Um General na Biblioteca

Italo Calvino · Capítulo 15 de 33

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Um General na Biblioteca

O colar da rainha

 

PIETR O E TO M M ASO V IV IAM BR IG AN D O .

Ao amanhecer, o chiado das suas velhas bicicletas e as suas vozes — cavernosa e nasal a de Pietro, rouca e às vezes afônica a de Tommaso — eram os únicos sons pelas ruas vazias. Iam juntos para a fábrica onde eram operários. Por trás das ripas das persianas ainda se sentia o sono e a escuridão pesando nos quartos. As campainhas baixinhas dos despertadores iniciavam de casa em casa um diálogo escasso, que na periferia se adensava, para finalmente transformar-se, à medida que a cidade ia se tornando campo, num diálogo de galos.

Esse primeiro despertar cotidiano dos sons passava despercebido aos dois operários, ocupados como estavam em discutir em voz alta: porque ambos eram surdos; Pietro, já havia alguns anos, meio ruim dos tímpanos; Tommaso, com um assobio contínuo num ouvido, desde a Primeira Guerra Mundial.

— Pois é, assim são as coisas, meu caro — Pietro, homenzarrão na faixa dos sessenta, equilibrado em cima de seu trêmulo veículo, trovejava atrás de Tommaso, mais velho que ele cinco anos, baixo e já um pouco curvado. — A gente não tem mais confiança, meu caro. Eu também sei que, nos dias de hoje, fazer filhos significa fazer famintos, mas amanhã você não sabe, não sabe de que lado vai estar a balança, amanhã fazer filhos pode significar a abundância. É exatamente assim que eu vejo as coisas.

Tommaso, sem levantar os olhos para o interlocutor, arregalava os globos amarelos e dava gritos agudos que subitamente ficavam afônicos: — Siiim! Siiim! É preciso dizer isso para o operário que constitui família: você vai pôr no mundo indivíduos que vão aumentar a miséria e o desemprego! E mais nada! Isso ele tem de saber! Sem a menor dúvida! Eu digo e repito!

A discussão daquela manhã versava sobre um problema geral: se o aumento da população favorecia ou prejudicava os trabalhadores. Pietro era otimista, e Tommaso, pessimista. No fundo dessa divergência de opiniões estava o planejado casamento do filho de Pietro com a filha de Tommaso. Pietro era favorável, e Tommaso era contra.

— E, além do mais, por enquanto eles ainda não tiveram filhos! — Pietro deu um pulo de repente: — E não vão ter tão cedo! Era só o que faltava! Está se discutindo o noivado, não os filhos!

Tommaso berrou: — Quando se casarem, vão ter!

— No campo! Onde você nasceu! — retrucou-lhe Pietro. Por pouco não engatou a roda num trilho de bonde. Xingou.

— Cooomo...? — disse Tommaso, que pedalava na frente.

Pietro sacudiu a cabeça e ficou quieto. Andaram mais um pouco, calados.

— E compreende-se — disse Pietro, concluindo em voz alta um raciocínio interior —, quando isso acontece, acontece!

Tinham deixado a cidade para trás; andavam por uma rua elevada entre campos não cultivados. Havia um fim de neblina. A fábrica aflorava no limitado horizonte cinza.

Um motor roncou atrás deles; tiveram justo o tempo de ir para o acostamento, e um carrão de luxo passou por eles.

A estrada não era asfaltada, a poeira levantada pelo automóvel envolveu os dois ciclistas, e da nuvem espessa ergueu-se a voz de Tommaso: — E é exclusivamente no interesse deee... Ock, ock, ock!... — Teve um acesso de tosse por causa da poeira engolida, e da nuvem emergiu um braço seu, curto, apontando na direção do carro, com certeza para salientar o interesse da classe empresarial. E Pietro, tossindo, congestionado e tentando falar enquanto tossia, disse: — Guack... Nãooo... Guack... maaais... — apontando o carro com amplo gesto negativo para expressar o conceito de que o futuro não estava nas mãos dos usuários dos carros luxuosos.

O automóvel ia embora correndo, quando uma de suas portas se abriu. A porta foi para trás, empurrada pela mão de alguém, e uma sombra de mulher quase se jogou para fora. Mas quem dirigia freou de repente; a mulher desceu, e na neblina da manhã os operários a viram correr e atravessar a estrada. Tinha os cabelos claros, usava um vestido preto comprido e uma capa de pele de raposa azul com uma franja formada pelas caudas.

Do carro desceu um homem de sobretudo, gritando: — Mas você está maluca! Você está maluca! — Ela já ia voando longe da estrada, entre as moitas, e o homem a seguiu até que desapareceram.

Os terrenos abaixo da estrada eram prados onde os arbustos formavam manchas cerradas, e os dois operários viam aquela mulher ora sair dali, ora desaparecer, dando passinhos céleres pelo orvalho. Com uma das mãos segurava a saia levantada, e com movimentos dos ombros se soltava dos galhos que ficavam presos nos rabos de raposa. Aliás, começou a puxar os galhos e largá-los para trás, para cima do homem que a perseguia sem muita pressa e, ao que parece, sem vontade. A senhora bancava a louca pelos campos, e dava risadas altas, e deixava chover sobre seus cabelos a geada dos galhos. Até que ele, sempre calmo, em vez de segui-la, barrou-lhe o caminho e a agarrou pelos cotovelos; e parecia que ela se soltava e o mordia.

Da beira da estrada, os dois operários acompanhavam a caçada, mas não paravam de pedalar e de prestar atenção por onde andavam, calados, de cenho franzido e boca aberta, com uma gravidade mais desconfiada do que curiosa. Assim, estavam quase chegando ao carro parado, abandonado ali com as portas escancaradas, quando o homem de sobretudo voltou, segurando a senhora, que se deixava empurrar e soltava um grito quase de criança. Fecharam-se no carro e partiram; e novamente os ciclistas enfrentaram a poeira.

— Enquanto nós começamos o nosso dia — Tommaso tossiu —, os bêbados acabam o deles.

— Objetivamente — retrucou o amigo, parando para olhar para trás — ele não estava bêbado. Olhe que freada.

Estudaram a marca deixada pelos pneus. — Puxa... Que coisa... com um carro desses... — retrucava Tommaso. — Incrível! Você sabe muito bem que um carro assim bloqueia...

Não terminou a frase; os olhares dos dois, passando pelo chão ali em volta, tinham parado num ponto fora da estrada. Havia algo brilhando num arbusto. Disseram juntos, baixinho: — Ei.

Desceram do selim, encostaram as bicicletas numa guia da estrada. — A galinha botou ovo — disse Pietro, e pulou para o campo numa ligeireza que nunca se esperaria que tivesse. Na moita, havia um colar de pérolas de quatro voltas.

Os dois operários esticaram as mãos e, com delicadeza, como se colhessem uma flor, soltaram do galho o colar. Seguravam-no ambos com as duas mãos, tocando nas pérolas com as pontas dos dedos, mas só um pouquinho, e, assim, as aproximaram dos olhos.

Depois, juntos, como insurgindo-se contra a submissão fascinante que o objeto inspirava, baixaram os punhos, mas nem um nem outro largou o colar. Pietro sentiu que precisava falar, soprou e disse: — Viu só o tipo de gravata que está na moda?...

— É falso! — gritou-lhe Tommaso num ouvido, na mesma hora, como se já há algum tempo morresse de vontade de dizer isso, aliás, como se tivesse sido esse o seu primeiro desejo assim que viu o colar, e como se esperasse apenas um sinal qualquer de satisfação do amigo para poder lhe retrucar desse jeito.

Pietro levantou a mão que segurava o colar e também tirou de cima dele o braço de Tommaso. — O que é que você sabe disso?

— O que eu sei é que você deve acreditar no que lhe digo: as joias de verdade, eles guardam sempre no cofre.

Passavam no colar as mãos grandes, duras e enrugadas, mexiam os dedos entre as voltas, e as unhas pelos interstícios entre as pérolas. As pérolas filtravam uma luz fraca como gotas de geada numa teia de aranha, uma luz de manhã de inverno, que não nos convence da existência das coisas.

— Verdadeiras ou falsas... — disse Pietro —, eu, sabe... — e tentava provocar no amigo uma expectativa hostil diante do que estava prestes a dizer.

Tommaso, que queria ser o primeiro a encaminhar a conversa naquela direção, compreendeu que o outro passara na sua frente e tentou recuperar a vantagem, mostrando que já havia um bom tempo que seguia seu pensamento.

— Ah, sinto muito por você — disse, com ar irritado —, eu, a primeira coisa...

Estava claro que os dois queriam defender a mesma opinião, e no entanto se olhavam cheios de hostilidade. Gritaram os dois, no mesmo momento e o mais rápido possível: — Devolução! —, Pietro levantando o queixo com a solenidade de uma sentença, Tommaso de bochechas vermelhas e olhos arregalados como se todas as suas forças estivessem concentradas em proferir a palavra antes do amigo.

Mas esse gesto deixara-os excitados e cheios de orgulho; como que subitamente serenos, trocaram um olhar satisfeito.

— Nós não somos desses que sujam as mãos! — gritou Tommaso.

— Ah — Pietro riu —, damos a eles uma lição de dignidade!

— Nós — Tommaso proclamou — não recolhemos os restos deles!

— A-rá! Somos pobres — Pietro disse —, mas somos mais dignos que eles!

— E sabe o que também fazemos? — Tommaso se iluminou, feliz de ter finalmente conseguido passar na frente de Pietro. — Recusamos a gorjeta!

Olharam de novo o colar; continuava ali, pendurado nas mãos deles.

— Você não pegou o número daquele carro — disse Pietro.

— Não. Por quê? Você pegou?

— E quem ia pensar nisso?

— Ah! Como vamos fazer?

— Humm: que bela confusão.

Depois, um e outro, juntos, como se de repente uma fogueira de aversão tivesse reacendido entre eles: — O Serviço de Achados e Perdidos. Vamos levá-lo para lá.

O horizonte clareava, e a fábrica já não era apenas uma sombra, mas se revelava colorida por um enganoso tom róseo.

— Que horas serão? — disse Pietro. — Tenho medo que a gente se atrase para bater o ponto.

— Agora de manhã vamos pegar uma multa — disse Tommaso —; é a história de sempre: eles fazem farra e nós pagamos!

Os dois tinham levantado a mão com aquele colar que os unia como dois presos na mesma algema. Avaliavam-no na palma da mão como se ambos estivessem quase dizendo: “Bem, confio-o a você”. Nenhum dos dois dizia, porém; tinham uma estima incondicional um pelo outro, mas estavam muito acostumados a brigar para que um pudesse conceder ao outro um ponto de vantagem que fosse.

Tinham de pegar depressa as bicicletas, e ainda não haviam enfrentado a pergunta: qual dos dois ficaria com o colar, até entregá-lo ou tomarem uma decisão? Continuaram parados e quietos, olhando o colar como se dele pudesse vir a resposta. De fato, veio: durante a briga ou quando o colar caiu, o ganchinho que prendia as quatro fileiras de pérolas ficara meio avariado. Bastou torcê-lo um pouco para que se quebrasse de vez.

Pietro pegou duas voltas e Tommaso outras duas, com a intenção de combinarem previamente qualquer decisão a respeito. Juntaram as preciosas bugigangas, escondendo-as nas roupas, sentaram de novo nas bicicletas, calados, sem se olharem, e recomeçaram o chiante pedalar até a fábrica, sob o céu que ia se enchendo de nuvens brancas e fumaça preta.

Mal tinham se afastado um pouco quando, atrás de um painel publicitário num dos lados da estrada, apareceu um homem. Era seco, alto e malvestido; havia uns minutos que, de longe, escrutava os dois operários. Era o desempregado Fiorenzo, que passava os dias procurando objetos utilizáveis no lixo da periferia. Nessa categoria de homens sempre se esconde, tenaz e corrosiva como uma doença profissional, a esperança de encontrar um tesouro. Tendo ido àqueles campos durante a sua volta matutina de praxe, Fiorenzo avistara o carro indo embora, os operários correndo pela ladeira e apanhando o objeto. E de repente se deu conta de que aquela ocasião tão rara, dessas que só se apresentam uma vez na vida de um homem, ele a perdera por menos de um minuto.

Tommaso também fazia parte da comissão interna que deveria ser recebida pelo doutor Starna. Surdo, teimoso, mentalidade antiga, espírito de contradição, tudo o que se queira: mas nas votações internas da fábrica Tommaso sempre conseguia ser eleito. Era um dos operários mais antigos da empresa, conhecido de todos, uma bandeira; e mesmo se os seus companheiros da comissão já andavam pensando que no seu lugar seria melhor ter, nas discussões, alguém mais hábil, mais equilibrado e esperto, também reconheciam que Tommaso tinha a seu favor o prestígio da tradição e, como tal, repetiam no seu ouvido sem assobio as frases mais importantes das negociações.

Na véspera, uma irmã de Tommaso, que morava no campo e ia encontrá-lo de vez em quando, trouxera-lhe um coelho de presente de aniversário, que na verdade tinha sido um mês antes. Um coelho morto, naturalmente, para se pôr logo na panela. Seria ótimo esperar até domingo para cozinhá-lo e servi-lo na hora do almoço, com toda a família reunida em volta da mesa, mas talvez o coelho não se conservasse, pois as filhas de Tommaso logo o prepararam num ensopado, e a sua parte ele levou para a fábrica, dentro de um filão.

Qualquer que fosse a comida do almoço — tripa, bacalhau, omelete —, as filhas de Tommaso (ele era viúvo) cortavam um filão no meio e a socavam ali dentro; ele enfiava o pão em sua pasta, pendurava a pasta no quadro da bicicleta e partia, de manhã cedinho, para o seu dia de trabalho. Mas naquele dia, o pão recheado de coelho, que teria sido o consolo de um dia de preocupações, ele não conseguiu nem sequer levá-lo à boca. Pois tivera a má ideia, ao trocar de roupa, e não sabendo onde esconder aquele bendito colar, de amassá-lo dentro do pão, no meio da carne do coelho ensopado.

Às onze horas tinham ido avisar a ele, e também a Fantino, Criscuolo, Zappo, Ortica e todos os outros, que o doutor Starna aceitava conversar e os esperava. Lavam-se, trocam-se na maior pressa, e rápido para o elevador. No quinto andar, dá-lhe de esperar: chegou a hora da pausa para o almoço, e o doutor Starna ainda não os havia recebido. Finalmente, a secretária, uma loura de belo corpo e feia cara de campeã ciclista, veio dizer que o doutor agora não pode, voltem para as suas oficinas, junto com os outros, e que assim que ele se liberar ela manda chamá-los.

No refeitório, todos os companheiros os esperavam prendendo a respiração: — E aí? E aí? — Mas era proibido falar de assuntos sindicais à mesa. — Nada, de tarde voltaremos lá. — E já é hora de retomar o trabalho: os da comissão mal se sentaram às mesas de zinco para comerem alguma coisa, na pressa, pois no turno da tarde os minutos de atraso lhes seriam descontados. — Mas para amanhã, o que é que fica decidido? — perguntavam os outros, saindo do refeitório. — Assim que tivermos a conversa, relataremos a vocês e decidiremos o que fazer.

Tommaso tirou da pasta um pedaço de couve-flor cozida, um garfo, uma garrafinha de azeite, do qual derramou um pouco num prato de alumínio, e comeu a couve-flor, enquanto acariciava, no bolso do paletó, o pão barrigudo cheio de carne de coelho e de pérolas, que a presença dos companheiros o impedia de pegar. E num acesso de gulodice para comer o coelho, maldizia aquelas pérolas que o acorrentavam a uma dieta de couve-flor durante o dia inteiro e que o afastavam da total confiança que o ligava aos companheiros, impondo-lhe um segredo que, naquele instante, não passava de uma amolação.

De repente, viu na sua frente, em pé, do outro lado da mesa, Pietro, que antes de voltar para o seu setor queria cumprimentá-lo. Estava diante dele, alto, gordo, com um palito rolando na boca, e um olho fechado numa ostentatória piscada. Ao ver Pietro ali, de barriga cheia e despreocupado — pelo menos assim lhe parecia —, enquanto ele mandava para dentro garfadas quase impalpáveis de couve-flor cozida, Tommaso sentiu tamanha raiva que o prato de alumínio começou a tremer em cima da mesa de zinco como se ali estivessem os espíritos. Pietro encolheu os ombros e foi embora. Até os últimos operários já tinham saído do refeitório, apressados, e Tommaso, com os lábios gordurosos grudados numa garrafinha de água mineral gasosa cheia de vinho, também foi embora correndo.

A atitude dos operários em relação ao cão dinamarquês que entrara na sala de espera da diretoria — todos se viraram de súbito para a porta, pensando que fosse finalmente o doutor Gigi Starna — foi carinhosa por parte de alguns e hostil por parte de outros. Os primeiros viam no dinamarquês um animal fraterno, uma vigorosa criatura livre que era mantida em cativeiro, um companheiro de servidão; os segundos, somente uma alma danada da classe dirigente, um de seus instrumentos ou de seus penduricalhos, um de seus luxos. As mesmas opiniões divergentes, em suma, que às vezes os operários manifestam a respeito da raça dos intelectuais.

O comportamento de Guderian foi, ao contrário, reservado e indiferente, fosse para quem lhe dizia: — Que gracinha! Vem cá! Dá aqui a pata! —, fosse para quem lhe dizia: — Passa fora! Com um leve ar de desafio que se manifestava em focinhadas olfativas superficiais e num abanar de rabo uniforme e lento, circulou por todos eles: não se dignou a dar nem uma olhada para o sardento e encaracolado Ortica — aquele que entendia de tudo e que, mal entrou, plantou os cotovelos em cima da mesa para folhear umas revistas publicitárias que ali estavam, e, vendo o cachorro, examinou-o de cima a baixo e disse tudo sobre a raça, a idade, os dentes e o pelo —, e muito menos para o glabro Criscuolo, de olhos perdidos e distantes, que, chupando um cigarro apagado, tentou tascar-lhe um pontapé. Fantino, que tirara do bolso o seu jornal amarfanhado, um jornal proibido na fábrica — e que ele, se sentindo naquele momento protegido por uma espécie de imunidade diplomática, aproveitava para ler durante o tempo de espera, já que de noite, em casa, o sono o pegava depressa —, viu o focinho cor de defumado do cachorro de olhos vermelhos e brilhantes aparecer por cima de seu ombro, e instintivamente, ele, homem não habituado a se deixar amedrontar, resolveu dobrar a página para esconder a manchete. Chegando a Tommaso, Guderian parou, sentou-se sobre as patas traseiras e ficou de orelhas em pé e fuça levantada.

Tommaso, que não era do tipo de se meter a brincar com bichos, e nem mesmo com pessoas, por uma certa submissão ao se encontrar naquele local imponente e reluzente achou-se no dever de manifestar ao cachorro algum gesto de gentil cordialidade, como um estalo de língua, ou um leve assobio, que de repente, devido às suas descontroladas reações de surdo, acabou saindo extremamente agudo. Em suma, tentou restabelecer essa confiança espontânea entre homem e cachorro que o transportava à sua juventude no campo, aos cães camponeses, sabujos mansos e orelhudos, ou peludos e rosnantes cãezinhos de galinheiro. Mas a disparidade social entre aqueles seus cachorros e este, tão lustroso, bem tosado e patronal, logo lhe saltou aos olhos, e ele ficou como que intimidado. Sentado com as mãos nos joelhos, mexia a cabeça em tremores laterais, de boca aberta, como num latido mudo, para convidar o cão a se decidir, a se mexer, a sair dali. Mas, em vez disso, Guderian ficava na frente dele, imóvel e ofegante, e finalmente esticou o focinho para uma aba do paletó do velho.

— Você tinha um amigo na direção, Tommaso, e nunca nos disse! — brincavam os companheiros.

Mas Tommaso empalidecia: compreendera naquele instante que o cachorro farejava o cheiro do coelho ensopado.

Guderian passou ao ataque. Pôs uma pata no peito de Tommaso e quase o derrubou junto com a cadeira, deu-lhe uma lambida no rosto molhando-o de saliva, e o velho, para mandá-lo embora, fazia o gesto de quem lança uma pedra, de quem olha para um tordo, de quem pula um fosso, mas o cachorro não entendia a mímica ou não caía nas ciladas, e não o largava; muito pelo contrário, pois, tomado como por um imprevisto acesso de alegria, saltava levantando as patas traseiras até os ombros do operário, voltando sempre a meter o focinho perto do bolso do paletó.

— Passa, totó, anda, vai embora! Sai, totó, santo Deus! — resmungava Tommaso, com os olhos injetados de sangue, e no meio de suas festas Guderian sentiu chegar um pontapé seco em seu flanco. Lançou-se para cima dele, na altura de seu rosto, arreganhando os dentes, e depois, de repente, mordeu a aba do paletó e puxou. Tommaso só teve tempo de puxar o filão, para que ele não lhe arrancasse o bolso.

— Ora vejam, um sanduíche! — disseram os companheiros. — Claro, você está com a refeição no bolso, é natural que os cachorros saiam atrás de você! Que desse para nós, quando sobrasse!

Tommaso, levantando o mais possível seu braço curto, tentava salvar o pão dos ataques do dinamarquês. — Largue-o e dê para o cachorro! Do contrário, você não vai mais se livrar dele! Dê o pão para ele! — diziam os companheiros.

— Passe! Passe para mim! Por que não passa? — dizia Criscuolo, batendo as mãos, pronto para pegá-lo no voo como um jogador de basquete.

Mas Tommaso não passou. Guderian deu um pulo mais alto ainda e foi se agachar num canto com o pedaço de pão entre os dentes.

— Deixe-o para lá, Tommaso, o que é que você quer fazer agora? Vai acabar sendo mordido! — diziam os companheiros, mas tudo indica que o velho, de cócoras ao lado do dinamarquês, tentava argumentar com ele.

— Mas o que é que ele quer agora? Pegar um pão já comido pela metade? — perguntavam os companheiros, e nisso a porta se abriu e apareceu a secretária: — Queiram entrar, por favor. — E todos se apressaram em segui-la.

Tommaso fez menção de ir atrás deles, mas, realmente, não se conformava em jogar fora assim o colar. Tentou fazer com que o cachorro viesse atrás dele, mas depois pensou que, se aparecesse diante do doutor Starna com o colar na boca, seria pior, e mais uma vez se abaixou para sussurrar-lhe (tentando imprimir em sua cara furiosa um inútil e grotesco sorriso): — Dá aqui, totó, dá aqui, seu bicho desgraçado!

A porta se fechara. Na sala de espera não havia mais ninguém. O cachorro transportou sua presa para um cantinho, atrás de uma poltrona. Tommaso torceu as mãos, seu sofrimento, mais que pela perda do colar (não dissera sempre que não lhe atribuía nenhum valor?), era por ficar em falta com Pietro, por ter de lhe contar o que havia acontecido, justificar-se... e era também por já não saber como cair fora dali, e pela perda de tempo naquela situação tão estúpida e incompreensível para os outros...

— Vou arrancar dele! — resolveu. — Se me morder, peço uma indenização. — E também se pôs de gatinhas, atrás da poltrona, e esticou a mão para a boca do cachorro. Mas o cachorro, copiosamente alimentado, e educado na escola contemporizadora de seu dono, não comia o pão, limitando-se a mordiscá-lo de um lado, nem reagia com aquela fúria cega característica do carnívoro de quem se quer arrancar a comida: pelo contrário, brincava com ela, manifestando certa inclinação felina, o que num cachorrão adulto e taurino como ele era um sinal bastante grave de decadência.

Os outros da comissão não tinham percebido que Tommaso não os acompanhara. Fantino estava fazendo o seu discurso e, chegando ao ponto em que dizia: — ... E estão aqui presentes entre nós homens de cabelos brancos que deram à empresa mais de trinta anos de suas vidas... —, quis apontar Tommaso, e primeiro apontou para a direita, depois para a esquerda, e todos se deram conta de que Tommaso não estava. Teria passado mal? Criscuolo se virou na ponta dos pés e foi procurá-lo na sala onde estavam antes. Não viu ninguém: — Deve ter se sentido cansado, pobre velho — pensou — e ido para casa. Paciência! É tão surdo! Mas podia ter avisado! — E voltou para junto da comissão, sem pensar em olhar atrás da poltrona.

Agachados lá no fundo, o velho e o cachorro brincavam: Tommaso, com lágrimas nos olhos, e Guderian, arreganhando os dentes num riso canino. A obstinação de Tommaso tinha um fundamento preciso: estava convencido de que Guderian era estúpido e que seria uma vergonha ceder a ele. De fato, quando, aproveitando-se de suas condescendências felinas, conseguiu dar um tabefe no pão, de modo a fazer com que a parte de cima voasse, o cachorro pulou para a meia bisnaga que tinha voado, e na mão de Tommaso ficou a outra metade, a das pérolas e do coelho. Apropriou-se do colar, tirou os pedaços de coelho grudados no meio das pérolas, meteu-o no bolso, e enfiou a carne na boca, depois de ter refletido rapidamente que as mordidas do cachorro no pão só tinham sido marginais e não haviam chegado ao recheio.

Em seguida, na ponta dos pés, fez sua entrada no escritório do doutor Starna, bochechas roxas, boca cheia, assobio furioso no ouvido, e se juntou ao grupo dos companheiros que lhe lançaram olhares enviesados e interrogativos. Gigi Starna, que durante a exposição de Fantino não levantara os olhos das tabelas que estavam em cima de sua mesa, como se concentrado nos números, ouviu um barulho de alguém comendo perto dele. Ergueu os olhos e viu na sua frente um rosto a mais, que antes não tinha visto: enrugado, cianótico, com dois globos oculares amarelos e venosos esbugalhados, irado, insensível, e que se mexia mastigando sem parar com um ruído furioso de maxilares. E ficou tão perturbado que novamente baixou os olhos para seus números e não ousou mais levantá-los, e não entendia por que aquele homem tinha ido comer ali na sua presença, e tentava tirá-lo da cabeça enquanto se preparava para contra-atacar com energia e astúcia o discurso de Fantino, mas já percebendo que boa parte de sua segurança tinha se esvanecido.

Toda noite, antes de se deitar, a senhora Umberta lambuzava o rosto com creme de pepino, vitaminado. Ter sido posta na cama naquela manhã, não se lembrava bem como, depois de uma noite em claro, sem creme de pepino, sem massagens, sem ginástica contra as dobras do ventre, em suma, sem todo o ritual estético de costume, causava-lhe necessariamente um sono irrequieto. Ao fato de ter negligenciado tais operações, e não à quantidade de álcool ingerido, ela atribuía a agitação, a dor de cabeça, a boca amarga que perturbaram suas poucas horas de sono. Só o costume de dormir deitada de costas, por observância a uma regra de beleza que se tornara uma postura diante da vida, fazia com que a agitação de seu repouso se manifestasse em formas harmoniosas e, de certo modo, sempre atraentes — ela tinha total consciência — para um observador imaginário, tal como apareciam atrás das contorcidas volutas do lençol.

Durante esse despertar e essa sensação de desconforto, e também de coisas esquecidas, invadiu-a um sobressalto difuso. Quer dizer que voltara para casa, jogara a capa de raposa em cima de uma poltrona, tirara o vestido a rigor... mas entre as lacunas da memória havia esta, que lhe aborrecia: o colar, aquele colar que ela devia considerar mais precioso que o próprio pescoço macio e liso, de fato não se lembrava de tê-lo tirado, e menos ainda de tê-lo guardado na gaveta secreta da penteadeira.

Levantou-se da cama, num voo de lençóis, saias de organza e cabelos despenteados, atravessou o quarto, deu uma olhada no gavetão, no toucador, em todos os lugares onde poderia ter deixado o colar, olhou-se rapidamente no espelho com uma careta de desaprovação pelo aspecto abatido, abriu duas gavetas, olhou-se de novo no espelho esperando desmentir a primeira impressão, entrou no banheiro e procurou em cima das bancadas, vestiu uma liseuse, olhou-se como estava no espelho da pia e depois no da penteadeira, abriu a gaveta secreta, fechou-a, penteou os cabelos, primeiro transtornada, depois com certa condescendência. Perdera o colar de pérolas de quatro voltas. Foi ao telefone.

— Passe-me o arquiteto... Enrico, é, já estou de pé... Sim, estou bem, mas olhe, o colar, o colar de pérolas... Eu estava com ele quando saímos de lá, tenho certeza de que estava... E não o encontro mais... Não sei... Claro que procurei bem... Você não se lembra?...

Enrico, que chegara tarde ao escritório, caindo de sono (dormira duas horas), nervoso, entediado, e, apesar do jovem desenhista que, fingindo lucidar um projeto, estava ali todo ouvidos, com a fumaça do cigarro que lhe irritava os olhos, disse: — Bem, você vai pedir outro de presente...

Ela lhe respondeu com um grito no telefone que fez até o desenhista se assustar: — Mas você está looouco! Mas é aquele que o meu marido me proibiu de usar, enteeende! Mas é aquele que custa... não, não posso dizer por telefooone! Paaare! Só de saber que eu o exibi por aí ele me expulsa de casa! Mas se além do mais souber que o perdi... me mata!

— Deve estar no carro, sabe — disse Enrico, e como por encanto ela se acalmou.

— Você acha?

— Acho.

— Mas você se lembra se eu estava com ele?... Mas você se lembra que descemos, num certo lugar... onde era?

— E você quer que eu me lembre... — dizia Enrico, passando a mão no rosto e, com um tédio profundo, repensando naquele lugar onde ela saíra correndo entre as moitas, e onde tinham brigado um pouco, e refletia que o colar podia muitíssimo bem ter caído ali, e já sentia a amolação de ter de ir buscá-lo, e explorar palmo a palmo aquela zona baldia. Sentiu uma ponta de enjoo. — Fique tranquila: é tão grande, a gente vai achar... Olhe no carro... O homem da garagem é de confiança? (O carro era o dela. A garagem também.)

— É. É Leone, está conosco há muitos anos.

— Então telefone-lhe já, para que ele olhe.

— E se não estiver?

— Ligue para mim de novo. Irei procurá-lo por lá...

— Querido, amor...

— Sim.

Desligou. O colar. Fez um gesto com os lábios. Vá saber quantos muitos milhões valia. E o marido de Umberta tinha promissórias sendo protestadas! Uma bela história. Daí podia nascer uma belíssima história. Desenhou no papel um colar de quatro voltas e o retocou minuciosamente, pérola por pérola. Tinha de ficar de olhos bem abertos. No desenho transformou as pérolas em olhos, cada um com sua íris, sua pupila, seus cílios. Não havia tempo a perder. Devia ir procurá-lo por aqueles campos. Umberta podia lhe telefonar a qualquer momento. Imaginemos que estivesse no carro.

— Você continuará em casa esse trabalho — disse ao desenhista —, preciso sair de novo.

— Vai ver o empreiteiro? Lembre-se daquela documentação...

— Não, não, vou ao campo. Para os morangos. — E encheu com o lápis o colar transformando-o em um enorme morango, com as sépalas e o pedúnculo. — Veja, um morango.

— Sempre as mulheres, engenheiro — disse o rapaz piscando o olho.

— Safado — disse Enrico. Tocou o telefone. — Ah, sei, não havia nada. Fique calma. Vou lá agora mesmo. Você recomendou ao garagista não dizer nada? Mas a ele, diabos, ao fulano, à sua majestade! Bem. Claro que me lembro do lugar... Depois ligo para você... tchau, fique sossegada... — Desligou, assobiou, vestiu o sobretudo, saiu, pulou no scooter.

A cidade abriu-se como uma ostra, como um mar transparente. Quando uma pessoa é jovem e anda por uma cidade, mais ainda se estiver com pressa, acontece de vê-la abrir-se toda de repente diante de si, mesmo se, agora, ela é conhecida e fechada e tão lisa que parece invisível. É o sabor da aventura: a única coisa de sua juventude que Enrico, arquiteto cético antes do tempo, ainda conservava.

Eis que sair à cata de colares perdidos revelava-se divertido, e nada maçante como ele de início pensara. Talvez fosse justamente por estar pouco ligando para o colar. Se o encontrasse, muito bem, se não, paciência: os dramas de Umberta eram dramas de ricos, que quanto maior é a soma envolvida mais nos parecem leves.

E, além do mais, o que afinal podia interessar a Enrico? Nada neste mundo. Mas essa cidade por onde agora corria despreocupado e aventuroso também havia sido para ele uma espécie de leito de faquir, que, para onde quer que ele olhasse, era um grito, um pulo, um prego pontudo. Casas velhas, casas novas, prédios populares ou palacetes aristocráticos, escombros ou andaimes de canteiros de obras, a cidade foi para ele, em determinada época, uma floresta de problemas: o Estilo, a Função, a Sociedade, a Medida Humana, a Especulação Imobiliária... Agora o seu olhar passava com a mesma condescendente ironia histórica pelo estilo neoclássico, pelo liberty, pelo estilo século xx, e com a objetividade de quem constata fenômenos naturais ele passava em revista os velhos conjuntos habitacionais insalubres, os novos arranha-céus, os escritórios racionais, as rosáceas de mofo nas paredes sem janelas; e não mais ouvia aquele toque como das trombetas de Jericó que no passado acompanhavam seus passos, os passos dele, que na cidade monstruosa iria atacar os erros da burguesia, dele, que iria destruir e reedificar para uma humanidade nova. Naquele tempo, quando uma passeata de operários com cartazes e o séquito das bicicletas puxadas pela mão enchiam as ruas que iam dar na prefeitura, Enrico se unia a eles, e sobre aquela multidão modesta lhe parecia que pairava, geométrica nuvem, a imagem da Cidade Futura, branca e verde, que ele iria construir para eles.

Tinha sido um revolucionário, naqueles tempos, Enrico: esperava que o proletariado tomasse o poder e lhe confiasse a construção da Cidade. Mas o proletariado custava a vencer, e além do mais parecia não compartilhar a paixão exclusiva de Enrico pelos muros nus e os telhados planos. Começou para o jovem arquiteto a época amarga e arriscada em que todos os entusiasmos baixam a guarda. Para expressar seu rigor estilístico, descobriu outro caminho: aplicá-lo em projetos de vilas à beira-mar, que ele propunha, honra imerecida, aos milionários filisteus. Essa também era uma batalha: um cerco ao inimigo, por caminhos internos. Para reforçar suas posições precisava tentar se tornar o arquiteto da moda; Enrico teve de começar a pensar seriamente no problema de seu “nível de vida”: como era possível que ainda andasse de scooter? Agora não pensava em mais nada senão em açambarcar trabalhos rentáveis, quaisquer que fossem. As plantas para a Cidade Futura amarelavam, enroladas nos cantos de seu escritório, e de vez em quando uma delas lhe caía na mão, quando procurava um pedaço qualquer de papel de desenho para rabiscar, no verso, o primeiro esboço de um projeto de sobrelevação de um edifício.

Passando de scooter naquele dia pelos bairros da periferia, Enrico não pensava em um novo fôlego para as suas antigas reflexões sobre a desolação dos prédios operários, mas farejava no vento, como um cervo em busca de mato verde, o cheiro das áreas onde se poderia construir.

Era justamente uma área dessas que ele queria ir ver, naquela manhã bem cedinho, com o carro de Umberta. Saíam de uma festa, ela estava bêbada e não queria voltar para casa. Leve-me para cá, leve-me para lá. Já havia um bom tempo que ele repisava essa ideia: se era para circular, por que não ir dar uma espiada num lugar que ele conhecia, numa hora em que não havia ninguém, para estudar bem as possibilidades? Era uma área de propriedade do marido de Umberta, os terrenos em torno de sua fábrica. Enrico esperava, graças ao apoio dela, conseguir a autorização para um grande empreendimento imobiliário. Foi quando estava indo para lá que Umberta quase pulou do carro correndo. Estavam brigando; ela fingia estar mais bêbada do que estava. — E agora para onde você vai me levar? — choramingava. E Enrico: — Para o seu marido. Estou cheio de você. Vou levá-la para perto dele, na fábrica. Não está vendo que estamos indo justamente para lá? — Ela cantarola sabe-se lá o quê, depois abre a porta do carro. Ele freia de repente e ela pula para fora. Assim perdeu o colar. Agora, encontrá-lo: era fácil dizer.

A seus pés estendia-se um declive inculto e coberto de arbustos. Sabia estar no local exato daquela manhã só porque a estrada poeirenta e pouco movimentada conservara as marcas da freada do carro: aliás, toda a paisagem ao redor era disforme, e nunca a expressão cadastral “terreno baldio” tivera na mente de Enrico um significado tão preciso e sutilmente angustiante. Deu uns passos ao redor, cravando os olhos no terreno coberto de crostas, entre os gravetos dos arbustos: em contato com esse solo miserável e vil, surdo às pegadas, semeado de refugos, fugidio e irreconhecível, com estrias luzidias como baba de lesma, fraquejava o gosto da aventura, assim como a disposição para o amor se contrai e reflui quando somos invadidos por uma sensação de frio ou de feiura ou de desconforto. O enjoo, que desde que ele acordara o acompanhava por ondas, agora voltava.

Começou seu exame atento já convencido de que não iria encontrar nada. Talvez devesse primeiro estabelecer um método preciso: delimitar o espaço em que era provável que Umberta tivesse se movido, subdividi-lo em setores e explorá-los palmo a palmo. Mas tudo parecia tão inútil e incerto, que Enrico continuava a caminhar desordenadamente, mal separando os galhinhos. Ao erguer os olhos, viu um homem.

Estava de mãos nos bolsos, no meio do campo, com as moitas chegando à altura de seus joelhos. Devia ter se aproximado em silêncio, não se sabia de onde. Era comprido, delgado como uma cegonha; usava um velho quepe militar enfiado na cabeça com as abas do boné balançando nas orelhas de cão de caça, e uma jaqueta também militar, com as dragonas esfarrapadas. Estava parado como se o esperasse, na tocaia.

Na verdade, fazia várias horas que o esperava: desde antes mesmo de Enrico saber que teria de ir lá. Era o desempregado Fiorenzo. Depois de arrefecido seu primeiro ímpeto de despeito por ter visto escapar bem nas suas barbas o provável tesouro que os dois operários haviam apanhado, ele pensara que devia ficar ali, sem se mexer. Ainda não podia dar a batalha por perdida: se o colar era realmente precioso, mais cedo ou mais tarde quem o perdera voltaria para procurá-lo; e no rastro de um tesouro há sempre a esperança de recolher alguma sobra.

O arquiteto, ao ver o desconhecido lá longe, imóvel, redobrou a atenção. Parou, acendeu um cigarro. Enrico recomeçava a se interessar por aquela história. Era um desses sujeitos, Enrico, que acreditam se basear em coisas e ideias, mas que, ao contrário, não têm outra razão de viver além das instáveis, intricadas relações com o próximo; postos diante da vasta natureza, ou do mundo seguro dos objetos, ou da ordem das coisas pensadas, eles se perdem; e só recuperam a confiança quando podem pressentir as manobras de um possível adversário ou amigo; assim, entre tantos projetos, o arquiteto não construía nada para os outros nem para si mesmo.

Ao avistar Fiorenzo, para melhor estudar as suas manobras, Enrico continuou procurando, debruçado, mexendo-se numa linha reta que o aproximava dele, mas que não o encontraria. Algum tempo depois o homem também se moveu, de modo a cruzar o caminho de Enrico.

Pararam a um passo de distância. O desempregado tinha uma cara descarnada de pássaro, escurecida pela barba por fazer. Foi ele que falou primeiro.

— Está procurando alguma coisa? — disse.

Enrico levou o cigarro aos lábios. Fiorenzo fumava o próprio bafo, uma nuvenzinha densa no ar frio.

— Estava olhando — disse Enrico vagamente, fazendo um gesto circular. Esperava que o outro se revelasse. Pensou: “Se encontrou o colar, sondará o terreno para saber quanto vale”.

— Perdeu-a aqui? — disse Fiorenzo.

E Enrico, rápido:

— O quê?

O outro deu um tempo de pausa e depois:

— Aquela coisa que está procurando.

— Como o senhor sabe que estou procurando uma coisa? — disse Enrico, brusco. Ficara um instante a refletir se convinha apostrofá-lo com o “você” intimidatório, que a polícia emprega com as pessoas malvestidas, ou com o “senhor” da urbanidade citadina formal e igualitária; resolvera que o “senhor” transmitia melhor aquele tom entre o de pressão e o de negociações com o qual queria marcar as relações entre eles.

O homem refletiu um pouco, soltou outro bafo, virou-se e resolveu ir embora.

“Considera-se o mais forte — pensou Enrico —, será que realmente o encontrou?”

É verdade que agora o desconhecido estava em posição de vantagem: cabia a Enrico ir atrás dele. Chamou: — Ei! — e estendeu o maço de cigarros. O homem se virou. — Fuma? — perguntou Enrico, com o maço estendido, mas sem se mexer. O homem recuou uns passos, pegou um cigarro no maço e, no esforço de puxá-lo com as unhas, resmungou alguma coisa que também podia ser um “muito obrigado”. Enrico recolocou o maço no bolso, tirou o isqueiro, testou-o, acendeu lentamente o cigarro do homem.

— Diga-me primeiro o que o senhor está procurando — disse — e depois eu lhe responderei.

— Capim — disse o homem, e apontou um cestinho na beira da estrada.

— Para os coelhos?

Tinham subido de novo o barranco. O homem pegou o cestinho.

— Para nós comermos — disse, e se dirigiu para a estrada. Enrico subiu no scooter, ligou o motor, lentamente, e se colocou ao lado dele.

— Quer dizer que o senhor dá a sua volta toda manhã por estes lados em busca de capim, não é? — e queria chegar a dizer “Este aqui é um pouco o seu reino, não é? São lugares onde não pode cair uma folha sem que você perceba!”, mas Fiorenzo o preveniu:

— São lugares que pertencem a todo mundo — disse.

Era evidente que havia entendido a sua manobra e, tivesse ou não encontrado o colar, não faria confidências. Enrico resolveu abrir o jogo:

— Hoje de manhã perdeu-se um objeto bem ali — disse, parando. — O senhor o encontrou? — e calou-se, esperando que o outro perguntasse: “Que objeto?”. Perguntou, de fato, mas antes ficara pensando um pouco sobre o assunto; um pouco demais.

— Um colar — disse Enrico, torcendo a boca com jeito de quem se refere a coisas pouco importantes; e ao mesmo tempo fazendo um gesto como quem estica entre as mãos um cordão, um cadarcinho, uma correntinha de criança. — É uma recordação, somos muito apegados a ele. Portanto, se o senhor me der eu lhe pago — e fez menção de pôr a mão na carteira.

O desempregado Fiorenzo avançou uma das mãos, como para dizer: “Não está comigo”; mas evitou dizer e ficou com a mão estendida, falando, em vez disso:

— É um trabalho duro, procurar alguma coisa ali no meio... vai precisar de vários dias. O campo é grande. Enquanto isso, podemos começar a ver...

Enrico apoiou de novo as mãos no guidom.

— Achei que o senhor já tivesse encontrado. Pena. Paciência. Sinto muito, sobretudo pelo senhor.

O desocupado jogou fora a guimba.

— Meu nome é Fiorenzo — disse —, podemos fazer um acordo.

— Sou o arquiteto Enrico Pré. Tinha certeza de que íamos começar a falar sério.

— Podemos fazer um acordo — repetiu Fiorenzo —, tanto por dia; e depois, tanto na entrega do objeto, quando eu o achar.

Enrico virou o tronco quase num pulo e, ainda se mexendo, não sabia se o agarraria pelo casaco ou se apenas queria testar mais uma vez suas reações. O fato é que Fiorenzo parou sem fazer menção de se defender, esticando com um irônico ar de desafio o seu rosto de pássaro depenado. E Enrico achou impossível que nos bolsos daquela jaqueta apertada e molenga pudessem estar as quatro voltas de pérolas: se o homem sabia alguma coisa sobre o colar, era difícil imaginar onde o teria escondido.

— E quanto você quer para rastrear este campo? — perguntou. Passara ao “você”.

— E quem lhe disse que ele ainda está no campo? — retrucou Fiorenzo.

— Se não está no campo está na sua casa.

— A minha casa é aquela — disse o homem, e apontou para fora da estrada. — Venha.

Onde os primeiros e esparsos prédios da periferia dão as costas para os campos nevoentos, ali era o limite dos pastos de Fiorenzo. E próximo dessa fronteira, como em geral se situam as capitais dos reinos mais distantes, ficava a sua casa. Muitos episódios e cataclismos históricos haviam contribuído para a sua construção: as paredes baixas de pedras meio desmoronadas eram de uma antiga cavalariça militar, fechada mais tarde pelo declínio da arma equestre; o banheiro à turca e uma indelével pichação mural provinham de sua constante utilização como depósito de armas para a instrução dos cadetes; uma janela de grades derivava do uso sinistro como prisão a que fora destinada na época da guerra civil; e para desentocar dali o último pelotão de armíferos ocorrera aquele incêndio que quase a destruíra; o soalho e os encanamentos eram da época em que tinha sido acampamento, primeiro de sinistrados, e depois de refugiados; em seguida, uma prolongada pilhagem invernal de lenha para queimar, telhas e tijolos a desmantelara de novo; até que lá chegou, com os colchões e os móveis, despejada do último alojamento, a família de Fiorenzo. Metade do telhado, enfim, fora substituído por uma velha porta metálica, entortada numa explosão, encontrada ali nas redondezas. Assim, Fiorenzo, sua mulher, Ines, e os quatro filhos vivos recuperaram uma casa onde pendurar nas paredes os retratos dos parentes e os recibos da taxa familiar, e esperaram o nascimento do quinto filho com alguma esperança de que sobrevivesse.

Se não se podia dizer que o aspecto da casa tivesse melhorado muito desde o dia em que a família ali se instalou, era porque Fiorenzo, quando foi habitá-la, parecia mais próximo do espírito de um primitivo que se entoca numa gruta natural do que de um engenhoso náufrago ou pioneiro, que se esforça em fazer reviver ao seu redor algo da civilização deixada na terra natal. Em matéria de civilização Fiorenzo tinha ao seu redor toda a que podia desejar, mas esta lhe era inimiga e proibida. Depois de ser demitido, tendo logo desaprendido o pouco do ofício em que de certo modo conseguira se qualificar — o de polidor de canos de cobre —, ficando com a mão pesada depois de um emprego como servente de pedreiro que também durou pouco, podado da noite para o dia — com a família nos braços — do grande movimento da circulação do dinheiro, muito depressa ele remontara o curso da história: agora, perdida a ideia de que as coisas necessárias se constroem, se cultivam, se fazem, ele só cuidava do que se pode colher ou caçar.

A cidade se tornara para Fiorenzo um mundo do qual ele não podia fazer parte, tal como o caçador não pensa em se tornar floresta, mas apenas em lhe arrancar uma presa selvagem, uma baga madura, um abrigo contra a chuva. Assim, para o desempregado a riqueza da cidade estava nos talos de repolho que ficam nas calçadas das feiras dos bairros quando se desmontam as barracas; no capim comestível que cresce entre os trilhos dos bondes interurbanos; na madeira dos bancos públicos que podem ser ceifados, pedaço por pedaço, para se queimar na estufa; estava nos gatos que de noite, apaixonados, entravam nos terrenos dominiais e de lá não retornavam. Existia para ele toda uma cidade jogada fora, de segunda ou terceira mão, semienterrada, excrementícia, feita de sapatos arrebentados, de pontas de cigarro, de varetas de guarda-chuva. E mesmo lá embaixo, no nível dessas riquezas empoeiradas, ainda se encontra um mercado, com as demandas e as ofertas, as especulações, os atravessadores. Fiorenzo vendia garrafas vazias, trapos, peles de gato, e assim ainda conseguia dar uma bicada fugaz no circuito monetário. A atividade mais cansativa, porém mais rentável, era a dos descobridores de minas, que escavavam a terra de um barranco debaixo de uma fábrica procurando ferro-velho no meio do lixo, e às vezes desenterravam num dia alguns quilos de ferro por trezentas liras. A cidade tinha temporadas e vindimas irregulares: depois das eleições havia todos os muros cobertos de cartazes rasgados a serem retirados tira por tira graças à diligente e furiosa raspagem de uma velha faca; as crianças também ajudavam e enchiam os sacos com os pedacinhos multicoloridos que eram pesados pelas avaras romanas dos negociantes de papel velho.

Nessa e em outras expedições acompanhavam Fiorenzo os dois filhos mais velhos. Tendo crescido naquela vida, não imaginavam outras possíveis, e corriam pela periferia, selvagens e vorazes, irmãos dos ratos com quem repartiam comida e jogos. Ines, ao contrário, desenvolvera uma mentalidade de leoa; não se mexia da toca, lambia o recém-nascido, perdera o hábito doméstico de arrumar e manter as coisas limpas, jogava-se avidamente sobre o botim que levavam para casa o marido e os filhos, às vezes ajudava a torná-lo comercializável descosturando os pedaços da frente do sapato para serem vendidos aos sapateiros como remendos, ou esfarelando o fumo das guimbas; mesmo na fome, tornara-se gorda e robusta e, a seu modo, tranquila. O outro mundo, o das meias e dos cinemas, já não a atraía, com seus grandes cartazes que agora para ela não representavam mais nada de inteligível, mas apenas enormes rébus indecifráveis. A fotografia dela com Fiorenzo, vestida de véu e grinalda no dia do casamento, e de cujo vidro todo dia ela ainda tirava a poeira, Ines já não sabia se era dela mesma ou de sua bisavó. Os reumatismos levaram-na a se habituar a ficar sempre deitada mesmo quando não sentia dor. Na cama em pleno dia naquela casa desconjuntada, com a criança ao lado, olhava o céu denso e nublado e começava a cantar um velho tango. Assim, Enrico, aproximando-se do casebre, ouviu cantar: entendia cada vez menos.

Com olho de especialista observou a inclinação do teto ondulado, as quinas irregulares das paredes jaspeadas pelas marcas do incêndio. Certas ideias, numa vila à beira-mar, teriam criado um bom efeito. Devia ter isso em mente. Lembrou-se do discurso que fez um dia, num congresso de urbanismo: — Não é do palacete mas do casebre, colegas, que sairemos para traçar o nosso caminho...