Um General na Biblioteca

Italo Calvino · Capítulo 26 de 33

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Um General na Biblioteca

Antes que você diga “alô”

 

ESPER O Q UE V O CÊ tenha ficado ao lado do telefone, que se outra pessoa ligar você lhe peça para desligar logo, a fim de deixar a linha desocupada: você sabe que um telefonema meu pode chegar a qualquer momento. Já três vezes disquei o seu número, mas minha ligação se perdeu nos engarrafamentos do circuito, não sei se ainda aqui, na cidade de onde estou ligando, ou lá longe, nas redes da sua cidade. Por todo lado as linhas estão sobrecarregadas. Toda a Europa está telefonando para toda a Europa.

Passaram-se poucas horas desde que me despedi de você, apressado e correndo; a viagem é sempre a mesma, e sempre a faço mecanicamente, como em transe: um táxi que me espera na rua, um avião que me espera no aeroporto, um carro da firma que me espera em outro aeroporto, e aqui estou, a muitas centenas de quilômetros de você. O momento que conta para mim é este: mal pus a mala no chão, ainda não tirei o sobretudo, e já pego o fone, disco o prefixo da sua cidade, depois o seu número.

Meu dedo acompanha lentamente cada número, até o dente que trava o disco; concentro-me na pressão da ponta do dedo como se dela dependesse a exatidão do percurso que cada impulso deve seguir por uma série de passagens obrigatórias muito distantes entre si e de nós, até tocar a campainha na sua cabeceira. É raro que a operação dê certo na primeira vez: não sei quanto tempo durarão os esforços do dedo indicador preso no disco, as incertezas da orelha colada na concha escura. Para conter a impaciência eu me lembro da época não muito distante em que cabia às invisíveis vestais da central a tarefa de garantir a continuidade desse frágil fluxo de centelhas, de travar invisíveis batalhas contra fortalezas invisíveis: cada pulsão interior que me impelia a me comunicar era mediada, procrastinada, filtrada por um processo anônimo e desencorajador. Agora que uma rede de conexões automáticas se estende por continentes inteiros e cada usuário pode ligar de imediato para outro usuário sem pedir ajuda a ninguém, devo me conformar em pagar essa extraordinária liberdade com um dispêndio de energia nervosa, repetição de gestos, tempos mortos, frustrações crescentes. (Em pagá-la também a peso de ouro, por cada impulso, mas entre o ato de telefonar e a experiência das tarifas cruéis não há uma relação direta: as contas chegam um trimestre depois, as ligações interurbanas diretas são afogadas num montante global que provoca o mesmo assombro das catástrofes naturais contra as quais nossa vontade logo encontra o álibi do inevitável.) A facilidade de telefonar constitui tamanha tentação que telefonar se torna cada vez mais difícil, para não dizer impossível. Todos telefonam para todos em todas as horas, e ninguém consegue falar com ninguém, as ligações continuam a perambular de alto a baixo pelos circuitos de busca direta, a bater asas como borboletas alucinadas, sem conseguirem se enfiar numa linha desocupada; cada assinante continua a metralhar números nos aparelhos registradores, convencido de que se trata só de um enguiço momentâneo e local. A verdade é que a maior parte das ligações é feita sem se ter nada para dizer, portanto obter ou não a comunicação não tem maior importância, e prejudica no máximo os poucos que realmente teriam algo para se dizer.

Não é esse o meu caso, evidentemente. Se tenho tanta pressa de lhe telefonar depois de poucas horas de ausência não é porque tenha me esquecido de dizer algo indispensável, nem é a nossa intimidade interrompida na hora da partida que estou louco para retomar. Se eu tentasse afirmar algo semelhante, logo me apareceria o seu sorriso sarcástico ou eu ouviria a sua voz que, com a maior frieza, me chama de mentiroso. Tem razão: as horas que precedem minhas partidas são cheias de silêncios e constrangimento entre nós; enquanto estou ao seu lado a distância não pode ser superada. Mas é justamente por isso que não vejo a hora de lhe telefonar: porque só numa ligação interurbana, ou, melhor ainda, internacional, temos a esperança de alcançar esse jeito de estar que costuma ser definido como “estar juntos”. É esse o verdadeiro motivo de minha viagem, de todos os meus contínuos deslocamentos pelo mapa geográfico, digo a justificação secreta, a que dou a mim mesmo, sem a qual minhas obrigações profissionais de inspetor dos negócios europeus numa empresa multinacional me pareceriam uma rotina sem sentido: parto para poder lhe telefonar diariamente, porque sempre fui para você e você sempre foi para mim a outra ponta de um fio, aliás de um cabo condutor coaxial de cobre, o outro polo de uma corrente sutil de frequência modulada que corre pelo subsolo dos continentes e pelos fundos oceânicos. E quando há entre nós esse fio para estabelecer o contato, quando é a nossa opaca presença física que ocupa o campo sensorial, logo tudo entre nós se torna já sabido, supérfluo, automático, gestos, palavras, expressões do rosto, reações recíprocas de aceitação ou intolerância, tudo o que um contato direto pode transmitir entre duas pessoas e que, por isso mesmo, também se pode dizer que é transmitido e recebido perfeitamente, sempre tendo-se em conta os apetrechos rudimentares de que os seres humanos dispõem para se comunicar; em suma, nossa presença será uma coisa lindíssima para ambos, mas com certeza não pode se comparar com a frequência de vibrações que passam pela comutação eletrônica das grandes redes telefônicas e com a intensidade de emoções que ela pode provocar em nós.

As emoções são tão mais fortes quanto mais a relação é precária, arriscada, insegura. O que não nos satisfaz nas nossas relações quando estamos perto não é que elas andem mal, mas, ao contrário, que andem como devam andar, ao passo que, agora, estou com a respiração presa, continuo a debulhar no disco a série de algarismos, a aspirar com a orelha os fantasmas de sons que afloram do aparelho: um tamborilar de “ocupado” como que em segundo plano, tão vago que é de esperar que seja uma interferência fortuita, algo que não nos diga respeito; ou então um chiado abafado de descargas, que poderia anunciar o sucesso de uma complicada operação ou, pelo menos, de uma fase intermediária, ou ainda o silêncio cruel do vazio e do escuro. Em algum ponto não identificável do circuito minha ligação perdeu o caminho.

Desligo e novamente pego o gancho, tento de novo, com redobrada lentidão, os primeiros algarismos do prefixo, que servem apenas para encontrar uma via de saída da rede urbana e depois da rede nacional. Nesse ponto, em alguns países uma tonalidade especial avisa que essa primeira operação teve êxito; se não se ouve o ronco de uma musiquinha é inútil debulhar outros algarismos: temos de esperar que uma linha desocupe. No nosso país, às vezes é um brevíssimo assobio que ouvimos no final do prefixo, ou no meio do caminho; mas não para todos os prefixos e nem em todos os casos. Em suma, que se tenha ou não ouvido o assobiozinho, isso não dá nenhuma certeza: emitido o sinal de caminho desimpedido a linha pode continuar muda ou morta, ou se revelar inesperadamente ativa sem ter dado antes nenhum sinal de vida. Por isso, convém não desanimar em nenhuma hipótese, discar o número até o último algarismo e esperar. Isso quando não acontece de o sinal de ocupado explodir na metade do número, avisando que é esforço perdido. Melhor assim, aliás: posso desligar logo, poupando uma nova inútil espera, e tentar de novo. Mas, no mais das vezes, depois de ter me lançado na enervante empreitada de marcar uma dúzia de algarismos na roda do disco, fico sem notícias dos resultados de meu esforço. Por onde estará navegando, nessas alturas, a minha ligação? Estará ainda parada no aparelho registrador da central de partida, esperando a sua vez, em fila, junto com outras ligações? Já terá sido traduzida em ordens dadas aos seletores, dividida em grupos de algarismos que se lançam em busca da entrada para as sucessivas centrais de trânsito? Ou voou sem tocar em obstáculos até a rede da sua cidade, do seu bairro, e ali ficou agarrada como uma mosca numa teia de aranha, esticando-se para o seu telefonema inalcançável?

Do fone não me vem nenhuma notícia, e não sei se devo me dar por vencido e desligar, ou se de repente uma leve carga sussurrante me informará que a minha ligação encontrou um caminho livre, partiu como uma flecha e daqui a poucos segundos despertará como um eco a campainha do seu telefone.

É nesse silêncio dos circuitos que estou falando com você. Bem sei que, quando finalmente nossas vozes conseguirem se encontrar na linha, nos diremos frases genéricas e truncadas; não é para lhe dizer alguma coisa que estou ligando, nem para que você pense que deve me dizer alguma coisa. Telefonamo-nos porque só no fato de nos falarmos numa ligação internacional, de nos procurarmos aos tateios através de cabos de cobre enterrados, de relés emaranhados, de turbilhões varrendo seletores engarrafados, nesse ato de sondar o silêncio e esperar o retorno de um eco, perpetua-se o primeiro chamado do afastamento, o grito do instante em que a primeira grande rachadura da deriva dos continentes se abriu sob os pés de um casal de seres humanos e os abismos do oceano se escancaram para separá-los, enquanto ele numa margem e ela na outra, arrastados precipitadamente ao longe, procuravam com seu grito lançar uma ponte sonora que ainda os mantivesse juntos, mas esse grito ia ficando cada vez mais fraco até que o ronco das ondas o levasse sem esperança.

Desde então a distância é a urdidura que sustenta a trama de toda história de amor como de toda relação entre os vivos, a distância que os pássaros tentam vencer soltando no ar da manhã as arcadas sutis de seus gorjeios, assim como nós ao lançarmos nas nervuras da terra rajadas de impulsos elétricos traduzíveis em ordens para os sistemas de relé: única maneira que resta aos seres humanos de saber que estão se telefonando pela necessidade de se telefonarem, e ponto final. É verdade que os pássaros não têm muito mais a se dizer do que tenho para lhe dizer, eu que insisto em mexer o dedo na roda de moer números, esperando que um clique mais feliz que os outros faça tilintar a sua campainha.

Como um bosque atordoado com o gorjeio dos pássaros, nosso planeta telefônico vibra de conversas realizadas ou tentadas, de trinados de campainhas, do tilintar de uma linha interrompida, do silvo de um sinal, de tonalidades, de metrônomos; e o resultado de tudo isso é um pio universal, que nasce da necessidade de cada indivíduo de manifestar a algum outro sua própria existência, e do medo de compreender no final que só existe a rede telefônica, enquanto quem chama e quem responde talvez realmente não existam.

Mais uma vez errei o prefixo, das profundezas da rede chega-me uma espécie de canto de pássaros, e depois fiapos de conversas alheias, e depois um disco em língua estrangeira que repete “o número discado está fora de serviço no momento”. No final, chega o apressado “ocupado” para barrar qualquer passagem. Pergunto-me se então você também está tentando me ligar e está encontrando os mesmos obstáculos, gesticulando às cegas, perdendo-se no mesmo labirinto espinhoso. Estou falando com você como nunca falaria se você estivesse escutando; toda vez que ponho o fone no gancho, apagando a frágil sucessão de algarismos também apago todas as coisas que disse ou pensei como num delírio: é nessa procura ansiosa, insegura, frenética que estão o princípio e o fim de tudo; nunca saberemos um do outro mais do que esse sussurro que se afasta e se perde pelo fio. Uma inútil tensão da orelha concentra a carga das paixões, os furores do amor e do ódio, os quais — durante minha carreira de executivo de uma grande companhia financeira, nos meus dias regulados por um uso preciso do tempo — nunca tive a chance de sentir a não ser de modo superficial e distraído.

É claro que conseguir uma ligação a essa hora é impossível. Melhor eu me conformar, mas se desisto de falar com você terei de enfrentar de novo, e de imediato, o telefone como um instrumento completamente diferente, como uma outra parte de mim à qual cabem outras funções: há uma série de reuniões de negócios nesta cidade que preciso confirmar com urgência, devo me separar do circuito mental que me liga a você e me inserir naquele que corresponde às minhas inspeções periódicas nas empresas controladas por meu grupo ou em que ela tem participação; isto é, devo efetuar uma comutação, não no telefone, mas em mim mesmo, no meu comportamento diante do telefone.

Primeiro quero fazer uma última tentativa, repetirei mais uma vez a sequência de algarismos que agora tomou o lugar do seu nome, do seu rosto, de você. Se der certo, tudo bem; se não, desisto. Enquanto isso posso continuar a pensar coisas que nunca lhe direi, pensamentos dirigidos mais ao telefone do que a você, decorrentes da relação que tenho com você através do telefone, ou melhor, da relação que tenho com o telefone, tendo você como pretexto.

Na rotação dos pensamentos que acompanham a rotação de mecanismos distantes se apresentam a mim rostos de outras destinatárias de interurbanos, vibram vozes de timbre diferente, o disco combina e decompõe sotaques, atitudes e humores, mas não consigo fixar a imagem de uma interlocutora ideal para a minha ânsia de ligações de longa distância. Tudo começa a se confundir na minha mente: os rostos, os nomes, as vozes, os números da Antuérpia, de Zurique, de Hamburgo. Não que eu espere de um número algo mais que de outro: nem quanto à probabilidade de conseguir a ligação, nem quanto ao que — uma vez conseguida a ligação — eu poderia dizer ou ouvir. Mas nem por isso desisto de insistir em fazer um contato com a Antuérpia ou Zurique ou Hamburgo ou qualquer outra cidade que seja a sua: já esqueci o seu número no carrossel de números que há uma hora vou alternando sem sorte.

Há coisas que, sem que minha voz a alcance, sinto necessidade de lhe dizer: e tanto faz se estou me dirigindo a você da Antuérpia, ou a você de Zurique, ou a você de Hamburgo. Saiba que o momento do meu verdadeiro encontro com você não é quando, na Antuérpia, ou em Zurique, ou em Hamburgo, eu a encontro de noite depois de minhas reuniões de negócios; isso é apenas o aspecto previsível, inevitável de nossa relação: as rusgas, as reconciliações, os rancores, os retornos da chama; em cada cidade e com cada interlocutora repete-se o ritual que é de praxe com você. Assim como é um número de Göteborg, ou de Bilbao, ou de Marselha, aquele para o qual espasmodicamente ligarei (tentarei ligar) tão logo eu retorne à sua cidade, antes mesmo de você saber de minha chegada: um número para o qual agora seria fácil ligar, num telefonema urbano aqui na rede de Göteborg, ou de Bilbao, ou de Marselha (não lembro mais onde estou). Mas não é com esse número que quero falar agora; é com você.

Eis o que — já que você não pode me ouvir — lhe digo. Há uma hora tento em rodízio uma série de números, todos tão inatingíveis como o seu, em Casablanca, em Salônica, em Vaduz: sinto muito que vocês todas tenham ficado me esperando, ao lado do telefone; o serviço está cada dia pior. Assim que eu ouvir uma de vocês dizer “Alô!” terei de ficar atento para não me equivocar, para me lembrar a qual de vocês corresponde o último número que disquei. Reconhecerei ainda as vozes? Faz tanto tempo que espero, escutando o silêncio!

É melhor que eu lhes diga desde agora, a você e a todas vocês, já que nenhum dos seus telefones responde: meu grande projeto é transformar toda a rede mundial numa extensão de mim mesmo, que propague e atraia vibrações amorosas, usar esse aparelho como um órgão de minha pessoa com o qual eu possa dar um abraço em todo o planeta. Estou quase conseguindo. Esperem ao lado de seus aparelhos. Dirijo-me também a vocês, em Quioto, em São Paulo, em Riad!

Infelizmente, agora o meu telefone continua a dar o sinal de ocupado, mesmo se desligo e pego novamente o gancho, mesmo se bato no aparelho. Pronto, agora não ouço mais rigorosamente nada, pelo visto todas as linhas caíram, fui cortado de tudo. Fiquem calmas. Deve ser um enguiço passageiro. Esperem.