Um General na Biblioteca

Italo Calvino · Apêndice

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Um General na Biblioteca

Sumário

 

Nota de Esther Calvino

APÓLOGOS E CONTOS 1943-1958

O homem que chamava Teresa

O raio

Quem se contenta

O rio seco

Consciência

Solidariedade

A ovelha negra

Imprestável

Como um voo de patos

Amor longe de casa

Vento numa cidade

O regimento desaparecido

Olhos inimigos

Um general na biblioteca

O colar da rainha

A grande bonança das antilhas

A tribo com os olhos para o céu

Monólogo noturno

de um nobre escocês

Um belo dia de março

CONTOS E DIÁLOGOS 1968-1984

A memória do mundo

A decapitação dos chefes

O incêndio da casa abominável

A bomba de gasolina

A homem de Neandertal

Montezuma

Antes que você diga “alô”

A glaciação

O chamado da água

O espelho, o alvo

As memórias de Casanova

Henry Ford

O último canal

Nota do editor

Sobre o autor

ITALO CALV IN O CO M EÇA A ESCR EV ER M UITO CED O, ainda adolescente: contos, apólogos, poesias e peças teatrais. O teatro é sua primeira vocação e talvez o que mais lhe interesse. Desse período há muitas peças que nunca foram publicadas. Sua extraordinária capacidade de autocrítica, de se ler desdobrando-se, levou-o muito depressa a abandonar esse gênero. Numa carta de 1945 ele anuncia laconicamente ao amigo Eugenio Scalfari: “Passei à narrativa”. A notícia devia ser muito importante, pois foi escrita em maiúsculas que cruzam todo o espaço da página.

A partir daí sua atividade de escritor será ininterrupta; não houve dia em que não tenha trabalhado, em qualquer lugar, em qualquer circunstância, sentado à mesa ou com o papel em cima dos joelhos, no avião ou num quarto de hotel. Não espanta, pois, que tenha deixado uma obra tão vasta, da qual fazem parte inúmeros contos e apólogos. Além dos coletados por ele em vários volumes, muitos saíram apenas em jornais e revistas; outros permaneceram inéditos.

Os textos aqui reunidos — inéditos e não — são apenas uma parte dos escritos entre 1943 — quando o autor ainda não tinha vinte anos — e 1984.

Alguns, concebidos inicialmente como romances, vão se tornar contos, processo nada insólito em Calvino, que, de um romance nunca publicado, Il bianco veliero, tirará mais de um relato inserido no volume dos Contos de 1958.

Outros resultam de pedidos específicos: talvez ele nunca tivesse escrito A glaciação se uma destilaria japonesa de bebidas alcoólicas, mais especificamente de um uísque muito popular no Oriente, não tivesse decidido festejar seu quinquagésimo aniversário pedindo um conto a certos escritores famosos europeus. Havia uma única obrigação: a de mencionar no texto uma bebida alcoólica qualquer. A glaciação foi publicado primeiro em japonês e depois em italiano. Curiosos também são a gestação e o destino de O incêndio da casa abominável. Havia um pedido, bastante vago, da ibm: até que ponto era possível escrever um conto com o computador? Isso se passava em Paris, em 1973, e essas máquinas não eram de fácil acesso. Sem se desencorajar, e dedicando-lhes muito tempo, Calvino fez à mão todas as operações que o computador deveria ter executado. O conto terminou sendo publicado, depois, numa edição italiana da Playboy, o que, na verdade, não significou um problema para Calvino, pois ele

o destinara mentalmente ao Oulipo* como exemplo de ars combinatoria e desafio às próprias capacidades matemáticas.

Quanto aos contos que abrem este livro, quase todos inéditos e muito curtos — Calvino os chamava raccontini, “continhos” —, pode ser útil saber que, numa nota de 1943, encontrada entre seus papéis de juventude, ele escreveu: “O apólogo nasce em tempos de opressão. Quando o homem não pode dar forma clara a seu pensamento, exprime-o por meio de fábulas. Esses continhos correspondem a uma série de experiências políticas e sociais de um jovem durante a agonia do fascismo”. Quando os tempos permitissem, acrescentava — ou seja, depois do final da guerra e do fascismo —, o conto-apólogo não seria mais necessário e o escritor poderia passar a outra coisa. Mas os títulos e as datas de grande parte dos textos do presente volume e de outros escritos não reunidos aqui parecem indicar que, apesar do raciocínio de juventude, Calvino continuaria a escrever apólogos ainda por muitos anos.

Foram incluídos neste livro alguns textos de difícil classificação, como O chamado da água; mesmo não sendo apólogos nem contos no sentido estrito, merecem ser trazidos aos leitores.

Em outros casos, textos que podem parecer únicos e isolados no conjunto de sua obra fazem parte de projetos que Calvino tinha claros na mente mas não teve tempo de realizar.

Esther Calvino

 

* Ouvroir de littérature potentielle (Oficina de literatura potencial): grupo criado pelos franceses Raymond Queneau e François leLionnais, do qual participaram georges Pérec e Italo Calvino, e que propunha experiências literárias segundo regras rígidas que seus próprios membros inventavam e se impunham. (N. T.)