Um General na Biblioteca

Italo Calvino · Capítulo 9 de 33

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Um General na Biblioteca

Como um voo de patos

 

ACO R D O U O UV IN D O O S D ISPAR O S e pulou do estrado; na confusão, alguém abriu as portas das celas, a sua também. Apareceu um louro de barba, balançando uma pistola; disse-lhe: “Ande, saia depressa e escape, que você está livre”. Natale se alegrou sem entender, lembrou-se de que estava nu, de camiseta, pôs as pernas dentro de uma calça militar, sua única peça de roupa, xingando porque elas não entravam.

Foi então que viu o cara do porrete, dois metros de altura; tinha um olho estrábico e mexia as narinas, resmungando: “Cadê eles? Cadê eles?”. Natale já o viu com o porrete alto em cima de sua cabeça, baixando-lhe o pau. Foi como se uma revoada de patos tivesse levantado voo dentro de seu cérebro; um clarão vermelho queimou-o no meio do crânio. Desabou num poço acolchoado, insensível ao mundo.

Chegou um dos milicianos que desde antes já tinha se entendido com eles; gritou: “Que é que você fez? Era um prisioneiro!”. Imediatamente muitos deles se agitaram em volta do homem no chão, que perdia sangue na cabeça. O cara do porrete não entendia: “Como é que eu ia saber! Com aquela calça de fascista!”.

Enquanto isso, era preciso agir depressa, a qualquer momento podia chegar o reforço dos camisas-negras. Tratava-se de pegar as metralhadoras, os carregadores, as bombas, queimar todo o resto, sobretudo os papéis; de vez em quando alguém ia dar uma ordem aos reféns: “Vamos embora, vocês estão prontos?”. Mas eles estavam no maior rebuliço; o general andava pela cela, em manga de camisa. “Já vou me vestir”, dizia. O farmacêutico, com a gravata anarquista, pedia conselho ao padre; em compensação, a advogada estava prontíssima.

Depois era preciso ficar de olho nos milicianos que tinham sido feitos prisioneiros — dois velhos de calças à zuavo, que ficavam sempre no pé deles, falando da família e dos filhos, e o sargento com a cara cheia de veias amarelas, calado no seu canto.

Finalmente, o general começou a dizer que eles estavam ali como reféns, que tinha certeza de que seriam libertados logo, ao passo que não se sabia o que iria acontecer com o grupo armado. A advogada, trintona, exuberante, aceitaria ir com o grupo, mas o padre e o farmacêutico concordaram com o general, e todos eles acabaram ficando.

Batiam duas da madrugada quando, uns por um caminho, outros por outro, os partigiani pegaram o largo para as montanhas, e junto com eles os dois plantões que os haviam ajudado a entrar, alguns rapazes libertados das celas e, empurrados por metralhadoras nas costas, aqueles três prisioneiros fascistas. O altão do porrete enrolou a cabeça do ferido numa toalha e o carregou nas costas.

Mal tinham se afastado, ouviram um tiroteio do outro lado da cidade. Era aquele maluco do Gek, no meio da praça, que disparava rajadas no ar para que os fascistas corressem até lá e perdessem tempo.

No acampamento, o único antisséptico era a pomada de sulfanilamida para as erupções nas pernas: se fossem tapar o buraco que Natale tinha na cabeça, o tubo inteiro ia embora. De manhã, dois homens foram despachados para pegarem remédios com um médico evacuado nos campos mais embaixo.

Os rumores circularam, as pessoas estavam felizes com o golpe daquela noite na caserna dos soldados; durante o dia os partigiani conseguiram pegar tanto material que agora se podia dar banhos de antisséptico no crânio e pôr um turbante de gaze, esparadrapo e ataduras. Mas Natale, de olhos fechados e boca aberta, continuava a se fazer de morto, e não se entendia se estava gemendo ou roncando. Em seguida, pouco a pouco, em torno daquele ponto do crânio, sempre tão atrozmente vivo, cores e sensações foram tomando forma, mas toda vez era um puxão no meio da cabeça, um voo de patos nos olhos, que o faziam trincar os dentes e articular alguma coisa entre os gemidos. No dia seguinte, Paulin, que fazia as vezes de cozinheiro, enfermeiro e coveiro, deu a boa notícia: “Ele está se curando! Xingou!”.

Depois dos xingamentos veio a vontade de comer; ele começou a despejar no estômago gamelas de sopa como se as bebesse, sujando-se de caldo até os pés. E então ele sorria, com uma cara redonda e bem-aventurada, de animal, no meio das ataduras e do esparadrapo, resmungando talvez alguma coisa.

— Mas que língua ele fala? — perguntavam os outros, enquanto o olhavam. — De que aldeia ele vem?

— Perguntem a ele — respondiam os companheiros de prisão e os ex-plantões. — Ei, capiau, de que aldeia você é? — Natale entreabria os olhos para pensar, mas depois dava um gemido e voltava a mastigar frases incompreensíveis.

— Ficou idiota — perguntava o Louro, que era o chefe —, ou já era antes?

Os outros não sabiam direito.

— É verdade que a paulada foi forte — diziam. — Se não era antes, agora ficou.

Com aquela sua cara de fundo de frigideira, redonda, chata e preta, Natale perambulava pelo mundo desde que, muitos anos antes, tinha sido convocado para o serviço militar. De casa nunca mais tivera notícias porque capaz de escrever não era, e de ler muito menos. Algumas vezes o mandaram para casa, em licença, mas ele errava o trem e ia parar em Turim. Depois de 8 de

setembro** fora parar na Todt e continuara a perambular, seminu, com a gamela presa na cintura. Depois o puseram atrás das grades. De repente iam soltá-lo e lhe davam uma paulada na cabeça. Isso para ele era perfeitamente lógico, como todos os outros episódios de sua vida.

O mundo era para ele um conjunto de cores verdes e amarelas, de ruídos e gritos, de vontade de comer e de dormir. Um mundo bom, cheio de coisas boas, mesmo se não se entendia nada, mesmo se ao tentar entender se sentia aquela pontada de dor no meio do crânio, aquele voo de patos no cérebro, a porrada que tascavam em sua cabeça.

Os homens do Louro eram encarregados das ações na cidade; viviam nos primeiros bosques de pinheiros acima dos subúrbios, numa zona cheia de casas de campo onde as famílias burguesas iam veranear nos bons tempos. Como agora a área estava nas mãos deles, os partigiani saíram das grutas e das cabanas e acamparam em algumas casas dos mandachuvas, enchendo de piolhos os colchões e instalando as metralhadoras nas cômodas. Nas casas havia garrafas, alguns mantimentos, gramofones. O Louro era um rapaz duro, impiedoso com os inimigos, despótico com os companheiros, mas se esforçava, quando podia, para que seus homens se sentissem bem. Fizeram um pouco de farra, as moças foram até lá.

Natale estava feliz no meio deles. Agora já não tinha curativos nem ataduras; do ferimento só lhe restavam uma grande mancha-roxa no meio do cabelo crespo, um atordoamento que ele imaginava não estar nele, mas em todas as coisas. Os companheiros faziam com ele brincadeiras de todo tipo, mas ele não se zangava, berrava impropérios naquele seu dialeto incompreensível e ficava satisfeito. Ou começava a brigar com alguém, até com o Louro: era sempre agarrado, mas ficava feliz do mesmo jeito.

Uma noite, os companheiros resolveram lhe pregar uma peça: despachá-lo junto com uma das moças e ver o que ia acontecer. Entre as garotas foi escolhida a Margherita, uma gordinha toda de carne macia, branca e vermelha, que se prestou à brincadeira. Começaram a preparar Natale, a deixá-lo com a pulga atrás da orelha, a dizer que a Margherita andava apaixonada por ele. Mas Natale estava desconfiado; não se sentia à vontade. Começaram a beber todos juntos, e ela foi posta ao lado dele, para provocá-lo. Ao vê-la com aquele olhar de mormaço, ao perceber que ela apertava sua perna debaixo da mesa, sentiu-se cada vez mais perdido. Deixaram os dois a sós e começaram a espiar atrás da porta. Ele ria, enternecido. Ela se arriscou a provocá-lo um pouco. Então Natale percebeu que ela ria falso, batendo as pálpebras. Esqueceu a paulada, os patos, a mancha-roxa: agarrou-a e jogou-a na cama. Agora entendia tudo perfeitamente: entendia o que queria a mulher debaixo dele, branca e vermelha e macia, entendia que não era uma brincadeira, entendia por que não era uma brincadeira, mas uma coisa deles, dele e dela, que nem comer e beber.

De repente os olhos da mulher, já brilhando, num bater de cílios ficaram obstinados, irados, seus braços lhe resistiam, ela se contorcia debaixo dele, gritava: “Socorro, ele está metendo em mim!”. Os outros chegaram, às gargalhadas, berrando, jogaram água em cima dele. Então tudo voltou a ser como antes: aquela dor colorida até o fundo do crânio; Margherita, que ajeitava o vestido no seio, e dava risos forçados, Margherita, que quando já estava com os olhos brilhantes e a boca úmida começara a gritar e a chamar os outros, não se entendia por quê. E Natale, com todos os companheiros em volta, que rolavam nas camas de tanto rir e atiravam no ar, começou a chorar como uma criança.

Os alemães acordaram todos de uma vez, numa manhã: chegaram em caminhões carregados e vasculharam a zona, moita por moita. O Louro, despertado pelos tiros, não teve tempo de escapar e, no meio do prado, foi atingido por uma rajada. Natale se salvou acocorado atrás de uma moita, enfiando a cabeça na terra a cada assobio de bala. Depois da morte do Louro, o grupo se desfez; uns morreram, outros foram presos, uns traíram e se bandearam para os camisas-negras, outros continuaram a circular pela região entre uma batida e outra, outros subiram para a montanha com as brigadas.

Natale estava entre estes últimos. Na montanha a vida era mais dura: cabia a Natale andar de um vale a outro, carregado como uma mula, fazendo os turnos de guarda e das corveias; igual a quando era militar, cem vezes pior e cem vezes melhor. E os companheiros que riam dele e caçoavam eram como os companheiros que riam dele e caçoavam quando era militar, mas também havia algo diferente, que com certeza ele compreenderia se não houvesse aqueles patos batendo asas dentro da sua cabeça.

Conseguiu entender tudo na hora em que se viu frente a frente com os alemães, que subiam pela alameda até Goletta e disparavam rajadas de “cospe-fogo” entre as moitas. Então, deitado no chão, começou a disparar mosquetaços um atrás do outro e entendeu por que o fazia. Entendeu que aqueles homens lá embaixo eram os soldados que o haviam prendido porque ele não estava com os documentos regularizados, eram os vigilantes da Todt que marcavam suas horas, eram o tenente de serviço que o fazia limpar as latrinas, eram todas essas coisas juntas, mas eram também o patrão que o mandava capinar com a enxada a semana inteira antes que ele fosse ser soldado, eram os rapazinhos que o fizeram tropeçar na calçada na vez em que ele fora à cidade para a feira, eram até mesmo o seu pai, naquele dia em que lhe dera um tabefe. E eram também Margherita, Margherita que já estava ali quase gozando com ele e depois tinha voltado atrás, não propriamente Margherita mas aquela coisa que fizera Margherita voltar atrás: esse era um pensamento ainda mais difícil que os outros, mas naquele momento ele entendia. Depois parou para pensar por que os homens lá embaixo atiravam nele, berravam para ele e desabavam sob seus tiros. E entendeu que eram homens iguais a ele, que em criança receberam tabefes dos pais, foram postos para capinar pelos patrões, ridicularizados pelos tenentes, e agora brigavam com ele; eram malucos de brigar com ele, que não tinha nada a ver com isso, e por isso ele atirava, mas, se todos estivessem com ele, ele não teria atirado neles mas nos outros, não sabia direito em quem, e Margherita teria vindo com ele. Mas como era possível que os inimigos fossem estes e não aqueles, bons ou maus, como ele ou contra ele; por que ele estava aqui, no lado certo, e eles estavam lá, no lado errado: isso Natale não entendia — era o voo de patos; era isso, mais nada.

Quando faltavam poucos dias para o fim da guerra, os ingleses resolveram fazer uns lançamentos de paraquedas. Os partigiani passaram para o Piemonte, andando durante dois dias, e acenderam os fogos de noite no meio dos pastos. Os ingleses jogaram japonas com botões dourados, mas agora era primavera, e montes de fuzis italianos da primeira guerra da África. Os partigiani os pegaram e começaram a fazer macacadas em volta dos fogos, que nem os negros africanos. Natale dançava e gritava no meio deles, feliz.

 

** 8 de setembro de 1943: armistício italiano com os Aliados. (N. T.)