Um General na Biblioteca

Italo Calvino · Capítulo 32 de 33

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Um General na Biblioteca

O último canal

 

M EU PO LEG AR ABAIX A independentemente da minha vontade: por momentos, a intervalos irregulares, sinto a necessidade de apertar, esmagar, lançar um impulso repentino como um projétil; se era a isso que se referiam quando me concederam a enfermidade mental parcial, acertaram. Mas eles se enganam se acham que não havia um projeto, uma intenção bem clara no meu comportamento. Só agora, na calma acolchoada e esmaltada deste quartinho de clínica, posso desmentir os disparates que tive de ouvir atribuírem-me no processo, tanto por parte da acusação como da defesa. Com este memorial que, espero, chegará às mãos dos magistrados do recurso, se bem que meus defensores queiram a todo custo me impedir, pretendo restabelecer a verdade, a única verdade, a minha, se é que algum dia alguém estará em condições de entendê-la.

Os médicos também avançam no escuro, mas pelo menos veem com simpatia o meu propósito de escrever e me deram esta máquina e esta resma de papel: acham que isso representa uma melhora pelo fato de eu me encontrar trancado num quarto sem televisão, e atribuem a cessação do espasmo que contraía minha mão ao fato de terem me privado do pequeno objeto que eu apertava quando fui preso e que conseguira (as convulsões que eu ameaçava ter toda vez que o tiravam de minha mão não eram simuladas) guardar comigo durante a detenção, os interrogatórios, o processo. (E como eu poderia explicar — a não ser demonstrando que o corpo do delito se tornara uma parte do meu corpo — o que tinha feito e — mesmo sem conseguir convencê-los — por que o tinha feito?)

A primeira ideia equivocada que tiveram de mim foi que minha atenção é incapaz de acompanhar por mais de uns poucos minutos uma sucessão coerente de imagens, que minha mente só consegue captar fragmentos de histórias e discursos sem um antes nem um depois; em suma, que em minha cabeça tenha arrebentado o fio das conexões que mantêm unido o tecido do mundo. Não é verdade, e a prova que apresentam para sustentar suas teses — o meu modo de ficar imóvel por horas e horas diante da televisão ligada sem acompanhar nenhum programa, obrigado como sou, por um tique compulsivo, a pular de um canal para outro — também pode demonstrar justamente o contrário. Estou convencido de que há um sentido nos acontecimentos do mundo, de que uma história coerente e motivada em toda a sua série de causas e efeitos está se passando neste momento em algum lugar, atingível pela nossa possibilidade de verificação, e que ela contém a chave para julgar e compreender todo o resto. É essa convicção que me mantém imobilizado, fixando a tela com os olhos deslumbrados enquanto os pulos frenéticos do controle remoto fazem aparecer e desaparecer entrevistas com ministros, abraços de amantes, anúncios de desodorantes, concertos de rock, detidos que escondem o rosto, lançamentos de foguetes espaciais, tiroteios no Oeste, piruetas de bailarinas, lutas de boxe, quiz shows, duelos de samurais. Se não paro para assistir a nenhum desses programas é porque o programa que procuro é outro, e sei que ele existe, tenho certeza de que não é nenhum desses, e esses são transmitidos apenas para induzir ao erro e desencorajar quem como eu está convencido de que o programa que conta é outro. Por isso continuo a passar de canal para canal: não porque minha mente seja agora incapaz de se concentrar nem mesmo o mínimo necessário para acompanhar um filme ou um diálogo ou uma corrida de cavalos. Pelo contrário: minha atenção já está toda projetada em alguma coisa que não posso perder de jeito nenhum, alguma coisa única que está se produzindo neste momento enquanto a minha tela ainda está entupida de imagens supérfluas e intercambiáveis, alguma coisa que já deve ter começado e cujo início eu sem dúvida perdi, e cujo fim, se não me apressar, também corro o risco de perder. Meu dedo saltita no botão do controle remoto afastando os invólucros das aparências vãs tal como os despojos superpostos de uma cebola multicolorida.

Enquanto isso o verdadeiro programa está percorrendo as vias do éter numa faixa de frequência que não conheço, talvez se perderá no espaço sem que eu possa interceptá-lo: há uma estação desconhecida que está transmitindo uma história que me diz respeito, a minha história, a única história que pode me explicar quem sou eu, de onde venho e para onde estou indo. A única relação que neste momento posso estabelecer com a minha história é uma relação negativa: recusar as outras histórias, descartar todas as imagens mentirosas que me são propostas. Essa pressão nos botões é a ponte que lanço para aquela outra ponte que se abre em leque no vazio e que meus arpões não conseguem fisgar: duas pontes descontínuas de impulsos eletromagnéticos que não se juntam e se perdem na poeira de um mundo estilhaçado.

Foi quando entendi isso que comecei a brandir o controle remoto, não mais para a tela, mas para fora da janela, para a cidade, suas luzes, os letreiros de néon, as fachadas dos prédios, os pináculos nos telhados, as pernas das gruas de bico comprido de ferro, as nuvens. Depois desci pelas ruas com o controle remoto escondido debaixo do sobretudo, apontado como uma arma. No processo disseram que eu odiava a cidade, que queria fazê-la desaparecer, que eu era movido por um impulso de destruição. Não é verdade. Amo, sempre amei nossa cidade, seus dois rios, as raras pracinhas arborizadas como lagos de sombra, o miado dilacerante das sirenes das ambulâncias, o vento que pega em cheio as avenidas, os jornais amassados que voam rés do chão como galinhas cansadas. Sei que nossa cidade poderia ser a mais feliz do mundo, sei que o é, não aqui na faixa de ondas em que me movo, mas numa outra faixa de frequência, é ali que a cidade onde habitei toda a minha vida se torna finalmente o meu hábitat. É esse o canal que eu procurava sintonizar quando apontava o controle remoto para as vitrines cintilantes das joalherias, para as fachadas majestosas dos bancos, para as marquises e portas giratórias dos grandes hotéis: guiando meus gestos havia o desejo de salvar todas as histórias numa história que fosse também a minha: não a maldade ameaçadora e obsessiva de que sou acusado.

Todos avançavam no escuro: a polícia, os magistrados, os peritos psiquiatras, os advogados, os jornalistas. “Condicionado pela necessidade compulsiva de mudar continuamente de canal, um telespectador enlouquece e pretende mudar o mundo a golpes de controle remoto”: foi esse o esquema que, com poucas variantes, serviu para definir meu caso. Mas os testes psicológicos sempre excluíram que houvesse em mim a vocação do destruidor; e meu grau de aceitação dos programas atualmente exibidos não se afasta muito da média dos índices de satisfação. Talvez mudando de canal eu não procurasse subverter todos os programas, mas algo que qualquer programa poderia comunicar se não fosse corroído por dentro pelo verme que desnatura todas as coisas que cercam minha existência.

Então imaginaram outra teoria, capaz de me fazer recobrar o juízo, disseram eles; ou melhor, atribuem ao fato de eu ter me convencido sozinho o freio inconsciente que me reteve de executar atos criminosos que, na opinião deles, eu estava prestes a cometer. É a teoria segundo a qual, por mais que se troque de canal, o programa é sempre o mesmo ou é como se fosse, seja um filme, noticiário ou publicidade, a mensagem é uma só em todas as estações porque tudo e todos fazemos parte de um sistema; e também fora da tela o sistema tudo invade e só deixa espaço para mudanças de aparência; portanto, que eu me agite tanto com o meu botão ou que fique de mãos no bolso dá rigorosamente no mesmo, pois jamais conseguirei escapar do sistema. Não sei se os que sustentam essas ideias acreditam nelas ou se só dizem isso pensando em me acusar; de qualquer maneira, nunca tiveram a menor influência sobre mim, pois não podem arranhar minha convicção a respeito da essência das coisas. Para mim o que conta no mundo não são as uniformidades, mas as diferenças: diferenças que podem ser grandes ou mesmo pequenas, minúsculas, quem sabe imperceptíveis, mas o que conta é justamente ressaltá-las e compará-las. Também sei que, pulando de um canal para outro, a impressão é de que sempre nos servem a mesma sopa; e também sei que os acasos da vida são limitados por uma necessidade que não permite que variem muito: mas é nessa pequena distância que está o segredo, a faísca que põe em funcionamento a máquina das consequências, graças à qual as diferenças, depois, se tornam notáveis, grandes, imensas e, pura e simplesmente, infinitas. Olho as coisas ao redor, todas oblíquas, e penso que teria bastado um nada, um erro evitado num determinado momento, um sim ou um não que, mesmo deixando intacto o quadro geral das circunstâncias, teria levado a consequências totalmente diferentes. Coisas tão simples, tão naturais, que eu sempre esperava que estivessem prestes a se revelar, a qualquer momento: pensar isso e apertar os botões do controle remoto eram uma só e mesma coisa.

Com Volumnia pensei ter finalmente sintonizado o canal certo. De fato, durante os primeiros tempos de nossa relação deixei o controle remoto descansando. Tudo nela me agradava, o penteado de seus cabelos cor de tabaco presos num chignon, a voz quase de contralto, as calças à zuavo e as botas pontudas, a paixão, por mim compartilhada, pelos buldogues e pelos cáctus. Igualmente agradáveis eu achava seus pais, as localidades em que haviam feito investimentos imobiliários e onde passávamos revigorantes temporadas nas férias, a companhia de seguros em que o pai de Volumnia me prometera um emprego criativo com participação nos lucros, depois do nosso casamento. Todas as dúvidas, as objeções, as hipóteses que não convergiam no sentido desejado, eu procurava enxotá-las de minha mente, e, quando percebi que elas se apresentavam cada vez mais insistentes, comecei a me perguntar se as pequenas falhas, os mal-entendidos, as amolações que até então tinham me parecido rusgas momentâneas e marginais não poderiam ser interpretados como presságios de perspectivas futuras, ou seja, se nossa felicidade carregava em estado latente essa sensação de ser algo forçado e enfadonho que temos diante de uma telenovela ruim. Porém, minha convicção de que Volumnia e eu éramos feitos um para o outro nunca se extinguiu: talvez em outro canal um casal idêntico a nós, mas que o destino dotara de qualidades só levemente diferentes, se preparasse para viver uma vida cem vezes mais atraente...

Foi com esse espírito que, naquela manhã, levantei o braço pegando o controle remoto e o dirigi para as corbelhas de camélias brancas, para o chapeuzinho enfeitado de cachos de uvas azuis da mãe de Volumnia, para a pérola na gravata plastrom de seu pai, para a estola do oficiante, para o véu da noiva bordado de prata... O gesto, no momento em que todos os presentes esperavam o meu “sim”, foi mal interpretado: primeiro, por Volumnia, que viu nele uma repulsa, uma afronta irreparável. Mas eu só queria significar que lá, no outro canal, a nossa história, de Volumnia e eu, transcorria longe do júbilo das notas dos órgãos e dos flashes dos fotógrafos, mas com muitas coisas a mais que a identificavam com a minha verdade e a dela...

Talvez naquele canal mais além de todos os canais nossa história não tenha terminado. Volumnia continua a me amar, enquanto aqui, no mundo onde eu moro, já não consegui fazê-la entender minhas razões: ela não quis mais me ver. Nunca mais me recuperei dessa ruptura violenta; foi a partir daí que comecei essa vida, descrita nos jornais como a de um demente sem domicílio fixo, que vagava pela cidade armado de seu engenho disparatado... Ao contrário, nunca como nessa época meus raciocínios foram tão claros; eu tinha compreendido que devia começar a agir partindo do vértice: se as coisas acontecem erradamente em todos os canais, deve existir um último canal que não é como os outros, no qual os governantes — talvez não muito diferentes destes, mas tendo dentro de si certas pequenas diferenças de caráter, mentalidade, problemas de consciência — possam deter as rachaduras que se abrem nos fundamentos, a desconfiança mútua, a degradação das relações humanas...

Mas havia tempos a polícia estava de olho em mim. Daquela vez em que abri caminho entre a multidão amontoada para ver descer dos carros os protagonistas do grande encontro de Chefes de Estado e me enfiei entre as paredes de vidro do palácio, no meio das fileiras de seguranças, nem tive tempo de levantar o braço com o controle remoto apontado e todos se lançaram em cima de mim e me arrastaram para fora, por mais que eu protestasse que não queria interromper a cerimônia, mas apenas ver o que estavam passando no outro canal, por curiosidade, só durante alguns segundos.