Um General na Biblioteca

Italo Calvino · Capítulo 12 de 33

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Um General na Biblioteca

O regimento desaparecido

 

UM R EG IM EN TO de um poderoso exército devia desfilar pelas ruas da cidade. Desde as primeiras luzes da manhã as tropas estavam enfileiradas no pátio do quartel em formação de parada.

O sol já estava alto no céu, e as sombras se encurtavam ao pé das arvorezinhas mirradas do pátio. Sob os elmos lustrados havia pouco, os soldados e os oficiais pingavam de suor. O coronel, do alto de seu cavalo branco, fez um sinal: rufaram os tambores, toda a fanfarra começou a tocar e o portão do quartel girou lentamente sobre as dobradiças.

Lá fora espraiava-se a vista da cidade, sob um céu claro cruzado de nuvens macias, a cidade com as chaminés que perdiam rastros de fumaça, os terraços com os varais esticados e pregadores para se pendurar a roupa, os reflexos dos raios do sol batendo nos espelhos das cômodas, os cortinados para enxotar as moscas e que se emaranham nos brincos das senhoras que carregam um cesto, a carrocinha do sorveteiro com o toldo e a caixa de vidro para os picolés, e, correndo rente ao chão, uma pipa com a rabiola de papel crepom vermelho que as crianças puxavam por um barbante comprido e que aos poucos subia e se aprumava contra as nuvens macias do céu.

O regimento começara a marchar ao ritmo dos tambores, com o barulho das solas batendo no calçamento e das rodas das carriolas da artilharia; mas ao se ver diante daquela cidade pacata, cordial, concentrada nos seus problemas, cada militar se sentiu indiscreto, inoportuno, e saltou aos olhos de todos que a parada era algo fora do lugar, destoante, algo que realmente podia ser dispensado.

Um tambor, um tal de Prè Gio Batta, fingiu continuar o rufo iniciado, mas na verdade apenas roçou na pele do instrumento. Ouviu-se um tique-taque abafado, mas não só dele: geral; porque no mesmo instante todos os outros tambores tinham feito como Prè. Depois, os corneteiros tocaram um só solfejo de suspiros, pois nenhum deles soprava a fundo. Os soldados e os oficiais, dando olhadas constrangidas ao redor, pararam com uma perna no ar e depois a repousaram devagarinho, retomando a marcha na ponta dos pés.

Assim, sem que fosse dada nenhuma ordem, a coluna longuíssima ia em frente, na ponta dos pés, com movimentos lentos e recolhidos, e um murmurante, abafado tropel. Os encarregados das peças de artilharia, ao se verem ao lado daqueles canhões tão deslocados, foram subitamente invadidos por um sentimento de pudor: uns quiseram ostentar indiferença, andar sem nunca olhar para as peças, como se estivessem passando ali por mero acaso; outros se mantinham encostados nas peças o máximo possível, como para escondê-las, poupando às pessoas aquela visão tão desagradável e pouco civilizada, ou então jogavam cobertores, mantas sobre os canhões, de modo a passarem despercebidos ou pelo menos não chamarem a atenção; outros, enfim, assumiam com os canhões uma postura de afetuosa zombaria, davam tapinhas na carreta, na culatra, apontavam para eles com um meio sorriso: tudo para demonstrar que não tencionavam servir-se deles para fins letais, mas só levá-los para passear como grotescas engenhocas, grandes e raras.

Esse confuso sentimento chegara também à alma do coronel Clelio Leontuomini, que instintivamente abaixara a cabeça à altura da cabeça do cavalo. Este, por sua vez, começara a mexer as pernas vagarosamente, com a cautela das bestas de carga. Mas bastou um momento de reflexão para que o coronel e o cavalo retomassem sua cadência marcial. Dando-se rapidamente conta da situação, Leontuomini lançou uma ordem seca:

— Passo de parada!

Os tambores rufaram, depois começaram a bater em cadência. O regimento se recompusera depressa e agora ia em frente pisando o terreno com agressiva segurança.

— Pronto — pensou o coronel olhando de soslaio para suas fileiras —, é um autêntico regimento em marcha.

Na calçada alguns passantes se detiveram, perfilando-se como a parada, e olharam com jeito de quem gostaria de se interessar e até quem sabe se deliciar com tamanha demonstração de energia, mas sentem dentro de si algo que não entendem bem, uma vaga sensação de alarme, e, de qualquer maneira, há coisas sérias demais ocupando a nossa cabeça para que a gente comece a pensar em espadas e canhões.

Ao se sentirem olhados, a tropa e os oficiais foram de novo tomados por aquele leve, inexplicável constrangimento. Continuaram a marchar empertigados em passo de parada, mas não conseguiam se livrar de uma dúvida que havia em seus corações, que era a de estarem fazendo mal àqueles bravos cidadãos. O infante Marangon Remigio, para não se distrair com a presença deles, mantinha sempre os olhos baixos: quando se marcha em colunas, as únicas preocupações são o alinhamento e o passo; quanto ao resto, o pelotão pensa pela gente. Mas centenas e centenas de outros soldados faziam o mesmo que o infante Marangon; aliás, pode-se dizer que todos eles, oficiais, alferes, coronel, avançavam sem nunca tirar os olhos do chão, seguindo a coluna, confiantes. Assim, viu-se o regimento, em passo de parada, fanfarra à frente, virar para um lado da rua, sair do terreno asfaltado, passar por cima de um canteiro dos jardins públicos e ir adiante decidido, pisoteando ranúnculos e lilases.

Os jardineiros estavam regando o gramado e o que veem? Um regimento que avança de olhos fechados para cima deles, esmagando o capim com as solas dos sapatos. Aqueles pobrezinhos não sabiam mais como segurar as mangueiras, para não dirigir os jatos de água contra os militares. Acabaram segurando-as na vertical, mas os jatos, com um longo esguicho, caíam em locais imprevistos; um deles regou da cabeça aos pés o coronel Clelio Leontuomini, que também prosseguia, empertigado e de olhos fechados.

Com aquela ducha, o coronel levou um susto e deu um grito:

— Inundação! Inundação! Mobilizem-se para os socorros! — Depois, subitamente compreendeu e retomou o comando do regimento para fazê-lo sair dos jardins públicos.

Mas ficara um pouco decepcionado. O grito “Inundação! Inundação!” traíra uma de suas esperanças secretas, quase inconscientes: a de que de repente ocorresse um cataclismo natural, sem vítimas mas perigoso, e mandasse para os ares a parada, e que desse jeito o regimento se prodigalizasse em obras úteis à população: construção de pontes, salvamentos. Só assim a sua consciência ficaria novamente tranquila.

Saindo do jardim público, o regimento foi parar numa outra zona da cidade, não a das largas avenidas onde estava combinado que ele desfilaria, mas num bairro de ruas menores, mais apertadas e tortuosas. O coronel resolveu que iria cortar caminho por essas ruelas, para chegarem à praça sem mais perda de tempo.

Uma animação insólita reinava no bairro. Eletricistas, no alto de grandes escadas, regulavam as lâmpadas dos postes e levantavam e abaixavam os fios do telefone. Agrimensores da engenharia civil mediam as ruas com as fixas e os metros em rolo. Gasistas, armados de picaretas, abriam grandes buracos no calçamento. Colegiais em fila faziam um passeio. Pedreiros passavam-se tijolos ao voo gritando: “Opa! Opa!”. Ciclistas, dando longos assobios, transportavam escadas portáteis nas costas. E, em todas as janelas das casas, empregadas empertigadas em cima dos peitoris torciam panos molhados em grandes baldes e limpavam as vidraças.

Assim, o regimento devia continuar o desfile por aquelas ruas tortuosas, abrindo caminho num emaranhado de fios de telefone, metros em rolo, escadas, buracos no calçamento, grupos de alunas assanhadas, e pegando tijolos no ar, “Opa! Opa! Opa!”, e se esquivando de panos molhados e baldes que criadas emocionadas deixavam cair lá embaixo, do quarto andar.

O coronel Clelio Leontuomini teve de reconhecer que errara o caminho. Montado no cavalo, inclinou-se para um passante e perguntou:

— Desculpe, sabe qual é o caminho mais curto até a praça principal?

O passante, um homenzinho de óculos, ficou pensando um pouco:

— É uma volta complicada; mas se o senhor deixar que eu o guie levo-o por um pátio até a outra rua, e o senhor ganha pelo menos quinze minutos.

— Todo o regimento poderá passar por esse pátio? — perguntou o coronel.

O homenzinho deu uma olhada e fez um gesto indeciso:

— Bah! Pode-se tentar. — E os precedeu entrando num portão.

Debruçadas nos parapeitos enferrujados dos corredores externos, todas as famílias daquele prédio se esticavam para olhar no pátio o regimento que tentava entrar com cavalos e artilharia.

— Onde fica o outro portão por onde se sai? — perguntou o coronel ao homenzinho.

— Portão? — perguntou o homenzinho. — Talvez não tenha me explicado bem. É preciso subir até o último andar, e dali se passa para a escada de um prédio vizinho, cujo portão dá justamente para a outra rua.

O coronel queria continuar montado no cavalo mesmo por aquelas escadas estreitas, mas dois patamares mais acima resolveu deixar o cavalo amarrado no corrimão e prosseguir a pé. Resolveram deixar também os canhões no pátio, e um sapateiro prometeu ficar de olho. Os soldados subiam em fila indiana, e a cada andar abriam-se algumas portas, e um menino gritava:

— Mamãe! Venha ver. Os soldados estão passando! Tem um regimento desfilando!

No quinto piso, para passar daquela escada para outra, secundária, que levava ao sótão, tiveram de andar um pouco pelos corredores que davam para o pátio. Cada janelão dava para um cômodo nu com muitos colchões de palha, onde viviam famílias cheias de crianças.

— Entrem, entrem — diziam os papais e as mamães para os militares. — Descansem um pouco, devem estar cansados! Venham por aqui que o caminho é mais curto! Mas o fuzil, deixem do lado de fora; por causa das crianças, sabem como é...

Assim, o regimento ia minguando enquanto percorria as passagens e os corredores. E naquela confusão mais ninguém conseguiu achar o homenzinho que sabia o caminho.

Anoiteceu, e as companhias e os pelotões ainda continuavam a circular por escadas e corredores. No alto do telhado, empoleirado na cumeeira, estava o coronel Leontuomini. Via estender-se diante de si a cidade espaçosa e transparente, com as ruas formando um tabuleiro de xadrez e a grande praça vazia. Com ele, de gatinhas em cima das telhas, havia um batalhão de soldados, armados de bandeirinhas coloridas, pistolas com foguetes sinalizadores, faixas coloridas para emitir sinais.

— Transmitam — dizia o coronel. — Depressa, transmitam: Zona impraticável... Impossibilitados prosseguir... Aguardamos ordens...