Um General na Biblioteca
O incêndio da casa abominável
D AQ UI A PO UCAS H O R AS o corretor de seguros Skiller virá me pedir os resultados do computador, e ainda não inseri os dados nos circuitos eletrônicos que deverão triturar numa poeira de bits os segredos da viúva Roessler e de sua pensão pouco recomendável. Ali onde se erguia a casa — sobre uma daquelas dunas dos terrenos baldios entre os entroncamentos ferroviários e os depósitos de ferro-velho que a periferia da nossa cidade deixa atrás de si como montinhos de lixo que escapam da vassoura — agora só restam alguns escombros fuliginosos. Pode ter sido, originalmente, um charmoso palacete, ou não ter tido outro aspecto além do de casebre espectral: os relatórios da companhia de seguros não dizem; agora está queimada, do teto inclinado à adega, e nos cadáveres incinerados de seus quatro moradores não se encontrou nenhum vestígio que sirva para reconstituir os precedentes dessa carnificina perpetrada na solidão.
Mais que os corpos, há um caderno que fala, encontrado entre os escombros, inteiramente queimado, exceto a capa, protegida por um plástico. Na folha de rosto, está escrito relação sobre os atos abomináveis cometidos nesta casa e, no verso, um índice analítico com doze verbetes em ordem alfabética: Amarrar e amordaçar, Ameaçar com revólver, Chantagear, Difamar, Drogar, Esfaquear, Espionar, Estrangular, Induzir ao suicídio, Prostituir, Seduzir, Violentar.
Não se sabe qual morador da casa redigiu esse sinistro resumo, nem que objetivos se propunha: de denúncia, confissão, autodefesa, contemplação fascinada do mal? Tudo o que nos resta é esse índice que não fornece os nomes dos responsáveis nem os das vítimas das doze ações — dolosas ou apenas culposas — e nem sequer revela a ordem em que foram cometidas, o que já ajudaria a reconstituir uma história: os verbetes em ordem alfabética remetem a números de páginas riscados por um traço preto. Para completar a lista falta um verbo, “Incendiar”, sem dúvida o ato final dessa obscura peripécia: cometido por quem? Para esconder, para destruir?
Mesmo admitindo que nenhuma das doze ações tenha sido realizada por só uma pessoa contra só uma outra, reconstituir os acontecimentos é tarefa árdua: se os personagens em questão são quatro, tomados dois a dois podem configurar doze relações diferentes para cada um dos doze tipos de relações listadas. As soluções possíveis são, portanto, doze à décima segunda potência, isto é, tem de se escolher entre um número de soluções que se eleva a oito trilhões, oitocentos e setenta e quatro bilhões, duzentos e noventa e seis milhões, seiscentos e setenta e dois mil, duzentos e cinquenta e seis. Não espanta que a nossa polícia, demasiado ocupada, tenha preferido arquivar o inquérito, com a boa razão de que, para que tantos crimes possam ter sido cometidos, os culpados certamente morreram junto com as vítimas.
Só a companhia de seguros tem urgência em conhecer a verdade: sobretudo por causa de uma apólice de “incêndio” assinada pelo dono da casa. O fato de que na época até o jovem Inigo tenha morrido nas chamas apenas torna a questão mais espinhosa: sua poderosa família, que no entanto deserdara e despossuíra esse filho degenerado, é notoriamente pouco propensa a renunciar a qualquer coisa que caiba a ele. As piores ilações (mais ou menos incluídas no índice abominável) podem ser atribuídas a um jovem que, membro hereditário da Câmara dos Pares, arrastava um título ilustre pelos degraus das praças que servem de sofá para uma juventude nômade e contemplativa, e ensaboava os longos cabelos sob o jato das fontes municipais. A casinha alugada à velha senhora que mantinha a pensão era o único imóvel de que ainda era proprietário, e ali era recebido como subinquilino de sua inquilina, em troca de um desconto no valor já modesto do aluguel. Se o incendiário foi ele, Inigo, responsável e vítima de um plano criminoso executado com a imprecisão e o descuido que, pelo visto, eram próprios de seu comportamento, as provas do dolo eximiriam a companhia do pagamento das indenizações.
Mas essa não é a única apólice que a companhia é obrigada a honrar depois da catástrofe: a própria viúva Roessler renovava todo ano um seguro de vida em favor da filha adotiva, manequim muito conhecida de qualquer um que folheie as revistas de alta-costura. Ora, Ogiva também morreu, queimada junto com a coleção de perucas que transformavam seu rosto, de um charme assustador — como definir de outro modo uma jovem bela e delicada com a cabeça totalmente calva? —, no de centenas de personagens diferentes e deliciosamente assimétricos. Mas ocorre que Ogiva tinha um filho de três anos, entregue a parentes da África do Sul que não tardarão a reclamar os frutos do seguro, a não ser que se prove que foi ela que acabou por matar (Esfaquear? Estrangular?) a viúva Roessler. Aliás, como a própria Ogiva se preocupara em fazer um seguro de sua coleção de perucas, os tutores do menino também podem pretender essa indenização, a não ser que ela tenha responsabilidade na catástrofe.
Do quarto personagem desaparecido no incêndio, o gigantesco Belindo Kid, usbeque lutador de vale-tudo, sabe-se que ele descobrira na viúva Roessler não só uma senhoria sagaz (ele era o único inquilino pagante da pensão) mas também uma precavida empresária. Na verdade, nos últimos meses a velha se convencera a financiar a turnê da temporada do ex-campeão dos meios-pesados, mas fazendo um seguro para se garantir contra o risco de doença, incapacidade ou acidente que o impedissem de honrar seus contratos. Agora, um consórcio de organizadores de lutas de vale-tudo exige o pagamento dos riscos cobertos pela companhia de seguros; mas se a velha induziu ao suicídio Belindo, talvez até difamando-o ou chantageando-o ou drogando-o (o gigante era conhecido nos ringues internacionais por seu temperamento influenciável), a companhia poderá facilmente silenciá-los.
Não posso impedir que os lentos tentáculos de minha mente avancem uma hipótese de cada vez, explorem labirintos de consequências percorridas pelas memórias magnéticas num nanossegundo. É do meu computador que Skiller espera uma resposta, não de mim.
É verdade que cada um dos quatro catastróficos personagens demonstra ser mais apto a assumir o papel de sujeito de certos verbos contidos na lista e o papel de objeto de outros verbos. Mas quem pode negar que os casos aparentemente mais improváveis sejam os únicos que se deva reter? Tomemos o que, entre os doze verbetes, parece o mais inocente, seduzir. Quem seduziu quem? Por mais que eu me concentre em minhas fórmulas, um fluxo de imagens continua a rodopiar em meu espírito, a desabar e a se recompor como num caleidoscópio. Vejo os dedos compridos da manequim, com unhas pintadas de verde e roxo, roçarem o queixo mole, o buço cerrado do jovem senhor mendigo, ou fazerem cócegas na nuca coriácea e ávida do campeão usbeque, que, experimentando uma longínqua sensação agradável, arqueia seus deltoides como os gatos que ronronam. Mas, de repente, vejo também a Ogiva lunar deixando-se seduzir, enfeitiçada pelos afagos taurinos do meio-pesado ou pela devoradora introversão do rapaz à deriva. E vejo também a velha viúva visitada por apetites que a idade pode desestimular mas não extinguir, maquiando-se e embonecando-se para seduzir uma ou outra presa masculina (ou ambas) e vencer resistências de peso diferenciado, mas, em matéria de vontade, igualmente fracas. Ou então vejo-a, ela mesma, como objeto de perversa sedução, seja pela disponibilidade dos desejos juvenis que leva a confundir as estações, seja por um cálculo suspeito. E eis que, completando o desenho, intervém a sombra de Sodoma e Gomorra e desencadeia-se o torneio dos amores entre sexos não opostos.
Será que o leque dos casos possíveis pode se restringir aos verbos mais criminosos? Nada garante: qualquer um pode esfaquear qualquer um. Eis Belindo Kid trespassado como traidor por uma lâmina de punhal na nuca que mutila a sua medula espinhal como a do touro na arena. Vibrando com a exatidão da facada pode estar tanto o pulso fino, de pulseiras tilintantes, de Ogiva, num frio arroubo sanguinário, quanto os dedos distraídos de Inigo, que balançam o punhal pela lâmina, o lançam no ar com inspirado abandono, numa trajetória que atinge o alvo quase por acaso; ou também as garras da nossa senhoria lady Macbeth, que, de noite, afasta as cortinas dos quartos e paira sobre a respiração de quem dorme. Não são só essas as imagens que se amontoam em minha mente: Ogiva ou a velha Roessler degolam Inigo como um cordeiro, cortando-lhe o pescoço; Inigo ou Ogiva arrancam da mão da viúva o facão com que ela fatia o bacon e a esquartejam na cozinha; a velha Roessler ou Inigo secionam, como cirurgiões, o corpo nu de Ogiva, que se contorce (amarrada e amordaçada?). Quanto a Belindo, se o facão tinha ido parar na sua mão, se naquele momento ele havia perdido a paciência, se alguém talvez o tivesse intrigado com outro, não faltaria muito para que ele esquartejasse todo mundo. Mas que necessidade ele, Belindo Kid, tinha de esfaquear, quando havia à sua disposição, escrito no índice do caderno e nos seus circuitos sensório-motores, um verbo como estrangular, tão mais de acordo com suas aptidões físicas e seu treinamento técnico? Além disso, um verbo do qual ele podia ser só o sujeito e não o objeto: eu gostaria de ver os outros três tentando estrangular o meio-pesado do vale-tudo, com seus dedinhos que nem conseguem agarrar aquele pescoço igual a um tronco de árvore!
Portanto, este é um dado que o programa deve ter em conta: Belindo não esfaqueia, mas, de preferência, estrangula; e não pode ser estrangulado; só se for ameaçado com revólver pode ser amarrado e amordaçado; uma vez amarrado e amordaçado, pode lhe acontecer qualquer coisa, inclusive ser violentado pela ávida velha, ou pela manequim impassível, ou pelo jovem excêntrico.
Comecemos a estabelecer prioridades e exclusões. Alguém pode primeiro ameaçar com revólver outra pessoa e depois amarrá-la e amordaçá-la; evidentemente, seria supérfluo amarrar primeiro e ameaçar depois. Quem, ao contrário, esfaqueia e estrangula, se nesse meio-tempo ameaçasse com revólver cometeria um ato incômodo e redundante, imperdoável. Quem conquista o objeto de seus desejos seduzindo-o não precisa violentá-lo; e vice--versa. Quem prostitui outra pessoa pode tê-la anteriormente seduzido ou violentado; fazer isso depois seria uma inútil perda de tempo e de energias. Pode-se espionar uma pessoa para chantageá-la, mas se ela já foi difamada a revelação escandalosa não poderá mais apavorá-la; portanto, quem difama não tem interesse em espionar, nem tem mais argumentos para chantagear. Não se exclui que quem esfaqueia uma vítima estrangule outra, ou que a induza ao suicídio, mas é improvável que as três ações letais se exerçam na mesma pessoa.
Seguindo esse método é que posso elaborar o meu organograma: estabelecer um sistema de exclusões com base no qual o computador seja capaz de descartar bilhões de sequências incongruentes, reduzir o número das concatenações plausíveis, aproximar-se da escolha da solução que se impõe como verdadeira.
Mas será mesmo possível? Ora eu me concentro em construir modelos algébricos em que fatores e funções sejam anônimos e intercambiáveis, afastando de meu espírito os rostos, os gestos daqueles quatro fantasmas; ora me identifico nos personagens, evoco as cenas num cinematógrafo mental todo feito de decomposições e metamorfoses. Em torno do verbo drogar talvez gire a roda dentada que engrena em todas as outras rodas: de repente o espírito associa a esse verbo o rosto leitoso do último Inigo de uma estirpe ilustre. A forma reflexiva drogar-se não criaria nenhum problema: é altamente provável que o jovem se drogasse, fato que não me diz respeito; mas a forma transitiva drogar pressupõe um drogador e um drogado, tendo este último dado o seu consentimento, inconsciente ou forçado.
É igualmente provável que Inigo tanto se deixasse drogar como tentasse fazer seguidores, conquistando-os para os entorpecentes; imagino cigarros filiformes que passam de sua mão para as de Ogiva ou da velha Roessler. É o jovem nobre que transforma a pensão desolada num antro povoado de alucinações cambiantes? Ou foi a senhoria que o atraiu, para explorar sua propensão ao êxtase? Talvez seja Ogiva que consiga a droga para a velha opiômana, e Inigo, espionando-a, tenha descoberto o esconderijo, e tenha irrompido ameaçando-a com revólver ou chantageando; Roessler pede socorro a Belindo e difama Inigo, acusando-o de ter seduzido e prostituído Ogiva, casta paixão do usbeque, que se vinga estrangulando-o; para sair dessa enrascada só resta à senhoria induzir ao suicídio o lutador, tanto mais que a companhia de seguros paga as indenizações, mas Belindo, perdido por perdido, violenta Ogiva, amarra e amordaça e atiça o fogo na fogueira exterminadora.
Vamos com calma: não posso ter a pretensão de derrotar o computador em velocidade. A droga também poderia estar relacionada com Belindo: velho lutador sem fôlego, agora ele só sobe ao ringue se estiver entupido de estimulantes. É a velha Roessler que os ministra, dando-lhe comida na boca com uma colher de sopa. Inigo espiona pelo buraco da fechadura: ávido pelos psicotrópicos, ele se precipita e tenta receber uma dose. Diante da recusa, chantageia o lutador, ameaçando-o de desqualificá-lo no campeonato; Belindo o amarra e amordaça, depois prostitui Ogiva por poucas guinés, ela que havia tempos se enrabichara pelo aristocrata fugidio; Inigo, indiferente a Eros, só pode estar em condição de fazer amor se estiver prestes a ser estrangulado; Ogiva lhe aperta a carótida com as pontas de seus dedos afuselados; talvez Belindo lhe dê uma mão; bastam dois dedos seus e o pequeno lorde revira os olhos e bate as botas; que fazer com o cadáver? Para simular um suicídio, eles o esfaqueiam... Pare! Toda a programação precisa ser refeita: preciso apagar da memória central a instrução agora armazenada, pois quem é estrangulado não pode ser esfaqueado. Os anéis de ferrita se desmagnetizam e remagnetizam; eu transpiro.
Recomecemos do início. Qual é a operação que o cliente espera de mim? Arrumar numa ordem lógica um certo número de dados. São informações que estou manipulando, e não vidas humanas, com seu bem e seu mal. Por uma razão qualquer que não me diz respeito, os dados de que disponho só se referem ao mal, e o computador deve pô-lo em ordem. Não o mal, que talvez não possa ser posto em ordem, mas a informação sobre o mal. Com base nesses dados, contidos no índice analítico dos Atos abomináveis, preciso reconstituir a Relação perdida, seja ela verdadeira ou falsa.
A Relação pressupõe alguém que a tenha escrito. Só reconstituindo-a saberemos quem é: mas já podemos estabelecer alguns dados de sua ficha. O autor da Relação não pode ter morrido esfaqueado nem estrangulado, pois não poderia ter inserido no relato a própria morte; quanto ao suicídio, poderia ter sido decidido antes da redação do caderno-testamento, e cometido depois; mas quem se convence de ser induzido ao suicídio por vontade alheia não se suicida; toda e qualquer exclusão do autor do caderno desse papel de vítima aumenta automaticamente a probabilidade de que se possam atribuir-lhe papéis de culpado; portanto, ele poderia ser ao mesmo tempo o autor do mal e da informação sobre o mal. Isso não cria nenhum problema para o meu trabalho: o mal e a informação sobre o mal coincidem, tanto no livro queimado como no fichário eletrônico.
A memória armazenou outra série de dados que devem ser postos em relação com a primeira: são as quatro apólices de seguro feitas com Skiller, uma por Inigo, outra por Ogiva e duas pela viúva, sendo uma para si e outra para Belindo. Um fio obscuro talvez ligue as apólices aos Atos abomináveis, e as células fotoelétricas devem percorrê-lo de novo num vertiginoso cabra-cega, procurando seu caminho pelos minúsculos orifícios das fichas. Os dados das apólices, agora traduzidos em código binário, também têm o poder de evocar imagens em minha mente: é noite, há neblina; Skiller bate à porta da casa no alto da duna; a dona da pensão o recebe como um novo inquilino; ele tira da pasta os formulários para os seguros; está sentado no salão; toma chá; não é decerto numa só visita que consegue que sejam assinados os quatro contratos; é uma familiaridade assídua que ele estabelece com a casa e seus quatro moradores. Vejo Skiller ajudando Ogiva a escovar as perucas da coleção (e de passagem roçando com os lábios o crânio nu da modelo); vejo-o quando, num gesto firme como um médico e pressuroso como um filho, mede a pressão arterial da viúva apertando-lhe o braço mole e branco com o esfigmomanômetro; ei-lo tentando interessar Inigo na conservação da casa, assinalando-lhe estragos nos encanamentos, vigas de sustentação que estão cedendo, e, paternalmente, impedindo-o de roer as unhas; ei-lo lendo com Belindo os jornais esportivos, comentando com tapas nas costas a confirmação de seus prognósticos.
Positivamente, não acho esse Skiller nada simpático: devo reconhecer. Uma teia de aranha de cumplicidades se estende para onde quer que ele jogue seus fios; se de fato ele tinha tanto poder na pensão Roessler, se era o factótum, o deus ex machina, se nada do que acontecia entre aquelas paredes lhe era estranho, por que veio pedir a mim a solução do mistério? Por que me apresentou o caderno queimado? Foi ele que encontrou o caderno entre os escombros? Ou foi ele que o pôs ali? Foi ele que levou essa quantidade de informação negativa, de entropia irreversível, que a introduziu na casa, como agora nos circuitos do computador?
A carnificina da pensão Roessler não tem quatro personagens: tem cinco. Traduzo em orifícios punctiformes os dados do corretor de seguros Skiller e os acrescento aos outros. As ações abomináveis podem ser de sua autoria como de cada um dos outros: ele pode ter Esfaqueado, Difamado, Drogado etc., ou, melhor ainda, pode ter mandado Prostituir, Estrangular e tudo o mais. Os bilhões de combinações aumentam, mas talvez comecem a tomar forma. Exclusivamente como hipótese eu poderia construir um modelo em que todo o mal seja obra de Skiller, e em que, antes de sua chegada, a pensão pairasse na inocência mais lirial: a velha Roessler toca um lied no piano Bechstein que o bom gigante transporta de um aposento a outro para que os inquilinos possam ouvir melhor, Ogiva rega as petúnias, Inigo pinta petúnias na cabeça de Ogiva. Toca a campainha: é Skiller. Está procurando um bed and breakfast? Não, quer propor seguros vantajosos: vida, acidente, incêndios, patrimônios mobiliários e imobiliários. As condições são boas; Skiller os convida a refletir; refletem; pensam em coisas em que jamais tinham pensado; são tentados; a tentação inicia o seu caminho de impulsos eletrônicos pelos canais cerebrais... Percebo que estou influenciando a objetividade das operações com antipatias subjetivas. No fundo, o que é que eu sei sobre esse Skiller? Talvez a sua alma seja pura, talvez ele seja o único inocente desta história, ao passo que todas as investigações definem Roessler como uma avara sórdida, Ogiva como uma narcisista impiedosa, Inigo perdido na sua introversão sonhadora, Belindo condenado à brutalidade muscular por falta de modelos alternativos... Foram eles que chamaram Skiller, cada um com um sórdido plano contra os outros três e a companhia de seguros. Skiller é como uma pomba num ninho de cobras.
A máquina para. Há um erro, e a memória central percebeu; apaga tudo. Não há inocentes a salvar nesta história. Recomecemos.
Não, não era Skiller que tinha tocado a campainha. Lá fora chuvisca, tem neblina, não se distingue a fisionomia do visitante. Ele entra no hall, tira o chapéu molhado, desfaz-se do cachecol de lã. Sou eu. Apresento-me. Waldemar, programador-analista de sistemas. Sabe que a estou achando muito bem, senhora Roessler? Não, nunca tínhamos nos visto antes, mas tenho presentes os dados do conversor analógico-digital e reconheço perfeitamente vocês quatro. Não se esconda, senhor Inigo! Sempre em plena forma, nosso Belindo Kid! É a senhorita Ogiva aquela cabeleira violeta que vejo aparecer na escada? Eis todos vocês reunidos; muito bem: o objetivo de minha visita é o seguinte. Preciso de vocês, de vocês exatamente como são, para um projeto que há anos me mantém preso ao suporte de programação. Os trabalhos ocasionais que faço para terceiros ocupam minhas horas de expediente, mas à noite, fechado em meu laboratório, dedico-me a estudar um organograma que transformará as paixões individuais — agressividade, interesses, egoísmos, vícios — em elementos necessários ao bem universal. O acidental, o negativo, o anormal, numa palavra, o humano poderão se desenvolver sem provocar a destruição geral, integrando-se num projeto harmonioso... Esta casa é o campo ideal para verificar se estou no caminho certo. Por isso, peço-lhes que me recebam entre vocês como inquilino, como amigo...
A casa queimou, todos morreram, mas na memória do computador eu posso arrumar os fatos segundo uma lógica diferente, entrar eu mesmo na máquina, inserir um Waldemar-programa, elevar a seis o número de personagens, expandir novas galáxias de combinações e permutações. Eis que a casa ressurge das cinzas, todos os moradores retornam à vida, eu me apresento com a minha mala de fole, com os meus tacos de golfe, peço para alugar um quarto...
A senhora Roessler e os outros me ouvem calados. Desconfiam. Suspeitam de que eu trabalhe para a companhia de seguros, que tenha sido mandado por Skiller...
Não se pode negar que as suspeitas têm fundamento. Sem a menor dúvida, é para Skiller que eu trabalho. Pode ter sido ele que tenha me pedido para ganhar a confiança deles, estudar seus comportamentos, prever as consequências de suas más intenções, classificar estímulos, impulsos, gratificações, quantificá-los, armazená-los no computador...
Mas se esse Waldemar-programa não passa de uma réplica do Skiller-programa, inseri-lo nos circuitos é uma operação inútil. Skiller e Waldemar precisam ser antagônicos, o mistério se resolve numa luta entre nós dois.
Na noite chuvosa duas sombras se roçam na passarela enferrujada que leva àquilo que outrora deve ter sido um bairro residencial de subúrbio e do qual agora só resta uma pequena vila troncha no alto de uma duna entre os cemitérios de automóveis; as janelas acesas da pensão Roessler afloram na neblina como na retina de um míope. Skiller e Waldemar ainda não se conhecem. Sem que um e outro saibam, eles rodam em volta da casa. De quem deve ser o primeiro gesto? É incontestável que o corretor tem um direito de precedência.
Skiller bate à porta. “Queira me desculpar, estou fazendo uma pesquisa para a minha companhia sobre as incidências do meio ambiente nas catástrofes. Esta casa foi escolhida como amostra representativa. Com a sua licença, gostaria de ter sob observação o comportamento de vocês. Espero não incomodá-los demais: terei de preencher alguns formulários de vez em quando. Como compensação, a companhia lhes oferece a possibilidade de fazerem em condições especiais seguros de vários tipos: de vida, de imóveis...”
Os quatro escutam calados; cada um deles já está pensando em como tirar partido da situação, está tramando um plano...
Mas Skiller mente. O seu programa já previu o que cada morador da casa fará. Skiller tem um caderno em que listou uma série de atos violentos ou de prevaricação a respeito dos quais só resta verificar a probabilidade. Já sabe que se produzirá uma série de sinistros fraudulentos, mas que a companhia não deverá pagar nenhuma indenização, pois os beneficiários se destruirão mutuamente. Todas essas previsões lhe foram fornecidas por um computador: não pelo meu; devo aventar a hipótese da existência de um outro programador, cúmplice de Skiller numa maquinação criminosa. A maquinação é concebida assim: um banco de dados reúne os nomes dos nossos compatriotas movidos por impulsos destrutivos e fraudulentos; são várias centenas de milhares; um sistema de condicionamentos e controles os levará a se tornarem clientes da companhia, a fazerem seguro de tudo o que for assegurável, a produzirem sinistros dolosos e a assassinarem-se mutuamente. A companhia terá preparado o registro das provas de modo que estas lhe sejam favoráveis, e, como quem faz o mal é sempre levado a exagerar, a quantidade de informações comportará um forte percentual de dados inúteis, cortina de fumaça para as responsabilidades da companhia. Aliás, esse coeficiente de entropia já foi programado: nem todos os Atos abomináveis do índice têm uma função na história; alguns criam simplesmente um efeito de “ruído”. A operação da pensão Roessler é a primeira experiência prática tentada pelo diabólico corretor de seguros. Uma vez ocorrida a catástrofe, Skiller recorrerá a outro computador, cujo programador ignora todos os antecedentes da história, a fim de verificar se, a partir das consequências, é possível recuar até as causas. Skiller fornecerá a esse segundo programador todos os dados necessários, junto com uma quantidade tão grande de “ruído” que ela produzirá congestionamento nos canais e degradará a informação: o dolo dos assegurados ficará suficientemente provado, mas não o do corretor de seguros.
O segundo programador sou eu. Skiller jogou bem. Todos os cálculos estão corretos. O programa fora escolhido previamente, e a casa, o caderno, o meu organograma e o meu computador não deviam fazer nada além de executá-lo. Aqui estou, preso, entrando-saindo dados de uma história que não posso mudar. É inútil que eu mesmo me jogue no computador: Waldemar não subirá até a casa no alto da duna, não conhecerá seus quatro misteriosos moradores, não será o sujeito (como tinha esperado) do verbo seduzir (objeto: Ogiva). Aliás, até Skiller talvez seja apenas um canal de input-output: o verdadeiro computador está em outro lugar.
Mas a partida que se joga entre dois computadores não é vencida por quem joga melhor que o outro, e sim por quem compreende como o adversário faz para jogar melhor que ele. Agora, o meu computador armazenou o jogo do adversário vencedor: quer dizer que ele venceu?
Batem à porta. Antes de ir abrir preciso calcular depressa quais serão as reações de Skiller quando souber que o seu plano foi descoberto. Eu também tinha sido convencido por Skiller a assinar um contrato de seguro contra incêndio. Skiller já previu me matar e atear fogo no laboratório: destruirá as fichas que o acusam e demonstrará que perdi a vida tentando provocar um incêndio doloso. Ouço a sirene dos bombeiros se aproximando: chamei-os a tempo. Destravo o revólver. Agora posso abrir.