Um General na Biblioteca

Italo Calvino · Capítulo 10 de 33

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Um General na Biblioteca

Amor longe de casa

 

ÀS V EZ ES UM TR EM V AI EM BO R A pelos trilhos à beira-mar e nesse trem estou eu, que parto. Pois não quero ficar no meu povoado, cheio de sono e hortas, decifrando as placas dos carros estrangeiros como o rapaz montanhês sentado no parapeito da ponte. Vou embora; tchau, aldeia.

No mundo, além da minha aldeia, há outras cidades, umas à beira-mar, outras não se sabe por que mas perdidas no fundo de planícies, pertinho dos trens que chegam não se sabe como, depois de trajetos ofegantes por campos e mais campos. De vez em quando desço numa dessas cidades e sempre fico com jeito de viajante novato, os bolsos gordos de jornais e os olhos irritados com a fuligem.

De noite apago a luz já deitado na nova cama e fico ouvindo os bondes, depois penso no meu quarto da minha aldeia, longíssimo na noite, parece impossível que nesse exato momento existam dois lugares tão distantes. E, não sei bem onde, adormeço.

De manhã, lá fora da janela tudo está por ser descoberto; se é Gênova, ruas que descem e sobem e casas a jusante e a vazante e o vento correndo de uma a outra; se é Turim, ruas retas sem fim, estendendo-se até a balaustrada de colinas, com uma dupla fila de árvores que se esfuma lá longe nos céus brancos; se é Milão, casas que se dão as costas nos campos de nevoeiro. Deve haver outras cidades e outras coisas para descobrir: um dia vou lá ver.

Mas o quarto é sempre o mesmo em cada cidade, parece que as “madames” o transferem de cidade em cidade assim que sabem que estou chegando. Até meus apetrechos de barba em cima do mármore da cômoda, com esses seus ares tão inevitáveis e tão pouco meus, parece que os encontrei assim ao chegar, e não que eu os tenha posto ali. Posso morar anos num quarto, depois outros anos em outros quartos totalmente iguais, sem conseguir senti-lo como sendo meu, ou nele deixar minha marca. É que a mala está sempre pronta para partir, e nenhuma cidade da Itália é a ideal, e em nenhuma cidade se acha trabalho, e em nenhuma cidade encontrar trabalho nos satisfaz, pois há sempre outra cidade melhor onde esperamos ir trabalhar um dia. Assim, as coisas estão sempre nas gavetas tal como as tirei da mala, prontas para serem guardadas de novo.

Passam-se os dias e as semanas e uma moça começa a vir ao quarto. Poderia dizer que é sempre a mesma moça porque, no início, uma moça é igual a outra, uma pessoa estranha, com quem nos comunicamos por meio de um código obrigatório. É preciso passar um pouco de tempo e fazer muitas coisas com essa moça para chegarmos juntos a entender a explicação para isso; e aí começa a fase das enormes descobertas, a verdadeira e talvez única fase exaltante do amor. Depois, passando mais tempo e fazendo ainda mais coisas com essa moça, a gente percebe que as outras também eram assim, que eu também sou assim, que somos todos assim, e cada gesto dela nos aborrece como se repetido por milhares de espelhos. Tchau, moça.

A primeira vez que uma moça vem me ver, digamos Mariamirella, eu praticamente não faço nada durante a tarde: vou ler um livro e depois percebo que atravessei vinte páginas olhando as letras como se fossem figuras; escrevo e, em vez de letras, faço desenhinhos na folha branca e todos os desenhinhos juntos se tornam o desenho de um elefante; no elefante faço sombreados e no final ele vira um mamute. Então fico com raiva desse mamute e o rasgo: toda vez, um mamute, tão criança, será possível?

Rasgo o mamute, toca a campainha: Mariamirella. Devo correr para abrir antes que a madame apareça na janelinha de grade do banheiro e grite; Mariamirella fugiria apavorada.

Um dia a madame morrerá estrangulada pelos ladrões: está escrito, não há nada a fazer. Ela acredita que pode evitar isso não indo abrir quando tocam a campainha e perguntando “Quem é?” pela janelinha de grade da latrina, mas é uma precaução inútil, os tipógrafos já compuseram a manchete — adelaide braghetti, a dona da pensão, estrangulada por desconhecidos — e só esperam a confirmação para fazer a paginação.

Mariamirella está ali na meia-luz, com uma boina de marinheiro de pompom e a boca em forma de coração. Abro, e ela já preparou todo um discurso para fazer assim que entrar, um discurso qualquer, pois precisa discorrer copiosamente enquanto a guio pelo corredor escuro até o meu quarto.

Deve ser um discurso longo, para não ficar no meio do meu quarto sem saber mais o que dizer. O quarto é inapelável, desesperado em sua desolação: a cabeceira de ferro da cama, os títulos dos livros desconhecidos na pequena prateleira.

— Venha olhar da janela, Mariamirella.

É um janelão cujo parapeito bate na altura do estômago, sem sacada, no alto de dois degraus, e temos a impressão de estar subindo sem parar. Lá fora, o mar avermelhado das telhas. Olhamos os telhados ao redor, a perder de vista, as chaminés atarracadas que a certa altura explodem em tufos de fumaça, os absurdos balaústres em cima de cornijas onde ninguém pode se debruçar, os murinhos formando espaços vazios, no alto das casas deterioradas. Pus a mão no ombro dela, mão meio inchada que não sinto como sendo minha, como se nos tocássemos através de uma camada de água.

— Já viu bastante?

— Já.

— Vamos descer.

Descemos e fechamos. Estamos debaixo da água, tateamos entre sensações disformes. O mamute circula pelo quarto, velho medo humano.

— Fale.

Tirei-lhe a boina de marinheiro e a fiz voar sobre a cama.

— Não. Eu já vou embora.

Coloca-a de novo na cabeça, eu a agarro e jogo-a pelos ares, voando, agora nos perseguimos, brincamos de dentes trincados, o amor, é isso o amor de um pelo outro, desejo mútuo de arranhões e mordidas, socos também, nas costas, depois um beijo exausto: o amor.

Agora fumamos sentados frente a frente: os cigarros parecem enormes entre nossos dedos, como objetos que seguramos debaixo da água, grandes âncoras afundadas. Por que não somos felizes?

— O que você tem? — perguntou Mariamirella.

— O mamute — digo.

— O que é? — diz.

— Um símbolo — digo.

— De quê? — diz.

— Não se sabe de quê — digo. — Um símbolo. Uma noite, sabe, eu estava sentado na beira de um rio com uma moça.

— Como se chamava?

— O rio se chamava Pó, e a moça, Enrica. Por quê?

— Nada: gosto de saber com quem você esteve antes.

— Bem, estávamos sentados no mato, à beira do rio. Era outono, de noite, as margens já estavam escuras, e pelo rio descia a sombra de dois homens em pé, remando. Na cidade começavam a aparecer as luzes e estávamos sentados na margem do outro lado do rio, e havia entre nós aquilo que se diz ser amor, esse rude descobrir-se e procurar-se, esse áspero sabor um do outro, sabe como é, o amor. E havia em mim tristeza e solidão, naquela noite na margem das negras sombras dos rios, tristeza e solidão dos novos amores, tristeza e saudade dos velhos amores, tristeza e desespero dos amores futuros. Don Juan, triste herói, velha danação, tristeza e solidão e mais nada.

— Comigo também, assim? — disse Mariamirella.

— E se agora você falasse um pouco, se dissesse um pouco o que sabe?

Comecei a gritar com raiva; às vezes, enquanto a gente fala, ouve como um eco, e se enfurece.

— O que você quer que eu diga? Dessas coisas, de vocês, homens, eu não consigo entender.

Assim é: as mulheres só tiveram informações falsas sobre o amor. Muitas informações diferentes, todas falsas. E experiências inexatas. No entanto, sempre confiantes nas informações, não nas experiências. Por isso têm tantas coisas falsas na cabeça.

— Eu gostaria, sabe, nós, as moças — diz. — Os homens: coisas lidas, coisas ditas entre nós no ouvido desde meninas. A gente aprende que aquilo é mais importante que tudo, a finalidade de tudo. Depois, sabe, percebo que nunca se alcança aquilo, aquilo de verdade. Não é mais importante que tudo. Eu gostaria que nada disso existisse, que a gente pudesse não pensar nisso. Mas a gente sempre espera. Talvez seja preciso ser mãe para alcançar o verdadeiro significado de tudo. Ou prostituta.

É isso: maravilhoso. Todos nós temos nossa explicação secreta. Basta descobrir a explicação secreta e ela não é mais uma estranha. Ficamos enroscados bem juntinhos um do outro, como cachorros grandes, ou divindades fluviais.

— Sabe — disse Mariamirella —, talvez eu tenha medo de você. Mas não sei onde me refugiar. O horizonte é deserto, só tem você. Você é o urso e a gruta. Por isso estou agora enroscada em seus braços, para que você me proteja do medo de você.

Só que para as mulheres é mais fácil. A vida corre dentro delas, grandes rios dentro delas, as continuadoras, há a natureza segura e misteriosa dentro delas. No passado, havia o Grande Matriarcado, a história dos povos fluía como a das plantas. Depois, o orgulho dos zangões: uma revolta, eis a civilização. Penso nisso, mas não acredito.

— Uma vez não consegui ser homem com uma moça, num prado, numa montanha — digo. — A montanha se chamava Bignone, e a moça, Angela Pia. Um grande prado, entre os arbustos, me lembro, e um grilo pulava em cada folha. Aquele canto dos grilos, altíssimo, sem parar. Ela não entendeu muito bem por que então eu me levantei e disse que o último teleférico estava prestes a sair. Pois ia-se de teleférico àquela montanha: e quando se passava por um poste de alta-tensão se sentia um vazio por dentro e ela disse: “É que nem quando você me beija”. Isso, me lembro, me deu um grande alívio.

— Você não deve me dizer essas coisas — disse Mariamirella. — Não haveria mais o urso nem a gruta. E ao meu redor só restaria o medo.

— Sabe, Mariamirella — digo —, não devemos separar as coisas e os pensamentos. A maldição da nossa geração foi esta: não poder fazer o que pensava. Ou não poder pensar o que fazia. Veja um exemplo: há muitos anos (eu tinha falsificado a carteira de identidade por não ter ainda a idade exigida), fui com uma mulher a uma casa de tolerância. A casa de tolerância se chamava Via Calandra 15, e a mulher, Derna.

— Como?

— Derna. Naquele tempo havia o império, e a única coisa nova era que as mulheres das casas se chamavam Derna, Adua, Harrar, Dessiè.

— Dessiè?

— Dessiè também, acho. Quer que eu lhe chame Dessiè, de agora em diante?

— Não.

— Bem, para voltar àquela vez, com aquela Derna. Eu era jovem e ela, grande e peluda. Dei o fora. Paguei o que tinha de pagar e dei o fora: minha impressão era que todas tinham se debruçado no corrimão da escada e estavam rindo atrás de mim. Bem, isso não foi nada: é que, mal cheguei em casa, aquela mulher se tornou uma coisa pensada e então parou de me dar medo. Veio-me um desejo dela, um desejo dela, mortal... É isso: para nós as coisas pensadas são diferentes das coisas.

— Pois é — disse Mariamirella —, já pensei em todas as coisas possíveis, vivi centenas de vidas com o pensamento. Casar, ter muitos filhos, abortar, casar com um rico, casar com um pobre, virar uma mulher de luxo, virar uma mulher da rua, dançarina, freira, vendedora de castanha assada, diva, deputada, enfermeira da Cruz Vermelha, campeã. Muitas vidas com todos os detalhes. E todas com final feliz. Mas na vida verdadeira nunca acontece nada dessas coisas pensadas. Por isso, toda vez que me ocorre fantasiar, eu me apavoro e tento enxotar os pensamentos, porque se eu sonhar com uma coisa ela não acontecerá nunca.

É uma boa moça, Mariamirella; boa moça significa que compreende as coisas difíceis que digo e logo as torna fáceis. Gostaria de lhe dar um beijo, mas depois penso que, ao beijá-la, eu pensaria estar beijando o pensamento dela, ela pensaria ser beijada pelo pensamento de mim, e portanto não faço nada.

— É preciso que a nossa geração reconquiste as coisas, Mariamirella — digo. — Que pensemos e façamos no mesmo momento. Mas que não façamos sem pensar. É preciso que entre as coisas pensadas e as coisas não haja mais diferença. Então seremos felizes.

— Por que é assim? — me pergunta.

— Veja, não para todas as coisas — digo. — Eu, quando criança, vivia numa grande mansão, entre balaústres altos como voos sobre o mar. E passava os dias atrás desses balaústres, menino solitário, e cada coisa para mim era um estranho símbolo, os espaços entre as tâmaras penduradas em cachos nas hastes, os braços deformados dos cactos, os estranhos sinais no cascalho das alamedas. Além disso, havia as pessoas grandes, que tinham a missão de lidar com as coisas, com as coisas de verdade. Eu não devia fazer mais nada a não ser descobrir novos símbolos, novos significados. Assim permaneci a vida toda, ainda me movo num castelo de significados, não de coisas, dependo sempre dos outros, dos “grandes”, daqueles que manejam as coisas. Mas há quem desde criança tenha trabalhado num torno. Num instrumento que serve para fazer coisas. Que não pode ter um significado diferente das coisas que faz. Eu, quando olho para uma máquina, vejo-a como se fosse um castelo mágico, imagino homens minúsculos que circulam entre as rodas dentadas. Um torno. Quem sabe o que é um torno. Você sabe o que é um torno, Mariamirella?

— Um torno, agora, não sei muito bem, não — diz.

— Deve ser importantíssimo, um torno. Deveriam ensinar todo mundo a usar um torno, em vez de ensinar a usar um fuzil, que é sempre um objeto simbólico, sem uma verdadeira finalidade.

— Não me interessa, um torno — diz.

— Está vendo, para você é mais fácil: você tem máquinas de costura para se salvar, agulhas, sei lá, fogões a gás, até máquinas de escrever. Você tem poucos mitos dos quais precisa se libertar; para mim todas as coisas são símbolos. Mas uma coisa é certa: devemos reconquistar as coisas.

Vou acariciando-a, devagarinho.

— Diga, eu sou uma coisa? — diz.

— Urg — digo.

Descobri, acima da axila, uma pequena covinha num ombro, macia, sem osso embaixo, do tipo das covinhas do rosto. Falo com os lábios em cima da covinha.

— Ombro igual a rosto — digo. — Não se entende nada.

— Como? — pergunta. Mas está pouco ligando para o que eu digo.

— Corrida como junho — digo, ainda na covinha. Ela não entende o que eu faço, mas fica feliz e ri. É uma boa moça.

— Mar como chegada — digo, depois tiro a boca da covinha e encosto o ouvido para escutar o eco. Só se ouve a respiração dela, e, longe e enterrado, o coração.

— Coração como trem — digo.

Pronto: agora Mariamirella não é mais Mariamirella pensada, é Mariamirella verdadeira: é Mariamirella! E o que fazemos agora não é mais uma coisa pensada, é uma coisa verdadeira: o voo por cima dos telhados, e a casa que se ergue como as palmeiras na janela da minha casa na aldeia, uma ventania pegou nosso último andar e o transporta pelos céus e pelas fileiras avermelhadas das telhas.

Na praia da minha aldeia, o mar me viu e faz festa como um cachorro grande. O mar, gigantesco amigo, com as pequenas mãos brancas que raspam as pedras, eis que ele pula por cima dos contrafortes dos molhes, estufa a barriga branca e salta pelos montes, ei-lo chegando alegre como um imenso cão de patas brancas de redemoinho. Calam-se os grilos, todas as planícies são invadidas, campos e vinhedos, agora só um camponês levanta o forcado e grita: eis o mar que desaparece como bebido pela terra. Tchau, mar.

Ao sairmos, Mariamirella e eu começamos a correr escadas abaixo perdendo o fôlego, antes que a madame apareça na grade e tente entender tudo olhando-nos de frente.