Um General na Biblioteca

Italo Calvino · Capítulo 31 de 33

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Um General na Biblioteca

Henry Ford

 

IN TER LO CUTO R — Mister Ford, estou encarregado de lhe submeter... O comitê de que faço parte tem o prazer de informar-lhe... Devendo erigir um monumento ao personagem do nosso século que... A escolha do seu nome, por unanimidade... Pela maior influência exercida na história da humanidade... na imagem mesma do homem... Considerando a sua obra e o seu pensamento... Quem senão Henry Ford mudou o mundo, tornando-o totalmente diferente de como era antes dele? Quem mais do que Henry Ford modelou nosso modo de viver? Pois é, e gostaríamos que o monumento tivesse, portanto, a sua aprovação... Gostaríamos que fosse o senhor que nos dissesse como prefere ser representado, contra que fundo...

HENRY FORD — Como me vê agora... Entre os passarinhos... Eu tinha cinquenta viveiros como este... Chamava-os de hotéis dos pássaros; o maior era a casa dos martinetes, com setenta e seis apartamentos; no verão e no inverno os pássaros encontravam na minha casa refúgio e comida e água para beber. Eu mandava encher de grãos cestinhos pendurados nas árvores por fios de arame, durante todo o inverno, e bebedouros com um dispositivo elétrico para que a água não congelasse. Mandava pôr nas árvores ninhos artificiais de vários tipos: as garriças preferiam os ninhos que balançavam, que se agitavam ao vento; assim não há perigo de que se instalem os pardais, que só gostam de ninhos muito estáveis. No verão eu mandava deixar as cerejas nas árvores e os morangos nos arbustos para que os pássaros encontrassem sua alimentação natural. Todas as espécies de pássaros dos Estados Unidos passavam por minha casa. E importei pássaros de outros países: toutinegras, tentilhões, pintarroxos, estorninhos, tarambolas, gaios, cotovias... cerca de quinhentas espécies no total.

INTERLOCUTOR — Mas, Mister Ford, eu queria falar...

HENRY FORD — (repentinamente rígido, pulando, colérico) Por que o senhor pensa que os pássaros são apenas algo gracioso, pelas plumas, pelos gorjeios? Os pássaros são necessários por motivos estritamente econômicos! Destroem os insetos daninhos! Sabe qual foi a única vez em que mobilizei a organização da Ford para solicitar uma intervenção do governo dos Estados Unidos? Foi para a proteção das aves migradoras! Havia um ótimo projeto de lei para instituir reservas e que corria o risco de acabar enterrado; os homens do Congresso nunca achavam tempo para aprová-lo. Claro: os pássaros não votam! Então pedi a cada um dos seis mil agentes da Ford, espalhados em todos os Estados Unidos, que mandassem um telegrama ao seu representante no Congresso. E então em Washington começaram a se interessar pelo problema... A lei foi aprovada. E saiba que jamais quis utilizar a Ford Motor Company com fins políticos: cada um de nós tem direito às suas opiniões e a empresa não deve se meter nelas. Daquela vez o fim justificava os meios, creio eu, e foi a única exceção.

INTERLOCUTOR — Mas, Mister Ford, deixe-me entender: o senhor é o homem que mudou a imagem do planeta graças à organização industrial, à motorização... O que os passarinhos têm a ver com tudo isso?

HENRY FORD — Por quê? O senhor também é desses que acreditam que as grandes fábricas fizeram desaparecer as árvores, as flores, os pássaros, o verde? O contrário é que é verdade! Só sabendo nos servir da maneira eficaz das máquinas e da indústria é que teremos tempo para usufruir da natureza! Meu ponto de vista é muito simples: quanto mais tempo e mais energia desperdiçamos, menos nos resta para gozarmos a vida. Não considero os carros que levam meu nome como simples carros: quero que sirvam para testar a eficácia da minha filosofia...

INTERLOCUTOR — O senhor quer dizer que inventou e fabricou e vendeu automóveis para que as pessoas pudessem se afastar das fábricas de Detroit e ouvir cantar os pássaros nos bosques?

HENRY FORD — Uma das pessoas que mais admirei foi um homem que dedicou sua vida a observar e descrever os pássaros, John Burroughs. Era um inimigo jurado do automóvel e de todo o progresso técnico! Mas consegui fazê-lo mudar de ideia... As recordações mais belas de minha vida são as semanas de férias que organizei com ele, Burroughs, e os outros professores meus e amigos mais queridos, o grande Edison, e Firestone, o dos pneus... Viajávamos em caravanas de automóveis pelas montanhas Adirondacks, pelas Alleghanys, dormíamos em barracas, contemplávamos os crepúsculos, as auroras acima das cachoeiras...

INTERLOCUTOR — Mas o senhor não acha que uma imagem como essa... em relação ao que se sabe a seu respeito... o fordismo... pode, como dizer?, nos desviar... é uma evasão para longe de tudo o que é essencial?

HENRY FORD — Não, não, o essencial é isso. A história da América é uma história de deslocamentos entre horizontes infinitos, uma história de meios de transportes: o cavalo, as carroças dos pioneiros, as ferrovias... Mas só o automóvel deu aos americanos a América. Só com o automóvel eles se tornaram donos da extensão do país, cada indivíduo se tornou dono do seu meio de transporte, dono do seu tempo, no meio da imensidão do espaço...

INTERLOCUTOR — Devo lhe confessar que a ideia que tínhamos para o seu monumento... era um pouco diferente... tendo as fábricas ao fundo... cadeias de montagem... Henry Ford, o criador da fábrica moderna, da produção em série... O primeiro automóvel como produto de massa: o famoso modelo “T”...

HENRY FORD — Se é uma epígrafe que vocês procuram, podem gravar o texto do anúncio com que lancei no mercado o “Ford T”, em 1908. Não que eu algum dia tenha precisado de publicidade para os meus carros, nada disso! Sempre afirmei que a publicidade é inútil, um bom produto não precisa dela, faz publicidade de si mesmo! Mas naquele folheto havia as ideias que eu queria difundir. É na publicidade como educação que eu creio! Leia, leia.

Construirei um carro para o grande público. Será suficientemente grande para uma família, mas pequeno o bastante para que possa satisfazer às exigências de um indivíduo. Será construído com os melhores materiais, pelos melhores homens que se podem encontrar no mercado, seguindo os projetos mais simples que a moderna engenharia pode fornecer. Mas terá um preço tão baixo que não haverá nenhum homem com um bom salário que não esteja em condições de possuí-lo e gozar com a sua família da bênção de algumas horas de prazer nos grandes espaços abertos por Deus.

INTERLOCUTOR — O “Ford T”... Por quase vinte anos as fábricas de Detroit só produziram esse tipo de automóvel... O senhor falava das exigências dos indivíduos... Mas lhe atribuem também essa tirada: “Cada cliente pode querer o carro da cor que preferir, contanto que seja preto”. O senhor disse realmente isso, Mister Ford?

HENRY FORD — Sim, disse e escrevi. Como imagina que consegui baixar os preços, colocar o automóvel ao alcance de todos? Imagina que eu teria conseguido se tivesse produzido novos modelos todo ano, como os chapéus para as senhoras? A moda é uma das formas de desperdício que detesto. Minha ideia era um automóvel do qual cada peça fosse substituível, de modo que nunca envelhecesse. Só assim consegui transformar o carro, de objeto de luxo, de bem de prestígio, num instrumento de primeira necessidade, que vale para aquilo que serve...

INTERLOCUTOR — Foi uma grande mudança na mentalidade industrial. Daí em diante os esforços da indústria mundial procuraram satisfazer o consumo de massa, fazer crescer a demanda desse consumo. Foi justamente por isso que a indústria se orientou para os produtos que pudessem deteriorar depressa, que fossem jogados fora o mais rápido possível, a fim de que pudesse vender outros... O sistema que o senhor inaugurou deu resultados que vão contra todas as suas ideias fundamentais: produzem-se coisas que se gastam depressa, ou saem logo de moda, para darem lugar a outros produtos que não valem mais que os primeiros, mas que parecem mais novos e cuja sorte depende apenas da publicidade.

HENRY FORD — Não era isso que eu queria. Tem sentido mudar enquanto não se chegou àquele único modo ótimo de produzir, que deve existir para cada coisa, e que garante tanto a máxima economia como o melhor rendimento. Há um e só um caminho para fazer cada coisa da melhor maneira possível. Quando ele é atingido, por que mudar?

INTERLOCUTOR — Seu ideal é, portanto, um mundo de carros todos iguais?

HENRY FORD — Na natureza não há duas coisas iguais. E a igualdade entre os homens também é uma ideia equivocada e desastrosa. Nunca admirei a igualdade, mas tampouco isso foi para mim um espantalho. Mesmo se fazemos de tudo para produzir carros idênticos, compostos de peças idênticas, de tal forma que cada peça possa ser retirada de um carro e montada em outro, essa identidade é só aparente. Cada Ford, uma vez posto na rua, tem um comportamento um pouco diferente dos outros Ford, e um bom motorista, depois de ter testado um carro, consegue reconhecê-lo entre todos os outros, basta que pegue o volante, que gire a chave da ignição...

INTERLOCUTOR — Mas o mundo que o senhor ajudou a criar... o senhor nunca teve medo de que fosse terrivelmente uniforme, monótono?

HENRY FORD — A pobreza é que é monótona. É um desperdício de energias e vidas. As pessoas que faziam fila no nosso escritório de contratação eram uma multidão de italianos, gregos, poloneses, ucranianos, emigrantes de todas as províncias do império russo e do império austro-húngaro, que falavam línguas e dialetos incompreensíveis. Não eram ninguém, não tinham profissão nem casa. Fui eu que os honrei neste mundo, dei a todos um trabalho útil, um salário que os tornou independentes, fiz deles homens capazes de dirigirem a própria vida. Mandei ensinar-lhes o inglês e os valores da nossa moral: essa era a única condição que eu impunha; se não estavam de acordo, que fossem embora. Mas quem estava disposto a aprender nunca foi despedido por mim. Tornaram-se cidadãos americanos, eles e suas famílias, em igualdade com quem havia nascido em famílias que estavam aqui havia gerações. Não me importa o que um homem foi: não lhe pergunto seu passado, nem de onde vem, nem que méritos tem. Não me importa se esteve em Harvard e não me importa se esteve em Sing-Sing! Só me interessa o que pode fazer, o que pode se tornar!

INTERLOCUTOR — É... se tornar, uniformizando-se segundo um modelo...

HENRY FORD — Compreendo o que o senhor quer dizer. A diversidade entre os homens é o ponto de partida que sempre tive presente. Força física, rapidez de movimentos, capacidade de reagir a situações novas são elementos que variam de indivíduo para indivíduo. Minha ideia foi a seguinte: organizar o trabalho dos meus estabelecimentos de modo a que quem fosse inábil ou inválido pudesse render tanto quanto o operário mais hábil. Mandei classificar as funções de cada serviço de acordo com o que exigiam: mais robustez, ou força ou estatura normal, ou se podiam ser feitas também por pessoas menos dotadas fisicamente e menos rápidas. Resultou que havia 2637 trabalhos que podiam ser entregues a operários com uma perna só ( faz por mímicas operações mecânicas fingindo estar sem uma perna), 670 a quem não tinha as duas pernas ( faz mímicas como acima), 715 aos sem um braço ( faz mímicas como acima), dois aos que não têm braços ( faz mímicas como acima), e dez funções podiam ser executadas por cegos. Um cego encarregado de contar os parafusos no depósito foi capaz de fazer o trabalho de três operários de olhos saudáveis ( faz mímicas). É isso que vocês chamam uniformidade? Eu digo que fiz todo o possível para que cada um superasse os seus handicaps. Até os doentes nos meus hospitais podiam trabalhar e ganhar seu dia. Estando de cama. Aparafusando as porcas nos pequenos parafusos. Também servia para manter o moral. Curavam-se antes.

INTERLOCUTOR — Mas o trabalho na linha de montagem... Serem obrigados a concentrar a atenção em movimentos repetitivos, segundo um ritmo incessante, imposto pelas máquinas... O que pode ser mais mortificante para o espírito criativo... para a mais elementar liberdade de dispor dos movimentos do próprio corpo, do gasto da própria energia segundo o próprio ritmo, a própria respiração... Fazer sempre uma única operação, um único gesto, sempre do mesmo jeito... Não é uma perspectiva terrificante?

HENRY FORD — Para mim, é. Terrificante. Para mim seria inconcebível fazer sempre a mesma coisa o dia inteiro, e um dia depois do outro. Mas não é assim para todos. A imensa maioria dos homens não tem nenhum desejo de fazer trabalhos criativos, de ter de pensar, decidir. Está disposta simplesmente a fazer alguma coisa em que possa colocar o mínimo de esforço físico e mental. E para essa esmagadora maioria o aspecto mecânico repetitivo, a participação num trabalho já previsto nos mínimos detalhes assegura uma perfeita calma interior. É verdade que não podem ser indivíduos irrequietos. O senhor é irrequieto? Eu sou, muitíssimo. Pois bem, eu não o empregaria num trabalho de rotina. Mas grande parte das atribuições numa grande indústria é rotina, e é como rotina que elas são aceitas pela imensa maioria da mão de obra.

INTERLOCUTOR — São assim porque os senhores assim quiseram... sejam as atribuições, sejam as pessoas...

HENRY FORD — Conseguimos organizar o trabalho de modo que fosse mais fácil para quem devia fazê-lo, e mais rentável. Digo nós, os “criativos”, se quer nos chamar assim, nós os irrequietos, nós que não temos paz enquanto não encontramos a melhor maneira de fazer as coisas... Sabe como me veio a ideia de levar a peça ao operário sem que ele precise se deslocar até a peça? Das fábricas de carne enlatada de Chicago, vendo os bois esquartejados que passavam pendurados em carrinhos, sobre trilhos elevados, para serem salpicados de sal, cortados, retalhados, esmigalhados... Os bois esquartejados que passavam, balançando... a nuvem de grãos de sal... as lâminas das facas, zac, zac... e vi os chassis do “Ford T” correndo na altura das mãos dos operários que apertavam os parafusos...

INTERLOCUTOR — A criatividade, portanto, é reservada a poucos... a quem projeta... a quem decide...

HENRY FORD — Não! Ela se expande! Quantos eram os artistas, os verdadeiros artistas, antigamente? Hoje os artistas somos nós, nós que nos firmamos com a produção e os homens que produzem! Antigamente as funções criativas se limitavam a juntar cores ou notas ou palavras, num quadro, numa partitura, numa página... E, aliás, para quem? Para quatro vagabundos, cansados da vida, que frequentam as galerias e as salas de concertos! Somos nós, os verdadeiros artistas, que inventamos o trabalho das indústrias necessárias a milhões de pessoas!

INTERLOCUTOR — Mas a habilidade profissional desaparece no trabalho manual!

HENRY FORD — Chega! Vocês todos repetem a mesma ladainha! O contrário é que é verdade. A habilidade profissional triunfa na construção das máquinas e na organização do trabalho, e assim é posta à disposição mesmo de quem não é hábil, mas que pode alcançar rendimento igual ao dos mais dotados! Sabe de quantas peças é feito um Ford? Contando também parafusos e porcas, são cerca de cinco mil: peças grandes, médias, pequenas ou simplesmente minúsculas, como as rodinhas de um relógio. Os operários deviam caminhar pela oficina para procurar cada peça, caminhar para levá-las ao setor de montagem, caminhar para buscar a chave inglesa, a chave de parafuso, o maçarico... As horas do dia iam embora nesses vaivéns... E eis que acabavam sempre esbarrando um no outro, atrapalhando-se nos gestos, se acotovelando, se amontoando... Era esse o modo de trabalhar humano, criativo, como agrada a vocês? Quis fazer com que o operário não tivesse de correr para a frente e para trás pelas oficinas. Era uma ideia desumana? Quis fazer com que o operário não tivesse de levantar e transportar peso. Era uma ideia desumana? Mandei colocar os instrumentos e os homens na ordem de sequência das operações, instalei carrinhos nos trilhos ou em linhas suspensas, de modo que os movimentos do braço fossem reduzidos ao mínimo. Basta economizar dez passos por dia de dez mil pessoas e você terá economizado cem quilômetros de movimentos inúteis e energias mal gastas.

INTERLOCUTOR — Resumamos: o senhor quer economizar os movimentos das pessoas que constroem automóveis que tornam possível a todos viverem em contínuo movimento...

HENRY FORD — É a economia de tempo, meu caro senhor, num e noutro caso. Não há contradição! A primeira publicidade que fiz para convencer os americanos a comprarem um automóvel era baseada no velho ditado “Tempo é dinheiro!”. Assim também no trabalho: para cada tarefa o operário deve dispor do tempo justo, nem um segundo a menos e nem um segundo a mais! E o dia inteiro do operário deve se inspirar nos mesmos princípios: ele deve morar perto da fábrica para não perder tempo em deslocamentos. Por isso me convenci de que as fábricas de médio porte eram preferíveis às mastodônticas... e também permitiam evitar os grandes aglomerados urbanos, as favelas, as imundícies, a delinquência, o vício...

INTERLOCUTOR — E no entanto, Detroit... As massas que se concentraram no Middle West para procurar emprego nos estabelecimentos Ford...

HENRY FORD — É verdade, só eu conseguia dar salários elevados e aumentos constantes, numa época em que nenhum industrial queria ouvir falar disso... Foi duro sustentar e impor a todo o mundo econômico americano a minha ideia de que são os salários mais altos que movimentam o mercado, não os lucros mais altos. E para dar salários altos é preciso economizar no sistema de produção. É essa a única verdadeira economia que rende: economizar, não para acumular, mas para aumentar os salários, isto é, o poder de compra, isto é, a abundância. O segredo da abundância está num equilíbrio entre preços e qualidade. É só na abundância, não na escassez, que se pode construir: isso, fui o primeiro a entender. Se um capitalista trabalha com a esperança de um dia viver de rendas, é um mau capitalista. Sempre pensei que não possuía nada meu, mas que administrava meu patrimônio pondo os melhores meios de produção a serviço dos outros.

INTERLOCUTOR — Mas os sindicatos viam as coisas de outra maneira. E o senhor, durante anos, não quis saber dos sindicatos... Ainda em 1937 contratou turmas de lutadores e pugilistas profissionais para impedir as greves, na base da força...

HENRY FORD — Havia agitadores que queriam criar conflitos entre a Ford e os operários, conflitos que pela lógica não podiam subsistir. Eu havia calculado tudo para que os interesses dos operários e os da empresa fossem os mesmos! Eles chegavam com discursos que não tinham nada a ver com os meus princípios e com os princípios que regem o código da natureza. Há uma moral do trabalho, uma moral do serviço, que não pode ser perturbada, porque é uma lei da natureza. A natureza diz: trabalhem!, prosperidade e felicidade só podem ser alcançadas pelo trabalho honesto!

INTERLOCUTOR — Mas o que foi chamado de fordismo, ou pelo menos as suas ideias sociais mais populares — o emprego estável, o salário garantido, um certo grau de bem-estar —, deu origem a novas aspirações na mentalidade dos operários. O senhor se dava conta disso, Mister Ford? Com uma massa disforme e flutuante o senhor contribuiu para criar uma mão de obra que tinha algo a defender, tinha dignidade e consciência do próprio valor, e que, portanto, aspirava a segurança, garantias, força contratual, autonomia para decidir o próprio destino. É o que se chama de um processo irreversível, que o seu paternalismo não podia mais conter nem controlar...

HENRY FORD — Eu olho sempre o futuro, mas para simplificar, e não para complicar as coisas. Inversamente, todos os que projetam o futuro propõem reformas, parece que só querem complicar, complicar. São todos assim, os reformadores, os teóricos políticos, até os presidentes: Wilson, Roosevelt... Eu me vi várias vezes sozinho, lutando contra um mundo inutilmente complicado: a política, a economia, as guerras...

INTERLOCUTOR — O senhor não pode deixar de admitir que as guerras trouxeram vantagens para os negócios...

HENRY FORD — Essas vantagens não estavam nos meus planos. Sempre fui um pacifista, isso ninguém jamais poderá negar. Sempre lutei contra a intervenção americana, na Primeira Guerra Mundial e na Segunda. Em 1915 organizei o Navio da Paz, cruzei o Atlântico até a Noruega junto com personalidades das igrejas, das universidades, dos jornais, para pedir às potências europeias que suspendessem as hostilidades. Não quiseram me escutar. E meu país também entrou na guerra. A Ford também começou a trabalhar para a guerra. Então declarei que não receberia um centavo dos lucros vindos das encomendas de guerra.

INTERLOCUTOR — O senhor prometeu restituir esses lucros ao Estado, mas parece que isso não aconteceu...

HENRY FORD — Depois da guerra tive de enfrentar uma situação financeira muito grave. Os bancos...

INTERLOCUTOR — Os bancos sempre foram outra de suas bêtes noires...

HENRY FORD — O sistema financeiro é outra complicação inútil, que cria obstáculos à produção, em vez de facilitá-la. Para mim o dinheiro deveria vir sempre depois do trabalho, como resultado do trabalho, não antes. Enquanto me mantive longe do mercado financeiro as coisas andaram bem: em 29 me salvei da Grande Crise porque minhas ações não eram cotadas em bolsa. O objetivo do meu trabalho é a simplicidade...

INTERLOCUTOR — Mas o senhor teve um papel de primeiro plano na consolidação desse sistema econômico que diz não aprovar. Não acha que as suas considerações são inspiradas, mais que pela simplicidade, por um certo simplismo?

HENRY FORD — Nos negócios sempre me baseei em ideias simples americanas. Wall Street é um outro mundo, para mim... um mundo estrangeiro... oriental...

INTERLOCUTOR — Um momento, Mister Ford... O senhor provavelmente tinha todas as razões para se aborrecer com Wall Street... Mas daí a identificar a alta finança e todos os seus inimigos como pessoas de determinada origem, de determinada religião... a escrever artigos antissemitas nos seus jornais... a reuni-los em livro... a apoiar aquele fanático na Alemanha que logo tomaria o poder...

HENRY FORD — Minhas ideias foram mal-entendidas... Eu, com aquelas vergonhas que iriam acontecer na Europa, não tenho nada a ver... Falava pelo bem da América e também pelo bem deles, dessas pessoas diferentes de nós, que, se quisessem participar da nossa comunidade, deviam compreender quais são os verdadeiros princípios americanos... aqueles com os quais honra-me ter conduzido a minha empresa...

INTERLOCUTOR — O senhor realizou muitíssimo na fabricação das coisas, Mister Ford... E também teorizou muito... Mas enquanto as coisas correspondiam sempre às suas previsões e aos seus projetos, os homens não, pois nos seres humanos havia sempre algo que lhe escapava, que frustrava as suas expectativas... É assim?

HENRY FORD — Minha ambição não foi só fazer as coisas. O ferro, a chapa metálica, o aço não bastam. As coisas não são fins em si mesmas. Era num modelo de humanidade que eu pensava. Não fabricava apenas mercadorias. Queria fabricar homens!

INTERLOCUTOR — Gostaria que o senhor se explicasse melhor sobre esse ponto, Mister Ford. Posso me sentar? Posso acender um cigarro? Quer um?

HENRY FORD — Nãããão! Aqui não se fuma! Os cigarros são um vício aberrante! Nas fábricas Ford os cigarros são proibidos! Dediquei à campanha contra o fumo anos de energia! Até Edison me deu razão!

INTERLOCUTOR — Mas Edison fumava!

HENRY FORD — Só charutos. Alguns charutos eu também posso permitir. Cachimbo também. Fazem parte das tradições americanas. Mas cigarro, não! As estatísticas dizem que os piores criminosos são fumantes de cigarros. O cigarro leva direto aos bas-fonds! Publiquei um livro contra o cigarro!

INTERLOCUTOR — Não acha que, além do cigarro, poderia ter se preocupado com os efeitos do ritmo de trabalho na saúde? Ou com a poluição provocada por suas fábricas? Ou pelo fedor de nafta que sai dos canos de escape de seus automóveis?

HENRY FORD — Minhas fábricas estão sempre limpas, bem iluminadas e ventiladas. Posso lhe provar que, quanto a preocupações com a higiene, ninguém teve mais que eu. Agora estou falando da moral, da mente. Meu projeto exigia homens sóbrios, trabalhadores, éticos, com uma vida familiar serena, uma casa limpa e arrumada!

INTERLOCUTOR — Por isso o senhor instituiu um corpo de inspetores que investigavam a vida privada de seus empregados? Que metiam o nariz nos amores, na vida sexual de mulheres e homens?

HENRY FORD — Um empregado que vive corretamente fará seu trabalho corretamente. Selecionei meu pessoal não só com base no rendimento do serviço, mas também na moralidade da família. E se preferia contratar homens casados, bons pais de família de preferência a libertinos, beberrões e jogadores, isso também correspondia a critérios de eficiência. Quanto às mulheres, sou favorável a aceitá-las na fábrica se têm filhos para sustentar, mas se têm um marido que ganha dinheiro, o lugar delas é em casa!

INTERLOCUTOR — E no entanto os seus primeiros adversários foram os bem-pensantes puritanos que combatiam a difusão dos automóveis como um perigo para as famílias! Os pregadores e os moralistas trovejavam contra o automóvel que servia aos noivos para se encontrarem longe de qualquer vigilância; o automóvel que levava as famílias a perambular no domingo em vez de ir à igreja; o automóvel que, para ser comprado, exigia que se hipotecasse a casa, queimasse a sagrada poupança; o automóvel que criava na população parcimoniosa a exigência de férias prolongadas e de viagens; o automóvel que espalhava a inveja entre os pobres e incitava a revolução...

HENRY FORD — Os reacionários são como os bolchevistas: não veem a realidade, não sabem o que é necessário às funções elementares da vida humana. Eu também sempre agi segundo uma ideia, um modelo. Mas minhas ideias são sempre aplicáveis.

INTERLOCUTOR — Pois é, os bolchevistas... Como o senhor vê o fato de que o comunismo soviético tenha desde o início tomado o fordismo como modelo? Lenin e Stalin foram admiradores de sua organização produtiva e em certa medida seguidores de suas teorias. Também queriam que toda a sociedade se organizasse segundo critérios de rendimento industrial, também queriam fazer funcionar as suas fábricas e os seus operários como em Detroit, também queriam educar massas de trabalhadores disciplinados e puritanos...

HENRY FORD — Mas o que dei a meus operários eles não souberam dar. A austeridade deles, como a dos reacionários, perpetuou a escassez; minha austeridade trazia a abundância. Mas não me interessa o que eles fizeram: minha ideia era americana, pensada em função da América, animada pelo espírito dos pioneiros, que não tinham medo do trabalho e sabiam se adaptar ao novo, que eram frugais e austeros, mas queriam usufruir das coisas do mundo...

INTERLOCUTOR — Mas essa América dos pioneiros desapareceu... Eliminada pela Detroit de Henry Ford...

HENRY FORD — Venho daquela velha América. Meu pai tinha uma fazenda, em Michigan. Comecei a testar minhas invenções na fazenda, financiado por meu pai; queria construir meios de transporte práticos para a agricultura. O automóvel nasceu no campo. Fiquei afeiçoado à América da minha infância e dos meus pais. Assim que percebi que ela estava desaparecendo, comecei a comprar e colecionar antigos apetrechos agrícolas, arados, rodas de moinho d’água, carroças, buggies, trenós, mobília das velhas casas de madeira que caíam em ruínas...

INTERLOCUTOR — Portanto, assim como a ecologia nasce da mesma cultura que produziu a poluição, os antiquários nasceram da mesma cultura que impôs as coisas novas no lugar das velhas...

HENRY FORD — Comprei uma antiga taberna em Sudbury, em Massachussetts, com sua tabuleta, seu pórtico... Também mandei reconstruir a estrada de terra batida por onde passavam as caravanas indo para o Oeste...

INTERLOCUTOR — É verdade que, para restituir o ambiente do tempo dos cavalos e das diligências em torno dessa velha hospedaria, o senhor mandou desviar a autoestrada, aquela autoestrada pela qual roncam a toda velocidade os carros Ford?

HENRY FORD — Há lugar para tudo na nossa América, não acha? O campo americano não deve desaparecer. Sempre fui contra o êxodo rural dos agricultores. Projetei um complexo hidrelétrico no Tennessee para fornecer energia a baixo custo aos agricultores. Tivesse eu lhes fornecido eletrodomésticos, adubos, e eles teriam se mantido longe das cidades. Não quiseram me ouvir, nem o governo nem os farmers. Nunca entendem as ideias simples; as funções elementares da vida humana são três: a agricultura, a indústria e os transportes. Todos os problemas dependem de como se planta, como se fabrica e como se transporta, e sempre propus as soluções mais simples. O trabalho do agricultor era inutilmente complicado. Só cinco por cento da energia deles era empregada de forma útil.

INTERLOCUTOR — Não sente saudades daquela vida, então?

HENRY FORD — Se o senhor acha que sinto saudades de alguma coisa do passado, quer dizer que não entendeu nada de mim. Não dou a menor importância ao passado! Não creio na experiência da história! Pois é, encher a cabeça das pessoas com a cultura do passado é a coisa mais inútil que se pode fazer.

INTERLOCUTOR — Mas o passado significa experiência... Na vida dos povos e na das pessoas...

HENRY FORD — Até mesmo a experiência individual não serve para nada além de perpetuar a recordação dos fracassos. Na fábrica, os especialistas só sabem dizer que não se pode fazer isso, que aquilo já foi testado mas não funciona... Se eu tivesse dado ouvidos aos especialistas, nunca teria realizado nada do que consegui realizar, teria me desencorajado desde o início, nunca teria conseguido montar um motor a explosão. Naquela época os especialistas pensavam que a eletricidade podia resolver tudo, que os motores também deviam ser elétricos. Todos estavam fascinados por Edison, com muita razão, e eu também estava. E fui perguntar a ele se achava que eu era um louco, como diziam, porque teimara em fazer funcionar um motor que fazia “tuff, tuff”. E então ele mesmo, Edison, o grande Edison, me disse: “Meu jovem, vou lhe dizer o que penso. Trabalhei com a eletricidade toda a minha vida. Pois bem, as máquinas elétricas nunca poderão se afastar demais das estações de abastecimento. Inútil pensar em levar junto as baterias dos acumuladores: são pesadas demais. Nem mesmo as máquinas a vapor são o ideal: precisarão sempre de uma caldeira e de um fogo, e do que é necessário para alimentá-lo. Em compensação, a máquina que você descobriu basta a si mesma: nada de fogo, nada de caldeira, nada de fumaça, nada de vapor; ela transporta consigo mesma a sua fábrica de energia. É disso que se precisava, meu jovem. Você está no caminho certo! Continue a trabalhar, não perca o ânimo! Se conseguir inventar um motor de pouco peso que se autoalimente, sem precisar ser carregado com uma bateria, terá um grande futuro!”.

Foi o que me disse o grande Edison. Ele, que era o rei da eletricidade, foi o único a entender que eu estava fazendo algo em que a eletricidade não teria sucesso. Não, ser um especialista não conta, o que se fez não conta. O que conta é o que se pode e se quer fazer! As ideias que se tem para o futuro!

INTERLOCUTOR — Hoje o seu futuro já é um passado... e condiciona todo o nosso presente... Diga-me: hoje, olhando ao redor, o senhor reconhece o futuro que desejava? Digo o futuro que via no início, quando era um jovem interiorano de Michigan, que se fechava no hangar da fazenda do pai, para testar modelos de cilindros e pistons, e correias de transmissão, e diferenciais para as rodas... Diga-me, Mister Ford, o senhor se lembra do que então queria?...

HENRY FORD — Sim, queria a leveza, um motor leve para um veículo leve, como a pequena caleche na qual eu tentava inutilmente instalar uma caldeira a vapor... Sempre procurei a leveza, a redução dos desperdícios de material, de trabalho... Passava os dias fechado na cabana do hangar... De fora sentia chegar as baforadas de cheiro de feno... e o assobio do tordo, no velho olmo perto do lago... uma borboleta entrava pela janela, atraída pelo clarão da caldeira, batia as asas ao redor e depois, com a trepidação do pistom, voava e ia embora, silenciosa, leve...

(Imagens de engarrafamentos de trânsito numa grande cidade, de filas de caminhões numa autoestrada, de trabalho nas prensas de um laminador, de trabalho numa cadeia de montagem, de fumaça de chaminés etc. se superpõem à imagem de Ford enquanto pronuncia as últimas frases.)