Um General na Biblioteca

Italo Calvino · Capítulo 8 de 33

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Um General na Biblioteca

Imprestável

 

O SO L EN TR AV A N A R UA, enviesado, já alto, iluminando-a desordenadamente, recortando as sombras dos telhados nos muros das casas defronte, incendiando com seus reflexos ofuscantes as vitrines enfeitadas, surgindo de frestas insuspeitas e batendo no rosto dos passantes apressados, que se esquivavam nas calçadas lotadas.

Vi pela primeira vez o homem de olhos claros num cruzamento, parado ou andando, não me lembro bem: o certo é que a figura dele ia ficando cada vez mais perto de mim, ou porque eu estivesse indo ao seu encontro, ou vice-versa. Era alto e magro, vestia um impermeável claro, levava um guarda-chuva bem fechado e fininho, pendurado no braço. Tinha na cabeça um chapéu de feltro, claro também, com a aba larga e redonda; e, logo embaixo, os olhos grandes, frios, líquidos, com um movimento estranho nos cantos. Não dava para perceber que idade teria, todo liso e magro como era. Estava com um livro na mão, fechado com um dedo dentro, como para marcar a página.

De repente, senti o seu olhar pousado em mim, um olhar imóvel que me alcançava da cabeça aos pés e não me poupava nem mesmo por trás e por dentro. Virei os olhos para outro lugar, de chofre, mas, andando, vez por outra eu tinha vontade de lhe lançar umas olhadelas rápidas, e sempre o percebia cada vez mais perto, me olhando. Acabei ficando diante dele, parado, com a boca quase sem lábios prestes a arquear-se num sorriso. O homem tirou do bolso um dedo, lentamente, e com ele apontou para o chão, para os meus pés; foi então que falou, com uma voz um pouco humilde, magra.

— Desculpe — disse —, o senhor está com um sapato desamarrado.

Era verdade. As duas pontas do cadarço caíam de cada lado de um dos pés do sapato, arrastadas e pisadas. Fiquei levemente corado, resmunguei um “obrigado”, abaixei-me.

Parar na rua para amarrar um sapato é desagradável: mais ainda parar como eu parei, no meio da calçada, sem colocar o pé num lugar mais alto, ajoelhado no chão, com as pessoas tropeçando em mim. O homem de olhos claros, depois de fazer um vago gesto de cumprimento, foi logo embora.

Mas estava escrito que eu o reencontraria: não havia passado quinze minutos e o revi diante de mim, parado e olhando uma vitrine. E aí me deu uma vontade incompreensível de me virar e recuar, ou melhor, de passar bem depressa, agora que ele estava prestando atenção na vitrine, para que não percebesse a minha presença. Não: já era tarde demais, o desconhecido se virara, tinha me visto, me olhava, queria me dizer mais alguma coisa. Parei na frente dele, com medo. O desconhecido tinha um tom ainda mais humilde.

— Olhe — disse —, ainda está desamarrado.

Meu desejo era desaparecer numa nuvem. Não respondi nada, abaixei-me para dar o laço no cadarço com furiosa diligência. Meus ouvidos apitavam e eu achava que todas as pessoas que passavam ao redor, me esquivando, eram as mesmas que tinham me esquivado da primeira vez e já haviam reparado em mim, e que entre elas murmuravam comentários irônicos.

Mas agora o sapato estava bem amarrado, apertado, e eu andava leve e confiante. Aliás, agora eu esperava, com uma espécie de orgulho inconsciente, topar mais uma vez com o desconhecido, quase para me reabilitar.

Porém, assim que dei a volta na praça e me vi a poucos passos dele, na mesma calçada, o orgulho de repente deixou de me comprimir por dentro, dando lugar ao pavor. Na verdade, o desconhecido, ao me olhar, tinha no rosto uma expressão aborrecida e se aproximava de mim balançando levemente a cabeça, com ar de quem se lamenta de algum fato natural acima da vontade dos homens.

Enquanto ia andando, eu olhava de rabo de olho, apreensivo, o sapato incriminado; continuava amarrado, como antes. Mas, diante do meu pavor, o desconhecido continuou a balançar a cabeça por algum tempo e depois disse:

— Agora o outro está desamarrado.

Tive então esse desejo que vem nos pesadelos, de apagar tudo, de acordar. Ostentei uma careta de revolta, mordendo um lábio como numa imprecação reprimida, e recomecei a triturar freneticamente os cordões, curvado no meio da rua. Levantei-me sentindo o rosto vermelho e fui andando de cabeça baixa, desejando nada mais do que me esquivar dos olhares das pessoas.

Mas naquele dia o tormento ainda não havia terminado: enquanto eu acelerava o passo a caminho de casa, apressado, sentia que, devagarinho, as laçadas do cadarço escorregavam uma sobre a outra, que o nó ia afrouxando cada vez mais, que os cordões, aos poucos, iam se soltando. Primeiro, diminuí o passo, como se um pouco de cautela fosse suficiente para o incerto equilíbrio daquela confusão. Mas minha casa ainda estava longe, e as pontas do cadarço já se arrastavam pelo calçamento, em voos curtos. Então fui andando num ritmo aflito, de fuga, perseguido por um terror alucinante: o terror de me ver de novo diante do inexorável olhar daquele homem.

Era uma cidade pequena, recolhida, onde todo mundo ia e vinha; numa só volta, em meia hora se encontravam três, quatro vezes as mesmas caras. Agora eu caminhava por ela parecendo um fantasma, angustiado, entre a vergonha de me exibir de novo na rua com um sapato desamarrado e a vergonha de ser visto de novo curvado para amarrá-lo. Os olhares das pessoas me pareciam se adensar ao meu redor, como galhos de um bosque. Enfiei-me no primeiro portão que encontrei, para me refugiar.

Mas no fundo do corredor, na meia-luz, de pé, com as mãos apoiadas no cabo do guarda-chuva fininho, estava parado o homem de olhos claros, e parecia me esperar.

Primeiro, tive um ímpeto de estupor, depois arrisquei algo como um sorriso e apontei para o sapato desamarrado, para preveni-lo.

O desconhecido assentiu com aquele seu ar de melancólica compreensão.

— Pois é — disse —, os dois estão desamarrados.

No corredor, pelo menos, eu podia amarrar os sapatos com mais calma, e mais comodidade, apoiando um pé num degrau. Mesmo se atrás, alto, de pé, estava o homem de olhos claros que me observava e não perdia um movimento de meus dedos, e eu sentia o seu olhar no meio deles, a me confundir. Mas, cá entre nós, agora eu já não sofria; até assobiava, refazendo pela enésima vez aqueles nós malditos, e dessa vez ia ser para valer, de tão desenvolto que eu estava.

Bastaria que o homem tivesse ficado calado; que não tivesse começado, primeiro, a tossir, meio inseguro, e depois a dizer de supetão, decidido:

— Desculpe, mas o senhor ainda não aprendeu a dar laço nos sapatos.

Virei meu rosto enrubescido para ele, fiquei curvado. Passei a língua entre os lábios.

— Sabe — disse —, eu, em matéria de dar nós, sou uma negação. O senhor nem acredita. Desde criança, jamais quis aprender. Os sapatos, eu tiro e ponho sem desamarrar, com a calçadeira. Para os nós sou uma negação, me atrapalho. Ninguém acredita.

Aí o desconhecido disse uma coisa estranha, a última coisa que se esperaria que dissesse.

— Então — disse —, com os seus filhos, se tiver, como fará para ensiná-los a amarrar os sapatos?

Mas o mais estranho foi que refleti um pouco sobre isso e depois respondi, quase como se a questão já tivesse me sido apresentada outra vez, eu com os meus botões, e como se eu a tivesse resolvido e guardado a resposta, esperando que mais cedo ou mais tarde alguém me faria a tal pergunta.

— Meus filhos — disse — aprenderão com os outros como é que se amarra um sapato.

O desconhecido retrucou, cada vez mais absurdo:

— E se por exemplo chegasse o dilúvio universal e toda a humanidade perecesse e o senhor fosse o homem eleito, o senhor e seus filhos, para continuar a humanidade. Como faria, já pensou nisso algum dia? Como faria para ensiná-los a dar um nó? Porque do contrário, depois, sabe-se lá quantos séculos a humanidade teria de passar até conseguir dar um nó, reinventá-lo!

Eu não entendia mais nada, nem do nó nem do discurso.

— Mas — tentei objetar — por que deveria ser logo eu o eleito, como o senhor diz, logo eu que não sei nem dar um nó?

O homem de olhos claros estava contra a luz, na soleira do portão: havia em sua expressão algo terrivelmente angelical.

— Por que eu? — disse. — Todos os homens me respondem assim. E todos os homens têm um nó no sapato, uma coisa que eles não sabem fazer; uma incapacidade que os liga aos outros homens. A sociedade agora se rege por essa assimetria dos homens: é um encaixe de cheios e vazios. Mas, e o dilúvio? Se viesse o dilúvio e se procurássemos um Noé? Não tanto um homem justo, mas um homem que fosse capaz de pôr a salvo aquelas poucas coisas, tudo o que é suficiente para se recomeçar. Veja, o senhor não sabe amarrar os sapatos, outro não sabe aplainar a madeira, um terceiro ainda não leu Tolstoi, um quarto não sabe semear o trigo, e assim por diante. Há anos estou procurando, e, creia em mim, é difícil, tremendamente difícil; parece que a humanidade deve se segurar pela mão como o cego e o coxo que não podem andar separados, e no entanto brigam. Quer dizer que, se vier o dilúvio, morreremos todos juntos.

Dizendo isso, virou-se e desapareceu na rua. Não o vi mais e até hoje me pergunto se era um estranho maníaco ou um anjo, que há anos circula no meio dos homens, em vão, à procura de um Noé.