Um General na Biblioteca

Italo Calvino · Capítulo 20 de 33

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Um General na Biblioteca

Contos e diálogos 1968-1984

CO N TO S E D IÁLO G O S

1968-1984

A MEMÓRIA DO MUNDO

 

F O I PO R ISSO Q UE O M AN D EI CH AM AR, Müller. Agora que a minha demissão foi aceita, você será o meu sucessor: sua nomeação como diretor é iminente. Não finja que está caindo das nuvens: faz tempo que o rumor circula entre nós, e com certeza também terá chegado ao seu ouvido. Aliás, não há dúvida de que, entre os jovens executivos de nossa organização, você, Müller, é o mais preparado, aquele que conhece — pode-se dizer — todos os segredos do nosso trabalho. Pelo menos assim parece. Deixe-me dizer: não lhe falo por iniciativa minha, mas a mando de nossos superiores. De algumas questões, porém, você ainda não está a par, e chegou a hora de conhecê-las, Müller. Você acredita, como todos, aliás, que a nossa organização está há muitos anos preparando o maior centro de documentação já projetado, um fichário que reúne e ordena tudo o que se sabe de cada pessoa e animal e coisa, em vista de um inventário geral não só do presente mas também do passado, de tudo o que houve desde as origens, em suma, uma história geral de tudo, simultaneamente, ou melhor, um catálogo de tudo, momento por momento. De fato, é nisso que trabalhamos, e podemos dizer que estamos bem adiantados: não só o conteúdo das mais importantes bibliotecas do mundo, dos arquivos e dos museus, das coleções anuais dos jornais de cada país já está nas nossas fichas perfuradas, mas também uma documentação recolhida ad hoc, pessoa por pessoa, lugar por lugar. E todo esse material passa por um processo de redução ao essencial, condensação, miniaturização, que ainda não sabemos até onde irá; assim como todas as imagens existentes e possíveis são arquivadas em minúsculas bobinas de microfilme e em microscópicos rolos de fitas magnéticas contendo todos os sons registrados e registráveis. É uma memória centralizada do gênero humano, a que temos intenção de construir, tentando armazená-la no espaço mais restrito possível, baseado no modelo das memórias individuais dos nossos cérebros.

Mas é inútil que eu repita essas coisas justamente para você, que entrou para cá ao vencer o concurso de admissão com o projeto “Todo o British Museum numa castanha”. Você está conosco há relativamente poucos anos, mas agora conhece o funcionamento de nossos laboratórios tanto quanto eu, que ocupei o posto de diretor da fundação. Nunca eu teria deixado esse posto, garanto-lhe, se minhas forças não me tivessem faltado. Mas, depois da misteriosa morte de minha mulher, mergulhei numa crise de depressão da qual não consigo me recuperar. É justo que os nossos superiores — aceitando, aliás, o que também é meu desejo — tenham pensado em me substituir. Portanto, cabe a mim pô-lo a par dos segredos de ofício dos quais até agora não lhe falamos.

O que você não sabe é o verdadeiro objetivo do nosso trabalho. É para o fim do mundo, Müller. Trabalhamos em vista de um fim próximo da vida na Terra. É para que tudo não tenha sido inútil, para transmitir tudo o que sabemos a outros que não sabemos quem são nem o que sabem.

Posso oferecer-lhe um charuto? A previsão de que a Terra não continuará habitável por mais muito tempo — ao menos para o gênero humano — não chega realmente a nos impressionar. Todos já sabíamos que o Sol chegou à metade de sua vida: na melhor das hipóteses, daqui a quatro ou cinco bilhões de anos tudo estaria terminado. Em suma, daqui a algum tempo o problema se colocaria de um jeito ou de outro; a novidade é que a data de expiração desse prazo está muito mais perto, e que, em resumo, não temos tempo a perder. A extinção da nossa espécie é, sem dúvida, uma triste perspectiva, mas chorar por isso não passa de um consolo bem inútil, seria como recriminar a morte de um indivíduo. (É sempre no desaparecimento de minha Angela que penso, desculpe a minha comoção.) Em milhões de planetas desconhecidos certamente vivem criaturas semelhantes a nós; pouco importa se forem os descendentes deles, e não os nossos, que nos recordarão e garantirão nossa continuidade. O importante é comunicar a eles a nossa memória, a memória geral estabelecida pela organização da qual você, Müller, está para ser nomeado diretor.

Não se apavore; o campo de ação do seu trabalho continuará a ser o que foi até agora. Para comunicar nossa memória aos outros planetas, o sistema é estudado por outro departamento da organização; nós já temos o nosso trabalho, e tampouco nos diz respeito se serão escolhidos como sendo mais apropriados os meios óticos ou os acústicos. Pode inclusive acontecer que não se trate de transmitir as mensagens, mas de depositá-las em lugar seguro, sob a crosta terrestre: os destroços do nosso planeta errante pelo espaço poderiam um dia ser alcançados e explorados por arqueólogos extragalácticos. Nem o código ou os códigos que serão selecionados é problema nosso: há também um departamento que estuda só isso, a forma de tornar inteligível o nosso estoque de informações, seja qual for o sistema linguístico que os outros utilizarem. Para você, agora que sabe disso, nada mudou, garanto, a não ser a responsabilidade que o espera. É sobre isso que gostaria de conversar um pouco.

O que será o gênero humano no momento de sua extinção? Uma certa quantidade de informações sobre si mesmo e sobre o mundo, uma quantidade finita, dado que não poderá mais se renovar e aumentar. Durante algum tempo o universo teve uma oportunidade especial de colher e elaborar informações; e de criá-las, de extrair informações dali onde não haveria nada a informar sobre nada: isso foi a vida na Terra, e sobretudo o gênero humano, sua memória, suas invenções para comunicar e recordar. A nossa organização garante que essa massa de informações não se disperse, independentemente do fato de ser ou não recebida por outros. Caberá ao diretor fazer com que, escrupulosamente, nada fique de fora, pois o que ficar de fora será como se nunca tivesse existido. E ao mesmo tempo será sua tarefa agir, escrupulosamente, como se nunca tivesse existido tudo aquilo que acabaria atrapalhando ou pondo na sombra outras coisas mais essenciais, isto é, tudo aquilo que, em vez de aumentar a informação, criaria uma desordem e um ruído inúteis. O importante é o modelo geral formado pelo conjunto das informações, do qual poderão ser extraídas outras informações que não fornecemos e que talvez não tenhamos. Em suma, não dando certas informações damos mais do que daríamos dando-as. O resultado final do nosso trabalho será um modelo em que tudo conta como informação, mesmo o que não é. Só então se poderá saber, de tudo o que foi, o que é que contava verdadeiramente, ou seja, o que é que existiu verdadeiramente, porque o resultado final da nossa documentação será ao mesmo tempo o que é, foi e será, e todo o resto não será nada.

É verdade que há momentos no nosso trabalho — até você os terá tido, Müller — em que somos tentados a pensar que só o que escapa aos nossos registros é importante, que só o que passa sem deixar vestígio existe verdadeiramente, enquanto tudo o que os nossos fichários retêm é a parte morta, as aparas, as escórias. Vem um momento em que um bocejo, uma mosca que voa, uma coceira nos parecem o único tesouro, justamente porque são absolutamente inutilizáveis, dados definitivos e logo esquecidos, subtraídos do destino monótono do armazenamento na memória do mundo. Quem pode negar que o universo consiste na rede descontínua dos instantes não registráveis, e que dele a nossa organização não controla nada mais do que o molde, a moldura de vazio e insignificância?

Mas é essa a nossa deformação profissional: mal nos fixamos em alguma coisa, logo gostaríamos de incluí-la nos nossos fichários; e assim, aconteceu-me frequentemente, confesso, catalogar bocejos, furúnculos, associações de ideias inconvenientes, assobios, e escondê-los no lote das informações mais qualificadas. Porque o posto de diretor para o qual você está prestes a ser nomeado tem esse privilégio: poder dar uma marca pessoal à memória do mundo. Entenda-me, Müller: não estou falando de arbítrio e de abuso de poder, mas de um componente indispensável ao nosso trabalho. Uma massa de informações friamente objetivas, incontestáveis, traria o risco de fornecer uma imagem distante da verdade, de falsear o que é mais específico em cada situação. Suponhamos que nos chegue de outro planeta uma mensagem de dados puros, de uma clareza simplesmente óbvia: não prestaríamos atenção a eles, nem sequer os perceberíamos; só uma mensagem que contivesse algo de implícito, de duvidoso, de parcialmente indecifrável forçaria a porta de nossa consciência, se imporia para ser recebida e interpretada. Devemos ter isso em conta: é tarefa do diretor dar ao conjunto dos dados colhidos e selecionados por nossos escritórios essa leve marca subjetiva, essa dose de opinável, de arriscado, do qual precisam para ser verdadeiros. Era disso que eu queria adverti-lo, antes de fazer algumas recomendações: no material até agora recolhido nota-se aqui e ali a intervenção de minha mão — de uma extrema delicadeza, entendamo-nos —; aí estão espalhadas opiniões, reticências, até mesmo mentiras.

A mentira só exclui a verdade aparentemente; você sabe que em muitos casos as mentiras — por exemplo, para o psicanalista, as do paciente — são tão ou mais indicativas do que a verdade; e assim será para os que tiverem de interpretar a nossa mensagem. Müller, dizendo-lhe o que digo agora não falo mais a mando de nossos superiores, mas com base em minha experiência pessoal, de colega para colega, de homem para homem. Ouça: a mentira é a verdadeira informação que temos de transmitir. Por isso não quis me proibir um uso discreto da mentira, quando ela não complicava a mensagem, mas, ao contrário, a simplificava. Em especial nas notícias sobre mim mesmo, acreditei-me autorizado a ser pródigo em detalhes não verdadeiros (não creio que isso possa atrapalhar alguém). Por exemplo, minha vida com Angela: eu a descrevi como gostaria que fosse, uma grande história de amor, em que Angela e eu aparecemos como dois eternos namorados, felizes em meio a adversidades de todo tipo, apaixonados, fiéis. Não foi exatamente assim, Müller: Angela casou-se comigo por interesse e logo se arrependeu, nossa vida foi uma série de mesquinharias e subterfúgios. Mas qual a importância do que aconteceu dia após dia? Na memória do mundo a imagem de Angela é definitiva, perfeita, nada pode arranhá-la, e eu serei sempre o marido mais invejável que já existiu.

No início eu só precisava fazer um embelezamento dos dados que nossa vida cotidiana me fornecia. A certa altura, esses dados que eu tinha diante dos olhos ao observar Angela dia após dia (e depois ao espioná-la, e ao segui-la pela rua, no final) começaram a se tornar cada vez mais contraditórios, ambíguos, a ponto de justificar suspeitas infamantes. O que eu devia fazer, Müller? Confundir, tornar ininteligível aquela imagem de Angela tão clara e transmissível, tão amada e amável, ofuscar a mensagem mais esplendorosa de todos os nossos fichários? Eu eliminava esses dados dia após dia, sem hesitar. Mas sempre temia que, em torno dessa imagem definitiva de Angela, restasse algum indício, algum subentendido, um vestígio do qual se pudesse deduzir o que ela — o que Angela na vida efêmera — era e fazia. Eu passava os dias no laboratório a selecionar, apagar, omitir. Eu tinha ciúme, Müller: não ciúme da Angela efêmera — para mim, agora essa era uma batalha perdida —, mas ciúme da Angela-informação que teria sobrevivido por toda a duração do universo.

A primeira condição para que a Angela-informação não fosse atingida por qualquer mácula era que a Angela viva não continuasse a se sobrepor à sua imagem. Foi então que Angela desapareceu, e todas as investigações para encontrá-la foram em vão. Seria inútil que eu lhe contasse agora, Müller, como consegui me desfazer do cadáver pedaço por pedaço. Portanto, fique calmo, esses detalhes não têm nenhuma importância para os objetivos do nosso trabalho, pois na memória do mundo eu continuo a ser o marido feliz e depois o viúvo inconsolável que todos vocês conhecem. Mas não encontrei a paz: a Angela-informação ainda continuava a ser parte de um sistema de informações, algumas das quais podiam se prestar a ser interpretadas — por distúrbios na transmissão, ou por maldade do decodificador — como suposições equívocas, insinuações, ilações. Resolvi destruir nos nossos fichários qualquer presença de pessoas com quem Angela podia ter tido relações íntimas. Foi muito desagradável para mim, já que de alguns de nossos colegas não restará traço na memória do mundo, como se nunca tivessem existido.

Você acha que estou lhe dizendo essas coisas para pedir a sua cumplicidade, Müller. Não, não é essa a questão. Devo informá-lo sobre as medidas extremas que sou obrigado a tomar para fazer com que a informação de cada possível amante de minha mulher permaneça excluída dos fichários. Não me preocupo com as consequências para mim; os anos que me restam de vida são poucos em relação à eternidade em que estou habituado a contar; e já estabeleci de uma vez por todas e passei para as fichas perfuradas o que fui verdadeiramente.

Se na memória do mundo não há nada a corrigir, a única coisa que resta fazer é corrigir a realidade ali onde ela não coincide com a memória do mundo. Assim como apaguei a existência do amante de minha mulher das fichas perfuradas, assim também devo apagá-lo do mundo das pessoas vivas. É por isso que agora puxo o revólver, aponto-o contra você, Müller, aperto o gatilho, mato-o.