ponto de encontro dos muçurumins mais importantes. Os meninos disseram que não sabiam como ainda não tinham ido lá, porque estavam dando prioridade às moradas dos muçurumins. Eles acharam que era melhor eu fingir que também tinha ido embora, o que seria confirmado pelo mestre Agostino, que ainda se ofereceu para guardar parte das nossas coisas em um cômodo nos fundos da casa dele, para que nossa fuga ficasse mais real. E se por acaso lhe perguntassem quem era o dono da loja e da casa, ia indicar o Alberto, que
confirmaria que tinha alugado as duas para alguns pretos forros que não conhecia e que tinham sumido sem pagar o aluguel daquele mês.
Eu, você, a Esméria e a Malena pegamos tudo que precisávamos e fomos para a casa do Tico e do Hilário, por onde a polícia já tinha passado, e a Claudina foi para a casa de uns amigos, que também já tinha sido revistada, na Federação. Aconteceu exatamente o previsto, a polícia passou pela nossa casa, vasculhou tudo
e
não
encontrou
nada
comprometedor.
Perguntaram ao mestre Agostino de quem era a propriedade e ele indicou o Alberto, que fez o combinado. Mas como ainda havia o perigo de alguém falar sobre os muçurumins da loja, duas semanas depois partimos com a sinhazinha para Cairu, onde ficaríamos por dois meses. Fomos eu, você, a Esméria, a Malena, seu pai, a sinhazinha e as três filhas, três criadas e um criado. O doutor José Manoel não pôde ir por causa da rebelião, pois tinha sido contratado por um senhor para defender seus escravos presos. Mas não era por bondade dele, do senhor, e depois explico essa história toda.
A viagem
Fomos de barco para Cairu, e muito me surpreendeu que a vila fosse em uma ilha linda e ainda bastante selvagem, de mata nativa. Não era muito grande e ficava no meio de um canal que ligava outra ilha à terra firme, a Ilha do Morro de São Paulo. O ouvidor foi nos visitar logo nos primeiros dias da nossa estada, e ficou muito contente por conhecer a sinhazinha, pois tinha sido amigo do sinhô José Carlos. Achou que o marido dela fosse o Alberto, e rimos muito depois que ele saiu, porque não desfizemos o engano. Foi melhor nem tentar explicar que o Alberto já tinha sido meu marido e na época era meu amante.
Aliás, seu pai foi um dos que mais gostaram da viagem, e nem uma vez sequer tocou no nome da Ressequida ou deu a entender que sentia falta dela, e só discutíamos quando ele queria te levar nas caçadas diárias que fazia.
Havia muitos bichos na ilha e ele nunca voltava de mãos vazias, seja de pássaros, como mutuns, jacus, jurupemas e muitos outros tão bonitos quanto saborosos, ou bichos do chão, como preás, tatus, cotias, coelhos e pacas.
Nosso único temor eram as cobras, também de várias qualidades e tamanhos, que entravam dentro de casa à nossa menor distração. Surucucus, jibóias, jararacas, corais, cascavéis, cipós... Tínhamos que ficar sempre atentos a vocês, as crianças, para que não fossem brincar em locais perigosos, freqüentados pelas mais peçonhentas.
A casa era bastante grande e muito bem mobiliada, e ficava em um espaço parecido com o que tínhamos no sítio. Espero que você tenha lembranças daquele passeio, pois se divertiu bastante. Tinha pouca idade, quase cinco anos, e brincou muito com a Mariana, a filha do meio da sinhazinha, poucas semanas mais velha que você. A Amélia ainda era um bebê, e a Carolina, apesar do corpo de menina, já se comportava como uma verdadeira sinhazinha. Naqueles dias eu quase me esqueci de tudo, da rebelião, de que poderia estar sendo procurada, da morte do Fatumbi, de que seu pai não vivia mais na nossa casa. Foram dias quase bons, e necessários. Muito mais necessários se eu soubesse o que estava por vir.
A devassa
Depois de mais ou menos vinte dias em Cairu, o doutor José Manoel apareceu para passar o fim de semana, levando notícias da cidade. Tentei não me abalar porque, a não ser pela Esméria e a Malena, ninguém mais sabia da minha participação na revolta. Como defensor de três
escravos pertencentes a um inglês, o marido da sinhazinha tinha acesso a muitas informações privilegiadas, além de estar muito bem-informado sobre os acontecimentos. Estava presente em quase todos os julgamentos realizados em São Salvador, porque havia alguns sendo feitos nas cidades do Recôncavo e até mesmo na corte, dependendo de onde era o escravo e da gravidade das acusações. O governo da província estava agindo muito depressa porque havia rumores de uma nova revolta contra a repressão, e uma punição rápida e exemplar dos culpados poderia inibir os organizadores.
O doutor José Manoel contou que, além das leis que já existiam sobre revoltas, foram criadas mais algumas bastante severas. Para começar, foi divulgado que nenhum africano gozava de direitos de cidadão ou de privilégio de estrangeiro, mas apenas do direito de ser propriedade de alguém, que poderia ou não querer defendê-lo. Bastava ser africano e livre, como era o meu caso, para correr o risco de ser preso e investigado até que fosse encontrada uma mínima suspeita de participação. Se isso acontecesse, e as autoridades faziam de tudo para que acontecesse, podia ser punido com chibatadas, com a prisão nas galés ou trabalhos forçados, com a morte ou com a deportação.
O doutor José Manoel tinha certeza de que muitos africanos estavam sendo presos injustamente, tendo como prova de acusação apenas a palavra dos seus desafetos. Ele soubera de um caso em que um senhor de escravos, para se livrar de alguns pretos velhos e doentes, acusou-os de rebeldes para que fossem presos e cuidados pelo governo. Mas isso não deu muito certo, porque as prisões estavam lotadas e o governo decidiu que os presos deveriam cuidar da própria alimentação, valendo-se dos amigos, no caso dos libertos, ou dos donos, no caso dos escravos.
Eu não sabia muito bem o que sentia ao ouvir o que ele À
contava. Às vezes era uma raiva muito grande da polícia e do governo, e outras vezes era raiva dos muçurumins da loja e seus amigos, que tinham organizado aquilo tudo e provavelmente estavam a salvo em algum lugar, enquanto todo o resto da população sofria as conseqüências. Não me parecia justo, embora eu também soubesse que a liberdade não seria conseguida sem o sacrifício de alguns.
Era difícil imaginar o que poderia ter acontecido se a revolta tivesse dado certo, mas, quanto mais tempo eu passava ao lado da sinhazinha e do Alberto, mais agradecia por estarem vivos. Muitos pretos tinham morrido e um deles provavelmente seria muito bem lembrado, o Vitorio Sule, o homem da Sabina. Podia até acontecer de ela ser condecorada pelos brancos, ela e sua comadre, por terem sido leais. Mas eu não gostaria de estar no lugar dela, que, além de correr perigo de morte como delatora, já tinha sido punida com a viuvez.
O Vitorio foi um dos primeiros a morrer, e às vezes eu pensava se isso não tinha sido vingança dos próprios companheiros. Mas era improvável porque, na hora, ninguém sabia de nada. A Sabina não tinha idéia da grandeza dos propósitos da rebelião e provavelmente nunca conseguiria imaginar o que evitou, mas, apesar de tudo, eu a entendia. O que ela queria era manter por perto o seu homem, o pai dos seus filhos, já que participar de rebeliões implica estar disposto a matar e a morrer. Não era fácil formar uma família, e ela estava disposta a tudo para manter a sua.
O doutor José Manoel contou que, no dia seguinte à rebelião, os comerciantes da cidade baixa fecharam as portas por causa de um boato de uma nova rebelião montada pelos pretos que não tinham conseguido sair na noite anterior. Policiais e civis armados ocuparam as ruas e atiraram em todos os pretos que passavam, assassinando muitos inocentes, e alguns senhores exigiram que o chefe da polícia parasse com aquilo, pois
punha em risco suas propriedades, seus escravos. As autoridades então chamaram o povo para agir em conjunto, de modo que pudessem controlar todas as ações, e foi criada uma nova lei que não só convocava voluntários, mas também obrigava todos os civis a colaborar com a polícia sempre que fosse necessário, a qualquer hora e em qualquer lugar, sob o risco de serem presos por omissão.
Qualquer um, policial ou não, poderia prender os pretos que saíssem às ruas depois das oito horas da noite ou que estivessem reunidos em número de quatro ou mais, a não ser que provassem estar trabalhando. Com isso, os escravos saíram lucrando em relação aos libertos, pois havia uma exceção para os portadores de passes dados pelos donos, com o motivo e a hora da saída e do regresso. O escravo pego sem esse passe receberia cinqüenta chibatadas e só seria devolvido ao dono depois de pagas as despesas da punição. Quanto aos libertos, além das chibatadas ainda poderiam ficar presos, ir a julgamento e, se condenados, podiam ser deportados.
De acordo com o doutor José Manoel, as rondas formadas por inspetores de quarteirão, guardas nacionais, soldados e civis podiam invadir qualquer casa a qualquer hora, e geralmente começavam por cercar uma rua ou um quarteirão inteiro para que ninguém escapasse, e depois entravam nas casas em grupos de cinco a sete. Nestes grupos sempre havia um juiz e um escrivão, que revistavam a casa toda, interrogavam os moradores e, se fosse o caso, confiscavam provas e prendiam os donos. As vezes nem precisava haver prova, bastava o preto não responder direito às perguntas feitas pelo juiz, por estar nervoso ou por não falar direito o português. Os que estavam feridos também eram presos, porque isso poderia indicar a participação nos enfrentamentos, e depois se apurava o que tinha acontecido de verdade.
Depois de presos, todos podiam contratar advogados, por conta própria, no caso dos libertos, ou pagos pelos senhores, no caso dos escravos. Mas mesmo se tivessem dinheiro ou se os senhores pagassem pela defesa deles, era difícil encontrar advogados, pois a população insultava os que se dispunham a defendê-los. Um amigo do doutor José Manoel tinha recebido ameaça de morte, ele e a família, e por isso foi bom que a sinhazinha e as filhas estivessem em Cairu, em segurança. O inglês para quem ele trabalhava estava defendendo três escravos, mas alguns dos ingleses tinham quase todos os escravos envolvidos. Para não perdê-los, dificultavam a entrada das patrulhas em suas casas, alegando benefícios de estrangeiros e atraindo a antipatia das autoridades baianas. Eu ouvia todos os relatos com grande interesse, pensando que talvez pudesse reconhecer a descrição de alguém ou um nome qualquer, mas só depois que retornamos a São Salvador foi que consegui saber de alguns dos meus amigos.
Durante todo o tempo que ficamos em Cairu, mais de dois meses, o doutor José Manoel ia a cada quinze ou vinte dias. Nos intervalos destas visitas eu tentava não pensar em nada, mas nem sempre conseguia e, por sorte, seu pai não fez muitas perguntas, mesmo sabendo dos muçurumins da loja. As notícias pioravam a cada visita, com o início dos julgamentos e das aplicações das penas. Ainda em fevereiro foi formado um tribunal, e o doutor José Manoel estava preocupado, porque poucas pessoas tinham coragem de testemunhar na defesa, mesmo sabendo da inocência dos réus, que eram julgados em duas etapas. Na primeira, passavam pelo Júri de Acusação, formado por pessoas que tinham direito a voto nas eleições políticas.
Nesse júri eram lidos o depoimento do réu no momento da prisão, uma lista das provas encontradas com ele, os depoimentos das testemunhas de acusação e uma conclusão do inquérito policial, sugerindo a culpa ou a
inocência. Se culpado, o réu era levado ao Júri de Sentença, também formado por cidadãos, mas presidido por um juiz formado em leis. Nas sessões desse tribunal, o juiz primeiro interrogava o réu e depois o escrivão lia todo o processo no qual ele estava envolvido, passando a palavra ao promotor e depois à defesa. O doutor José Manoel disse que, a essa altura, a única coisa que eles podiam fazer era tentar amenizar a pena, porque o réu nunca deixava o tribunal sem uma, quase sempre a maior possível.
O que estava em jogo não era apenas a participação dos pretos na revolta, mas também a defesa do país contra os pretos sem pátria que queriam tomá-lo à força, a defesa do Deus do Brasil contra os feiticeiros da África.
Eram esses os termos usados pelos promotores, e o doutor José Manoel disse que contra os ataques à soberania nacional e à fé cristã não havia defesa. Eles diziam que os pretos queriam roubar o Brasil dos brasileiros, profanar os templos católicos e incendiar as propriedades, o que em parte era verdade, mas também era verdade que vinham fazendo isso com os pretos havia muitos anos.
Eles nos tiravam do nosso país e das nossas propriedades, faziam nossos batismos na religião deles, mudavam nossos nomes e diziam que precisávamos honrar outros deuses. O argumento usado pelos advogados ou pelos réus que faziam a própria defesa era que os pretos tinham seguido à risca todas as vontades dos brancos, tinham passado a gostar da nova terra, dos donos e dos seus santos, e que, portanto, mereciam continuar fazendo parte da sociedade. Era assim que eles eram instruídos por seus senhores, que os queriam de volta. Alguns pretos não aceitavam e permaneciam fiéis às suas crenças, não se dobravam aos brancos, assumindo a participação na revolta e negando conhecer os companheiros, para não comprometê-los. O doutor José Manoel disse que era interessante ver como pessoas que habitavam a mesma loja negavam até mesmo já se terem visto.
Mas também havia aqueles acusados por engano, que não tinham participação alguma e que, por raiva ou vingança, falavam tudo o que sabiam, davam nomes e moradas dos outros acusados e, se possível, inventavam informações ainda mais comprometedoras. Como os processos estavam correndo com a máxima urgência, ninguém se preocupava em confirmar estas informações, tomadas como verdade. Contra os nagôs e os hauçás, havia ainda o fato de terem sido acusados de participantes ou líderes das rebeliões anteriores, o que agravava a situação. Os pretos que a justiça achava que eram líderes da rebelião eram tratados de modo igual, mas para os que apenas tinham participado, havia uma grande diferença na condenação de escravos e de não-escravos.
E entre os não-escravos, havia ainda diferença entre os que já tinham nascido livres e os que tinham comprado a liberdade, considerados ainda mais perigosos se fossem africanos. Para que os senhores não fossem privados dos seus bens, a maioria dos escravos foi punida apenas com açoites, cinqüenta por dia, para que não morressem com as seiscentas e até mil e duzentas chibatadas da pena completa. O alufá Licutan foi condenado a mil chibatadas, assim como o Gaspar e o Belchior, da loja da Rua da Oração, e a Emerenciana, a mulher do mestre Dandará, porque contaram à polícia que ela estava distribuindo anéis iguais aos usados pelos muçurumins.
Quando o doutor José Manoel comentou isso, a sinhazinha estava por perto e me olhou bastante surpresa, por ter se lembrado do anel que eu tinha mandado para ela.
Mas não comentou nada, talvez porque soubesse que eu estava apenas querendo protegê-la. O doutor continuou contando que mais de cento e cinqüenta africanos já
estavam em uma lista para serem deportados, e pelo menos quinze tinham sido condenados à forca, mas estavam recorrendo da sentença. Todos os condenados à morte eram líderes ou réus confessos, presos em flagrante com as armas na mão, provavelmente na batalha de Água de Meninos, na qual o Fatumbi morreu.
Apreensões
Confesso que estava com medo quando voltamos para São Salvador, em meados de abril, e em vez de irmos para nossa casa, nos hospedamos com o Tico e o Hilário.
O medo não era infundado, pois a situação estava muito mais grave do que imaginávamos, e não eram apenas os africanos libertos e participantes da rebelião que poderiam ser deportados, mas todos os africanos libertos, como eu, a Esméria e o Sebastião. Isso de deportar os africanos libertos ainda era apenas um decreto esperando a apreciação do imperador, mas com grande chance de ser aprovado. E contra mim ainda havia uma agravante, como o Tico descobriu quando foi saber do mestre Agostino o que tinha acontecido com a casa e a loja na nossa ausência.
O velho barbeiro disse que a polícia tinha aparecido por lá três vezes, e que na segunda arrombou as portas e entrou, encontrando tudo vazio. Tinham recebido uma denúncia de que na loja moravam alguns dos chefes da rebelião, mas o mestre Agostino negou, dizendo que tinha visto por lá algumas famílias e nada de suspeito.
Mesmo assim eles fizeram buscas, levantando tábuas e cavando paredes à procura de esconderijos de armas ou escritos em árabe. E ainda voltaram uma terceira vez, para ver se a propriedade continuava desabitada.
Passados quase quatro meses da rebelião, o filho militar comentou com o mestre Agostino que a polícia estava mais empenhada em arranjar provas contra os que já tinham sido presos e montar os inquéritos, e achamos que já podíamos voltar para casa. Evitávamos sair à rua mesmo nas horas permitidas, e como o Tico e o Hilário eram crioulos e não foram indicados como suspeitos, eles nos supriam com roupas e alimentos. O seu pai também ajudava, e o doutor José Manoel comentou que, como eu tinha um filho brasileiro, poderia me defender dizendo que queria permanecer na terra onde o meu filho tinha nascido e à qual já tinha me adaptado.
Ele também me aconselhou a usar sempre meu nome de branca, Luísa, porque os nomes africanos não eram bem-vistos, como nunca foram, pois significavam que o preto não tinha acatado o batismo. Aquilo tudo era uma situação muito humilhante, mas não havia o que fazer naquele momento, de modo que eu aceitava e esperava que tudo voltasse ao normal.
Durante meses, todo o povo acompanhou com grande interesse o cumprimento das punições, que o governo fazia questão de alardear aos quatro cantos da cidade, para servir de prevenção. Os açoites ocorriam em lugares públicos, em pelourinhos armados no Campo Grande e no Largo da Pólvora. A pena do alufá Licutan e a de outro líder, que o governo achou que poderiam perturbar a ordem pública por serem muito conhecidos, foram cumpridas no quartel de Água de Meninos. O
doutor Jorge disse que quase todos os dias chegavam na Santa Casa da Misericórdia réus em péssimas condições, e muitos não conseguiam sobreviver.
Ele achava que alguns faziam esta escolha porque não cooperavam com o tratamento, preferindo a morte à humilhação da derrota. Ele chegou a atender o mestre Luís Sanin, mas não era nada muito grave e a pena dele apenas precisou ser interrompida por alguns dias.
Quando recebiam todas as chibatadas impostas pela lei, os escravos eram devolvidos aos donos, que assinavam um documento se responsabilizando pelo bom comportamento deles, e a maioria ainda era obrigada a andar por um bom tempo portando objetos que eram uma verdadeira tortura. A justiça definia o tempo de uso, sendo que em alguns casos era por todo o tempo que o escravo permanecesse na Bahia, o que fez com que muitos senhores tentassem vender seus escravos castigados, nem sempre encontrando compradores por causa da má fama.
Estes objetos eram um pesado colar de ferro na forma de estrela, que antes era de uso de escravos fujões, ou correntes e calcetas para os pés, que não deixavam os escravos trabalharem direito, além de serem bastante desconfortáveis e pesados. Em maio, um dia antes do cumprimento das penas de morte, saiu a aprovação da lei sobre a deportação, que dizia que todos os africanos libertos, suspeitos ou não, deveriam deixar a Bahia assim que o governo achasse algum país para recebê-los. Depois de ir embora, ninguém podia voltar, sob pena de ser levado a julgamento por insurreição, cumprir pena e ser novamente expulso, caso não fosse condenado à morte. Se por acaso o julgamento considerasse o africano inocente, como poderia acontecer com os que nunca tivessem vivido na Bahia e lá desembarcassem desavisados, também seria expulso.
Ou seja, preto, na Bahia, só se fosse escravo, ou então se tivesse algum dinheiro, porque podiam protelar a deportação os africanos que se dispusessem a pagar um imposto de dez mil réis, desde que devidamente cadastrados pelo juiz de paz da freguesia onde moravam. Neste caso, o africano ficaria sob constante vigilância, e se desobedecesse às normas seria deportado à própria custa. Como naquele momento eu queria ficar, o doutor José Manoel me aconselhou a fazer o cadastramento, informando a minha morada, mas dizendo que tinha me mudado para lá havia pouco tempo, menos de um mês. E foi o que fiz, nem considerando as outras hipóteses, como me declarar inválida ou sem recursos, como fizeram a Esméria e o
Sebastião. Outra forma de permanecer na Bahia e ser liberada da taxa seria denunciando quem tinha participado da rebelião, mas eu nunca teria essa coragem, ou covardia, quiçá.
Foram quatro os pretos executados, pois os outros conseguiram mudar as sentenças, e todos tinham sido capturados entre os feridos na batalha do quartel de Água de Meninos. Eu imaginava que o Fatumbi sabia que, se fosse pego e não tivesse alguém para defendê-lo, seria executado, e por isso preferiu morrer lutando. Ele me fazia muita falta, e pelo jeito a você também, que sempre perguntava por ele. Foi bom que ele não estivesse vivo para ver a tristeza e o desespero que desceu sobre todos os muçurumins no dia da execução.
Entre os mortos estava um preto chamado Ajahi, que eu nunca consegui saber se era o meu amigo Ajahi, o que tinha comprado a liberdade aos Clegg. Mas também não fiz muito esforço para saber, acho que não queria.
Os outros três eu tinha quase certeza de não conhecer, ou pelo menos não conhecia seus nomes de branco, Pedro, Gonçalo e Joaquim. Foi no dia quatorze de maio, e as autoridades fizeram questão de uma grande farfalhice, com os pretos seguindo a pé e algemados até o Campo da Pólvora, onde novas forcas tinham sido construídas. Mas elas não chegaram a ser usadas.
Nenhum carrasco se apresentou, talvez por medo de represálias futuras ou por pena dos condenados, já que todos sabiam que eles não eram as pessoas mais importantes
no
planejamento
da
rebelião.
As autoridades tinham até oferecido recompensa em dinheiro para quem se dispusesse a fazer os enforcamentos, e nem entre todos os presos encontraram alguém que achasse que valia a pena, e os quatro homens morreram fuzilados por uma tropa da guarda permanente.
Refazer
A vida começou a voltar ao normal depois de alguns meses de inquietação, mas as autoridades continuaram ocupadas em livrar a cidade dos africanos. Mas, com a pressão da Inglaterra para a proibição do tráfico alguns anos antes, era também menor o número de viagens entre a Bahia e a África e, em conseqüência, menor o número de navios que poderiam transportar os deportados.
Muitos não queriam ir embora, pois não tinham quem encontrar por lá, e também por já terem refeito a vida em São Salvador. Naquela época, as notícias que chegavam de África não eram muito boas, dando conta de muitas guerras entre as tribos, que continuavam fazendo escravos. Havia notícia de navios que por lá mal aportavam e já faziam o caminho de volta para o Brasil, tão grande era o número de escravos esperando para embarcar, ao passo que, antes da proibição, às vezes eles tinham que esperar vários dias, até mesmo semanas, para atingir a lotação. Essa fartura de escravos era muito boa para os comerciantes, que corriam menos riscos de serem pegos enquanto esperavam nos portos ou ao longo da costa. Mesmo os navios de traficantes experientes se recusavam a levar os deportados, com seus capitães dizendo que era perigoso transportar passageiros rebeldes, que não estavam preparados e equipados para tal missão.
O governo então começou a obrigá-los, dizendo que estavam desobedecendo à lei, e em cada navio começaram a ser embarcados grupos de cinco ou seis prisioneiros. Os capitães tinham que provar o desembarque deles no porto de destino, sob pena de pagamento de uma multa de, se não me engano, quatrocentos mil réis por peça. Isso evitava que os pretos fossem desembarcados em alguma ilha vizinha ou mesmo jogados ao mar assim que deixassem a cidade.
Muitas vezes, para conservar os laços formados em São Salvador, o preto condenado se fazia acompanhar da
família, que vendia às pressas tudo que tinha para poder pagar as passagens, como foi o caso de várias pessoas que conheci mais tarde.
Eu ficava pensando no que aconteceria se fosse obrigada a deixar a província, e não conseguia me imaginar sendo feliz sem os amigos e as oportunidades que a cidade me ofereceu. Conversei com a Esméria sobre essas inquietações e ela disse que eu precisava tomar juízo, que somente por ter uma boa estrela eu tinha me livrado de ser morta ou aprisionada, mas precisava pensar em você, meu filho, que não tinha mais ninguém com quem contar. Ela achava que seu pai não era confiável, e eu lhe dava toda a razão. O Alberto era uma boa pessoa, mas, com a fraqueza para os jogos e as bebidas, não era alguém que eu deixaria com tranqüilidade cuidando de você, embora você o adorasse. Eu devia ter acreditado nesta desconfiança, mas acho que na época não tive escolha.
Como também não tive escolha ao montar uma nova oficina de charutos e negar emprego aos africanos.
Apesar de saber que os que queriam permanecer precisavam muito de trabalho para conseguirem pagar o imposto de permanência, e que ninguém os queria como empregados por medo da fama de revoltosos, eu também não pude empregá-los. Fiquei com medo de burlar a lei e ser pega, já que para empregá-los, ou mesmo para alugar a loja para eles, como muitos me pediram, eu teria que pedir uma licença especial e me responsabilizar pelo comportamento deles. Por ser africana liberta, eu provavelmente seria investigada, e poderiam acabar descobrindo o que eu não gostaria que soubessem. O Tico e o Hilário também não quiseram se responsabilizar, e então contratamos somente crioulos, livres ou de ganho, que tinham a seu favor o fato de terem nascido na província. Contratei mulheres, o que me redimia um pouco da
culpa de não dar emprego a quem realmente precisava, pois elas tinham mais dificuldade de sobreviver do próprio trabalho, além do fato de muitas arcarem sozinhas com a responsabilidade de criar filhos não assumidos pelos homens. O Tico e o Hilário vendiam cada vez mais e diziam que nossos charutos já estavam ganhando fama em toda a Bahia.
Eu e você tínhamos ido até o mercado de Santa Bárbara naquele dia em que voltamos para casa e encontramos a Esméria e a Malena desesperadas no meio da rua. Elas disseram que seu pai estava na nossa casa, bêbado, destruindo tudo que encontrava pela frente. Pedi que a Esméria te levasse para um passeio, para que você não visse aquilo, e a Malena voltou comigo para casa.
Quando entramos, foi difícil reconhecer o que a sala já tinha sido um dia, com os móveis fora de lugar e tudo que pudesse ser quebrado ou rasgado reduzido à sua menor parte. Seu pai já estava mais calmo e sentado a um canto, onde o deixei para dar uma olhada nos outros cômodos.
A cozinha estava pior do que a sala, e os quartos também não estavam em melhores condições, sendo que o quarto dos santos tinha sido o único lugar preservado, talvez por respeito ou medo. Senti vontade de correr com o Alberto, de mandá-lo embora e pedir que nunca mais voltasse, mas me sentei no chão ao lado dele e esperei que parasse de chorar para me dizer se havia alguma coisa que justificasse um ato daqueles.
Ele então contou que a Ressequida sabia de tudo que acontecia entre nós dois e estava ameaçando me tomar a casa. Quando fizemos a divisão dos bens, logo depois que me mudei do sítio, tínhamos assinado um contrato dividindo o terreno, sendo que a parte da padaria ficou para ele e a casa para mim. Mas foi um contrato feito na confiança, sem registro em cartório. Pelo que o Alberto contou, a Ressequida tinha conseguido passar todos os bens para o nome dela, alegando que ele não tinha capacidade de cuidar do patrimônio do casal, porque bebia demais e estava perdendo tudo no jogo. Quando ficou sabendo disso, ele foi conversar com o doutor José Manoel para que pusesse a casa em meu nome, mas entre as muitas leis que surgiram contra os africanos como represália à rebelião, uma delas dizia que nós não poderíamos mais possuir bens na província. Antes de ir embora, ele disse que daria um jeito, mas eu não consegui imaginar qual.
O Alberto ficou vários dias sem aparecer e eu sem coragem de mandar procurá-lo, mas achando que a qualquer momento alguém poderia nos pôr na rua. O
Sebastião passou alguns dias com a gente, consertando o que tinha sido quebrado, e me acalmou um pouco dizendo que o Tico e o Hilário nos receberiam com muito prazer, caso perdêssemos a casa. Mas não era exatamente isso que me incomodava, apesar de não ser nada agradável a idéia de novamente ter que recomeçar a vida, mas eu sentia uma raiva muito grande do Alberto e da Ressequida.
Era evidente que ela estava cobrando muito caro pela nacionalidade brasileira dele, que nem mais estava sendo necessária. Depois daquele período de tumultos, portugueses e brasileiros passaram a conviver muito bem, os brancos unidos contra a ameaça que representavam os pretos rebeldes. Fui conversar com o doutor José Manoel e ele comentou que tinha se encontrado com o Alberto, e os dois acharam que o melhor a fazer era um contrato de aluguel, porque provavelmente a Ressequida ia conseguir ficar com todos os bens dele. O aluguel era apenas uma maneira de ganharmos tempo para que o doutor José Manoel tentasse reverter a situação em favor do Alberto, mas ele não acreditava que fosse possível. Quem estava solicitando a interdição do Alberto na verdade era o pai da Ressequida, a pedido dela, é claro, e como homem,
brasileiro e pai preocupado com as condições de vida da filha, ele tinha grandes chances de conseguir. Sem contar que o velho tinha boas relações no governo, o que era uma excelente vantagem em relação a um ex-estrangeiro, beberrão e jogador.
Um contrato em meu nome também poderia não ser respeitado, e a sinhazinha de imediato se ofereceu para fazê-lo em nome dela, querendo inclusive tentar comprar o imóvel. Mas isso eu não aceitei, mesmo sabendo que ela apenas emprestaria o nome, e eu ou o Alberto daríamos um jeito no dinheiro, mas não achava justo comprar uma coisa que já era minha. O Alberto que se entendesse com a Ressequida em relação às coisas deles; afinal de contas, ela só tinha entrado nas nossas vidas porque ele assim tinha decidido. Mas eu e principalmente você não merecíamos ser prejudicados.
Foi exatamente sobre isso que conversei com o seu pai, quando ele finalmente teve coragem de aparecer e prometeu que daria um jeito, pois nunca teria coragem de desamparar o próprio filho e eu não perderia meus investimentos. Não sei como ele conseguiu, mas menos de um mês depois, apareceu em casa com cinco contos de réis, dizendo-me para comprar uma outra casa.